quinta-feira, 21 de abril de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo II

Foto meramente ilustrativa

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

Capítulo II

O DONO DO CÉU

Elmar Carvalho

Marcos Azevedo cursava o terceiro ano ginasial no Liceu Eborense. Tinha certo pavor à matemática, e estudava apenas o suficiente para passar de ano. Entretanto, era um dos primeiros alunos em História, Geografia, Português, Literatura e outras disciplinas da área de Humanidades.

Ele e mais cinco colegas do Liceu idealizaram um jornal mural, que tinha colunas com notícias, informações sociais, artigos, crônicas, contos e poemas. Era um de seus principais colaboradores, sobretudo com matérias literárias. Eventualmente divulgava seus textos através de fotocópias e mimeógrafo. O Arauto, assim se chamava o jornal estudantil, dispunha de um talentoso desenhista e pintor, Mário Cunha, que lhe fazia as caricaturas, charges e ilustrações. Ele e Marcos eram grandes amigos.  

Por intermédio de seu pai, vez ou outra, publicava contos e crônicas no jornal tipográfico A Batalha, o único de Évora, na época. Escrevia seus textos à mão, com um emaranhado de correções, cortes e acréscimos, e depois os datilografava na velha Remington de seu pai. Por estudar à tarde, reservava a manhã para ler livros literários (muitos deles tomados por empréstimo de particulares e da biblioteca pública), bem como estudar e escrever.

Por volta das nove horas, saiu com o objetivo de se encontrar com seus amigos no Liceu, e trocarem as velhas matérias por novas, para que o jornal mural não perdesse a grande receptividade que tinha entre os alunos e professores do colégio e mesmo entre outras pessoas da cidade.

Ao passar pela Vila Inglesa, que tinha um grande terreno descampado na frente, viu uma linda garota loura, muito alva, de pele muito fina e sedosa, de olhos azuis. Ouvira falar que ela era uma neta do alto comerciante James Cavalcante Taylor, proprietário da Casa Britânica, a mais poderosa empresa do estado, com filiais em várias cidades do Brasil.

Marcos olhou para a jovem e lhe admirou as curvas e a beleza longilínea e esbelta; seus cabelos longos e dourados faiscavam à luz do sol, levemente agitados pela brisa que vinha do grande lago Galileia, situado perto. O rapaz, além de sua discreta timidez, ou por isso mesmo, cultivava certo retraimento orgulhoso, nos primeiros contatos. Mesmo assim olhou novamente para a ninfa, que lhe observava, a segurar sua nova e cara bicicleta, cheia de enfeites cromados e reluzentes. Seguiu adiante, sem apressar ou diminuir a velocidade.

Marcos não estranhou o olhar da moça, afinal era considerado um belo tipo de rapaz, moreno claro, de boa estatura e olhos esverdeados.

– Ei! Menino, venha cá – ouviu a garota chamá-lo, com uma inflexão que lhe pareceu levemente imperiosa. Foi até onde ela estava, com as suas roupas caras e a sua rica bicicleta. Notou-lhe certo desdém no semblante e o olhar incisivo de quem se considerava acima dos outros.

– Você sabe de quem é esta Vila? É do meu avô.

E vendo estampada a perplexidade nos olhos do rapaz, continuou de forma fria e com certa arrogância:

– Você sabe de quem é este terreno onde nós estamos e que vai até acolá?... – e estendeu o indicador, como se quisesse abarcar o mundo todo. É do meu avô.

Marcos ficou decepcionado com essa moça tão linda, mas tão tola em sua ridícula presunção. Mais do que decepcionado ficou aborrecido, e o sangue lhe subiu à cabeça. Ele não sabia, algumas vezes, se conter, especialmente quando achava que o seu amor próprio havia sido golpeado; e se tornava impulsivo, sem medir as consequências de seus atos ou palavras. Por isso, fixando nos olhos a bela ninfa dourada, de rosto angelical, disse com toda sua altivez e desprezo:

– E, por acaso, seu avô é também o dono deste céu que nos cobre e deste ar que respiramos?


Virou-lhe as costas, e sequer ouviu o seu arremedo de resposta. Seguiu firme, com os versos do poeta Carlos Pena Filho a lhe borbulharem na cabeça e na alma: “Deu-lhe o frio esquecimento. E mais não podia dar.” Contudo, não a esqueceu inteiramente, e aquela beleza de cachopa presumida e fútil ainda o perseguiria por muitos anos.   

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Escolas militares, urgente!


Escolas militares, urgente!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Colégio Estadual Governador Dirceu Arcoverde, de Teresina, próximo à Avenida Kennedy, fundado em 1978, dirigido, durante anos, por autoridade da Polícia Militar, mas sem regime militar. Só em 2015, a secretária de Educação, Rejane Dias, do PT, inaugurou as novas instalações e instituiu a experiência do regime militar, iniciativa brilhante que já vem produzindo excelentes resultados e aplausos, tanto dos 400 estudantes matriculados no ensino médio, em regime integral, quanto das famílias.

         Percorrendo corredores e salas, acompanhado por uma psicopedagoga ou inspetor militar, fardado, tive a sensação de voltar ao passado das escolas públicas, dirigidas por respeitáveis diretores e professores, cuja autoridade era aplaudida pelos estudantes e pais. Cantava-se o Hino Nacional, em pé, postura ereta, seguida de preleções cristãs e cívicas. A disciplina estabelecia fardamento, calçados e meias padronizadas. Não se forneciam livros e refeições de graça, apenas merenda rasa.

         A Escola Dirceu Arcoverde revive a experiência que deu certo, no passado, e que produziu cidadãos de notável conduta cristã e patriótica, que resplandecia na organização da família.

         Veem-se estudantes impecavelmente fardados com insígnias militares, moças e rapazes de boina na cabeça, em fila, eretos, cantando hino cívico, ouvindo a “Ordem Unida”, sobre disciplina, a marcha, continência, oração, missa ou culto evangélico, ensino e práticas culturais. O prédio nem se assemelha ao desconforto, imundície, instalações improvisadas das escolas públicas, em geral.

         Apenas em Minas, mais de 20 mil alunos matriculados em nove escolas do Exército e da Polícia Militar. O Estado de Goiás coloca-se à frente. Segredo? Normas rígidas, consciência cívica, exercício do dever, inclusive ético e religioso.

O sistema de educação militar expande-se pelo Brasil com aplauso dos próprios estudantes, mas criticado por movimentos de esquerda marxista, inclusive em Teresina, onde funciona a primeira escola. O policial militar que me acompanhava orgulhava-se de mostrar o refeitório com instalações modernas, qualidade dos lanches e refeições acompanhadas por nutricionista: “Aqui, tudo é limpo, disciplinado e conservado. E de graça. Malandro não quer vir pra cá, porque sabe o duro que vai dar, inclusive para passar no teste seletivo”. E adianta: “A procura por uma vaga é diária”.

A experiência da escola militar, no Piauí, apenas começou, com a brava coragem de Rejane Dias, oriunda de um partido frouxo para com desocupados, e aberto a direitos, sem cobrança de deveres e méritos. A secretária poderia avançar, começando pelo Liceu: confiando, pelo menos, a direção e coordenação a educadores militares. Nem precisaria chamar a polícia para se postar à frente do colégio para combater criminosos.


Em meio às críticas, um fenômeno curioso, alheio a tudo, chama a atenção: a sociedade que busca o conhecimento que liberta, cresce, cada vez mais, a demanda por colégios militares pelo país.   

terça-feira, 19 de abril de 2016

Comentário sobre o 1º capítulo de Histórias de Évora


Comentário sobre o 1º capítulo de Histórias de Évora

Cunha e Silva Filho
Cronista, memorialista e crítico literário

"Histórias de Évora". Esse é o título de um livro de ficção no gênero romance, conforme o próprio autor anuncia, nesse espaço de seu conhecido blog, esse novo trabalho de sua vida de escritor.

