segunda-feira, 21 de março de 2016

Lançamento de Aquarelas de um Tempo


Antonio Reinaldo Soares Filho convida os interessados em literatura para o lançamento de seu livro Aquarelas de um Tempo, que acontecerá no dia 23 de março próximo (quarta feira), às 19 horas, na livraria ENTRELIVROS, localizada na avenida Dom Severino, 1045, Bairro de Fátima.

O autor é geólogo e já chefiou o Serviço Geológico no Estado do Piauí - CPRM-PI. Publicou os livros Oeiras Municipal e Oeiras - Geografia Urbana, além de outras obras de caráter técnico. 

domingo, 20 de março de 2016

Seleta Piauiense - João Ferry


TERESINA

João Ferry (1895 - 1962)

Do meu bom Piauí, a linda Teresina,
Tem foros de princesa e tem condões de fada,
Cidade nova e moça em forma de menina,
Botão que desabrocha aos beijos da alvorada.

De tanto admirá-la a minha sorte ou sina,
De zelos possuída, ardente e apaixonada,
Supõe que o seu conjunto é uma mulher divina
E em vez de uma cidade, é minha namorada.

E disto convencidos, os sonhos cor-de-rosa,
Dão força ao pensamento e aos loucos devaneios,
Que fazem da minh’alma a imagem mais ditosa.

E lembra o Parnaíba, o rio de águas mansas,
Que na cidade verde, em frêmitos e anseios,
Sofralda a fímbria em flor das minhas esperanças.   

sexta-feira, 18 de março de 2016

Indignação: estupro no Palácio Alvorada


Indignação: estupro no Palácio Alvorada

José Maria Vasconcelos

          Os brasileiros foram dormir indignados com a notícia veiculada, à exaustão, nos meios de comunicação e redes sociais. O assaltante, ex-morador da Casa,  fugitivo da Justiça, entrara no Palácio, rendera a frágil e desmiolada primeira dama e a todos, com palavrões de embriagado, ainda cometera estupro contra a digníssima moralidade.

A população reagiu nas ruas e praças do Brasil, com panelaço e bordões. Até o juiz federal mais admirado dos brasileiros, recuado pelo assaltante, sentiu-se reduzida sua autoridade: soltou as gravações com diálogos sigilosos e palavrões do invasor com a primeira dama e demais amigos. A nação, assiste a tudo, de dignidade ultrajada. Refiro-me aos brasileiros de bem, que pagam altos impostos e custo de vida como resgates do assalto aos cofres públicos.  Patriotas que não aceitam contracheques e benesses da empulhação e submissão ideológica.

Há duas décadas, bela jovem e bem-sucedida empresária de 33 anos, casada, sem filhos, tentou, com apoio do marido, engravidar. Ela bateu à porta de especialista de referência nacional, médico das estrelas. Durante os procedimentos no consultório, a empresária, sob efeito de sedativos, acordou com o peso do clínico sobre seu corpo, estuprando-a. “O meu mundo caiu, adquiri várias infeções, perdi vários órgãos e a esperança de ser mãe, entrei em depressão, quase me suicidava”. A empresária montou uma rede de vítimas na caçada ao estrupador de suas pacientes, com apoio da Justiça, até encontrá-lo, fugitivo, e prendê-lo no Paraguai, depois de vinte anos de caçada. A brava senhora, aos 54 anos,  encarou-o no aeroporto. Uma saga quixotesca publicada no livro BEM-VINDO AO INFERNO. A HISTÓRIA DE VANA LOPES. A VÍTIMA QUE CAÇOU O MÉDICO ESTUPRADOR, condenado a 278 anos de cadeia. O livro traz o prefácio do juiz federal Sérgio Moro, o modesto e jovem Davi que enfrenta os gigantes assaltantes da Lava Jato. O Brasil torce pelo sucesso do magistrado e reza por mais dignidade da Suprema Corte. Ele mesmo, assaltante, profetizara, em 1988: “Quando um pobre é pego roubando, vai preso; se é rico, vira ministro”.

Tem razão o profeta de araque: os pobres foram feitos para a política, mas para sustentar o poder. Sustentar-se e contentar-se com migalhas da fome, porque a política, no Brasil, virou ciência da corrupção, começando pela Casa mais nobre da nação e das Conchas Acústicas.


Espero, como destemida empresária Vana, que dias melhores ainda virão, até porque invoco filósofo e teólogo Santo Agostinho, que viveu em período de gigantesca corrupção do Império Romano: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.  

