quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Latim de Michel Temer para Dilma


Latim de Michel Temer para Dilma

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Vice-presidente Michel Temer, em carta explosiva à presidente Dilma, inicia com provérbio latino: “Verba volant, scripta manent”. A presidente, que mal arranha o idioma pátrio, entendeu pela tradução: “As palavras voam, mas os escritos permanecem.” Um sacerdote, no sul do país, já havia utilizado, dias antes, a mesma frase latina, em blog, para detonar, violentamente, um colega padre.

Provérbios e princípios enriquecem o discurso, condensam o pensamento em reduzidas palavras, os latinos, especialmente, com agradável efeito sonoro. E caem na memória coletiva, citando-os na hora oportuna. Teólogo Santo Agostinho, mestre em frases de efeito e trocadilhos, imortalizou esta pérola sonora: “QUI CREAVIT TE SINE TE NON SALVABIT SINE TE”. Aquele (isto é, Deus) que te criou sem sem ti (isto é, sem tua vontade) não te salvará sem ti ( sem tua colaboração). O uso repetido desses recursos estilísticos não deve servir de exibicionismo retórico, especialmente nas peças de defesa, acusação, condenação e teses acadêmicas, recheadas de juridiquês intoleráveis.

Pilatos, governador romano, apresentou Jesus à multidão vociferante, depois de açoitado e coroado de espinhos: “ECCE HOMO” - eis aqui o homem. O termo HOMO significava indivíduo desprezível, em vez de  VIR, isto é, varão respeitado. Mandou escrever na cruz debochada frase: “IESUS NAZARENUS, REX IUDEORUM” - Jesus Nazareno, Rei dos judeus. Adversários não concordaram. Pilatos reagiu: “QUOD SCRIPSI SCRIPTUM” – o que escrevi está escrito. Autoridades adoram repeti-la.

O cônsul, general e imperador romano, Júlio César, ao ver o exército inimigo nas Gálias, soltou : “ALEA IACTA EST” – a sorte está lançada. Retornou a Roma, aplaudido no senado, pronunciou a famosa frase: “VINI, VIDI, VICI” - vim, vi, venci.

Nas escolas do passado não muito remoto, estudava-se latim, grego e francês. Veteranos ilustres ainda guardam na memória frases, principalmente latinas, extraídas de obras clássicas. Estudantes eram cobrados nos exames orais e as declamavam no recreio.

No seminário, o futuro músico Belchior e eu  disputávamos quem soubesse mais frases decoradas. Nos eventos, enchia meus textos com citações, vaidosamente. Amigo radiomador, nos encontros no shopping, dispara um clássico latino a cada cinco minutos de conversa. Demais!


Nas velhas escolas, a leitura obrigatória de clássicos latinos e gregos  enriquecia o vocabulário português, originado daqueles troncos linguísticos. Como me esquecer das Catilinárias, de Marco Túlio Cícero, tribuno de brilhante retórica, político e filósofo romano do início do cristianismo? A primeira frase de um de seus quatro discursos no senado, acusava Lúcio Sérgio Catilina, cônsul romano, de pretender derrubar o governo republicano e apoderar-se do poder e das riquezas, juntamente com os apaniguados: “QUOUSQUE TANDEM ABUTERIS, CATILINA, PATIENTIA NOSTRA?” - até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Sentença bastante utilizada nos meios acadêmicos e jurídicos, para refutar alguém teimoso, que insiste em abraçar tese vencida, superada, sem chance de prosperar. Que sirva de reflexão à atual elite brasileira no poder.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Caetano José Teixeira


Caetano José Teixeira

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Um dos maiores negociantes do Maranhão na passagem do século XVIII ao XIX foi o português Caetano José Teixeira, dono de empresas que negociavam por todo o império colonial português, sobretudo nas praças de São Luís, Belém, Lisboa, Porto e em Guiné, assim como nos outros domínios da África(AHU–CU–009, Cx. 75, D. 6495).

Nasceu cerca de 1760, na velha cidade do Porto, em Portugal, filho de Francisco José Teixeira e de sua mulher Francisca Gonçalves Teixeira, comerciantes de grosso trato, naturais e residentes na mesma cidade do Porto.

Embora mantivesse empresas na cidade do Porto, cedo veio para o Maranhão, estabelecendo-se em Alcântara, onde casou-seem 1790, com dona Rosa Maria Serra(n. 1770), filha de Bertolo de Deus Dourado, e fundou filiais de suas casas comerciais. Com o tempo amealhou grande fortuna, tornando-se “um dos principais comerciantes de escravos, importante credor do erário e representante do Banco do Brasil no Maranhão”(GALVES, Marcelo Cheche. Política em tempos de Revolução do Porto: constitucionalismo e dissenso no Maranhão. Passagens – Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica. Rio de Janeiro. Vol. 4. N.º 1. Jan-abril 2012. P. 4-38).

De sua vida localizamos algumas passagens na documentação histórica do período colonial. Em 23 de fevereiro de 1788, recebeu sesmaria de uma légua de comprido e três de fundo, no rio Mearim, a fim de estabelecer lavouras. Parece que acabara de chegar à colônia porque disse em seu requerimento que ainda não possuía terras(AHU–CU–009, Cx. 81, D. 6882).

Em 19 de outubro de 1799, obteve licença real e remeteu para estudar em Lisboa, seu filho Honório José Teixeira, de nove anos de idade, seguindo na galera Ninfa do Mar, do capitão Joaquim Adrião Rosendo.

Encontramos referências às apreensões dos grandes comerciantes com relação à remessa de mercadorias para Lisboa em 1807, diante do ultimato francês para que Portugal fechasse seus portos aos navios ingleses. Então, é intensa a correspondência do comendador Caetano José Teixeira com seus sócios de Lisboa e do Porto, buscando inteirar-se dos fatos; e daquele com o sócio Francisco Pedro Ardasse, de Belém do Pará, para quem repassava as informações privilegiadas que recebia do reino, orientando que continuasse a negociar, porém evitando a remessa imediata para o velho continente(LOPES, Siméia de Nazaré. As relações comerciais do Pará no início do século XIX. IV Conferência Internacional de História Econômica & IV Encontro de Pós-Graduação em História Econômica – USP).

Foi também um filantropo, concorrendo de boa vontade em 1810, “para as urgências do Estado, com diferentes donativos e ofertas de valor”, em razão da qual o príncipe regente D. João concedeu-lhe o hábito de Cristo com 12$000 réis de tença(ANRJ, Cód. 15. Graças honoríficas, v. 2, fl. 10). 

Em 18 de julho de 1815, doou a importância de quinhentos mil réis, para resgate de cidadãos portugueses que se encontravam cativos em Argel(Gazeta de Lisboa, n.º 284, de 20.11.1815).

Nesse mesmo ano protocolou petição cobrando dos herdeiros do governador e capitão general do Maranhão, Aires Carneiro Homem de Souto Maior, que faleceu com dívidas ao requerente(PT/TT/JIM-JJU/002/0113/00012).

