quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

RETRATO DE MEU PAI



RETRATO DE MEU PAI

Antonio Gallas

Recebi, com dedicatória e tudo, o livro RETRATO DE MEU PAI - Homenagem Aos Seus 90 Anos de Vida – de autoria do poeta, escritor e juiz aposentado Elmar Carvalho, no qual ele relata fatos da vida do seu genitor Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, desde o nascimento até o momento atual quando completou 90 anos em 05 de janeiro de 2016.

O livro com 52 páginas é um verdadeiro pequeno álbum de família, ilustrado com fotografias de alguns momentos da convivência familiar e enriquecido com crônicas bem elaboradas, o que é peculiar nos trabalhos de Elmar. As crônicas, já as conhecia, exceto “O Retrato de Meu Pai”, através do blog do autor e também porque estão inseridas no livro Confissões de um Juiz – editora Academia Piauiense de Letras 2014. Dentre essas crônicas cito “A Morte de Josélia” que quando a leio não posso evitar que as lágrimas venham-me à face, pois, mesmo já tendo se passado 37 anos da sua morte, ainda tenho em minha mente a figura jovial da minha aluna sorridente, meiga, solidária, cheia de vida, e que talvez por isso Deus a tenha levado prematuramente deixando em nós uma saudade, uma lembrança que jamais se apagará, mas também ficou a conformação de que “quem vive para Deus não morre” segundo o poeta e dramaturgo espanhol Juan Ruiz de ALARCON y Mendonza.

Na crônica que dá titulo ao livro, o autor evidencia de forma sucinta passagens da vida de seu Miguel, tanto no ambiente familiar como filho, qual teve que assumir responsabilidades de trabalho muito jovem ainda em decorrência da morte de seu pai (avô de Elmar), como esposo e pai, dando sempre bons exemplos quais foram seguidos pelos filhos; no trabalho, nas lojas em que trabalhou como Casa Inglesa e Casa Marc Jacob e na ECT – Empresa de Correios e Telégrafos. Nesta última Elmar narra com mais detalhes que vai desde o primeiro cargo como guarda fios, os lugares por onde seu pai passou, os amigos que ele conquistou, e a ascensão aos mais diferentes postos dentro da empresa até chegar a ser designado para ser chefe da agência da ECT em Parnaíba, a maior cidade do Estado depois da capital.

Neste pequeno álbum de família pode-se constatar que o Sr. Miguel, que tem nome de Anjo, soube conduzir-se muito bem em sua vida, portando-se sempre, com dignidade, caráter, honradez e honestidade, legado que deixa pra todos os filhos. Mas é bom que se ressalte que uma das características do Sr. Miguel era a de ser fiel amigo de seus amigos, de seus colegas de trabalho e por conta disso teve que enfrentar por diversas vezes momentos difíceis para não ter que “dedurar” um amigo, um companheiro de trabalho.

O poeta e filósofo suíço Henri-Fréderic AMIEL, afirmou que “saber envelhecer é obra de sabedoria, e uma das coisas mais difíceis da grande arte de viver”. E eu afirmo que o senhor Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, a quem tive o prazer de privar de sua amizade, foi um verdadeiro atleta no jogo da vida, pois driblou com sabedoria as dificuldades que porventura a vida lhe impôs e hoje, ao completar 90 anos, desfruta da amizade e do carinho dos filhos, netos que tão bem absorveram suas lições de vida que são exemplos de dignidade, caráter, honestidade e honradez, como já os citei em parágrafo anterior nesta crônica.

EM TEMPO: O aniversário do Sr. Miguel foi comemorado em Parnaíba no último dia 08 do corrente mês com a presença de familiares, amigos e colegas de trabalho da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. “Houve celebração eucarística e após, no Buffet Momentos” um “farto jantar e libações” no dizer do seu filho, o poeta Elmar Carvalho.    

Crônicas de Tomaz Gomes Campelo ganham edição revista e ampliada



Crônicas de Tomaz Gomes Campelo ganham edição revista e ampliada

Fernando Castelo Branco

O livro de crônicas “As Cores do Outono”, do desembargador Tomaz Gomes Campelo, falecido em abril de 2014, ganha relançamento, pela editora Edufpi, em versão revista e ampliada, nesta quinta-feira, 21.01, às 19:00 horas, na livraria Entrelivros (Avenida Dom Severino, 1045, Fátima).

Lançado originalmente em 1996, “As Cores do Outono” volta às prateleiras pelas mãos do filho, o médico Viriato Campelo, e dos sobrinhos, o teatrólogo Aci Campelo e o servidor do TJPI Joaquim Campelo. “Havia uma demanda pelo relançamento dessa obra mesmo antes da morte dele. Amigos e admiradores eram unânimes em apontar essas crônicas como um dos pontos altos da produção dele”, explica Viriato.

A nova edição de “As Cores de Outono” conta agora, por exemplo, com a integra do discurso de posse de Tomaz Campelo como desembargador do TJPI, em 1988, além de prefácios de Herculano Morais e Gilseno Feitosa.

Fonte: portal do TJPI  

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

SETE DIAS SEM CARRANCA


SETE DIAS SEM CARRANCA

Pádua Santos
Presidente da APAL

Wolfgang Amadeus Mozart, o grande músico austríaco, aquele que começou a compor aos cinco anos e influenciou inúmeros compositores através de sua produção musical louvada por todos de sua época, ao morrer, aos trinta e cinco anos, em cinco de dezembro de 1791, contou com apenas cinco pessoas acompanhando o seu enterro, onde não houve música nem pompa, sendo enterrado em uma vala comum, sem lápide ou qualquer marca que o identificasse, não obstante ser considerado pela crítica especializada como um dos maiores compositores do Ocidente.
                Bernardo Alves da Silva, o Bernardo Carranca, ao falecer em dez do corrente mês (hoje completa sete dias), teve o seu féretro acompanhado por uma multidão entremeada defãs e também de alguns amigos. Foi realmente um cortejo digno de nota. Não faltou reza, choro e nem música, e foi sepultado, no final da tarde, sob olhares curiosos e ambiciosos, em cova particular, no cemitério Asa Branca.
                Não acompanhei tal enterramento, mas ao ver tudo depois, via internet, fiquei a lembrar do que disse Rochefoucauld – Escritor,moralista e memorialista francês:“A pompa nos enterros é antes para lisonjear a vaidade dos vivos do que para honrar os mortos.”.
                Pensei assim porque pude ver naquele cortejo a presença de políticos de todas as esferas, de quase todos os partidos com representação na cidade, políticos com ou sem mandato, porém todos com o pensamento no popular músico morto, em seus fãs - eleitores, como também nas eleições que se aproximam.
                Eu, também político, muito embora atualmente sem mandato e sem partido, não havendo comparecido à cerimônia para dar o meu adeus final ao grande músico que a Parnaíba perdeu, gostaria apenas de a ele dizer:
- Bernardo, eu sempre vou lembrar-me da sua bravura nas eleições de 2000, quando concorri ao cargo de vice-prefeito. Naquela época os nossos opositores contavam com requintadas bandas de música provenientes da Bahia, compostas de artistas que deleitavam os nossos eleitores nas largas avenidas, cantando do alto de trios-elétricos modernos, músicas quentes e novas. Enquanto você, sempre do nosso lado, animava nossos pequenos comícios que aconteciam em um velho caminhão que muitas vezes só pegava no empurrão. Mas você, com o auxílio do tecladista Teté, cantava e encantava cantando o “Mí dibuiado”, lendo suas exóticas partituras formadas de notas de cabeça para baixo, contendo rabiscos que somente você os lia e ali os havia introduzido à revelia do citado Mozart, ou até mesmo de Rossini, aquele que somente compunha embriagado. E não é que ganhamos as tais eleições! A política é assim, meu amigo, tem os seus contrastes. Ela é, às vezes, tal qualos enterros dosmúsicos.
Mas como vou dizer isto ao meu amigo Carranca, se ele já partiu, de repente e sem despedida? Eu somente poderia dizer se fosse através do chamado “telefone do além”, descrito por Chico Xavier, em sua doutrina espírita. E esse contato realmente existe? E eu acredito nisto? Mas se existir e um dia ele tocar me chamando, e do outro lado estiver o Carranca, eu com ele conversarei sobre todo o processo político onde participamos juntos, da sua candidatura a Vereador pelo partido que eu presidia e onde fiz sua filiação; do show que ele iria dar, ainda neste mês, na festa anual da PAPOCO – minha associação columbófila - já estava apalavrado. E terminaria o telefonema dizendo: - Bernardo, me desculpe por não ter comparecido ao seu enterro. É que atualmente comungo plenamente com o poeta e compositor Vinicius de Moraes: “Os enterros, eliminei-os de minha vida para que possa lembrar vivos os meus mortos”.