quinta-feira, 17 de março de 2016

Non fare niente


Non fare niente

                           Cunha  e Silva Filho

      Vou colocar meu pensamento em suspensão. Apagar  por momentos  o que me possa chatear, o que me possa ser  aborrecimento, me largar à toa,  procurar o nada, o não refletido,  o não mentado.
       Podem até   darem  – não  me aborrecerei com vocês -  o nome que quiserem:  alienação,  não me importismo,  sei lá, não tou nem aí.  Desta forma,  não abro o jornal,  nem   vou pro computador. Chega de notícias, de más notícias,  de insoluções,  de lengalenga,  de empurra pela barriga. De vai não vai. De leis e contra-leis, brechas  e  chicanas, de recursos e não recursos. De Supremos que acolhem e não acolhem. Que voltam atrás. Descaminhos, louvaminhas,   xingamentos,  amigos partidos.
      Tanto faz. Tudo se quer mudar para ficar no mesmo, na sarjeta de sempre, na impunidade, na violência galopante do menor  na prática do crime  abominável e impune.   Pode ser. Pode não ser. Fastio de tudo. Até tenho vontade de dizer, ainda que doa a muitas sensibilidades que não gostaria de ferir,  de todos, mas todos mesmo: o mundo,  o meu país,  a minha vida, a vida alheia, as alteridades. Ainda sob suspensão do pensamento,  das ideias, quero embarcar em outra canoa, diferente,  absurdamente diferente, de uma canoa furada que ninguém deseja para si.
     Quero, porém, a luminosidade da verdade,  quero o sol,  a lua,  as estrelas,   o espaço sideral  sem Apolos da NASA,  sem nada. Quero  o céu limpo,  límpido, cor de neve,  com uma leve e breve  brisa   farfalhando   as folhas  de um  pé de  manga bem em frente de minha casa, digo melhor,  apartamento.  Quero a história, a geografia,  a filosofia,  os estudos  sociais, as religiões, as diversidades culturais, linguísticas. Não quero, porém, a fome, a ditadura, os maus políticos, as guerras civis. Do mundo quero apenas a paz.
     Quero o silêncio dos escritores fazendo suas obras,  dos leitores  sem pressa de que fala um  filósofo  italiano,   Nuccio   Ordine. Quero a solidão,  não dos justos, porque para mim seria muita pretensão, mas a solidão dos nostálgicos,  dos que não têm pejo de afirmar que amam o passado em todas as suas formas desde que não deixem de aí  incluir as artes, as ciências  desenvolvidas  pro bem da humanidade,  a que cura os enfermos,  crianças,  jovens, adultos  e idosos. Quero aquele momento do velho personagem de Guimarães Rosa (1908-1967), que vai  para a “terceira margem do rio,” quiçá,   único caminho que poderia  encontrar  para sumir  das contingências da existência.
       Quero a paz interior,  um dia só para mim como, numa  velha crônica,  já afirmei em momentos  de escapismo  semelhante a estes. E aqui não poderei   deixar de  omitir  a Pasárgada bandeiriana, a solidão intelectual  de Álvaro Lins (1912-1970),  a beleza eterna de Keats,   o entendimento  profundo da alma humana, de Shakespeare e, contraditoriamente,  o “pessimismo irônico" de Machado de Assis (1939-1908) as aporias de Fernando Pessoa (1888-1935),  a anoranza sentimental  da poesia galega, a vontade  de partir  de  Cesário Verde (1855-1886), a picardia malandra  dos contos de João Antônio (1937-1996),  o amor  das prostituas de Jorge Amado (1912-2001). Quero tudo isso e muito mais contanto que seja  para o bem de todos.
     Quero  os poetas  de todas as latitudes, principalmente  do século  XIX, sem  vanguardismos,  sem  obscuridades,  no eu falado   e confessado  sem medo de ser feliz, pueril,  lacrimoso, bombástico, naîve, sem  vergonha de ser, por momentos,   passadista.Quero a arte sem tempo e sem  lugar definido. A arte em si,  a Arte, arte.
     Ainda com o pensamento em suspensão,   quero apenas  viver a vida alegre,  em liberdade plena,  molhado com os primeiros  pingos de uma chuva  amiga e acolhedora, sem  provocações de enchentes nem  destruições de rios e de cidades do meu  Brasil. Quero mais a ficção do que os fatos, toscos  fatos  regidos  pela  enunciações  objetivas  e burocráticas como a atmosfera dos textos kafkianos, recriada  superiormente pelo autor de O processo. Quero a clarté dos franceses, não o romance  à Alain  Robbe-Grillet. Quero o romance de personagens de carne e osso(Agripino Grieco (1888-1973),com personagens que  nos transmitam  a “vida” da vida. Quero as humanidade  dos livros e dos autores, já que em muitos essa combinação  do “possível” não se coaduna com  o autor  considerado  em sua  identidade de registro em cartório.
    Antônio Candido, certa feita,  ou melhor, em certo texto não  teórico, deixou  escapar  uma afirmação  sobre   conceitos  teóricos e realidade literária, numa  análise de um escritor brasileiro que lida  com as camadas pobres da  sociedade, e me lembro de que  tocava na questão de dar nomes aos  bois, ao chamar de “autor’ o escritor, sem as novidades terminológicas   que  embaralham  tantos  os conceitos  que passamos  a  assimilá-los  apenas a partir  das incansáveis  abstrações  conceituais  complexas. 
   O fare niente desta crônica  tem  esse objetivo meio  atrapalhado,  meio gauche,   confuso, meio salada, meio caótico,  meio  contraditório, meio tudo, num caldeirão de  visões e de ideias,  cuja finalidade é  de, por momentos,  me livrar da realidade  madrasta que, no país,  tanto nos pesa  nos ombros já cansados pelos anos e pela   experiência acumulada  dos desastres e das misérias humanas, cujo foco,  deixo claro,  tem seu epicentro  no  Brasil de agora.  Não deixei ainda de colocar  entre colchetes os meus pensamentos e divagações. Tenham calma comigo, que chego lá.  
    Conversando com um médico  dos bons,  ele me  confesso  essas verdades simples e sem  subterfúgios: O Brasil é um país-continente,  com muita riqueza,  onde a felicidade poderia  encontrar seu lugar, com todo o mundo fazendo a sua parte, de forma  honesta e bem feita.  Bastaria isso.
     O que o estraga são os políticos que temos e observei com atenção que ele não fez ressalvas. “- Upa! Upa! meu pensamento” (poema  “O carrossel fantasma”) - diria  o poeta Da Costa e Silva (1885-1950). Despertei e o colchete se abriu e aqui volto à realidade.

     Na rua,  o perigo, de que fala Roberto DaMatta. Tenhamos, pois,  cuidados. “A morte nos cerca de todos os lados” sentenciou  Rui Barbosa (1849-1923), na obra José Bonifácio)) e “viver é perigoso”(novamente Guimarães Rosa), o que se aproxima da fala de um personagem de João Antônio: “Viver é brabo.” (conto “Dedo Duro”).  

quarta-feira, 16 de março de 2016

MEMÓRIAS E “CAUSOS” DO DES. VALÉRIO CHAVES



MEMÓRIAS E “CAUSOS” DO DES. VALÉRIO CHAVES

Elmar Carvalho

Na semana passada, ao caminhar no calçadão da Raul Lopes, em companhia dos magistrados Raimundo Lima, Carlos Barbosa, Antônio Lopes, des. Boson Paes e o funcionário da Justiça estadual Luís Américo Campelo, encontrei o des. inativo Valério Chaves, que nos convidou a acompanhá-lo até seu carro, estacionado do outro lado da avenida.

Recebemos então, devidamente autografado, seu mais recente livro, titulado Casos de Justiça e outras histórias que a vida conta. Ao que tudo indica, o desembargador, em sua humildade e certa timidez, não fez estardalhaço de sua obra e não a lançou em solenidade festiva. Simplesmente a editou e a está distribuindo a pessoas de sua estima e consideração, além de parentes e amigos.

Sem óculos no momento, não pude, de imediato, ler a simpática e amável dedicatória que ele me havia feito, o que só fiz ao chegar em casa. O livro, de 173 páginas, bem impresso, contém suas memórias, sobretudo as de sua meninice, adolescência e parte da juventude, e um conjunto alentado de “causos” jocosos, sérios ou interessantes, dos quais ele foi protagonista, coadjuvante ou observador, muitas vezes em decorrência de sua função judicante.

O des. Valério Chaves é uma das figuras paradigmáticas do Poder Judiciário Piauiense, pela sua notória honradez e probidade, e por sua humildade; humildade de quem nunca procurou ser honrado pelas vestes talares que envergou, mas de quem procurou honrar a toga que vestiu. Exerceu a magistratura, tanto no primeiro como no segundo grau, com inteligência emocional e sabedoria de vida, creio que hauridas e aperfeiçoadas ao longo de sua vida.


Nasceu no povoado Cocal, então município de Guadalupe, em 28 de abril de 1941, filho de Fernando Pereira Pinto e Dorcas Ferreira Pinto, que lhe ensinou as primeiras letras. Na cidade de Nova Iorque (MA), em 1957, concluiu o primário. Dois anos depois seguiu para Teresina, onde prestou o serviço militar.

Como podemos perceber da leitura de seu livro, mormente em suas memórias, estampadas na parte introdutória, mas também em várias crônicas de caráter memorialístico, em que narra episódios interessantes e algumas vezes pungentes de sua trajetória, foi um menino e um adolescente pobre, que muito cedo teve de trabalhar, no amanho da terra e no pastoreio das poucas “criações” de seu pai.

Contou esses episódios com sobriedade, sem dramaticidade, sem se atribuir status de herói. Mas de fato ele foi um herói do cotidiano, da luta renhida pela sobrevivência e para obter as suas conquistas. Sua escalada foi lenta e gradual, sem atropelos e açodamentos, porque desprovido de ganância e infenso a querer subir a qualquer preço. Por isso mesmo encerrou sua carreira como um magistrado digno e respeitado.


Casos de Justiça e outras histórias que a vida conta nos dão exemplos de vida, nas diferentes etapas da trajetória de seu autor, desde a infância modesta, em que foi chamado, para honra sua, de menino lenhador, de adolescente aguerrido no trabalho e no estudo, até o final da juventude em que, com muito esforço e obstinação, foi amealhando as suas conquistas, especialmente no jornalismo, no radialismo e na magistratura piauiense.    

terça-feira, 15 de março de 2016

HARDI FILHO E SUA BIBLIOTECA, QUE FAZER?