Não é sua estreia de ficcionista, visto que anteriormente, a espaços, já escrevera textos que eu poderia rotular de ficção. Foram mini-contos, ou mesmo contos mais longos.

O título faz pensar em uma série de contos, mas creio ser apenas um modo de referir-se à forma contínua de uma unidade de textos que avancem em direção a uma estrutura de maior fôlego com a intenção de amoldar-se ao gênero do romance, de resto, já declarado pelo próprio autor: "Este romance será publicado..." [...]

Seguindo o costume de outros autores, cada capítulo terá um título alusivo a episódios específicos desenvolvidos na trama.

"Triângulo encantado" é um desses episódios. Já nele surgem alguns elementos estruturais da narrativa que, pelo menos nessa parte, dá um andamento no qual se percebem o interior e o exterior de uma personagem de nome Marcos, uma adolescente em seus primeiros anos e em toda a sua força da libido, irrefreável no alvorecer da puberdade.

Neuza é o pivô desse vendaval de sensualidade sexualidade.

Espaço e tempo são delineados: o jovem está em sua própria casa. Tem irmãs, tem seus pais. E tem a empregada, Neuza, o fruto proibido que é preciso desvendar.

Entretanto, ao fixar a vista para uma porta entreaberta, numa madrugada silenciosa, defronta-se com uma espécie de visão do paraíso carnal, numa cena eletrizante, enlouquecedora.

À sua frente seus olhos se detêm na parte mais sensível de seu arroubo juvenil.

O "triângulo encantado" é um sintagma que marca para sempre a imagem do sexo feminino num momento de quietude corporal e de êxtase, misturado ao desejo incontido mas refreado pelos interditos ou códigos de honra familiar e medo de reações tanto decorrente do objeto cobiçado quanto do medo de transgredir padrões arraigados na conduta familiar, sobretudo por ocorrer no recesso sagrado do lar.

Aquele objeto proibido provoca o frêmito da posse quanto ao sentimento abortado de mais uma vez repetir-se aquela cena em fogo.

Marcos se surpreende com o despertar de Neuza ao flagrar o adolescente fruindo a antecipação orgástica.

Ele teve a certeza de que não seria recriminado por ela diante de seus pais. Ficaria entre os dois apenas aquele instante de êxtase secreto em início de uma cena viva de nudez.

A descrição visual é perfeita nos seus traços firmes do desenho geométrico expresso pela metáfora do sexo.

É nesse ponto que o jogo da linguagem se torna um componente primordial da descrição com seu potencial de sensualidade e volúpia.

Repare-se que nesse capítulo não há diálogo explicito. Tudo se constrói na base da visualidade voltada para o centro deflagrador da cena inesquecível e jamais fisicamente apagada da memória do adolescente posto que misturada com a frustração da vontade não satisfeita.

A linguagem opera no texto, sem descambar para o grotesco e o pornográfico rasteiro, como se fora uma tomada de uma cena fílmica, em close focando toda uma região do corpo feminino que a masculinidade não se cansa de cultuar com a obsessão e a curiosidade desde tempos imemoriais, seja na pintura, na escultura, seja na fotografia, seja no cinema ou teatro.

“O triângulo encantado" é o fetiche supremo da masculinidade ou até mesmo para as cultivadoras do lesbianismo.

Volto ao título e fico a atinar: por que Évora? Ao que tudo indica , será um nome de lugar. Agora, me lembro, não sei por que, de Eça de Queirós, assim com da cidade de Évora, em Portugal. Há alguma ligação intersemiótica com o espaço físico do romance de Elmar Carvalho? Só saberei quando ler os próximos capítulos.

Esse início já me aponta para uma boa narrativa. Esperemos que o seja.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

GRATIDÃO AUDÍVEL


GRATIDÃO AUDÍVEL

Jacob Fortes

Agradeço a DEUS pelas bênçãos inumeráveis: pela vida; pela saúde; pela água; pelo ar; pelo pão; pela família; pela pátria (escangalhada, vilipendiada); pelos parentes; pelos amigos; pelos calos de cada mão; pela fauna e flora; pelos que me serviram (não como a servos: estes nunca os tive; nunca os terei).

Apesar de reconhecer esses generosos benefícios, confesso não viver consoante a vontade de Deus, inclusive porque, mortal reles e mal iluminado, não aprendi a reconciliar-me com todas as coisas do universo. Mas bem sabes, ó DEUS — empenhado em perdoar aos que delinquem — que a perfeição não é característica dos humanos.


Obrigado meu DEUS, por tudo. Não TE evocarei em vão, mas se encontrar-me turvo invocarei a TUA misericórdia!    

O primeiro magistrado de Bom Jesus do Gurgueia

Prédio do TJPI

O primeiro magistrado de Bom Jesus do Gurgueia

Licínio Barbosa (*)

Lembro-me de vê-lo, aos 6 anos de idade, ainda na fase de alfabetização, entrando na igreja do Bom Jesus, participando das novenas, interagindo com os bonjesuenses de todas as categorias, magro, alto, comunicativo , acessível a todos, – velhos, jovens e crianças, sempre sorridente. Essa acessibilidade deu-me coragem de ir até ele e fazer-lhe uma indagação:

– Doutor, para chegar a ser juiz de Direito o senhor começou do ABC?

– O magistrado parou, olhou-me cheio de curiosidade, e retruco – Sim, Licínio. Por quê?

– Porque eu também quero ser doutor, mas estou achando muito difícil – justifiquei.

Casado com Dona Othília Cardoso de Vasconcelos Lopes, teve, desse feliz consórcio, os filhos Maria Cristina, (que povoou o meu imaginário infantil), Maria Celina, Maria José, Benito, Zélia, Zita, Miriam, Zenaide, José (Zezito), Anete, Luiz (Luzito) e Honorina. Dessa nominata de 12 filhos, algumas ilações: ex-aluno de Seminário, deu às filhas 4 nomes de Maria (uma das quais Miriam), um com o nome de José (marido de Maria), e um filho de nome Benito, em homenagem ao seu ícone político, Benito Mussolini, à época em ascensão, na Itália.

O mítico magistrado de Bom Jesus nasceu a 15 de janeiro de 1905, no povoado de Ipiranga, mais tarde elevado à condição de município autônimo, côo cidade, e era filho de Pedro Paulo de Oliveira Lopes e de Dona Ana de Holanda Lopes.

Após o Curso de Humanidades nos Seminários de Santo Antônio (de São Luis, Maranhão), e Sagrado Coração de Jesus (Teresina-PI), ingressou, já casado, na Faculdade de Direito, onde concluiria o Curso Jurídico, em 1936, colando grau na primeira turma da Faculdade de Direito. Decidiu, então, seguir a carreira da magistratura, sendo nomeado Juiz Substituto do Termo Judiciário de São Pedro do Piauí, no ano de 1936. Quatro anos mais tarde, 1940, foi promovido a Juiz de Direito tendo o Termo sido elevado à categoria de Comarca, ano em que foi designado para a Comarca de Bom Jesus do Gurgueia, Comarca de 2ª Entrância, donde retornaria à Comarca de São Pedro, então elevada a Comarca de 2.a Entrância, no ano de 1950.

No ano de 1954, foi promovido à categoria de Juiz de Direito de 3ª Entrância com jurisdição sobre a Comarca de Amarante/PI, cidade à margem direita do Rio Parnaíba, cantado em famosos versos por Da Cosa e Silva, o mais famoso poeta do Piauí.