                                   Parnaíba, 17 de janeiro de 2016.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

POLÍTICA E CULTURA NO JORNAL INOVAÇÃO

Membros do Jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos, vendo-se, da esquerda para a direita, no 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Danilo Melo, Francisco (Neco) Carvalho, Diderot Mavignier, Franzé Ribeiro, Sólima Genuína, Bernardo Silva, Reginaldo Costa e Paulo Martins; 3º plano: Jonas Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho e Flamarion Mesquita. Percebe-se, nesta fotografia, a felicidade dos retratados com esse reencontro, posto que vários moravam em outros estados e municípios. Hoje, a maioria já não reside em Parnaíba
O mesmo grupo do Jornal Inovação, em confraternização, no bar Recanto da Saudade, do saudoso Dom Augusto da Munguba



POLÍTICA E CULTURA NO JORNAL INOVAÇÃO

Teresinha Queiroz
Professora da UFPI e historiadora

O livro Inovação e seus dardos de fogo, de Reginaldo Ferreira da Costa,  tem como centro a rememoração da saga inventada e vivida por ele e por muitos de seus contemporâneos, em recentes tempos heróicos de resistência democrática e de construção de um novo Brasil, mais rico de experimentações sociais e mais livre de seculares amarras políticas e culturais. Entretanto, não é ao livro, especialmente, que gostaria de fazer menção, mas ao contexto mais amplo que possibilita esses novos experimentos coletivos, dos quais o autor é, sem dúvida, um atuante sujeito.
A história brasileira do século passado, vista do final da década de 1970 até meados da década de 1980, tanto num ângulo geral quanto em suas particularidades, é de uma extraordinária riqueza de nuances e de grande velocidade de transformação, sendo os anos compreendidos entre 1978 e 1985 absolutamente representativos quanto às mudanças do cenário político. Das promessas de abertura do regime ao movimento “diretas já”, a presença e a consistência das aspirações e da ação populares denotam aquela mudança e dão o diapasão das novas regras que se insinuam no ordenamento político do país.
Em suas grandes linhas e em escopo macroscópico, trata-se de uma história tanto vivida quanto exaustivamente escrita e registrada em vários suportes e linguagens. É possível acompanhá-la, entretanto, de um ângulo particular, definido segundo lugares especiais – o sentimento e a participação de jovens, numa cidade média em inegável retrocesso econômico, contida e controlada menos pelo rigor do sistema tal qual era então instituído e mais pelas forças petrificadas da dominação sociopolítica dos enraizados nos poderes locais. Ao historiador é dado o privilégio de ter acesso a fontes ciosamente preservadas, como a coleção completa do jornal Inovação e ainda a informações orais acerca da imprensa dita menor, no período, que veiculam e explicitam as interdições e os possíveis daquele momento de veloz transição.
O que pretendo esboçar neste breve estudo, cuja base é o corpus quase completo do  Inovação,  é a síntese do panorama composto nessas quase 1200 páginas de sonhos juvenis, que expressam da maneira mais honesta o inconformismo e a sede de transformação social e política daquele recanto do Brasil – Parnaíba - sonhos, porém, que são emblemáticos de denso conjunto de desejos que é nacional, em grande medida.
Ao percorrer, com acuidade, dez anos de aguerrido jornalismo, deparo-me, ao mesmo tempo, com um sólido e bem definido projeto político, e com um variado conjunto de propostas sociais, alcançando desde a inserção cultural do jovem na vida da cidade a escolhas de caminhos e percursos que associam as propostas ali colocadas às transformações mais gerais da própria sociedade brasileira. O conjunto de temas abordados é exaustivo, e o autor do livro em parte a eles se refere – mas é possível sugeri-los com o fim de situar o próprio alcance do jornal e as principais linhas de atuação a que se propunha a equipe responsável.
Em face da velocidade das transformações no quadro geral brasileiro, e até por causa disso, é possível visualizar, o que também é percebido pelos articulistas, o contraste com a morosidade da vida local parnaibana em quase todos os seus aspectos. Em razão desse distanciamento, os temas tratados recortam, em especial, as dimensões mais arcaicas e contraditórias da vida local, evidentemente em leitura cujo foco é o da vanguarda sociopolítica tal qual ela se expressava no país e mesmo fora dele.
Não é intenção deste estudo tratar dos projetos sociais, políticos e culturais do  Inovação conforme vistos e sugeridos pelos redatores e colaboradores do jornal, desde que o livro de Reginaldo Ferreira da Costa já recupera essa história com o sentimento e a vivência de fundador, em memória cuja feição apaixonada ainda guarda o calor das lutas e das emoções da juventude, em boa medida dedicada à causa do Movimento Social e Cultural Inovação (MSCI). O que é necessário realçar é justamente que esse conjunto completo e rico de 75 exemplares do periódico – vindo a público entre 1977 e 1992 – ilumina de um modo muito especial a trajetória e as várias direções da experiência política parnaibana, piauiense e brasileira, as características e as agruras da administração local, os limites diversos da privação humana nas comunidades urbanas e rurais do município, a expansão e a natureza do movimento popular e comunitário que então se institui, o despertar das discussões em torno da questão ecológica, o lugar ambíguo e fundamental da presença e da atuação da Igreja, os entraves e as conquistas inegáveis de cidadania no Brasil a partir do final da década de 1970, os sonhos alimentados no movimento  “diretas já”, a esperança e a desilusão com a chamada Nova República, além do enfoque já conferido às minorias – índios, leprosos, camponeses sem terra, prostitutas, e outros sem voz da história. Destaque também para as entrevistas, muitas delas surpreendentes e primorosas, e igualmente para a produção literária, sobretudo a poética.
É interessante observar, ao longo da década da existência do jornal, a construção paulatina de um projeto político, social e cultural coeso, visando, às vezes, “a marretadas”, interferir e, no limite, superar as condições de existência então postas e transformar radicalmente a sociedade, no sentido proposto pelo grupo. Projeto consistente e, em boa medida, utópico, configurando para os seus autores, a condição, já identificada no passado para algumas gerações de pensadores, de “mosqueteiros intelectuais” . Construtores de sonhos, terminaram por arquitetar, para os leitores do hoje e do amanhã, uma realidade que, vista do agora, antecipa cursos e percursos que só o tempo pôde evidenciar com clareza e precisão. E, como é interessante e desalentador perceber que aquela Parnaíba, tanto no seu formato político quanto na sua miséria social era só um fragmento exemplar do que é o Piauí hoje – conduzido em seus altos escalões pelos mesmos personagens já tão conhecidos e da convivência do pequeno grupo que fazia o Inovação! Porque, se há um aspecto de notável atualidade na vivência dos piauienses, muitos anos depois do fim do pequeno jornal, é a continuidade indiscutível da dominação das velhas estruturas oligárquicas parnaibanas.
Entretanto, não é esse quadro de misérias que pretendo realçar e, antes, o conjunto extraordinário de informações que permite deslindar parcialmente a teatralização exuberante dos poucos personagens que compõem a cena política do Estado do Piauí nas últimas quatro décadas. Se os personagens locais e suas práticas políticas remetem a um domínio quase inerte de mentalidades consolidadas no longo tempo da história, a fluidez e a velocidade são as marcas dos multifacetados arranjos da política nacional nesses anos tão intensos da vida brasileira, com a inserção inquietante e nova das sugestões, demandas e imposições das massas populares – esse novo sujeito insurgente e desconfortável – que buscava seu espaço político e um novo lugar social. É desses espaços que se expandem, a duras penas e de forma a tornar cada vez mais visíveis as presenças de novos atores, que trata essencialmente o pequeno jornal em apreço. O diapasão da política brasileira, em tudo que ela então apresenta de novo e de rebelde ao instituído, é a matéria-prima da informação passível de ser localizada e analisada pelos leitores e estudiosos do Inovação.
De maneira apenas exemplificativa, é possível acompanhar pelo jornal, nos momentos finais da década de 1970, a crítica que se insinua aos grilhões da dominação política pré-abertura, muitas vezes matizada e protegida pelos artifícios poderosos da linguagem e que deságua nas  lentas, mas perceptíveis, mudanças rumo à liberdade de expressão. A despeito das dores ditas e vividas, é inegável, no próprio percurso do periódico, observando o conjunto de ações e relações sociais ampliadas que acontecem em torno dele, o ocupar de brechas que insinuam a mudança. A documentação desse rico momento da história brasileira permite rememorar, dentre outros aspectos, a feição bipartidária da década de 1970 e todo o movimento de conquista que adentra a década de 1980, no sentido do pluripartidarismo, do nascimento e consolidação das agremiações partidárias que ainda se impõem como força nos anos atuais. Destaque para os primeiros momentos do Partido dos Trabalhadores (PT) – no ABC e no Piauí, do Partido Popular (PP) e de sua fusão com o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do Partido Democrático Trabalhista (PDT), na época já chamado de PDT de Brizola, do Partido Democrático Social (PDS), visto como continuidade das Arenas I e II, expressões do conservadorismo no registro dos jornalistas-estudantes do Inovação.