HARDI FILHO E SUA BIBLIOTECA, QUE FAZER?

Chico Miguel*


Quando um escritor como o poeta Francisco Hardi Filho morre a primeira preocupação dos intelectuais é com o seu legado em obras, sem esquecer as inéditas, e a sua biblioteca.

Hardi Filho era talvez um dos maiores leitores de Teresina, quiçá do Piauí. Lia tudo: as obras inéditas dos neófitos que traziam para que ele desse opinião. Opinião valiosa a sua. Não dava prefácios a obras que não valessem a pena ser publicadas. Às demais, chamava os seus autores para uma conversa e explicava muito calmamente o que era poesia, como se fazia e como não se fazia, o valor do poema, o valor da palavra, na sua linguagem bastante comedida, terna até. Cheia de exemplos de poetas e de poemas que deviam ser lidos e imitados, no início, porém, dos quais deveria desligar-se depois, quando estivessem maduros.

Ele acreditava que a poesia é um dom, normalmente a pessoa nasce poeta, e depois das leituras diversas é que se aperfeiçoa.

Mas voltemos à sua biblioteca, acredito que composta de mais de 4 mil livros, normalmente recebidos, autografados pelos autores da terra e do resto do país.

Estive, no mês passado, em Picos, onde o poeta Ozildo Batista de Barros que, diga-se de passagem, está formando uma das melhores bibliotecas do interior daquele município, ou melhor, daquela região. Segundo minhas conversas com Ozildo, ele aceitará e até agradece a dádiva do precioso espólio – a biblioteca do poeta Hardi Filho, de quem era amigo e por ser tão amigo, em sua memória, mandou levantar um estátua no espaço reservado a lazer, em seu sítio, ou seja, nas proximidades da piscina.

Ozildo Batista de Barros foi vereador de Picos, chegou a ocupar o cargo de Presidente da Câmara Municipal e depois abandonou a política. Hoje é simplesmente advogado, um dos melhores daquela região, senão o melhor. Mora no seu sítio “Falecido Amor”, que não deixa de ser uma “gozação” dele, pois se trata de uma pessoa bem humorada e inteligente, vive folgadamente do seu jeito e não quer outro. Muitos intelectuais de Picos se reúnem no seu sítio, que fica a meio caminho entre a cidade de Picos e a de Bocaina.

Creio que não haverá melhor oferta para a família de Hardi Filho para desincumbir-se do dever de dar um bom fim ao que ele deixou, pois Hardi vivia do seu emprego de funcionário aposentado do IBAMA, nunca se preocupou com dinheiro nem com coisas materiais. Filosoficamente, era uma personalidade bem diferente: séria, não ria, conversava pouco, recebia a todos que o procuravam como irmãos e como filhos. Mas, em compensação era um crítico feroz da sociedade ignorante, aquela grande maioria que não sabe dar valor às coisas mais importantes, cuja porção de gente entra facilmente para o consumismo e o desregramento social, distanciando-se das coisas da inteligência.

Para ele, a poesia, em primeiro lugar. Era sério demais para viver no nosso mundo tão desonesto, estúpido e que só pensa em dinheiro e riqueza. É preciso que se leia o seu livro “Dia Rio”, crônicas, que deixou inédito, tendo logo a Academia Piauiense de Letras, da qual ocupava uma cadeira, se apressado a publicar na “Coleção Centenário”.

Nos últimos dias, entrou numa profunda depressão. Fui lá e puxei por ele, perguntando se não estava mais fazendo poesias. E ele, com muita insistência minha, levantou-se, foi lá dentro e trouxe um caderno de sonetos como que preparados para publicação.
Mas não era mais aquele que me mostrava satisfeito e perguntava minha opinião, costume nosso, pois eu fazia o mesmo com meus poemas em relação a sua opinião. Quase que não conseguiu ler um ou dois. E pronto.

Por minha mulher, que foi visitar D. Adélia, a musa inspiradora de Hardi Filho, sua querida esposa, soube agora que a biblioteca tinha sido desmontada e levada para outro cômodo da casa, pois já havia indícios de cupim em algumas peças. É uma pena.

E Adélia contou para minha mulher, D. Mécia, que ele nos últimos tempos não falava, não pedia nada, dizia que não sentia nada, nada. E ela, insistente, olhava-o com carinho e perguntava:

- Hardi, diga-ma alguma coisa! Não suporto seu silêncio. Diga-me o que quer? Diga.

E ele apenas respondeu:

- Tudo o que eu tinha para dizer-lhe está nos meus livros.
E calou-se.

Eis o homem e o poeta Hardi Filho nos seus últimos dias, neste mundo.

                      (Artigo Publicado no jornal “Meio Norte”, Teresina, de 11-3-2016)

_____________

 *Francisco Miguel de Moura – Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

domingo, 13 de março de 2016

AS MOSCAS E O TEMPO


AS MOSCAS E O TEMPO

Elmar Carvalho

Moscas douradas
copulam no ar
e tecem teias
com fios longos de pensamentos,
que se perdem
em passado sem história
e em futuro sem
perspectivas.
Moscas vermelhas
copulam no chão
e as mulheres
surgem no matagal
e as camas estremecem
nas alcovas.
Moscas azuis
copulam no céu:
só existem
anjos e arcanjos
onde a matéria
não existe.

           Pba, 02.04.78

sábado, 12 de março de 2016

O céu está no chão


O céu está no chão

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Sentado na poltrona do avião que decolava, eu me grudava à janelinha, friozinho de medo na barriga. Contemplava Teresina, cheia de sol e de adeus. Rios Poti e Parnaíba, pontes Estaiada, Wall Ferraz, os carros cruzando avenidas, altos edifícios, tudo se reduzindo a miniaturas. A sensação de deixar minha gente para trás, voar às esferas celestes, sobre nuvens, o espírito libertando-se deste mundo, em fôlego de oração. 

As alturas têm dessas coisas: a gente se desliga do lado debaixo e extasia-se no transcendental. Profetas, monges e eremitas de todas as crenças refugiavam-se no alto das montanhas, para se encontrar na presença divina. Se vivessem na era do avião, certamente o vislumbraria nas brumas e nuvens.

A Bíblia relata que o profeta Elias entrou na presença de Deus, meio à brisa do Monte Carmelo, 1.400 metros de altura, e. tempos depois, foi arrebatado aos céus, numa carruagem de cavalos alados e incandescentes. Moisés recebeu os dez mandamentos, no Monte Horeb (Sinai), 2.300 metros, e desceu translúcido. Jesus resplandeceu no Monte Tabor, 600 metros, e dialogou com os profetas Moisés e Elias, que viveram centenas de anos antes. Seus discípulos, Pedro, Tiago e João, encantados com a sublime transfiguração, não queriam mais descer o Tabor e voltar à realidade, aqui embaixo. Astronautas contam histórias fantásticas experimentadas no espaço.

Padre Tony Batista, na reflexão sobre a transfiguração de Jesus, adverte fiéis para não se prenderem, demasiadamente, ao mundo contemplativo das alturas, como os três apóstolos do Tabor, negligenciando suas obrigações aqui no mundo. É que o céu também está aqui e carece da nossa participação na construção da sociedade. “O reino dos céus está dentro de vós”, maravilhosa frase de Cristo.