Era também grande latifundiário, chegando a fundar no Maranhão, 36 feitorias, onde trabalhavam dois mil escravos. Quem assim informa é o deputado maranhense Francisco Gonçalves Martins, em discurso na Assembleia Geral do Império, em julho de 1826, a título exemplificativo, na defesa de um ponto de vista:

“Ainda há poucos anos faleceu um grande proprietário da província do Maranhão, que deixou um casal de mais de 4 milhões de cruzados; e tendo este homem feito um grande estabelecimento de lavoura, apenas conseguiu cultivar 36 feitorias e nisso empregou 2.000 escravos; e de certo que semelhantes estabelecimentos lhe absorveram mais de seiscentos contos de réis, e talvez oitocentos contos; eispois um exemplo prático, e de um proprietário bem estabelecido na província, qual foi Caetano José Teixeira” (Diário da Câmara dos Deputados a Assembleia Geral Legislativa do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Typographia do Império, 1826 – 1829. P. 901).

De sua atividade comercial são vários os registros, a exemplo do “Bergatim S. Ana, que saiu do Porto para o Maranhão com carga da praça a Caetano José Teixeira”(Jornal do comércio, vol. 4).

Faleceu esse rico negociante em 1818, na cidade de Alcântara, no Maranhão, onde residia. Deixou descendência, entre os quais: comendador e coronel de milícias Honório José Teixeira(1790 – 28.9.1849), um dos baluartes da Independência no Maranhão, estudou em Lisboa e Londres; e, Maria Teresa Teixeira Vieira Belfort, que foi casada com o coronel José Joaquim Vieira Belfort (4.3.1770 – 28.9.1838), pais de Antônio Raimundo Teixeira Vieira Belfort (Barão de Gurupi).


Com essas notas resgatamos algumas informações sobre esse importante líder do comércio no império colonial português e iniciante de ilustrada família no Maranhão.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Seleta Piauiense - Jônatas Batista


ALEGRIA DO CÉU

Jônatas Batista (1885 - 1935)

Maio...Junho...
Os raios do sol chegam mais livres e mais rápidos.
A luz das estrelas, mais intensa e mais viva, se derrama pelas dobras da noite.
A lua... Nem um trapo de nuvem, nem um farrapo de sombra!
Céu descascado. Céu do Nordeste.
À nossa vista sempre dá mostra "a pálida e romântica enamorada dos poetas vagabundos".
Quando os ventos gerais arrancam as primeiras folhas...
a gente tem gana de viver e de amar!
As violas acordam e os terreiros se espanejam.
O engenho de madeira canta, rouquenho, ao ritmo pesado e lerdo dos bois vagarosos e sonolentos.
O caititu raspa a mandioca sumarenta e a farinha cheirosa é remexida no forno de pedra.
Os riachos valentes se transformam em longas e estreitas fitas de prata.
Os sambas se animam e os cantores se defrontam para o desafio costumeiro.
A jurema de desata em flores e o perfume vai longe em busca das abelhas.
As morenas se alindam e os namorados se comprometem.
O vaqueiro abóia, ao fim do dia, na quebrada da serra,
e o touro escarva o chão, desafiando no pátio da fazenda.
A égua nova, que ainda não deu cria, curveteia, no tabuleiro verde,
e a raposa uiva e gargalha, na encruzilhada do caminho.
As ovelhas, em ranchos, se agasalham fora dos currais,
e as cabras pinoteiam, ariscas, nas fraldas dos morros.
O caboré geme com frio e o cabeça-vermelha acorda
o galo preguiçoso, que se retarda no toque da alvorada.
O inverno vai longe,
A seca não chegou ainda,
Ah! nesse tempo, nesse tempo, baixam aos campos da minha terra
A bênção de Deus!
A alegria do Céu!      

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Triste realidade atual dos autores brasileiros: escritores em perigo!


Triste realidade atual dos autores brasileiros: escritores em perigo!
   
 Cunha  e Silva Filho
   
       A Cultura Brasileira, no geral, está também  decadente e por muitas razões: a explosão das mídias, hoje cada vez mais se  diversificando, a fragmentação  das áreas outrora  prestigiadas como veículos  de informação e transmissão de conhecimento não pasteurizados. Tudo isso  soma ainda, para  o bem ou para o mal,  o excessivo “excesso” de  autores de áreas não diretamente ligadas, por exemplo, à literatura,  procurando  também  produzir  ficção, já que, em poesia,  seria difícil  manejar a pena,  quer dizer,  o teclado,  para  criar   poesia de alto valor  estético - seara do gênero  para o qual  há que se ter talento e  competência linguístico-literária.

     As pessoas que passaram a vida toda labutando  na preparação de competências  que lhes  facultariam  a possibilidade  de ingresso  na criação literária  se veem desprestigiadas diante  da concorrência  de bons e maus  escritores ou de escritores que  procuram  as fórmulas fáceis de atraírem  leitores  intelectualmente rasos   que  estarão prontos a  digerir  literatura de segunda ou terceira linha.

      Os resultados dessa queda vertiginosa  de  prestígio, de valorização e atenção aos  escritores de raça, de talento genuíno aí estão  se manifestando  de várias formas  no tecido    esgarçado  cultural: os bons suplementos  de literatura estão desaparecendo, minguando,  se reduzindo a duas ou três páginas,  retirando de circulação  críticos  de mérito e experientes e impedindo também que outros críticos menos visíveis ou mais jovens  possam  ter acesso  às colunas  literárias. 

      Restarão como  alternativa  frouxamente  viáveis os blogs, os sites  coletivos ou  individuais que, bem ou mal,  continuam  produzindo, dentro de suas possibilidades,  matéria crítica ou  de outros  áreas culturais.

      Razão tem o  escritor Rogel Samuel que, em recente crônica, de título “Nós, os quase extintos,” em sua coluna  “Crônica de Sempre”do site Entretextos, em tom   melancólico e de desabafo,  constata  a situação   de desapreço  com que são  tratados os escritores brasileiros  que ele chama com muito acerto  de “independentes” – seres, segundo ele,  “quase extintos da face da Terra.”

       Ora,  tal  situação  em que  colocam  os  escritores  brasileiros   é, no mínimo, um  golpe duro e insensato    do editorialismo de cunho elitista e xenófilo que  só tem olhos  para os estrangeiros, ainda que  muitos destes  estejam  bem aquém de autores nacionais que  estão   implorando para que lhe deem atenção  e façam  circular  comercialmente  seus livros. No entanto, a cultura  apátrida,   imediatista, pragmática, com sumista  hoje pouco está se lixando para um  bom autor pouco divulgado.

. O que para os editores  mais  conhecidos  vale é o produto   da venda, não a qualidade  dos autores nacionais em todos os gêneros. Só tem vez uns poucos que caíram  no gosto  discutível  de leitores   ávidos  por  autores  de cenários  escapistas,  ou   voltados  para  as cenas picantes de sexo barato,   crime e corrupção, tanto quanto os filmes importados, em geral americanos.

    Soube por um amigo que um jovem crítico  brasileiro escreveu  ultimamente  um artigo   discutiu num artigo  a questão da realidade  da crítica   literária  nacional  que, segundo ele, não anda bem. Não anda bem  porque, diz ele, está havendo  profundas mudanças  de comportamento  de leitores  e de novas  alternativas  midiáticas   que tendem a  pôr em segundo  plano o  exercício    da análise e da interpretação de obra.

    Quero crer que  a perda da aura da antiga militância crítica se deveu  ao incremento  da força que  instrumentos  de publicidade  têm disponíveis a fim de  dispensar   o papel  de orientação  e doutrinação   de  críticos de jornais  ou de rodapés, que ficaram célebres nos anos 1940, 1950, 1960. Esses críticos militantes   foram,  por seu turno, substituídos, fora dos jornais,  pelos críticos  universitários, i.e.,  professores  de literatura,  teóricos, que  passaram  a ter  um papel de   destaque  na avaliação  e pesquisa sobre autores antigos e novos.

