terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Carta da Suécia e dos leitores


Carta da Suécia e dos leitores

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Crimes de lesa-pátria, corrupção epidêmica e violência assombram brasileiros. Paira no ar a sensação de desânimo, a vontade de buscar outras pátrias. O pior de tudo, porém, é não reagir, permanecer de boca fechada. Ou em italiano, Bocca Chiusa (pronúncia quiusa).

         A crônica POLÍTICOS SUECOS VERSUS POLÍTICOS BRASILEIROS provocou uma série de manifestações de leitores de diversas regiões, inclusive da Suécia. Professora Maurienne, piauiense, casada com cidadão sueco, residindo, há dez anos, naquele país, em longo texto, mostra aspectos da sociedade sueca. Resumi algumas passagens do e-mail de Maurienne, bem como de outros leitores:

         “Fui indagada por meu professor, aqui na Suécia: ‘Fala-se muito de corrupção no Brasil. Você acha que há corrupção aqui na Suécia?’ Respondi-lhe convicta: ‘Claro que sim. Há corrupção na Suécia! Ao que ele reagiu com olhos arregalados e uma suspensão de fôlego: ‘O que você está dizendo? Por que você acha isto?’ E retruquei: ‘O que vocês fazem aqui ainda é elementar, solto, quase pequeno, um monstrinho de estimação. Ao passo que, o que ocorre no Brasil, infelizmente, é orgânico, sistemático, transmissível e vicioso, um monstro gigante engolindo a nação que o alimenta! Triste e desapontada por ter eu mesma dito aquilo pra um sueco”.

         Ademir de Castro Lima escreveu: “Vou embora pra Pasárgada” Não ... Para a Escandinávia. Dinamarca, em pesquisa recente, o país menos corrupto do mundo. O Brasil me envergonha muito”.  Ângelo de Sousa: “Como sempre, algo pertinente e importante para refletir, e cada um fazer sua parte, contudo, o próprio Estado exemplifica que, infelizmente, o crime compensa”. Beto Carvalho: “Faltou leitura deste texto na reunião do conselhão, em Brasília,  realizada ontem. Bastava isto para salvar o tempo perdido ali e se iniciar um plano de sobrevivência para o Brasil”. Maria Dolores Teles: “Você escreveu o que está dentro da sua consciência e com o coração mostrando o descompasso das sociedades que vivenciam situações heterogêneas, dado o tipo de políticos que são eleitos”. Professor e doutor Jota Carlos: “Parabéns, professor, pela excelente crônica. Contrasta com a nossa situação, há primórdios tempos . Sirva de embasamento e lição para nós, brasileiros, sabermos optar por escolher nossos representantes”.  Aurélio Jaques, de Araripina-PE: “Bem lembrado, professor: tapa na cara, mesmo! Tem que haver mudança, a começar pelo voto, acredito”. Gerardo Oliveira exerceu magistratura em Brasília: “Meu filho que reside em Stockholm, há mais de cinco anos, disse que a realidade política dos representantes do povo, naquele país escandinavo, é realmente como informa o nosso cronista.  Faço apenas uma ressalva: ministros e deputados federais recebem do Estado, durante o mandato, apenas o local para morar e não recebem qualquer tipo de subsídios”.  Juiz João Batista Rios: “Tripudiamos a vida dos políticos ... Que temos feito em defesa da moralidade, ética, e "modus vivendi" daqueles que ousam nos representar em qualquer esfera politico-administrativa?”. Cincinato Leite (Mecejana-CE):    “Você está certo: Cidadãos brasileiros precisam extrair lições da Escandinávia  para eleger líderes patrióticos e éticos de qualquer confissão religiosa ou partidária”.


Manifestaram-se, ainda, Marcelf Lopes, Marcelo Aragão, Francisca Machado, jornalista Herbert Fonseca, Professor Cassy Távora (Caucaia-Ce), Antônio Carlos Sampaio, entre dezenas de leitores que curtiram a matéria nas redes sociais.  

domingo, 7 de fevereiro de 2016

(IR)REAL


(IR)REAL

Elmar Carvalho

Eu busco as
mais loucas sinestesias
em minha mente alucinada,
onde as cores aromáticas
se agregam a sons macios,
misturados com aromas térmicos.
A loucura vem do cosmo
em taças de cristal com sangue,
em aortas com água,
na alucinação total
de um homem que
se diz lúcido.
Na noite calma
um cão ladra
na solidão de
luzes irreais de
um cemitério de
cruzes partidas e
de esqueletos quebrados.
(E outro cão
responde em mim.)
De repente, eu levito
e me deixo transportar
em êxtase ao
país dos mortos-vivos
e lá eu vejo todos os mortos
e todos os vivos como simples
mortos-vivos.
Depois, eu me sinto preso
em todos os extremos do Universo
e sinto que conquistei
a liberdade cósmica,
pregado no infinito.

           Pba, 24.11.77   

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

No Brasil delinquentes matam por "maldade"


No Brasil delinquentes matam por "maldade"