Três dias depois, retornava de Fortaleza. Daí a alguns minutos, a voz do comandante:“Preparem-se para aterrissagem... Apertem o cinto... Permaneçam em posição vertical... Teresina, bela tarde de sol...”

Teresina mais próxima de mim, sem miniaturas e distâncias, convidando-me para mais uma jornada de trabalho. Até que, um dia, outro avião, definitivo, me leve para espaços infinitos, e não mais voltar. Por enquanto, contento-me com a minha gente, minha cidade, abraçados, cantando a belíssima canção e letra, DOIS RIOS, de Nando, da banda Shank: O céu está no chão/O céu não cai do alto.../ O céu que toca o chão/ E o céu que vai ao alto/ Dois lados deram as mãos/ Como eu fiz também/ Só pra poder conhecer/O que a voz da vida vem dizer/Que os braços sentem/ E os olhos veem/ Que os lábios sejam/ Dois rios inteiros/ Sem direção.../E o meu lugar é este/ Ao lado seu, no corpo inteiro/ Dou o meu lugar/Pois o seu lugar/ É o meu amor primeiro/O dia e a noite, as quatro estações.    

sexta-feira, 11 de março de 2016

José Eusébio de Carvalho Oliveira

Igreja antiga de Campo Maior

José Eusébio de Carvalho Oliveira

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Quando os conquistadores lusitanos escreviam nos anais da história pátria a sua saga de conquista dos sertões de dentro e adentraram a bacia oriental do rio Parnaíba, fincando a caiçara de seus currais, transpuseram o Piauí, o Canindé, o Gurgueia, o Poti e em sua inderrogável marcha de conquistas chegaram ao vale do Longá se depararam com campos maiores e verdejantes, matas abertas, entremeadas de extensos carnaubais, onde as boiadas se refizeram e prosperaram. Em pouco tempo aquela região dos campos maiores se constituía em promissora faixa de conquista, onde as boiadas se multiplicavam, atraindo novos conquistadores.

Foi por esse tempo que Bernardo de Carvalho e Aguiar se estabeleceu em um afluente do Longá, àquele tempo chamado Bitorocara, construindo o curral, depois a casa e, em seguida a capela sob a invocação do padroeiro Santo Antônio. Foi esse o início da cidade de Campo Maior, que viria a ser instalada na primeira leva de vilas piauienses, em 1762, ensina um dileto filho da terra, o notável vigário e pesquisador, mais pesquisador que vigário, Pe. Cláudio Melo. Não tardam a se estabelecer naqueles campos os herdeiros de D. Francisco da Cunha Castelo Branco, nobre economicamente arruinado, que ali adquiriu algumas fazendas, permanecendo, porém, com seu domicílio em São Luís do Maranhão, onde se estabeleceu ao chegar de Lisboa. Entre os que chegariam mais tarde estão os Carvalho e os Oliveira, ancestrais do jurista e político José Eusébio de Carvalho Oliveira.

Nasceu esse conceituado homem público, em 10 de janeiro de 1869, na cidade de Campo Maior, onde viveu os mais despreocupados anos da infância feliz.

Depois de cursar os estudos iniciais em sua terra natal e os preparatórios em Teresina, ruma para Recife a fim de frequentar o ensino jurídico, vindo a matricular-se na Faculdade de Direito, onde conquista o diploma de bacharel ao fim de 1891, com 23 anos incompletos.

De volta à cidade de Teresina, assume o cargo de procurador-fiscal da Fazenda Pública do Estado, em cujo exercício se houve com zelo e competência.

Entretanto, acontecimentos políticos iriam perturbar a sua paz. No plano federal, o presidente Deodoro da Fonseca iria renunciar em 23 de novembro de 1891, depois de grave crise política, assumindo o vice-presidente Floriano Peixoto, que lhe fazia oposição. Nesse contexto, em 21 de dezembro seguinte, foi deposto o governador Gabriel Luís Ferreira, porque fora fiel ao presidente renunciante. E, de forma franca, leal, o vice-governador João da Cruz e Santos (Barão de Uruçuí) não reconhece a deposição e se recusa a assumir o governo sem a expressa renúncia do titular. É quando o tenente-coronel do Exército João Domingos Ramos, responsável pela deposição, lidera e preside uma Junta de Governo Provisório, composta ainda por Higino Cícero da Cunha, Clodoaldo Severo Conrado de Freitas, notáveis intelectuais piauienses, Elias Firmino de Sousa Martins, José Pereira Lopes, todos conceituados membros de nossa sociedade civil e o procurador-fiscal José Eusébio de Carvalho Oliveira.

Foi, porém, precária e de apenas oito dias a atuação da Junta Provisória e, de nosso biografado à frente do governo piauiense, porque o Marechal Floriano Peixoto não a reconheceu. Mandou dissolvê-la tão logo soube de sua existência, em 29 do mesmo mês, e que o tenente-coronel João Domingos Ramos respondesse sozinho pelo governo até ulterior deliberação, limitando-se à manutenção da ordem. A situação assim perdurou por poucos dias, porque em 11 de janeiro de 1892 assume o governo do Estado o coronel Coriolano de Carvalho e Silva, indicado pelo poder central e aqui chegando foi “eleito por aclamação”.

Depois de dissolvida melancolicamente a Junta de Governo, transferiu-se José Eusébio para o Maranhão, onde assume o cargo de promotor público da comarca de Codó. Porém, demora-se pouco tempo no exercício desse cargo, no mesmo ano passando ao de juiz de direito da comarca de Pedreiras, onde permaneceu até 1895, quando foi transferido para São Luís como juiz substituto.

Por esse tempo, exerceu também os cargos de inspetor do Tesouro Público e procurador-geral do Estado do Maranhão.

Nos últimos dias do século ingressou na política, filiando-se ao Partido Republicano do Maranhão, por cuja legenda foi eleito deputado estadual.

Como forma de divulgar suas ideias colaborou em vários órgãos da imprensa maranhense, sobressaindo a atuação nos jornais O Estado, A Legalidade e A República.

Em março de 1900, foi eleito deputado federal, tomando posse em maio do mesmo ano, na Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, sendo reeleito no pleito seguinte, assim permanecendo no exercício do mandato até 1908.

Com a morte de Benedito Leite em março de 1909, de quem era seguidor e correligionário, passou a liderar o esquema situacionista, assumindo posição de realce na política maranhense. Nesse mesmo mês lançou-se candidato ao Senado Federal, sendo majoritariamente sufragado. Tomou posse em abril, para um mandato de nove anos, que foi concluído em 1918, quando foi sucessivamente reeleito para um mandato que deveria ser concluído em dezembro de 1926. No Senado teve atuação marcante, integrando as comissões de Saúde Pública, de Instrução Pública, de Constituição e Diplomacia, de Finanças e de Redação do Senado.

Foi um batalhador, ao lado de Domingos Perdigão, para a criação da Faculdade de Direito do Maranhão que, somente foi instalada em 1918.

