segunda-feira, 23 de maio de 2016

ADIÓS


ADIÓS

Alcenor Candeira Filho

Con la más díscola tristeza
yo te digo adiós
en esta hora larga y amarga
sin dirección.

Y yo te digo adiós
en el descanso de los dias
extintos ahora.

Todo vuelve al silencio
en este momento
de padecimiento infinito
en que mi voz
no más te toca.

Ah!  dolorosa hora
de oídos abiertos
solamente para el viento!

En im casa
no queda sino
la seña
de tu riso.
En mi casa
no queda sino
la sombra
de tu cuerpo.           

domingo, 22 de maio de 2016

Seleta Piauiense - Adail Coelho Maia


Segundo a Bíblia

Adail Coelho Maia (1909 - 1962)

Diz a Bíblia que o nosso Criador
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.

Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma ideia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!

E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!

E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...   

sábado, 21 de maio de 2016

Comentário de Alcenor a Histórias de Évora

            
Alcenor visto por Fernando di Castro
Gervásio Castro por Gervásio a fazer a charge de Elmar


            Recebi o e-mail abaixo do poeta e escritor Alcenor Candeira Filho, meu amigo há várias décadas, desde que fui morar em Parnaíba, em meados de 1975.

            Logo após o seu comentário, segue minha resposta, em que esclareço suas dúvidas e faço outras observações.


             Prezado amigo Elmar,

          Venho acompanhando com grande interesse a publicação semanal de cada capítulo de HISTÓRIAS DE ÉVORA. Acabo de ler o de nº VI, através do qual começo a perceber melhor o que constituirá verdadeiramente a essência do núcleo dramático central dessa obra de ficção.  Presumo que com a continuação e a conclusão do livro, o leitor vai constatar que não se trata de obra de ficção erótica como pode parecer até agora, mas de romance de caráter memorialístico e autobiográfico onde o apelo sexual, tão presente nos capítulos iniciais e que provavelmente reaparecerá em outros, não passa de detalhe no meio de vários episódios "pitorescos, jocosos e escabrosos" (Cap. VI) que serão ainda apresentados e que marcaram a mocidade de Marcos, personagem autobiográfico.

          Não sei se estou no rumo certo, mas com certeza a fictícia Évora é na verdade a cidade de Parnaíba, onde o autor morou na juventude.  As alusões a POEMITOS DA PARNAÍBA (poemas de Elmar Carvalho e ilustrações de Gervásio Castro), a MEMÓRIAS e a MEMÓRIAS INACABADAS (Humberto de Campos), a TOMEI UM ITA NO NORTE (Renato Castelo Branco) e ao cabaré QG (Quartel General) localizado "no centro histórico de Évora", isto é, na rua Conde D'Eu,em Parnaíba,  me induz a essa convicção. E mais: a "Casa Britânica" de propriedade de "James Cavalcante Taylor" (Cap. II) não será em verdade a tradicional Casa Inglesa, sediada no centro histórico de Parnaíba e de propriedade de James Frederick Clark?

          Na expectativa da leitura dos futuros capítulos, despeço-me do amigo com um grande abraço e com os parabéns pela forma inteligente, artística e criativa com que vem construindo o romance HISTÓRIAS DE ÉVORA.

Parnaíba, 20-05-2016.

Alcenor Candeira Filho


                 Caro amigo Alcenor,

            Você é um observador arguto, uma vez que é leitor compulsivo há longos anos, professor de literatura há várias décadas, bem como profundo conhecedor de crítica e de teoria literária.

            De fato, como você bem notou e anotou, o meu romance em construção não irá descambar para o meramente erótico; mas não poderia deixar de ferir essa temática, uma vez que o protagonista é um adolescente, no começo de suas descobertas sexuais. Certamente é uma personagem em formação, mas chegará à juventude e maturidade.

            Embora Marcos não seja um meu alter ego, contudo alguns episódios desse romance terão algo de autobiográfico, mas também registrarão “causos” e fatos acontecidos com parentes, amigos e conhecidos, além de conter estórias e histórias que ouvi contar ao longo de minha vida. Mas todos esses fatos e façanhas serão bastante modificados, misturados com outros, exagerados ou mitigados, para que os personagens verdadeiros não possam ser identificados e para que eu não venha a sofrer eventual ação indenizatória. Muitas cenas e cenários serão pura ficção, claro.

            Évora é uma cidade fictícia, situada no Nordeste do Brasil, não sei se exatamente no Piauí. Todavia, terá muita coisa de Parnaíba (como você muito bem identificou), de Campo Maior e, em menor escala, de outras cidades piauienses. Foi um recurso de que lancei mão para dificultar o reconhecimento de certos episódios romanescos como sendo da chamada vida real.

            Com relação à Casa Britânica, devo esclarecer que muitas grandes firmas, com matrizes em Parnaíba, tinham filiais em Campo Maior. Quanto ao QG, outros cabarés serão evocados, com o próprio ou com nomes fictícios. De qualquer forma, como pano de fundo, o romance terá uma contextualização sociológica, histórica, econômica e antropológica, ainda que de forma superficial, pois para mim o mais importante serão as histórias que irei narrar.

            Conquanto eu vá utilizar recursos da considerada vanguarda literária, como eventuais saltos cronológicos para o passado ou para o futuro, fluxo de consciência, intercalações de outros discursos, que não apenas o do narrador onisciente e onipresente, não pretendo fazer um romance para romancistas e “entendidos”, mas que possa ser compreendido e fruído por um leitor comum, sem hermetismos de nenhum forma. Por conseguinte, pretendo contar estórias que possam despertar o prazer de quem venha a lê-lo; ao menos é esta a minha intenção, que desejo conseguir.

            Os autores citados no capítulo VI (evidentemente com exceção deste neófito romancista) são grandes memorialistas, da predileção de Marcos Azevedo, que eu quis homenagear.

            Em resumo: você desvendou o enigma, não totalmente na íntegra, mas acertou nas asas da “mosca” e a deixou fora de combate.

Teresina, 21-05-2016.