Cunha e Silva  Filho

       Leitor que por acaso  me  lê,  saiba  que está  acontecendo em nosso país algo que  há tempos extrapolou  todos  os limites da paciência da sociedade.
        Quero aludir  à sanha de bandidos,  criminosos,  assassinos – faço  questão de  acentuar a minha indignação empregando   pelo menos estes três adjetivos disfêmicos -    que  já estão  matando por mera maldade,  em atos de  tamanha  violência  sem precedentes em nosso  país para vergonha das nações  civilizadas, o que leva o Brasil  a se alinhar  quase solitário entre  as nações  que mais  fazem vítimas fatais, covardemente, inocentes, crianças,  jovens,  adultos   idosos,  enfim,  os desprotegidos (porque só os facínoras no país  têm armas de fogo,  (amiúde até mais do que  policiais) deste país  que ora vivem a tragédia do fracasso  político-financeiro-moral.
       No país das inversões de valores,  no país em que  ainda funcionam normalmente, não obstante tantas imperfeições,  os três poderes,  em que se tem  uma presidente, em que se tem um Código Penal,  um  número grande  de juristas  do mais alto  porte,  bons advogados, causa muita  espécie  que nos  deparemos com  tanta carnificina  aqui, em todos os estados brasileiros,  sobretudo  no eixo Rio-São Paulo. Esse ignominioso  estado de coisas que aterroriza impunemente o cotidiano de   quem  trabalha,  de quem  tem  seu negócio,  de  quem  paga  impostos, juros altíssimos,   de quem sai à rua,  exige  mudanças drásticas  na legislação  penal  brasileira, pela  implantação  com urgência, ainda que por  tempo  limitado,  a prisão perpétua e,  nos casos mais   escabrosos,  a pena de morte. Não me venham  dizer que sou fascista,  porque não o sou. Fascistas são os que  deixar  perpetuar  essa infâmia de sociedade  cercada por ladrões de todos os níveis, sobretudo os white collars, fascistas são os que  mantêm  a impunidade para  milhares de  assassinos  soltos,  andando  livremente nas ruas  do  Brasil e cometendo as piores atrocidades contra o nosso  povo.
     Só para ilustrar vi, num programa de televisão bem  conhecido de quem  gosta  de  acompanhar  a sombria  realidade do crime  no país,   um senhor  de cinquenta e poucos   anos trabalhando no recinto de sua lanchonete. Está sozinho. De repente,  entram três jovens armados, anunciam  um assalto e se mostram  determinados a fazer qualquer coisa  má a fim de  arranjar dinheiro fácil, sendo bem provável que algum deles seja  “de menor.”
     O trio, com dois  claramente  exibindo  revólveres,  entra  na lanchonete  em direção  àquele proprietário (ou gerente responsável). Pela  fisionomia,  usam  palavrões,  ameaçam, dão safanões    na vítima,   pedem  dinheiro,  sempre  com  gestos  de  extrema  violência sem que  o moço  possa  fazer nada. Empurram-no contra a parede, e   um dos   meliantes  dá uma facada que vai  rasgar  verticalmente  do estômago até  o umbigo  do moço. 
     Em nenhum  momento  o moço   revidou qualquer ataque contra  os vagabundos. Naturalmente  exigiram  que o moço lhes mostrasse  onde estava o dinheiro da caixa  registradora. Essa cena  trágica, pavorosa, diabólica  nos causa asco   e imprecações  contra  esses desalmados. É apenas um exemplo  de uma cena que se repete, com  algumas  diferenças  de níveis de selvageria,   na vida  diária do brasileiro. Quando  os degenerados  foram  levados para a delegacia,  riram  na cara do delegado  pelo que tinham  feito na lanchonete. Infames!
    Essa cena já se naturalizou, se  banalizou  e o povo honesto,  trabalhador,  cumpridor de suas obrigações para com  o Estado brasileiro se encontra  numa enrascada. Tem que sair porque necessita de trabalhar ou resolver algum  problema fora de casa. Mas a voz corrente se resume no que, de vez em quando,  afirma desesperançada: “A gente sai, porém não tem certeza de volta incólume para casa. Só Deus pode nos proteger.”
     Ora, leitor, isso é mais do que  suficiente para caracterizar um cenário  preocupante  para a sociedade civil. Ressalto que há tempos venho  defendendo  posições mais rígidas contra a violência  que ataca em todos os flancos, horas e lugares não só no asfalto mas nas favelas  brasileiras conhecidas  pela   balas  perdidas que podem vir tanto da  polícia quanto  da  bandidagem.
    Há quem pense  sejam os programas  que  desmascaram  a crua violência brasileira  sensacionalistas, da   imprensa marrom, que só mostram  violência pura  a fim de  dar  altos índices  de audiência. Não vejo assim e adianto mais que a recusa de pessoas e, sobretudo, das autoridades competentes -  legisladores,  a  própria  presidente da República, a  pessoa do ministro da  justiça, enfim todos os  setores públicos  responsáveis    pela segurança nacional -,  a assistirem  a esses programas  me parece  algo elitista e perigosamente  omissa.
   Assim também a recusa de todas as classes sociais com respeito ao problema da violência só contribui  para   agravar essa questão e afundar-se  na alienação e na indiferença a um tema que diz respeito a todos nós.
   Dois são os caminhos,  a meu ver, para  enfrentar  a violência  sedenta de vítimas  diárias no país: 1) acabar ou  reduzir  a impunidade,  o que vai  mexer com  a legislação penal; 2) reduzir por tempo determinado  a maioridade  penal para, no mínimo, dezesseis  anos. Isto faria com que os “de menor” muitas vezes  rapazes  com altura  de  homens feitos, com várias passagens  na  polícia por  delitos de toda a sorte e de todos os níveis, até mesmo  crimes hediondos. Neste caso, implantar-se-ia, por tempo determinado,  a pena  de prisão perpétua e a pena de morte  para os casos mais  diabólicos de  crueldade, ou seja,   o grupo de bestas-feras.Todavia, os psicopatas  seriam   destinados a prisões  psiquiátricas.  Para esses  casos, sob hipótese alguma,   não haveria  brechas legais  para que  se lhes  abreviassem  a pena a ser cumprida.
   Sei o quanto  são controvertidas e complexas as questões  da redução da maioridade penal, que  implica  uma série  de  componentes sociais,  econômicos e culturais, da mesma sorte que  são altamente  polêmicos  o regime de  prisão  perpétua e a sentença   mais extrema, que é a pena de morte, sendo que esta última envolve, além de outros fatores relevantes,  a questão religiosa  no país  mais católico do mundo. Ma o país é laico.

    Penso que todas as considerações  aqui  levemente  abordadas   têm que ser levadas  em conta de forma urgente, porquanto  a próxima vítima  de criminosos  inveterados   pode ser   qualquer um de nós. Pode ocorrer  com  nossos  filhos,  netos,  parentes, amigos,  com qualquer  classe  social. Fica,  pois, o debate em aberto e que não  seja postergado  por muito tempo. A vida não tem preço, como se diz vulgarmente.    

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O MOSQUITO


O MOSQUITO

Pádua Santos – APAL, Cadeira nº 01

                Há um dito popular sertanejo que reza o seguinte: “Homem que bebe e joga; mulher que erra uma vez; cachorro que come bode; são errados todos três”. Decorei isto quando menino, e,se agora o relembro, é porque ficou na minha lembrança a imagem de um fato trágico – uma triste cena do holocausto que infelizmente era feito, à época, aos infelizes cachorros que aprendiam com as onças a mania de comer bodes.

            Foi na minha fazenda São Pedro da Boa Sorte, mais conhecida por Alto dos Borges, localizada no município de Caxingó, onde presenciei a aplicação desta draconiana e consuetudinária lei. E lembro bem que na hora da execução, como se tratava de uma cadela simpática e querida pelos moradores da localidade, tornou-se difícil a escolha do carrasco. Mas o certo é que ela foi executada, e quem teve a coragem de aceitar friamente o posto de algoz foi um elemento que pouco se sabia do seu nome, posto ser conhecido apenas e simplesmente pela alcunha de “Mosquito”. Vê-se, portanto, que ali naquela margem do Rio Longá, foi o “mosquito”o grande temor dos cachorros delinquentes.

                Mas não se atribua somente aos cachorros tal temeridade. É atualmente de igual modo aterrorizante o famoso mosquito “Aedes Agegyti” - o transmissor da Dengue, da febre “Chikungunya” e do danoso vírus “Zica”- malvado pernilongo voador que desde os anos cinquenta judia com as pessoas e, como se não bastasse, aparece agora com a novidade de fazer com que as crianças venham ao mundo com microcefalia. É ele atualmente a maior preocupação da saúde de vários países, por ser o animal que mais provoca temor às mulheres, principalmente naquelas que se encontram em estado interessante.

                Por outro lado, nem tudo é novidade. Já faz muito tempo que os mosquitos perseguem os homens. O sempre festejado escritor Humberto de Campos, no seu excelente livro de crônicas intitulado Lagartas e Libélulas, dá conta de que em prisca era, mais precisamente no apogeu das grandiosas conquistas romanas, quando triunfava a bravura do regime dos Césares, o glorioso Imperador Tito Flávio Vespasiano Augusto morreu repentinamente por força de um insignificante mosquito que penetrou em suas narinas.


                Desse modo, podemos conjeturar com larga margem de acerto:o aparentemente mesquinho mosquito que vem atualmente, na sua qualidade de vetor biológico, preocupando governos, provocando febres, dores, coceiras, conjuntivites, dengues e microcefalia,pode muito bem ter sido o mesmo minúsculo inseto que no passado remoto foi causador de considerável baixa no incontrastável Império Romano. Eita bicho desalmado! O que tem de pequeno tem de perigoso.  