Faleceu em pleno exercício do mandato senatorial, em 25 de abril de 1925, no Rio de Janeiro. Foi, assim, um ilustrado paiuiense com larga folha de serviços prestados nos dois lados do rio Parnaíba. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

A cidade


A CIDADE

Ivanildo di Deus
(professor e pesquisador da história de Luzilândia)

Ao completar 126 anos que tornou-se emancipada politicamente do município de Barras, Luzilândia, que já foi uma das mais economicamente importantes cidades do Piauí, hoje maqueia-se, mais uma vez, para um evento festivo: um festival que de longe traduz a verdadeira realidade sócio-econômica do município.
É assim, nos postulados maquiavélicos: “se fazes um governo ruim, entretem, engana o povo com festas para que sejam vendados seus olhos e ele não possa ver as mazelas, as desgraças  que a cidade esconde”.
Inexiste, no âmbito do poder público municipal (diga-se “prefeitura”) alguma política pública que vislumbre o desenvolvimento sócio-econômico e faça produzir riqueza e renda para os munícipes e transforme novamente Luzilândia num dos municípios piauienses mais destacados.
Num passado não tão distante outros governantes municipais de visão desenvolvimentista, como João José Filho,souberam lutar e empreender esforços para trazer aviação, agências bancárias, fazer calçamentos, construir escolas e ensino superior,enfim, trazer desenvolvimento e consequentemente, melhores condições de vida para os luzilandenses.
Não é assim hoje em Luzilândia e não é somente a crise econômica nacional e internacional como se é alegado a priori; é, e deverasmente o é, a falta de visão desenvolvimentista, a incompetência e o ingerenciamento das atuais gestoras municipais que, ao longo de mais de uma década sequer ousaram construir um metro de calçamento para melhorar a mobilidade e a vida daqueles munícipes governados por elas, especialmente aqueles moradores nos bairros periféricos da cidade.
Gilberto Gil, renomado artista nacional e ex-ministro da Cultura do Governo Lula, canta assim: “Nos barracos da cidade/Ninguém mais tem ilusão/Do poder da autoridade/Em tomar a decisão”. Faltou decisão, ousadia, falta de visão e compromisso com a coisa pública para construir/concluir obras com recursos oriundos do Governo Federal (rodoviária, praça da juventude, climatização das escolas, etc); faltou gestão para pagar o funcionalismo em dia, em especial os(as) sofridos(as) professores(as) que entraram em greve devido a longos quatro, seis meses, sem receberem pagamento... Por outro lado, obras alheias ao interesse público são vistas construídas pelas gestoras e eventos festivos caríssimos são realizados com recursos públicos, como shows musicais de artistas famosos.
Não é maqueando a cidade com eventos festivos e escondendo sua espúria realidade que Luzilândia se desenvolverá sócio-economicamente; só o será com a elaboração e realização de políticas públicas que lhe possibilitem isso e dignifique a vida dos luzilandenses.

Sobre ainda os postulados maquiavélicos, o cantor seresteiro Zezo vem e vai cantar para Luzilândia assim: “É a cidade esburacada/O povo dizendo ai/Invento uma micareta/E o sofrimento se esvai”. Deus ilumine-te, querida Luzilândia! Cubra-te o céu com o seu manto azulado e que acendam-se as centelhas do fogaréu por dias melhores!     

terça-feira, 8 de março de 2016

A BOA LEMBRANÇA DE CLÁUDIO DÊNIS


A BOA LEMBRANÇA DE CLÁUDIO DENIS

Elmar Carvalho

Com surpresa e consternação, no dia 2 deste mês, no começo da tarde, recebi a notícia do falecimento do primo e amigo Cláudio Denis de Melo Andrade. Eu e meus irmãos residentes em Teresina combinamos participar de seu velório, em Piripiri. Imediatamente seguimos para essa cidade, em companhia de nosso pai, não obstante os seus noventa anos.
Na Capela Ecumênica Mortuária, onde seu corpo estava sendo velado, vestido em traje maçônico, já que ele foi dedicado e exemplar obreiro, encontramos seus amigos, parentes, sobrinhos e irmãos. À cabeceira da urna, encontravam-se minha tia Maria José e uma de suas filhas. De uma grande prole, as tias Mazé e Maria do Carmo, residente em São Paulo, são as únicas vivas.
Quando ele nasceu, em sinal de seu regozijo materno, minha tia enviou para minha mãe um pequeno cartão impresso comemorativo, no qual se encontrava a sua fotografia de infante. Por toda a vida, mamãe guardou essa singela e amável lembrança de seu sobrinho e de sua irmã. Nos contrastes que a vida nos oferece, eu via agora tia Mazé, como uma madona do sofrimento, a velar o filho morto, mas de forma contida, resignada, sabedora de que a morte nada mais é do que o começo de uma nova vida, mais rica e mais bela.
Cláudio era um paradigmático cidadão, filho, irmão e amigo. Exercia natural liderança em sua família, mormente após o falecimento de seu pai, em virtude de sua inteligência emocional e de seu temperamento cordato e agregador. Sem egoísmo e ambição, tinha espírito associativo e gostava de compartilhar as suas ideias e capacidade laboral. Por isso, criou em sua região uma associação de defesa dos apicultores. Graças a seu considerável conhecimento nessa seara produtiva, ministrava aulas, inclusive no Pará, para onde se deslocava com frequência.
Sua maneira mansa de falar e de agir, além do seu senso de humor, inspiravam confiança e simpatia. Por tal razão, era um fazedor e conservador de amizades. Com acentuada inclinação para o bem, era prestativo, atencioso e gostava de ajudar as pessoas. Tinha prazer em ser útil. De notável dedicação à família gostava de localizar parentes e de se comunicar com os primos através da grande rede. Os sucessos e conquistas dos amigos eram como se fossem também realizações suas, já que desprovido de egoísmo e inveja.
Para que se tenha uma pequena ideia de sua alma boa, contarei um episódio que me foi relatado por um dos protagonistas. Seu filho, Armilo Neto, estava cevando um peba, com o objetivo de tomar umas pingas com uns amigos. O bicho ficava dentro de uma caixa de cimento. Quando Cláudio Denis viu o indefeso animal, alegou que ele estava se ferindo na estrutura de cimento, e que era melhor fosse solto. Armilo Neto respondeu que passaria a ter mais cuidado, e que não deixaria que o peba voltasse a se machucar.
No sábado, véspera em que o bicho seria abatido e transformado em tira-gosto, Armilo encontrou a caixa vazia. Desconfiou que seu pai o soltara, e o inquiriu a respeito, mas ele retrucou que no imóvel andara um larápio, que levara vários outros objetos. Desconfiado dessa justificativa, pediu ao vizinho para que visse as gravações de suas câmeras de segurança, a fim de descobrir o autor da subtração do peba. Terminou descobrindo, que Cláudio Denis, com muito cuidado, retirara o animal da prisão, o envolvera em uma espécie de toalha, para lhe devolver à floresta. Esse fato aconteceu perto de sua morte.
Aproveito o ensejo, para relatar outro fato pitoresco de nosso saudoso Cláudio. Ele amansara um arisco burro. Mesmo manso, o muar ainda tinha os seus caprichos e venetas, e conforme seu imprevisível humor ainda se mostrava brabo em muitas ocasiões. Por causa disso, ainda deu uma boas quedas em seu dono, que gostava de montá-lo. Apesar disso, Cláudio lhe tinha afeição e nunca maltratou Neymar, que esse era seu nome, por causa de sua crina estilizada. Seu filho, Armilo Neto, meio brincando e meio para valer, temendo contusão séria em seu pai, disse-lhe que iria matar o árdego e ardiloso animal, antes que ele o matasse. Mas o pai o exortou a jamais fazer tal ato.
Portanto, Cláudio Denis, além de preservar a amizade humana, era também um amigo dos animais e amante da natureza. Era um ambientalista, mesmo que não ostentasse esse rótulo. Com frequência ia a sua Fazenda Boa Lembrança. E foi ao voltar dela que veio a morrer, quando a sua motocicleta se chocou com uma máquina de encher caçambas.

