segunda-feira, 16 de novembro de 2015

SITUAR BITOROCARA É FÁCIL, ESTÁ NA CARA


SITUAR BITOROCARA É FÁCIL, ESTÁ NA CARA

Francisco de ALMEIDA (*)

  
Como as defesas célebres
Que se encontram na história,
No momento, faço uma
Tendo força vibratória:
Quem fundou Bitorocara
E local que se encravara?
Com fundamentos de glória.

Aqui se expõe argumento
Que por si, é vencedor,
Como na passagem Bíblica
Onde Jesus registrou:
A César, impostos seus;
A Deus o que é de Deus,
E, assim, sentenciou.

Também se pode lembrar
Do caso de Madalena,
Quando uma vez acusada
Naquela horrível cena,
Jesus mandou que jogasse,
A primeira pedra atirasse,
Quem nunca mereceu pena.

Nestes versos trato de
Quem fundou Campo Maior,
De origem Bitorocara
Com muita luta e suor,
Por Bernardo de Carvalho
Que nunca foi por atalho,
Pois tudo sabia de cor.

Foi ele quem construiu
A Igreja de Santo Antônio
Da bela Campo Maior,
O Santo do Matrimônio,
A pedido do sobrinho:
Padre Thomé, com carinho,
Sem ser preso a patrimônio.

E Bernardo levantou
À sua privativa custa,
Conforme Padre Thomé,
Sempre com ação augusta,
Registrou em uma carta
Que relatório encarta,
Com fidelidade justa

E Bernardo de Carvalho
Jamais fora sanguinário,
E tampouco genocida;
Ao revés, humanitário,
Tendo elevado conceito
Conquistando bom respeito,
Até por adversário.

A prova deste destaque:
Eleito Mestre do Campo,
Sem nenhuma divergência
E sequer alguém deu grampo,
Ao morrer Souto Maior
Foi alvo de uma voz só,
Um luminar pirilampo.

Falo da localização
Da Fazenda Majestosa,
De nome Bitorocara
E não de forma amistosa,
Trato com profundidade
Embasado na verdade
Com atitude exitosa.

Não deseje pôr em dúvida
O que está com a razão,
Consoante com a lógica
Livre de contestação,
Com provas irrefutáveis
Facilmente demonstráveis,
A correta opinião.

Os grandes historiadores
Do querido Piauí,
Do mais novo ao mais antigo
Traçando o perfil daqui,
Registram Bitorocara
Com perfeição muito clara,
Não se deve divergir.

Também é identificado
Como herói fundador,
O Bernardo de Carvalho
Um cidadão de valor,
Os registros são exatos
Não se trata de boatos,
Não é ficção de autor.

Desde o Século Dezessete
Que a história assegura,
Já com o Padre Miguel
Com base em pesquisa apura,
Em “Descrição do Sertão”
Com muita dedicação,
Não merecendo censura.

E o Padre Claudio Melo
Enaltece tal pesquisa,
Como documento ímpar
Que em comentário giza:
Ser de importância tamanha
Que a verdade não arranha
E muito bem analisa.

Sabe-se que o Padre Cláudio
Não foi de poupar cautela,
Pesquisou no Piauí
E em Portugal não protela,
Convencendo Odilon Nunes
Que a João Baptista se une
Nessa conclusão singela.

Se existiu Arraial Velho
Nas margens do Parnaíba,
É outra propriedade
Que registrou um escriba,
Pois o de Campo Maior,
Tinha carnaúba e pó
Para baixo e para riba.

É dedução racional
A do local da Fazenda,
Chamada Bitorocara
Vencendo qualquer contenda,
Na confluência dos três rios
Com argumentos sadios
Que não merecem emenda.

Foi na junção dos três rios
O local mais ideal,
Pra fixar a Fazenda
Por estudo imparcial;
Do Longá e Surubim
E Jenipapo, assim,
Foi a conclusão final.

No histórico encontro
Sendo mais exatamente,
Do Longá com Surubim
É o que diz fielmente,
O testamento de Miguel,
Filho do fundador fiel,
Pra neta, previamente.

Depois, chamando-se Velho:
Um Arraial Militar,
Brotando uma freguesia
Vindo uma vila a brilhar,
Ao final Campo Maior,
É a informação melhor
Pra origem do lugar.

Pois o Rio Bitorocara
Jamais foi Piracuruca,
Longe de serem o mesmo,
Só comparação maluca;
Quem falou se convenceu,
Corretamente entendeu,
E a verdade não machuca.

Diz-se de Piracuruca
Que é peixe resmungão,
Bitorocara é diversa,
Não há qualquer comunhão,
“Bito” é leite de vaca,
“Rocara”, quem mete a cara,
Há, pois, total distinção.

Assim registra Elmar
Com toda propriedade
Que se faziam Igrejas
Com curta proximidade
Da casa do Fazendeiro,
Pra bem dizer no terreiro,
Até por comodidade.

Um costume do passado
Que ainda hoje se pratica,
Era sepultar os mortos
A poucos metros da bica,
Debaixo de uma Igreja
Como uma ação benfazeja
Que o finado qualifica.

Consoante Elmar Carvalho
Não se pode confundir
Um diverso Arraial Velho,
Se com cuidado aferir;
E não é Bitorocara,
É bem simples, tá na cara
Ninguém deve discutir.

Dizer que Bitorocara
Margeava o Parnaíba,
Na altura de Luzilândia
Em devaneio se estriba,
Assim, assegura Elmar,
Não podendo prosperar,
É tese que se derriba.

Arraial, quer novo ou velho,
Que muito se tem notícia,
É topônimo genérico
Sendo uma área propícia
Pra parque de diversão,
Também quermesse e leilão,
Uma praça alimentícia
               
É claro que se formou
Ao derredor da Igreja
Do protetor Santo Antônio,
No local que se festeja,
Um animado arraial
Com alegria magistral,
É o que a história traceja.

Fernando Pessoa destaca
O rio de sua aldeia
Que é mais belo que o Tejo
Pois este lá não passeia,
Elmar descreve sua terra
Com força que não emperra,
E nunca a vê como feia.

Importantes personagens
Que aqui devemos lembrar,
Filhos de Campo Maior
Com uma vida exemplar,
Simplício  e Jutaí,
Eusébio também aí,
Merecendo um lindo altar.

Não se deve ter limite
Para buscar a verdade,
Cada contribuição
É um ato de bondade,
Não há nada absoluto,
Liderança, não disputo,
Quero apenas lealdade.

Desculpem a veemência
Das conclusões do cordel,
É que nesta literatura
A ênfase tem seu papel,
É própria do seu estilo
Para brotar mais cintilo,
Mas à verdade fiel.

Escrevi este cordel
Com trinta e três septilhas,
Por uma questão simbólica
Que traz muitas maravilhas,
Pois foi a idade de Cristo
E na defesa me alisto
De Bernardo e suas trilhas.