     O espaço  privilegiado dos estudos  literários  passou  assim a ser dentro da universidade, e a   militância crítica, que praticamente  se extinguiu ,  cedeu terreno à “crítica universitária,”confinada daí em diante  às revistas especializadas, às monografias,  dissertações,   teses, aos anais de congressos nacionais ou  internacionais, ao universo acadêmico especializado. Ao crítico de jornal coube apenas  o papel  secundário  de resenhista, de noticiador  de lançamentos  de livros.Ou seja, o papel  do agenciamento  da crítica   se instalou   de vez no seio  dos curso s de letras e em todos os níveis  de adiantamento.

    O antigo  acompanhamento  dos lançamentos de livros que iam surgindo  sofreu, portanto,  um inflexão. Já não se podia  produzir  crítica literária como  antigamente  em razão de que os livros eram muitos e o crítico não teria tempo  suficiente para lê-los logo que  fossem  colocados às livrarias. O processo da leitura  de novos  autores na  universidade era  bem mais  lento,  demandava  maior  aprofundamento  e aparato  crítico,  bibliográfico,   rigor  ensaístico, formatação  acadêmica. O velho   crítico dos rodapés, não,  era rápido,  produzia suas análises   no calor  da emoção da leitura, quiçá de um só leitura, e o seu artigo ou crítica iam logo para folha dos jornais.  

       Veja-se o exemplo da Folha de São Paulo, com  o seu atual  caderno  Ilustríssima. Veja os seus colaboradores e as suas áreas de atuação cultural: cartunista, reportagem, jornalista, tradutor, professores de diversas áreas, diplomatas e escritores. Dificilmente, se encontram entre eles críticos  literários A discussão do temas nesse caderno  sofreu  um  expansão ou diversidade    cultural  de tal sorte que  a literatura  passou  a  se inscrever   sem aquele  antiga posição de   realce  entre outras áreas. Deixou de ser a primeira dama; hoje é apenas mais uma  área da inteligência brasileira.

        São muitíssimos os blogs ou sites  que cuidam de  produzir  crítica e ensaios, ou mesmo  poesia e  ficção.


        Voltando  ao que  declarou o  ficcionista  Rogel Samuel, há uma trecho  de seu texto que resume  a deplorável  posição – não merecida, é claro – do escritor  brasileiro  independente, que não  pertence aos grupos  do poder da produção  literária distribuídas em nichos  inexpugnáveis  de editoras  elitistas que  escolhem e repudiam  quem  lhes parece  não  estar à altura de seus lançamentos:”Ontem entrei na Livraria saraiva no Shopping Rio Sul e vi que os autores nacionais sumiram. Só nas estantes laterais, marginais.” O cronista  se interroga, machadianamente  cético, se  os escritores independentes e os escritores  em geral  são “seres em extinção” e ainda lamenta  que, na mídia televisiva, “num domingo de tarde,”  não havia  nenhuma  notícia sobre um  poeta,  uma homenagem a um  escritor, um “cronista.” Seria preciso  alongar mais  este artigo?   

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A fé que se renova


A fé que se renova

Dílson Lages Monteiro (*)

“Eia povo barrense é chegado/ o momento de vossa alegria/ elevai vossa fé, oh cristãos, /em louvores  a virgem Maria./ Salve Rainha do Céu/ salve a estrela da manhã/ Salve a padroeira de Barras do Marataoã”.  Ouvindo e cantando o Hino à Padroeira de Barras, de João Berchmans de Carvalho, milhares de fiéis católicos percorrem, entusiasmados, estradas vicinais e ruas de Barras do Marataoã, para reconhecer as graças alcançadas e renovar a esperança em novos dias.

Os festejos de Nossa Senhora da Conceição das Barras do Marataoã, um dos mais tradicionais do Piauí, iniciam-se oficialmente com o transporte da zona rural para a urbana, em romaria, do mastro que é fixado de frente ao adro da igreja. Por toda a noite e a madrugada do dia 27, o mastro é conduzido por centenas de jovens, adultos e até idosos, por longo percurso, em alguns anos, de até cinquenta quilômetros, em ritmo que vai além da caminhada habitual.

Com passos largos, de mastro aos ombros, os caminhantes misturam a fé à  força física. Ele é conduzido até a Igreja Matriz de Santa Luzia, no bairro Boa Vista, de onde, no dia 28 de dezembro, é transportado em procissão, que reúne cerca de 15 mil pessoas até a igreja Matriz de Barras. Ali, os fogos, as orações e o tradicional hino tornam a festa em momento de profunda emoção.

Em 2015, o mastro saiu do povoado Murici, a 32 quilômetros do perímetro urbano, numa tradição que se fortalece a cada ano. Neste ano, particularmente, o número de jovens envolvidos no transporte desse símbolo da festa empolgou as autoridades religiosas e toda a comunidade, numa demonstração da importância do evento como uma das maiores manifestações culturais da região.

A história de Barras do Marataoã está, como na maioria das antigas cidades piauienses, ligada ao catolicismo; à construção de uma capela, depois, transformada em templo de arquitetura característica dos padrões de seu tempo. Segundo anotações do Padre Cláudio Melo, em fins do século XVIII, já havia no local que compreende a atual igreja, na remota Fazenda Buritizinho, de Miguel de Carvalho, uma capela com autoridades religiosas ali investidas.

É com José Carvalho de Almeida que a construção da igreja ganha força. Pelo menos é o que atestam os mais acreditados historiadores do Piauí Imperial. Entre eles, David Caldas, o primeiro que se tem conhecimento a fazer anotações de cunho historiográfico sobre Barras, e outros, como Pereira da Costa e Miguel de Sousa Borges Leal.

A propósito do envolvimento de Carvalho de Almeida com as causas da fé católica, expressas no obstinado anseio da construção do templo da Igreja Matriz, lembra o historiador Wílson Carvalho Gonçalves que José de Almeida, ”assumira a administração da capela de Barras em 22 de agosto de 1819. Inspirado pelo amor a sua terra, lançou os fundamentos duma nova capela, mais tarde matriz, ficando a antiga contida no recinto desta, e demolida em 1835”. Acrescenta o historiador que José Carvalho de Almeida teria “concluído, por sua conta, a Capela do Santíssimo Sacramento da Matriz”. Infelizmente, demolida em 1963. Ressaltam vários historiadores, pautados principalmente em David Caldas, que Barras é elevada à  freguesia (30 de dezembro de 1939) e à vila (27 de setembro de 1841), graças aos pleitos de José Carvalho de Almeida.

Quando literalmente começou a festa da padroeira de Barras e seu processo de formação é tema curioso que demanda pesquisa detalhada, sobretudo pela relevância sociocultural do acontecimento. Ao evento, já fazia referência em poema de tom elegíaco o celebrado Teodoro Castello Branco (1829-1891) : “Vila que nos festejos grandiosos,/Viste-me sempre com alegre rosto;/Vila, vila chorosa/Meus olhos vês agora,/ que acerbo sentimento me devora”.