Dele guardarei para sempre a boa lembrança, nome de sua amada fazenda. A boa lembrança de um homem bom, de um bom amigo, de um bom parente.

segunda-feira, 7 de março de 2016

É Tempo de Humanismo



É Tempo de Humanismo

Cunha e Silva Filho

            Está no Brasil  um filósofo italiano Nuccio Ordine, da Universidade de Calábria que publicou um livro, A utilidade do inútil, saído pela Ed. Zahar, em tradução de Carlos Bombassaro. De acordo com a reportagem que li no Globo,  Caderno Prosa, (27/02/206), Ordine  veio fazer palestra  no Centro  Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e fará hoje estará na Coppe (UFRJ), naturalmente  discutindo suas ideias expostas no mencionado  livro.
         O que me despertou a atenção  da presença desse filósofo, aliás,  segundo a reportagem de Leonardo Cazes acompanhada de um entrevista, foi o tema instigante  e, a meu,  decisivo  para  o debate atual  num país como o  nosso que enfrenta também um  leque de  desafios  relacionados  à visão do filósofo italiano  sobre  a realidade   brasileira e seus reflexos nas  práticas sociais nossas tão  agudamente  voltadas  para  os erros e os desvios   apontados  por Ordine.  É curioso  anotar que  estudioso   não escolheu  logo  os  departamentos  de filosofia  nem outras  instituições   diretamente   ligadas  à presença de um   filósofo, por exemplo os curso de letras,  artes,  os centros  voltados  para  os estudos sociais, políticos de comunicação. Não custa  compreender essa sua estratégia,   de resto,   bem  empregada.
          Segundo a entrevista, Ordine se define – pelo menos é o que deduzo de suas palavras -   como  um filósofo   que almeja  atingir  o nó górdio  das relações entre a dimensão humana, para ele tão desprezada na contemporaneidade, no  Ocidente (Europa, sobretudo) e a avassaladora corrida para o “lucro,” o interesse “utilitarista das pessoas em si e do sistema capitalista que, segundo ele,  caminha para a “autodestruição.” Sobre esse tema, da minha parte,  já escrevi  alguns artigos., publicados em jornais,  livro e blogs.              
          Ora, enquanto a  maior parte  das sociedades e sistemas de governos   que só valorizam  o dinheiro, o vil metal,   estiver  em ação,  o ser humano  tenderá a sofrer as consequências  dessas  opção desastrosa, porque comporta um tipo de  civilização,  cujo ideal  é ganhar mais e mais, sem se importar com valores  dignos de  apreço e intemporais: a amizade, a união, o respeito à vida, à natureza, à ética de comportamento individual e social, i.e., valores que  jamais seriam   nocivos à continuidade da espécie humana, juntamente com  outros, como  dar importância   ao desenvolvimento e ao cultivo das letras, das artes, da filosofia, e não  abrir mão do desenvolvimento científico direcionado ao aperfeiçoamento e bem-estar das sociedades do presente e do futuro. Daí o filósofo querer se comunicar com o mundo acadêmico  das ciências   e da tecnologia.
        Ordine toca num outro ponto  crucial ao afirmar  que o “perigo’ de nossos governos no tocante a verbas  destinadas ao desenvolvimento  dos saberes de cunho  humanístico  não se encontra   meramente na redução do aportes financeiros canalizados     às ciências  humanas, mas também  na redução das verbas  alocadas ao que chama de “ciência fundamental.”  Enfatiza o filósofo que “humanidades e ciências” devem se unir. Daí provavelmente  mais uma outra razão de  buscar  um diálogo aberto  com  o mundo acadêmico  dos cientistas.                        
           O professor da Universidade de Calábria assume, assim, a sua postura de lutar  por um  humanidade  na qual o capitalismo exacerbado não enseje a sua própria  destruição e  os fundamentos  de valores  caros e fundamentais  ao mundo: a solidariedade,  a celebração, o cultivo   das artes  não utilitárias e  um freio que  deveria   ter os descaminhos  através da caça tresloucada  pelo dinheiro como fetiche de uma humanidade que se desumaniza na medida em que  assimila  um pecado   imperdoável – o egoísmo,   a busca do ter e o esquecimento  da convivência  feliz entre os homens.
         Lamenta ainda que a  Europa esteja  dando as costas para a Grécia – país do qual  viria  quase  toda a riqueza e sabedoria nos campos da literatura, das artes  em geral, das ciências. Como, pode-se inferir de sua entrevista,  jogar tudo isso fora e, em lugar disso,  voltar-se  para  o fetiche dos negócios,  dos bancos, dos investimentos,  dos bens materiais sem limites  e sem consciência de suas consequências danosas à humanidade?
          O título do livro resume  bem o que nos aguarda a sua leitura. Aliàs, o manifesto a favor do humanismo exposto no livro já se tornou, conforme  diz a reportagem,  um best-seller na própria  Europa. Oxalá não seja apenas uma leitura a mais.
         O importante seria que as suas premissas  tocassem no fundo do coração  das pessoas, dos governos, dos políticos,  dos empresários, dos religiosos das pessoas, enfim, que  nunca é fastidioso  repisar  a volta dos  valores humanísticos,  do espírito comunitário, da prática do bem e dos respeito aos bens imateriais. Por mais rasa que seja a mensagem de uma obra,  o que não  deve ser o caso do livro desse  filósofo,  sua importância deve prevalecer e suscitar  reflexões  profundas  na mentalidade dos homens em suas múltiplas atividades.

         Ordine recordando  o valor inestimável dos tempos da Renascença, acentua com  propriedade   que autores como Giordano Bruno,  Erasmo e Galileu Galilei tiveram  uma  compreensão  tão vasta  da “cultura” e  da “unidade  europeia” que as suas ideias foram  além do seu tempo e do  espaço do continente europeu de então. Tornaram-se  universais na compreensão da posteridade. Resta a nós, de todos os lugares e do tempo atual  envidarmos esforços que tornem  os homens cada vez mais afastados  das incertezas do simples  lucro  que as ilusões  materiais  pensam  ser o caminho  certo. Longe disso, muito longe disso.   

domingo, 6 de março de 2016

EGOCENTRISMO


EGOCENTRISMO

Elmar Carvalho

Além do mar, além do infinito, além (...)
meu corpo fica espalhado
como poeira cósmica perdida
e dispersa nos cantos
(encantados e sem cantos)
do mundo.
É uma miragem de
visionário maluco o
infinito: é a extrapolação
do nada dentro do tudo.
Além do infinito, além do mar, aquém (...)
minha alma percorreu o infinito,
num tempo de tão pequeno
arrancado do próprio tempo,
até perder-se no infinito.
(Minha alma se tornou
o hálito
do éter perdido.)
E meu corpo se tornou
uma estátua
de granito,
plantada como
um astro no
centro do cosmo,
desmanchando-se
em lavas lacrimais
de fogo ardente.