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ANIVERSÁRIO DO HOMEM MAIS VELHO DE AMARANTE – 108 ANOS


ANIVERSÁRIO DO HOMEM MAIS VELHO DE AMARANTE – 108 ANOS

Luís Alberto Soares (Bebeto)

       HOJE (02) é o aniversário do homem mais velho de Amarante. Trata-se de JOSÉ PEREIRA DOS SANTOS, mais conhecido por LUIZ BEZERRA, nasceu no dia 02-02- 1908 em Angical do Piauí e há mais de 90 anos residindo em Amarante, onde morou por longos anos nas comunidades Poço D’anta e Bonito há poucos km do Centro. Passou uns três anos com seu filho, Francisco, o popular Tutê, em Brasília (DF). Atualmente morando no bairro Balão (Amarante) ao lado de sua neta, Maria Francisca da Costa e Silva, sua procuradora.

         O Senhor LUIZ BEZERRA ainda se dispõe de muita lucidez e vigor físico impressionante; visão razoável e boa audição. Gosta de passear, da música, assistir televisão, ouvir rádio e de saboreia umas cachaças. Caminha constantemente pela cidade e, às vezes, sozinho para tratar de negócio e, ainda anda de motocicleta como carona. Sua Neta, Maria, diz que nas andanças de seu avô, teme motociclistas irresponsáveis. Quem o conhece sabe, o secular LUÍS BEZERRA trata-se ainda de uma pessoa distinta e comunicativa.

       LUIZ BEZERRA trabalhou longos anos na agricultura, onde se aposentou. Ele conta detalhadamente vários acontecimentos históricos de Amarante e do Brasil. Casou-se com Maria do Nascimento Santos, falecida há longos anos. Do matrimônio, quatro filhos: Neusa, Orlinda, Francisco (Tutê) e Antonio (falecido). Formando vários netos, bisnetos e tetranetos.

                Vale esclarecer que o Senhor LUIZ BEZERRA foi passar uns dias na casa de um de seus irmãos em Presidente Dutra – Maranhão.   

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Mensagem de Fonseca Neto sobre Retrato de meu pai


Na manhã de sábado (30.01.2016), entreguei ao amigo Fonseca Neto, na Academia Piauiense de Letras, o livrinho Retrato de meu pai. Já às cinco da tarde do mesmo dia dele recebi o seguinte e-mail, que desejo compartilhar com os leitores do blog:

"Boa tarde, poeta,

acabo de degustar o retrato do Miguel que vc elaborou, ponto a ponto, com linhas cordiais, qual nervuras que querem ser razão mas sucumbem à emoção. Li tudo de um fôlego, exceto o q disseram os netos... O farei mais tarde.. Bela sua escritura, tão necessária neste tempo ainda mais fugidio que todo tempo. Do pai, da mãe, irmãos, amigos; lugares e lugares dos cotidianos reinventados pela mão literária, nada dócil ao rebuço... "Beatitude"! Que belo emprego desse vocábulo....Valeu poeta, minha elmarina admiração, que já é enorme, não sei como consegue crescer, mas cresce enormemente. Salve Miguel, espadas arcanjas para dobrar 90 esquinas do tempo datado.


Ainda é janeiro, parabéns Miguel; ainda é e será poesia, parabéns atencioso amigo Elmar. Estendo cumprimentos à Fátima, do bom Buriti, q acho tão discreta... Um abraço, Fonseca Neto (ouvindo o tamborilar de um Corso passando aqui por perto rsrsrs)."

Valeu, mestre Fonseca, muito obrigado!

domingo, 31 de janeiro de 2016

Seleta Piauiense - Nogueira Tapety


Quos Ego

Nogueira Tapety (1890 - 1918)

Nunca direi que te amo — esta expressão
É muito fraca para traduzir
Esse mundo infinito de afeição
Que de dentro do meu ser anda a florir ...

O que sinto é quase uma adoração,
Um desejo infinito de fundir
Nossos dois corações num coração
E as nossas almas numa só reunir;

É ânsia de ligar, de amalgamar
As nossas vidas que o destino afasta
E que o próprio destino há de juntar;

Uma afeição consciente e excepcional
Que é humana demais para ser casta
E demais pura para ser carnaval.     

sábado, 30 de janeiro de 2016

Políticos suecos versus políticos brasileiros


Políticos suecos versus políticos brasileiros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Imagine viver em um país, onde políticos ganham pouco, andam de ônibus ou bicicleta, ocupam residência oficial de apenas 18 metros quadrados, dormem em poltrona, que serve, também, de cama. Lavam e engomam a roupa em lavanderia coletiva, cozinham a própria comida e são tratados de você. Não se trata de utopia, mas do cotidiano da cultura sueca, vigilante e cobradora. Os raros presos trabalham, estudam e não vivem entre grades. Filho de magnata estuda com os do lixeiro em escolas públicas. Vereadores sem direito a salário e secretária. Nenhuma autoridade, nem mesmo o rei, goza de regalias que cidadãos comuns não recebem.

Suécia e toda a Escandinávia (Noruega, Finlândia, extensivamente, Dinamarca e Islândia) formam o paradoxo da cultura brasileira, acostumada a levar vantagem com dinheiro público, tripudiando cidadãos.

Como explicar tanto desenvolvimento, nações que enfrentaram séculos de guerras e assassinatos, disputas religiosas, geográficas e políticas no passado? A metamorfose começou, praticamente, há algumas décadas, depois da conciliação entre católicos e luteranos. Adotaram paradigmas cristãos de responsabilidade, honestidade, civismo, a partir da escola. Implantaram a social democracia, em vez do capitalismo exacerbado. Severidade na aplicação e administração dos recursos públicos. Punição implacável a corruptos. Pesada tributação, que achata grandes fortunas, mas resulta em excelentes serviços públicos de encantar a concorrência privada.

A Escandinávia, em décadas de educação moral e cívica, desfruta da melhor qualidade de vida do mundo, graças, também, a missionários alemães, especialmente evangélicos, em passado remoto.

Cláudia Wallin, jornalista brasileira radicada na Suécia, registrou conversas com deputados e a população. Em seu livro, UM PAÍS SEM EXCELÊNCIAS E MORDOMIAS, descreve a conduta franciscana dos políticos, que desconhecem tratamento de EXCELÊNCIA, não aumentam o próprio salário e não entram na política para enriquecer. O livro serve de tabefe nas caras de pau que assaltam a nossa dignidade nacional.

Cidadãos precisam extrair lições da Escandinávia  para eleger líderes patrióticos e éticos de qualquer confissão religiosa ou partidária. O ensino obrigatório de moral e civismo deve retornar às salas de aula. Falta muito nos libertarmos do jeitinho brasileiro de levar na malandragem a coisa pública. Por enquanto, só aprendemos a conviver com a  Síndrome de Estocolmo: exaltar e eleger nossos corruptos, com a paixão de bela sequestrada pelo sequestrador.   

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SONHOS



28 de janeiro   Diário Incontínuo

SONHOS

Elmar Carvalho

Ainda em minha meninice, ouvia minha mãe dizer que os seus sonhos, quase sempre, lembravam coisas que já tinham acontecido, ou se assemelhavam a fatos que iriam acontecer. Os meus, além dos que se referem a outros conteúdos e cenários, também se assemelham a fatos que já presenciei ou que acontecerão em futuro próximo. Advirto, contudo, que não se trata de profecia (minhas pretensões não chegam a tanto), uma vez que os sonhos apenas guardam semelhança, em maior ou menor grau, com esses episódios futuros. Saliento que quase todos os meus sonhos, por mais verossímeis que sejam, apresentam algum aspecto extravagante, surpreendente ou insólito. Aliás, essas nuanças, tipicamente oníricas, foram aproveitadas pelo surrealismo, seja na pintura, seja na literatura.