Referências:
1.            CARVALHO, Elmar. Bernardo de Carvalho, O Fundador de Bitorocara (segunda edição digital – 2015). Amazon.com.br;
2.            PAIXÃO, Marcus Vinícius Costa. Campo Maior Origens. Uma análise histórica e documental do início da povoação de Campo Maior/Marcus Vinícius Costa Paixão. – Campo Maior: Edição do autor, 2015;
3.            http://www.portalopiniao10.com/ - acesso em novembro/2015;
4.            http://www.proparnaiba.com/ - acesso em novembro/2015;
5.            http://www.campomaioremfoco.com.br/ver_coluna/64/ - acesso em novembro/2015;
6.            http://www.portalentretextos.com.br/colunas/ecletica- acesso em novembro 2015;
7.            http://bitorocara.blogspot.com.br/2008/11/bernardo-de-carvalho-e-aguiar.html - acesso em novembro/2015;
8.            http://poetaelmar.blogspot.com.br/ - acesso em novembro/2015

(*) Francisco de ALMEIDA.  Membro da Advocacia Geral da União (Advogado da União de Categoria Especial). Pós-Graduado- Lato Sensu - em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal; Pós-Graduado - Lato Sensu - em Direito Civil e Processual Civil pela Universidade Católica Dom Bosco, em convênio com Marcato – Cursos Jurídicos; Poeta Popular; Maçom - M.: I.: Gr. 33 (Pertencente à Academia de Mestre Maçons – Cadeira n. 86 – Patrono Joel Borges); pertencente à Academia Piauiense de Literatura de Cordel – APLC – Cadeira n. 01 – Patrono Firmino Teixeira do Amaral. E-mail: almeidaz@terra.com.br – telefone (86) 9-9991.2081.    

domingo, 15 de novembro de 2015

PASSEIO PELA CIDADE


PASSEIO PELA CIDADE

Alcione Pessoa Lima

Um passeio pelas ruas da cidade...
Após a chuva, raios e enxurrada...
Não existe mais a melancolia das tardes...
Somente mariposas sobre a jitirana do lixão colorido.
Um véu cinzento de monóxido de carbono...
E tantos zumbis a vagarem, sem asas.
As buzinas e ruínas perturbando a sensatez...
E os becos empilhados de pessoas...
São rostos desconhecidos...
Uma cidade que se desconhece...
Até por mim, que entre rios fui gerado.
Percebo uma divisão...
Entre arranha-céus e guetos...
A acomodação de um apartheid...
Um contraste entre os sonhos que se aglomeram...
E ao cruzar a praça da cultura...
Arde em mim um silêncio que perturba.
Onde está a liberdade de à sombra do oitizeiro poder amainar o ardor do sol...?
Talvez na velocidade da transformação...
A esconder um horizonte que ainda resiste...
E no encontro dos rios fétidos...
Um anzol traz apenas um arrastão esquecido...
E a natureza morta (aguapés) descendo pela correnteza...
Vejo-te, assim, cidade cosmopolita...
Em teu céu cruzarem pássaros de aço...
E sem saúde, amontoados de pedintes, em uma única fila...
Um olhar lacrimejante: o meu lamento.
E sobre uma serpente de concreto, arrastar-se o trem...
Que transporta a minha saudade...
E surfistas equilibrando a vida, até cruzarem a linha do destino...
Mas, ainda posso ver flores em teu caminho...
A se sobreporem aos espinhos da tua dor.

sábado, 14 de novembro de 2015

SER OU NÃO SER


14 de novembro   Diário Incontínuo

SER OU NÃO SER

Elmar Carvalho

Ao ouvir a informação de que o corpo da jornalista Sandra Moreyra fora cremado, me surgiu instantaneamente a ideia de um microconto ou mesmo de um nanoconto, intitulado Ser ou não ser. Ei-lo:

Ao receber a pequena urna, o homem surtou, e disse, qual novo, trágico e desvairado Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão. A estas poucas cinzas se resume um ser humano?” E ali mesmo, na sala de espera do crematório, derramou o que restava do corpo da bem-amada.    

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

MINHA SAUDAÇÃO A DÍLSON E A BARRAS

A velha igreja de Barras
A velha igreja de Barras

12 de novembro   Diário Incontínuo

MINHA SAUDAÇÃO A DÍLSON E A BARRAS

Elmar Carvalho

Com certa surpresa recebi o convite do professor, poeta e escritor Dílson Lages Monteiro para proferir o discurso de recepção em sua posse na Academia Piauiense de Letras. De imediato, embora com certa apreensão pela responsabilidade que me caía sobre os ombros, lhe disse aceitar o desafio.

A partir de então comecei a meditar sobre o modo como organizaria minha peça oratória; que assuntos deveria abordar, e como faria a sua distribuição na abertura ou introdução, no corpo principal ou desenvolvimento dos temas e no encerramento, que se deseja forme uma “chave de ouro”, como na estrofe final dos bons sonetos. Passei a ler e/ou reler a sua obra poética e em prosa, de forma meditada e com breves anotações.

Já tinha experiência em discursos acadêmicos de posse, mas não de recepção. Quando assumi minhas cadeiras nas academias de letras de Parnaíba, do Vale do Longá, de Piripiri e na Piauiense, fiz discurso formal escrito, em que tentei seguir a mais consolidada praxe na espécie. Nas demais, discursei ao sabor de improviso, ou sequer precisei discursar, por ser sócio fundador.

A exemplo do que fiz (ou pelo menos tentei fazer) em minhas orações acadêmicas anteriores, procurei dar ao texto beleza e emoção, plasticidade e certa leveza. Contudo, logo notei que em discurso de posse o orador tem mais liberdade, exceto na obrigação estatutária de falar nos antecedentes e patrono, ao passo que a saudação ao novel imortal não se pode deixar de lhe fazer o elogio, de se lhe examinar a obra literária, e de se referir aos antecedentes e patrono da cadeira a ser ocupada.

Como Dílson é filho de Barras e a sua poesia e romance se reportam a essa cidade, e também considerando que muitos de meus ancestrais paternos nasceram nesse torrão, no qual estive várias vezes, em minha infância e na minha adolescência, por ocasião de minhas férias escolares, resolvi fazer rápidas referências à rica história dessa aprazível, bela e simpática urbe. Não fosse isso tudo razão suficiente, ela deu ao Piauí importantes políticos, escritores e poetas, muitos dos quais patronos ou ocupantes de cadeiras na APL.

Em meu discurso, dei ênfase à obra magisterial, poética e romanesca de Dílson Lages Monteiro. Examinei-lhe a metodologia no ensino de redação, mormente as suas peculiaridades. Abordei as principais características e virtudes de sua poemática. Analisei o romance O morro da casa-grande, detendo-me nos pontos que julguei mais relevantes e singulares. Procurei fazer essas dissecações da maneira menos técnica possível, mas sem ser simplório, e sem enveredar por meros comentários de obviedades.

Ainda que em rápidas pinceladas, nele tentei traçar um sintético painel da história, da paisagem e da arquitetura da velha cidade. Não o transcrevo por ser um tanto longo para um simples registro diarístico como este, e também porque já foi publicado na internet, mas acho oportuno transpor alguns trechos mais pessoais e direcionados para a nossa nunca assaz louvada Barras do Marataoã:

“(...) Esta noite engalanada, portanto, vai ser uma festa barrense, e veremos aqui perpassar o reflexo dos vultos históricos da velha Barras do Marataoã, dos seus grandes poetas mortos, e ouviremos o murmúrio dos rios que lhe formam as barras, de onde lhe veio o telúrico e poético nome. Nesta Casa sentimos ainda a forte presença do barrense A. Tito Filho, seu presidente por mais de 20 anos, que acolheu e orientou o novel consócio com generosidade, quando ele ensaiava os primeiros passos na literatura.

