quinta-feira, 10 de março de 2016

A cidade


A CIDADE

Ivanildo di Deus
(professor e pesquisador da história de Luzilândia)

Ao completar 126 anos que tornou-se emancipada politicamente do município de Barras, Luzilândia, que já foi uma das mais economicamente importantes cidades do Piauí, hoje maqueia-se, mais uma vez, para um evento festivo: um festival que de longe traduz a verdadeira realidade sócio-econômica do município.
É assim, nos postulados maquiavélicos: “se fazes um governo ruim, entretem, engana o povo com festas para que sejam vendados seus olhos e ele não possa ver as mazelas, as desgraças  que a cidade esconde”.
Inexiste, no âmbito do poder público municipal (diga-se “prefeitura”) alguma política pública que vislumbre o desenvolvimento sócio-econômico e faça produzir riqueza e renda para os munícipes e transforme novamente Luzilândia num dos municípios piauienses mais destacados.
Num passado não tão distante outros governantes municipais de visão desenvolvimentista, como João José Filho,souberam lutar e empreender esforços para trazer aviação, agências bancárias, fazer calçamentos, construir escolas e ensino superior,enfim, trazer desenvolvimento e consequentemente, melhores condições de vida para os luzilandenses.
Não é assim hoje em Luzilândia e não é somente a crise econômica nacional e internacional como se é alegado a priori; é, e deverasmente o é, a falta de visão desenvolvimentista, a incompetência e o ingerenciamento das atuais gestoras municipais que, ao longo de mais de uma década sequer ousaram construir um metro de calçamento para melhorar a mobilidade e a vida daqueles munícipes governados por elas, especialmente aqueles moradores nos bairros periféricos da cidade.
Gilberto Gil, renomado artista nacional e ex-ministro da Cultura do Governo Lula, canta assim: “Nos barracos da cidade/Ninguém mais tem ilusão/Do poder da autoridade/Em tomar a decisão”. Faltou decisão, ousadia, falta de visão e compromisso com a coisa pública para construir/concluir obras com recursos oriundos do Governo Federal (rodoviária, praça da juventude, climatização das escolas, etc); faltou gestão para pagar o funcionalismo em dia, em especial os(as) sofridos(as) professores(as) que entraram em greve devido a longos quatro, seis meses, sem receberem pagamento... Por outro lado, obras alheias ao interesse público são vistas construídas pelas gestoras e eventos festivos caríssimos são realizados com recursos públicos, como shows musicais de artistas famosos.
Não é maqueando a cidade com eventos festivos e escondendo sua espúria realidade que Luzilândia se desenvolverá sócio-economicamente; só o será com a elaboração e realização de políticas públicas que lhe possibilitem isso e dignifique a vida dos luzilandenses.

Sobre ainda os postulados maquiavélicos, o cantor seresteiro Zezo vem e vai cantar para Luzilândia assim: “É a cidade esburacada/O povo dizendo ai/Invento uma micareta/E o sofrimento se esvai”. Deus ilumine-te, querida Luzilândia! Cubra-te o céu com o seu manto azulado e que acendam-se as centelhas do fogaréu por dias melhores!     

terça-feira, 8 de março de 2016

A BOA LEMBRANÇA DE CLÁUDIO DÊNIS


A BOA LEMBRANÇA DE CLÁUDIO DENIS

Elmar Carvalho

Com surpresa e consternação, no dia 2 deste mês, no começo da tarde, recebi a notícia do falecimento do primo e amigo Cláudio Denis de Melo Andrade. Eu e meus irmãos residentes em Teresina combinamos participar de seu velório, em Piripiri. Imediatamente seguimos para essa cidade, em companhia de nosso pai, não obstante os seus noventa anos.
Na Capela Ecumênica Mortuária, onde seu corpo estava sendo velado, vestido em traje maçônico, já que ele foi dedicado e exemplar obreiro, encontramos seus amigos, parentes, sobrinhos e irmãos. À cabeceira da urna, encontravam-se minha tia Maria José e uma de suas filhas. De uma grande prole, as tias Mazé e Maria do Carmo, residente em São Paulo, são as únicas vivas.
Quando ele nasceu, em sinal de seu regozijo materno, minha tia enviou para minha mãe um pequeno cartão impresso comemorativo, no qual se encontrava a sua fotografia de infante. Por toda a vida, mamãe guardou essa singela e amável lembrança de seu sobrinho e de sua irmã. Nos contrastes que a vida nos oferece, eu via agora tia Mazé, como uma madona do sofrimento, a velar o filho morto, mas de forma contida, resignada, sabedora de que a morte nada mais é do que o começo de uma nova vida, mais rica e mais bela.
Cláudio era um paradigmático cidadão, filho, irmão e amigo. Exercia natural liderança em sua família, mormente após o falecimento de seu pai, em virtude de sua inteligência emocional e de seu temperamento cordato e agregador. Sem egoísmo e ambição, tinha espírito associativo e gostava de compartilhar as suas ideias e capacidade laboral. Por isso, criou em sua região uma associação de defesa dos apicultores. Graças a seu considerável conhecimento nessa seara produtiva, ministrava aulas, inclusive no Pará, para onde se deslocava com frequência.
Sua maneira mansa de falar e de agir, além do seu senso de humor, inspiravam confiança e simpatia. Por tal razão, era um fazedor e conservador de amizades. Com acentuada inclinação para o bem, era prestativo, atencioso e gostava de ajudar as pessoas. Tinha prazer em ser útil. De notável dedicação à família gostava de localizar parentes e de se comunicar com os primos através da grande rede. Os sucessos e conquistas dos amigos eram como se fossem também realizações suas, já que desprovido de egoísmo e inveja.
Para que se tenha uma pequena ideia de sua alma boa, contarei um episódio que me foi relatado por um dos protagonistas. Seu filho, Armilo Neto, estava cevando um peba, com o objetivo de tomar umas pingas com uns amigos. O bicho ficava dentro de uma caixa de cimento. Quando Cláudio Denis viu o indefeso animal, alegou que ele estava se ferindo na estrutura de cimento, e que era melhor fosse solto. Armilo Neto respondeu que passaria a ter mais cuidado, e que não deixaria que o peba voltasse a se machucar.
No sábado, véspera em que o bicho seria abatido e transformado em tira-gosto, Armilo encontrou a caixa vazia. Desconfiou que seu pai o soltara, e o inquiriu a respeito, mas ele retrucou que no imóvel andara um larápio, que levara vários outros objetos. Desconfiado dessa justificativa, pediu ao vizinho para que visse as gravações de suas câmeras de segurança, a fim de descobrir o autor da subtração do peba. Terminou descobrindo, que Cláudio Denis, com muito cuidado, retirara o animal da prisão, o envolvera em uma espécie de toalha, para lhe devolver à floresta. Esse fato aconteceu perto de sua morte.
Aproveito o ensejo, para relatar outro fato pitoresco de nosso saudoso Cláudio. Ele amansara um arisco burro. Mesmo manso, o muar ainda tinha os seus caprichos e venetas, e conforme seu imprevisível humor ainda se mostrava brabo em muitas ocasiões. Por causa disso, ainda deu uma boas quedas em seu dono, que gostava de montá-lo. Apesar disso, Cláudio lhe tinha afeição e nunca maltratou Neymar, que esse era seu nome, por causa de sua crina estilizada. Seu filho, Armilo Neto, meio brincando e meio para valer, temendo contusão séria em seu pai, disse-lhe que iria matar o árdego e ardiloso animal, antes que ele o matasse. Mas o pai o exortou a jamais fazer tal ato.
Portanto, Cláudio Denis, além de preservar a amizade humana, era também um amigo dos animais e amante da natureza. Era um ambientalista, mesmo que não ostentasse esse rótulo. Com frequência ia a sua Fazenda Boa Lembrança. E foi ao voltar dela que veio a morrer, quando a sua motocicleta se chocou com uma máquina de encher caçambas.