É sabido que algumas pessoas ganham a vida como reveladores de sonhos. Aliás, há vários livros sobre esse tipo de interpretação. Freud e Jung utilizavam-se dos sonhos de seus pacientes em suas terapias. O primeiro é autor de um livro sobre esse assunto. Apregoam vários profissionais da psicologia e da psiquiatria que muitos sonhos revelam desejos ocultos da pessoa que os sonhou. De minha parte, apesar de ser um leigo, defendo que nem sempre, porquanto alguns podem ser catarse ou “exorcismos” do que não se deseja. Contudo, ao menos em potência, parecem advertir de que poderíamos ser ou fazer o que somos ou fazemos em nossos pesadelos. Um pouco de humildade, pois, não nos fará mal nenhum. Existem ainda os que acreditam que durante os sonhos a alma do sonhador viaja para outros lugares ou outras dimensões.

A interpretação de sonhos, talvez para evitar abusos, pelo menos no tocante a previsões, foi proibida pela Bíblia (Deuteronômio, 18:9-12), sendo esses pretensos profetas nivelados a magos, feiticeiros e necromantes. Todavia, na Bíblia há várias passagens em que Deus ou anjos falavam com os homens através de sonhos, dando-lhes avisos e orientações importantes. O profeta Daniel ganhou prestígio perante o rei babilônico Nabucodonosor, ao lhe revelar enigmático sonho, cheio de predições, e José adquiriu poder junto ao faraó quando lhe interpretou sonhos, de modo a permitir um adequado planejamento governamental durante as adversidades que viriam.

No livro Deus não está morto: evidências científicas da existência divina (ebook), de Amit Goswami, retiro a seguinte citação, da autoria dos biólogos Francis Crick e Graeme Mitchison (1983): “Sonhamos a fim de esquecer.” Mais tarde, em 1986, estes dois autores mitigaram esta afirmação, ao dizerem que “sonhamos para reduzir as fantasias e obsessões”. Por isso eles aduzem que talvez lembrar os sonhos não devesse ser estimulado, uma vez que se trata de “padrões que o organismo estava tentando esquecer”.

Durante algum tempo, quando morei em remota comarca, pensei em escrever um livro baseado em meus sonhos. Acabei desistindo da empreitada por várias razões. Muitas vezes não recordava de nenhum sonho. Outras, a lembrança era muito vaga, e depois eu terminava por esquecer completamente do que havia sonhado. Se eu fosse anotar o sonho, poderia perder o sono, o que não achava conveniente. Por outra parte, muitos eram excessivamente plásticos, visuais, podendo ser bom para um filme, videoclipe ou pintura, mas não para a arte literária, porquanto exigiria demasiada descrição. Entretanto, alguns contos e poemas extraí de sonhos que tive.

Décadas atrás, na petulância bisonha de minha juventude, escrevi o poema Deus, Deuses e o Nada, em que, pretensiosamente tentando provar a existência de Deus, bradei: “Num blefe descomunal / poderia até afirmar / que esta realidade não existe. / Que tudo não passa do sonho / de um deus e que esse / deus sou eu.” No referido livro de Amit Goswami, em que ele pretende provar a existência divina, através da física quântica e de outras evidências, está posto que os místicos concordam em que os sonhos “são criação do ‘pequeno eu’, e a vida em vigília é o sonho do ‘grande sonhador’ – Deus – dentro de nós”.

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, disse Fernando Pessoa. De certa forma isso corresponderia ao sonho de ser um deus, pois somente Deus poderia ter todos os sonhos do mundo. Também esse imenso poeta disse que o mito é o nada que é tudo. Na verdade o mito é como se fosse o sonho acordado do homem, porquanto é fruto exclusivo de sua imaginação, e muitos desses mitos são deuses imaginários ou fictícios.

Ainda sobre sonho cantou o mesmo poeta: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Deste último verso pessoano podemos depreender que tudo nasce ou se concretiza do desejo, do pensamento ou do sonho, seja de Deus ou do homem. Do grande vate português, na temática de sonhos, vale a pena ler ou reler o extraordinário poema Eros e Psique, no qual o sonhador se converte no sujeito sonhado (ou vice-versa), cujos versos finais transcrevo: “Ergue a mão, e encontra hera, / E vê que ele mesmo era / A Princesa que dormia.”


Em assunto tão controverso e subjetivo, lembro a música Prelúdio, na qual Raul Seixas entoa em refrão: “Sonho que se sonha só / É só um sonho que se sonha só / Mas sonho que se sonha junto é realidade.” Por fim, pergunto: mas será se um sonho que se sonha só é apenas um sonho, ou um sonho será sempre algo mais do que um simples sonho? 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Passageiro clandestino


Passageiro clandestino

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e contista

Três da tarde, tempo quente, inverno findando, descíamos a pé a inclinada ladeira do Alto da Balança no sentido da cidade. Voltávamos para casa depois de matar a sede dos animais retidos na quinta localizada depois do rio Preguiça, obrigação de quase todos os dias. Foi ai que avistamos o carro que acabava de passar o Riachinho e se encaminhava sacolejando ao nosso encontro. Era um daqueles caminhões boiadeiros, com grades bem altas, e sobre elas vários homens que se seguravam como podiam, dificuldade aumentada pelos constantes solavancos que o veículo emitia ao rolar pela pista esburacada. Atrás de si, uma nuvem de poeira vermelha o acompanhava como uma fiel seguidora, evoluindo e se dispersando ao sabor do vento morno. 

Ao passar por nós, em começo da ladeira íngreme, o carro diminuiu a marcha e o motor agitou-se agoniado, fazendo força para superar a forte subida. Em meio à poeira que ia ficando para trás, ouvi uma voz chamando pelo meu nome. Era o Zé Pretinho. Mulato simpático e muito amigo das crianças que residiam nas proximidades da casa em que morávamos na Rua Grande. Encarapitado lá no alto das grades do caminhão, agora em marcha cada vez mais lenta, ele acenava para mim. 

Joguei o cabresto que trazia comigo para o meu companheiro e corri em direção ao carro. Havia acabado de decidir me juntar ao grupo que se segurava como podia nas elevadas grades. Ia fazer um passeio de carro. Atrás de mim o colega começou a gritar pedindo que não fosse em frente.  Nem me dei ao trabalho de justificar o meu ato, precisava aproveitar que o caminhão ainda estava próximo.

Subi sem muitas dificuldades e, logo, me encontrava do lado do Zé Pretinho. Perguntei-lhe para aonde iam. Ele me respondeu que iam apanhar algumas cabeças de gado numa fazenda um pouco distante. Dei de ombros e me acomodei no poleiro; não importava para onde estávamos indo, contanto que voltássemos logo. Além do mais, estava gostando daquela aventura que estava só no começo e que, como veremos logo à frente, me traria muitos dissabores.

A fazenda, diferentemente do que afirmara o Zé Pretinho, não ficava muito próximo. De onde apanhei o caminhão até lá ainda levou uns bons dez minutos para vencermos a distância. Ficava quase nos Poços, região belíssima e de terras muito férteis. Mas, acabou aí a beleza da minha aventura. Dali para frente as situações foram se encadeando no sentido de me trazer dissabores. Para começar, não havia embarcadouro por lá. Foi necessário cavar um buraco no chão para que o caminhão pudesse penetrar nele e o para que o gado a ser embarcado tivesse acesso à carroceria. Isso demorou muito tempo. Pelo nervosismo demonstrado pelo motorista vi que aquele serviço não estaria completado antes da noite chegar. Ai quem ficou nervoso fui eu.