Após um ano de judicatura, em Amarante, foi removido, a pedido, para a Comarca de Oeiras, a bicentenária ex-Capital do Piauí, onde permaneceu de 1955 a 1962, quando foi promovido para a Comarca de Parnaíba, de 4ª Entrância, famosa Cidade do Delta, e, também, na prosa memorialista de Humberto de Campos, notadamente por seu legendário Cajueiro, sem dúvida a página mais brilhante das memórias do grande poeta de Miritiba/MA.

Convocado pelo magistério, lecionou Geografia, Latim e Língua Portuguesa no Seminário Sagrado Coração de Jesus, de Teresina, a Capital do Conselheiro Saraiva, seu fundador, no ano de 1852. Foi, também, professor da Escola Normal Oficial de Oeiras/PI, onde lecionou Língua Portuguesa de 1960 a 1962. Apaixonado pelo magistério, também Economia Política, Direito Usual e Prática Jurídica na Escola Técnica de Comércio, e História da Educação em Parnaíba.

Na capital Teresina, dedicou-se ao Jornalismo, onde manteve a coluna diária “Em Prosa e Verso” no jornal “O Dia”. Também manteve o programa radiofônico “Alma e Coração” na “Rádio Difusora”, onde difundia sua produção poética.

Foi, também, membro do Conselho Estadual de Educação, nele ocupando o cargo de Vice-presidente.

No ano de 1971, foi eleito para a Cadeira 25 da “Academia Piauiense de Letras”, onde tomou posse no dia 15 de janeiro de 1972.

Na sua passagem pela Comarca de Bom Jesus, onde o conheci, deixou uma auréola de simpatia, e companheirismo, mantendo informal relacionamento com toda a comunidade. Era o período da Segunda Grande Guerra, ocasião em que o único contato com o mundo externo era o “Repórter Esso”, transmitido de hora em hora. Como ainda não havia o transistor, o rádio era alimentado por enorme bateria carregada por dois negrões, que se alternavam na roda de bolandeira, de transformar a mandioca em farinha. Somente o Juiz tinha rádio, na cidade. Assim, os mais próximos se reuniam, à noitinha, em sua residência, diante da Praça do Mercado, sob a folhagem farfalhante das oiticicas frondosas, para ouvir, religiosamente, entre 7 e 8 horas da noite, a indefectível “Voz do Brasil”, criada na “Ditadura Vargas”.

Passaram-se os anos, e, circunstancialmente, mantive contato epistolar com o saudoso Acadêmico A. Tito Filho, ex-presidente da Academia Piauiense de Letras que, a meu pedido, providenciou fotocópia integral de “Vozes da Terra”, livro de poemas de Luiz Lopes Sobrinho, única obra que legou à posteridade.

Trata-se de obra de poesia, 170 páginas, apresentação do presidente A.Tito Filho, e notícia biográfica do autor, confrade de Tito Filho.

Os mais de 100 poemas são bem metrificados, todos rimados, com destaque para o poema que dá nome à obra, em homenagem a Dom Edilberto Dinkelborg, Bispo da bicentenária Oeiras, primeira Capital do Piauí.

Alguns desses poemas são circunstanciais, tais como, além do principal, os poemas “A farda”, “A toga saúda a farda”, “Saudação”, “Um bilhete”, “Saudação aos advogados”, “Ao cônego Cardoso”, “Parabéns, Monsenhor”, “Debutante”, “Neoprofessoras”, “Presente de aniversário” I e II, “Petição ao governador”, “Salve, Parnaiba”, “Hino a monsenhor Roberto”, “Acróstico” I e II, “O tesouro do Banco Nacional do Norte”.

O poema que dá nome à obra, composto de 50 estrofes em decassílabos, ao estilo de “Os Lusíadas”, bem poderia compor uma obra autônoma, pela sua estrutura, e feição singular.

De qualquer forma, Luiz Lopes Sobrinho é um bom poeta que figura, sem rubor, ao lado dos grandes poetas do Piauí, tendo como corifeu o inigualável Da Costa e Silva.

(*) Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail liciniobarbosa@uol.com.br     

domingo, 17 de abril de 2016

Seleta Piauiense - Luiz Lopes Sobrinho


Cadê o Dinheiro?!

Luiz Lopes Sobrinho (1905 – 1984)

Seu doutor Secretário das Finanças,
Onde foi que o dinheiro se escondeu? 
Será que o Estado já se fez judeu,
Também vive de usuras e de lambanças?

Mortas se vão as nossas esperanças.
— Nossas não! pois vossência não sofreu
A fome e o desespero, como eu,
Sem, nunca, ter um dia de bonanças!

Vamos ver, seu doutor, onde se esconde
O dinheiro do Estado.  Explique, onde,
Que há tanto tempo não nos mostra a cara?

Por que, pra caraveles e banquetes,
As notas voam, tais como foguetes,
E o barnabé do Estado não se ampara?! 

sábado, 16 de abril de 2016

ENCONTRO DE APELIDADOS EM AMARANTE


ENCONTRO DE APELIDADOS EM AMARANTE

Luís Alberto Soares (Bebeto)

                Numa manhã de sábado na movimentada Churrascaria Ipanema (Amarante - PI) do popular Afonso da Dora, coincidentemente um encontro engraçado de apelidados que saboreavam variados pratos e bebidas. Numa mesa estavam Lobinha, Bem -Ti-Vi, Pardal e Paquinha, bebendo e discutindo política. Em outra mesa, encontravam-se Peixe, Pirão, Curandor, Canela, Titela e Camarão, eles comentavam política e futebol. Zé Galinha, Capão e Mandubé tomavam cerveja com tira-gosto de frango assado. Xaxim, Mundu, Macarrão, Labita e Zé Tiúba na geladinha com peixe e pirão. Bufa Quente, Maria Acaba Festa, Pituiba, Perneta, Bolacha e Mandioca, num balcão bebendo cachaça com tira-gosto de umbu. Zé Bagaço, Zé Prego, Zé Pescoço, Leitoinha, e Rato, bebiam, comiam panelada e dançavam ao som da música do doente mental Chico Lopes.


A Churrascaria tava tão lotada que houve ajuda do Facão (ex-empregado daquela casa), no atendimento aos Clientes. Pipi, Espoleta, Sibita, Nazaré Cambão e Pirrola que se encontravam na Churrascaria Ipanema, saboreavam deliciosos pratos e falando muito da Cultura de Amarante. O Caché Vencido e o Pontapé apareceram por lá, demoraram pouco. O Papagaio, ex-jogador de futebol de Amarante e do Flamengo de Teresina, neste dia, não quis saber de bebida, preferiu comer milho assado. O Pé na Cova e o Já Morreu apareceram por lá, mas não tiveram vez. Os “mototaxistas” Panelada, Lapau e Pé no Freio estavam de prontidão na churrascaria para corridas. O Simpático Cascudo que se encontrava conversando com o Besouro, começou a sorrir e disse: “Lá ta lotado de colegas”.  A Maria Veneno, Cabelinho e Rabo Seco ficaram espiando de longe a grande movimentação dos apelidados na churrascaria.      

quinta-feira, 14 de abril de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo I

Foto meramente ilustrativa

HISTÓRIAS DE ÉVORA
Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

Capítulo I

O TRIÂNGULO ENCANTADO

Elmar Carvalho

            Eram duas horas da madrugada quando Marcos Azevedo acordou, com sede. Dirigiu-se à cozinha, onde ficava a geladeira. No percurso, notou que o quarto das irmãs estava com a porta entreaberta e com a lâmpada elétrica ligada.