Dele guardarei para sempre a boa lembrança, nome de sua amada fazenda. A boa lembrança de um homem bom, de um bom amigo, de um bom parente.

segunda-feira, 7 de março de 2016

É Tempo de Humanismo



É Tempo de Humanismo

Cunha e Silva Filho

            Está no Brasil  um filósofo italiano Nuccio Ordine, da Universidade de Calábria que publicou um livro, A utilidade do inútil, saído pela Ed. Zahar, em tradução de Carlos Bombassaro. De acordo com a reportagem que li no Globo,  Caderno Prosa, (27/02/206), Ordine  veio fazer palestra  no Centro  Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e fará hoje estará na Coppe (UFRJ), naturalmente  discutindo suas ideias expostas no mencionado  livro.
         O que me despertou a atenção  da presença desse filósofo, aliás,  segundo a reportagem de Leonardo Cazes acompanhada de um entrevista, foi o tema instigante  e, a meu,  decisivo  para  o debate atual  num país como o  nosso que enfrenta também um  leque de  desafios  relacionados  à visão do filósofo italiano  sobre  a realidade   brasileira e seus reflexos nas  práticas sociais nossas tão  agudamente  voltadas  para  os erros e os desvios   apontados  por Ordine.  É curioso  anotar que  estudioso   não escolheu  logo  os  departamentos  de filosofia  nem outras  instituições   diretamente   ligadas  à presença de um   filósofo, por exemplo os curso de letras,  artes,  os centros  voltados  para  os estudos sociais, políticos de comunicação. Não custa  compreender essa sua estratégia,   de resto,   bem  empregada.
          Segundo a entrevista, Ordine se define – pelo menos é o que deduzo de suas palavras -   como  um filósofo   que almeja  atingir  o nó górdio  das relações entre a dimensão humana, para ele tão desprezada na contemporaneidade, no  Ocidente (Europa, sobretudo) e a avassaladora corrida para o “lucro,” o interesse “utilitarista das pessoas em si e do sistema capitalista que, segundo ele,  caminha para a “autodestruição.” Sobre esse tema, da minha parte,  já escrevi  alguns artigos., publicados em jornais,  livro e blogs.              
          Ora, enquanto a  maior parte  das sociedades e sistemas de governos   que só valorizam  o dinheiro, o vil metal,   estiver  em ação,  o ser humano  tenderá a sofrer as consequências  dessas  opção desastrosa, porque comporta um tipo de  civilização,  cujo ideal  é ganhar mais e mais, sem se importar com valores  dignos de  apreço e intemporais: a amizade, a união, o respeito à vida, à natureza, à ética de comportamento individual e social, i.e., valores que  jamais seriam   nocivos à continuidade da espécie humana, juntamente com  outros, como  dar importância   ao desenvolvimento e ao cultivo das letras, das artes, da filosofia, e não  abrir mão do desenvolvimento científico direcionado ao aperfeiçoamento e bem-estar das sociedades do presente e do futuro. Daí o filósofo querer se comunicar com o mundo acadêmico  das ciências   e da tecnologia.
        Ordine toca num outro ponto  crucial ao afirmar  que o “perigo’ de nossos governos no tocante a verbas  destinadas ao desenvolvimento  dos saberes de cunho  humanístico  não se encontra   meramente na redução do aportes financeiros canalizados     às ciências  humanas, mas também  na redução das verbas  alocadas ao que chama de “ciência fundamental.”  Enfatiza o filósofo que “humanidades e ciências” devem se unir. Daí provavelmente  mais uma outra razão de  buscar  um diálogo aberto  com  o mundo acadêmico  dos cientistas.                        
           O professor da Universidade de Calábria assume, assim, a sua postura de lutar  por um  humanidade  na qual o capitalismo exacerbado não enseje a sua própria  destruição e  os fundamentos  de valores  caros e fundamentais  ao mundo: a solidariedade,  a celebração, o cultivo   das artes  não utilitárias e  um freio que  deveria   ter os descaminhos  através da caça tresloucada  pelo dinheiro como fetiche de uma humanidade que se desumaniza na medida em que  assimila  um pecado   imperdoável – o egoísmo,   a busca do ter e o esquecimento  da convivência  feliz entre os homens.
         Lamenta ainda que a  Europa esteja  dando as costas para a Grécia – país do qual  viria  quase  toda a riqueza e sabedoria nos campos da literatura, das artes  em geral, das ciências. Como, pode-se inferir de sua entrevista,  jogar tudo isso fora e, em lugar disso,  voltar-se  para  o fetiche dos negócios,  dos bancos, dos investimentos,  dos bens materiais sem limites  e sem consciência de suas consequências danosas à humanidade?
          O título do livro resume  bem o que nos aguarda a sua leitura. Aliàs, o manifesto a favor do humanismo exposto no livro já se tornou, conforme  diz a reportagem,  um best-seller na própria  Europa. Oxalá não seja apenas uma leitura a mais.
         O importante seria que as suas premissas  tocassem no fundo do coração  das pessoas, dos governos, dos políticos,  dos empresários, dos religiosos das pessoas, enfim, que  nunca é fastidioso  repisar  a volta dos  valores humanísticos,  do espírito comunitário, da prática do bem e dos respeito aos bens imateriais. Por mais rasa que seja a mensagem de uma obra,  o que não  deve ser o caso do livro desse  filósofo,  sua importância deve prevalecer e suscitar  reflexões  profundas  na mentalidade dos homens em suas múltiplas atividades.