Cava daqui, discute dali, vi que a tal rampa estava demorando demais para ficar pronta, apesar do terreno ainda está um pouco úmido. A ferramenta utilizada para escavar o chão também não era muito apropriada, e por isso demorou tanto para aquilo ficar do jeito que o motorista achava que estava legal. Trabalho enfim concluído, ai começaria outro trabalhão: o gado não se mostrava muito satisfeito com a possibilidade de entrar naquela carroceria, e os homens encarregados de conduzi-los até lá pareciam pouco afeitos à tarefa.

A minha preocupação somente aumentava com o passar das horas e com a possibilidade da chegada da escuridão. Finalmente deram por completada a empreitada e começaram a arrumação para a partida. Já era quase noite quando terminaram de colocar o gado sobre o caminhão. Agora parecia que tudo havia terminado. Era só acionar a chave no contato e colocar o bicho para funcionar. Até ai, tarefa cumprida: o motor pegou que foi uma beleza. Nesse momento, meu coração já começava a aquietar-se, pois, mesmo chegando já noite em casa, não deveria ser muito tarde, e talvez conseguisse me safar bem.

Mas qual! Ninguém havia contado com um problema a mais: a carga embarcada ficou muito pesada, e isto fez com que o caminhão começasse a afundar no terreno ainda um pouco molhado logo que o motorista deu a partida. Patina daqui, afunda dali, logo vimos que daquele jeito não conseguiríamos jamais sair dali. E como sair daquele imbróglio, foi motivo de grande discursão. Cada um queria dar uma ideia mais estapafúrdia. Até que decidiram aliviar a carga. Aliviar a carga significava retirar algumas reses e colocá-la de volta no curral. Aliviar a carga também significava demanda de tempo.

Nesse momento, meus nervos já estavam em pandarecos. Agora a coisa estava complicada. Era certo que não chegaria em casa tão cedo. E como ninguém sabia por onde eu andava, imaginei como deveria estar os meus familiares, e como seria a minha recepção na volta.

Retiraram a metade da carga. Os animais até facilitaram. Tudo, desde que saíssem daquele aperto. E com isso, já era possível fazer-se uma nova tentativa. Dessa vez foi o caminhão que se negou a colaborar. Parecia que a bateria tinha descarregado. Porca miséria! Meu desespero chegou ao ápice.

O motorista desceu do carro irritadíssimo, e começou a lançar impropérios para todos os lados. E não tendo outra coisa a fazer, pois na situação em que o veículo estava, era impossível empurrá-lo, voltou para a boleia e mais uma vez deu com a chave no contato. Alvíssaras! Não é que o estúpido pegou! E meu herói do dia conseguiu fazer com que o bichão saísse do buraco de uma só tentativa. Gritos de alegria, palmas, assobios, era certo que ninguém queria passar a noite por ali. Eu, mais que todos.

Mas, ai alguém se lembrou de perguntar como iriamos embarcar o restante da carga retirada. Para isso não encontraram respostas. E o motorista resolveu demonstrar a sua autoridade: não levaria mais do que a carga que já estava embarcada. Pronto. E assim fez. Todos a bordo, enfim!

Ai um desgraçado olhou para mim quando subia na carroceria e falou que eu não poderia ir com eles. Não tinha nada a fazer ali, nem havia ajudado em nada! Meu desespero foi ao limite. Aquele infeliz estava se arvorando de dono de uma coisa na qual ele não tinha outra relação a não ser a de ajudante. Mas o Zé Pretinho me salvou daquela situação. Disse que eu havia ido com ele e que ninguém me impediria de retornar com ele também. O imbecil ainda tentou argumentar, mas foi contido pelo meu amigo ao preço de uma cara fechada, de poucos amigos. Pronto, subi nas grades e me arrumei para partir.

A noite estava muito escura, daquele tipo no qual é impossível se divisar algo a dois metros de nós. Mas, o motorista ligou os faróis, acelerou e foi encurtando a distância para a minha casa. Ou mais precisamente, aumentado a proximidade do meu ajuste de contas com meus pais.

Dai a poucos instantes chegamos perto da travessia do rio Preguiça. Precisávamos passar por uma ponte de madeira, velha e carcomida pelo tempo. E isso era também motivo para preocupação de alguns dos que ali estavam. No presente caso, como diz a Lei de Murphy, “qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”. Não chegamos a subir na ponte. O caminhão atolou logo na sua cabeceira. E atolou até o eixo naquele massapé que não deixa dúvidas para ninguém: dali para frente somente um trator resolveria o caso.

Não era o meu dia! Resolvemos completar o trajeto a pé. E fomos, rompendo aquela escuridão tremenda, do tipo que se diz de “meter o dedo no próprio olho”. Já havíamos andado alguns minutos quando eu ouvi uma voz conhecida perguntando se eu não estaria naquele grupo. A voz era de um tio meu. Haviam, finalmente, lembrado de perguntar ao rapaz que me acompanhava quando fomos dar de beber aos animais, conforme mencionei no início deste texto, o que ele sabia sobre o meu sumiço. E ele falou que eu havia embarcado em um caminhão ainda no Alto da Balança. Aquele tio meu foi destacado para investigar o caso e terminou por descobrir que o transporte tinha ido apanhar um gado na fazenda do Senhor Raimundo Claro. Foi como ele me encontrou.


Vou parar por aqui. O texto já está muito longo e eu não vou matar a curiosidade de ninguém. Sei que tem muita gente querendo saber o resultado dessa história. Como foi dolorosa demais para mim, não vou atender a ninguém. Imagina!    