Retrocedeu um pouco, para melhor olhar. Viu, então, expostas na rede, as roliças e rijas coxas de Neuza, a empregada, entreabertas. Eram brancas, grossas, firmes, e deviam ser macias. Uma tenra, quase transparente e dourada penugem as recobria.

Imaginou que deveriam ser suaves e agradáveis ao tato, principalmente se tocadas com as pontas dos dedos. Desceu o olhar em direção aos pés, em que não viu nada de especial. As panturrilhas, contudo, eram proporcionais às coxas, roliças, rijas e torneadas com esmero.

Em seguida, com o coração em disparada, com medo de que Neuza ou alguma das irmãs acordasse, abriu a porta um pouco mais, para olhar o que estava acima das coxas; ou o encaixe destas, como gostava de dizer um seu amigo. E viu o que procurava, com tanta ansiedade e medo.

A calcinha branca e simples mal cobria o grande, altaneiro e vertiginoso vértice. O púbis castanho, sem dúvida bem rebaixado, ornava a borda da sumária peça íntima. Entreviu o sopé e parte da encosta dos carnudos e protuberantes grandes lábios. Marcos sentiu uma tontura, quase como se fosse desmaiar. Mesmo assim viu a depressão em que se fendia a genitália, como um pequenino regato, que parecia morder o vinco central da calcinha. Era um bem esculpido delta, desde o monte de Vênus até a curvatura em direção ao períneo.

Sua vontade de tocá-lo era enorme. Espalmar-lhe a mão, e tê-lo em sua concavidade. Parecia um animal, que tivesse vida própria e palpitasse. Fez um esforço muito grande para se conter. Sua timidez e natural retraimento tentavam conter o ímpeto de sua mal desabrochada adolescência. Foi então que a moça abriu os olhos. Marcos temeu gritos escandalosos, estridentes, e saiu em passos de felino para a cozinha. Ficou aliviado com o silêncio. Ficou com medo de que ela lhe viesse ao encontro, para exigir explicações. Mas isso também não aconteceu. Tampouco no dia seguinte ela denunciou o fato aos seus pais.

Sentiu que ela tivera a exata compreensão do que acontecera, e lhe perdoara, ou mesmo se sentira envaidecida daquela silenciosa, inerte e contida contemplação fortuita. Foi a primeira vez que vira uma mulher (quase) desnuda. Pela primeira vez enxergara de tão perto e com tanta nitidez uma cona aureolada gloriosamente pelos esquálidos e pálidos pelos pubianos. Foi o marco inicial e inesquecível de seu adolescer.

Como um símbolo incandescente ficou em sua memória para sempre aquele triângulo encantado, que jamais veria novamente. Como no poema de Manuel Bandeira, foi o seu alumbramento, a sua visão do paraíso na terra e da terra.   

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O clima está quente demais: perigo


O clima está quente demais: perigo

                       Cunha e Silva Filho
  
             O bem é que não andam  fazendo. Em 1964, quando vi para o Rio de Janeiro, a situação  meteorológica  na cidade  do Rio de Janeiro  era bem diferente da de hoje. Diferente porque a estações do ano  me pareciam  mais regulares, mais cíclicas. Era mais previsível  o tempo mais quente do mais frio e, neste último,  eu sentia  que tinha frio mesmo. Precisava de andar com roupa adequada no frio. Era obrigado a envergar uma japona,   ou um casaco para me resguardar  da baixa temperatura.
            Com os anos se passando,  sentia que  a cidade ia ficando mais quente. Alguns  leitores  bem se lembram do filme  “Rio, 40 graus", cujo roteiro e direção  é de Nelson Pereira dos Santos.. Ora,  hoje esse nível de calor  foi ultrapassado,  sem falar  na  sensação térmica, que não era tão  alta como agora. Gostava, no entanto,  quando vinham os meses de frio até chegar ao máximo no mês de junho e julho.
           A população hoje usa muito mais o ventilador  ou  o ar condicionado do que outrora. Os dias quentes são insuportáveis, ainda mais cm o reforço  do mormaço que  torna o ar  parado,  nos dando uma sensação de sufoco e nos forçando a sair de lugares fechados para ver se, lá fora,  podemos  respirar  melhor.
         Eu nunca gostei do calor,. Desde menino, acompanhando minha mãe ao Mercado Velho em Teresina, no Piauí,  mal me aguentava com  a temperatura   elevada. Andava me queixando com mamãe: ”Que caiô, danado.”  Ao chegar em casa, encontrando  meu pai, reclamava de novo com ele: “Que caiô, danado!” Este fato da infância refiro no meu livro de memórias Apenas memórias, ainda a ser lançado. Cresci,  assim, não  gostando  do calor e assim ainda hoje resmungo muito com as altas temperaturas   carioca, de tal sorte que, no tempo do verão, ou mesmo  ultrapassando este, durmo  ou com  ventilador o tempo todo ou com ar-condicionado.
          O calor não me deixa bem, me amolece o espírito,  com vontade de ficar sem fazer nada. Alguém já afirmou  que o Brasil não tem  grandes filósofos porque  a terra é quente na maior parte do país. Sei que isso  é uma balela, mas quando afirmam isso,  fazem uma exceção:  tivemos o Farias  Brito, filósofo espiritualista, autor de A finalidade do mundo (1895-1899-1905, em três volumes) e Mundo interior (1914)
        Um amigo indiscreto  me sussurra ao ouvido: “Temos professores de filosofia, não filósofos.” Acho que está  sendo muito exigente, não? Porém, ele me  retruca  ressaltando que, no país, quem termina filosofia, malgrado tenha doutorado ou pós-doutorado,  é chamado em geral  de filósofo, ainda que  não tenha  formulado  uma  teoria  nova que pudesse avançar  os estudos  da  filosofia no mundo e entre nós.Creio, entretanto, que meu  amigo indiscreto tenha sido muito  exigente nesse aspecto,  pois o Brasil teve um  Miguel  Reale (1910-2006) e contar há muito tempo  com grandes   pensadores em várias áreas do conhecimento.
      Agora,  disponho de um forma antiga  de me sentir  refrescado,  o uso da rede, antigo costume  que tínhamos em  Teresina, cidade que registra sempre  uma temperatura  alta, quarenta graus  ou,   às vezes,  trinta e sete ou trinta e oito  graus.
     Só que,  em Teresina,  de manhã,  sopra  amiúde uma brisinha gostosa, o que  vem como  um bálsamo  para o corpo e a mente. A rede, sem dúvida,  é boa para o calor. Passei da infância até à adolescência  dormindo em rede. Só comecei a usar a cama aqui no Rio de Janeiro. Dizem que os nordestinos têm a cabeça, em geral, chata, porque dormiram muito  em rede. Isso não tem confirmação científica. Ou tem? Nunca me dei ao trabalho de era se existe algum estudo sobre  a forma da cabeça  chata
      Voltemos ao  calor, que é matéria  séria. Sem sombra de dúvida,  a o planeta Terra ficou muito mais  quente com tanta   coisa ruim que se fez com  esse maltrato  astro do universo. Além disso,  com o avanço  científico-tecnológico,  o aumento  de fábricas poluidoras  ao redor  do planeta, soltando  volumes gigantescos de gás carbônico, com  o gigantismo  de número de carros   poluentes descarregando  CO2, com as  inúmeras  experiências atômicas já realizadas por potências  militares, com as escavações funestas  e continuadas  no subsolo.
       Com as perfurações  de mineradoras  por toda a parte, a Terra  tem sofrido  o chamado efeito  estufa, cuja consequência mais  nefasta  é o aumento da temperatura  do nosso planeta. A par disso,  o aquecimento  terráqueo  está  produzindo  sérios transtornos nas regiões polares, com a consequente degelo  das calotas, as quais,   por seu turno,   vão   elevando  o volume do nível dos oceanos e mares.
      Alguns estudiosos subestimam  essas causas, talvez mais levados  por razões de ordem econômica mas perigosamente  negligenciando  os efeitos desastrosas ao meio ambiente e ao ecossistema.  As diversas  reuniões  de cúpulas  de organismos internacionais para debaterem as questões climáticas, sobretudo   da parte de países  mais poluidores (Estados Unidos, China, por exemplo) que não  desejam  ter  prejuízos econômicos,  parecem não ter tido, até agora, maiores sucessos a fim de reduzirem  substancialmente   os efeitos  danosos  ao clima  em escala global.
     Países em desenvolvimento como o Brasil e outros devem fazer  também seu dever de casa a fim de darem sua real contribuição   no sentido de evitarem  que o clima  no planeta  não se deteriore ainda mais.É bem verdade que sintomas  desse  desequilíbrio  meteorológico já está  dando  péssimos sinalizadores, segundo  podemos atestar com  situações  incomuns de inundações, chuvas  torrenciais, escassez de chuva em algumas partes do país,  desaparecimento de  fontes  hídricas,  diminuição do volume d’água de nossos rios, inclusive do rio São Francisco e de outras  rios  do país.
        Ninguém pode negar que  as condições climáticas  em nosso planeta  fogem  aos  parâmetros  de alguns  anos  passados, assim como  o aumento da temperatura   é algo  que nos  põe em alerta.
        Se não forem  contidas todas  as causas  provocadoras desses desastres climáticos e de uma espécie de  desarranjo das divisões periódicas das estações do ano no país e no mundo, a humanidade inteira sofrerá   grandes e incontornáveis transtornos diante de uma natureza  que, por assim dizer,  se vinga sempre que  ela for  vilipendiada  pelo  homem.