Quando um afoito amigo quis escrever um artigo, no qual pretendia retirar de Barras o seu justo título de Terras dos Governadores, adverti-o para que não o fizesse, porquanto estaria laborando em vexatório equívoco. Por essa razão escrevi a crônica ensaística “Barras – terra dos governadores e de poetas e intelectuais”, a que em seu desenvolvimento acresci “e de marechais”, para afastar de vez futuras ousadias similares. Essa crônica teve ressonância no intelecto de Chico Acoram Araújo, a quem dei o título de cacique da tribo dos Marataoãs, que vem escrevendo uma série de estudos sobre barrenses ilustres, além de ótimas crônicas e artigos (...)

(...) Sinto como se tivesse lembrança desse Cristo, que vi em minha meninice, com os seus braços abertos, em acolhimento aos que chegavam, e a abençoar a cidade e os que partiam. Era uma bela e vetusta igreja em estilo colonial, construída por José Carvalho de Almeida, e destruída em 1963, como era um vezo dos padres da época, que gostavam de ampliar, reformar, descaracterizar ou demolir as velhas capelas e igrejas. Ao comentar o excelente livro Barras, histórias e saudades, de Antenor Rêgo Filho, a ela me referi, e remontei à ermida de N. S. da Conceição (que lhe antecedera), iniciada por Miguel de Carvalho e Aguiar, em sua fazenda Buritizinho, e concluída por seu herdeiro e sobrinho Manoel da Cunha Carvalho; essa capela e a casa-grande são a origem mais remota da cidade das sete barras, como a designei em poema telúrico e evocativo. (...)

(...) Por entre as páginas desse belo romance, vemos ainda os velhos sobrados, os casarões solarengos, os logradouros e praças de outrora, vetustos edifícios públicos, como o do teatro e o dos Correios, e lamentamos a destruição do antigo cemitério, cujas lápides contavam muito da importante história barrense.

Quando eu ia a Barras, me hospedava na casa de Salomão de Sá Furtado, primo de meu pai, que ficava bem perto desse saudoso campo santo. Salomão, além de exímio operador de morse, tinha uma linda caligrafia, e uma não menos bela redação. Era um estilista e tinha uma pequena biblioteca, caso raro, ainda nos dias de hoje. A poucas quadras de sua casa ficava o Marataoã, em cujas águas nadei em minha adolescência, onde me embebi embevecido nos olhos luminosos das garotas, que refletiam suas águas, feitas de ciganice e magia.

Dílson Lages Monteiro me comoveu, e me restituiu a velha e querida Barras de minha infância e de minha adolescência, que na redoma de minha memória ainda remanesce intacta, com a sua vetusta igreja, com o Cristo Redentor de braços abertos entronado no cimo de seu frontispício (...)”

Finalizando, desejo dizer que a posse de Dílson foi uma belíssima festa literária. A solenidade aconteceu no dia 10 de outubro, à noite, no auditório da APL. Compuseram a mesa: Nelson Nery Costa (presidente da APL), desembargador Oton Lustosa (rep. do TJPI), Antônio Pedro Almeida Neto (presidente da Academia de Letras do Vale do Longá – ALVAL), Dílson Lages, Aldaires Pereira (esposa do novel acadêmico), acadêmico Magno Pires, Renaud Hardi (filho do poeta Hardi Filho, último ocupante da cadeira) e este cronista. Ele proferiu um excelente e aplaudido discurso, em que analisou com pertinência e argúcia seus antecedentes e patrono; nos comoveu e nos trouxe beleza retórica, mormente nos momentos em que a oração adquiriu contornos de uma verdadeira prosa poética.

Foi prestigiado por seus conterrâneos, parentes, acadêmicos da APL e da ALVAL, e amigos, entre os quais me incluo. O auditório estava lotado e o coquetel foi farto, variado e delicioso. Que mais dizer? Nada mais há a dizer.   

