sábado, 5 de março de 2016

A volta do vinil


A volta do vinil

José Pedro de Araújo
Romancista, contista e cronista

Por dever de consciência, devo esclarecer que não toco nenhum instrumento musical - o que me deixa um pouco complexado -, e muito menos tenho um ouvido bem afinado - o que faz de mim um desprezado pela arte do deus grego Apolo. Contudo, sou um apreciador como poucos da boa música. E boa música para mim significa música de qualidade mesmo, sem me apegar a um ou outro ritmo musical em especial. Dependendo do momento, ou do local, pode ser uma MPB, um Rock n’roll, uma música clássica ou um Jazz; uma boa e velha música italiana ou francesa, ou até mesmo um forró Pé-de-serra. Tem de ser forró Pé-de-serra, vou logo dizendo, porque esse forrozinho chinfrim, de gosto duvidoso, e que se esmera nas frases com duplo sentido, faço questão passar por longe dos ambientes que fazem estourar os tímpanos dos seus frequentadores com isso. Não vou entrar no mérito do funk que empolga a periferia e já se alastra pelo país como um mosquito malfazejo. Esse não me preocupa por ser tão efêmero que logo, logo, deverá sumir como aconteceu com muitos outros tão transitórios quanto ele. Ludmila, Anita e os tais MC’s não ocupam meus já tão comprometidos ouvidos com sua música de mau gosto.
                Comecei a tratar do tema para fazer uma revelação: estou muito contente com a volta do disco de vinil. Tomara que não seja uma moda passageira também. Dizem que ele, a despeito da tecnologia dada como arcaica, comporta todos os sons do acompanhamento, coisa que as novidades da hora não podem. A propósito disso, não me desfiz dos meus bolachões, mesmo tendo sido instado a jogá-los fora para abrir espaço na estante. Teimoso como sou, até ampliei a sua quantidade muitas vezes ao comprar uma porção deles que o antigo proprietário ameaçava mandar para o lixo. Essa é uma história que merece ser contada, pois fui severamente advertido por ter trazido mais de duas centenas de discos para ocupar o espaço que eu deveria desocupar.
A história se deu assim: no meu antigo local de trabalho apareceria quase diariamente um rapaz para lavar os carros dos funcionários. Isso já vinha de longe, desde quando ele ainda era um rapazinho quase imberbe. Pois esse rapaz, que também trabalhava como zelador em um prédio de apartamentos em área nobre de Teresina, certo dia me abordou para perguntar se eu não gostaria de comparar alguns vinis. Respondi que era muito seletivo nesse assunto, mas, dada a sua insistência, pedi-lhe que me trouxesse uma relação contendo o nome dos discos que ele tinha para vender. E ele demorou a me procurar novamente. Achei que houvesse desistido de me vender a sua mercadoria.
                Entretanto, certo dia,  acercou-se ele de mim para dizer que não havia conseguido elaborar a relação solicitada porque os discos eram muitos, demandaria muito tempo para concluir a tarefa. Ai acendeu uma luz no meu cérebro, aquela luzinha da desconfiança. De pronto indaguei como ele havia conseguido esses discos. E ele respondeu que havia ganhado de uma das moradoras do prédio em que ele trabalhava. Não me dei por satisfeito e quis saber mais: ganhou assim, gratuitamente? Ai foi ele quem entendeu que precisava me contar a história toda da obtenção das bolachas.
                Disse-me que a moradora do prédio havia sido abandonada pelo marido quanto ele resolveu firmar compromisso com outra pessoa. Mas que ele, bom apreciador de roupas finas, sapatos de grife e... de música, deixou no apartamento uma grande quantidade de discos, e da sua indumentária também. E que, vez por outra voltava para apanhar alguma coisa. Tempos depois, a ex-mulher arranjou um namorado, e este passou a morar com ela. Nem este acontecimento serviu para barrar as idas do ex-marido ao apartamento para apanhar alguns dos seus objetos prediletos. E isso terminou por despertar ciúmes no novo morador do apartamento, que deu um ultimato à namorada: ela tinha que acabar com as idas e vindas do ex-marido. E ela atendeu de pronto: passou a ordem ao ex-marido, determinando que ele levasse suas coisas de uma vez por todas.
                Irritado, o homem respondeu que ela desse a destinação que quisesse aos seus objetos, porque ele não voltaria mais a botar os pés ali. E ela seguiu à risca a sua palavra. Determinou que o zelador jogasse fora tudo o que ele havia deixado lá. Foi assim que os discos foram parar nas mãos do lavador de carros. E depois nas minhas. Mas a história não acaba aqui. O meu interesse pelos discos foi acentuado depois da história ouvida, e eu pedi que ele os trouxesse para que eu escolhesse alguns. Ponderei que essa seria uma tarefa fácil para ele. Afinal, alguns poucos discos não era tão pesado assim. E qual não foi a minha surpresa quando certo dia fui apanhar o carro no estacionamento da repartição para passar em casa o meu horário de almoço, e fui abordado mais uma vez por ele. Disse-me que estava com os discos ali perto. Fui lá, depois de uma rápida olhada no relógio para ver se ainda tinha um tempinho extra. Deparei-me com duas pilhas de discos com oitenta centímetros de altura cada uma, pelo menos. Olhei rapidamente as capas de alguns deles e vi que tinha muita coisa interessante. Mas o tempo não me permitiria uma avaliação mais detalhada.
                Pedi-lhe que escolhesse alguns de MPB, rock, música clássica, etc., que eu os compraria. Ele me fez outra proposta: perguntou-me quanto lhe pagaria por todos eles. Respondi que não me interessava por todos eles, porquanto tinha muito coisa fora do meu agrado. Que ele escolhesse apenas uns dez para mim. Para encurtar a história, esclareço que fechamos negócio em poucos minutos. Fiquei com todos os discos. Sai dali com o porta-malas do carro lotado, a ponto de não comportar nele nem um pedaço de cordão. Havia adquirido mais de duzentos e cinquenta discos, para desgosto da minha mulher.
                Dias depois, relatando essa história para alguns amigos, um deles, criativo e esperto, depois de indagar se já tinha feito um inventário no lote de discos, obteve de mim a resposta de que ainda não tinha arranjado tempo para isso. E ele então me propôs: que tal se fizéssemos um encontro de amigos na minha casa com o espirituoso nome de “a festa do vinil?” Topei de pronto e foi um belo encontro entre parceiros. Comprei material de limpeza e distribui entre eles para que me ajudassem na seleção e higienização dos bolachões. Foi uma noite ótima, mas, já estão a me cobrar uma nova edição do evento, uma vez que o tempo não foi suficiente para a conclusão da empreitada.