       Os avisos da própria natureza já são mais do que suficientes  para  que reflitamos  sobre o que nos poderá  acontecer caso persistamos  em destruir  o que a natureza  nos  prodigalizou. Não provoquemos a fúria da natureza, pois, na luta entre o homem e ela, vencedora será a Mãe-Natureza. 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Um viajante atribulado


Um viajante atribulado

José Pedro Araújo
Contista, cronista e romancista

            Se para certas pessoas viajar é algo tremendamente gratificante, para outras só em pensar na possibilidade, já começam a sentir calafrios, efeitos de uma viagem mal sucedida. Depois, passados os momentos de intranquilidade, quando já se chegou ao destino, ai a coisa fica boa demais. Como nesse ponto todos concordam e terminam viajando, as agruras ficam apenas na memória do viajante sofredor. Afinal, quem não gosta de mudar de ares de vez em quando? Quem não gosta de conhecer novos lugares, novas pessoas, cultivar novas amizades?

Mas, que existem pessoas que acham que viajar é um suplício, continuo afirmando que há.

             E o Dr. Jonas Araújo é uma delas. Dentista dos mais respeitados da cidade de Presidente Dutra, preza muito pela qualidade do seu trabalho ao ponto de facilmente se encontrar clientes que não se incomodam de ficarem horas de boca aberta, saliva escorrendo esôfago abaixo, causando coceira e cansaço na mandíbula. E essas pessoas não se incomodam em razão do ótimo profissional que o atende. Ficam lá pacientemente ouvindo as histórias contadas por esse Palmeirense de quatro costados, amigo de todos e incapaz de agravar quem quer que seja. Eu, que já o acompanho há muitos e muitos anos, nunca o vi sair do seu jeito calmo para encarar as situações mais vexatórias. Está sempre ali, tranquilo, procurando encontrar vantagens no que parece ser somente desacerto. E, no final de tudo, como o trabalho sai bem feito, e o preço uma verdadeira pechincha, ponto para o cliente!

            Esse calmo senhor, foi um menino meio magricela, cabelos arrepiados, e de um branco que só pode ser comparado a uma raiz de mandioca descascada. E quando viajava, já ficávamos de sobreaviso, pois por certo aprontaria alguma coisa.

Em uma das vezes que viajava de Presidente Dutra para Piracuruca, onde nossos pais residiam naquele momento, após sofrer muito no péssimo trecho até Teresina, concluiu que suas agruras haviam terminado ao chegar à capital, Teresina. Era o que se podia depreender em razão da melhoria da estrada dali para frente. Embarcou na Praça Saraiva em um ônibus novinho da Marimbá, e foi logo procurando uma janela para se acomodar perto. Mas, daí a poucos instantes, embarcou também, quando o veículo já estava de partida, um rapaz cabeludo e com barba bastante longa, que veio justo reclamar que a poltrona onde o menino estava lhe pertencia. Falou isso na maior grosseria, acenado o bilhete da passagem. A contragosto, o menino viajante saiu de onde estava, e verificou chateado que todas as demais poltronas já estavam ocupadas, inclusive a cadeira que lhe fora destinada. Nesta, logo viu que se sentava no seu o lugar era uma senhora bastante idosa. Resolveu deixar tudo como estava.

            Para piorar as coisas, o sujeito que havia reclamado o lugar, continuava resmungando, falando alto contra as pessoas que ocupavam o lugar dos outros somente para esquentar o assento.

            Vendo que o garoto havia ficado sem lugar para se sentar, meu pai, que o acompanhava na viagem, pediu para ele acomodar-se em sua perna, próximo à janela, pois sabia que logo ele precisaria fazer uso dela. Jonas sentou-se, e a viagem continuou. O ônibus tomou a estrada no rumo norte e tudo parecia ter se aquietado.

            Atrás de onde eles se encontravam, o rapaz barbudo abriu a janela de vidro e começou a falar grosserias contra as pessoas que se encontravam nas calçadas. E quando o pedestre era do sexo feminino, assobiava, mandava beijinhos, na maior algazarra. Alguns passageiros já começavam a reclamar do estúpido sujeito, mas, ele não dava a menor atenção às reclamações. E a viagem transcorria assim. Ônibus novo, motorista pé-de-chumbo, ia o veículo comendo estrada, dando a entender que chegariam cedo ao destino final.

            Em certa altura da viagem, Jonas cochichou para o meu pai que estava ficando enjoado. E ele, mais que depressa o ajudou a abrir a janela. O garoto lamentou o fato de ter almoçado aquele prato de arroz com feijão, macarrão e carne, quando o motorista, momentos antes havia parado em um restaurante de beira de estrada. Mas, o ar fresco, fez com que ele melhorasse um pouco do enjôo, criando a falsa ilusão de que tudo se ajeitaria. Que nada! Logo uma náusea bem mais forte o acometeu, e ele assomou a cabeça para fora do ônibus a tempo apenas de despejar o produto do almoço para fora.

Atrás dele, também com a cabeça para fora do veículo, estava o inconsequente cabeludo, fazendo uso mais uma vez de suas brincadeiras sem graça. Quando viu o que viria sobre ele ainda tentou se recolher, mas já era tarde demais: recebeu o produto do vômito diretamente na cara. A barba, antes negra, estava ruiva agora, meio enferrujada, engordurada, com macarrão espalhado até mesmo pela cabeça.

            Descontrolado, parecendo um touro furioso, o sujeito saiu de sua poltrona e veio atrás do garoto para agredi-lo. Meu pai, prevendo o desfecho, e já chateado com o inoportuno companheiro de viagem, levantou-se também e despejou sobre ele algumas palavras intimidatórias. Vendo que seu oponente era um homem alto e musculoso, o pobre infeliz tratou de retroceder até sua cadeira e passou o restante da viagem ouvindo brincadeiras dos outros passageiros, satisfeitos por ver que ele agora estava calado e humilhado.