A vida política brasileira é de uma inegável intensidade entre 1978 e 1985, enquanto 1986 já registra os ganhos das lutas intensas e dos arranjos do período aludido. Se, nos anos anteriores, a marca mais visível da ebulição social e política é talvez a criação e a consolidação das agremiações partidárias e a assunção continuada de suas lideranças – que permanecem - os meados da década de 1980 trazem a tensão catalisadora do movimento constituinte, filho desejado e promessa de catarse das frustrações advindas do “diretas já”, e efeito das imediatas decepções com a denominada Nova República, sob a tutela de José Sarney.
O jornal Inovação, nascido em dezembro de 1977, registra, participa e sobretudo permite acompanhar, nos momentos críticos iniciais, todo esse conjunto de transformações, às vezes subterrâneas, no quadro político brasileiro conforme foi se instituindo no pós-64. Assim, o sugestivo ano de 1977 vai retratado em suas ocorrências mais significativas: o Presidente Ernesto Geisel lança o seu Pacote de Abril; o Ato Complementar 104 proíbe as lideranças partidárias de se expressarem no rádio e na televisão; o Ministro Sílvio Frota, do Exército, é exonerado; deputados do MDB são cassados pelo AI-5; Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro e cerca de 10.000 brasileiros são considerados politicamente indesejáveis, e boa parcela deles está exilada em diversos países europeus e americanos. Na contramão dessa organização militar, frações do corpo político, da sociedade civil e da Igreja constroem, e com extraordinária habilidade, as mudanças que já advirão, em parte, no governo subseqüente de João Batista Figueiredo. É o período heróico do MDB e da atuação exaustiva de suas lideranças regionais e nacionais. Sobem as estrelas de Ulisses Guimarães e de Paulo Brossard, Tancredo Neves afirma-se como articulador político, enquanto o senador piauiense Petrônio Portella, da Arena, já personagem nacional, alinha alguns dos pontos na costura da transição “gradual e lenta” que se insinua. As bandeiras então desfraldadas, mesmo que timidamente, e que agregam representantes da Igreja, estudantes, algumas lideranças políticas do MDB e a resistência civil exilada são as dos direitos à liberdade de expressão e à liberdade individual de ir e vir, da volta do pluripartidarismo, do retorno das práticas democráticas, enfim, do vigor do estado de direito.
É curioso observar que o jornal e o movimento nascem justamente como componente e sob os auspícios do MDB jovem  de Parnaíba e seus primeiros números respondem perfeitamente a essa vinculação política. A batalha proposta tinha um lugar de origem muito definido. Ao longo dos números, essa vinculação se esvai, e o liame institucional com a Prefeitura de Parnaíba, administrada pelo MDB, transforma-se em crítica permanente até o final da gestão do Prefeito João Batista Ferreira da Silva.
As informações acima aparecem menos com a feição de rememorar e reescrever a página vívida e intensa da história política brasileira nesses tempos de abertura e mais para definir os contornos e as ricas possibilidades informativas do jornal em estudo. Em paralelo à riqueza e à variedade de sugestões nesse campo da história política, percorre-se também todo um emaranhado de informações acerca da situação político-partidária estadual, evidentemente, vista a partir daqueles interesses parnaibanos. Destaques especiais são conferidos às vicissitudes da  administração de Batista Silva, aos principais projetos tidos como capazes de promover a recuperação econômica do município, à situação particular da vida dos pobres nos povoados e nos bairros populares da cidade. É notável a participação dos poetas e a freqüência das matérias literárias.
São perceptíveis a permanência e a solidez de alguns temas, nos dez anos de circulação ininterrupta do periódico – política partidária, projetos sociopolíticos para transformar o país, sindicalismo, movimentos sociais e comunitários, retratos do cotidiano das populações pobres rurais e urbanas. Ao longo do tempo, alguns interesses, como os de natureza ecológica e o realce ao lugar das minorias foram ganhando espaço, ao lado das entrevistas, que se consolidaram e que constituem um conjunto informativo de riqueza ímpar.
A partir mesmo de seus primeiros números, o Inovação anuncia sua máxima concepção sociopolítica: política é cultura. E é para esta direção, educativa e interventiva por excelência, que o conjunto do jornal se dirige e é por ela que ele se pauta. Até porque, visto como conjunto, verifica-se a extraordinária coerência do periódico e sua fidelidade às primeiras e ainda pouco elaboradas posições. Ao romper com o governo municipal, o jornal encontra o seu caminho, de que não mais se afastará até os últimos números.
Os anos de 1978 e 1979 podem ser tomados como exemplares para a análise dos conteúdos preferenciais do jornal e como indicativos de opção sociopolítica do grupo, que castiga os costumes principalmente a partir de três focos: o do conjunto de transformações políticas da época; o da expressão poética, fortemente crítica e social; e, através de intensa e continuada focalização dos problemas urbanos e rurais de Parnaíba e de sua administração municipal.
O viés conjuntura política – local, estadual, nacional, internacional – esclarece da forma mais meridiana o lugar da fala dos responsáveis pelo jornal, ao tempo em que ilumina também o cenário ampliado das mutações por que passa o Brasil no seu enraizamento ocidental. O quadro brasileiro é de uma riqueza dificilmente perceptível nos anos anteriores, quando a sinalização das falas, dos discursos e das práticas era a da disciplinarização imposta pelos governos militares, cuja exacerbação de ânimos e de recursos compressores pode ser evidenciada no governo Ernesto Geisel (1974-1979), de extraordinária força da censura sobre os meios de comunicação – rádio, TV, jornais, música, peças teatrais, artes em geral – sem dúvida grande momento de limitação à expressão das subjetividades. Entretanto, 1978 já é também um marco de inflexão e um ano em que as falas públicas, institucionais e dos movimentos sociais, em incipiente processo de organização, começam a ganhar corpo. Impõem-se, aliados às insurgentes práticas sociais, as novas e cristalinas linguagens reivindicatórias, que suplantam o domínio das metáforas advindas das décadas precedentes. As palavras-símbolo desse momento crucial da história do Brasil são “distensão lenta e gradual”, “anistia ampla, geral e irrestrita”, e que, evidentemente, já fazem parte do repertório do futuro presidente João Batista Figueiredo. Os significados dessas mudanças já são compreendidos nesses signos verbais. Ivan Lins, entrevistado pelo jornal, naquele ano, em Teresina, afirmava ser importantíssimo o uso das palavras, que as palavras eram fundamentais. Referindo-se a 1968, considerava os limites então impostos à linguagem e que, por conta da censura, metáforas e hermetismos a dominavam de modo que ninguém entendia nada. Entretanto, 1978 estava muito longe de ser um mar de rosas. Em que pesem as reformas do senador Petrônio Portella, as promessas do candidato João Batista Figueiredo e algum grau de liberdade na imprensa, os propugnadores das mudanças políticas eram tidos como comunistas e subversivos, e o MDB  considerado o grande guarda-chuva a abrigar e a dar vez a esse coro de descontentes. Insinuava-se então a necessidade do pluripartidarismo, pois tanto Arena quanto MDB eram agregados de interesses díspares e posições contraditórios.
A cena política de 1979 aprofunda as contradições latentes dos anos anteriores e define os novos rumos da política nacional – cuja centralidade é a abertura, com todo um leque de desdobramentos que se prolongarão nos anos seguintes, até talvez fechar-se o ciclo da transição por volta de 1985-1986. Eleito João Batista Figueiredo, a luta do MDB, presidido por Ulisses Guimarães, tem como metas a Constituição, o pluripartidarismo, a liberdade sindical, a legalidade, a anistia, a reconquista dos direitos individuais, evidentemente que o MDB catalisando as forças da resistência nacional no período. O ano é intenso em conversas,  entendimentos e negociações e figuras centrais nesses esforços foram, sem dúvida, Petrônio Portella, Aureliano Chaves, na condição de vice-presidente, Ulisses Guimarães e Tancredo Neves, cujos talentos diplomáticos se exercitaram incessantemente. A senha para a redemocratização do país e para a abertura de um diálogo negociado já havia sido colocada por Figueiredo na retumbante promessa de fazer do país uma democracia.
Se até 1979, o jogo político estava marcado pela atuação de apenas dois partidos – MDB e Arena – sem embargo das divisões internas de cada agremiação, o ano seguinte já é de extraordinária ebulição e de vigor do pluripartidarismo. No segundo semestre, o cenário político já conta com partidos de diferentes colorações ideológicas, com espectros ora mais à direita, ora mais à esquerda e que correspondem a toda uma fragmentação dos interesses nacionais. Os agrupamentos agora ocorrem em torno do PDS, do PP, do PMDB, do PDT e do PT.