           Pba, 07.12.77

sábado, 5 de março de 2016

A volta do vinil


A volta do vinil

José Pedro de Araújo
Romancista, contista e cronista

Por dever de consciência, devo esclarecer que não toco nenhum instrumento musical - o que me deixa um pouco complexado -, e muito menos tenho um ouvido bem afinado - o que faz de mim um desprezado pela arte do deus grego Apolo. Contudo, sou um apreciador como poucos da boa música. E boa música para mim significa música de qualidade mesmo, sem me apegar a um ou outro ritmo musical em especial. Dependendo do momento, ou do local, pode ser uma MPB, um Rock n’roll, uma música clássica ou um Jazz; uma boa e velha música italiana ou francesa, ou até mesmo um forró Pé-de-serra. Tem de ser forró Pé-de-serra, vou logo dizendo, porque esse forrozinho chinfrim, de gosto duvidoso, e que se esmera nas frases com duplo sentido, faço questão passar por longe dos ambientes que fazem estourar os tímpanos dos seus frequentadores com isso. Não vou entrar no mérito do funk que empolga a periferia e já se alastra pelo país como um mosquito malfazejo. Esse não me preocupa por ser tão efêmero que logo, logo, deverá sumir como aconteceu com muitos outros tão transitórios quanto ele. Ludmila, Anita e os tais MC’s não ocupam meus já tão comprometidos ouvidos com sua música de mau gosto.
                Comecei a tratar do tema para fazer uma revelação: estou muito contente com a volta do disco de vinil. Tomara que não seja uma moda passageira também. Dizem que ele, a despeito da tecnologia dada como arcaica, comporta todos os sons do acompanhamento, coisa que as novidades da hora não podem. A propósito disso, não me desfiz dos meus bolachões, mesmo tendo sido instado a jogá-los fora para abrir espaço na estante. Teimoso como sou, até ampliei a sua quantidade muitas vezes ao comprar uma porção deles que o antigo proprietário ameaçava mandar para o lixo. Essa é uma história que merece ser contada, pois fui severamente advertido por ter trazido mais de duas centenas de discos para ocupar o espaço que eu deveria desocupar.
A história se deu assim: no meu antigo local de trabalho apareceria quase diariamente um rapaz para lavar os carros dos funcionários. Isso já vinha de longe, desde quando ele ainda era um rapazinho quase imberbe. Pois esse rapaz, que também trabalhava como zelador em um prédio de apartamentos em área nobre de Teresina, certo dia me abordou para perguntar se eu não gostaria de comparar alguns vinis. Respondi que era muito seletivo nesse assunto, mas, dada a sua insistência, pedi-lhe que me trouxesse uma relação contendo o nome dos discos que ele tinha para vender. E ele demorou a me procurar novamente. Achei que houvesse desistido de me vender a sua mercadoria.
                Entretanto, certo dia,  acercou-se ele de mim para dizer que não havia conseguido elaborar a relação solicitada porque os discos eram muitos, demandaria muito tempo para concluir a tarefa. Ai acendeu uma luz no meu cérebro, aquela luzinha da desconfiança. De pronto indaguei como ele havia conseguido esses discos. E ele respondeu que havia ganhado de uma das moradoras do prédio em que ele trabalhava. Não me dei por satisfeito e quis saber mais: ganhou assim, gratuitamente? Ai foi ele quem entendeu que precisava me contar a história toda da obtenção das bolachas.
                Disse-me que a moradora do prédio havia sido abandonada pelo marido quanto ele resolveu firmar compromisso com outra pessoa. Mas que ele, bom apreciador de roupas finas, sapatos de grife e... de música, deixou no apartamento uma grande quantidade de discos, e da sua indumentária também. E que, vez por outra voltava para apanhar alguma coisa. Tempos depois, a ex-mulher arranjou um namorado, e este passou a morar com ela. Nem este acontecimento serviu para barrar as idas do ex-marido ao apartamento para apanhar alguns dos seus objetos prediletos. E isso terminou por despertar ciúmes no novo morador do apartamento, que deu um ultimato à namorada: ela tinha que acabar com as idas e vindas do ex-marido. E ela atendeu de pronto: passou a ordem ao ex-marido, determinando que ele levasse suas coisas de uma vez por todas.
                Irritado, o homem respondeu que ela desse a destinação que quisesse aos seus objetos, porque ele não voltaria mais a botar os pés ali. E ela seguiu à risca a sua palavra. Determinou que o zelador jogasse fora tudo o que ele havia deixado lá. Foi assim que os discos foram parar nas mãos do lavador de carros. E depois nas minhas. Mas a história não acaba aqui. O meu interesse pelos discos foi acentuado depois da história ouvida, e eu pedi que ele os trouxesse para que eu escolhesse alguns. Ponderei que essa seria uma tarefa fácil para ele. Afinal, alguns poucos discos não era tão pesado assim. E qual não foi a minha surpresa quando certo dia fui apanhar o carro no estacionamento da repartição para passar em casa o meu horário de almoço, e fui abordado mais uma vez por ele. Disse-me que estava com os discos ali perto. Fui lá, depois de uma rápida olhada no relógio para ver se ainda tinha um tempinho extra. Deparei-me com duas pilhas de discos com oitenta centímetros de altura cada uma, pelo menos. Olhei rapidamente as capas de alguns deles e vi que tinha muita coisa interessante. Mas o tempo não me permitiria uma avaliação mais detalhada.
                Pedi-lhe que escolhesse alguns de MPB, rock, música clássica, etc., que eu os compraria. Ele me fez outra proposta: perguntou-me quanto lhe pagaria por todos eles. Respondi que não me interessava por todos eles, porquanto tinha muito coisa fora do meu agrado. Que ele escolhesse apenas uns dez para mim. Para encurtar a história, esclareço que fechamos negócio em poucos minutos. Fiquei com todos os discos. Sai dali com o porta-malas do carro lotado, a ponto de não comportar nele nem um pedaço de cordão. Havia adquirido mais de duzentos e cinquenta discos, para desgosto da minha mulher.
                Dias depois, relatando essa história para alguns amigos, um deles, criativo e esperto, depois de indagar se já tinha feito um inventário no lote de discos, obteve de mim a resposta de que ainda não tinha arranjado tempo para isso. E ele então me propôs: que tal se fizéssemos um encontro de amigos na minha casa com o espirituoso nome de “a festa do vinil?” Topei de pronto e foi um belo encontro entre parceiros. Comprei material de limpeza e distribui entre eles para que me ajudassem na seleção e higienização dos bolachões. Foi uma noite ótima, mas, já estão a me cobrar uma nova edição do evento, uma vez que o tempo não foi suficiente para a conclusão da empreitada.

                As novas tecnologias também estão favorecendo a quem gosta de uma boa música. O YouTube, por exemplo, é um celeiro de boas coisas. Lá podemos encontrar vídeos maravilhosos com passagens memoráveis dos melhores artistas do mundo. Alimento a minha alma e elevo o meu espírito com músicas que não consigo ouvir nas emissoras de tevê ou nas rádios que, ao que parece, estabeleceram um pacto maldito com o que há de pior nas artes e na cultura.  

sexta-feira, 4 de março de 2016

ENCONTROS E REENCONTROS NO CAFUNDÓ




ENCONTROS E REENCONTROS NO CAFUNDÓ

Elmar Carvalho

            Mais uma vez estive no sítio Cafundó. Mais uma vez foi um dia muito agradável. Os seus proprietários, os amigos José Luís Carvalho do Vale e sua esposa Francilene, nos receberam de forma inexcedível, com a lhaneza de sempre. A cerveja não estava estupidamente gelada, pois isso seria simplesmente estupidez. Estava no ponto certo: um leve véu de noiva recobria as garrafas. Outros diriam que elas se assemelhavam a um níveo pescoço de águia americana. O churrasco de carneiro made in Cafundó, cevado com boa pastagem e ração, era um verdadeiro manjar dos deuses olímpicos.