         Ordine recordando  o valor inestimável dos tempos da Renascença, acentua com  propriedade   que autores como Giordano Bruno,  Erasmo e Galileu Galilei tiveram  uma  compreensão  tão vasta  da “cultura” e  da “unidade  europeia” que as suas ideias foram  além do seu tempo e do  espaço do continente europeu de então. Tornaram-se  universais na compreensão da posteridade. Resta a nós, de todos os lugares e do tempo atual  envidarmos esforços que tornem  os homens cada vez mais afastados  das incertezas do simples  lucro  que as ilusões  materiais  pensam  ser o caminho  certo. Longe disso, muito longe disso.   

domingo, 6 de março de 2016

EGOCENTRISMO


EGOCENTRISMO

Elmar Carvalho

Além do mar, além do infinito, além (...)
meu corpo fica espalhado
como poeira cósmica perdida
e dispersa nos cantos
(encantados e sem cantos)
do mundo.
É uma miragem de
visionário maluco o
infinito: é a extrapolação
do nada dentro do tudo.
Além do infinito, além do mar, aquém (...)
minha alma percorreu o infinito,
num tempo de tão pequeno
arrancado do próprio tempo,
até perder-se no infinito.
(Minha alma se tornou
o hálito
do éter perdido.)
E meu corpo se tornou
uma estátua
de granito,
plantada como
um astro no
centro do cosmo,
desmanchando-se
em lavas lacrimais
de fogo ardente.


           Pba, 07.12.77

sábado, 5 de março de 2016

A volta do vinil


A volta do vinil

José Pedro de Araújo
Romancista, contista e cronista

Por dever de consciência, devo esclarecer que não toco nenhum instrumento musical - o que me deixa um pouco complexado -, e muito menos tenho um ouvido bem afinado - o que faz de mim um desprezado pela arte do deus grego Apolo. Contudo, sou um apreciador como poucos da boa música. E boa música para mim significa música de qualidade mesmo, sem me apegar a um ou outro ritmo musical em especial. Dependendo do momento, ou do local, pode ser uma MPB, um Rock n’roll, uma música clássica ou um Jazz; uma boa e velha música italiana ou francesa, ou até mesmo um forró Pé-de-serra. Tem de ser forró Pé-de-serra, vou logo dizendo, porque esse forrozinho chinfrim, de gosto duvidoso, e que se esmera nas frases com duplo sentido, faço questão passar por longe dos ambientes que fazem estourar os tímpanos dos seus frequentadores com isso. Não vou entrar no mérito do funk que empolga a periferia e já se alastra pelo país como um mosquito malfazejo. Esse não me preocupa por ser tão efêmero que logo, logo, deverá sumir como aconteceu com muitos outros tão transitórios quanto ele. Ludmila, Anita e os tais MC’s não ocupam meus já tão comprometidos ouvidos com sua música de mau gosto.
                Comecei a tratar do tema para fazer uma revelação: estou muito contente com a volta do disco de vinil. Tomara que não seja uma moda passageira também. Dizem que ele, a despeito da tecnologia dada como arcaica, comporta todos os sons do acompanhamento, coisa que as novidades da hora não podem. A propósito disso, não me desfiz dos meus bolachões, mesmo tendo sido instado a jogá-los fora para abrir espaço na estante. Teimoso como sou, até ampliei a sua quantidade muitas vezes ao comprar uma porção deles que o antigo proprietário ameaçava mandar para o lixo. Essa é uma história que merece ser contada, pois fui severamente advertido por ter trazido mais de duas centenas de discos para ocupar o espaço que eu deveria desocupar.
A história se deu assim: no meu antigo local de trabalho apareceria quase diariamente um rapaz para lavar os carros dos funcionários. Isso já vinha de longe, desde quando ele ainda era um rapazinho quase imberbe. Pois esse rapaz, que também trabalhava como zelador em um prédio de apartamentos em área nobre de Teresina, certo dia me abordou para perguntar se eu não gostaria de comparar alguns vinis. Respondi que era muito seletivo nesse assunto, mas, dada a sua insistência, pedi-lhe que me trouxesse uma relação contendo o nome dos discos que ele tinha para vender. E ele demorou a me procurar novamente. Achei que houvesse desistido de me vender a sua mercadoria.
                Entretanto, certo dia,  acercou-se ele de mim para dizer que não havia conseguido elaborar a relação solicitada porque os discos eram muitos, demandaria muito tempo para concluir a tarefa. Ai acendeu uma luz no meu cérebro, aquela luzinha da desconfiança. De pronto indaguei como ele havia conseguido esses discos. E ele respondeu que havia ganhado de uma das moradoras do prédio em que ele trabalhava. Não me dei por satisfeito e quis saber mais: ganhou assim, gratuitamente? Ai foi ele quem entendeu que precisava me contar a história toda da obtenção das bolachas.
                Disse-me que a moradora do prédio havia sido abandonada pelo marido quanto ele resolveu firmar compromisso com outra pessoa. Mas que ele, bom apreciador de roupas finas, sapatos de grife e... de música, deixou no apartamento uma grande quantidade de discos, e da sua indumentária também. E que, vez por outra voltava para apanhar alguma coisa. Tempos depois, a ex-mulher arranjou um namorado, e este passou a morar com ela. Nem este acontecimento serviu para barrar as idas do ex-marido ao apartamento para apanhar alguns dos seus objetos prediletos. E isso terminou por despertar ciúmes no novo morador do apartamento, que deu um ultimato à namorada: ela tinha que acabar com as idas e vindas do ex-marido. E ela atendeu de pronto: passou a ordem ao ex-marido, determinando que ele levasse suas coisas de uma vez por todas.
                Irritado, o homem respondeu que ela desse a destinação que quisesse aos seus objetos, porque ele não voltaria mais a botar os pés ali. E ela seguiu à risca a sua palavra. Determinou que o zelador jogasse fora tudo o que ele havia deixado lá. Foi assim que os discos foram parar nas mãos do lavador de carros. E depois nas minhas. Mas a história não acaba aqui. O meu interesse pelos discos foi acentuado depois da história ouvida, e eu pedi que ele os trouxesse para que eu escolhesse alguns. Ponderei que essa seria uma tarefa fácil para ele. Afinal, alguns poucos discos não era tão pesado assim. E qual não foi a minha surpresa quando certo dia fui apanhar o carro no estacionamento da repartição para passar em casa o meu horário de almoço, e fui abordado mais uma vez por ele. Disse-me que estava com os discos ali perto. Fui lá, depois de uma rápida olhada no relógio para ver se ainda tinha um tempinho extra. Deparei-me com duas pilhas de discos com oitenta centímetros de altura cada uma, pelo menos. Olhei rapidamente as capas de alguns deles e vi que tinha muita coisa interessante. Mas o tempo não me permitiria uma avaliação mais detalhada.
                Pedi-lhe que escolhesse alguns de MPB, rock, música clássica, etc., que eu os compraria. Ele me fez outra proposta: perguntou-me quanto lhe pagaria por todos eles. Respondi que não me interessava por todos eles, porquanto tinha muito coisa fora do meu agrado. Que ele escolhesse apenas uns dez para mim. Para encurtar a história, esclareço que fechamos negócio em poucos minutos. Fiquei com todos os discos. Sai dali com o porta-malas do carro lotado, a ponto de não comportar nele nem um pedaço de cordão. Havia adquirido mais de duzentos e cinquenta discos, para desgosto da minha mulher.
                Dias depois, relatando essa história para alguns amigos, um deles, criativo e esperto, depois de indagar se já tinha feito um inventário no lote de discos, obteve de mim a resposta de que ainda não tinha arranjado tempo para isso. E ele então me propôs: que tal se fizéssemos um encontro de amigos na minha casa com o espirituoso nome de “a festa do vinil?” Topei de pronto e foi um belo encontro entre parceiros. Comprei material de limpeza e distribui entre eles para que me ajudassem na seleção e higienização dos bolachões. Foi uma noite ótima, mas, já estão a me cobrar uma nova edição do evento, uma vez que o tempo não foi suficiente para a conclusão da empreitada.