Nesse período, os temas do Inovação eram a anistia, a liberdade de imprensa, a constituinte, a redemocratização do país, o fracionamento interno dos partidos políticos, os direitos humanos, os impasses da política partidária nacional. Ao desfraldar a bandeira da liberdade em suas várias expressões, enunciava a insatisfação com os representantes políticos locais. Já estavam também em cena os problemas que viriam a se agravar nos anos subseqüentes: a inflação, o desemprego, a dependência ao Fundo Monetário Internacional (FMI), as soluções através dos “pacotes” econômicos. As grandes questões políticas apontavam para as eleições diretas de governadores, já com vistas às eleições para a Presidência da República, movimento que será a nota dos primeiros anos da década de 1980, até culminar com o momento síntese do “diretas já” e a construção do mito de Tancredo Neves.
Ao tempo em que essas tramas da cultura política nacional se articulam e indicam a modificação no cenário das relações de poder, no âmbito do Estado do Piauí consolidam-se os representantes da cidade de Parnaíba como figuras de destaque na administração pública.
Evidentemente, nem só de política vive o jornal. A literatura se fez presente desde os números iniciais, destacando-se especialmente a poesia com feição de denúncia social. O registro da miséria humana, em todas as suas gradações, atravessa as inumeráveis contribuições de Elmar Carvalho, Alcenor Candeira, Paulo Couto, Ednólia Fontenele, Wilton Porto e muitos outros. Essa vontade de expor as entranhas dos poderes faz com que essa colaboração literária seja, logo nas décadas de 1970 e 1980, levada a um público mais amplo, por meio de publicações de obras coletivas, como Poemágico  e Poemarít(i)mos,  que agregam alguns daqueles poetas citados e outros que orbitavam em torno do movimento jovem parnaibano do período. Muito dessa poesia ainda guarda extraordinária atualidade estética e política. É na linguagem literária que ocorre a principal síntese da proposta centro do jornal e se atualiza o seu pressuposto – política é cultura. E a cultura, no grupo e no jornal, é concebida como uma teia de relações sociais em que os costumes, as posturas éticas e mesmo as escolhas das formas de lazer sinalizam para significados políticos.
Ao longo de dez anos ininterruptos, Parnaíba é descrita, perscrutada, mostrada e lamentada em todos os seus quadrantes, sobretudo nos seus aspectos de miséria e privação. As comunidades urbanas e rurais são expostas em suas condições de vida e sobrevivência: pescadores, agricultores, vazenteiros, artesãos, comerciários, modestos funcionários públicos, feirantes, canoeiros, estivadores, estudantes, mulheres pobres e prostitutas, desfilam em seus dramas e em seus esforços cotidianos de inventar e reinventar a sobrevivência. Os principais logradouros urbanos são objeto de constante atenção e de solicitação de interferência por parte da administração municipal, com especial realce para os problemas de saneamento e de limpeza pública. As comunidades rurais são visitadas e inquiridas através de questionários que buscam recolher informações sobre os modos de viver, de enfrentar as dificuldades e registrar as expressões dos desejos dos seus habitantes.
O olhar inquieto e insatisfeito dos articulistas do Inovação sobre Parnaíba desvenda todo um universo de outras questões cruciais da cidade. Dentre elas, destacam-se as preocupações com o desenvolvimento urbano, acompanhadas de propostas de solução; a natureza da vida política local, amplamente criticada em seu modelo clientelista, assistencialista e nepotista, com seus personagens que se perpetuam no poder local; as limitações da vida cultural e o pequeno espectro de possibilidades de lazer para os jovens; a vida estudantil e os prementes e visíveis problemas da educação no município. A ecologia, que emerge enquanto tema, já é abordada em diversas facetas.
O conjunto do jornal, por consolidar informações contínuas para uma década, permite acompanhar as discussões, no governo e fora dele, acerca das possibilidades e das propostas de ação pública de intervenção sobre a vida econômica da cidade. As questões e as soluções parnaibanas giram em torno do porto de Luís Correia – de proposição secular -, da instalação e do fortalecimento de um distrito industrial, dos incentivos ao turismo e ao artesanato. Entretanto, nesses aspectos, a contabilidade não é favorável à cidade e, das inumeráveis matérias que se reportam de forma direta ou indireta à situação econômica de Parnaíba, ressumbram, de um lado, o canto melancólico de uma volta ao passado mistificado e glorioso da velha Parnaíba do charque, da navegação fluvial e da exportação dos extrativos e, de outro, o cenário desesperançado da terra do “já teve”, de passos lentíssimos para um futuro mais promissor e objeto do desamor e da incúria de seus representantes políticos e dos administradores do momento. Não se trata, pois, de um quadro lisongeiro e alentador. Alentador só o sonho de mudanças que perpassa a atitude dos jovens articulistas do Inovação.
A análise da política e da administração no âmbito local constituem o mote para avaliar as misérias e mazelas a que estavam (e estão) submetidas especialmente as populações pobres, objeto constante e do maior interesse no conjunto do periódico, conforme já foi realçado. Um olhar de quase duas décadas após ainda se depara com características muito próximas dos quadros delineados, com a continuidade dos modelos de gestão e a permanência, por anos a fio, dos mesmos personagens políticos, agora com maior expressão estadual e nacional, mas configurando as mesmas práticas e os mesmos objetivos do passado.
Jornal de jovens, voltado também para os leitores com esse perfil, o Inovação traz em muitos de seus números preocupações com a vida estudantil em todos os seus níveis, refletindo sobre o sentido político das práticas educativas, a importância da participação nas entidades representativas de estudantes e professores, enunciando as pautas dessas instituições e as modificações que vão ocorrendo em seus interesses, à medida que os processos de abertura política e de reconquista dos espaços democráticos vão possibilitando a emergência de novas reivindicações coletivas.
Nessa mesma direção, nos primeiros anos de circulação do jornal abre-se coluna para notícias sobre a organização e ação sindical em Parnaíba e no Piauí, num tempo em que, discutidas no cenário nacional, essas temáticas são repercutidas e comentadas. É a partir da vertente sindical, que aparece o metalúrgico Lula pela primeira vez em suas folhas, em matéria que precede as relacionadas à visita do líder sindical do ABC a Parnaíba, no final de 1980, já na condição de fundador do PT, articulando a criação de diretórios do partido no Piauí. Este já é o momento do pluripartidarismo, embrião da complexa discussão da ordem política que marcará a primeira metade dos anos 1980.
A sensibilidade no perscrutar a vida local em toda a sua variedade de manifestações conduz ao tratamento, às vezes irreverente e criativo, das chamadas questões ecológicas, hoje ambientais. Assim, é notável a graça com que Sólima Genuína faz o quadro da conversa casual entre o Ganso e a Garça, duas figuras de louça que habitam a Praça da Graça – símbolo da cidade e ícone do jornal – e desse ângulo privilegiado observam a vida urbana e, especialmente, a relação do homem com a natureza. A degradação dos rios, a poluição ambiental e suas seqüelas e o lixo urbano são objetos de constante preocupação daqueles sensíveis “animais”, em sua função educativa.
O Brasil do final dos anos 1970 até os meados da década de 1980, quando o jornal Inovação tem sua circulação mais regular e intensa, não experimenta apenas perceptíveis alargamentos das molduras da ação política, sindical, associativa e partidária. A Igreja brasileira, seguindo tendência mundial e em sintonia com as novas posturas do episcopado latino-americano, reflete e reposiciona-se face às prementes questões sociais e, sobretudo, traz para o proscênio os despossuídos de todo o mundo. A partir do Inovação é possivel acompanhar algo desse debate e do enfrentamento às resistências do Estado, que administra gradativamente a liberdade de expressão de todos e da própria Igreja, cuja clara cisão  deixa visualizarem-se os novos teólogos da libertação e seus simpatizantes. Nesse período, a forte politização e a ação social de algumas frações da Igreja Católica traziam para o embate político parcela do episcopado brasileiro, a dita  ala progressista, à frente bispos como os de Fortaleza (D. Aloísio Lorscheider) e de São Paulo (D. Paulo Evaristo Arns) e o ideólogo de Teologia de Libertação, frei Leonardo Boff. Nesse contexto, também se salienta a atuação de instituições como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A Igreja já institucionalizara sua opção preferencial pelos pobres.
A análise das cartas publicadas no jornal e, sobretudo, o conjunto da correspondência recebida é de molde a evidenciar a amplitude geográfica e social das relações estabelecidas pelo grupo. É o lugar também em que se configura a identidade de segmentos da sociedade brasileira que se insurgem contra o regime militar e que evidencia a generalidade das situações vividas por esses segmentos.