Elmar Carvalho

quinta-feira, 19 de maio de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo VI




HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

           Capítulo VI

Évora e suas histórias

Elmar Carvalho

Além de escrever poemas e crônicas, que publicava no jornal mural O Arauto, e esporadicamente no jornal tipográfico A Batalha, Marcos tinha o projeto literário de escrever três livros. Num deles iria contar fatos pitorescos, picarescos, jocosos e mesmo escabrosos acontecidos em sua cidade; teria o título de Histórias de Évora. Os outros dois seriam intitulados Memórias e Mitologia de Évora.

A idealização deste último fora inspirada no livro PoeMitos da Parnaíba, do poeta Elmar Carvalho, com quem se correspondia, através de cartas enviadas pelos Correios. Seria em prosa, mas a exemplo de PoeMitos, iria falar das figuras populares, folclóricas, engraçadas de Évora; pessoas que jamais fariam parte da chamada história oficial, mas que integravam a paisagem humana eborense, com toda a sua pungência, tragicidade, humor e folclore, cujos episódios, muitos revestidos de uma aura lendária e fantástica, eram refertos de encanto e magia.  

Não bastasse a sua prodigiosa memória para armazenar estórias, histórias e “causos”, tinha uma caderneta em que fazia suas anotações. Para concretizar seu projeto literário, fazia entrevistas com prostitutas, madames de cabaré, pessoas idosas, e principalmente com os protagonistas dessas histórias, ou, na falta destes, com os seus descendentes, amigos e familiares. Colhia informações em lápides de igrejas e cemitérios, em velhos alfarrábios e acervos de sacristia, cartórios e delegacias, além de arquivos particulares e públicos. Mitologia de Évora foi escrito e publicado quando Marcos completou 35 anos de idade, já casado e com dois filhos. Histórias de Évora veio a lume quando ele completou meio século de vida, e foi o presente de aniversário que ele se deu a si mesmo.

As Memórias foram iniciadas no dia em que ele completou 60 anos e encerradas exatamente um ano depois. Ao longo de sua vida ele havia lido e relido o livro homônimo de Humberto de Campos, que ele considerava um dos melhores do gênero.

Alguns dos trechos antológicos dessa obra ele já conhecia desde a sua meninice, como o episódio do cajueiro, que o ilustre memorialista plantara quando ainda era criança e morava em Parnaíba, perto de onde hoje se ergue a imponente Praça Santo Antônio, com a sua elegante penumbra proporcionada pelos enormes e frondosos oitizeiros. Também lhe comoveram as narrativas da morte de seu pai, ocorrida em Miritiba, no Maranhão, hoje cidade que leva o seu nome, e o episódio do brinquedo roubado, pungente, a nos ferir a sensibilidade e a alma.

A fim de angariar experiência nesse filão memorialístico, que foi praticamente um projeto de toda a sua vida, leu e releu Confesso que vivi, de Pablo Neruda, com as suas fantasias e a sua torrencial e poética linguagem, pictórica, pluviosa, cheia de imagens, goteiras e metáforas. Degustou todos os volumes da monumental obra memorialística de Pedro Nava, considerada paradigmática no gênero.

Com invulgar atenção leu Tomei um Ita no Norte, do escritor parnaibano Renato Castelo Branco, que num estilo elegante, conciso e cristalino contou muitos fatos interessantes e pitorescos da pequenina Parnaíba de sua meninice, além de vários outros que permearam a sua longa existência de homem das letras e da publicidade. O livro é povoado de figuras humanas dos mais diferentes caracteres, algumas excêntricas, outras boêmias, todas notáveis a seu modo. Renato tinha o que contar. E sabia contar.

Por último, com muito encantamento, leu a colossal (tanto no tamanho como na qualidade) obra memorialística Rua da Glória, em quatro volumes, de Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. Escrita com esmero, com riqueza de detalhes, em linguagem enxuta e torneada, contudo sem desnecessários floreios, narra fatos que nos atraem a atenção, pelo que têm de pungente e de inusitado, além de referir pessoas com quem manteve contato, parentes ou amigos. De tudo isso e também por causa das referências e transcrições, se depreende que o seu autor, além de erudito, é meticuloso, exato e apegado, tanto quanto possível, à realidade objetiva dos fatos, e não apenas à verdade subjetiva, tal como registrada em sua memória.

Com a leitura dessas e de outras obras, de posse do vasto material armazenado em sua memória e anotado em sua caderneta, Marcos, em sua maturidade e no dealbar de sua velhice, com o seu estilo literário já consolidado, se sentiu apto a escrever as obras que havia planejado, todas precisando de sua boa memória. Não esperou mais, com medo da visita da “indesejada das gentes” ou do abominável alemão Alzheimer.


E pôde escrever as suas fantásticas, fantasiosas, corriqueiras, contraditórias e verdadeiras Histórias de Évora. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A Coleção Centenário


A Coleção Centenário

Rogel Samuel (*)

Recebo, com emoção e surpresa, a totalidade da COLEÇÃO CENTENÁRIO, da Academia Piauiense de Letras. E começo a leitura imediata pelo livro de João Pinheiro, “Literatura piauiense”, onde, é claro, meus olhos buscam logo o poeta Taumaturgo Vaz, que viveu e produziu no Amazonas.

Então passo a ler a obra do famoso Félix Pacheco e de Hardi Filho.

No livro de João Pinheiro encontro várias páginas de referência ao herói Gregório Thaumaturgo de Azevedo, fundador da cidade de Cruzeiro do Sul, governador do Piauí e do Amazonas, erudito, autor de várias obras, inclusive “O Acre”, em colaboração com o sábio Clóvis Beviláqua.

O Piauí pode-se considerar orgulhoso pela publicação dessa Coleção, atualmente de 52 livros, mas que deve chegar a 100 volumes.

Espero que não se esqueçam de publicar a obra do Castelinho, o Carlos Castelo Branco, o maior cronista político de minha geração, que era membro das Academias Piauiense e Brasileira de Letras.

Castelinho faz falta hoje. Ele era o autor que eu lia diariamente pelo jornal durante creio que 20 anos.

Sua opinião era segura.

(*) Rogel Samuel é crítico literário, romancista, professor aposentado do Departamento de Pós-gradução em Literatura da UFRJ


Fonte: Portal Entre-textos

segunda-feira, 16 de maio de 2016

INVERSÃO DE PRIORIDADES


INVERSÃO DE PRIORIDADES

Jacob Fortes

A Tocha Olímpica, símbolo dos Jogos Olímpicos, percorre várias cidades do Brasil. Porém, algumas prefeituras (Ipatinga, Betim, MG), movidas pela escassez severa de recursos, desistiram de recepcionar o dispendioso evento.