Sobre essa emoção renovada da fé em Nossa Senhora de Barras, diz em crônica, Eurípedes de Castro Melo (1941-1972), conforme se lê em Chão de Estrelas da História de Barras, de Wílson Carvalho Gonçalves:

“Sempre que se celebram de 29 de novembro a 8 de dezembro, os festejos da Imaculada Conceição, Padroeira excelsa de Barras, duas coisas impressionam, de gente simples e boa, acolhedora e amiga, de minha terra: o espírito da tradição e o fervor da crença religiosa. E nada há que faça, sequer, arrefecer o entusiasmo com que se espera, ali, a temporada alegre do concorrido novenário da Virgem Santíssima. Nem a mutabilidade dos tempos. Nem o fluir dos anos. Nem a inclemência das adversidades. Nem o tormento das maiores provações. Nem as decepções, as tristezas e as cores comuns, que compõem o tecido da existência humana.’

Faça-se o que se fizer, a fé dos barrenses se mantém inabalável. Ainda que os tempos difíceis e as forças ocultas pareçam instransponíveis; ainda que as artimanhas do mal vicejem no solo, a esperança na generosidade divina é imorredoura. Dezembro chegará trazendo a certeza de que Deus é maior. Dezembro de Nossa Senhora. Dezembro em sua fé secular, porque o tempo virá ar:

  Dezembro desabrocha no chão
  de onde a terra leva e leve
  o cheiro da chuva e dos jasmins



   da porta ao quintal.



   Dezembro de Dasinha e das dores
   da Senhora Nossa da Conceição
   no peregrino passo



   os olhos molhados de preces



   Ah! Dezembro no teto (des) habitado
   de morcegos onde a manhã estrelas desenha
   onde os vitrais se alargam palpitantes



   onde a porta-a-sala-e-a-casa:



   A cidade se abre
   para Jesus renascer
   segurando as mãos de Dasinha



  onde imagem-ação, o esperar do novo ano.



     Ah! O ar de agora e de sempre
     no Pai Nosso e em Cada Dia
     do quintal à porta



      onde a bisavó armava



      as margaridas nas janelas
      e o carmim do céu
      para o vento (ex)altar a procissão.
           
      Dezembro em tijolos
      na cabeça do povo
      os dedos derretendo em velas



      e a luz do fogo em filas



      e os férteis pés e firmes
      na comum-união de todos as classes:
      dezembro e a promessa



       de que o tempo vira ar.
   

(*) Dílson Lages Monteiro é poeta, romancista e membro da Academia Piauiense de Letras.   

domingo, 6 de dezembro de 2015

REALIDADE FANTÁSTICA


REALIDADE FANTÁSTICA

Elmar Carvalho

Velhas borboletas empoeiradas
saídas do fundo dos baús.
Velhas borboletas obsoletas
              e de
              asas
enferrujadas querendo
aprender de novo a arte de
     bor-    bor-       bor-
  bo-    bo-      bo-
       le-      le-         le-
   to-      to-                to-
        a-          a-               a-
                vo-      vo-           vo-
ar.                  ar.                      ar.
              Lâmpadas
votivas destroçadas, estrelas
cadentes geladas, luzes
apagadas pelos inimigos da
          claridade.
Antigos
            alfarrábios cheios
            de traças e cupins
            com as amarelas
            páginas dissecadas
reescritos.     

sábado, 5 de dezembro de 2015

Navio do Sal...E os pesadelos continuam


Navio do Sal...E os pesadelos continuam

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com

A tentação de poder e egolatria vem da primeira civilização humana, metaforizada num casal, em mundo paradisíaco, por saborear o fruto proibido de se igualar ao divino. A história humana continua a mesma, plasmada de sonhos malucos, à custa do suor e sangue de inocentes, na construção de pirâmides, fortalezas, muralhas chinesas, mausoléus, jardins suspensos e confrontos bélicos. Piauí, também, tem pesadelos feitos de Navio do Sal, Porto de Luís Correia, Centro de Convenções, Rodoanel, estripulias tantas.

Noite de maio de 1988, à beira do cais, rojões fogueteavam, repórteres e câmeras de televisão registravam a multidão eufórica aguardava a chegada do Navio do Sal. Mal atravessou a Ponte Metálica, o monstro iluminado rompia a escuridão, lotado de autoridades militares e políticos, soltava surdos roncos. Canhões pirotécnicos iluminavam o céu, refletindo sobre as águas do Parnaíba.

O cerimonial de desembarque seguiu, rigorosamente, as praxes militares, continências, palavra do governador Alberto Silva. Tomás Teixeira, fidelidade canina ao  governador, exaltava, ao microfone, “o novo capítulo da história do Piauí”.

Alberto Silva, um engenheiro com ideias geniais - para muita gente, loucas, cujo mérito despertava na população enorme autoestima.

Na década de 1960, o Piauí envergonhava, pelas avenidas sem asfalto e escuras, praças abandonadas da capital. O estado sofria a pior chacota nacional, publicada pela famosa revista Realidade: “Visite o Piauí antes que acabe”. Alberto Silva, no primeiro governo, conseguiu, com apoio de entusiasmados representantes do estado, no governo da ditadura militar, alavancar o estado, especialmente a autoestima da população. Urbanizou e iluminou a capital, construiu obras como o metrô e o Hospital Evangelina Rosa.

Tirar as dezenas de obras do governo Alberto Silva, sobra pouca coisa. Fez bocado de besteiras, tangido por sonhos malucos que não resultaram em nada, como a engenhoca Globinho, de aço, um horror pedagógico; o arranca toco, sem pé nem cabeça tecnológica; fontes luminosas nas praças da capital, que só serviam para deleite de crianças de rua; o Porto de Luís Correia, inacabado, que só avançou em pedras e verbas públicas desviadas, hoje com lâmina d’água de um metro de fundo; o Navio do Sal (ou Barca do Sal).


À beira do cais do Parnaíba, eu assistia à chegada do Navio do Sal, arrastado, na marra, desde o litoral, sobre bancos de areia. Nem lembrava outro navio, bem maior, cheinho de convocados para a Guerra do Paraguai, século 19, partia, depois da missa e despedidas na Igreja do Amparo. O rio Parnaíba do passado aguentava embarcações pesadas, desde Amarante ao litoral. Hoje, anêmico, assoreado, imundo, mais de cinquenta esgotos, só em Teresina, vomitam porcarias no Velho Monge. Alberto Silva e outros que o precederam perderam a chance de ouvir os clamores mais urgentes da população e da natureza, reflexo do ancestral pecado da egolatria, presunção e poder. E o povo, tadinho, permanece, à beira do cais, a ver navio.  

Café Literário apresenta Nathan Sousa & José Lins do Rego

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Bitorocara e a barra do Maratoã

Antiga igreja de N. S. da Conceição
Antiga igreja de Santo Antônio do Surubim

Bitorocara e a barra do Maratoã

Chico Acoram Araújo
Cronista, articulista e historiador

Ao amigo e grande mestre Dr. Elmar Carvalho

                Como barrense da gema, sempre tive curiosidade em saber um pouco mais da história do meu torrão. Qual a origem, por exemplo, do nome dado ao rio em que minha mãe lavou meus “coeiros”; onde fisguei o primeiro peixe; paraíso em que me empanturrava de alegria nas suas águas mansas e frescas, e lugar do meu primeiro pulo mortal. Mas também, lugar onde observava o canto dos pássaros sobre as frondosas copas das matas ciliares; o voo apressado do Martim Pescador, de plumagem verde-azul reluzente, plainando sobre as águas e sempre aguardando o momento oportuno para, em queda livre, mergulhar e fisgar seu almoço. Local, por fim, do nado lento e mortal do jacaré, sempre à espreita, nas sombras soturnas das árvores descaídas das ribanceiras do rio.