            De outra feita, Dr. Jonas, ai por volta dos 11 anos, juntamente com o irmão Jônatas, pegaram carona em uma camioneta que levaria de volta Jean Carvalho e seus irmãos, que retornavam das férias, para Teresina. Na caçamba do carro conduziam também um chiqueiro, feito de talos de babaçu, com vários frangos aprisionados. Estavam sendo levados para consumo próprio. Jonas, preocupado com a sua situação de viajante sempre mareado, resolveu sentar-se na ponta oposta do chiqueiro enquanto o carro saia rodando pela estrada. Não andaram muito e o enjôo foi se achegando, a  principio de maneira suportável, depois mais forte, até que ele começou a vomitar fora da caçamba. Mas, logo, as forças começaram a diminuir e ele passou a soltar suas golfadas sobre o chiqueiro mesmo. Os frangos começaram a gostar daquilo e logo já estavam esticando os pescoços, elevando as cabeças para fora da grande gaiola, indo buscar o produto quase dentro da boca do pobre garoto que teve que ser socorrido pelos companheiros de viagem de modo a não perder a língua e tudo o mais que possuía na boca.

            Abatido e quase sem forças, finalmente chegaram a Timon, onde passariam a noite na casa dos colegas. No dia seguinte, logo cedo, tomaram um ônibus urbano para a Praça Saraiva. Jônatas, um pouco mais velho, conduzia as sacolas mais pesadas, ficando as nem-tão-mais–leves-assim para o irmão menor. Carregavam com eles bolos de todos os tipos, doce de leite e queijo, o que aumentava o peso da bagagem.

Com as duas mãos ocupadas, Jonas, que não era muito acostumado a andar naquele tipo de condução urbana, acercou-se da roleta para pagar a passagem, quando motorista arrancou de uma vez. Só não caiu para trás porque se apoiou no irmão que vinha um pouco atrás. Mas, antes mesmo que pudesse se recompor, o motorista afundou o pé no freio com bastante força. Viu alguém gesticulando na parada seguinte de onde se aproximavam. O pobre Jonas foi arremessado para a frente com suas duas  sacolas e passou como um raio pela roleta fazendo a danada rolar diversas vezes para desespero do cobrador. Com as mãos ocupadas, o menino saiu tentando se equilibrar no corredor àquele momento sem passageiros, até espatifar-se na tampa do motor que ficava ao lado do motorista. Por sorte não foi arremessado para fora do ônibus.

Foi um desespero, junta sacola daqui, senta ali, com os demais passageiros demonstrando grande camaradagem com ele. Até estavam com vontade de rir da situação, mas, o aspecto apavorado do jovem os fazia ficar quietos.


            Hoje, Dr. Jonas transita tranquilamente com a família por essas estradas da vida, sem o incômodo e a vergonha que sentia quando era criança. É certo que faz isso no seu próprio carro, pois, não sei se dentro de um desses ônibus enormes de hoje, o homem não tivesse ímpetos de brotar para fora o que comeu momentos antes. Sorte dos passageiros também. Especialmente daqueles que gostam de viajar com a janela do seu lado aberta.  

domingo, 10 de abril de 2016

Seleta Piauiense - Martins Vieira


O Parnaíba

Martins Vieira (1905 – 1984)

Vem de longe, tangendo alvacentas espumas
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.

Leva a flor que tranquila adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...

— Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz,

Ó rio benfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
a nós elo batismo, o nome de Jesus.    

sábado, 9 de abril de 2016

Teresina, Cidade Olímpica

Foto meramente ilustrativa

Teresina, Cidade Olímpica

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Compareci ao Centro de Formação Odilon Nunes, manhã de sábado, para cerimônia de premiação a estudantes do Ensino Fundamental, campeões em olimpíadas brasileiras, em Química, Física, Língua Portuguesa, Astronomia e Matemática. Surpreendi-me com o número de 150 medalhistas, convocados para receber o prêmio de um tablet das mãos do prefeito Firmino Filho.  Desinformado, pensei tratar-se de adolescentes de conceituadas e badaladas escolas privadas. Que nada! Mais motivos havia para festejar tantos talentos, em plena puberdade, filhos de classe trabalhadora, nas dezenas escolas do município.

No enorme auditório, estudantes, familiares, professores, coordenadores e convidados aguardavam a presença do prefeito Firmino Filho, do secretário Kleber Montezuma, da coordenadora do PROGRAMA CIDADE OLÍMPICA EDUCACIONAL, Professora Valdete Maria da Silva. Ela sintetizou os objetivos do programa: selecionar alunos de bom desempenho escolar, capacitá-los nas disciplinas de Matemática, Português e Ciências, para concorrerem às olimpíadas de âmbito nacional. Um total de 150 estudantes de 42 escolas municipais, do 7º, 8º e 9º Ano do Ensino Fundamental, com treinamento especial na leitura, redação, edição de livro, experiência laboratorial, em Ciências, com apostilas, vídeos, aulas de campo, com apoio da Coordenação da Olimpíada Brasileira de Astronomia, Observatório Nacional e de instituições, como a UFPI.

Teresina goza de invejável posição no ranking nacional, em conquista de medalhas olímpicas, nas disciplinas citadas, além da primeiríssima colocação no Nordeste. Entre 2012 a 2015, nossos adolescentes de Ensino Fundamental da rede do município abocanharam 64 medalhas de ouro, 33 de prata, 7 de bronze. Observem-se outras referências exitosas, como Cocal dos Alves e algumas escolas privadas, no exame do ENEM e em competições esportivas de nível internacional.

O secretário Kléber Montezuma, acostumado a chegar cedo à secretaria e a cobrar metas e resultados positivos, encantou a plateia pelo entusiasmo e resultados obtidos. Em seguida, discursou prefeito Firmino, exibindo dados comparados com os de outras capitais, sempre aplaudido, ao se referir “aos alunos de ouro, de prata e de bronze”.

Leitor de Fortaleza perguntou-me qual o segredo de tanto sucesso na educação municipal de Teresina. Respondi-lhe: “A seriedade com que, há décadas, os prefeitos administram os recursos públicos”. Um secretário do município de Teresina confessou-me: “A prefeitura encontra-se tão organizada que se torna quase impossível algum ato de corrupção, devido à vigilância. Secretários saem como entraram”. Caso contrário, os escândalos pipocariam. Explicam-se os repetidos mandatos de Firmino Filho.

Quando se exerce política e serviço público com entusiasmo, despojamento, ética, sem embromação eleitoreira, fica fácil e menos oneroso repetir o mandato.

Medalhas, medalhas... ouro em Astronomia. Só nos falta um planetário, como em outras capitais. Que seja no Odilon Nunes, para que eu possa, um dia, comparecer, vislumbrar universo de estrelas.   

quinta-feira, 7 de abril de 2016

AQUARELAS OEIRENSES




AQUARELAS OEIRENSES

Elmar Carvalho

Conheci Antonio Reinaldo Soares Filho, o Soarinho, em 1994, quando ele se preparava para editar seu livro Oeiras – Geografia Urbana. Trocamos ideias, sendo que algumas de minhas sugestões foram por ele aceitas. Desde 1988 a 1990, quando fui o presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE/PI, eu já havia iniciado um processo de aproximação afetiva e cultural com Oeiras, inclusive tendo ali realizado um Encontro de Escritores, no qual prestei homenagem ao notável romancista O. G. Rêgo de Carvalho.