Enquanto a Tocha, cheia de distinção e glamour, percorre, aparatosamente, as cidades brasileiras, as escolas municipais de Bom Jardim, MA, sucumbem. Exibindo trapagem que deprime, desonra o Brasil, e humilha maranhenses, uma delas (reportagem de Alex Barbosa da Rede Globo), se destaca pelo cenário trágico, próprio de escombro: um barracão taipado, teto de palha e piso de chão batido onde o lampião a gás, no papel de energia elétrica, se esforça, debalde, para clarear a sala. Os alunos noturnos são instados a fazerem-se acompanhar das suas lamparinas ou lanternas.  As duas únicas salas são divididas apenas por uma lona. Sem banheiro, os alunos recorrem a um buraco, insólito, nas proximidades escuras, cuja orla orbicular é protegida por uma cerca feita de palha. Toda essa indignidade, metida em cabresto, ou dignidade confiscada, (denúncia do Jornal Nacional) refletem os efeitos nocentes da corrupção.  A ex-prefeita, Lidiane Leite, depois de pompear abundantes sinais de riqueza, fora presa por haver furtado o dinheiro da educação; já se encontra em liberdade, porém encobrindo a simbologia do crime: uma tornozeleira eletrônica. À parte a corrupção, a Tocha Olímpica testifica que o Brasil ainda não se libertou inteiramente da cegueira que enevoa as lentes do seu horizonte ao permitir que o acessório prepondere sobre o essencial. A bem dizer, os dispêndios com a Tocha Olímpica deveriam ocorrer somente quando o País eliminasse os “educandários” alumiados à moda colonial, isto é, por luz de lampião ou lamparina. A inversão de prioridade constitui ultraje à “pátria educadora”.     

domingo, 15 de maio de 2016

CETICISMO


CETICISMO

Elmar Carvalho

Náufrago de uma tempestade
num copo dágua,
escuto o canto da desgraça
como um chamado de sereia.
Pregado numa cruz invisível,
de cabeça para baixo,
tenho os braços fechados
em sinal de protesto.
Herói morto de
um sonho desfeito,
tenho como epitáfio
a solidão e o
esquecimento.
Cantor do silêncio,
tenho a lira sem cordas
e as mãos paralíticas.
Pássaro-símbolo da liberdade,
tenho as asas quebradas e a
garganta afônica.
Mendigo da solidão,
tenho as mãos vazias.
Descendente de troglodita,
sou menos que um
macaco.
Partícula de mim mesmo,
sou menos que uma célula
fragmentada.
Resumo de mim mesmo
uma expressão me resume:
o NADA absoluto.


           Parnaíba, 04.09.77

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Ana Jansen, tresloucada rainha do Maranhão


Ana Jansen, tresloucada rainha do Maranhão

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

            Nestes últimos dias, não me desgrudei do noticiário sobre sessões longas e desgastantes da Câmara e do Senado, para definir a sorte da presidente Dilma. Houve até momento hilariante: deputado Waldir Maranhão, que substituiu Eduardo Cunha na presidência da Câmara, redigiu, de madrugada, uma decisão autoritária para anular 367 votos dos parlamentares... Todo mundo sabe o resultado dessa presunçosa e risível atitude, de repercussão internacional. E fui dormir, pensando nas asneiras do aloprado parlamentar maranhense. E olhe só o que sonhei.

         Ana Joaquina Jansen, descendente de aristocratas europeus, nasceu em 1797, em São Luís, Maranhão. Ainda criança, sofrera pobreza e abandono. Casou-se e enviuvou duas vezes, conseguindo acumular imensa fortuna. Comerciante de invejáveis méritos, poderosa, milionária, forte influência social e política, temida na cidade, uma lenda.

         Donana, como era chamada, faleceu em 1869, deixando inúmeros imóveis, inimigos políticos e desafetos. Perversa, exercia crueldade com os inúmeros escravos, torturando-os até à morte. Para não sujar os longos vestidos, obrigava-os a se deitar na lama para atravessar a rua.

         Ana Jansen acumulou riqueza colocando escravaos para recolher penicos de urina e cocô da cidade. Conta-se que um dos inimigos de Donana, comendador Meireles, rico comerciante, mandou fabricar centenas de belos penicos de louça na Inglaterra, com a cara da velha no fundo do vaso, para vender, quase de graça, na sua loja. Donana suportou com paciência a gozação das ruas, mandando comprar dois, três ou mais penicos de cada vez, até esgotar o produto. Costumava-se usar penicos nas residências, até há algumas décadas, hoje substituídos por banheiros internos.

         A poderosa e rica Jansen recebeu a alcunha de Rainha do Maranhão. Firmou-se como vendedora de água, pelos escravos, e não aceitava concorrências com técnicas mais avançadas. Proprietária das maiores produtoras de cana de açúcar e algodão do império, além de numerosos escravos. Habilidosa política, costurava acordos nos bastidores, patrocinou batalhas da Balaiada e de Duque de Caxias.

         Depois de falecida, muitas histórias se contam, algumas lendária, que despertam curiosidade e material para literatura, No cinema, aparece como LENDA DE ANA JANSEN, produção da Globo.


         Num país onde famosos viram reis da fantasia, fica fácil, muito fácil, homenagem ao Rei Roberto Carlos, Rei Pelé, Rei da Soja, Rei Luís Gonzaga. Até um jogador de futebos de Minas virou rei nos anos 70. Joaquina Ana Jansen, Rainha do Maranhão não faz exceção. Salvo se um presidente temporão da Câmara ultrapasse os limites da arrogância, servindo de chacota, até para aparecer em fundos de penicos de louça.     

quinta-feira, 12 de maio de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo V



HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

            Capítulo V

A iniciação sexual de Marcos

Elmar Carvalho

O QG ficava no centro histórico de Évora. Era considerado um dos melhores cabarés da cidade. A madame Doralice, embora educada e também instruída para os padrões da época, impunha respeito e ordem no ambiente, de modo que todos se comportavam de maneira conveniente, sob pena de ser convidado a se retirar. Ocupava um casarão antigo, conhecido como Solar da Rosa dos Ventos, que se via estampada nos mosaicos do imenso salão, que na verdade era o átrio, de onde, através do largo corredor, se acessava os quartos, que lhe ficavam de um lado e outro.