Pois bem, segundo nosso prestigiado escritor e historiador Wilson Gonçalves, em seu Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, o rio Maratoã, como era antigamente grafado, significa o riacho da Pedra Grande, em língua indígena. Isso tem sentido, uma vez que em alguns trechos do rio enormes rochas afloram e permitem, no período de verão, a travessia de pessoas e animais.

Ao descrever o rio da minha infância, lembrei-me do excelso poeta Da Costa e Silva em seus versos “SOB OUTROS CÉUS”, que magistralmente canta o rio Parnaíba em Amarante:      
               
                          IV

“Eu sou tal qual o Parnaíba: existe
Dentro em meu ser uma tristeza inata,
Igual, talvez, à que no rio assiste
Ao refletir as árvores, na mata...

O seu destino em retratar consiste,
Porém o rio tudo o que retrata,
De alegre que era, vai tornando triste,
No fluido espelho móvel de ouro e prata...

Parece até que o rio tem saudade
Como eu, que também sou desta maneira,
Saudoso e triste em plena mocidade.

Dar-se em mim o fenômeno sombrio
Da refração das árvores da beira
Na superfície trêmula do rio ...”        
                                                                              
Foi este desejo de conhecer mais sobre a história do meu torrão, o que me levou a escrever uma crônica com o título “Barras do Marataoan: o Retorno”, publicada, recentemente, em Folhas Avulsas(josepedroaraujo.blogspot.com.br), e no blog de Elmar Carvalho (poetaelmar.blogsport.com.br). Nesse escrito, conto um pouco da história de Barras, a origem do epíteto de terra dos governadores e dos poetas, e elenco alguns dos ilustres barrenses nascidos às margens do Marataoan. Para escrever esse artigo, recorri ao grande poeta e escritor Elmar Carvalho em sua crônica ensaística “Barras – terra dos governadores e de poetas e intelectuais”.

No texto que ora escrevo, volto a falar um pouco mais sobre as origens de Barras, dando um enfoque histórico sobre os precedentes da fundação e povoamento de Barras em meados do século XVIII, e, sobre o seu entrelaçamento com Bitorocara, antiga fazenda de propriedade de Bernardo de Carvalho e Aguiar, pai de Miguel de Carvalho e Aguiar, ambos considerados fundadores da cidade de Campo Maior e Barras do Marataoan, respectivamente. Trato aqui, portanto, da relação que existe entre estas duas importantes cidades fundadas, a primeira, pelo valoroso Mestre de Campo, e a segunda, pelo seu filho. 

Como relatei em minha crônica anterior, Barras surgiu a partir de uma fazenda de gado conhecida como Buritizinho, que se tornou povoado tempos depois. O proprietário dessa fazenda chamava-se Miguel de Carvalho Aguiar, filho do lendário Mestre de Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar fundador da fazenda Bitorocara que ficava encravada nas confluências dos rios Longá (Bitorocara) e Surubim hoje município de Campo Maior.

De acordo com o Pe. Cláudio Melo, Miguel de Carvalho de Aguiar, natural do Rio São Francisco, Bahia, veio para o Piauí por volta de 1714, atraído pela vocação do pai, sendo-lhe companheiro inseparável nos momentos mais duros, partilhando de suas canseiras, angústias e glórias.

É provável que nesse período Bernardo de Carvalho e Aguiar tenha aconselhado ao filho a instalar sua primeira fazenda nas ribeiras do rio Marataoan, uma região de águas abundantes, ricas pastagens, e distante aproximadamente 16 léguas (imperial) da fazenda Bitorocara. É razoável presumir-se que o pai tenha vendido ou doado a Miguel de Carvalho Aguiar uma razoável quantidade gado, bem como autorizado que alguns de seus escravos e moradores fossem ajudar a instalar uma fazenda na barra do Maratoã, na localidade Buritizinho, hoje cidade de Barras, onde muito prosperou.

Miguel de Carvalho e Aguiar tornou-se um abastado fazendeiro da região. Conforme se verifica em seu testamento, transcrito no livro “Barras, Histórias e Saudades” de autoria do ilustre barrense Antenor Rêgo Filho, Miguel de Carvalho declara, dentre outras coisas, ser possuidor de uma grande fortuna:

“Declaro que todo monte de minhas fazendas possuirei quarenta mil cruzados, pouco mais ou menos, a saber, quatro fazendas, uma chamada da BARRAS, NA RIBEIRA DO RO MARATAUAN, NO LONGÁ, e outra chamada Campo (inelegível), e outra chamada São Francisco e outra chamada Arraial, todas na ribeira do Parnaíba, com terras próprias, com todos os gados vacuns e cavalares do meu ferro (inelegível), que dentro delas se acharem (inelegível) mais fábricas a elas pertencentes.
Item: mais ouro e prata e roupas, selas, bancos, mesas e mais trastes que (inelegível) partes para dentro se acharem.
Item: mais 19 escravos, a saber: ...”.

Miguel de Carvalho tinha a patente de Coronel e foi construtor da primeira capela de Barras do Marataoan, onde foi sepultado. Conforme Wilson Carvalho Gonçalves, no seu dicionário já citado, o início da construção dessa capela ocorreu em meados do século XVIII sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição. Gonçalves diz ainda que esse templo foi a célula geradora do povoamento da localidade, em redor do qual se formaram os primeiros sítios, currais e fazendas. A igreja foi, portanto, a primeira forma de ocupação da povoação de Barras do Marataoan.

Em abril de 1730, morre seu pai Bernardo de Carvalho e Aguiar, no Maranhão, muito pobre e como muitas dívidas. O Pe. Cláudio Melo afirma que, por razões desconhecidas, Miguel de Carvalho abandonou o pai, no final de sua vida, deixando-o em extrema pobreza. O Coronel Miguel sente a morte do pai, ao tempo em que lamenta que uma riqueza imensa se diluiu e se transformou em dívida. Sobre esse fato, apenas declarou:

“Nada herdei, por isso não sou obrigado a pagar seus débitos”.

Em seu livro, Antenor Rêgo Filho observa que conta a lenda que um vaqueiro, andando a procura de uma rês desgarrada, encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, talhada em madeira, dentro de uma moita de tucum, localizada onde hoje está erguida a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Barras. Salienta ainda que o Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar, como fervoroso católico, deu início à construção de uma capela em homenagem à mencionada Santa. Antes da conclusão da referida construção o Cel. Miguel de Carvalho veio a falecer, deixando parte da sua fortuna para um sobrinho de nome Manoel da Cunha Carvalho, filho de sua irmã Antônia de Carvalho Aguiar que morava na Bahia. O inventário de Miguel de Carvalho e Aguiar, datado de 9 de dezembro de 1749, revela que este não teve filhos:

“Declaro que sou casado na cidade da Bahia com dona (inelegível), da qual não tenho filhos nem outros alguns herdeiros forçados, e depois de casado, pouco meses, vieram os parentes da dita minha mulher e a tiraram violentamente de minha casa, com tudo quanto tinha trazido de seu para meu poder e até o presente, não tenho feito vida material com ela."

Os motivos da separação do Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar com sua esposa são desconhecidos.

Alguns anos após a morte de Miguel de Carvalho, seu herdeiro Manoel da Cunha Carvalho deu continuidade à construção da capela.