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha

Foto meramente ilustrativa

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha                    

José Pedro Araújo
Cronista, historiador e romancista

                Publiquei aqui neste espaço uma crônica histórica sobre o Massacre do Alto Alegre (Post de 18.03.2015), no qual descrevo a tragédia sofrida pelas crianças internas do Colégio dos Capuchinhos de Alto Alegre, região de Barra do Corda. Tem sido uma das postagens mais acessadas desde então. Volto ao assunto para discorrer sobre uma das vítimas daquela tragédia acontecida em 13 de março de 1901: a estudante Perpétua Moreira.
                Como relatei no post anterior, os frades capuchinhos oriundos da região italiana da Lombardia, chegaram à região no final do século XIX, mais precisamente por volta de 1893, e trouxeram como propósito a realização de um grande trabalho de catequização dos índios, razão porque escolheram a região de Barra do Corda. Ativos, já em 1895 instalaram um colégio para meninos na sede do município, no qual foram matriculados mais de 80 crianças e jovens de até 14 anos. A ausência de escolas de qualidade na região foi a razão do sucesso do novo colégio erguido pelos frades em tempo recorde, além, naturalmente, do nível de formação dos professores responsáveis por ministrarem aula aos jovens oriundos das famílias mais destacadas. O sucesso do empreendimento também estimulou os padres a seguirem com o projeto adiante, razão pela qual adquiriram uma área de cerca de 3.200 hectares de terra na região do Alto Alegre, nas vizinhanças de algumas tribos de índios Guajajaras. Ali instalaram o maior projeto de catequese do interior maranhense, contando, inclusive com a ajuda do governo do Estado que repassou recursos do tesouro estadual para a consecução do ambicioso projeto.
                Com recursos oriundos da Itália, mas também do tesouro estadual, como afirmamos no parágrafo acima, os padres partiram rapidamente para a construção da infraestrutura necessária. Ergueram-se o prédio escolar, a igreja, um internato com dois pavimentos, um convento para os religiosos, além de oficinas, engenho para beneficiamento de cana-de-açúcar e um aviamento para o beneficiamento de mandioca. A escola, diferentemente da outra implantada em Barra do Corda, que só contava com meninos, receberia meninas em regime de internato.
A noticia logo se espalhou pela região, e disseminou a alegria em meio às famílias de Grajaú, Imperatriz, Colinas(Picos), Riachão e Balsas, e da própria Barra do Corda, que passaram a contar com um colégio de bom nível para acolher suas filhas em tempo integral. Lá, as jovens adquiririam conhecimentos de música, costura e bordados, além de se afeiçoarem com o melhor das práticas e costumes europeias, além de estudar em meio a excelentes professores. Em 1896 estava tudo praticamente pronto, e as alunas puderam se matricular. O colégio foi entregue nas mãos das cultas Irmãs Capuchinhas de Gênova, Itália. As novas alunas eram jovens também de até 14 anos e pertenciam às famílias mais abastadas desses municípios acima citados. 
                Seguindo uma prática que costumavam empregar nesse tipo de trabalho, os religiosos mesclaram as alunas com outras meninas indígenas trazidas das aldeias próximas para aprender a cultura do branco. O dinheiro pago pelos pais das meninas branca, manteria os jovenzinhos indígenas. Os métodos empregados na obtenção das novas alunas nativas, muitas vezes beirou ao absurdo, uma vez que muitos curumins foram arrancados literalmente dos braços dos pais com requinte de violência, como já noticiamos no post anterior. E isso, somado a uma serie de outros problemas, suscitou o agravamento das relações entre brancos e índios a tal ponto que, no dia fatídico, 13.03.1901, um domingo que tinha tudo para terminar bem, os indígenas perpetraram o maior morticínio de brancos já registrado na literatura brasileira: cerca de 200 pessoas perderam a vida violentamente naquele dia. Ensandecidos, os Guajajaras trucidaram a todos que encontraram na vila, inclusive os religiosos e as alunas brancas. Com única exceção: uma garota de nome Perpétua Moreira, vulgo Perpetinha. Perpetinha era filha de um abastado fazendeiro da região de Grajaú, e foi tomada como refém, ou algo parecido.
                Não se sabe por que razão, se apenas porque se tratava de uma bela jovem que logo conquistou o coração do jovem cacique Jauarauhu, o certo que foi a única jovem levada como refém pelos índios, e escapou da morte. O desdobramento dessa chacina encetou novos assassinatos, e cerca de 400 indígenas terminaram sendo mortos nos confrontos seguintes, quando os brancos que se organizaram e se armaram fortemente para se aliar ao contingente de militares que chegou de Grajaú, comandado pelo capitão Goiabeira, e de Colinas, sob o comando do tenente coronel Pedro José Pinto. Junta ao contingente de militares havia um bom número de índios Canela, histórico inimigo dos Guajajaras. Goiabeira foi o mentor de um bárbaro genocídio, sendo que muitos dos indígenas mortos, sequer estavam naquele dia na região, ou mesmo faziam parte da nação dos Guajajaras. Ter a pele vermelha já era motivo mais do que suficiente para que o militar despejasse sobre ele o seu ódio.
Perpetinha foi levada pelo cacique Jauarauhu para o interior da selva desconhecida, distanciando-se rapidamente da região do conflito. E no que pese o grupo formado para dar caça ao raptor ter permanecido no seu encalço por vários e vários dias, foi debalde a sua procura. O índio conhecia profundamente o interior daquela extensa e fechada floresta, diferentemente dos seus perseguidores, e recebia o apoio das tribos que ia encontrando pelo caminho. 
                Depois de muitos dias, os fugitivos chegaram à desconhecida região do rio Gurupi, na confluência dos estados do Maranhão e Pará. A região ficava muito distante da civilização, era completamente desabitada por bancos, e ali foram acolhidos pelos índios que se achavam aldeados por lá. A memória histórica se encarregou de criar muitas histórias sobre aquele caso que manchou de sangue a terra conquistada, e que abalou a confiança das famílias da região. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Uma dessas histórias, que foi repassada de pai para filho, diz respeito à pobre moça sequestrada. Nela se afirma que Perpetinha, quando em fuga, e em momentos em que se achava longe do seu captor, escrevia no tronco das árvores uma frase que ficou registrada na memória do povo daquela região: “por aqui passou a infeliz Perpetinha”.  Talvez quisesse deixar uma pista a ser seguida por seus parentes na vã esperança de ser alcançada e salva. Procedeu como Teseu ao penetrar na desconhecida caverna do Minotauro, como registra a lenda grega. Nela, o rei Minos era obrigado a enviar anualmente quatorze jovens ao monstro Minotauro. Sete homens e sete mulheres, para serem devorados dentro do desconhecido labirinto. Teseu levou consigo um novelo de linha que amarrou na entrada do labirinto e foi desenrolando até encontrar o monstro. A linha balizaria o seu retorno. Teseu, segundo a lenda grega, conseguiu o seu intento. Perpetinha, não.
                Em 1982, o jornalista e escritor barra-cordense Olímpio Cruz lançou um livro denominado Cauiré Imana, o Cacique Rebelde, no qual narra com riqueza de detalhas o grave conflito do Alto Alegre. Ele discorre também sobre o caso da Perpetinha e junta novas informações a ele. Cruz diz que ela teria sido tomada como esposa pelo cacique autor do seu rapto e tido alguns filhos com ele. Disse ainda que, muitos anos depois, ela teve a sua identidade descoberta por alguns brancos que a encontraram na tribo em que habitava. E perguntada por que não aproveitava a deixa e se reintegrava ao seu povo, disse que a sua gente agora era aquela, depois de haver constituído família e tido alguns filhos. Não tinha mais razão para retornar à sua família anterior. Olímpio Cruz publicou até mesmo uma foto de alguns indígenas, e entre eles, uma mulher índia com alguns curumins em volta, afirmando ser ela uma das filhas de Perpetinha.
                Terminou dessa foram, com pouco glamour - ou sem nenhum glamour -, a triste história de uma jovem estudante em quem a família depositou todas as suas esperanças de dias melhores, ao matriculá-la em um colégio de alto nível, dirigido por estrangeiros.   

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Heróis, vilões e safadões. E você?


Heróis, vilões e safadões. E você?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
Cantores forrozeiros viram popstars e showmans da noite para o amanhecer, graças a safadas letras, de apologia à bebedeira e ao erotismo esculachado. Shows que ultrapassam 300 mil reais e seduzem o público jovem, engalanado pela beleza, requebrados e letras de pura alienação e mediocridade. Prefeituras não acodem a educação e a saúde do povo, mas se esfolam por um porre musical para engabelar a fome cultural da galera. E o país se arrasta por uma trilha filosófica de hierarquia confusa de valores, em que fica difícil calcular os danos do pesadelo no futuro. E haja heróis de araque na praça.

Quem são os verdadeiros heróis ou mitos, em torno dos quais se juntam multidões de admiradores ou fanáticos? Grupo de cientistas internacionais decidiu realizar uma pesquisa para determinar quais personagens da História são considerados os maiores heróis e vilões em todo o mundo. O estudo, que teve o resultado publicado na revista científica PlosOne, foi feito com base na  entrevista de 6.904 universitários, com média de 23 anos de idade e provenientes de 37 países, entre os quais Argentina, Brasil, Colômbia, México, EUA, Austrália, Paquistão, Coreia do Sul, Índia, Tunísia, Espanha, Itália, China e Japão. Claro que a pesquisa fora realizada em ambiente universitário, portanto de pessoas mais esclarecidas. Foram citados Albert Einstein, Nélson Mandela, Madre Teresa de Calcutá, Thomas Édson, Buda e Jesus Cristo, entre cientistas, escritores, líderes religiosos. Entre vilões, encontraram Adolf Hitler, Osama Bin Laden, Saddam Hussein, Napoleão Bonaparte, Stalin, Lenin.