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

MAIS UMA VEZ A AMIZADE PARTIDA


MAIS UMA VEZ A AMIZADE PARTIDA

Cunha e Silva Filho

           Volto à questão  transcendente da amizade no mundo de hoje. A minha discussão parte do seguinte princípio: o mundo atual, que já foi  atual  para outras gerações,  para outros  tempos históricos, é o dos isolamentos,   dos afastamentos  explícitos ou silenciosos,  sem uma razão  plausível. De repente, não mais que de repente,  como diria o  poetinha, uma pessoa, que julgávamos  ser nossa  amiga, sai de nosso convívio.
               Por convívio, significo  a troca  de notícias,  de uma linha que seja,  de um telefonema que seja,  de um e-mail que seja, de  alguém que   sai de nossa vista  ou vida  e não sabemos por que agiu assim. Sai  para outro lado qualquer. Sai para não mais se  congregar, ainda que virtualmente conosco, sai  pelo mero ato espontâneo de sair. Sai porque  saiu, sem explicação,  sem nada. Deixou apenas o silêncio que é uma forma de  separação,  de adeus,  de despedida  em vida, que é a pior e mais dolorosa, visto que deixa o sabor acre  do abandono, da indiferença, do descarte.
          Me pergunto: Por que o afastamento,  a falta de noticia,  o silêncio  voluntarioso? Será que a amizade tem validade? Eis uma  pergunta que  daria  espaço e duração  a discutir algum dia. Por vezes, sou forçado a afirmar que sim,   tem data  de validade. Os sinais são  já conhecido:  falta  de tempo,  falta  de saúde,  falta disso , falta daquilo e, se formos ver  o outro lado da história,  não  é nada disso,  É  ato voluntário,  ou motivado  por alguma razão  que desconhecemos, por um deslize nosso que cometemos ou  porque quis se livrar de nós por não  acharem  mais razão de prolongar  a convivência de perto, de longe,  de distâncias continentais, de tudo. 
          Acredito seja esse comportamento social uma característica da pós-modernidade que pauta seus  compromissos  pela imediatismo,  pela pressa,  pela falta de  dar uma paradinha e conversar com  alguém conhecido. Julgo que o espírito gregário  não mais se manifesta  como  outrora. Tudo se  modificou,  tudo  se esfumou, até as relações  interpessoais,  hoje mais  feitas  da virtualidades por força  da pressa e do frenesi  dos tempos que correm não sei  para onde.
            Ao percebermos que o outro lado  se  esquivou  da continuidade  do   relacionamento,  somos tentados a fazer  o mesmo, contaminados  pelo  mesmo   vírus  dos descartes  das pessoas  entre si.  Não vivemos mais  para os outros naquele sentido  antigo  que está completamente sepultado  da sociabilidade  hodierna.
                Não nego que em parte tenho culpa disso, mas os outros também têm o seu quinhão  de   culpa. Por procuraram apenas a vitória de si mesmos  é que talvez elas sejam  forçadas  a se  distanciarem de vez ou  pouco a pouco, até que não  sobra nada dos laços  passados. Sinal dos tempos! Talvez, mas que me deixa  perplexo,  descontente,   decepcionado.
             Ora,  essa  situação de isolamento  voluntário  ou  movido  por um ou outro motivo   parece prevalecer  agora. Foi pensando  nisso que  resolvi  dar uma   olhadela em torno do meu mundo afetivo do prisma  da amizade. Logo me convenci de  que  cada vez mais me senti com menos  amigos,  menos conhecidos,  e o que poderia chamar de “amigo” às vezes me dá a impressão de que não passa de uma  formalidade, de uma gentileza,  de um gesto automático.
            Será que  toda essa  separação   do espírito da amizade  vai perdendo força  com a chegada  da velhice ou é porque a verdadeira amizade não se forjou  com  toda a força  de suas prerrogativas de antanho?
       Vivemos os tempos  das superficialidades, até na  formação educativa e intelectual. A juventude sabe menos  do que há décadas no que concerne aos estudos  em profundidade. As humanidades estão rareando. Um conhecido  há dias me fez um comentário: “Meus alunos estão menos preparados, têm menos leitura, têm menos conhecimentos. Os cursos estão mais fracos,  mais flexíveis  e resistentes às exigências  profundas. 
          Muitas vezes  andando  pela cidade ou mesmo  pelo meu bairro  sempre muito  cheio de gente indo e vindo,  vejo  que  a única coisa que nos  torna filhos da mesma  pátria é a língua, mas não os indivíduos. Em toda os cantos do mundo,  as pessoas vão e vêm nas ruas. Somos iguais  nesse sentido  de movimentação, mas não somos  unidos.
         Todos  temos nossa  própria  vida e o desconhecido  na rua  talvez nunca mais  o veremos. O sentimento de pátria  não é mais o mesmo. Somos todos  ilhas  pessoais  diante dos outros  que não nos veem mais, que passam  céleres em sua  tremenda  individualidade, na solidão das ruas  das grandes urbes. 
       O que me faz  refletir: a pátria  é uma abstração. Só  sentimos que  existe  quando  há o encontro  casual  de duas pessoas. Por isso,  o motivo de tanta carência  de comunicação  num mundo  em que a comunicação, por contradição,   passa a ser prioridade  entre os habitantes da Terra. 
    No entanto,  como somos sozinhos,  jogados  na multidão, na anomia dos isolados, dos esquecidos,  só nos restando adaptarmos, contra a nossa vontade,  a  esse comportamento coletivo  individualizado (com o perdão  do oximoro).
      Esse não é o mundo que  gostaria de ter, ou seja,  o mundo das  divisões,  das desigualdades,  dos confrontos entre irmãos, entre “amigos,”  entre países,  entre partidos,   entre ideologias,  entre religiões em guerra  declarada  ou  silenciosa. Mundo amorfo,  sem graças por lhe escassear  o calor  humano  há tanto tempo  sepultado em nossas dita  civilização contemporânea.
      Ora,  direi sem rebuços,  com tanta  ausência de humanidade,  de amizade  fraterna  não é de se   estranhar  que  as interações  pessoais sejam  duradouras. Tempo de validade   é a medida de nosso sentimento  de amizade. Tenho, agora, que conviver cm isso, de assimilar  o que  detesto, de  conviver   na hipocrisia   da sociedade  sem rumo, a caminho de não sei o quê, mas desejando  viver intensamente  o hic et nunc (Tristão de Athayde) como   o pensamento da infância. O presente é o primado  do  existir,  do estar vivo. Só isso importa,  tem peso entre os contemporâneos. O passado? O futuro?    Ninguém quer dele saber. Já basta o carpe diem. O futuro fica para depois. Só a Deus pertence.
    Em meio ao primado do presente,  tão característico  de nossos  dias, o sentimento da amizade tenderá  a sofrer  inflexão, a piorar,  a enfraquecer ou  apagar os últimos  resquícios  dos laços de amizade, que se esgarçaram  por outros  motivos  inconfessáveis,    perdidas que  estão as pessoas  envoltas na sua auto-centralidade individualista, na luta  pela vida, pelo sucesso, pelas luzes da ribalta, pelos holofotes,  pela  pressa  de um  alcance além das estrelas, dos astros em geral  no  espaço, segundo os cientistas,   crescente  do Universo.A amizade? Ora bolas,  acabou na  data de  validade.    

domingo, 24 de janeiro de 2016

Seleta Piauiense - Alcides Freitas


SÊ FELIZ

Alcides Freitas (1890 - 1913)

Se queres ser feliz, afasta-te. querida!
Da minha alma! E, a sorrir, nem mais procure vê-la!
Uma estrela - Que é luz. deve unir-se à vida
Não à treva - o que sou. Mas à lua, a outra estrela!

Tão formosa e tão moça, afeita à brisa mansa
Das manhãs de sorriso e tardes de ventura,
Não calculas a dor do amar sem esperança;
Do tatear, como um cego, a noite da amargura...

A alma, que conheceste, alegre e calma, outrora
Como um trecho de sol, embebido de canto,
Recordas como vive, erma e calada, agora
Em pedaço de abismo encharcado de pranto.

A ti tudo sorri! Nem pensas no futuro
E o pensar no futuro envenena o presente!
Se és tão nova e tão bela, e o teu ser é tão puro
Há de te ser a vida um sonho alvinitente!

A minha alma, querida, é um sítio abandonado
Onde, em antigo tempo, houve trabalho e festa:
Um sítio claro e verde, harmônico e dourado
Como um sonho de flora a uma canção de vesta...

Só o que vive a sofrer sabe o que é castigo!
Só o que vive de amor sabe o que o amor nos diz.
Tu me amas, talvez... Mas atende ao que digo:
Afasta-te de mim, se queres ser feliz!...  

sábado, 23 de janeiro de 2016

Craques do ENEM e dos olímpicos esforços


Craques do ENEM e dos olímpicos esforços

José Maria Vasconcelos

          Milhares de jovens, Brasil afora, anteciparam o carnaval, ao reunir familiares e amigos, pela conquista de uma vaga na universidade. Vitória suada, sobre-humana, inclusive dos pais, que não medem esforços no investimento e na educação dos filhos. Anos de estudo, repouso reduzido, baladas e paixões adiadas.

         Convidado comemoração em medicina, uma banda incendiava a moçada, ao toque da marcha do vestibular, de Pinduca: “Alô papai, alô mamãe/Põe a vitrola pra tocar/Podem soltar foguetes/Que eu passei no vestibular/Eu agora não me iludo/Estou com a cuca controlada/Já não sou mais cabeludo/Estou de cabeça raspada/Tudo agora é alegria/Vou alegre pintando o sete/Com a turma na folia/Dando tiros de confete”.