Por fim, quero realçar que deixei à responsabilidade do autor do livro expressar os sonhos, as emoções, as dificuldades e as formas críticas de solução encontradas pelo grupo do Movimento Social e Cultural Inovação para fazer viver e prolongar o tempo da interferência social e política do pequeno e corajoso jornal. É desse universo que o livro fala.    

domingo, 17 de janeiro de 2016

Seleta Piauiense - Celso Pinheiro


Mater

Celso Pinheiro (1887 - 1950)

A minha mãe, uma velhinha doce,
De olhar de mel e beijos de torcazes,
A minha mãe, coitada! talvez fosse
A dindinha dos cravos e lilases!...
  
No seu ventre bendito Ela me trouxe
Nove meses... E um dia, sob audazes
Raios de sol primaveril, notou-se
Que surgira um bebê de olhos vivazes...
  
Era eu! era um poeta extravagante,
Que nascera sem festas nem alardes,
Quando o dia era um límpido diamante...
  
A minha mãe... matou-a o mês de Agosto!
E é por Ela que eu vou todas as tardes
Rezar na capelinha do Sol-posto!...       

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

RETRATO DE UMA VIDA


RETRATO DE UMA VIDA

Valério Chaves
Desembargador inativo e escritor

            Dia 8 deste mês, quando fazia minha costumeira caminhada de final de tarde na Raul Lopes, tive o prazer de receber por intermédio do próprio autor, um exemplar do mais novo trabalho literário do juiz, poeta e escritor Elmar Carvalho, intitulado RETRATO DE MEU PAI.

            Tão logo cheguei em casa, tratei de ler e reler o livro remoendo cada página como o boi de Catulo. Ao final, pude constatar que se trata de um breve registro familiar escrito pelo autor em homenagem aos 90 anos de vida de seu pai MIGUEL ARCÂNGELO DE DEUS CARVALHO.

            Na verdade, trata-se de um opúsculo muito bem elaborado em que Elmar Carvalho, utilizando-se de seu inigualável poder de sintetizar, expõe de forma fragmentada a vida de seu pai, trazendo à tona fatos, lugares e personagens que pelo valor do estudo e informações que lhe foram passadas por parentes, formam uma valiosa fonte de pesquisa.      Apesar das poucas páginas ilustradas com fotos,lugares e pessoas da família do homenageado, o trabalho de Elmar Carvalho não deixa de ser uma forma de exercício criativo que tem sua dinâmica impulsionada pela vontadede vislumbrar o papel do ser humano no mundo.

Com o vigor da arte que lhe é peculiar, soube montar o quadro existencial de seu pai utilizando-se de material emotivo extraído das profundezas da alma adornando a trajetória de uma vida modelada pelo caráter retilíneo e a honestidade de um homem simples que, escondido na sua humildade,soube avaliar a si próprio, parecendo haver sido formado na mesma cepa dos espíritos mansos, que nada ambicionam.

            Não obstante a realidade do Brasil seja outra nos dias atuais, os fatos e histórias verídicas contadas no livro-homenagem de Elmar Carvalho, não perdem sua contemporaneidade em relação ao tempo vivido por seu Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, principalmente no que diz respeito à intolerância e aos costumes da política praticada por aqueles que se acham no direito de nomear e demitir, sem razões justificadas.

            No momento em que estamos empenhados na árdua tarefa de sobrevivência em meio aos escândalos patrocinados pela corrupção praticada pelos maus políticos e pelos gestores da coisa pública, é bom saber que ainda podemos viver ao lado de pessoas como Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, que nos seus 90 anos de vida, mesmo fragilizado pela idade, nunca deixou de preservar a honestidade e a arte do amor. Enfim, nunca deixou de sentar em volta da mesa para partilhar com a família e com os amigos, o pão do abraço.

            Resta-me, pois, nestes breves rabiscos, parabenizar o autor de RETRATO DE MEU PAI desejando a ele e ao homenageado, vida longa, muito longa.

                        Teresina/PI. 13 de janeiro de 2016.             

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

RETRATO E ANIVERSÁRIO DE MEU PAI




Miguel Carvalho e os filhos Paulo, César, Maria José, Joserita, Antônio, João e Elmar


12 de janeiro Diário Incontínuo

RETRATO E ANIVERSÁRIO DE MEU PAI

Elmar Carvalho

No dia 8 de janeiro deste novo ano, comemoramos o aniversário de meu pai. O evento foi idealizado por minha irmã Maria José, mas contou com o apoio dos familiares. A missa foi celebrada pelo padre Jurandir da Silva Rodrigues, na igreja da Paróquia Santa Luzia. Foi um lindo culto, em que o sacerdote, de joelhos, com as luzes na penumbra, fez um magistral sermão, que nos encantou a todos pela riqueza de seu conteúdo. Todos nos emocionamos com as suas belas palavras.

Apesar da chuva fina que caiu durante a noite toda, estavam presentes todos os amigos e colegas postalistas de meu pai, muitos já idosos. Essa presença massiva foi uma prova de consideração e amizade ao aniversariante. O padre Jurandir foi atencioso e afetivo com meu pai, inclusive tendo lhe dado a palavra após o término da celebração. Papai agradeceu o comparecimento de todos e pediu desculpas por eventuais esquecimentos de nomes.

Vendo tantos amigos, lembrei-me de um caso contado pelo escritor Orígenes Lessa, a respeito do sepultamento de seu pai, que teve um grande cortejo. Um forasteiro, admirado, perguntou a uma pessoa que chorava, se o falecido era uma pessoa muito importante. Recebeu, entrecortada por soluços, a seguinte resposta: “Não. Era só muito bom.” Fazendo coro, poderia dizer que apenas comemorávamos as nove décadas de um simples homem bom.