Fico imaginando se fanáticos comissionados, pendurados em folhas de lagartas estatais, elegessem seus heróis e semideuses. Ou eleitores empanzinados de fajutas promessas e discursos messiânicos. Ou papagaios de piratas, colados à aba do paletó do governante para se destacar na reportagem. Ou os negociadores de cargos públicos. Ou falsos heróis do Big Brother. Ou carnudos bumbuns desfilando na mídia, ganhando fortuna só para desfilar em eventos festivos. Os pesquisadores saíram felizes com o resultado da pesquisa em ambientes universitários. Mas se observassem a cultura de muitos políticos? Se descessem aos guetos e comunidades manobradas por chefões do tráfico, quais heróis encontrariam?

A esquerda tupiniquim elegeu Che Guevara, Lampião, Fidel Castro, Hugo Chaves como heróis populares, dignos de registros em livros de exposições artísticas. Há uma disparidade de opinião sobre vilões e heróis, de acordo com a região, o tempo e corrente filosófica. Bin Laden, um terrorista estigmatizado pelo Ocidente, porém tornou-se herói festejado em grande parte do Oriente Médio. Jesus Cristo é mais divino que herói no cristianismo; perde para Buda em expressiva parte do Oriente. Tudo é relativo, defendeu Albert Einstein, apontado por universitários que estudam suas teorias. Admirar e curtir o talento de grandes artistas, como Caetano e Gilberto Gil, só para a população que conhece arte culta, lê, afina-se com recursos estilísticos. Os menos afiados na cultura têm de se acomodar com arroz com feijão. E aí aparecem os vilões e safadões enchendo os bolsos de grana e pousando de heróis.    

Café Literário apresenta Pablo Neruda & Geraldo Borges


domingo, 8 de novembro de 2015

Seleta Piauiense - Jonas Fontenele da Silva


VESPERAL

Jonas Fontenele da Silva (1880 - 1947)

Erma tarde litúrgica em declínio...
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
0 apunhalado príncipe sanguineo.

Que na terra haja o luto, haja o assassínio!
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto a corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.

Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,

Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.   

sábado, 7 de novembro de 2015

Vídeo da posse de Dílson Lages na APL

Vídeo dos discursos de posse e de recepção na APL, proferidos por Dílson Lages e Elmar Carvalho


Dialogando com a "Carta Aberta" de Ferreira Gullar


Dialogando com a "Carta Aberta" de Ferreira Gullar

Cunha  e Silva Filho


        Acredito que li , até hoje,  praticamente  todas as crônicas de Ferreira  Gullar no Caderno  Ilustrada da Folha de São Paulo,  publicado aos domingos. São crônicas nas quais  o grande  poeta brasileiro discute  assuntos  variados, destacando-se,  porém,  alguns  temas  recorrentes,  ou seja,  a política brasileira   dos  dois governos  do   Lula, do primeiro mandato da   presidente Dilma e, agora,  desse segundo  mandato dela  ainda em  andamento. Os demais  temas recorrentes abordam  outras  áreas   de  interesse do  autor:  poesia,  artes  plásticas, dramaturgia. Seu  estilo  é enxuto,  objetivo,  comedido. Fala com  experiência,  com  conhecimento da realidade brasileira, tanto social quanto  cultural. É um mestre no que faz.

     Hoje, dia 18 de outubro, sua crônica se dirige diretamente aos brasileiros: “Carta Aberta.”  É partir dela que  desejo  dialogar com o cronista maranhense.

    Gullar,  que foi  exilado no período  da ditadura  militar,  foi  esquerdista, morou na Rússia,  na Argentina,  hoje tem  uma  postura  democrática,  aberta  ao diálogo  sem extremismos e, como tal,   repudia  o PT e, na mencionada,    crônica,  conversa com todos nós, leitores, num tom sempre  de orientação firme,  franca  e com  coerência  de ideias,  principalmente,   com  uma   rara   capacidade  argumentativa  de um observador  perspicaz  dos fatos  políticos  e dos desacertos   que vê há tempos   na governança  petista.

       Gullar  não  omite  o fato de que o PT foi  fundado  por  figuras  eminentes  da vida  intelectual  brasileira que,  com   o passar do tempo,  foram se  desiludindo  dos   reais  objetivos  do  petismo, antes  se apresentando   com  uma plataforma  política  de renovação e de moralização das causas públicas,  quer dizer,  com  uma   proposta    em favor  da melhoria  do trabalhador,  das  classes excluídas, dos merdunchos  como  definia o contista  João Antônio(1937-1996).

      O poeta do  Poema sujo concorda com  o que  todos  esperavam do  Lula e nele confiavam   cegamente. Contudo,  a administração   lulista  foi  mostrando  aos poucos a que veio:   tornar-se um   partido forte  para que   pudesse mudar  a sua antiga  fisionomia de fachada e oportunista,  afastando-se  dos seus   princípios norteadores  e descambando  para uma governança  feita  de  conchavos   espúrios  com o que de pior  caracterizava a  velha   política clientelista,  combinando  populismo e cooptações  com   o empresariado e capitalismo  na sua forma mais   degradante, que é  a introdução  do esquema   de corrupção, o qual  iria  ser  traço   distintivo  do  petismo. 

     Ora, não tardou que surgissem escândalos de corrupção, envolvendo  altas figuras do governo  Lula,  como   José Dirceu,  José Genoíno e outros de maior  ou menor   projeção  no governo. Daí para  diante,  a imagem do PT e do seu líder Lula não cessou de  sofrer   uma  descontrução  do ponto de vista  de moralidade  administrativa.Os escândalos  enredavam  petistas e aliados no recebimento de propinas  e no uso da máquina  do Estado  para beneficiar   financeiramente altas autoridades  do governo  federal.

   Quer dizer,  alguns membros do PT subiram  ao  poder para se  locupletar   financeiramente   com o dinheiro  público  em conluio  com  empreiteiras  mediante  os expedientes  de favorecimento nas licitações em troca de polpudas  propinas  que iam cair nos bolsos  de  políticos  e  principalmente  do  primeiro escalão do governo Lula.

   Esse mesmo  comportamento continuou no governo  Dilma com  outros  escândalos  que  pipocaram em série, o do petrolão,  o LavaJato, com novos  atores  do mundo  do empresariado de ponta com  membros do PT no exercício de cargos  públicos.Tanto  nos mandatos do Lula quanto nos de Dilma, o segundo mandato ainda  em curso, os chefes de Estado  foram apontados  como    implicados  nessa onda de escândalos  financeiros, circunstâncias, de resto,   negadas  por Lula e por  Dilma.

      Entretanto, o que Ferreira Gullar pretendeu   enfatizar foi   o fato de que,  não obstante  tantos  escândalos,  tantas denúncias,  tantas  críticas duríssimas   contra a   honra  de Lula e de Dilma,  tudo isso  não foi suficiente para  desalienar  a cegueira  de presunção  de   parte  - creio que  pequena -  da elite  intelectual  de São Paulo -  a qual  ainda  teima  em  manter  seu apoio  incondicional  aos governos  petistas e contra  o  impeachment  de Dilma Rousseff.