                As novas tecnologias também estão favorecendo a quem gosta de uma boa música. O YouTube, por exemplo, é um celeiro de boas coisas. Lá podemos encontrar vídeos maravilhosos com passagens memoráveis dos melhores artistas do mundo. Alimento a minha alma e elevo o meu espírito com músicas que não consigo ouvir nas emissoras de tevê ou nas rádios que, ao que parece, estabeleceram um pacto maldito com o que há de pior nas artes e na cultura.  

sexta-feira, 4 de março de 2016

ENCONTROS E REENCONTROS NO CAFUNDÓ




ENCONTROS E REENCONTROS NO CAFUNDÓ

Elmar Carvalho

            Mais uma vez estive no sítio Cafundó. Mais uma vez foi um dia muito agradável. Os seus proprietários, os amigos José Luís Carvalho do Vale e sua esposa Francilene, nos receberam de forma inexcedível, com a lhaneza de sempre. A cerveja não estava estupidamente gelada, pois isso seria simplesmente estupidez. Estava no ponto certo: um leve véu de noiva recobria as garrafas. Outros diriam que elas se assemelhavam a um níveo pescoço de águia americana. O churrasco de carneiro made in Cafundó, cevado com boa pastagem e ração, era um verdadeiro manjar dos deuses olímpicos.

            Além dos anfitriões, estavam presentes os seus familiares (sanguíneos e por afinidade) Antônio Neto Bringel, Roberta Bringel, Danilo Costa, Sônia Marques, Ana Carolina e Pedro Faust. Também compareceram José Carlos Fontenele e sua esposa Regina, a filha Carla e seu namorado Júnior; José Francisco Marques, sua esposa Rosinha e o filho Júlio, ao qual, em pronúncia espanhola, costumo chamar de Julio Iglesias. Foi uma espécie de reencontro com o Zé Carlos, pois ele foi meu colega do curso de Direito (UFPI), na década de 1980, e Fátima, minha mulher, o conhecia desde Parnaíba, quando ambos cursaram o segundo grau.

            Zé Francisco cantou belas melodias, algumas da Jovem Guarda, outras da mais seleta MPB, acompanhando-se com toda maestria ao violão. O Zé Luís, de forma exímia, fez a percussão, e o Zé Carlos exibiu os seus dotes de cantor. Amante da boa música, mas não tendo dom musical, limitei-me a aplaudir os melódicos amigos. Um deles observou que nós quatro tínhamos José como primeiro prenome, de sorte que foi um encontro de Zés, como só acontece na Paraíba.

            Zé Luís propôs uma rodada de pequenos discursos, em que inevitavelmente houve uma verdadeira “troca de confetes”, com enaltecimentos recíprocos. Afinal, todos éramos amigos, e não amigos da onça. Entretanto, lembramos e homenageamos os saudosos Gerson Marques, pai de Zé Francisco e amigo dileto de meu pai, e Júlio Carvalho do Vale, médico humanitário e caridoso na verdadeira acepção do termo, irmão de Zé Luís.

Fiz uma rápida sessão de autógrafo, ao destinar o livro “Retrato de meu pai” a vários presentes (e ausentes). Alcunhei o José Luís Carvalho do Vale, pelos seus atributos de perfeito anfitrião, estilizando a pronúncia do l, de “o último fidalgo”, cujo título nobiliárquico mereceu a concordância de todos. Zé Carlos, templário eminente da Confraria do Cafundó, sugeriu a realização, numa noite de plenilúnio, do que denominou “Cafundó Night”. A proposição mereceu acolhida unânime dos confrades.

quinta-feira, 3 de março de 2016

O QUALIRA, O BAITOLA E A RAPARIGA DE TUTÓIA


O QUALIRA, O BAITOLA E A RAPARIGA DE TUTÓIA

Antonio Gallas

Quem nunca ouviu alguém chamar outro de qualira ou de baitola? Estas duas palavras quese referem aos homossexuais, gays, veados etc... tiveram suas  origens  nos estados do Maranhão e Ceará respectivamente. Como todas as expressões, adágios ou palavras jocosas que usamos na nossa língua tiveram uma razão de ser, uma origem, estas não poderiam ser diferentes. Sobre qualira existem várias versões de como se originou, contudo com relação a baitola existe apenas uma.  Vamos então às origens:

O Wickdicionário (dicionáriolivre) na internet traz a seguinte versão: “termo comum encontrado no Maranhão; de acordo com as pessoas mais antigas do estado surgiu no carnaval, que era basicamente de rua e no qual se apresentavam vários blocos carnavalescos fazendo alegria da população com seus instrumentos musicais e marchinhas de carnaval pelas ruas da capital, São Luís. Dizem que em um desses blocos havia um rapaz afeminado que se destacava por tocar lira (instrumento de cordas dedilháveis ou tocadas com plectro, de larga difusão na antiguidade). Daí sempre que ele aparecia as pessoas gritavam: "la vem ele com a lira" e nisso foi diminuindo a frase "com a lira" até chegar a "qualira". Por ser afeminado o termo foi associado a todos os afeminados do estado. Daí em diante, no Maranhão, todos homossexuais são chamado popularmente de qualira".

Outra versão para qualiraé a que apresentao Dicionário inFormal (SP) também na internet que diz o seguinte: ”no Maranhão recém descoberto no ensino de seus rebentos, e dizem que os moçoilos que optavam pelo instrumento Lira pelo seu porte avantajado (do instrumento) no deslocamento com tal peça das cameratas e bandas os ostentavam com dificuldade, pois tinham de apoiar o peso na lateral da região glútea, acarretando com isso um "rebolado" e todos gritavam "Aí vai um homem(?) com a lira" que por acrossemia virou coalira, e depois pejorativamente e de duplo sentido falando Qualira”.
               
Existe também a versão de que dois amigos assistiam a uma retreta quando um deles apontou um dos músicos dizendo: "aquele alí é viado". "Qual? perguntou o outro. E o primeiro, identificando: "aquele co'a lira" (com a lira). E vai daí... qualira!

O certo é que a palavra tem certa relação com o instrumento musical Lira muito usado nos séculos XVII e XIX.

Já o baitola surgiu na época em que os ingleses estavam construindo as ferrovias no Brasil. Vamos à história.

Veio designado para ser o Superintendente da Rede Ferroviária do Ceará um engenheiro inglês de nome Francis Reginald Hull, o famoso Mr. Hull (pronuncia-se Mister Ráu) que deu nome a uma das principais avenidas de Fortaleza. Mr. Hull era homossexual assumido, porém muito exigente no trabalho. Por conta de sua rigidez muitos dos trabalhadores da ferrovia (peões) não gostavam dele.

Como se sabe os estrangeiros têm dificuldade em pronunciar certas palavras da nossa língua.  No inglês a letra (I) tem som de ai e a vogal (O ) tem o som de ô (como em ovo). Assim Mr. Hull tinha dificuldade de pronunciar a palavra bitola, que significa a distância entreumtrilho e outro. Desta forma sempre que ele ia pronunciar a palavra bitola pronunciava BAITOLA.