Depois da celebração religiosa, nos deslocamos até o Buffet Momentos, onde houve farto jantar e libações. Mesmo com a chuva ou, talvez, por causa dela o “clima” foi de alegria, descontração e congraçamento, com o reencontro de velhos e estimados amigos. Foram contados vários “causos” pitorescos ou engraçados do tempo em que papai chefiou a ECT em Parnaíba, quando muitos dos presentes estavam iniciando a sua vida profissional. Como lembrança, foi distribuído o livro “Retrato de meu pai” (com depoimentos e fotografias), cujo texto principal, de minha autoria, datado de 05.01.2016, quando ele completou noventa anos de vida, transcrevo: 



“Não pretendo ser emotivo e nem sentimental, e tampouco desejo traçar aqui o perfil psicológico e moral de meu pai. Por tal razão, irei contar, de forma sintética, fatos de sua vida, que serão diminutos mosaicos ou azulejos, que juntos formarão um pequeno painel de sua vida e de seu caráter.

Talvez alguns de seus pequenos defeitos, que todos os temos, sejam consequência de suas virtudes e qualidades de homem bom, de uma pessoa que sempre teve dificuldade em dizer um não, que procurou sempre não contrariar ou magoar quem quer que fosse. Algumas vezes ele se prejudicou por causa disso, por causa dessa virtude que alguns consideram fraqueza ou tolerância algo excessiva. Contudo, Deus o protegeu, e ele alcançou os seus noventa anos de idade sem maiores percalços e sobressaltos.

Miguel Arcângelo de Deus Carvalho é o seu nome completo. Nasceu em Barras, no dia 5 de janeiro de 1926, filho de João de Deus Nascimento e Joana Lina de Deus Carvalho. Perdeu seu pai quando tinha apenas 13 anos de vida, e cursava o ginásio no Colégio Diocesano, em Teresina. A infausta notícia lhe foi transmitida, com as cautelas de praxe, pelo Monsenhor Chaves, que depois viria a se tornar um dos maiores historiadores do Piauí, do qual vim a me tornar amigo, quando fui o presidente do conselho editorial da Fundação Cultural que leva o seu nome. Teve que retornar a Barras, a chamado de sua mãe. Filho único do terceiro casamento de seu pai, muito jovem e sem experiência laboral, era evidente que não saberia gerir a herança que lhe coube, após a partilha com os demais herdeiros.

Portanto, cedo teve que trabalhar, para sustentar-se a si e a sua mãe, que morou em sua companhia até quando faleceu. Fora outros empregos, trabalhou na Casa Marc Jacob e na Casa Inglesa, em Campo Maior, para onde se transferiu aos 26 anos. Após aprovação em concurso público, feito pelo famoso DASP, foi admitido no Departamento de Correios e Telégrafos – DCT, mais tarde, no regime militar, transformado em empresa.

Quando trabalhou numa firma comercial pertencente ao marido de uma prima de minha mãe, houve um fato que bem revela o seu caráter de homem leal, mas polido, e que não gostava de ofender ninguém, mesmo os desconhecidos. O dono do comércio estava chateado com um fornecedor, que não cumprira fielmente o contrato. Ditou uma carta áspera, em que se queixava de forma rigorosa dos defeitos que apontava. Meu pai, ao datilografar o que lhe era ditado, atenuou algumas palavras e expressões. Ao ler a carta, o empregador, que era uma ótima pessoa e amigo de meu pai, de maneira educada observou: “Miguel, você não se sentiu bem em escrever as palavras que eu disse... Deixe, que eu mesmo vou datilografar.” E carregou na dosagem dos impropérios e adjetivos, com os quais fustigou o seu desafeto.

Após aprovação em concurso público realizado pelo DASP, meu pai, em 1957, foi nomeado servidor público federal. O telegrama da nomeação, após espera de aproximadamente dois anos, lhe foi entregue pelo telegrafista Gerson Marques, seu amigo por toda a vida, que, apesar de não ser mensageiro nem carteiro, fez questão de lhe repassar incontinenti a mensagem telegráfica. Exerceria o cargo de guarda-fio na Diretoria Regional do Piauí do Departamento de Correios e Telégrafos – DCT. Era considerado um bom emprego para a realidade da época. Tomou posse de seu cargo no então povoado de Papagaio, um pouco depois elevado à categoria de cidade, onde nasceu meu irmão João José, o segundo de uma prole de oito, da qual fui o primogênito. Após uma breve serventia de um ano, meu pai conseguiu sua remoção para Campo Maior, após breves passagens por José de Freitas e Barras. Sobre a nossa permanência em Francinópolis já me referi em outros textos, publicados na internet.

Em sua carreira no DCT, nossa família morou por pouco tempo na zona rural de Campo Maior e novamente em José de Freitas, durante um ano. Nesta cidade, com o apoio total do padre Deusdete Craveiro de Melo (meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas), fundei um time de futebol, o Santos, e um campo futebolístico, localizado perto do cemitério velho. Quando morou na zona rural, e com o crescimento da família, meu pai sentiu a necessidade de ascender funcionalmente. Embora tivesse apenas o segundo grau incompleto, encarou os livros com afinco e determinação e passou no concurso interno para técnico postal da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT. Fez curso de um ano em Recife, no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro. Após, teve que optar pelo regime celetista (deixando de ser estatutário e estável), para assumir seu novo cargo. Foi designado, no começo de 1975, chefe da ECT em Parnaíba. Exerceu esse cargo por vários anos. Aposentou-se em 1984.

No final da década de 1960 e/ou início da seguinte, meu pai foi colaborador eventual do jornal A Luta, de Campo Maior. Nele publicou algumas crônicas e artigos, alguns contendo casos interessantes ou pitorescos de sua vida. Seus textos eram concisos, fluentes, objetivos e gramaticalmente corretos. Tanto que, ao retomar seus estudos, mereceu em redação para a disciplina Educação Moral e Cívica, de que era professor o impoluto juiz Hilson Bona, a nota 10. Ao dar o resultado da prova, o Dr. Hilson, que mais tarde veio a ser meu professor de OSPB, disse que outros alunos mereciam essa nota, mas que não lhes dera porque não poderia dar mais do que 10 a meu pai. Assim, lhes deu nove vírgula alguns décimos.

Papai gostava de ler, e “degustou” vários clássicos da literatura brasileira e mesmo mundial. Tinha certa predileção por Machado de Assis. Tinha várias antologias escolares, insertas em livros didáticos de Português. Sabia decorado vários poemas, os quais ocasionalmente recitava. Cantarolava belas letras, verdadeiros poemas, de músicas da velha guarda. Era assíduo ouvinte do programa radiofônico Gramofone da Vovó, apresentado por Jaime Farrell, através das ondas poderosas da Rádio Sociedade da Bahia. Por esse motivo, conheço muitas dessas antigas e belas melodias. Se tivesse dado continuidade a essa sua faceta literária, poderia ter-se tornado um escritor, ainda que bissexto. Mas sua modéstia e despretensão não lhe permitiram ir além dessas breves incursões literárias.

Ainda na fase em que voltou a estudar, havia uma disciplina artística em que o aluno era obrigado a confeccionar um objeto de arte, em papel, madeira ou argila. Geralmente eram feitos desenhos, pinturas ou objetos de artesanato. Os trabalhos eram elaborados em casa, de modo que alguns alunos pagavam a alguém para fazê-los, já que não eram produzidos à vista da professora. Numa das ocasiões, meu pai optou por fazer o desenho de uma das mais conhecidas casas de Campo Maior. Sem ser desenhista e sem ter essa vocação, foi, contudo, meticuloso, e mesmo perfeccionista. Fez medições com a régua e o esquadro, para alcançar a simetria, a proporcionalidade e o possível efeito da perspectiva. Conseguiu fazer um bom trabalho, mormente considerando-se a sua inexperiência e falta de vocação para esse mister.