        Alegam aqueles   intelectuais  de renome que  não há nenhuma   evidência  cabal  e indiscutível de que  Dilma  tenha  alguma  culpa  pela  corrupção  em seu governo. Por essa razão é  que Gullar  cobra desse   intelectuais   e de  possíveis  leitores  petistas  que   ainda mantêm  uma  solidariedade  cega ao partido populista:   “Não sei o que você diz a si mesmo  quando deita a cabeça no travesseiro. Como justificar o petrolão?

      Essa é a  questão central  da carta aberta de Gullar: não é possível que, diante dos fatos,   das denúncias, das prisões,   das investigações da Polícia  Federal, de todas  as mazelas  e falcatruas   cometidas  sob  o domínio do petismo,  as pessoas sensatas e esclarecidas ainda  estão  cegas  a esses desatinos  do PT.

     Como podem ficar   esses  fanáticos – o nome só pode ser  esse – indiferentes  à realidades  social e política do país,  às falsas  promessas de campanhas,   de Dilma, que,  mal  raivava  o dia seguinte  da sua posse,   mostrou  logo   s sua  facies   de demagogia  e de  falácias   da real  situação  caótica  com que  começava o segundo mandato:  economia  em  estado de desagregação,  inflação  alta,  juros  altos,  endividamento  público, arrocho salarial,   gastança  das contas  públicas e alta corrupção  de membros  de seu governo.

   Um estadista verdadeiro  não pode   camuflar  a situação    desastrosa  do país  provocada  pelo desgoverno e pela imoralidade administrativa. Esconder  o que no dia seguinte da posse  iria fazer  contra a sociedade  é, por si próprio,   um desserviço à Nação. Os empedernidos  petistas  não querem  enxergar  tudo isso e por isso mesmo   desconhecem  as alteridades e a voz  da  grande  maioria dos  descrentes e indignados com  o seu  governo.


   A indignação de um  povo  nada tem a ver com  golpismo. Somente  vê golpismo  os que estão  com  os olhos abertos  ao  petismo   mas vedados  à realidade de um  povo sofrido sem saúde, sem segurança,  sem  transporte,  sem  educação de qualidade e sem  esperança  alguma. Esse é o golpismo  dos cegos e alienados. A cegueira  provocada  pelo fanatismo  político-ideológico é a cegueira de todos  os  príncipes felizes.  Cumpre fazê-los   ver “o muro”  de que fala um conto  de Oscar Wilde (1856-1900). Ao transpor o “muro” do “gigante  egoísta,”  ao derrubá-lo, ele, ser alienado, presunçoso e  egoísta,  ingressa na realidade possível de ser  melhorada  e de nela  permitir  a convivência   em paz e felicidade

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ZIQUINHO


ZIQUINHO

    Alcenor Candeira Filho

na calçada de casa
Ziquinho joga bola
apaixonadamente
no começo de tarde de domingo
com a camisa de número dez
do Clube de Regatas do Flamengo.

embaixada
pedalada
calcanhar
drible pra cá
                     drible pra lá
bola de pé
                  em pé
do pé
          para a parede
da parede
                 para o pé
lançamento curto
                  e certo
                              para o lado
lançamento            longo           e           lindo


                            para

                            o

                            fundo

e assim Ziquinho vai jogando sozinho
na calçada da rua onde mora
em tarde ensolarada de domingo
com a camisa de número dez
do Clube de Regatas do Flamengo.

de repente
da janela
sua mãe,
nervosa,
manda que ele
suba logo
que a rua é
perigosa.

e apertando
                    com bastante força
                                                     ao peito a bola
para apartar-se
                       de imaginária
                                              perdida bala
mal inicia bem
                        de domingo
                                            a tarde bela
com a camisa
rubro-negra
                                             de número dez
do Clube de Regatas do Flamengo
Ziquinho
sobe cabisbaixo devagar
para o apertado apartamento
do décimo sétimo andar
certo de que voz de mãe é lei
que a ninguém compete violar.


                                   2015

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

DIA DE FINADOS E A MORTE NA POESIA



5 de novembro   Diário Incontínuo

DIA DE FINADOS E A MORTE NA POESIA

Elmar Carvalho

Como de hábito, neste Dia de Finados não fui a nenhum cemitério. No entanto, pensei em meus mortos, parentes e amigos. Respeito os que têm o costume de visitar a cova dos seus, mas não considero que os meus ali estejam. Ali estão apenas os seus restos mortais. Eles estão em minha saudade e em minha lembrança constante. Na verdade, meus amigos mortos me acompanham, cada vez mais vivos. E talvez estejam pairando sobre os montes, os rios, as florestas e os lagos, e sobre outras belezas infinitas de uma outra desconhecida dimensão. Quando eu me for, por vontade própria jamais estarei em um cemitério. Com certeza há outros lugares mais aprazíveis em que gostaria de estar, se tal me for concedido.

Todavia, já estive em campo santo algumas vezes, sobretudo no sepultamento de pessoas amigas. No início de minha adolescência, em José de Freitas, estive algumas vezes no pequeno cemitério velho (também conhecido, algo ironicamente, como dos ricos), ao pé do Morro do Livramento. Nele, por simples curiosidade de garoto, fazia uma espécie de pesquisa histórica, e lá me deparei com os mausoléus do patriarca José de Almendra Freitas, de Antônio Freitas e o de Cândida Cunha. Esta morreu solteira e legou parte de seu rico patrimônio para a paróquia de N. S. do Livramento, além de haver construído a bela igreja de São Francisco.

Nessa mesma época, voltando a morar em Campo Maior, residi, por curto período, numa casa que ficava a dois quarteirões do velho cemitério dessa cidade. Da calçada, eu lhe avistava o portão, os cravos de defunto e o muro branco. Já ele se encontrava inativo. Ali estão sepultados, além de outros parentes, minha avó paterna e meu avô materno. Certa vez, ao contemplar vários de seus túmulos, alguns verdadeiros mausoléus, deparei-me com o do poeta Moisés Eulálio. Escrevi uma crônica, em que lhe prestei comovida homenagem, depois publicada no jornal A Luta, quando eu tinha dezesseis anos.

Aos dezesseis ou dezessete anos de idade, em companhia de meu amigo Otaviano Furtado do Vale, o Tavico, falecido em dezembro de 2013, mesmo ano em que minha mãe morreu, fiz uma viagem a Regeneração. O ônibus passava perto de um campo santo campestre, cheio de matagal. Nele havia túmulos em ruína e cruzes mutiladas. Isso foi a origem mais remota de alguns de meus poemas, entre os quais o Noturno do cemitério velho de Oeiras. No retorno escrevi um poema que falava nesses túmulos abandonados e num “agre e agressivo agreste”. Perdi esse texto ou as traças o devoraram, prestando com isso um inestimável serviço à literatura. Do meu referido Noturno transcrevo: “Cemitério / de uma morte / absoluta e sem fim / como uma música / sublime de bandolim / tangido por dedos mágicos / de Arcanjo ou Serafim ...”

Num desses cemitérios que visitei, havia um túmulo sem reboco, com os tijolos expostos e desaprumados, o que me fazia lembrar os escombros de uma tapera. De imediato me lembrei de um soneto inserto em Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, do qual transcrevo estes versos: “nada participava da quietude / absoluta, absoluta, eternamente / absoluta daquela pedra de / tumba, compacta, lisa, desprezada”. É recomendável que o leitor leia o poema completo.