                As novas tecnologias também estão favorecendo a quem gosta de uma boa música. O YouTube, por exemplo, é um celeiro de boas coisas. Lá podemos encontrar vídeos maravilhosos com passagens memoráveis dos melhores artistas do mundo. Alimento a minha alma e elevo o meu espírito com músicas que não consigo ouvir nas emissoras de tevê ou nas rádios que, ao que parece, estabeleceram um pacto maldito com o que há de pior nas artes e na cultura.  

sexta-feira, 4 de março de 2016

ENCONTROS E REENCONTROS NO CAFUNDÓ




ENCONTROS E REENCONTROS NO CAFUNDÓ

Elmar Carvalho

            Mais uma vez estive no sítio Cafundó. Mais uma vez foi um dia muito agradável. Os seus proprietários, os amigos José Luís Carvalho do Vale e sua esposa Francilene, nos receberam de forma inexcedível, com a lhaneza de sempre. A cerveja não estava estupidamente gelada, pois isso seria simplesmente estupidez. Estava no ponto certo: um leve véu de noiva recobria as garrafas. Outros diriam que elas se assemelhavam a um níveo pescoço de águia americana. O churrasco de carneiro made in Cafundó, cevado com boa pastagem e ração, era um verdadeiro manjar dos deuses olímpicos.

            Além dos anfitriões, estavam presentes os seus familiares (sanguíneos e por afinidade) Antônio Neto Bringel, Roberta Bringel, Danilo Costa, Sônia Marques, Ana Carolina e Pedro Faust. Também compareceram José Carlos Fontenele e sua esposa Regina, a filha Carla e seu namorado Júnior; José Francisco Marques, sua esposa Rosinha e o filho Júlio, ao qual, em pronúncia espanhola, costumo chamar de Julio Iglesias. Foi uma espécie de reencontro com o Zé Carlos, pois ele foi meu colega do curso de Direito (UFPI), na década de 1980, e Fátima, minha mulher, o conhecia desde Parnaíba, quando ambos cursaram o segundo grau.

            Zé Francisco cantou belas melodias, algumas da Jovem Guarda, outras da mais seleta MPB, acompanhando-se com toda maestria ao violão. O Zé Luís, de forma exímia, fez a percussão, e o Zé Carlos exibiu os seus dotes de cantor. Amante da boa música, mas não tendo dom musical, limitei-me a aplaudir os melódicos amigos. Um deles observou que nós quatro tínhamos José como primeiro prenome, de sorte que foi um encontro de Zés, como só acontece na Paraíba.

            Zé Luís propôs uma rodada de pequenos discursos, em que inevitavelmente houve uma verdadeira “troca de confetes”, com enaltecimentos recíprocos. Afinal, todos éramos amigos, e não amigos da onça. Entretanto, lembramos e homenageamos os saudosos Gerson Marques, pai de Zé Francisco e amigo dileto de meu pai, e Júlio Carvalho do Vale, médico humanitário e caridoso na verdadeira acepção do termo, irmão de Zé Luís.

Fiz uma rápida sessão de autógrafo, ao destinar o livro “Retrato de meu pai” a vários presentes (e ausentes). Alcunhei o José Luís Carvalho do Vale, pelos seus atributos de perfeito anfitrião, estilizando a pronúncia do l, de “o último fidalgo”, cujo título nobiliárquico mereceu a concordância de todos. Zé Carlos, templário eminente da Confraria do Cafundó, sugeriu a realização, numa noite de plenilúnio, do que denominou “Cafundó Night”. A proposição mereceu acolhida unânime dos confrades.

quinta-feira, 3 de março de 2016

O QUALIRA, O BAITOLA E A RAPARIGA DE TUTÓIA


O QUALIRA, O BAITOLA E A RAPARIGA DE TUTÓIA

Antonio Gallas

Quem nunca ouviu alguém chamar outro de qualira ou de baitola? Estas duas palavras quese referem aos homossexuais, gays, veados etc... tiveram suas  origens  nos estados do Maranhão e Ceará respectivamente. Como todas as expressões, adágios ou palavras jocosas que usamos na nossa língua tiveram uma razão de ser, uma origem, estas não poderiam ser diferentes. Sobre qualira existem várias versões de como se originou, contudo com relação a baitola existe apenas uma.  Vamos então às origens:

O Wickdicionário (dicionáriolivre) na internet traz a seguinte versão: “termo comum encontrado no Maranhão; de acordo com as pessoas mais antigas do estado surgiu no carnaval, que era basicamente de rua e no qual se apresentavam vários blocos carnavalescos fazendo alegria da população com seus instrumentos musicais e marchinhas de carnaval pelas ruas da capital, São Luís. Dizem que em um desses blocos havia um rapaz afeminado que se destacava por tocar lira (instrumento de cordas dedilháveis ou tocadas com plectro, de larga difusão na antiguidade). Daí sempre que ele aparecia as pessoas gritavam: "la vem ele com a lira" e nisso foi diminuindo a frase "com a lira" até chegar a "qualira". Por ser afeminado o termo foi associado a todos os afeminados do estado. Daí em diante, no Maranhão, todos homossexuais são chamado popularmente de qualira".

Outra versão para qualiraé a que apresentao Dicionário inFormal (SP) também na internet que diz o seguinte: ”no Maranhão recém descoberto no ensino de seus rebentos, e dizem que os moçoilos que optavam pelo instrumento Lira pelo seu porte avantajado (do instrumento) no deslocamento com tal peça das cameratas e bandas os ostentavam com dificuldade, pois tinham de apoiar o peso na lateral da região glútea, acarretando com isso um "rebolado" e todos gritavam "Aí vai um homem(?) com a lira" que por acrossemia virou coalira, e depois pejorativamente e de duplo sentido falando Qualira”.
               
Existe também a versão de que dois amigos assistiam a uma retreta quando um deles apontou um dos músicos dizendo: "aquele alí é viado". "Qual? perguntou o outro. E o primeiro, identificando: "aquele co'a lira" (com a lira). E vai daí... qualira!

O certo é que a palavra tem certa relação com o instrumento musical Lira muito usado nos séculos XVII e XIX.

Já o baitola surgiu na época em que os ingleses estavam construindo as ferrovias no Brasil. Vamos à história.