         “Eu agora não me iludo...” Ao contrário dos que se nutrem de doces ilusões noturnas, insones, baladas e aventuras, bebedeira, fugazes amores. Devaneios que dividem a responsabilidade com os pais, cuja responsabilidade educacional dos filhos fica por conta de empregadas e escola. Encontram mais tempo para negócios e eventos sociais  do que preciosos momentos de afeto e desenvolvimento dos filhos. Na infância, fácil ludibriá-los com presentes e assistência de babás. Vem a hora do voo da adolescência, descobrem o preço do descuido.  

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A VOLTA DO TREMEMBÉ

Demonstração de que o fundo do barco inflável descolou da borda

O novo casco do Tremembé a caminho do Velho Monge, vendo-se o seu antigo nome de Encrenka


21 de janeiro   Diário Incontínuo

A VOLTA DO TREMEMBÉ

Elmar Carvalho

Conforme já consta em registro neste Diário Incontínuo, alguns meses atrás adquiri um barco inflável, cujo nome de fábrica é Cheyenne. Comprei-o através da internet na loja virtual Submarino. Após duas curtas utilizações, no rio Parnaíba, sem nenhum acidente ou uso indevido, o barco descolou na parte que liga o seu fundo à borda, o que o tornou imprestável. Por meio de telefone, reclamei para a empresa vendedora, mas a Submarino limitou-se a dizer que como o problema ocorrera após sete dias do recebimento do produto não seria mais responsável em resolver o defeito surgido; que eu deveria dirigir a reclamação ao fabricante.

Achando pouco o teor de sua lacônica e inócua resposta, o atendente acrescentou que não estava autorizado a fornecer o nome e o endereço da fábrica. Como eu tivesse levado o barco para o Sítio Filomena, em Buriti dos Lopes, a trezentos quilômetros de Teresina, não pude verificar o nome e o endereço do fabricante de imediato (e nem obtive êxito em consulta internética).

Vários dias depois, quando pude examinar a nota fiscal e o manual de uso, constatei que o fabricante fica sediado em país estrangeiro e o telefone é internacional. Não encontrei o endereço eletrônico. Como não desejo aborrecimento, resolvi não ingressar com ação judicial contra as empresas fabricante e vendedora. O leitor poderá achar que sou acomodado ou resignado; não, eu sou apenas um cliente que não mais voltará a comprar na Submarino.

Em vez de pendenga judicial, tomei a decisão de comprar um barco de alumínio usado, que o meu pequeno motor de popa pudesse suportar. Com a ajuda de Natim Freitas, que intermediou o negócio, adquiri-o, inclusive com o reboque. Eu havia “batizado” o barco inflável como Tremembé, em homenagem aos índios que certamente perlongaram a Várzea do Simão na época de Mandu Ladino, que bem merecia ter seu nome estampado na pequena embarcação. O Natim sugeriu que o novo casco se chamasse Novo Tremembé, o que ensejaria se contasse a história do barco prematuramente avariado por defeito de fabricação.

Contudo, recordando a legendária falange persa de 10.000 homens, em que tão logo morria um guerreiro este era substituído por outro, de modo que o número se mantivesse incólume, de sorte que os componentes dessa infantaria de elite ganharam fama de imortais, resolvi manter pura e simplesmente o nome Tremembé, como se mantivesse sempre o mesmo barco, qual também na história em quadrinhos do Fantasma, que parecia imortal, pois o seu indumento e saga eram continuados por um filho, quando o herói atingia a velhice. Assim, poderemos afirmar que o Tremembé, como a mítica Fênix, renasceu, e há de permanecer em sua intrepidez e valentia com a continuação de seu emblemático nome em novo casco, desta feita mais resistente, já que metálico.

No dia 28 de dezembro, fizemos um passeio experimental, utilizando o casco de alumínio, que tinha o nome original e sugestivo de Encrenka. Segundo informações não confirmadas, esse designativo se devia ao fato de que um dos antigos donos era um tanto boêmio, e usava as pescarias como desculpas para driblar a marcação cerrada da esposa. Quando ela desconfiava de alguma coisa, era encrenca na certa, de forma que o nome era muito bem posto. Oportunamente o mestre Zico, flamenguista ferrenho e inveterado, pintará o seu atual e glorioso nome: TREMEMBÉ, que fará tremer eventuais adversários, piratas e corsários.

Fizemos a inauguração “oficial” no primeiro dia do ano em curso. O capitão de longo curso e larga cabotagem Natim Freitas pilotou a pequena nau com muita perícia, uma vez que na região dos tabuleiros litorâneos o Velho Monge se encontra muito largo e muito raso, o que sempre requer algum cuidado, apesar de o barco ser de pequeno calado. Graças à boa hidrodinâmica do casco, o pequeno e bravo motor deu conta da missão. Além do comandante Natim, fizemos parte da aventura eu, Francié e Chico Ribeiro, casado com a Graça, irmã da Fátima. Não obstante setentão, o Chico tem muita vitalidade, e subiu e desceu do barco com firmeza invejável.

Fizemos uma parada na margem que dá para a fazenda do general Antônio Lisboa de Freitas Diniz, uma vez que o Natim desejava conhecer a capela que fica perto da casa-grande. Em virtude de a ermida se manter quase sem uso, inevitavelmente se encontrava povoada por esvoaçantes morcegos. Ficamos à sombra de imensa árvore, a conversar com o caseiro.

Tive notícia de que o general Freitas Diniz, apesar de estar perto de completar cem anos, encontra-se lúcido e ativo. Foi amigo de meu sogro João Simão. É irmão do engenheiro civil Domingos de Freitas Diniz Neto, que exerceu o mandato de deputado federal em três vezes, tendo sido ainda secretário de estado do Maranhão. Teve Domingos papel importante no processo de redemocratização do país. Em minha juventude, conquanto à distância, admirei esse político maranhense, natural do município de Araioses.

Prosseguimos até a ponte do Jandira, de onde retornamos até a Toca do Velho Monge. No percurso da volta, atracamos o Tremembé numa das coroas de areia, onde tomamos um revigorante, demorado e gostoso banho. Lamentei a falta na tripulação do amigo José Pedro Araújo, escritor e historiador, que bem poderia ser o escrivão e cronista de nossa lúcida nave louca. Ele tem se proposto a ser apenas grumete, mas eu teria prazer em lhe passar o timão e o comando de nossa pequenina embarcação, que bem poderia também se chamar “cavalo do cão”, embora arrenegue tantas rimas em ão.    

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

RETRATO DE MEU PAI



RETRATO DE MEU PAI

Antonio Gallas

Recebi, com dedicatória e tudo, o livro RETRATO DE MEU PAI - Homenagem Aos Seus 90 Anos de Vida – de autoria do poeta, escritor e juiz aposentado Elmar Carvalho, no qual ele relata fatos da vida do seu genitor Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, desde o nascimento até o momento atual quando completou 90 anos em 05 de janeiro de 2016.

O livro com 52 páginas é um verdadeiro pequeno álbum de família, ilustrado com fotografias de alguns momentos da convivência familiar e enriquecido com crônicas bem elaboradas, o que é peculiar nos trabalhos de Elmar. As crônicas, já as conhecia, exceto “O Retrato de Meu Pai”, através do blog do autor e também porque estão inseridas no livro Confissões de um Juiz – editora Academia Piauiense de Letras 2014. Dentre essas crônicas cito “A Morte de Josélia” que quando a leio não posso evitar que as lágrimas venham-me à face, pois, mesmo já tendo se passado 37 anos da sua morte, ainda tenho em minha mente a figura jovial da minha aluna sorridente, meiga, solidária, cheia de vida, e que talvez por isso Deus a tenha levado prematuramente deixando em nós uma saudade, uma lembrança que jamais se apagará, mas também ficou a conformação de que “quem vive para Deus não morre” segundo o poeta e dramaturgo espanhol Juan Ruiz de ALARCON y Mendonza.