Não posso dizer que a morte seja uma coisa bela, exceto transfigurada sob a forma de arte. Talvez uma exceção seja a de Sócrates, que considero bela em si mesma e no excelente texto de Platão, que a descreve. Quando fui juiz de Direito em Curimatá, o senhor Mundinho Mascarenhas me narrou a morte de Joaquim Lustosa Nogueira, que também rotulei como tendo beleza. Sobre este final de vida escrevi a crônica Uma bela morte, que publiquei no meu livro Lira dos Cinqüentanos.

Contudo, como disse, a literatura, mormente a poesia simbolista, conseguiu transformar a morte em algo revestido de encanto e solenidade. Ali estão belas, louras e jovens virgens, com mortalhas brancas, com as níveas mãos cruzadas sobre intocados seios, adornadas por rosas e lírios. Essas angelicais virgens foram pranteadas em melodiosos versos por magníficos poetas, entre os quais Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e o piauiense Celso Pinheiro.

De o solitário de Mariana hão de ficar ressoando pela eternidade os versos: “Hão de chorar por ela os cinamomos, / Murchando as flores ao tombar do dia. / Dos laranjais hão de cair os pomos, / Lembrando-se daquela que os colhia.” Dentro dessa linha de poesia, do cancioneiro português ficarão estes versos de Antônio Feijó: “– Lírio que murcha ao despontar do dia, / Foi descansar no derradeiro leito, / As mãos de neve erguidas sobre o peito, / Pálida e loira, muito loura e fria...”

Augusto dos Anjos, poeta original, que cantou a morte, a podridão, as ossadas, o horrendo, os vícios e a degradação da carne, em versos repletos de termos cientificistas, inoculados de virulento pessimismo e morbidez, teve seus instantes de sublimidade e esperança, e em suave elegia desta forma pranteou a morte de seu pai: “Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas, / Como Elias, num carro azul de glórias, / Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!”

Dos livros Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as tiranias do tempo, de Teresinha Queiroz, e Literatura Piauiense: horizontes de leitura & crítica literária recolhi a informação de que no início do século passado morreram Mocinha Araújo, Iaiá Pearce e Santa Martins, “jovens, belas, namoradas, noivas” da sociedade teresinense, que mereceram as mais sentidas elegias dos mais festejados poetas de então.

Sobre o falecimento de Santa Martins disse Celso Pinheiro, um dos maiores bardos do Piauí: “Quando ela morreu, a comoção foi tão funda, o golpe tão violento, os poetas choraram tanto, que a própria sociedade sentiu se lhe arrepiarem os nervos, atordoada por tão forte sentimentalismo. // Dias inteiros, semanas sucessivas, ecoou, pelo ambiente dos salões, a música magoada da nostalgia das rimas. Eram sonetos tristes, baladas lânguidas, loas sentidíssimas ressoando enternecidamente, aos nossos ouvidos, numa plangência adorável.”  

Sobre o perecimento dessas belas jovens, como um simples aperitivo, para que o leitor busque os poemas na íntegra, vejamos os seguintes versos de Celso Pinheiro: “Quando Santa morreu a Terra toda / Se cobriu de tristeza à noite, pelas / Horas mortas, porque não ia à boda / De Santa, no Palácio das Estrelas!...” E estes outros de Antônio Chaves, extraídos do soneto Yaiá Pearce: “Eras a minha fé soberba, indefinida, / Eras a minha crença, ó lírio imaculado, / Tu, que trazias n’alma inocente e querida / A ária do nosso amor e do nosso noivado.”

Tísico, magro, celibatário e feio, inclusive tendo passado por tratamento em sanatório suíço, tudo parecia conspirar para que o excelso poeta Manuel Bandeira morresse jovem. Mas contra todos os maus augúrios, teve uma vida longa. Seu pai desejava que ele se tornasse arquiteto, porém ele preferiu ser poeta maior (e não menor, como ele se classificou num de seus poemas). No Itinerário de Pasárgada, o poeta confessa que enquanto seu pai era vivo nada lhe causava preocupação, porque pondo a sua na mão de seu pai, “nada haveria que eu não tivesse a coragem de enfrentar”. Talvez por isso tenha escrito, em Poema de finados: “Leva três rosas bem bonitas. / Ajoelha e reza uma oração. / Não pelo pai, mas pelo filho: / O filho tem mais precisão.”

Certa feita, indo ao Cemitério da Ressurreição, onde tenho jazigo há duas décadas, espiei várias lápides. Muitas eram de pessoas jovens. Por motivos que não desejo abordar agora, hoje morrem muitas pessoas no verdor dos anos. Conheci alguns dos mortos. Lembrei-me do que dizia o impoluto juiz Hilson Bona, que considero um paradigma da magistratura piauiense, de quem tive a honra de ser aluno no antigo ginásio.

Dizia ele que, quando notava que poderia estar sendo acometido de vaidade ou orgulho, ia passear no cemitério de sua comarca. Talvez visitasse as covas dos que se julgaram imprescindíveis e insubstituíveis. Nesse aspecto o nome do velho campo santo de Parnaíba é exemplar, e serve de legítima advertência: Cemitério da Igualdade.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

JAIME LINS - O Comunicador da Saudade


JAIME LINS - O Comunicador da Saudade

Antonio Gallas

Quando recebemos a notícia da morte de um ente querido, seja este um familiar ou não, nós choramos.  Quando as lágrimas não nos vêm à face choramos em nosso íntimo, internamente,no dizer popular, choramos por dentro, que é mais doloroso ainda.

Assim foi que na manhã desta terça feira, 03 de novembro, recebemos a notícia do falecimento do nosso colega Jaime Lins. Primeiro, cedo da manhã, recebo telefonema do escritor e jornalista Pádua Marques indagando-me se eu sabia alguma coisa sobre o Jaime Lins, se era verdade que ele havia falecido. Imediatamente recorro às redes sociais, acesso os blogs da cidade e, infelizmente, para tristeza nossa, encontro no Blog do Pessoa a notícia de que Jaime Lins havia falecido nas primeiras horas  da manhã do dia 03, terça feira.

Jaime Lins Solano Lopes,profundo conhecedor do rádio. Atuou em emissoras não apenas em Parnaíba ou no Piauí, mas em outras cidades do Brasil. Começou cedo sua vida radiofônica, nas antigas amplificadoras de subúrbios, escola para muitos dos grandes profissionais deste Brasil afora. Bom caráter, bom companheiro, bom pai, bom esposo. Completaria 69 anos de idade neste mês de novembro. Seria no próximo dia 26.  Não quis a festa terrena que certamente seus amigos, seus familiares, seus irmãos evangélicos preparariam para lhe homenagear. Preferiu a festa do céu, que lógico, tem muito mais brilho e muito mais valor.