Veio designado para ser o Superintendente da Rede Ferroviária do Ceará um engenheiro inglês de nome Francis Reginald Hull, o famoso Mr. Hull (pronuncia-se Mister Ráu) que deu nome a uma das principais avenidas de Fortaleza. Mr. Hull era homossexual assumido, porém muito exigente no trabalho. Por conta de sua rigidez muitos dos trabalhadores da ferrovia (peões) não gostavam dele.

Como se sabe os estrangeiros têm dificuldade em pronunciar certas palavras da nossa língua.  No inglês a letra (I) tem som de ai e a vogal (O ) tem o som de ô (como em ovo). Assim Mr. Hull tinha dificuldade de pronunciar a palavra bitola, que significa a distância entreumtrilho e outro. Desta forma sempre que ele ia pronunciar a palavra bitola pronunciava BAITOLA.

 E assim sempre que ele se aproximava de onde estavam os trabalhadores, estes, que não gostavam dele devido sua rigidez e também pelo modo como eram tratados por ele, diziam: "Lá vem o doutor baitola!“Lá vem o doutor baitola”!

A partir daí, no Ceará a palavra baitola passou a ser associada  ao homossexualismo masculino.
Agora os leitores devem estar perguntando: o que tem qualira e baitola a ver com a rapariga de Tutóia? Nada, mas tem a questão da pronuncia das vogais I e O na língua inglesa conforme foi explicado.


Maria, uma rapariga que vivia a esperar fregueses no Porto de Tutóia (isso décadas passadas na época que Tutóia servia de Porto para o Piauí) caiu nas graças de um mexicano que viajava em um navio de bandeira inglesa. O Chico, como assim era chamado,ensinou a Maria um pouco da língua Bretã inclusive os sons dos vocábulos. Clandestinamente conseguiu leva-la no porão de um navio para uma viagem ao estrangeiro. Em Nova York visitarem os principais pontos turísticos da cidade, inclusive o Empire StateBuilding-um arranha-céu de 102 andares à época considerado o maior do mundo. Maria esqueceu-se das lições do Chico e pronunciava as palavras da forma que estavam escritas como se fosse Português.  O Chico pacientemente explicou tudo a Maria novamente... E numa bela noite, ela fala pra ele: “Ô Chaico, traz aai o painaico que eu quero fazer xai-xai”!

terça-feira, 1 de março de 2016

O Brasil na boca dos estrangeiros


O Brasil na boca dos estrangeiros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Gringos adoram o Brasil, será? Há tempos, coleciono opiniões extraídas do noticiário, empresas de turismo, amigos residentes fora do Brasil ou viajam ao estrangeiro.

Começo pela piauiense Maurienne, residente em Estocolmo. Ela apareceu em matéria anterior. Mais uma vez, Maurienne volta para comentar a crônica EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA JÁ ERA: “Hoje mesmo, comentávamos, sentadas em um banquinho muito gelado da praça, entre aulas, eu e uma professora de árabe, iraniana, sobre essa falta de educação moral e cívica. E não falávamos com vantagens para o mundo de cá, não! Parece que o mundo afunda-se no mesmo barco, em todo lugar, infelizmente”.

Americano, casado com brasileira, morou em São Paulo por três anos, odeia morar no Brasil, por diversos motivos: brasileiros são rudes com vizinhos, aumentam volume de músicas, não pedem desculpas quando esbarram a gente; agressivos e oportunistas, não respeitam fila. Querem ganhar vantagem em tudo; não respeitam o meio ambiente, ao despejar lixo em toda parte; ruas sujas; recursos naturais abundantes, mas desperdiçados. Toleram a incrível corrupção. Mulheres excessivamente obcecadas com o corpo; homens e mulheres propensos a casos extraconjugais. Gostam de depreciar e ferir sentimentos alheios. Realizam serviços com certa malandragem e atraso. Ricos se acham no direito além do imaginável, arrogantes, imunes a regras. Brasileiros interrompem conversas - espécie de competição - e gritam. A polícia inexiste, especialmente para com cidadãos simples. Sistema judicial, uma piada. As pessoas vivem atemorizadas, cercadas de muros, pagam taxas elevadas para viverem em condomínios fechados. Demasiadamente tolerantes com a péssima prestação de serviços públicos, especialmente na saúde e educação, na burocracia escandalosa e lenta, na expedição de serviços e documentos. Impostos e taxas exorbitantes, perseguição aos empreendedores. Há uma mentalidade generalizada de que todo rico é desonesto. Como resultado, a corrupção impera entre autoridades e empresários. Qualidade discutível da água. Carros três vezes mais caros que os americanos. Brasileiro adora conversar futilidades, como novelas, Big Brother, Ratinho, Sílvio Santos, música medíocre.

Ao contrário da opinião do americano que odeia o Brasil, estrangeiros, em geral, gostariam de repetir certos hábitos brasileiros em seus países: alegria, bom humor, até nas horas difíceis; abraços cordiais, inclusive com desconhecidos. Na França, são raros e só ocorrem nas famílias. Cordialidade no atendimento em pontos comerciais. Brasileiros se estressam menos que outros povos. O famoso jeitinho brasileiro talvez explique o motivo por que se dão bem lá fora. Compartilhar a cervejinha e comida surpreende muitos estrangeiros, cada qual na sua. Ao contrário de outros povos, brasileiros banham-se até mais de uma vez ao dia, dão carona, festejam e brindam com facilidade, dão risadas e piadas com os deslizes das autoridades.


O riso abunda na boca dos tolos. Menos no Brasil do samba de Chico Buarque, “Mesmo com toda a fama, com toda a brahma / Com toda a cama, com toda a lama / A gente vai levando, a gente vai levando”.   

domingo, 28 de fevereiro de 2016

REI


REI

Elmar Carvalho

Ouvidos inúteis
 na noite silenciosa,
eu escuto outros sons
vindos do Universo.
Apenas meus outros sensores
captam as vibrações oriundas
de outros astros.
Apenas eu na noite absoluta.
Apenas eu sem sombra e sem nada.
Mas eu sou um caudilho hombre fuerte
e suporto esta solidão total
com o estoicismo de um
herói (que não pôde fugir).
No desejo louco
de ser transcendental
eu abri minha alma
para o cosmo e
absorvi suas forças
com a ânsia de
um asmático.
E eis aqui o super-man
sempre vencido
(com um AI! eterno na garganta).
Sem ter uma cova
onde cair morto,
eu me tornei o rei falido
desta província global.

           Pba. 12.11.77 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Educação moral e cívica já era


Educação moral e cívica já era

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Nos meus arquivos, deparo-me com velhas anotações e tarefas, cujas disciplinas não se ministram mais nas escolas, desde início da década de 1990, como Organização Social e Política Brasileira (OSPB), além da Educação Moral e Cívica (EMC). Não há algo de errado na formação de futuros cidadãos?

Atuais projetos pedagógicos seguem metas para objetivos científicos, concursos e disputas no mercado de trabalho. Menos para formação ética e cidadania. Dão mais ênfase a atividades esportivas do que à disciplina espartana, à construção do caráter.