 E assim sempre que ele se aproximava de onde estavam os trabalhadores, estes, que não gostavam dele devido sua rigidez e também pelo modo como eram tratados por ele, diziam: "Lá vem o doutor baitola!“Lá vem o doutor baitola”!

A partir daí, no Ceará a palavra baitola passou a ser associada  ao homossexualismo masculino.
Agora os leitores devem estar perguntando: o que tem qualira e baitola a ver com a rapariga de Tutóia? Nada, mas tem a questão da pronuncia das vogais I e O na língua inglesa conforme foi explicado.


Maria, uma rapariga que vivia a esperar fregueses no Porto de Tutóia (isso décadas passadas na época que Tutóia servia de Porto para o Piauí) caiu nas graças de um mexicano que viajava em um navio de bandeira inglesa. O Chico, como assim era chamado,ensinou a Maria um pouco da língua Bretã inclusive os sons dos vocábulos. Clandestinamente conseguiu leva-la no porão de um navio para uma viagem ao estrangeiro. Em Nova York visitarem os principais pontos turísticos da cidade, inclusive o Empire StateBuilding-um arranha-céu de 102 andares à época considerado o maior do mundo. Maria esqueceu-se das lições do Chico e pronunciava as palavras da forma que estavam escritas como se fosse Português.  O Chico pacientemente explicou tudo a Maria novamente... E numa bela noite, ela fala pra ele: “Ô Chaico, traz aai o painaico que eu quero fazer xai-xai”!

terça-feira, 1 de março de 2016

O Brasil na boca dos estrangeiros


O Brasil na boca dos estrangeiros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Gringos adoram o Brasil, será? Há tempos, coleciono opiniões extraídas do noticiário, empresas de turismo, amigos residentes fora do Brasil ou viajam ao estrangeiro.

Começo pela piauiense Maurienne, residente em Estocolmo. Ela apareceu em matéria anterior. Mais uma vez, Maurienne volta para comentar a crônica EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA JÁ ERA: “Hoje mesmo, comentávamos, sentadas em um banquinho muito gelado da praça, entre aulas, eu e uma professora de árabe, iraniana, sobre essa falta de educação moral e cívica. E não falávamos com vantagens para o mundo de cá, não! Parece que o mundo afunda-se no mesmo barco, em todo lugar, infelizmente”.

Americano, casado com brasileira, morou em São Paulo por três anos, odeia morar no Brasil, por diversos motivos: brasileiros são rudes com vizinhos, aumentam volume de músicas, não pedem desculpas quando esbarram a gente; agressivos e oportunistas, não respeitam fila. Querem ganhar vantagem em tudo; não respeitam o meio ambiente, ao despejar lixo em toda parte; ruas sujas; recursos naturais abundantes, mas desperdiçados. Toleram a incrível corrupção. Mulheres excessivamente obcecadas com o corpo; homens e mulheres propensos a casos extraconjugais. Gostam de depreciar e ferir sentimentos alheios. Realizam serviços com certa malandragem e atraso. Ricos se acham no direito além do imaginável, arrogantes, imunes a regras. Brasileiros interrompem conversas - espécie de competição - e gritam. A polícia inexiste, especialmente para com cidadãos simples. Sistema judicial, uma piada. As pessoas vivem atemorizadas, cercadas de muros, pagam taxas elevadas para viverem em condomínios fechados. Demasiadamente tolerantes com a péssima prestação de serviços públicos, especialmente na saúde e educação, na burocracia escandalosa e lenta, na expedição de serviços e documentos. Impostos e taxas exorbitantes, perseguição aos empreendedores. Há uma mentalidade generalizada de que todo rico é desonesto. Como resultado, a corrupção impera entre autoridades e empresários. Qualidade discutível da água. Carros três vezes mais caros que os americanos. Brasileiro adora conversar futilidades, como novelas, Big Brother, Ratinho, Sílvio Santos, música medíocre.

Ao contrário da opinião do americano que odeia o Brasil, estrangeiros, em geral, gostariam de repetir certos hábitos brasileiros em seus países: alegria, bom humor, até nas horas difíceis; abraços cordiais, inclusive com desconhecidos. Na França, são raros e só ocorrem nas famílias. Cordialidade no atendimento em pontos comerciais. Brasileiros se estressam menos que outros povos. O famoso jeitinho brasileiro talvez explique o motivo por que se dão bem lá fora. Compartilhar a cervejinha e comida surpreende muitos estrangeiros, cada qual na sua. Ao contrário de outros povos, brasileiros banham-se até mais de uma vez ao dia, dão carona, festejam e brindam com facilidade, dão risadas e piadas com os deslizes das autoridades.


O riso abunda na boca dos tolos. Menos no Brasil do samba de Chico Buarque, “Mesmo com toda a fama, com toda a brahma / Com toda a cama, com toda a lama / A gente vai levando, a gente vai levando”.   

domingo, 28 de fevereiro de 2016

REI


REI

Elmar Carvalho

Ouvidos inúteis
 na noite silenciosa,
eu escuto outros sons
vindos do Universo.
Apenas meus outros sensores
captam as vibrações oriundas
de outros astros.
Apenas eu na noite absoluta.
Apenas eu sem sombra e sem nada.
Mas eu sou um caudilho hombre fuerte
e suporto esta solidão total
com o estoicismo de um
herói (que não pôde fugir).
No desejo louco
de ser transcendental
eu abri minha alma
para o cosmo e
absorvi suas forças
com a ânsia de
um asmático.
E eis aqui o super-man
sempre vencido
(com um AI! eterno na garganta).
Sem ter uma cova
onde cair morto,
eu me tornei o rei falido
desta província global.

           Pba. 12.11.77 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Educação moral e cívica já era


Educação moral e cívica já era

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Nos meus arquivos, deparo-me com velhas anotações e tarefas, cujas disciplinas não se ministram mais nas escolas, desde início da década de 1990, como Organização Social e Política Brasileira (OSPB), além da Educação Moral e Cívica (EMC). Não há algo de errado na formação de futuros cidadãos?

Atuais projetos pedagógicos seguem metas para objetivos científicos, concursos e disputas no mercado de trabalho. Menos para formação ética e cidadania. Dão mais ênfase a atividades esportivas do que à disciplina espartana, à construção do caráter.