Outro trabalho seu, por exigência dessa disciplina artística, foi um carro de boi, executado em buriti, que é leve e não exige demasiado esforço para ser desbastado. Após vários dias, com muito cuidado, disciplina e paciência, fez a miniatura, que apresentava notáveis semelhanças com um de verdade, pelo menos aos meus olhos de menino. Mereceu o elogio de todos, inclusive de minha mãe, e creio que da professora, já que ele não ficou reprovado. Disso tiro a conclusão que ele tinha o espírito de um artista, mas que por modéstia e timidez não deixou que lhe aflorassem esses dotes, que lhe ficaram em estado latente, ou pelo menos reservados à admiração que tinha pelos dons alheios. Talvez, ao confeccionar o seu pequenino carro de boi, tenha se lembrado do engenho de madeira de seu pai e dos imortais versos de Da Costa e Silva:

Movida pelos bois tardos e sonolentos,
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

Ai! dos teus tristes ais! Ai! moenda arrependida!
- Álcool! Para esquecer os tormentos da vida
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

No final da década de 1950, meu pai foi chamado a Teresina pelo senhor Oto Veloso, que exercia o cargo de diretor regional do DCT no Piauí. Visivelmente constrangido, o diretor perguntou o que meu pai fizera contra determinada figura da política piauiense. Meu pai respondeu-lhe que nada, que apenas comentara que não iria votar em determinado candidato que ele apadrinhava. Oto, bastante contrafeito, contou a papai que o político referido [descendo de seu alto cargo republicano para a sarjeta da política miúda, para a politiquice de campanário], exigira a sua destituição de pequeno cargo de confiança. Confidenciou que ainda lhe ponderara que Miguel era um bom servidor, e que não cometera nenhum deslize profissional, mas a alta autoridade, com irritação, quase tendo um chilique ou um ataque de apoplexia, respondera: “Mas eu quero, eu quero que ele seja exonerado”. Meu pai, humilde, mas altivamente, falou: “Fique à vontade, diretor, não se preocupe, pode fazer a exoneração, que a minha amizade e respeito pelo senhor vão permanecer os mesmos. Entretanto, o que eu fiz contra esse político foi votar nele várias vezes. Porém, moralmente, retiro os votos que já lhe dei...” Papai sempre manteve grande respeito e admiração pela integridade moral de Oto Veloso, irmão do ex-governador Djalma Martins Veloso.

No começo da década de 1960, logo ao chegar para o expediente, meu pai foi indagado pelo chefe da agência sobre por que faltara ao plantão anterior. Papai respondeu que não fora ele o faltoso. O agente, então, exigiu que lhe desse o nome do funcionário que não comparecera. Meu pai respondeu que não poderia fazer isso, mas que lhe bastava consultar o livro de ponto para saber o nome desse servidor. De maneira insólita o chefe comunicou ao diretor regional da época que meu pai teria cometido insubordinação, e não lhe teria acatado a determinação funcional. Meu pai, como “punição”, quase foi transferido para um local distante e isolado. Contudo, seguindo seus princípios éticos, preferiu ser prejudicado a prejudicar alguém, sofrer uma injustiça, a praticá-la. Mas Deus o protegeu e orientou, e tudo acabou bem.

Após aprovação em concurso interno, meu pai foi fazer o curso de Técnico Postal no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, em Recife, cuja duração era de um ano. Ao retornar, e após breve serventia em Teresina, foi designado para chefiar a agência da ECT em Parnaíba. Permaneceu nesse cargo por mais de sete anos. Embora aposentado, continuou residindo em Parnaíba até dezembro de 1994, quando voltou a morar em Campo Maior. Procurou cultivar a política da boa vizinhança com os quase cinquenta servidores, que existiam no início de sua gestão. Sempre que precisava reclamar por causa de alguma falha, chamava o colaborador ao seu gabinete, quando, então, com bons modos, fazia as suas observações e lhes dava a orientação que achava conveniente. Por causa de sua maneira cordial os servidores lhe tinham respeito e consideração, que até hoje conservam. Muitos que conviveram com ele, declaram dele sentir saudade, e sempre perguntam por ele e pela sua saúde. Desprovido de empáfia e arrogância, nunca precisou levantar a voz contra quem quer que fosse, e tudo acabava dando certo.

Por ter constituído uma família grande, mais precisamente de oito filhos, em certa fase de sua vida passou por algumas dificuldades financeiras, como costuma acontecer com quase todas as famílias, mas guardava isso somente para si, e nunca gostava de se queixar. Tinha uma fé inabalável em Deus, a quem orava com fervor, e terminava por resolver todos os seus percalços e dificuldades, sem nunca enganar os outros e nem lhes causar prejuízo. Nas vezes em que, eventualmente, recebeu algum dinheiro a mais, em lojas ou em agências bancárias, de imediato retornava para devolver o que indevidamente lhe fora pago. Esses exemplos sempre nos eram ressaltados por nossa mãe, para que os seguíssemos.

Em meados da década de 1960, meus pais receberam, através do serviço de reembolso postal, um pacote remetido pela empresa Hermes. Era um belo faqueiro, de aço inoxidável, quase uma novidade na época, pelo menos para nós. Esse conjunto de garfos, facas, colheres e outros utensílios nos serviram desde então. Minha mãe, creio que por pressentir que o termo de seus dias já se aproximava, mandou gravar em sete dessas colheres os dizeres “Casamento – Miguel e Rosália – 09.06.55”, e as distribuiu a cada um dos filhos. Desde essa data (09.06.55) até o falecimento de mamãe em 26.04.2013, meus pais viveram em perfeita união e benquerença.

Com oração e Fé, suportou meu pai a trágica morte de minha irmã Josélia, ocorrida em 02.07.1978, quando ela mal completara 15 anos de idade, e a de minha mãe, Rosália. Sei que ele muito sofreu, mas em Deus encontrou força e resignação. E agora, ainda lúcido e saudável, como um herói da vida e da luta do cotidiano, comemora com seus familiares, amigos e admiradores os seus 90 anos de idade, em cujo percurso, como o apóstolo Paulo, guardou a Fé, e disseminou o bem e o seu exemplo de homem voltado para a concórdia e para a bondade.”

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Advinha a idade dele?!


Advinha a idade dele?!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Passagem de ano novo, abraços, beijos, felicitações e foguetório, música, bebidas e deliciosos pratos. Em momentos assim, parece que a matéria se sobrepõe à reflexão sobre nosso destino diante da inexorável travessia do tempo nos corpos e de algo para além das esferas terrestres. Eu me sentia um misto de prazer com os meus familiares e amigos, um êxtase de dependência ao Criador, senhor do meu destino. Demo-nos as mãos, fechamos os olhos, invocamos o Santo Espírito, agradecemos “as marcas do que se foi e dos sonhos que vamos ter”. Céus iluminavam esperanças e perguntas existenciais: “Quanto tempo, natais e anos novos ainda me restam?!”

         Dia desses, uma criança perguntou a um senhor: “Quantos anos você tem?” O cidadão filosofou: “Quando eu nasci, Teresina só dispunha de uma ponte sobre o Parnaíba, outra no Poti. A cidade acabava na Vermelha, no Aeroporto, na Piçarra, na Praça do Marquês, na ponte do Poti.

         Nasci antes da televisão no Brasil, vacinas contra pólio, comidas congeladas, fotocopiadoras, lentes de contato, pílulas anticoncepcionais, radares, cartões de crédito, conquistas espaciais, homem na Lua, secadores de roupa (só no varal), ar condicionado, raios laser, fotografia colorida, que exigia revelação, cara, e só recebia dias depois.

         Gay era uma palavra inglesa para pessoa contente e divertida; não para homossexual ou lésbica. Rapazes só pensavam em casar-se com virgens. As não-virgens eram expulsas de casa, residiam em cabaré, não circulavam na Praça Pedro II, proibidas de entrar nos clubes sociais. Tirar a virgindade, tinha de casar, ou morria, às vezes.

         Estudantes circulavam, livremente. na escola, com canivete. Ninguém se feria. Ensinavam-se condutas de respeito aos mais velhos, chamando-os de senhor ou senhora, cedendo-lhes o assento, tomando-lhes a bênção, se parentes. Ensinava-se a diferenciar o bem do mal,  honrar os dez mandamentos. À entrada do professor na sala de aula, todos de pé. Hino nacional todo dia. Ia-se, às 5 da manhã, à escola, para educação física, e não era molestado.