Quando Marcos e seus amigos chegaram ao Quartel General havia poucos clientes, de modo que eles escolheram uma mesa posta num dos cantos, ao fundo, onde ficariam mais à vontade. O plantel de mulheres já estava em “exposição”, em lugares estratégicos, como se elas fossem manequins em vitrine. Quase todas vestiam roupas curtas e de generosos decotes, e se apresentavam maquiadas e com unhas bem cuidadas.

Uma delas, uma cabrocha morena, quase ainda uma ninfeta, de carnes firmes e de acentuadas curvas, era muito assediada, e no intervalo de apenas duas horas foi, sucessivamente, para o quarto com quatro ou cinco rapazes. Estava sendo muito rentável para a casa, pois, além da bebida consumida pelos clientes, estes ainda tinham que pagar a chave do “abatedouro”, cuja taxa ficava toda para a proprietária. Os honorários das raparigas eram pagos “de fora à parte”, quase sempre combinados antes de adentrarem a alcova.

Fabrício Moreira se dava com a madame Doralice, que sempre lhe fornecia carne fresca, saudável, recém chegada ao lupanar. Ela era cliente da loja do pai do rapaz. Graças à intermediação deste comprara no crediário, em módicas e suaves prestações, a mais luxuosa e eficiente vitrola disponível, possuidora de um dispositivo em que poderiam ser colocados vários LP's de uma única vez, que ela ia tocando de forma automática.

Logo após o segundo copo de cerveja, ele foi falar com Doralice, sobre a possibilidade de ela ser a “professora” de Marcos em sua iniciação sexual, tendo ela ficado muito honrada com a missão. Seria ele recebido, com todas as honras e cuidados, em seu próprio dormitório, o mais luxuoso e espaçoso do prostíbulo.

Ficou acertado que tão logo Marcos se sentisse mais à vontade a procuraria. Fabrício retornou à mesa onde estavam seus amigos e explicou a Marcos o que acertara com a madame, mulher bonita, asseada, ainda nova e, segundo comentavam, muito fogosa. Talvez ela tivesse entre 35 e 40 anos, mas ainda se mostrava exuberante em suas formas curvilíneas e na textura da pele sem manchas e cicatrizes.

Doralice, após algum tempo, veio até a mesa dos três rapazes, para cumprimentá-los, e quando se despediu, Marcos a acompanhou. Foram para a grande suíte. Marcos, no ímpeto de sua juventude, a beijou com sofreguidão e a acariciou, graças à experiência angariada nas danças e nos “amassos” ou “pinos” de seus eventuais namoros. Aos poucos foram se desnudando, até se deitarem no grande e fofo colchão. Não irei, amigo leitor, entrar em detalhes sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer. Deixo-o livre para imaginar o que bem lhe aprouver, conforme a sua capacidade imaginativa.

Contudo, algo inusitado aconteceu. Doralice, em dado momento, estrebuchou e escaramuçou agoniada; gemeu muito, e pronunciou sons ininteligíveis, que mais pareciam grunhidos, como se fosse morrer. De repente, distendeu-se toda, e retesa abraçou o parceiro com muita força, como se quisesse (na velha imagem) fundir-se com ele, suada e tremendo, como se estivesse tendo um ataque de sezão ou calafrio. Ao retesar-se, as juntas de sua espinha dorsal estalaram, como se estivessem se partindo, semelhante às vergas de um navio ante forte temporal. Com as pernas o enlaçou com força, como se fosse o bote de uma jiboia, fazendo com grande maestria a conhecida chave de pernas.
   
Todavia, o rapaz simplesmente não conseguiu atingir o orgasmo. Talvez ansioso, com medo de falhar, ou sugestionado com a conversa do Mário Cunha, sobre os supostos ou verdadeiros efeitos da bebida, não ejaculou, de modo que seu membro se manteve ereto por quase uma hora, até que Doralice, com bons modos, muita delicadeza e muito veludo em sua voz suave, perguntou se o jovem não desejava “dar um tempo”, tendo ele aceitado a sugestão.

Ela então o aconselhou a não pensar em sexo. Induziu-o a relaxar. Pegou uma cerveja da geladeira que havia no quarto, e convidou o rapaz para acompanhá-la. Iniciou uma conversa amena, mas foi aos poucos revelando os seus conhecimentos, mostrando que era de fato e de direito uma verdadeira mestra e sacerdotisa do prazer, do qual dominava todos os mistérios, ritos e mitos, tanto na prática como na teoria. Na estante podiam ser vistos, além de romances, alguns livros sobre sexo, inclusive um luxuoso e ilustradíssimo Kama Sutra, em que eram vistas as mais mirabolantes, extravagantes e acrobáticas posições sexuais, cujas pinturas  foram executadas por renomados artistas. 

Revelou a moça que, por ocasião de uma doença, fora consultar-se na capital com famoso médico, que lhe fez várias perguntas sobre sua vida e hábitos. O esculápio terminou por lhe dizer que ela nascera para o sexo, e se não fosse mulher da vida, como na época se dizia, talvez viesse a ter graves problemas mentais ou psicológicos, de tal sorte que não podia ficar muito tempo afastada desse mister. Após a segunda garrafa de cerveja, convidou Marcos para irem tomar banho. Primeiro, se assearam com o uso da ducha. Em seguida, foram para a suntuosa banheira, onde se beijaram e se acariciaram a valer.

Refrescados e perfumados voltaram para a cama. A madame, mostrando então todo o seu conhecimento, obtido nos livros e na experiência, para estimular a sensibilidade de Marcos, fez coisas inefáveis, que ele jamais havia imaginado, mesmo nos sonhos mais libidinosos. Nunca ele havia sentido língua e dedos tão macios e peritos, tão adestrados, hábeis e certeiros, que mal pareciam tocar a pele.