No fundo do baú, deparei-me com programa de Educação Moral e Cívica do MEC, para ensino fundamental e médio, em pleno regime militar. O programa previa culto à pátria, seus símbolos, tradições, nacionalismo, dedicação à família e à comunidade. Exercitavam-se valores cristãos, crença em Deus, condutas éticas, os dez mandamentos, a dignidade moral que não tem preço, mas valor.  Professores ensinavam a compreensão dos direitos e deveres dos brasileiros e o conhecimento da organização sociopolítica e econômica do País (OSPB). Esses conteúdos, apesar de ministrados durante o regime militar, não visavam a objetivos ideológicos, como estigmatizam as esquerdas políticas. Todavia as escolas militares continuam a seduzir estudantes, que enfrentam maratonas para ingressar nessas instituições. A secretária de educação, Rejane Dias, iniciou abertura de escolas militares, com aplausos merecidos.

Em 1993, esses conteúdos foram eliminados no governo do presidente Itamar Franco. Questões políticas e históricas concentraram-se na disciplina de Estudos Sociais e História. Educadores de tendência esquerdista tentam descaracterizar essas duas disciplinas, além de geografia, com pinceladas de terceiro mundo chavista.

Questões cívicas e éticas foram, praticamente, riscadas dos projetos pedagógicos. Poucas escolas costumam cantar o Hino Nacional, hastear a bandeira em datas nacionais, promover encontros e prédicas espirituais. A educação mais antiga ainda acrescentava conhecimentos de latim. No meu seminário, ensinava-se, também, francês, inglês, italiano e grego. Ex-seminaristas e militares, em geral, enriquecem a galeria de honrados cidadãos.

Mais outra joia encontrada nos velhos arquivos: Programa Nacional de EMC do MEC: “Ela é parte de um todo que contribui para a formação e informação das pessoas. Neste processo, a família exerce papel fundamental, uma vez que ela é o primeiro grupo social de qualquer indivíduo. Com isso, na família construímos nossos valores morais e éticos”. Família?! O que é família para a atual geração de políticos e gestores, que fogueteiam uniformidade de gênero, casamento gay, que proíbem pais punirem baixinhos rebeldes?

Educação Moral e Cívica defendia “princípios democráticos, preservação do espírito religioso, liberdade com responsabilidade, sob inspiração de Deus”. Olhe só, Deus nos manuais do MEC, quando, hoje, o Palácio do Planalto não faz nem pelo sinal. Ainda aprova a negação do estudo religioso nas escolas. Explicam-se os rumos e desmandos morais, à deriva, em todos os meandros da administração pública. Porque, para marxistas bicudos, Deus é uma utopia.

A Educação Moral e Cívica precisa, urgentemente, retornar aos programas escolares, senão as cadeias encher-se-ão, mais e mais, de bandidos; faltará policial em cada residência; uma Roma pagã se desmoronará.

Compartilhe a ideia de rever arquivos da educação, levem-na às reuniões de pais e mestres, aos debates em salas de aula. Sem ranços ideológicos e partidários. Ainda há tempo para salvar a pátria e a família, como em países sérios.     

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

LANÇAMENTO DE LIVROS


                                                                   


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: Flores Incultas, nº 25 – 2ª edição, de Luíza Amélia de Queiroz; Poesias, nº 33, de Fenelon Castelo Branco; História do Poder Legislativo na Província do Piauí, nº 36, de Wilson de Andrade Brandão.
                       

Nelson Nery Costa


Presidente


       Data:  27 de fevereiro de 2016(Sábado)
Horário: 10hs9h 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
       Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86)  3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI    

Antônio Gonçalves Pedreira Portellada


Antônio Gonçalves Pedreira Portellada

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Foi um abastado comerciante, agropecuarista, político e militar luso-piauiense radicado em Teresina desde o começo do lugar. Provavelmente, o homem mais rico do Piauí em seu tempo.

Nasceu Antônio Gonçalves Pedreira Portellada, em 17 de setembro de 1827, no Alentejo, em Portugal, filho de Manoel José Gonçalves Portellada e dona Joana Gonçalves Pedreira, ambos de origem humilde, porém, honrados e trabalhadores.

Mal completou a maioridade, desejoso de prosperar e sentindo a falta de horizontes em seu meio, tomou uma embarcação e rumou para o Brasil, fixando residência na cidade de Caxias, na vizinha província do Maranhão. Embora sem trazer recursos financeiros, mas com enorme força de vontade, lançou-se no comércio iniciando o combate braço a braço, sem nenhum capital, inteiramente desajudado de proteções, e venceu galhardamente, o que diz eloquentemente de seu valor.

Com a fundação de Teresina, em 1852, não perdeu tempo logo vislumbrando as grandes possibilidades que se abririam na nova capital do Piauí. E a elege como residência e novo teatro de suas lutas. Estava ainda no verdor da mocidade, com apenas 25 anos de idade, em plena florescência, no anseio ininterrupto de vencer. Determinado, empreendedor, em pouco tempo alcançou posição de relevo no seio da classe comercial. Embora sem grande formação escolar, ninguém melhor do que ele tinha o descortínio dos grandes negócios, operando com inteira segurança e admirável êxito.

Sobre sua vinda para a região, não sabemos se foi trazido por algum parente. Talvez, o coronel Manoel Domingos Gonçalves, rico proprietário e contratante das primeiras obras de fundação de Teresina, tivesse com ele algum parentesco.

Em julho de 1871, Portellada recebeu o título de naturalização brasileira, juntamente com os demais portugueses: José Bento Valladares, Ricardo José Teixeira e Domingos José Salabert (O Piauhy, 5.8.1871).

Em Teresina, criou empresas e abriu lojas de importação e exportação de todos os gêneros, demonstrando tino e capacidade empresarial, a cada dia aumentando e consolidando sua fortuna. Com a prosperidade dos negócios, entrou em rota de colisão com outro potentado do lugar, o também rico comerciante José de Araújo Costa, prócer do Partido Liberal, que, incomodado com sua concorrência, contra ele ajuizou infundadas ações no foro de Teresina, algumas delas respingando na imprensa. Em 1873, o litígio versava sobre um arresto feito por Portellada nas fazendas Calumbi e Boa Esperança, do termo de Marvão, hoje Castelo do Piauí, em que Araújo Costa e seus sócios se acharam prejudicados, propondo perdas e danos. Sobre o episódio anotou Portellada em 28 de julho de 1873:

“Fui levado a juízo por um inimigo que me devota todas as suas reconhecidas e provectas amabilidades do rancor e do ódio mais entranhado, somente para ter ele o prazer insensato de perseguir-me, de obrigar-se a gastar a minha modesta fortuna, adquirida a troco de trabalho perseverante, mas que atrai as vistas cobiçosas do potentado meu inimigo, para quem é crime grave o viver independente de qualquer sujeito que presume ser o árbitro dos destinos de uma província, do seu comércio, navegação e riqueza, querendo suplantar a todos” (O Piauhy n.º 274 – Órgão do Partido Conservador, 31.7.1873).