Através de seus programas radiofônicos Jaime Linscultuou a saudade, divulgando músicas que fizeram sucesso no passado e que se perpetuaram na mente e nos corações de quem viveu numa época em que a música, na verdadeira acepção da palavrara, era um deleite não apenas para o coração, mas, principalmente para os ouvidos de quem as escutavam. Seu último programa de rádio foi na extinta Rádio Atlântica FM. Tinha o título de “Recordação e Saudade” e ele costumava dizer que “recordar é viver”. Pois bem: o homem que cultuou a saudade e que dizia que “recordar é viver”, partiu para o convívio divino sem nos avisar, deixando uma grande saudade em nossos corações, nos corações dos seus familiares, dos seus milhares de fãs, enfim nos corações de todos aqueles que tiveram o prazer de conhecê-lo. E como ele mesmo dizia que “recordar é viver”, viveremos doravante com a recordação e a saudade daquele que foi o bom amigo, o bom caráter, o bom companheiro, e, sem sobra de dúvidas, o bom pai de família Jaime Lins. Requiescat in Pace amigo Jaime Lins.    

ILUSTRE CIDADÃO AMARANTINO SE DIZ UM APAIXONADO POR AMARANTE

Elmar visto por Gervásio Castro, na condição de juiz, flamenguista, blogueiro e escritor

ILUSTRE CIDADÃO AMARANTINO SE DIZ UM APAIXONADO POR AMARANTE

Luís Alberto Soares (Bebeto)

JOSÉ ELMAR DE MÉLO CARVALHO, cidadão amarantino, nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Poeta, cronista, contista e crítico literário. Juiz de Direito aposentado. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Presidiu o Diretório Acadêmico “3 de Março”, a União Brasileira de Escritores do Piauí e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da Universidade Federal do Piauí. 

Publicou os livros: “A rosa dos ventos gerais”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno de Oeiras” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Participou de várias coletâneas e antologias. Citado em diversos livros e dicionários. Colaborador das principais revistas e jornais do Piauí. Membro de diversas entidades literárias e culturais. Detentor de várias honrarias e distinções culturais. Seu livro “A rosa dos ventos gerais” recebeu o Prêmio Ribeiro Couto (obra reunida), conferido pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro. Foi Juiz da Comarca de Regeneração. 

O amigo Dr. Elmar sempre vem a Amarante para degustar, ao lado do seu amigo Virgílio Queiroz, uma saborosa pinga com o tira-gosto das “piraquinhas torradas”. Foi justamente ao lado do seu amigo, que Elmar escreveu um dos belos poemas sobre Amarante à margem do “Velho Monge” e à sombra de uma faveira. Trata-se de “Amarante”. Essa poesia está contida no livro de Elmar que recebeu o título de “Lira dos Cinquentanos” e foi lançado em Amarante na residência de dona Mary Vieira. O nobre poeta se diz um apaixonado pela história e pela gente da “Terra Azul de Da Costa e Silva”. 

Em uma das suas obras mais recentes está “Confissões de Um Juiz”, onde o poeta faz um relato sintético de sua atuação como um servidor do Judiciário após o surgimento de uma enfermidade. Elmar Carvalho escreve todos os dias no seu blog e diz que acompanha a tecnologia para atingir os seus leitores.   

terça-feira, 3 de novembro de 2015

300 comissionados em única sala?


300 comissionados em única sala?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Conhece a história dos trezentos guerreiros valentes, comandados por Gedeão, capítulo 11 de Juízes, na Bíblia? Vale a pena montar analógica aventura, bem aqui, numa das salas do Palácio do Karnak, atolada de lambe-cus, dos que vão só pegar o contracheque. (Desculpem chulo termo, encontrado no dicionário do Aurélio). Vejamos, primeiramente, a história de Gedeão.

         Camponês, sobrevivendo à custa de modesto rebanho e rala produção agrícola, Gedeão e seu povo sofriam e passavam fome, causada pela praga de ladrões madianitas, que invadiam campos de Israel e levavam toda a produção. Gedeão reclamava ao Senhor, que, no passado, ajudara seu povo a libertar-se da escravidão do Egito. Montou uma fogueira e ofereceu sacrifício ao Senhor, que lhe revelou um segredo: convocar o povo de Israel para uma batalha contra os milhares de inimigos. “Leva o exército para as margens do Jordão. Põe todo mundo para beber. Dispense os medrosos e mande-os de volta para casa”. Expressiva multidão regressou. Observe os que bebem como cães, lambendo a lâmina d’água, sem ajuda das mãos. Estes é que irão batalhar. Gedeão cumpriu a ordem. Só foram lutar trezentos guerreiros, que venceram a batalha contra milhares de assaltantes das riquezas de Israel, e a prosperidade voltou.

         A administração pública vive assaltada por ladrões, como madianitas bíblicos, e não surge líder Gedeão para acender fogueira santa de bravos patriotas. Buscam soluções para os rombos e roubos, mas à custa de pesados cortes nos salários e verbas para educação e saúde, especialmente. A carga tributária, tão perversa, que lembra o tempo da nobreza francesa: quanto mais gastava, mais aumentava impostos. A solução veio com a multidão nas ruas em infernal revolução.

         Voltemos ao Karnak, em cuja única sala funciona a Secretaria do Governo. Fazer o quê? Agendar festas e eventos, cuidar da casa, enfim. Média de duzentos comissionados, ano passado, “em serviço”. Em 2015, passa dos trezentos. À proporção que o governo pifa, acrescentam-se mais comissionados: ex-deputado, ex-vereador, cabos eleitorais, professor de português do Enem, um ex-secretário da Educação residindo em Brasília. Secretaria que paga entre 4 mil a 8 mil reais a centenas de lagartas, digo madianitas, para o beija-cu, subserviência, foguetório de defesa. Louvar aeroporto “internacional”, onde urubus e bimotores sobrevoam. O “internacional” de Parnaíba não seduz um boeing, desde a inauguração. Nem com edênicas praias, Luís Correia de belas mansões, hotéis, empreendimentos estrangeiros, decantado Delta e Lençóis maranhenses. Obras faraônicas, o melhor caminho das minas para madianitas assaltantes.

         Brasil dos 24 mil comissionados para a presidente deitar e rolar. Estados Unidos, 4 mil. Reino Unido, 300. Alemanha e França, apenas 500. Assembleia Legislativa do Piauí, paraíso de aproximadamente 3 mil.

           O fim do nepotismo só ocorrerá com o corte no elevado número de cargos comissionados. Pelo menos, diminuíssem o tamanho das contratações. Só falta um Gedeão para acender a chama da bravura.     

domingo, 1 de novembro de 2015

Seleta Piauiense - Félix Pacheco


PLENILÚNIO

Félix Pacheco (1879 - 1935)

Todo este luar de amor, que há nos meus cantos,
Nasceu de outros anelos e outras penas.
Se, por graça do céu, me não condenas,
Deixa-o brilhar aqui, desfeito em prantos.

Libertei-me dos pérfidos quebrantos,
E a multidão volúvel das falenas
Já me não turva as ilusões serenas,
Nem te escondo aventuras nestes mantos.

Nada mais, hoje, do passado existe.
Sinto que me entrou n'alma o luar superno,
Como a benção de Deus baixando ao triste.

Nunca mais tive dor, nem tive inferno,
Desde que sobre mim, cantando, abriste
O plenilúnio do carinho eterno!