A luz da alcova não fora apagada, de modo que o rapaz via o lindo corpo feminino refletido no espelho fixado no teto, sobretudo as costas e a esplêndida coluna dorsal, já que Doralice tomara a iniciativa de ficar por cima. Quando a mulher baixou a cabeça, para colocá-la ao lado da sua, e alteava e baixava o bumbum, no ritmado movimento, ele lhe pôde ver o perfeito contorno dos rijos glúteos, que desenhava um coração, como na monumental Apoteose de Niemeyer. Nos movimentos ascendentes via o períneo distender-se sobre seu membro, o que mais o enlouquecia. Era quase como se estivesse se vendo e vendo a mulher de fora de seu próprio corpo. 

Por fim, sentada triunfalmente sobre o rapaz, Doralice fez evoluções de verdadeira contorcionista, mostrando invejável elasticidade e preparo físico, em que girava 360 graus, e fazia movimentos ascendentes e descendentes, revolvendo-se para todos os lados, de forma espiralada, como se estivesse contornando os sulcos de um parafuso ou de uma rosca infinita. Quando descia, colocava todo o peso de seu corpo sobre os grandes lábios; o rapaz lhes sentia a umidade e o relevo no entorno da base de seu sexo. Até explodir num jato denso, intenso e quente.    

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A Bela dos Diários


A Bela dos Diários

 Dílson  Lages (*)

O professor de Teoria Literária Salvatore D'Onofrio, em Teoria do Texto - Prolegômenos e Teoria da Narrativa, evidencia que "os personagens constituem os suportes vivos da ação e os veículos das ideias que povoam as narrativas". Por essa razão, segundo o pesquisador, o estudo dos personagens deveria ocorrer simultaneamente ao das sequências narrativas, porque "a caracterização dos personagens ilumina o sentido da história e vice-versa".

A assertiva de D'Onofrio serve para dialogar com os temas e o estilo de "A Bela dos Diários", reunião de treze contos de Austregésilo Brito, nome de obra já consolidada  na literatura piauiense, por meio de livros de contos como Fetiche e Algodões. Austré Brito centra-se em praticamente todos os contos - como uma das estratégias maiores da interlocução com os leitores - no superdimensionamento dos personagens e das ambientações em que eles se inserem. Esse, alias, é sem dúvidas o ponto de partida da gênese de suas criações, ponto em torno do qual organiza estrutural e semanticamente suas narrativas. Ao fazê-lo, sua perspicácia e estilo selecionam exclusivamente detalhes-ações que se inter-relacionam, e paradoxalmente tornam a escritura mais exata, mais fluente.

Enfatizando esses elementos, consegue o escritor provocar os leitores, ao transferir características do ambiente para os personagens e vice-versa, em processo de humanização da paisagem, por meio do qual ganham impulso as representações mentais e as associações que asseguram o deslanchar da leitura, reiteradamente, em passagens como: "O pai na bodega, o dia todo. Caminhava pra lá e pra cá, do balcão ao armazém. De passagem pela cozinha, olhava de esguelha para Elzzira. Ela correspondia. arregaçava o vestido colado ao corpo, mostrava as coxas (O primeiro amor, p.41). Quase um Albergue. Fachada comum, porta larga ao centro separava os janelões. Corredor longo da entrada à sala de jantar, de onde seguia outro corredor menor, estreito, até a cozinha ampla e semiaberta(...). No hall, o banheiro e o dormitório de dona Judite (Casa de pensão, p.57)”.

Assim é que, respectivamente, a angústia pela consumação do encontro amoroso, acentuado pela distância dos lugares sociais de ambos (o quitandeiro e Elzzira) naquele momento, funde-se ao espaço, a partir da ansiedade gerada pelos movimentos do quitandeiro e da própria Elzzira. Assim é que o desejo de controle que almejava ou pensava em ter dona Judite sobre sua pensão se apresenta na associação entre a disposição da arquitetura do recinto em que reside e o perfil do personagem em construção, mais evidente à proporção que a narrativa avança até apontar a avareza peculiar à proprietária da pensão.

Mantendo a linha de outras produções, divide-se o escritor entre dois grandes eixos. Divide-se entre o mergulho nas insatisfações e contradições da materialidade do amor, em textos de acentuado apelo erótico, e o desnudamento de dramas sociais ou das situações pitorescas das pequenas comunidades e sua gente; com a revelação, em plano secundário, de traços característicos do ethos da paisagem social dos lugarejos.

Na primeira parte de A bela dos Diários, os leitores se absorvem com narrativas cujo cerne é as contradições da paixão cega. Em algumas sequências, a ênfase com que o tema é tratado pode até chocá-los, dada a contundência do léxico ou a estilização da vulgaridade em que se revertem as cenas fundamentais dos núcleos narrativos. Personagens como Consuella, Jéssica e Úrsula – mesmo que focalizadas exclusivamente pelo olhar do desejo – e exaustivamente erotizadas, reduzidas à condição de objeto do amor – resumem o  mistério e encantamento da sedução.

Nesse sentido, recriam os narradores a aura de perplexidade própria do jogo erótico e impulsionam as carências que alimentam o prazer. Assim, deparam-se os leitores com personagens masculinos hipnotizados, à procura de explicações que não encontram ou à busca de se libertar da paixão. Confirma-se, por meio desses personagens, o que explica Maria Rita Kehl, em estudo sobre o olhar da sedução: “O olhar seduzido é perplexo. Procura recobrar o domínio de si mesmo”.

Na segunda parte do livro, os leitores encontrarão episódios pitorescos, que resgatam a temática dos contos populares, sem, contudo, estereotipar a linguagem ou modificar o modo de contar próprio de Austré. Nesses contos, a paisagem e os personagens, humanizados pela imaginação pessoal dos leitores, dão margem a antigos costumes de pequenos lugarejos, desemborcando, sempre, em inesperada situação de humor, ou, fugindo à regra dos temas dessa parte, em denúncia social - caso específico de “O caos”, no qual o drama de se locomover pelo tráfego de Teresina-PI é tratado de maneira inusitada.

“Em literatura, todo conteúdo está associado a um colorido emocional, que faz parte da informação transmitida pela obra”, escreve Vicente Jouve, enfatizando que “os textos quase sempre exemplificam emoções (a dor, a insatisfação, a tristeza), por meio de propriedades formais que as exprimem metaforicamente”. Em A Bela dos Diários, essas emoções possuem lugar certo: personagens e ambientes que dão corpo e substância à linguagem. O leitor é capturado pelos dramas, carências e desejos de cada personagem ou sorri de situações que a literatura, como a vida, revela-nos inesperadamente.