Essa opinião também foi partilhada pelo escritor e político liberal Clodoaldo Freitas, traçando o perfil do correligionário admitiu:

“Opinioso e cheio de rancor, muitas vezes, por um capricho, sustentava questões em que despendia elevadas somas, como aconteceu em mais de uma ocasião com o negociante Portellada, seu inimigo, alegando que assim procedia para fazer ‘o marinheiro gastar dinheiro, o maior mal que lhe podia fazer’” (FREITAS, Clodoaldo. José de Araújo Costa. In: Vultos piauienses. 3ª Ed. Teresina: APL/EDUFPI, 2012. P. 137).

Com o tempo tornou-se o maior comerciante do Piauí, com matriz da loja de fazendas, armarinho, secos e molhados, estabelecida na Rua Grande, atual Álvaro Mendes, 11, em Teresina. Dono de imensa fortuna fez alguns empréstimos ao Estado do Piauí, a pedido de seus governantes. Em 1913, seu filho José de Lobão Portellada, comerciante de ferragens, miudezas e exportação, emprestou 150.000$000 ao governo Miguel Rosa para iluminação e abastecimento d’água de Teresina.

Também, foi grande latifundiário e fazendeiro, criando gado vacum nas fazendas Flores, Taboquinha, Noivos, Remanso e Piripiri, entre outras. Trouxe para Teresina, o sobrinho Antônio Gonçalves Portellada Sobrinho, que tornou-se seu sócio na empresa Portellada& Cia. Este, também criava gado vacum na fazenda Torrões.

Pertenceu à Santa Casa de Misericórdia de Teresina, sendo nomeado 2º Mordomo do Hospital por ato de 28.6.1869(O Piauhy, 30.6.1869; 28.11.1871).

Antônio Portellada ocupou o cargo de presidente da Associação Comercial do Estado. Ao falecer, era diretor da Companhia de Fiação e Tecidos Teresinenses, de que era um dos principais fundadores e acionistas, e da Companhia de Navegação a Vapores no Rio Parnaíba, nas quais prestou relevantes serviços.

Ingressou na guarda nacional, alcançando os mais diferentes postos até ser nomeado por decreto de 31 de julho de 1897, coronel comandante superior da 1ª Brigada de Artilharia, tendo o filho José de Lobão Portellada, na mesma oportunidade, sido nomeado capitão-assistente da mesma(Diário Oficial, 4.8.1897).

Militou na política, filiando-se ao Partido Conservador, em cujas fileiras permaneceu até o ocaso do Império, gozando sempre da estima e consideração de todos. Por esse tempo seu genro Raimundo de Arêa Leão, foi eleito vice-presidente da província, tendo assumido o cargo algumas vezes. Com a proclamação da República continuou na política, filiando-se à agremiação política liderada pelo Barão de Uruçuí, que tinha nele um decidido e eficaz cooperador. Porém, com a confusão dos partidos, na situação Anísio de Abreu, retirou-se da vida pública, reaparecendo na arena política para prestigiar a “União Popular”, de que foi um dos chefes o seu filho, o tenente-coronel José Lobão Pedreira Portellada(O Apóstolo, 18.12.1910).

Foi eleito intendente municipal de Teresina nas eleições de 31 de outubro de 1896, para um mandato de quatro anos(7.1.1897 – 7.1.1901). Nessa gestão, para combater a erosão no cais do rio Parnaíba, contratou com a firma de José Mayer, a construção de rampas e taludes da Rua Bela, hoje Teodoro Pacheco, e do Pequizeiro, hoje Paissandu(GONÇALVES, Wilson C. Dicionário enciclopédico piauiense ilustrado. Teresina: 2003).

Foi casado com dona Antônia Joaquina de Lobão Portellada, católica fervorosa, benemérita da Igreja, e de cujo consórcio deixou três filhos: 1. José Lobão Pedreira Portellada, abastado comerciante, deputado estadual(1912 – 1916); 2. Marcolina de Lobão Portellada Santos, falecida antes do genitor, casada com o capitão Joaquim Antônio dos Santos, ricos negociantes em Parnaíba; e, 3. Joana Portellada de Arêa Leão, casada com o médico Raimundo de Arêa Leão, foi vice-presidente da província.

O citado sobrinho por ele trazido do reino em 1867 foi Antônio Gonçalves Portellada Sobrinho, comerciante, nascido em 1854, em Portugal, filho de Manoel José Gonçalves Portellada e dona Francisca Alves, ambos falecidos no Reino de Portugal, Província de Trás-os-Montes, lugar Covelans do Rio. Este deixou diversos filhos havidos com dona Alexandrina de Carvalho e Silva, natural de Teresina, filha de Amador Vieira de Siquera e Filomena Vieira Torres, então residentes em Teresina.
Faleceu o coronel Antônio Gonçalves Pedreira Portellada, na cidade de Teresina, em 12 de dezembro de 1910, a uma hora da manhã, vítima de congestão cerebral, com 83 anos de idade, sendo o corpo sepultado no dia seguinte, no cemitério São José. Recebeu o sacramento da extrema-unção pelo Bispo D. Joaquim de Almeida, que, no dia seguinte, celebrou a missa de corpo presente, no salão de honra de sua casa residencial. O sepultamento foi dos mais concorridos, comparecendo a melhor sociedade e muitas pessoas do povo.

O coronel Antônio Portellada, foi um típico empresário do final do Império e começo da República, fortalecendo o comércio da nova capital do Piauí, tornando, assim, realidade o sonho de Saraiva, de tomar de Caxias a primazia comercial no centro-norte do Piauí e médio-sertão maranhense. Soube tirar proveito dos incentivos e otimismo da época, crescendo com a nova cidade e ajudando-a a ser o grande centro comercial de hoje. A ele muito demos e muito devemos.    

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A TÍTULO DE POSFÁCIO


25 de fevereiro   Diário Incontínuo

A TÍTULO DE POSFÁCIO

Elmar Carvalho

Em janeiro de 2010 a minha filha Elmara Cristina criou o Blog do poeta Elmar Carvalho (poetaelmar.blogspot.com.br), cuja postagem mais antiga data do dia 22.01.2010. No dia 17 desse mês e ano, fiz o primeiro registro deste Diário, publicado no blog no dia 23. No início, as notas eram mais curtas e não tinham título; traziam apenas a data em que foram escritas. Com a publicação na internet (no meu e em outros sítios informáticos), senti a necessidade de lhes intitular.

No entusiasmo dos primeiros registros, fazia duas, três ou mais matérias por semana, para que a obra mais se ajustasse à sua denominação. Posteriormente, optei por fazer apenas uma (no máximo duas). Passei a lhes dar um caráter mais de crônica, e, às vezes, de artigo ou de pequeno ensaio. Na medida do possível, tornei mais denso e aprofundado o conteúdo dessas anotações diarísticas. Seja como for, sem este Diário e sem o blog, com a consequente possibilidade de publicação imediata, eu não conseguiria a motivação e o ensejo de escrever as centenas de textos que escrevi.