Diz também Antenor Rêgo Filho que, em 1804, ao redor da capela de Nossa Senhora da Conceição já existiam algumas casas de telhas e várias de palha. A dois de abril desse mesmo ano morre Manoel da Cunha Carvalho, então dono de imensa quantidade de terras, herdadas, do tio, deixando, em testamento, para Nossa Senhora da Conceição, uma vasta gleba de terra, compreendendo uma légua em quadra, exatamente onde se localizava a capela recém-construída, e a fazenda Buritizinho, incluindo mais, todo o gado bovino e demais animais e benfeitorias. Daí a razão porque todas as terras onde se localiza a sede do município de Barras pertenciam ao patrimônio da paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

Com o falecimento de Manoel da Cunha de Carvalho, é nomeado Francisco Borges Leal Castelo Branco para a administração do patrimônio da paróquia de Nossa Senhora da Conceição.

Em 1806, conclui-se a reforma e pintura da capela, iniciando-se, assim, o povoamento da localidade. A fazenda Buritizinho dava lugar à “POVOAÇÃO DAS BARRAS”. Três anos depois, existia já um arruamento de várias casas, onde já havia um desenvolvimento da povoação; registra Antenor Filho.

Segundo ainda Antenor Filho, em 22 de agosto de 1819, Francisco Borges Leal foi substituído por José Carvalho de Almeida, filho de Barras. E foi por iniciativa desse novo administrador, que o Presidente da Província do Piauí, em data de 27 de setembro de 1826, solicitou ao Governo Imperial a criação de uma Freguesia no povoado de Barras, e sua elevação à categoria de Vila. Pela Lei Provincial de nº 656, de 2 de setembro de 1836 e a Instrução da Presidência da Província, de 9 de setembro do mesmo ano, foi a povoação erigida a Distrito de Paz.

Barras só veio ser elevada à categoria de Vila em 24 de setembro de 1841, através da Lei nº 127 e, de fato instalada, a 19 de abril de 1842. 

Finalmente, pelo Decreto nº 01, de 28 de dezembro de 1889, do então Governador do Estado, Gregório Taumaturgo de Azevedo, ilustre filho de Barras, foi elevada da categoria de Vila para a de Cidade, com o nome de Barras do Maratahoan.

Assim, a história nos mostra que Bitorocara tinha uma estreita ligação com a barra do Maratoã, ou seja, com a minha Barras do Marataoan.


            Sobre a história da minha terra natal, faço aqui uma interrupção estratégica para não cansar e não provocar tédio aos leitores que, por acaso, se dispuserem, generosamente, ler esta crônica. Em outra oportunidade, quiçá continue eu a recontar fatos históricos de Barras do Marataoan.

Fonte: blog Folhas Avulsas

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Elmar Carvalho: Poemas Inéditos *


Elmar Carvalho: Poemas Inéditos *

Cunha e Silva Filho

           No meu ensaio de introdução à Lira dos cinquentanos, [1] de Elmar Carvalho, antologia poética, não levei em conta o conjunto  de poemas da seção “Poemas Inéditos,” porque só fui conhecê-los depois de publicada a antologia. São nove poemas inseridos no corpus de poemas enfeixados na antologia.

        Desses  poemas quatro aparecem com data de composição, ou seja, “Chuva” (p.97), de 2002; “A cova do palhaço”(p.107-108), de 2005 e “Simbolismo” (p.111), de 1978, curiosamente, como  se vê, um poema antigo.

         “Pinheiros vistos da janela” (p.109), “A um ganancioso morto” (113), “Guernica” (p.105-106),  Autoantropofagia” (p. 110), “Te(n)tação (p. 112) e “Viagem” (p. 114-118) não vêm com a data  em  que foram  escritos   os poema.. À vista desses dados informativos, me cabe fazer algumas  ponderações  de ordem crítica acerca desse  conjunto de poemas e ao mesmo  tempo procurar situá-los no conjunto geral  da produção poética do  autor.

    Da leitura desses  inéditos  há um aspecto que devo  apontar na  poética de Elmar Carvalho, i.e., vejo com satisfação que,  excetuando “Simbolismo,” de datação bastante antiga, segundo  assinalei atrás, embora seja um  poema de bom nível, os oito  poemas mais novos – pois  me parecem que os não datados são também  de fatura recente –  se me afiguram  sinalizar uma ultrapassagem de nível no trato do autor com o exercício da poesia. Vejamos por quê.

   Na ordem em que os poemas aparecem na  seção de “Poemas Inéditos,” vemos, inicialmente, “Chuva,” um longo  poema, verdadeiro  hino à natureza, particularmente exemplificada no elemento “Chuva.” O poema me sugere uma sinfonia, uma orquestração formada de estrofes nas quais a extensão do  olhar do sujeito lírico abrange a paisagem humana e sobretudo o conjunto de objetos e seres da natureza em todos os seus ângulos e espaços  considerados.

       Entretanto, é na dimensão da linguagem  poética  - fator determinante da sua  qualidade  – que, a meu ver,  o poema se qualifica como peça literária  original e de acabamento  refinado. Não hesitaria em considerá-lo um grande momento da lírica de Elmar, da mesma forma que no poema  “Viagem,” que mais adiante comentarei,me deparo com outro  grande instante de puro e profundo  mergulho lírico  conseguido pelo  poeta, Em “Chuva”, todo o  poema se assenta nas suas múltiplas  possibilidades rítmicas, melódica,, musicais e sinestésicas.

       Aqui o poeta me parece ter logrado o enlace perfeito entre o significado das ideias e sua  forma de expressão  linguística. É bem verdade que Elmar, em  poemas anteriores, já tenha  empregado alguns   recursos estilísticos que se constituem em marcas  inconfundíveis de sua  poética, como  o ludismo sonoro-plástico-gráfico-sinestésico., o gosto pelas paronomásias, a palavra-puxa-palavra, a obsessão,  às vezes, exagerada pelas aliterações.

       O poema “Chuva” se distingue,segundo  acentuei anteriormente, pela sua  riqueza de sonoridades, de onomatopeias, sem se falar  no recorrente uso intertextual,  quer dizer, do diálogo com  outros  poetas, como é exemplo o verso “foi-não foi, foi-não foi tirado do poema de Manuel Bandeira (1886-1968), “Os sapos” da obra  Carnaval (1919),[2] através do qual, no Modernismo de 1922, o poeta pernambucano ironizava o Parnasianismo e principalmente, segundo Mário da Silva Brito,  "o pós-parnasianismo,” visando a alguns  poeta  conhecidos,  inclusive Olavo Bilac(1865-1918), numa das noites da Semana de Arte Moderna , no Teatro Municipal de São Paulo.

    A propósito,   esse  poema bandeiriano,  naquela Semana modernista, foi declamado  pelo também  poeta, diplomata e historiador  literário Ronald de Carvalho (1893-1935). Numa declamação feita sob os assobios, as zombarias do público reacionário que repetia em coro “foi, não foi.” O fato é narrado pelo  próprio Bandeira n o seu  Itinerário  de Pasárgada. [3]

       No segundo poema, “Canção Pastoril de um Urbanóide,” o poeta  põe-se em choque com a modernidade  estabelecendo, ao final  do  poema, um contraponto a um tempo irônico e elegíaco entre as delícias e naturalidade da vida do campo e a solidão do concreto armado das grandes cidades.
       
Em “Guernica,”  defrontamo-nos com outra alusão  intertextual, numa veemente crítica ao absurdo das guerras e da insanidade dos homens, destacando-se a estrofe com  palavras iniciadas,  iconicamente, pelo fonema velar sonoro, formando uma inventiva  estrofe aliterada quase  por inteiro, à semelhança   do célebre verso “vozes,  veladas,  veludosas vozes,”   que fazem parte de Faróis (1900) de Cruz e Sousa (1861-1898).