(*) Dílson Lages Monteiro é professor, diretor do Portal e Editora Entretextos e membro da Academia Piauiense de Letras (APL). E-mail: dilsonlages@uol.com.br    

Fonte: portal Entre-textos

terça-feira, 10 de maio de 2016

A Raposa e o Pau Doce


            A Raposa  e o Pau Doce

             Des. Valério Chaves
             Escritor, jornalista e articulista                    

             A raposa, faminta, caminhava à procura de alguma presa para matar a fome quando deparou-se com uma roça cheia de cana boa e doce.
            Parou, indecisa, mas resolveu pular a cerca e chupar alguns gomos de cana, sem perceber que o dono da roça estava escondido no alto de uma árvore para flagrar quem estava furtando suas canas todos os dias.
            Pensando estar sozinha no meio a tanta fartura, a raposa a cada mordida gritava bem alto: ô pau doce, ô pau doce…
            Até que, de repente, ouviu uma voz cavernosa vindo do alto que dizia: então é você, sua ladra, que vem aqui todos os dias aqui comer minhas canas? Vai se arrepender, agora. Como um raio, apareceu o dono, furioso, para pegar a pobre raposa faminta.
            Não sabendo direito para que rumo corresse, saiu em disparada por dentro do canavial, até que lembrou-se do amigo macaco, para quem apelou com toda força da garganta, pedindo por socorro:    
- Me acode amigo macaco, me acode…
Ao macaco, sabendo ser ele o verdadeiro ladrão de cana, só restou dizer, morrendo de medo:
            - Não sei porque nem para aonde está correndo, mas faz volta amiga raposa, faz volta, faz volta...
A raposa, já morta de cansada de tanto correr, apenas dizia:
            - Não tem tempo, não tem tempo, não tem tempo…

Moral da história. Quem se aventura pegar no alheio, a pretexto de matar a fome, corre o risco de perder vida e o apreço dos amigos.
            
            Teresina – maio de 2016               

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Brochar ou broxar?


Brochar ou broxar?

Antônio Gallas
Professor, jornalista e cronista

Não importa a grafia, mas esta pequenina e dissilábica palavra quando pronunciada apavora qualquer homem, até mesmo  um jovem em pleno vigor de  sua virilidade.
               Falar em broxar é como se o demo saísse das profundezas dos infernos pra espetar a bunda  dos homens com aquele seu ferrão quente.
               Os machões, os garanhões, nunca narram as broxadas que deram. Contam apenas vantagens, mesmo que não sejam verdadeiras. "Fulano disse que  deu três ontem a noite". Mas três o que?
               Muitos são os motivos que podem levar o homem a fracassar na hora H e passar um vexame, uma vergonha diante de sua parceira. O cansaço, o stress, a preocupação, o nervosismo podem estar relacionados ao nosso desempenho sexual, entretanto,  na minha opinião,  a principal causa é a ansiedade. Às vezes ficamos tão preocupados com nossa performance sexual que no momento exato  somos levados ao fracasso, o que é constrangedor, vergonhoso e deprimente para o homem. Aí vem a famigerada desculpa :  isso nunca aconteceu antes!...
               Ao ler o terceiro capítulo do romance Histórias de Évora de autoria do poeta e escritor Elmar Carvalho, quando Marcos,  um dos personagens do romance teria sua iniciação sexual com uma profissional do sexo da chamada ZBM (Zona do Baixo Meretrício) da cidade de Évora lembrei-me do meu sobrinho Prodamor quando broxou pela primeira vez.
               Nas décadas de 60 e 70 meu sobrinho Prodamor morava em Teresina. Na Rua da Estrela, hoje Rua Desembargador Freitas. Esquina da Rua Area Leão, no centro da capital piauiense. Nessa época menores de idade não tinham acesso aos cabarés ou boates da famosa rua Paissandu e imediações devido rigorosa vigilância das Polícias Militar, Civil e ainda tinha a Policia Estudantil comandada pelo Centro Estudantal Piauiense entidade que representava a classe estudantil à época.
Se algum menor fosse encontrado na ZBM era preso, comunicado aos pais, e o resultado  pode-se imaginar... A sova que levariam dos pais. Sim, naquela época os pais podiam punir seus filhos. Não era constrangimento. Era educação!
               Pra não ficar só na bronha,  a negradinha (como diz o professor Alprim Amorim) procurava  soluções alternativas, ou seja aqueles lugares  e horários em que a polícia não fazia ronda.
               Existiam em Teresina, nas proximidades da estação ferroviária e arredores do 25 BC, algumas profissionais do sexo e que recebiam menores em troca de um sabonete Gessy, um tubo de  pasta Kolynos, qualquer besteira ou até mesmo dinheiro, cédulas de pouco valor como a de dois cruzeiros, uma amarelinha.
               Adentrando-se à área da estação ia-se   até o "moi-de-vara" por trás dos muros do BEC. Era nesse cenário que meu sobrinho Prodamor procurava as mulheres para se satisfazer  sexualmente. Lembro-me bem das irmãs paraibanas que tinham o apelido de "as preciosas" e de dona Raimunda conhecida como pernambucana.  Existiam outras mas não recordo os nomes.
               Nessa época poder-se-ia andar em Teresina a qualquer hora do dia ou da noite sem receios de sermos assaltados.
               A pernambucana era a preferida do meu sobrinho Prodamor. Numa bela tarde de domingo, após retornar da sessão das 3 do Cine Rex, pegou sua bicicleta Caloi e foi fazer uma visita  a dona Raimunda ( a pernambucana) de quem já era um freguês bastante conhecido. Quando já estava nos preparativos iniciais, no momento da penetração alguém bate à ´porta e com voz alta e estridente bradou:
- Dona Raimunda, a senhora já foi advertida. Continua recebendo "de menor"! Vai preso  a senhora e o menor. Dona Raimunda disse ao Prodamor: - Aguarda aí menino. Eu sei o que ele quer. Em seguida voltou para continuar o serviço. Mas já era tarde e a Inês estava morta, ou seja o pintinho do meu sobrinho estava de crista baixa e não houve jeito de levantar. A pernambucana fez de tudo! Alisou, acariciou, fez bolo frito... e nada! Nem reza, magia ou hindu tocador de flauta  seria capaz de  levantar o pingulin do Prodamor!
               Nessa época o sexo oral era uma coisa nojenta, repugnante. Mas acho que diante do susto e o medo de ser preso nem isso resolveria. E o meu sobrinho Prodamor broxou mesmo!