Ainda há pouco, nesta manhã agradável e quase chuvosa, em que rolinhas “fogo-apagou” e bem-te-vis cantavam alegremente, contemplei as árvores do quintal vizinho, a farfalharem ao vento, vestidas de intenso verde, entre as quais se destacava uma gigantesca cajazeira, que durante boa parte do período de estiagem se apresenta desnuda, como se tivesse morrido. Sem esta crônica diarística, é evidente que esses ínfimos fragmentos temporais e de vida ficariam para sempre esquecidos. A muitos acontecimentos efêmeros tentei dar a possível e talvez vã perenidade literária.

Como o Diário já completou mais de seis anos (17.01.2010 a 25.02.2016) pude fazer o registro de acontecimentos importantes da cultura e da vida literária piauienses. Em suas páginas, homenageei os noventa anos da vida de meu pai. Narrei em sentidas crônicas a morte de minha mãe e de pessoas amigas, bem como a das cachorrinhas Belinha e Anita.  Portanto, como Humberto de Campos, sepultei os meus mortos nestas páginas elegíacas e evocativas do panteão de minha saudade. Para mim eles ainda estão vivos, e fizeram apenas uma viagem para outra dimensão, onde algum dia os reencontrarei.

Ao longo desses seis anos feri os mais variados assuntos. Às vezes rememorei uma conversa instigante; comentei alguma leitura agradável ou enriquecedora; relembrei, aproveitando algum ensejo ou “gancho”, algum fato importante da história piauiense e também de sua literatura; discorri sobre acontecimentos da atualidade e aproveitei para contar fatos que reputei interessantes, dentre os que observei, os de que participei ou mesmo acaso os de que tenha sido protagonista.

Aqui estão insertos os “Retratos” de minha mãe e de meu pai, que publiquei em opúsculos, na época em que foram elaborados. Muitas crônicas foram inseridas em Confissões de um juiz e Amar Amarante. Aliás, um leitor atento, que acompanhou a publicação desses textos na internet, me observou, com muita argúcia e pertinência, que eles, coligidos por temas, dariam vários pequenos livros.

Procurei, com todo zelo e esforço de que fui capaz, dar aos registros deste Diário uma dignidade literária, em que tentei verter o conteúdo em boa taça. E lutei para que a sua forma pudesse ter graça e beleza. E emoção, se fosse o caso. Em suma: aqui estão fixadas nesgas de minha alma, de meu espírito e de meus sentimentos.   

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

HOMENAGEM NA BIBLIOTECA MARION SARAIVA


19 de fevereiro Diário Incontínuo

HOMENAGEM NA BIBLIOTECA MARION SARAIVA

Elmar Carvalho

Anteontem recebi e-mail do amigo Moacir Ximenes, em que me noticiava que a Biblioteca Pública Marion Saraiva (de Campo Maior) me havia prestado homenagem ao colocar a pintura da capa de um de meus livros numa de suas paredes internas. Agradeci-lhe a boa nova, e pedi-lhe agradecesse ao responsável pela honraria. Em outro bilhete eletrônico, ele acrescentou que eu estava ao lado de Cunha Neto, Cláudio Pacheco e do grande lírico e épico Luís Vaz de Camões. Estou, portanto, em muito boa companhia.

“Não há profeta sem honra, a não ser em sua própria terra, e em sua própria casa”, disse Jesus (Mateus, 13:57). Felizmente, ante a informação do caro amigo e historiador Moacir Ximenes, o mesmo não se aplica aos poetas. Aliás, para minha satisfação, já recebi outras homenagens em minha terra natal, sobretudo no âmbito literário.


No Complexo Cultural Valdir Fortes, à margem do Açude Grande, encontra-se afixada uma linda placa de acrílico com os catorze versos iniciais de meu poema Elegia a Campo Maior. No salão nobre da Prefeitura Municipal foi feita a aposição de meu poema Fazenda Tombador ao lado de belíssima pintura dessa histórica casa-grande, há muitos anos literalmente tombada. Portanto, ao contrário dos profetas, os vates podem ser honrados em sua própria terra, e em sua própria casa.

ANIVERSÁRIO DE UM INTELECTUAL


Virgílio Queiroz

GRANDE FORÇA, FORTE VOZ

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Hoje, 25 de fevereiro é o dia do nascimento
De um ilustre amarantino de muito talento
Que gosta de promover um bom movimento
Para levar nossa Amarante ao crescimento

Trata-se do notável prof. Virgílio Queiroz
Visto com sua grande força e forte voz
Reconhecido nas suas ações, muito veloz
Em muitos casos, para servir todos nós

Como diz populares desta redondeza
Virgílio é um homem de muita grandeza
Esbanja para o povo, uma grande nobreza
E ajuda muito aqueles que vivem na pobreza

Aclamado pelo povo como boa criatura
Em Amarante, tornou uma importante figura
Por se tratar de um ser cortês e sem “frescura”
Prestigia qualquer modalidade de cultura

Realmente, Virgílio é uma excelente pessoa
Contribui muito para Amarante ficar “numa boa”
Corajoso, não se esmorece nem com a macacoa
E nem com certas pessoas que falam a toa

Sabemos que este amarantino é fenomenal
Por ser um homem determinado e intelectual
Dizem que ele tem um forte guia espiritual
Para fortalecer seu vasto conhecimento cultural

Virgílio é um baluarte e de muita credibilidade
Consegue coisas boas para nossa amada cidade
Que muito nos orgulha e nos trás felicidade
Como exemplo, uma conceituada universidade

Virgílio Queiroz é educador de grande porte
Muito conhecido neste Brasil de sul a norte
Em Amarante, tornou-se um homem muito forte
Com certeza, ele é portador de um grande dote
Além de ser um excelente e bravo comunicador
Virgílio Queiroz é também um bom compositor
Nuca teve pretensão para ser um produtor
Acredite, o seu material musical é de valor

Há muitos fatos importantes para se divulgar
Das realizações deste amarantino espetacular
Escritor, poeta, jornalista, advogado, vive a se dedicar
Na verdade, com Virgílio, Amarante tem se orgulhar

Faz jus registramos com prazer, vários aniversários
De muitos daqui, considerados extraordinários
Virgílio é formidável, tem seis cursos universitários
E sempre participa de importantes seminários

É muita prazerosa essa narrativa de glória
Na realidade, o Professor Virgílio é vitória
Fica bem guardado em nossa memória
E nos arquivos de nossa bela e rica história

O amigo e primo Virgílio é mesmo demais
Manchete e editor de livros, revistas e jornais
Rogo a DEUS que o ilumine cada vez mais
E que ele fortaleça sempre seus valiosos ideais

 Amigo Virgílio, parabéns hoje, felicidades sempre.   