No fundo do baú, deparei-me com programa de Educação Moral e Cívica do MEC, para ensino fundamental e médio, em pleno regime militar. O programa previa culto à pátria, seus símbolos, tradições, nacionalismo, dedicação à família e à comunidade. Exercitavam-se valores cristãos, crença em Deus, condutas éticas, os dez mandamentos, a dignidade moral que não tem preço, mas valor.  Professores ensinavam a compreensão dos direitos e deveres dos brasileiros e o conhecimento da organização sociopolítica e econômica do País (OSPB). Esses conteúdos, apesar de ministrados durante o regime militar, não visavam a objetivos ideológicos, como estigmatizam as esquerdas políticas. Todavia as escolas militares continuam a seduzir estudantes, que enfrentam maratonas para ingressar nessas instituições. A secretária de educação, Rejane Dias, iniciou abertura de escolas militares, com aplausos merecidos.

Em 1993, esses conteúdos foram eliminados no governo do presidente Itamar Franco. Questões políticas e históricas concentraram-se na disciplina de Estudos Sociais e História. Educadores de tendência esquerdista tentam descaracterizar essas duas disciplinas, além de geografia, com pinceladas de terceiro mundo chavista.

Questões cívicas e éticas foram, praticamente, riscadas dos projetos pedagógicos. Poucas escolas costumam cantar o Hino Nacional, hastear a bandeira em datas nacionais, promover encontros e prédicas espirituais. A educação mais antiga ainda acrescentava conhecimentos de latim. No meu seminário, ensinava-se, também, francês, inglês, italiano e grego. Ex-seminaristas e militares, em geral, enriquecem a galeria de honrados cidadãos.

Mais outra joia encontrada nos velhos arquivos: Programa Nacional de EMC do MEC: “Ela é parte de um todo que contribui para a formação e informação das pessoas. Neste processo, a família exerce papel fundamental, uma vez que ela é o primeiro grupo social de qualquer indivíduo. Com isso, na família construímos nossos valores morais e éticos”. Família?! O que é família para a atual geração de políticos e gestores, que fogueteiam uniformidade de gênero, casamento gay, que proíbem pais punirem baixinhos rebeldes?

Educação Moral e Cívica defendia “princípios democráticos, preservação do espírito religioso, liberdade com responsabilidade, sob inspiração de Deus”. Olhe só, Deus nos manuais do MEC, quando, hoje, o Palácio do Planalto não faz nem pelo sinal. Ainda aprova a negação do estudo religioso nas escolas. Explicam-se os rumos e desmandos morais, à deriva, em todos os meandros da administração pública. Porque, para marxistas bicudos, Deus é uma utopia.

A Educação Moral e Cívica precisa, urgentemente, retornar aos programas escolares, senão as cadeias encher-se-ão, mais e mais, de bandidos; faltará policial em cada residência; uma Roma pagã se desmoronará.

Compartilhe a ideia de rever arquivos da educação, levem-na às reuniões de pais e mestres, aos debates em salas de aula. Sem ranços ideológicos e partidários. Ainda há tempo para salvar a pátria e a família, como em países sérios.     

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

LANÇAMENTO DE LIVROS


                                                                   


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: Flores Incultas, nº 25 – 2ª edição, de Luíza Amélia de Queiroz; Poesias, nº 33, de Fenelon Castelo Branco; História do Poder Legislativo na Província do Piauí, nº 36, de Wilson de Andrade Brandão.
                       

Nelson Nery Costa


Presidente


       Data:  27 de fevereiro de 2016(Sábado)
Horário: 10hs9h 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
       Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86)  3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI    

Antônio Gonçalves Pedreira Portellada


Antônio Gonçalves Pedreira Portellada

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Foi um abastado comerciante, agropecuarista, político e militar luso-piauiense radicado em Teresina desde o começo do lugar. Provavelmente, o homem mais rico do Piauí em seu tempo.

Nasceu Antônio Gonçalves Pedreira Portellada, em 17 de setembro de 1827, no Alentejo, em Portugal, filho de Manoel José Gonçalves Portellada e dona Joana Gonçalves Pedreira, ambos de origem humilde, porém, honrados e trabalhadores.

Mal completou a maioridade, desejoso de prosperar e sentindo a falta de horizontes em seu meio, tomou uma embarcação e rumou para o Brasil, fixando residência na cidade de Caxias, na vizinha província do Maranhão. Embora sem trazer recursos financeiros, mas com enorme força de vontade, lançou-se no comércio iniciando o combate braço a braço, sem nenhum capital, inteiramente desajudado de proteções, e venceu galhardamente, o que diz eloquentemente de seu valor.

Com a fundação de Teresina, em 1852, não perdeu tempo logo vislumbrando as grandes possibilidades que se abririam na nova capital do Piauí. E a elege como residência e novo teatro de suas lutas. Estava ainda no verdor da mocidade, com apenas 25 anos de idade, em plena florescência, no anseio ininterrupto de vencer. Determinado, empreendedor, em pouco tempo alcançou posição de relevo no seio da classe comercial. Embora sem grande formação escolar, ninguém melhor do que ele tinha o descortínio dos grandes negócios, operando com inteira segurança e admirável êxito.

Sobre sua vinda para a região, não sabemos se foi trazido por algum parente. Talvez, o coronel Manoel Domingos Gonçalves, rico proprietário e contratante das primeiras obras de fundação de Teresina, tivesse com ele algum parentesco.

Em julho de 1871, Portellada recebeu o título de naturalização brasileira, juntamente com os demais portugueses: José Bento Valladares, Ricardo José Teixeira e Domingos José Salabert (O Piauhy, 5.8.1871).

Em Teresina, criou empresas e abriu lojas de importação e exportação de todos os gêneros, demonstrando tino e capacidade empresarial, a cada dia aumentando e consolidando sua fortuna. Com a prosperidade dos negócios, entrou em rota de colisão com outro potentado do lugar, o também rico comerciante José de Araújo Costa, prócer do Partido Liberal, que, incomodado com sua concorrência, contra ele ajuizou infundadas ações no foro de Teresina, algumas delas respingando na imprensa. Em 1873, o litígio versava sobre um arresto feito por Portellada nas fazendas Calumbi e Boa Esperança, do termo de Marvão, hoje Castelo do Piauí, em que Araújo Costa e seus sócios se acharam prejudicados, propondo perdas e danos. Sobre o episódio anotou Portellada em 28 de julho de 1873:

“Fui levado a juízo por um inimigo que me devota todas as suas reconhecidas e provectas amabilidades do rancor e do ódio mais entranhado, somente para ter ele o prazer insensato de perseguir-me, de obrigar-se a gastar a minha modesta fortuna, adquirida a troco de trabalho perseverante, mas que atrai as vistas cobiçosas do potentado meu inimigo, para quem é crime grave o viver independente de qualquer sujeito que presume ser o árbitro dos destinos de uma província, do seu comércio, navegação e riqueza, querendo suplantar a todos” (O Piauhy n.º 274 – Órgão do Partido Conservador, 31.7.1873).