Por essa época e um pouco depois passei a conhecer vários intelectuais oeirenses, entre os quais cito: Balduíno Barbosa de Deus, meu professor na UFPI, Paulo Gutemberg, meu colega no curso de Direito, Pedro Ferrer Freitas, Dagoberto Carvalho Jr., Expedito Rêgo, Carlos Rubem, Possidônio Queiroz, Rogério Newton, Gutemberg Rocha, João José Ferraz e os já referidos Reinaldo e O. G. Depois, em diferentes ocasiões, vim a conhecer outros amigos da velhacap.

Antonio Reinaldo já havia escrito o importante livro Oeiras Municipal, em que demonstrou ter muita paciência, em virtude da laboriosa pesquisa que teve de empreender. A obra abarca um corte cronológico que vai de 1810 a 1992. Trouxe novas e mais aprofundadas informações sobre a história da terra mater. Além de suas qualidades intrínsecas e de conteúdo, é de grande interesse para os historiadores, em razão dos documentos que cita e/ou transcreve.

Em Oeiras – Geografia Urbana se reporta aos bairros, praças, logradouros, ruas e becos da velha capital. Traça rápida biografia da figura histórica homenageada. Quando a rua tem alguma peculiaridade digna de nota, descreve a sua topografia e geologia. Não tendo o logradouro nome de pessoa, assinala os fundamentos de sua denominação.

Em muitos verbetes, indica o nome antigo da rua, muitos deles poéticos, interessantes ou históricos. Essa obra é tanto mais importante porque, segundo tenho observado, muitos moradores sequer sabem o nome da rua em que moram, quanto mais terem conhecimento de sua história e da biografia do epônimo. E discrimina a localização, direção, extensão e limites dos logradouros e ruas.

Sou tentado a dizer que Aquarelas de um Tempo é um misto de artigos, crônicas e ensaios de história social, sobretudo referentes ao período que vai da meninice do autor até o início de sua juventude, passando, claro, pela sempre emotiva, sentimental e fugaz adolescência. Ao sabor de suas lembranças, anotações e pesquisas, Antonio Reinaldo, como um cicerone poderoso e mágico, nos faz viajar no tempo e no espaço de sua querida Oeiras, e como que nos faz vivenciar as emoções dos saudosos tempos e lugares que relembra, com riqueza de detalhes por vezes pitorescos.

O livro é de capital importância para a história imediata e recente de seu torrão, bem como para a historiografia de seu cotidiano, porquanto, no período que vai do final dos anos 1950 a meados dos 70, relata os costumes sacros e profanos, entre os quais os eventos religiosos da Fugida, da Procissão dos Passos, a beleza luminosa do Fogaréu, a Missa de Ramos. Muitas das cerimônias sacras são verdadeiras encenações, quase uma espécie de teatro a céu aberto, em que todos são atores e plateia ao mesmo tempo. O episódio da Verônica, no qual um canto magoado nos comove, nos faz lembrar uma espécie de ópera popular.

As Aquarelas do Reinaldo trazem ao procênio de nossa imaginação velhos boêmios, esquecidos poetas e as inesquecíveis serestas e tertúlias, que tanto encantamento provocavam nos jovens de outrora. Figuras populares são trazidas ao nosso convívio. Os antigos carnavais, com seus adereços quase artesanais e suas alegres ou melancólicas marchas, mas sempre encantadoras, são lembrados. E são referidos os locais onde eles aconteciam: Oeiras Clube, União Artística, Círculo Operário, Furna da Onça e cabaré do Cícero Cego.

Na solenidade de lançamento, recordei que ao passar pela Furna da Onça, de tão pitoresco e imaginativo nome, alimentei o desejo de tomar uma talagada de calibrina, com um tira-gosto de umbu, e com direito a uma cuspidela ao pé do balcão. Por motivos que não vêm ao caso, nunca pude realizar esse modesto “sonho de consumo”, até porque a Furna já não existe e a onça foi embora para desconhecida paragem ou dimensão.

Ao tratar das sociabilidades, diversões, lazer, costumes e ocupações de Oeiras, no período enfocado, Aquarelas de um Tempo narra a história do Ginásio Municipal de Oeiras, do Oeiras Clube, e relata os banhos nos poços do velho Mocha, então perene, de nomes tão sugestivos e poéticos. Aliás, ao falar nesses poços, lembro que o médico Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, que também os descreveu, pediu-me para falar sobre a degradação do Mocha, tendo eu escrito uma crônica que se encontra publicada na internet. Menciona os antigos moradores de ruas e bairros da velha urbe. Cita os grandes craques futebolísticos da época, entre os quais o des. Raimundo Eufrásio e o jurista Moisés Reis, e meus colegas da ingrata posição de goleiro Oscar Barros e Chico Castanhola.

Nessas páginas, prenhes de emoção e lembranças, o autor, como um demiurgo, materializa a velha Oeiras, fazendo-nos viajar no tempo e no espaço; no tempo de sua juventude e no espaço oeirense de sua saudade. Não pude deixar de recordar os versos do poeta Luís Guimarães Jr.: “– Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade...” E encerro estas breves considerações com as palavras do próprio autor: “A saudade fez estas páginas.”   

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Breve diálogo sem síntese


Breve diálogo sem síntese (Não vale culpar Sócrates, o filósofo)

 Cunha e Silva Filho

*PO:    Sim
*PTA:  Não
PO:     Sim
PTA:   Não

PO:     Sim
PTA:   Não
PO:    Sim
PTA:  Não

PO:    Sim
PTA:  Não
PO:   Sim

PTA: Não
PO:   Sim

Sim
Não
Sim
Não
Sim
Não
Sim, sim, sim, fascista! Coxinha!
Não, não,  não, lula molusco! Petralha! Comunista!

UNHAPPY UNENDED

        AL
           VO
               RA
                     DA!!!
                         
          

             L
             I
             S
            A
            R
            B!
      
       Ubi estis?

 *Partidos da oposição.
 *Partido petista e aliados.

terça-feira, 5 de abril de 2016

COINCIDÊNCIAS

Alcenor visto pelo chargista Fernando di Castro
Prédio da Caixeiral, recentemente reformado pelo SESC-PI