POEMA SOBRE A LOUCURA


POEMA  SOBRE  A  LOUCURA

Alcenor Candeira Filho

pouco tenho ficado louco
às vezes um pouco louco de raiva
outras um pouco louco de amor
nada malucamente anormal.
embora ao longo de vida já quase longa
minha luz tenha sido a da lucidez dos lúcidos
temo a loucura não fictícia
a loucura verdadeiramente louca dos  loucos
a loucura tempestade sem previsão de bonança
a loucura de muito tempo de todo tempo
a loucura que só passa por pouco tempo
quando voz de acalanto vai ao ouvido do louco
em  cama  estendido em decúbito dorsal
- "por ti com muita sede bebo lágrimas de amor
diariamente amor maior de minha vida toda" -
e ele então  mergulha em sombrio sono noturno
todo entupido  de remédio para que adormeça
entre quatro  paredes com lâmpadas apagadas por dentro
e janelas e portas trancadas por fora.


                                     2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Lançamento da revista Revestrés


A revista Revestrés chega à edição 23 com grandes temas em discussão: o ativismo feminista nas redes sociais é tema da reportagem que ouviu mulheres diferentes, de diversos lugares do Brasil, unidas pela condição de ser mulher.
  

Na entrevista, o médico Antônio de Noronha, 70 anos, fala com coragem sobre eutanásia, uso de drogas, sexualidade, música e um tema que merece discussão: o suicídio. “Essa história de que não se pode falar sobre suicídio é um mito que existe desde Goethe e ‘Os sofrimentos do jovem Werther”” (livro publicado em 1774, ao qual é atribuído uma onda de suicídios na Europa. O efeito nunca ficou comprovado).
  

A Revestrés foi até Brasília saber a história do piauiense que é considerado um patrimônio da UnB, bebeu cerveja produzida no Piauí, entrevistou Paulo Lins, escritor do livro “Cidade de Deus”, e exibe o ensaio “Existência”, de Maurício Pokemon.
  

Para celebrar a chegada dessa nova edição, a festa de lançamento acontece nesta quarta, 24, no Teatro Torquato Neto, a partir das 19h. Tem coquetel de lançamento e atração musical com a cantora Fátima Lima. O Teatro Torquato Neto fica no espaço do Clube dos Diários, centro de Teresina.

Revista Revestrés
Centro Empresarial Dom João
Rua Veterinário Bugyja Brito, 1229
Sala 207 - Horto / CEP: 64.052-410
Redação: (86) 3011-2420
Luana Sena: (86) 8845-6191
Victória Holanda: (86) 8809-3983

Adriano Leite: (86) 8845-6188

COISAS SÓ DE OEIRAS


COISAS SÓ DE OEIRAS     

(*) Ferrer Freitas

               No prefácio do “Noturno de Oeiras”, de autoria do poeta campomaiorense  Elmar Carvalho,  impresso em opúsculo de 1994, outro bardo, só que oeirense, Gutemberg Rocha,  diz logo  no primeiro parágrafo que “...existe um grande mistério em Oeiras (...) alguma coisa de sobrenatural,  que foge à razão, que fala diretamente à emoção, à sensibilidade...”   Disse tudo em poucas palavras. Queiram ou não (agora digo eu), a velha urbe de Possidônio Queiroz difere em parte de outras tantas por coisas que só lá se vê ou acontecem.  Evidentemente que aqui talvez  vá um pouco de  exagero de minha parte.  Para dirimir qualquer dúvida,  consultei um grande oeirense, Adelino de Sá Rocha, ex-prefeito, que tem uma memória prodigiosa.

                  Pois Bem. Os “Beneditos”, em sua maioria, são tratados por “B.”, acrescido de sobrenome, a exemplo  de  B. Diogo,  B. Reis,  B. Barros, B. Moreira,  B. Filho, todos,  lamentavelmente, já falecidos.  Dois outros, para  alegria dos muitos amigos  que têm, entre os quais me incluo,   merecem ser citados, o caríssimo B. Sá, ex-prefeito, companheiro de bons tempos no Rio de Janeiro nos anos setenta, e o famoso B.  Maroca.   Outra coisa que causa espécie é o fato de  “alguém ser sempre de alguém”,  pai  ou  mãe, a exemplo  de José de Helena, José de Tibúrcio, Pedro de Ernesto,  Geraldo de Leomisa,  Luís de Burane,  Antônio de Gerson, Bastim (Sebastião) de Gerson,  Expedito de Manoel Leite, Ângelo de Natu  (Nataniel), Ângelo de Maria Raimunda, Raimundo de Zefinha, também falecidos.  Apraz-me  citar outros, todos vivos, ainda bem: Antônio de Selemérico, Luís de Ana, Chico de Maria de Cota (Maria, sua mãe, já era de Cota), Antônio de Aderson e por aí vai.

                 No centro histórico, algumas  ruas,  estreitas é bom frisar, além de chamadas por becos, são mais conhecidas pelo nome do morador de uma das esquinas  ou de algo  que as marquem, a exemplo de   Beco de Antônio Gentil,  Beco de  Francisquinho Barbosa, Beco de Ovídia, Beco de Maria Camarço, Beco de Hipólito, Beco do Sérgio, Beco do Cemitério, Beco do Sobrado,  Beco do Mocha,   Beco do Quartel e por aí vai. Este último, que tem seu inicio na Praça das Vitórias,  entre a Pousada do Cônego e a agência dos Correios,  tem esse nome, Beco do Quartel, pelo fato  do  prédio   anterior ao  que hoje  sedia a  ECT  ter sido o quartel da Brigada.  Esta via termina no Passo de Lindoca, esquina da rua Coronel  Luiz Rêgo, amplamente conhecida por rua do Fogo. Nessa direção contrária já é mais conhecido por Beco de dona Iazinha Ferraz, cuja casa é geminada ao Passo.

                Neste último aspecto a velha terra das margens do Mocha tem muito a ver com cidades históricas, sobretudo as de Minas.  Isso de beco lembra muito Diamantina  que inspirou Milton Nascimento e Fernando Brant, em 1969, a comporem  uma canção belíssima  que leva o nome de “Beco do Mota”, cujos três últimos versos da letra dizem: “Diamantina é o Beco do Mota/Minas  é o Beco do Mota/Brasil  é o Beco do Mota/Viva meu país!”. Talvez  seja ainda oportuno  transcrever os versos finais do Noturno, o que faço com prazer: “Oeiras navega na noite/de um tempo que não termina./De um tempo fugitivo de ampulhetas e relógios."