Essa opinião também foi partilhada pelo escritor e político liberal Clodoaldo Freitas, traçando o perfil do correligionário admitiu:

“Opinioso e cheio de rancor, muitas vezes, por um capricho, sustentava questões em que despendia elevadas somas, como aconteceu em mais de uma ocasião com o negociante Portellada, seu inimigo, alegando que assim procedia para fazer ‘o marinheiro gastar dinheiro, o maior mal que lhe podia fazer’” (FREITAS, Clodoaldo. José de Araújo Costa. In: Vultos piauienses. 3ª Ed. Teresina: APL/EDUFPI, 2012. P. 137).

Com o tempo tornou-se o maior comerciante do Piauí, com matriz da loja de fazendas, armarinho, secos e molhados, estabelecida na Rua Grande, atual Álvaro Mendes, 11, em Teresina. Dono de imensa fortuna fez alguns empréstimos ao Estado do Piauí, a pedido de seus governantes. Em 1913, seu filho José de Lobão Portellada, comerciante de ferragens, miudezas e exportação, emprestou 150.000$000 ao governo Miguel Rosa para iluminação e abastecimento d’água de Teresina.

Também, foi grande latifundiário e fazendeiro, criando gado vacum nas fazendas Flores, Taboquinha, Noivos, Remanso e Piripiri, entre outras. Trouxe para Teresina, o sobrinho Antônio Gonçalves Portellada Sobrinho, que tornou-se seu sócio na empresa Portellada& Cia. Este, também criava gado vacum na fazenda Torrões.

Pertenceu à Santa Casa de Misericórdia de Teresina, sendo nomeado 2º Mordomo do Hospital por ato de 28.6.1869(O Piauhy, 30.6.1869; 28.11.1871).

Antônio Portellada ocupou o cargo de presidente da Associação Comercial do Estado. Ao falecer, era diretor da Companhia de Fiação e Tecidos Teresinenses, de que era um dos principais fundadores e acionistas, e da Companhia de Navegação a Vapores no Rio Parnaíba, nas quais prestou relevantes serviços.

Ingressou na guarda nacional, alcançando os mais diferentes postos até ser nomeado por decreto de 31 de julho de 1897, coronel comandante superior da 1ª Brigada de Artilharia, tendo o filho José de Lobão Portellada, na mesma oportunidade, sido nomeado capitão-assistente da mesma(Diário Oficial, 4.8.1897).

Militou na política, filiando-se ao Partido Conservador, em cujas fileiras permaneceu até o ocaso do Império, gozando sempre da estima e consideração de todos. Por esse tempo seu genro Raimundo de Arêa Leão, foi eleito vice-presidente da província, tendo assumido o cargo algumas vezes. Com a proclamação da República continuou na política, filiando-se à agremiação política liderada pelo Barão de Uruçuí, que tinha nele um decidido e eficaz cooperador. Porém, com a confusão dos partidos, na situação Anísio de Abreu, retirou-se da vida pública, reaparecendo na arena política para prestigiar a “União Popular”, de que foi um dos chefes o seu filho, o tenente-coronel José Lobão Pedreira Portellada(O Apóstolo, 18.12.1910).

Foi eleito intendente municipal de Teresina nas eleições de 31 de outubro de 1896, para um mandato de quatro anos(7.1.1897 – 7.1.1901). Nessa gestão, para combater a erosão no cais do rio Parnaíba, contratou com a firma de José Mayer, a construção de rampas e taludes da Rua Bela, hoje Teodoro Pacheco, e do Pequizeiro, hoje Paissandu(GONÇALVES, Wilson C. Dicionário enciclopédico piauiense ilustrado. Teresina: 2003).

Foi casado com dona Antônia Joaquina de Lobão Portellada, católica fervorosa, benemérita da Igreja, e de cujo consórcio deixou três filhos: 1. José Lobão Pedreira Portellada, abastado comerciante, deputado estadual(1912 – 1916); 2. Marcolina de Lobão Portellada Santos, falecida antes do genitor, casada com o capitão Joaquim Antônio dos Santos, ricos negociantes em Parnaíba; e, 3. Joana Portellada de Arêa Leão, casada com o médico Raimundo de Arêa Leão, foi vice-presidente da província.

O citado sobrinho por ele trazido do reino em 1867 foi Antônio Gonçalves Portellada Sobrinho, comerciante, nascido em 1854, em Portugal, filho de Manoel José Gonçalves Portellada e dona Francisca Alves, ambos falecidos no Reino de Portugal, Província de Trás-os-Montes, lugar Covelans do Rio. Este deixou diversos filhos havidos com dona Alexandrina de Carvalho e Silva, natural de Teresina, filha de Amador Vieira de Siquera e Filomena Vieira Torres, então residentes em Teresina.
Faleceu o coronel Antônio Gonçalves Pedreira Portellada, na cidade de Teresina, em 12 de dezembro de 1910, a uma hora da manhã, vítima de congestão cerebral, com 83 anos de idade, sendo o corpo sepultado no dia seguinte, no cemitério São José. Recebeu o sacramento da extrema-unção pelo Bispo D. Joaquim de Almeida, que, no dia seguinte, celebrou a missa de corpo presente, no salão de honra de sua casa residencial. O sepultamento foi dos mais concorridos, comparecendo a melhor sociedade e muitas pessoas do povo.

O coronel Antônio Portellada, foi um típico empresário do final do Império e começo da República, fortalecendo o comércio da nova capital do Piauí, tornando, assim, realidade o sonho de Saraiva, de tomar de Caxias a primazia comercial no centro-norte do Piauí e médio-sertão maranhense. Soube tirar proveito dos incentivos e otimismo da época, crescendo com a nova cidade e ajudando-a a ser o grande centro comercial de hoje. A ele muito demos e muito devemos.    

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A TÍTULO DE POSFÁCIO


25 de fevereiro   Diário Incontínuo

A TÍTULO DE POSFÁCIO

Elmar Carvalho

Em janeiro de 2010 a minha filha Elmara Cristina criou o Blog do poeta Elmar Carvalho (poetaelmar.blogspot.com.br), cuja postagem mais antiga data do dia 22.01.2010. No dia 17 desse mês e ano, fiz o primeiro registro deste Diário, publicado no blog no dia 23. No início, as notas eram mais curtas e não tinham título; traziam apenas a data em que foram escritas. Com a publicação na internet (no meu e em outros sítios informáticos), senti a necessidade de lhes intitular.

No entusiasmo dos primeiros registros, fazia duas, três ou mais matérias por semana, para que a obra mais se ajustasse à sua denominação. Posteriormente, optei por fazer apenas uma (no máximo duas). Passei a lhes dar um caráter mais de crônica, e, às vezes, de artigo ou de pequeno ensaio. Na medida do possível, tornei mais denso e aprofundado o conteúdo dessas anotações diarísticas. Seja como for, sem este Diário e sem o blog, com a consequente possibilidade de publicação imediata, eu não conseguiria a motivação e o ensejo de escrever as centenas de textos que escrevi.