         Não existia rádio FM, só AM, capaz de alcançar milhares de km, como o Repórter Esso ou BBC de Londres. Ainda se rodavam discos de 78 rotações, sem CD, DVD, máquina de escrever elétrica, calculadora mecânica portátil, música estéreo, fitas K7. Só relógio de corda, nada digital, microondas, videocassete, Mac Donald’s, filmadora de vídeo, pizza, made in China; made in Japan, sim, ou Suíça. Não se falava à distância por telefone. Rapidez só por telegrama.

         Por centavos, pagava-se a passagem de ônibus, refrigerante. Erva nos jardins e pastos, não como droga. Mulher precisava de marido para gerar filhos. Qualquer evento social exigia terno, inclusive no cinema”.

         -Quantos anos eu, tenho?

         - 200!

         - Tenho apenas 60 anos!

         Ano novo tem dessas coisas: o tempo anda tão veloz que perdemos a conta dos avanços.   

domingo, 10 de janeiro de 2016

Morre Bernardo Carranca


Acabo de saber da morte de Bernardo Carranca, através de telefonemas de amigos parnaibanos e do portal Proparnaíba, no qual tenho blog. Do site mencionado transcrevo o seguinte trecho:

“No início da tarde deste domingo, dia 10, o músico parnaibano Bernardo Carranca faleceu. O prefeito Florentino Neto decretou luto oficial de três dias pelo falecimento do cantor .

Segundo informações não oficiais, músico deu entrada no Pronto Socorro Municipal de Parnaíba, onde já chegou sem vida.  A causa da morte do artista ainda não foi divulgada.

Carranca é um dos grandes nomes no cenário musical da cidade de Parnaíba, desde 1967 quando ficou conhecido por seu trabalho como vocalista da banda “Os Grilos”, como também entrou para a história da música parnaíbana, pela arte do improviso e principalmente por fazer parte da cultura da cidade.”

Aproveito para apresentar meus pêsames aos seus familiares, e para ressaltar que ele ficará para sempre lembrado pelos seus improvisos bem humorados e pelas suas performances, em que mostrava dotes de verdadeiro ator e intérprete.

Seleta Piauiense - Zito Batista


MEU CORAÇÃO

Zito Batista (1887 - 1926)

Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...

E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...

No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...

Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Um presente inesquecível



Um presente inesquecível

José Pedro Araújo
Historiador, romancista e cronista

Estava certo dia desfrutando do meu estimado ócio em minha casa, quando recebo a ligação de um grande amigo, Chico Carlos, o nosso inventivo Acoram. Não foi o telefonema de um amigo qualquer, daqueles arranjados ao sabor das libações, em volta de uma mesa de bar. Mas de um tipo que se convencionou chamar de ”amigos de todas as horas”. Convidava-me a prefaciar um livro de sua autoria que, a bem da verdade, não sabia eu que ele estava a escrever. Fiquei, naturalmente, preocupado com o convite. Afinal, reside ai uma das muitas tarefas sobre as quais não me sinto pronto para desempenhar. E fiquei com aquilo em mente, preocupado, sem saber como pedir ao meu amigo que procurasse alguém mais capaz para desempenhar tal missão com competência e à altura do seu trabalho, que já intuía de boa qualidade. E fiquei assim, esperançoso que ele esquecesse o convite que me havia feito. 

Passados alguns dias, nem mais um contato. Eu, naturalmente, já estava confiante de que o meu desejo havia se concretizado. Chico Acoram havia chegado à conclusão de que a mim não cairia muito bem esse papel. Mas qual! Daí alguns dias, volta o Acoram a me ligar. Bom, meditei rapidamente, sempre há a possibilidade de ser uma ligação com um pedido de desculpas por ter esquecido o convite feito, mas que já encontrara outro prefaciador. Não aconteceu assim. Para meu desgosto. Ao invés disto, convoca-me para uma chegada até o seu local de trabalho quando me apresentaria a boneca do seu livro. Já que era assim, ponderei sem muita confiança, que assim fosse.

Chegando ao prédio da AGU(Advocacia Geral da União), local em que o velho cacique desempenha e esbanja a sua competência habitual, sou recebido por ele com a efusiva alegria de sempre, o que me deixou um pouco mais tranquilo, mesmo ainda estando com o semblante carregado, denotando preocupação. Resolvi embarcar na cordialidade e alegria com as quais habitualmente sou envolvido quando nos reencontramos, e isso me fez bem. Aos poucos fui me soltando ao ponto de deixar a preocupação de lado e entrar na brincadeira saudável do Acoram.  

Satisfeito com as novas instalações da Procuradoria Federal, fui conduzido por ele para um Tour de reconhecimento, passando inclusive pela cozinha, onde fui apresentado a uma simpática copeira, a moça do cafezinho, mas também pela sala do chefe, espaçoso escritório que contrastava em tudo com as velhas instalações da Procuradoria no tempo em que ainda ocupava um velho e acanhado prédio ao lado da Prefeitura Municipal de Teresina. A caminhada, as tiradas alegres do meu amigo e, sobretudo, as apresentações que foram acontecendo no trajeto, fizeram-me esquecer um pouco a razão do convite feito. Mas isso demorou pouco. Logo voltamos à sua sala e ele me recordou o porquê de estar ali.

Depois de ir a um armário apanhar alguma coisa, ele depositou sobre a mesa um pacote robusto, que pelo barulho feito ao ser lançado sobre ela, pareceu-me bem volumoso e pesado. E de fato era. A essa altura a minha curiosidade já suplantara o receio, e eu já queria que ele abrisse o grande envelope e me apresentasse o que ele continha. Velho brincalhão, o Chico Acoram! Trapaceiro, no bom sentido. O que saiu do envelope foi um grande livro encadernado, capa dura, na cor verde, com a inscrição estampada em letras douradas: Teresina, 160 Anos!

Sorrindo com a peça pregada, contou-me que durante todo o ano de 2012 havia adquirido a edição de domingo do Jornal O Dia, com o propósito de obter o encarte que ele trazia sobre a história de Teresina. E me surpreendeu outra vez: aquele volume que eu tinha em mãos era meu. Algo inestimável e que me causou profundo contentamento. Preciso dizer ainda que o presente recebido ainda me tirou aquele peso das costas que eu carregava desde o dia daquela famigerada ligação telefônica que ele havia me feito. Duplo presente, eu diria.

Passei a manusear o volumoso exemplar que tinha nas mãos, enquanto a conversa se desenrolava alegremente, e pude perceber a riqueza que ele guardava. Tratava-se de um trabalho primoroso feito pelo professor e imortal Fonseca Neto, que assim homenageava a cidade de Teresina pela passagem do seu aniversário. As matérias traziam ainda fotografias e gravuras históricas que muito enriqueciam o hercúleo trabalho, tudo organizado, encadernado e protegido por uma bela capa mandada fazer pelo meu bom amigo Chico Acoram.

Tenho sido brindado com ótimos presentes ao longo da minha vida. Alguns deles, ainda conservo comigo, apegado que sou às coisas que mais prezo. Este, com certeza, foi um dos que mais me trouxe alegria. E também um sentimento contrário aos das traças: pretendo guardá-lo comigo até o fim. 

Pensei em fazer e publicar esta pequena resenha no meu blog neste período festivo em que é tão comum a troca de presentes entre as pessoas. E recorrendo à memória, procurei nela informações para saber se já havia ofertado algo ao amigo Chico Carlos. Não consegui descobrir nada, pois se já tiver lhe presenteado com algo deve ter sido coisa insignificante, pois não me lembro de nada. Ao passo que o que ele me presenteou jamais vai sair das minhas mãos enquanto vida eu tiver. E isso pela excelência do mimo, e pela importância do que ele contém para um rematado curioso sobre a história desta cidade que me acolheu tão carinhosamente, lugar que escolhi para passar os meus dias. Aqui pratiquei a coleta dos víveres necessários à minha sobrevivência, apanhei água na fonte para matar a minha sede, e juntei o material necessário para armar o meu barraco em lugar ideal para oferecer proteção à minha família contra as intempéries e os animais peçonhentos.


Sou grato à cidade, mas também aos amigos que aqui amealhei. Amigos como o Chico Acoram que me pregou a mais deliciosa das peças que já fizeram a mim nesses tempos que já se alongam.