                     (*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

CAMINHEIRO SOLITÁRIO


CAMINHEIRO SOLITÁRIO

Jacob Fortes

Ansioso por transpor um monótono chapadão das gerais, norte de Paracatu, desses retratados pelo contista Afonso Arinos, tomei o alvitre, num minuto indeciso, de parar o veículo à porta de uma desfigurada baiuca, à margem da estrada, para obter do vendeiro informações que pudessem abonar a minha bússola de navegação. O chapadão, conhecido pelo codinome de “Rasgo do Corisco”, parecia expandir-se cada vez que eu imprimia ritmo célere à viagem.

Sem desligar o motor, mal pude entender-me com o quitandeiro, alcunhado de “Gajão”. É que nossa conversa, de súbito, encheu-se de embaraços: um andarilho, esfrangalhado, cara enfarruscada, ali em parada de repouso, entendeu de golfar ao vento, sonoramente, asneiras e sandices. Sua impertinência, digna de impugnação, inspirava indulto. Não valia à pena contender com um homem cujo palavreado desconexo e ininteligível, testificava o escangalho do seu estado mental. Outra atenuante é que esses andejos, sem raízes nos pés, tudo que possuem, além da vida e do prazer de pisar o chão das estradas, é um matolão, às costas, locupleto de burundungas, além, é claro, do hábito de falar sozinho consigo mesmo durante as suas marchas; tão solitárias quanto pachorrentas.

Vai caminheiro! Vai cumprir, resignadamente, o teu destino fatídico, a tua desventurada vida de andarilho: deambular, continuamente, como a um penitente, pelos caminhos; nasceste para a liberdade! À margem das estradas (e da vida), Deus há de apiedar-se de ti.

E quando o meu carro, por motivo de viagem, for instado a polvilhar-te de poeira ou de fuligem te peço desculpas por essa circunstância. Nesse momento a tua figura (esquálida, desamparada, estropiada e envolta em trapos repulsivos) irá engrandecer as bênçãos com que tenho sido distinguido, particularidade que me impõem glorificar a Deus por tudo, tempo em que LHO perguntarei, humildado, se é verdade, ou delírio, tanto lixo social sobre a terra perante os olhos insensíveis da opulência, da ganância, do desperdício.     

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Seleta Piauiense - R. Petit - Raimundo de Araújo Chagas


SAUDADE

R. Petit - Raimundo de Araújo Chagas (1894 – 1969)

Eu vivo como o mar, bebendo os rios,
rios da Dor que crescem, com certeza,
em meu ser, quando o inverno da Tristeza
chega e vence ao cair dos tempos frios.

Eu vivo como os pássaros sombrios,
dos quais a tempestade em luta acesa
roubou dos ninhos frágeis e macios,
isolando-os da própria natureza.

Eu vivo como as águas das cascatas
que a força eterna de um tremendo fado
desfia em prantos no painel das matas.

Eu vivo sem viver, esta é a verdade,
pois não pode viver um torturado
que se alimenta apenas da saudade!...    

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

OS POETAS EDSON MORAIS E JAMERSON LEMOS

Uma das publicações da editora de Edson Guedes de Moraes
Theddy Ribeiro, Garrincha e Jamerson Lemos


18 de fevereiro   Diário Incontínuo

OS POETAS EDSON MORAIS E JAMERSON LEMOS

Elmar Carvalho

Recentemente recebi bilhete eletrônico do poeta Edson Guedes de Morais me solicitando uns sonetos, com vista a uma antologia que ele está organizando. Embora não seja um sonetista, dei uma vasculhada em meu livro Rosa dos Ventos Gerais à procura de alguma composição que pudesse ser enquadrada como tal. Rimados, metrificados e divididos em dois quartetos e dois tercetos, sabia não ter nenhum.

Contudo, para minha surpresa, com uma ou duas pequenas adaptações, encontrei, sem necessidade de folhear o livro todo, sete textos que podem ser considerados sonetos modernos. São eles: Enigma, Egocentrismo, Trabalho de cestaria e renda, O poeta e o inseto, Pintura, Soneto da solidão e Amor. Se o critério do antologista for acolher apenas sonetos de fatura clássica, nenhum dos meus entrará na seleta. Entretanto, se esta for aberta a composições modernas e à matriz inglesa, alguns dos que lhe remeti poderão, talvez, integrá-la, para honra e gáudio meu.

Edson Guedes de Morais é uma espécie de Mecenas. Através de sua gráfica e editora vem publicando poetas de todos os rincões do Brasil. Eu próprio, não sei como, fui “descoberto” por ele, e tive a satisfação de ser por ele editado em três ocasiões, por meio de belos livros artesanais, em papel de ótima qualidade. É um contista e poeta reconhecidamente de alto valor. A antologia de sonetos que está organizando abarcará mil autores. Talvez por causa de sua desvanecedora solicitação, sonhei, na madrugada de ontem, com o saudoso poeta Jamerson Lemos, de quem tive a satisfação de ser amigo.

Jamerson é um importante poeta piauiense. Nasceu em Recife, em 22.12.1945, mas radicou-se no Piauí, onde casou, teve filhos e publicou livros e poemas. Faleceu em Teresina, em 05.08.2008. De 1986 a meados da década seguinte, freqüentamos com assiduidade a União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, da qual fui presidente. Já tive oportunidade de escrever sobre seus versos e sua vida, sobre sua vida e sua morte. No meu sonho eu descobria que ele não havia morrido; que a notícia de seu falecimento fora um equívoco ou um tipo de “pegadinha” de mau-gosto. Quando acordei, ainda no torpor do sono, pensei que o sonho fosse realidade.

Ele era um poeta em tempo real, irreal e integral, pois era poeta em qualquer tempo, destempo e contratempo, e, creio, que até mesmo dormindo ele sonhava com poemas. Tinha incrível facilidade para fazer versos. Em seu lúdico lirismo, malabarista e prestidigitador, brincava com as palavras, seja construindo metáforas e trocadilhos, seja urdindo rimas e ritmos. Embora fosse um artesão rigoroso na forma, era também um mestre no conteúdo de pendor notadamente lírico, em que a musicalidade se entranhava nos temas, sobretudo quando ele mesmo recitava suas composições poéticas.

Este ano será o oitavo após sua morte. A lembrança desse grande vate merece ser reavivada e amplificada. Talvez sua família, sua esposa e seus filhos pudessem envidar esforços para que fosse publicada sua obra poética completa. Em esta não sendo possível, talvez pudesse ser editada uma antologia contemplando alguns de seus textos mais antigos, todos ou quase todos os poemas de Sábado Árido e os que ele deixou inéditos.


Essa obra será de capital importância para que o notável bardo Jamerson Moreira Lemos continue vivo na memória poética piauiense e brasileira, como ele bem merece, pela alta qualidade de seus versos.