Ainda há pouco, nesta manhã agradável e quase chuvosa, em que rolinhas “fogo-apagou” e bem-te-vis cantavam alegremente, contemplei as árvores do quintal vizinho, a farfalharem ao vento, vestidas de intenso verde, entre as quais se destacava uma gigantesca cajazeira, que durante boa parte do período de estiagem se apresenta desnuda, como se tivesse morrido. Sem esta crônica diarística, é evidente que esses ínfimos fragmentos temporais e de vida ficariam para sempre esquecidos. A muitos acontecimentos efêmeros tentei dar a possível e talvez vã perenidade literária.

Como o Diário já completou mais de seis anos (17.01.2010 a 25.02.2016) pude fazer o registro de acontecimentos importantes da cultura e da vida literária piauienses. Em suas páginas, homenageei os noventa anos da vida de meu pai. Narrei em sentidas crônicas a morte de minha mãe e de pessoas amigas, bem como a das cachorrinhas Belinha e Anita.  Portanto, como Humberto de Campos, sepultei os meus mortos nestas páginas elegíacas e evocativas do panteão de minha saudade. Para mim eles ainda estão vivos, e fizeram apenas uma viagem para outra dimensão, onde algum dia os reencontrarei.

Ao longo desses seis anos feri os mais variados assuntos. Às vezes rememorei uma conversa instigante; comentei alguma leitura agradável ou enriquecedora; relembrei, aproveitando algum ensejo ou “gancho”, algum fato importante da história piauiense e também de sua literatura; discorri sobre acontecimentos da atualidade e aproveitei para contar fatos que reputei interessantes, dentre os que observei, os de que participei ou mesmo acaso os de que tenha sido protagonista.

Aqui estão insertos os “Retratos” de minha mãe e de meu pai, que publiquei em opúsculos, na época em que foram elaborados. Muitas crônicas foram inseridas em Confissões de um juiz e Amar Amarante. Aliás, um leitor atento, que acompanhou a publicação desses textos na internet, me observou, com muita argúcia e pertinência, que eles, coligidos por temas, dariam vários pequenos livros.

Procurei, com todo zelo e esforço de que fui capaz, dar aos registros deste Diário uma dignidade literária, em que tentei verter o conteúdo em boa taça. E lutei para que a sua forma pudesse ter graça e beleza. E emoção, se fosse o caso. Em suma: aqui estão fixadas nesgas de minha alma, de meu espírito e de meus sentimentos.   

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

HOMENAGEM NA BIBLIOTECA MARION SARAIVA


19 de fevereiro Diário Incontínuo

HOMENAGEM NA BIBLIOTECA MARION SARAIVA

Elmar Carvalho

Anteontem recebi e-mail do amigo Moacir Ximenes, em que me noticiava que a Biblioteca Pública Marion Saraiva (de Campo Maior) me havia prestado homenagem ao colocar a pintura da capa de um de meus livros numa de suas paredes internas. Agradeci-lhe a boa nova, e pedi-lhe agradecesse ao responsável pela honraria. Em outro bilhete eletrônico, ele acrescentou que eu estava ao lado de Cunha Neto, Cláudio Pacheco e do grande lírico e épico Luís Vaz de Camões. Estou, portanto, em muito boa companhia.

“Não há profeta sem honra, a não ser em sua própria terra, e em sua própria casa”, disse Jesus (Mateus, 13:57). Felizmente, ante a informação do caro amigo e historiador Moacir Ximenes, o mesmo não se aplica aos poetas. Aliás, para minha satisfação, já recebi outras homenagens em minha terra natal, sobretudo no âmbito literário.


No Complexo Cultural Valdir Fortes, à margem do Açude Grande, encontra-se afixada uma linda placa de acrílico com os catorze versos iniciais de meu poema Elegia a Campo Maior. No salão nobre da Prefeitura Municipal foi feita a aposição de meu poema Fazenda Tombador ao lado de belíssima pintura dessa histórica casa-grande, há muitos anos literalmente tombada. Portanto, ao contrário dos profetas, os vates podem ser honrados em sua própria terra, e em sua própria casa.

ANIVERSÁRIO DE UM INTELECTUAL


Virgílio Queiroz

GRANDE FORÇA, FORTE VOZ

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Hoje, 25 de fevereiro é o dia do nascimento
De um ilustre amarantino de muito talento
Que gosta de promover um bom movimento
Para levar nossa Amarante ao crescimento

Trata-se do notável prof. Virgílio Queiroz
Visto com sua grande força e forte voz
Reconhecido nas suas ações, muito veloz
Em muitos casos, para servir todos nós

Como diz populares desta redondeza
Virgílio é um homem de muita grandeza
Esbanja para o povo, uma grande nobreza
E ajuda muito aqueles que vivem na pobreza

Aclamado pelo povo como boa criatura
Em Amarante, tornou uma importante figura
Por se tratar de um ser cortês e sem “frescura”
Prestigia qualquer modalidade de cultura

Realmente, Virgílio é uma excelente pessoa
Contribui muito para Amarante ficar “numa boa”
Corajoso, não se esmorece nem com a macacoa
E nem com certas pessoas que falam a toa

Sabemos que este amarantino é fenomenal
Por ser um homem determinado e intelectual
Dizem que ele tem um forte guia espiritual
Para fortalecer seu vasto conhecimento cultural

Virgílio é um baluarte e de muita credibilidade
Consegue coisas boas para nossa amada cidade
Que muito nos orgulha e nos trás felicidade
Como exemplo, uma conceituada universidade

Virgílio Queiroz é educador de grande porte
Muito conhecido neste Brasil de sul a norte
Em Amarante, tornou-se um homem muito forte
Com certeza, ele é portador de um grande dote
Além de ser um excelente e bravo comunicador
Virgílio Queiroz é também um bom compositor
Nuca teve pretensão para ser um produtor
Acredite, o seu material musical é de valor

Há muitos fatos importantes para se divulgar
Das realizações deste amarantino espetacular
Escritor, poeta, jornalista, advogado, vive a se dedicar
Na verdade, com Virgílio, Amarante tem se orgulhar

Faz jus registramos com prazer, vários aniversários
De muitos daqui, considerados extraordinários
Virgílio é formidável, tem seis cursos universitários
E sempre participa de importantes seminários

É muita prazerosa essa narrativa de glória
Na realidade, o Professor Virgílio é vitória
Fica bem guardado em nossa memória
E nos arquivos de nossa bela e rica história

O amigo e primo Virgílio é mesmo demais
Manchete e editor de livros, revistas e jornais
Rogo a DEUS que o ilumine cada vez mais
E que ele fortaleça sempre seus valiosos ideais

 Amigo Virgílio, parabéns hoje, felicidades sempre.