       Em “Pinheiro visto da janela,” de volta à natureza e a seus  elementos multifários, encontramos o lirismo como sinônimo de musicalidade, de sonoridades,  em versos cuja arquitetura vai ao encontro de imagens focadas nos seres inanimados, à procura de um sentido, cuja chave se encontra no próprio jogo das palavras  pelas palavras.

       Em “Autoantropofagia,” a lírica se desliriciza num  poema de corte surreal. No poema “Simbolismo,” com data, conforme indiquei anteriormente, de 1978, tem-se uma peça que se utiliza do recurso intertextual de cunho histórico, em que a longeva e milenar imagem da Esfinge egípcia, cuja figura aprendemos nos livros de História, ou mesmo  nas telas  do cinema, serve como  pretexto para uma  reflexão derivada de uma motivação também surrealista.

       Em “A cova do palhaço,” recorrendo também à citação alusiva (Heine), Elmar põe  em cena a figura de um  palhaço eslavo reduzida ao  um destino nostálgico e irremediavelmente  solitário.

       O poemeto “Teia de te(n)tação, de recorte concretista, chama a atenção pelos recursos grafemáticos e espaciais, cujo epicentro do significado repousa na exploração de uma lubricidade porosa, solta, mas de grande efeito semântico-humorístico: “tateando/tenteando/tintilando/tuas tetas/caí em te(n)tação, entrei em tantação.” De resto, essa dimensão  jogando com o erótico- humorístico   já aparece  em outros  poemas de sua obra. Vejam-se-lhe os poemas  “Sex Appeal” (p51) “A ero moça” (p.56), “Sexo”(p.66) [4]      

       “A um ganancioso morto.” nos defrontamos com um  poema de clave filosófica, no qual se fala de alguém que, sendo ambicioso, de nada lhe valeu o apego à matéria.

       No último poema da seção “Viagem,” o poeta, mais uma vez,  escreve um longo e denso trabalho  de dimensão cósmica, universal. Poema abrangente, de andamento  épico -  recurso por ele já testado com sucesso mais de uma vez – no qual o sujeito lírico empreende uma “viagem” que vai dos elementos minimamente  divisíveis da matéria física, dos átomos, dos minúsculos recantos da natureza animal, vegetal e mineral, das superfícies da Terra às profundezas  oceânicas, da solidão do nosso  planeta às culminâncias planetárias, do profano  ao sagrado, da realidade histórica aos mitos. Não satisfeito, o poeta adentra o universo misterioso e encantatório da astrologia, criando magníficas imagens para cada  signo do Zodíaco. 

       São tantas as incursões em universo  vários  que esse  poema nos lembra o complexo universo das partículas  quânticas. Penso que esse  bem urdido  poema, pela ascendência literária,  tem  um  pouco a dever, mutatis mutandi,  em inspiração e tema ao Zodíaco (1917) de Da Costa e Silva (1885-1959).

       Digo  isso porque o poema de Elmar consegue combinar componentes   e aspectos diversos da natureza, emprestando-lhes alcance universal e sentido de ubiquidade. Entretanto,  essa “viagem” cósmica, entremostrada pela sua   poesia, não o leva a uma postura  cética de criação do Universo. Sua poesia vai -  célere -  a um encontro de natureza confessadamente  cristã. Sua  viagem é cósmica – devemos reconhecer -, mas seu encontro é com  Deus.

       Os poemas que aqui apenas  esquematicamente  comento dão, sim, sinais evidentes de que Elmar Carvalho – um dos melhores  poeta contemporâneos do Piauí - , ainda demonstra  muito  vigor e veia  poética para novas   incursões nos domínios do verso de qualidade.

[1] CARVALHO, Elmar. Lira dos   cinqüentanos. 1. ed. Teresina: Fundação de Apoio Cultural do Piauí – FUNDAPI, 2006.
[2] BANDEIRA, Manuel. “Os sapos.” In: ___. Carnaval. (1919). Cf. BANDEIRA,   Manuel. Poesia  completa e prosa . Org. pelo autor.  Rio de Janeiro: Editora  Nova  Aguilar S.A, 1986. p. 158-159.
[3] Idem, p. 59.

[4] CARVALHO, Elmar. Rosa dos ventos  gerais. 2. ed. rev. aumentada e melhorada. Teresina: SEGRAUS – Serviços Gráficos do Tribunal de Justiça do Piauí, 2002.   

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

BREVES ANOTAÇÕES SOBRE BITOROCARA


BREVES ANOTAÇÕES SOBRE BITOROCARA

Chico Acoram Araújo
Historiador e cronista

            O ilustre poeta e escritor Elmar Carvalho em seu livro “Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara”, capítulo III (A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA), sustenta que, - assim como todos os maiores historiadores do Piauí, - a fazenda Bitorocara localizava-se realmente nas imediações dos rios Longá e Surubim. Assim, pode se aferir que a origem do nome da fazenda de Bernardo de Carvalho decorreu do fato de que esta propriedade estava localizada próximo ao rio Bitorocara, hoje Longá. Para provar a existência dessa propriedade, Elmar Carvalho recorre várias vezes ao padre Cláudio Melo, considerado um dos maiores historiadores do Piauí. No mencionado capítulo III do seu livro, o escritor destaca alguns comentários de Cláudio Melo, como o que a seguir transcrevo:

 “Todos os maiores historiadores do Piauí afirmam haver existido a fazenda Bitorocara e seu fundador Bernardo de Carvalho Aguiar, a começar pelo mais antigo, o padre Miguel de Carvalho, em sua descrição do Sertão do Piauí, datada de 2 de março de 1697. Quase todos admitem que essa propriedade ficava situada em Campo Maior. E como exceção ou voz discordante, um ou outro admite haver dúvida a esse respeito. (...)”.
“De início, eu supunha que o riacho Bitorocara era o Surubim, em razão de a Fazenda Bitorocara ser a atual cidade de Campo Maior. A descoberta da sesmaria de Dâmaso Pinheiro de Carvalho, nas cabeceiras do riacho Cobras, me fez ver que Cobras é o Surubim, Bitorocara, portanto, ou seria o Longá ou o Jenipapo. Surgiu em mim um impasse: a fazenda Serra fica no Longá e o Jatobá no Jenipapo. Como os limites da fazenda Serra não atingem o Jenipapo, mas os limites da fazenda Jatobá podiam chegar até o Longá, concluí, por fim, que Bitorocara seria o Longá. A fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles. ”

Assim, pelos comentários e explicações de Pe. Cláudio Melo, indubitavelmente, não há dúvidas quanto à existência do rio Bitorocara e a fazenda de mesmo nome, encravada em suas imediações, em cujo entorno se formou um arraial (inicialmente militar) onde foi construída a igreja de Santo Antônio do Surubim, hoje a atual cidade de Campo Maior.

 Por sua vez, falando sobre a existência de Bitorocara, o prestigiado escritor João Alves Filho, Presidente da Academia Campo-maiorense de Artes e Letras – ACALE, em palestra proferida sobre os 300 anos da igreja de Santo Antônio, disse que “o português Bernardo de Carvalho e Aguiar, quando aqui chegou, no ano de 1692, encantou-se com os recursos naturais e com a beleza do lugar. Inicialmente, fundou seu primeiro curral em local que deu o nome de “Cabeça do Tapuio”, hoje município de São Miguel do Tapuio. Em seguida, com o propósito de conquistar novas terras, no ano de 1695, instala uma nova fazenda na confluência dos rios Longá e Surubim, dando o nome de Bitorocara em homenagem a uma cidade de Portugal. Disse ainda que Bernardo de Carvalho e Aguiar, depois de um ano residindo nesse lugar, recebeu a visita do Padre Miguel de Carvalho, que instalara a Freguesia da Mocha, hoje, a cidade de Oeiras, com o objetivo de ampliar suas atividades religiosas na região.