               Foi a última vez em que visitou a pernambucana.

domingo, 8 de maio de 2016

AMOR NUNCA É DEMAIS


AMOR NUNCA É DEMAIS

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)


Acreditava que tinha apreço pelo segundo domingo de maio, simplesmente, porque ele homenageia o mais importante de todos os indivíduos que habitam a Terra. Isso me parecia bastante ou suficiente para vê-lo como efeméride, verdadeiramente, inigualável.

Sempre gostei do dia das mães. Se existe um ser humano que mereça uma data especial e diferenciada, essa figura é a mãe. Que me desculpem os pais, os tios, os primos e tantas outras pessoas que, certamente, também possuem datas exclusivas para comemorarem. Parabéns!

Fato é que, no curso da caminhada, eu, que dispensava a pouquíssimas pessoas quase a mesma proporção de um sentimento que julgava haver chegado ao seu limite e que, por conseguinte, tanto tempo mais tivesse ou vivesse, não conseguiria produzi-lo em maior quantidade - como era e é o amor materno dedicado à minha legítima mãe e à minha venerável bisavó - percebi que não há necessidade de buscar uma superação na grandeza ou qualidade de amor em relação ao que se tem pela mãe: a vida é uma sequência de ciclos; outras pessoas surgem no nosso caminho existencial e nos fazem ver que, sem diminuir o dado àquela, os novos agregados vão recebendo, segundo méritos próprios, seu quinhão. Ou seja, estou convicto disto: quanto mais se tem a quem dedicar amor, mais ele cresce e se multiplica; se, reciprocamente, também somos amados, então há sobra desse sentimento, e, nesse caso, somos convidados a redistribuí-lo entre outros companheiros de jornada para que se reproduza cada vez mais abundantemente.

 Coincidentemente, no período em que julgava estar a quantidade de amor a mim disponibilizado pelo Criador próxima de sua exaustão, surgiram pessoas na minha vida candidatando-se a serem novos receptores dele: esposa, filhos, sogros; isso me alertou para o fato de que, talvez, ainda faltasse muita gente a quem poderia entregar, compulsoriamente, mas não por obrigação, por não ter como me opor a isso, porção semelhante ou até maior do amor que plantara antes.

            Por muito tempo pensei que todos os dias das mães seriam iguais: lindos, sonoros, plenamente felizes e repletos de bons fluidos; hoje sei que, na verdade, o que fiz foi imiscuir querer com desejar. Os sábios estavam certos quando afirmaram que querer nem sempre é poder. Ah se assim fosse! Mas ninguém consegue concatenar nem compatibilizar desejos com pensamentos e certezas. Não é incomum alguém que surge na estrada de nossas vidas lá pelas tantas do percurso, ungido de sabedoria, beleza e humildade, de repente, não poder mais, como talvez desejasse, manifestar seu agradecimento àqueles que viram nele virtudes que o fizeram merecedor de destaque nos melhores e mais felizes momentos vivenciados. A ausência física ou moral de pessoas de esse quilate, infelizmente, pode se constituir em motivo ou razão para que eventos festivos ou comemorativos especiais, no mais das vezes, resultem em grande tristeza. Fazer o quê? Resignar-se.

            Ora, se a vida assim quer que seja; se o Criador chega à conclusão de que é preciso uma mãe ser obstada ou limitada em suas vontades e anseios materiais para que seu amor e fortaleza moral unam, aconcheguem, aproximem ou reconciliem todos que a viram sofrer em seus piores momentos, que devemos fazer senão ficar felizes pela decisão divina?

            O Todo Poderoso sabe que amor nunca é demais; nós, falíveis filhos, vamos ter que provar isso, tentando amar o mais que pudermos aqueles que durante a vida nos amam mais que a si mesmos. O dia das mães é uma boa data para começarmos a dar mostra do que somos capazes.

            Feliz oito de maio do ano bissexto dois mil e dezesseis - dia das Mães – para todas vocês.  

sábado, 7 de maio de 2016

Homens de arroz


Homens de arroz

José Pedro Araújo
Romancista, contista e cronista

Durante os anos cinquenta até os setenta, grande parte da atividade econômica de Presidente Dutra girava em torno da cultura do arroz. Em anos passados, ao arroz somava-se o algodão, e em menor importância, o gado bovino. Se no período em que o algodão era muito forte na economia proliferavam as bolandeiras, ou descaroçadoras de algodão - culminou com uma usina de maior porte, cuja força motriz era a caldeira a vapor -, no período em que o arroz era mais importante, houve um grande aporte de usinas de beneficiamento deste produto na cidade. Era em torno dessas usinas que gravitavam os trabalhadores que convencionei chamar de “homens de arroz”. E passei a chamá-los assim porque estavam sempre, dos pés à cabeça, cobertos por palha de arroz, grãos do cereal presos ao cabelo e também por aquele pó fino igual poeira, extraído no ato do beneficiamento do produto. Cabelos, cílios, pestanas, braços, pernas, tudo recebia resquícios do produto que inflava a economia regional naquele tempo.

Por essa época também, os pátios das usinas ficavam repletos de caminhões de diversos municípios nordestinos. Menino curioso, eu gostava de ler as placas pregadas nos para-choques que atestavam a origem daquele transporte. Nomes como Baturité, Icó, Jaguaribe, Crato, Sobral, Juazeiro, Campina Grande, Cajazeiras, Souza, Mossoró, Caruaru, Goiana, Campo Maior, Piripiri, Piracuruca, Picos, entre tantos outros, aguçavam a minha curiosidade e faziam meu pensamento voar até eles, fazendo-me prometer que algum dia ainda iria conhecê-los. Sonhador, perguntava-me como seriam essas cidades e, vez por outra, abordava algum motorista com essa pergunta.