Na crônica que dá titulo ao livro, o autor evidencia de forma sucinta passagens da vida de seu Miguel, tanto no ambiente familiar como filho, qual teve que assumir responsabilidades de trabalho muito jovem ainda em decorrência da morte de seu pai (avô de Elmar), como esposo e pai, dando sempre bons exemplos quais foram seguidos pelos filhos; no trabalho, nas lojas em que trabalhou como Casa Inglesa e Casa Marc Jacob e na ECT – Empresa de Correios e Telégrafos. Nesta última Elmar narra com mais detalhes que vai desde o primeiro cargo como guarda fios, os lugares por onde seu pai passou, os amigos que ele conquistou, e a ascensão aos mais diferentes postos dentro da empresa até chegar a ser designado para ser chefe da agência da ECT em Parnaíba, a maior cidade do Estado depois da capital.

Neste pequeno álbum de família pode-se constatar que o Sr. Miguel, que tem nome de Anjo, soube conduzir-se muito bem em sua vida, portando-se sempre, com dignidade, caráter, honradez e honestidade, legado que deixa pra todos os filhos. Mas é bom que se ressalte que uma das características do Sr. Miguel era a de ser fiel amigo de seus amigos, de seus colegas de trabalho e por conta disso teve que enfrentar por diversas vezes momentos difíceis para não ter que “dedurar” um amigo, um companheiro de trabalho.

O poeta e filósofo suíço Henri-Fréderic AMIEL, afirmou que “saber envelhecer é obra de sabedoria, e uma das coisas mais difíceis da grande arte de viver”. E eu afirmo que o senhor Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, a quem tive o prazer de privar de sua amizade, foi um verdadeiro atleta no jogo da vida, pois driblou com sabedoria as dificuldades que porventura a vida lhe impôs e hoje, ao completar 90 anos, desfruta da amizade e do carinho dos filhos, netos que tão bem absorveram suas lições de vida que são exemplos de dignidade, caráter, honestidade e honradez, como já os citei em parágrafo anterior nesta crônica.

EM TEMPO: O aniversário do Sr. Miguel foi comemorado em Parnaíba no último dia 08 do corrente mês com a presença de familiares, amigos e colegas de trabalho da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. “Houve celebração eucarística e após, no Buffet Momentos” um “farto jantar e libações” no dizer do seu filho, o poeta Elmar Carvalho.    

Crônicas de Tomaz Gomes Campelo ganham edição revista e ampliada



Crônicas de Tomaz Gomes Campelo ganham edição revista e ampliada

Fernando Castelo Branco

O livro de crônicas “As Cores do Outono”, do desembargador Tomaz Gomes Campelo, falecido em abril de 2014, ganha relançamento, pela editora Edufpi, em versão revista e ampliada, nesta quinta-feira, 21.01, às 19:00 horas, na livraria Entrelivros (Avenida Dom Severino, 1045, Fátima).

Lançado originalmente em 1996, “As Cores do Outono” volta às prateleiras pelas mãos do filho, o médico Viriato Campelo, e dos sobrinhos, o teatrólogo Aci Campelo e o servidor do TJPI Joaquim Campelo. “Havia uma demanda pelo relançamento dessa obra mesmo antes da morte dele. Amigos e admiradores eram unânimes em apontar essas crônicas como um dos pontos altos da produção dele”, explica Viriato.

A nova edição de “As Cores de Outono” conta agora, por exemplo, com a integra do discurso de posse de Tomaz Campelo como desembargador do TJPI, em 1988, além de prefácios de Herculano Morais e Gilseno Feitosa.

Fonte: portal do TJPI  

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

SETE DIAS SEM CARRANCA


SETE DIAS SEM CARRANCA

Pádua Santos
Presidente da APAL

Wolfgang Amadeus Mozart, o grande músico austríaco, aquele que começou a compor aos cinco anos e influenciou inúmeros compositores através de sua produção musical louvada por todos de sua época, ao morrer, aos trinta e cinco anos, em cinco de dezembro de 1791, contou com apenas cinco pessoas acompanhando o seu enterro, onde não houve música nem pompa, sendo enterrado em uma vala comum, sem lápide ou qualquer marca que o identificasse, não obstante ser considerado pela crítica especializada como um dos maiores compositores do Ocidente.
                Bernardo Alves da Silva, o Bernardo Carranca, ao falecer em dez do corrente mês (hoje completa sete dias), teve o seu féretro acompanhado por uma multidão entremeada defãs e também de alguns amigos. Foi realmente um cortejo digno de nota. Não faltou reza, choro e nem música, e foi sepultado, no final da tarde, sob olhares curiosos e ambiciosos, em cova particular, no cemitério Asa Branca.
                Não acompanhei tal enterramento, mas ao ver tudo depois, via internet, fiquei a lembrar do que disse Rochefoucauld – Escritor,moralista e memorialista francês:“A pompa nos enterros é antes para lisonjear a vaidade dos vivos do que para honrar os mortos.”.
                Pensei assim porque pude ver naquele cortejo a presença de políticos de todas as esferas, de quase todos os partidos com representação na cidade, políticos com ou sem mandato, porém todos com o pensamento no popular músico morto, em seus fãs - eleitores, como também nas eleições que se aproximam.
                Eu, também político, muito embora atualmente sem mandato e sem partido, não havendo comparecido à cerimônia para dar o meu adeus final ao grande músico que a Parnaíba perdeu, gostaria apenas de a ele dizer:
- Bernardo, eu sempre vou lembrar-me da sua bravura nas eleições de 2000, quando concorri ao cargo de vice-prefeito. Naquela época os nossos opositores contavam com requintadas bandas de música provenientes da Bahia, compostas de artistas que deleitavam os nossos eleitores nas largas avenidas, cantando do alto de trios-elétricos modernos, músicas quentes e novas. Enquanto você, sempre do nosso lado, animava nossos pequenos comícios que aconteciam em um velho caminhão que muitas vezes só pegava no empurrão. Mas você, com o auxílio do tecladista Teté, cantava e encantava cantando o “Mí dibuiado”, lendo suas exóticas partituras formadas de notas de cabeça para baixo, contendo rabiscos que somente você os lia e ali os havia introduzido à revelia do citado Mozart, ou até mesmo de Rossini, aquele que somente compunha embriagado. E não é que ganhamos as tais eleições! A política é assim, meu amigo, tem os seus contrastes. Ela é, às vezes, tal qualos enterros dosmúsicos.
Mas como vou dizer isto ao meu amigo Carranca, se ele já partiu, de repente e sem despedida? Eu somente poderia dizer se fosse através do chamado “telefone do além”, descrito por Chico Xavier, em sua doutrina espírita. E esse contato realmente existe? E eu acredito nisto? Mas se existir e um dia ele tocar me chamando, e do outro lado estiver o Carranca, eu com ele conversarei sobre todo o processo político onde participamos juntos, da sua candidatura a Vereador pelo partido que eu presidia e onde fiz sua filiação; do show que ele iria dar, ainda neste mês, na festa anual da PAPOCO – minha associação columbófila - já estava apalavrado. E terminaria o telefonema dizendo: - Bernardo, me desculpe por não ter comparecido ao seu enterro. É que atualmente comungo plenamente com o poeta e compositor Vinicius de Moraes: “Os enterros, eliminei-os de minha vida para que possa lembrar vivos os meus mortos”.


                                   Parnaíba, 17 de janeiro de 2016.