João Alves relata também que em 1710, Bernardo de Carvalho e Aguiar recebe a visita do Padre Tomé de Carvalho, e toma a decisão “de dividir seu rebanho, construindo em Bitorocara uma igreja, por se encontrar a região, a 600 quilômetros da Vila Mocha”. Bernardo de Carvalho e Aguiar como bom religioso deu ao Pe. Tomé todo o apoio material e humano para a construção da primeira igreja às margens do Longá e do Surubim, e a deu por invocação ao Glorioso Santo Antônio de Pádua. A solenidade de inauguração da igreja, celebração da primeira missa e instalação da imagem de Santo Antônio, aconteceu no dia 12 de novembro do ano de 1712.

No livro Bernardo de Carvalho O Fundador de Bitorocara, Elmar Carvalho lembra que o romancista e historiador Afonso Ligório Pires de Carvalho destacou que o padre Cláudio Melo adquiriu a certeza de que Campo Maior teve a sua origem a partir da fazenda Bitorocara ao ler o testamento de Miguel de Carvalho e Aguiar, filho de Bernardo de Carvalho.

Por outro lado, o ilustre escritor e poeta anexa como prova de que Bitorocara é a atual cidade de Campo Maior, o fato de a antiga igreja de Santo Antônio do Surubim ter sido construída por Bernardo de Carvalho Aguiar e batizada em 12.11.1712, a pedido de seu sobrinho, o Pe. Tomé de Carvalho, argumentando ainda que as igrejas de antigamente sempre eram construídas pelos fazendeiros nas proximidades da casa-grande ou residência, em terras de sua propriedade ou posse. E a igreja de Santo Antônio do Surubim não poderia ser diferente, daí a convicção de que esta foi construída em suas terras, próximas aos rios Longá e Surubim.

Há, no entanto, quem pense diferente. Em recente trabalho publicado por um autor campo-maiorense ele afirma que a Fazenda Bitorocara não estava localizada em Campo Maior, mas nas proximidades onde estão situados os municípios de São Bernardo, Maranhão, e Luzilândia e Campo Largo, do lado do Piauí. Ou seja, a referida fazenda estava encravada em ambas as margens do rio Parnaíba, afirmando ainda que o “Arraial Velho e a Bitorocara são termos sinônimos da mesma fazenda”. Baseou-se o novo trabalho no pressuposto de que a Data Arrayal, de propriedade de Miguel de Carvalho Aguiar, filho do Mestre de Campo Bernardo de Carvalho, seria a mesma fazenda Bitorocara, cuja denominação passou a ser mencionada como Arraial Velho.

Por considerar uma tese simplista, o eminente escritor e poeta campo-maiorense Elmar Carvalho discorda frontalmente dela e alerta que “Arraial (velho ou não) é um topônimo genérico, e que designa vários locais do Brasil, e também do Piauí”. No caso do Piauí, o escritor cita, por exemplo, o que deu origem ao município de Jerumenha, o dos Aroases, o dos Paulistas, o de Nossa Senhora da Conceição, o dos Ávilas, e o que originou a atual cidade e município de Arraial. Afirma ainda que na fazenda Bitorocara, entorno da igreja de Santo Antônio do Surubim, formou-se também um arraial.

Incansável na sua luta para provar que a velha fazenda de Bernardo de Carvalho e Aguiar ficava mesmo próximo ao rio Bitorocara, que seria o mesmo Longá. Elmar Carvalho justifica ainda que, em termos cronológico e documental, Bitorocara jamais poderia se referir ao Arraial Velho do rio Parnaíba, uma vez que o documento a este correspondente é datado de 1739, enquanto a referência à fazenda Bitorocara, apontada pelo Pe. Miguel de Carvalho é de 1697, conforme explicita em relato publicado sob o título de Descrição do Sertão do Piauí.

Acobertado pelas provas documentais existentes, o ilustre escritor e poeta afirma sem rodeios que:

“O certo é que o Arraial Velho que deu origem à cidade de São Bernardo (MA) não é e nem poderia ser o Arraial Velho que formou a cidade de Campo Maior. ”

E vai mais além, ao afirmar que o Pe. Miguel de Carvalho, autor do mencionado relatório, em sua desobriga, “percorreu apenas as terras que ele entendia como pertencentes à freguesia de Nossa Senhora da Vitória, conforme explicitou o padre Cláudio Melo em seus comentários (v. bibliografia) ”.

“Ora, se o padre Miguel de Carvalho sequer percorreu todo o território do atual estado do Piauí, com muito mais razão não poderia ter ido até os atuais municípios de Brejo e de São Bernardo, no Maranhão (em cuja região veio a ser situado o Arraial Velho), que pertenciam a outra jurisdição eclesiástica. Consequentemente, a fazenda Bitorocara a que ele se referiu em seu relatório ficava mesmo no rio Longá, perto de onde fica a atual cidade de Campo Maior. ”

Ao final do capítulo III do seu livro “Bernardo de Carvalho, O Fundador de Bitorocara (2ª edição virtual), o ilustre escritor, de forma peremptória, conclui:

“Em consequência o arraial militar, ou arraial, ou ainda arraial velho referente a Campo Maior, que se formou no entorno ou perto da igreja de Santo Antônio do Surubim, não pode, em hipótese nenhuma, ser confundido com o Arraial Velho maranhense, localizado perto do Parnaíba. Mesmo porque Bernardo de Carvalho e Aguiar, último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão só se mudou para atual cidade de São Bernardo, da qual é considerado fundador, em 1721, quando deixou o cargo.
A fazenda Bitorocara, portanto, ante tudo o que expusemos, ficava na confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo, o que, admitamos, era estratégico, uma vez que haveria suprimento de água para consumo humano e do gado, e para a formação de pastagem, além de que seriam evitados problemas com eventuais confrontantes, porquanto os limites ficariam bem estabelecidos por esses cursos d’água”.


Diante dessas breves anotações não há como duvidar da existência da fazenda Bitorocara, que se transformou em Arraial Velho, local onde foi construído um templo dedicado a Santo Antônio. Sua localização na confluência dos rios Longa (Bitorocara) e Surubim é incontestável, tomando-se por base as tratativas do insigne poeta e escritor campo-maiorense Elmar Carvalho, baseadas em pesquisas realizadas em registros históricos da lavra de respeitáveis historiadores piauienses como os Pe. Miguel Carvalho e Cláudio Melo. Ademais, o ilustre escritor João Alves Filho, o historiador Gilberto de Abreu Sodré Carvalho e o cronista Antônio Francisco de Sousa defendem e comungam da argumentação defendida por Elmar Carvalho. E, por tudo que li até agora sobre o assunto, acredito piamente que a fazenda Bitorocara realmente existiu nas confluências dos rios Longá e Surubim. “SITUAR BITOROCARA É FÁCIL, ESTÁ NA CARA”, como diria meu amigo Francisco Almeida, grande cordelista e Advogado da União, em sua mais recente obra publicada no Blog do Elmar Carvalho.