Era nesse período também que a Praça da Bomba se enchia dos “homens de arroz”, chamados pejorativamente de Chapeados. Eram, em geral, homens rústicos, fortes, que traziam sobre a cabeça uma espécie de chapéu muito esquisito, sem aba, com a copa acolchoada para diminuir o impacto da sacaria sobre a cabeça, uma vez que transportavam tudo sobre ela. Quase todos eles usavam a metade de uma bola de futebol costurada naquele chapéu horroroso. Pobres trabalhadores braçais, sem contrato de serviço assinado com as usinas, a descoberto de qualquer cláusula trabalhista de lhe conferisse proteção em caso de acidentes de trabalho, recebiam muito pouco para carregar os caminhões. E no fim tarde, exaustos e suados, procuravam os sórdidos botecos para aliviar a tensão do pesado dia de trabalho, e lá deixavam parte considerável da féria arrecadada. Para suas casas pobres, conduziam apenas o suficiente para mantê-las abastecidas do mínimo necessário a uma dieta alimentar para manter a família precariamente alimentada.

Esses homens incógnitos tiveram grande importância no desenvolvimento do município que se formava. Mas, duvido que tenha sido, algum deles, homenageado com o nome simples em alguma das centenas de ruas da cidade. A atividade, contudo, era tão importante naquela época que levou o nome da cidade ao conhecimento de vários municípios nordestino. Presidente Dutra passou a ter o nome de fartura, terra do arroz, em distantes rincões, lugares em que sobre as mesas de famílias desconhecidas era servido o que era produzido no Curador, transportados por caminhões possantes e carregados por homens de força, pagos com aviltante ordenado.

Lembro-me do nome de alguns desses carregadores, mas não vou decliná-los para não cometer injustiça com os demais. E eram muitos. Viviam em grupo, transitando de uma usina para a outra à medida que seus serviços eram solicitados.

A cidade mudou. Já não é mais celeiro de produção de alimentos. Pelo menos não mais como era. Hoje é um polo de comércio dos mais importantes do interior maranhense. Os chapeados também sumiram. Sumiram é a forma de dizer. Mas o município não tem hoje tantas usinas de beneficiamento de arroz que possa ofertar trabalho para tanta gente como no passado. Pois o arroz que chega à panela do nordestino, inclusive do presidutrense, é quase todo ele originário do Rio Grande do Sul ou de Tocantins. Mudou o foco do município, mudaram de atividade os nossos trabalhadores braçais que também não precisam mais transitar com seus chapéus esquisitos, quase uma rodilha, como as que usavam as mulheres para transportar legumes da roça na cabeça.


Ilustra o presente texto uma fotografia antiga, da minha época de criança, que atesta tudo o que disse acima. Nela aprecem algumas crianças que gostaria muito de saber por onde andam. Perdi o contato com elas quando tive que sair à procura de um jeito melhor de escrever a minha história. A fotografia atesta também a importância que a produção agrícola tinha para o município: a maioria dos meninos posou ao lado do caminhãozinho feito de lata de óleo lubrificante, carroceria assentada sobre molas de arco de barrica.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A química das paixões, do amor e da razão


A química das paixões, do amor e da razão

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com
     
Quando as emoções e atitudes ultrapassam as fronteiras da razão, podem revelar paixão patológica. A palavra PAIXÃO origina-se do latim, PASSUS, PASSIONIS, sentimento forte a uma pessoa, objeto, religião, filosofia, partido, esporte. PAIXÃO lembra, outrossim, termo grego PATOS, excitação descontrolada, idealismo exacerbado. Nada tem a ver com AMOR, que surge de atitudes sadias e virtudes.

Os meios de comunicação e redes sociais vêm exibindo, diariamente, cenas grotescas do absurdo emocional e moral. Um parlamentar cospe no rosto de companheiro, em plena sessão da Câmara, em Brasília. Outro desafia o adversário que o chamara de mentiroso, também na Câmara, a resolver o caso “lá fora”. Uma bela moça levanta a saia, acocora-se, em via pública, urina e defeca sobre a foto de parlamentar da oposição. Empresário assassina a namorada, no apartamento, esconde o corpo no bagageiro de luxuosa mercedes. Mais de quarenta mil homicídios em 2015, no Brasil, alguns por fúteis motivos. O noticiário se transformou em assombrosas descargas emocionais, irracionais, sangrentas.

A cultura do “olho por olho, dente por dente” é tão ancestral quanto a necessidades de comer, dominar território, multiplicar a espécie, defender o corpo e a honra. Encontra-se em passagens sangrentas da Bíblia e do Alcorão, no paganismo romano, nos ritos religiosos dos ameríndios primitivos, no hino nacional de países, inclusive do Brasil.

Nem Jesus Cristo, pregando o maior paradigma de amor de todos os tempos, conseguiu transformar consciências, dentro de sua própria Igreja, apesar dos excelentes avanços da educação cristã, especialmente nos últimos séculos.

As definições de amor se multiplicam, de acordo com princípios filosóficos  e religiosos adotados e interpretados. Parece-me que o mais acertado encontra-se no segundo mandamento divino: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”, traduzido na tradição popular: “Não faças a outrem o que não queres que te façam”. Você gostaria de receber uma cusparada na cara, embora merecendo? De tratamento ofensivo em público? Uma bala no coração por avançar em cônjuge alheio, ou furtar nas caladas da noite? Não vale mais o princípio da tolerância, acompanhada de punição à luz da legalidade?

A história humana mostra: quem condena a violência, praticando violência, aprova o exercício da violência. Escarrar, desafiar adversário para luta corporal - por essas e outras irracionalidades -  só refletem a falta de educação dos sentidos, e, principalmente, das faculdades mentais. A razão das causas e efeitos da nossas atitudes.


A educação atual exalta, demasiadamente, o vigor físico e atlético como fórmula mágica de saúde. Falta, porém, destacar a educação das faculdades mentais, especialmente a razão. Aquela que analisa causas e efeitos da nossa conduta, seja nas relações sociais, amorosas e sexuais. A irracionalidade deve ser banida das estúpidas e vergonhosas reações na família, nas assembleias, nos estádios, no trânsito, na alcova. Enfim, viver com amor no amor, na misericórdia, perdão e tolerância com a desigualdade.