COINCIDÊNCIAS

Alcenor Candeira Filho


I.             COINCIDÊNCIAS  IRRELEVANTES

Depois da publicação de O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA, em 2008, livro que focaliza o assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira, no dia 11 de outubro de 1959, na Praça da Graça, em Parnaíba, praticado covardemente pela família Cavalcante (Clodoveu Felipe Cavalcante, Jamacy Guterres Cavalcante, Clodoveu  Felipe Cavalcante Filho e Veudacy Guterres Cavalcante),  constatei  em suas páginas e em documentos consultados durante  a pesquisa para a realização da obra estranhas e curiosas coincidências,  umas relevantes pelo teor ocultista, outras nem tanto.
Exemplo de coincidência destituída de qualquer apelo cabalístico está estampado no diploma expedido pela Escola Técnica de Comércio da União Caixeiral, em 08 de dezembro de 1954, conferindo a Alcenor  “o título de Técnico em Contabilidade de que trata  o Decreto-Lei nº 6.141, de 28 de dezembro de 1943”, com a assinatura do diplomado e as de seus algozes Jamacy Guterres Cavalcante como secretária e Clodoveu Felipe Cavalcante como diretor.
A sociedade civil União Caixeiral  foi   fundada em 28 de abril de 1918 por 122 comerciários, dentre os quais (ver o jornal O BEMBEM, edição nº 89, de 21.05.2015)  Lívio Ferreira Castelo Branco (n. em Barras – Pi:1876/f. em Parnaíba – Pi : 1929),  Francisco Ferreira Castelo Branco (n. em União – Pi:1897 / f. em Parnaíba – Pi: 1961)  e Fenelon Santana Castelo Branco (n. em União:  1897 / f. no Rio de Janeiro: 1978),  todos parentes próximos (bisavô, tio e avô, respectivamente).
O prédio da Caixeiral foi recentemente adquirido, reformado e transformado pelo SESC no Centro Cultural João Paulo dos Reis Velloso.  Estive presente na festa de inauguração, em 18.04.2015, e até esse dia, como declarei ao jornal O BEMBEM, edição nº 90,  eu não sabia que o estabelecimento de ensino onde meu pai Alcenor Rodrigues Candeira fez o curso técnico em contabilidade, concluído em 1954,  e onde iniciei a carreira de professor  (1971/1976)  tivesse tido, dentre os fundadores, a participação de meu bisavô, de meu tio e de meu avô.
E mais: a data  – 11.10.39  -  relacionada com a fotografia em que aparece Alcenor e seu automóvel,  inserida em O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA,  corresponde exatamente a vinte anos que antecedem o assassinato (11.10.59).
Sem pretensão de ser enfadonho registro ainda a coincidência de eu ter sido no Ginásio Parnaibano aluno dos Clodoveus  - pai e filho -  no ano do crime, como meu pai havia sido no início dos anos 50 na Caixeiral. Ambas as escolas funcionavam em majestosos prédios (tombados pelo IPHAN) situados na avenida Presidente Vargas, onde residiram as personagens centrais do crime da Praça da Graça  -  agressores e agredido –e onde ficava a sede da Prefeitura Municipal de Parnaíba, palco das primeiras desavenças entre a família Cavalcante e a vítima.
Na avenida Presidente Vargas, no imóvel em que era sediada a Capitania dos Portos do Estado do Piauí, a um quarteirão da casa de meu pai, estiveram presos por pouco tempo, logo após o crime, os assassinos detentores de curso superior: Clodoveu e Clodoveu Filho.
Antes de falar de coincidências magnetizadoras, que mais parecem verdadeiras  comunicações do além, desejo  consignar as que houve entre os versos (citados por M. Paulo Nunes na pág. 27 de O  CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA) do famoso poema “Llanto por Ignacio Sanchez Mejias”, de  Federico García Lorca, em que o poeta, envolvido na guerra civil espanhola e fuzilado em Granada pelos insurretos falangistas , chora a morte do toureiro IgnacioMejias, seu amigo, - e os versos do meu poema “Marcas do Trauma”:
                                       “Lasheridasquemaban como soles
                                       a  las  cinco de la tarde,
                                       y el gentio rompia las ventanas
                                       a las cinco de la tarde!
Ay que terribles cinco de la tarde!
Eranlas cinco em todos los relógios!
Eranlas cinco  em sombra de la tarde!”

           (LLANTO POR IGNACIO SANCHEZ MEJIAS)


                                        “nove balas certeiras
                                                    seis punhaladas traiçoeiras
                                                               coronhadas ceifeiras...


                                        e por volta das cinco da tarde
                                        de outubro onze de cinquenta e novembro
                                        magro corpo massacrado morto
                                        no silêncio dos sinos da praça.”

                                                           ( MARCAS  DO  TRAUMA)

II.            COINCIDÊNCIAS  RELEVANTES

Agora passo a escrever sobre coincidências, digamos, de arrepiar
Como primeiro exemplo de ocorrência que, por acaso, parece ter conexão com outra, reporto-me ao poema elegíaco de minha autoria “Passando em Revista”, cujo esboço ficou na gaveta durante vários anos,  à espera da estrofe final que um dia desabrochou espontaneamente, na forma como eu queria.
Segundo o poeta Elmar Carvalho, essa composição significou para o autor uma forma de “catarse”  e se refere ao assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira  em 11 de outubro de 1959, em Parnaíba, na Praça  da Graça. A derradeira estrofe faz alusão ao feriado municipal de 11 de outubro, data consagrada a Nossa Senhora da Graça, a Padroeira da cidade:
                                                  “Foi no dia 11 de outubro,
                                                  fim de tarde , a chacina.
                                                  Os sinos à procissão
                                                  deram toque de silêncio,
    enquanto o sangue na esquina
                                                  pintava todo de rubro
                                                  o mais triste mês de outubro
                                                  que já  vi em minha vida.”


Vários anos depois de ter escrito esse poema, captei com enorme surpresa na segunda estrofe  (“Foi em Parnaíba/na Praça da Graça/ali por onde passa/o povo que passa/que meu pai ao passar/passou”)  o som macabro dos nove tiros que mataram meu pai, provocado pelo uso reiterado da consoante oclusiva/bilabial/explosiva “p”   com efeito de harmonia imitativa ou de onomatopeia.
Embora o recurso sonoro presente na estrofe tenha sido instaurado de propósito, e não por acaso, - o acaso, no caso, decorre do fato de que a letra “p” foi empregada nove vezes de forma não intencional, mas coincidindo com os nove tiros  que, segundo o exame de corpo de delito mencionado em O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA, atingiram a vítima. O poema “Marcas do Trauma”, já transcrito acima  faz  expressa  referência aos nove disparos fatais.
Ainda como exemplo de eventos que, por acaso, parecem ter algumas conexões entre si, lembro os episódios referentes à mudança do Dia da Padroeira da Parnaíba, onde Alcenor Candeira  residiu e foi  assassinado, antecipado de 11 de outubro para 08 de setembro a partir de 1992,  e  à troca da imagem da Padroeira de Santa Quitéria (Maranhão), sua vila/cidade natal, pela da Padroeira da vila)cidade homônima localizada no Ceará. O episódio da troca das imagens foi  evidenciado, conforme transcrição nas páginas 28/29 de O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA,  no romance  A ILHA ENCANTADA, de Renato Castelo Branco:


“Alcenor continuaria rio acima, até alcançar Santa Quitéria.  Santa Quitéria era conhecida como ‘a Vila da Padroeira Trocada’.  Ocorreu  quea vila do Maranhão tinha uma homônima no Ceará. Ambas encomendaram, ao mesmo tempo, imagens de suas respectivas padroeiras a santeiros de Portugal A da primeira era Nossa Senhora dos Aflitos; a da segunda, Nossa Senhora do Carmo. Algum tempo depois de entregues    e entronizadas as imagens, descobriu-se que houvera uma troca. Mas  os devotos de ambas as vilas recusaram-se a permutá-las.  E a Nossa Senhora do Carmo permaneceu no Maranhão, como Nossa Senhora dos Aflitos. E a Nossa Senhora dos Aflitos permaneceu no Ceará, como Nossa Senhora do Carmo.A troca  de nome não arrefeceu, entretanto, a devoção dos fiéis.E anualmente, no dia da Padroeira de Santa Quitéria do Maranhão,  vinha gente das vilas vizinhas de São Bernardo, de Brejo de Anapurus, de Luzilândia participar dos estrondosos festejos de Nossa Senhora dos Aflitos que culminavam em bailes famosos no palacete do coronel Raimundo Candeira, pai de Alcenor.”

               (CASTELO BRANCO, Renato Pires. “A Ilha Encantada”. 
                           São Paulo, T. A. Queiroz, 1992, p. 82/83)


III.          CONCLUSÃO

Diante das coincidências aqui assinaladas, quero concluir com a declaração de que  -  embora nunca tenha sido dado às coisas do além, do mistério, da magia, da cabala, enfim do esotérico  -  me sinto doravante fortemente inclinado a mergulhar nas ciências ocultas.

                                                                    Parnaíba, Abril de 2016.