            Além dos anfitriões, estavam presentes os seus familiares (sanguíneos e por afinidade) Antônio Neto Bringel, Roberta Bringel, Danilo Costa, Sônia Marques, Ana Carolina e Pedro Faust. Também compareceram José Carlos Fontenele e sua esposa Regina, a filha Carla e seu namorado Júnior; José Francisco Marques, sua esposa Rosinha e o filho Júlio, ao qual, em pronúncia espanhola, costumo chamar de Julio Iglesias. Foi uma espécie de reencontro com o Zé Carlos, pois ele foi meu colega do curso de Direito (UFPI), na década de 1980, e Fátima, minha mulher, o conhecia desde Parnaíba, quando ambos cursaram o segundo grau.

            Zé Francisco cantou belas melodias, algumas da Jovem Guarda, outras da mais seleta MPB, acompanhando-se com toda maestria ao violão. O Zé Luís, de forma exímia, fez a percussão, e o Zé Carlos exibiu os seus dotes de cantor. Amante da boa música, mas não tendo dom musical, limitei-me a aplaudir os melódicos amigos. Um deles observou que nós quatro tínhamos José como primeiro prenome, de sorte que foi um encontro de Zés, como só acontece na Paraíba.

            Zé Luís propôs uma rodada de pequenos discursos, em que inevitavelmente houve uma verdadeira “troca de confetes”, com enaltecimentos recíprocos. Afinal, todos éramos amigos, e não amigos da onça. Entretanto, lembramos e homenageamos os saudosos Gerson Marques, pai de Zé Francisco e amigo dileto de meu pai, e Júlio Carvalho do Vale, médico humanitário e caridoso na verdadeira acepção do termo, irmão de Zé Luís.

Fiz uma rápida sessão de autógrafo, ao destinar o livro “Retrato de meu pai” a vários presentes (e ausentes). Alcunhei o José Luís Carvalho do Vale, pelos seus atributos de perfeito anfitrião, estilizando a pronúncia do l, de “o último fidalgo”, cujo título nobiliárquico mereceu a concordância de todos. Zé Carlos, templário eminente da Confraria do Cafundó, sugeriu a realização, numa noite de plenilúnio, do que denominou “Cafundó Night”. A proposição mereceu acolhida unânime dos confrades.

quinta-feira, 3 de março de 2016

O QUALIRA, O BAITOLA E A RAPARIGA DE TUTÓIA


O QUALIRA, O BAITOLA E A RAPARIGA DE TUTÓIA

Antonio Gallas

Quem nunca ouviu alguém chamar outro de qualira ou de baitola? Estas duas palavras quese referem aos homossexuais, gays, veados etc... tiveram suas  origens  nos estados do Maranhão e Ceará respectivamente. Como todas as expressões, adágios ou palavras jocosas que usamos na nossa língua tiveram uma razão de ser, uma origem, estas não poderiam ser diferentes. Sobre qualira existem várias versões de como se originou, contudo com relação a baitola existe apenas uma.  Vamos então às origens:

O Wickdicionário (dicionáriolivre) na internet traz a seguinte versão: “termo comum encontrado no Maranhão; de acordo com as pessoas mais antigas do estado surgiu no carnaval, que era basicamente de rua e no qual se apresentavam vários blocos carnavalescos fazendo alegria da população com seus instrumentos musicais e marchinhas de carnaval pelas ruas da capital, São Luís. Dizem que em um desses blocos havia um rapaz afeminado que se destacava por tocar lira (instrumento de cordas dedilháveis ou tocadas com plectro, de larga difusão na antiguidade). Daí sempre que ele aparecia as pessoas gritavam: "la vem ele com a lira" e nisso foi diminuindo a frase "com a lira" até chegar a "qualira". Por ser afeminado o termo foi associado a todos os afeminados do estado. Daí em diante, no Maranhão, todos homossexuais são chamado popularmente de qualira".

Outra versão para qualiraé a que apresentao Dicionário inFormal (SP) também na internet que diz o seguinte: ”no Maranhão recém descoberto no ensino de seus rebentos, e dizem que os moçoilos que optavam pelo instrumento Lira pelo seu porte avantajado (do instrumento) no deslocamento com tal peça das cameratas e bandas os ostentavam com dificuldade, pois tinham de apoiar o peso na lateral da região glútea, acarretando com isso um "rebolado" e todos gritavam "Aí vai um homem(?) com a lira" que por acrossemia virou coalira, e depois pejorativamente e de duplo sentido falando Qualira”.
               
Existe também a versão de que dois amigos assistiam a uma retreta quando um deles apontou um dos músicos dizendo: "aquele alí é viado". "Qual? perguntou o outro. E o primeiro, identificando: "aquele co'a lira" (com a lira). E vai daí... qualira!

O certo é que a palavra tem certa relação com o instrumento musical Lira muito usado nos séculos XVII e XIX.

Já o baitola surgiu na época em que os ingleses estavam construindo as ferrovias no Brasil. Vamos à história.

Veio designado para ser o Superintendente da Rede Ferroviária do Ceará um engenheiro inglês de nome Francis Reginald Hull, o famoso Mr. Hull (pronuncia-se Mister Ráu) que deu nome a uma das principais avenidas de Fortaleza. Mr. Hull era homossexual assumido, porém muito exigente no trabalho. Por conta de sua rigidez muitos dos trabalhadores da ferrovia (peões) não gostavam dele.

Como se sabe os estrangeiros têm dificuldade em pronunciar certas palavras da nossa língua.  No inglês a letra (I) tem som de ai e a vogal (O ) tem o som de ô (como em ovo). Assim Mr. Hull tinha dificuldade de pronunciar a palavra bitola, que significa a distância entreumtrilho e outro. Desta forma sempre que ele ia pronunciar a palavra bitola pronunciava BAITOLA.

 E assim sempre que ele se aproximava de onde estavam os trabalhadores, estes, que não gostavam dele devido sua rigidez e também pelo modo como eram tratados por ele, diziam: "Lá vem o doutor baitola!“Lá vem o doutor baitola”!

A partir daí, no Ceará a palavra baitola passou a ser associada  ao homossexualismo masculino.
Agora os leitores devem estar perguntando: o que tem qualira e baitola a ver com a rapariga de Tutóia? Nada, mas tem a questão da pronuncia das vogais I e O na língua inglesa conforme foi explicado.


Maria, uma rapariga que vivia a esperar fregueses no Porto de Tutóia (isso décadas passadas na época que Tutóia servia de Porto para o Piauí) caiu nas graças de um mexicano que viajava em um navio de bandeira inglesa. O Chico, como assim era chamado,ensinou a Maria um pouco da língua Bretã inclusive os sons dos vocábulos. Clandestinamente conseguiu leva-la no porão de um navio para uma viagem ao estrangeiro. Em Nova York visitarem os principais pontos turísticos da cidade, inclusive o Empire StateBuilding-um arranha-céu de 102 andares à época considerado o maior do mundo. Maria esqueceu-se das lições do Chico e pronunciava as palavras da forma que estavam escritas como se fosse Português.  O Chico pacientemente explicou tudo a Maria novamente... E numa bela noite, ela fala pra ele: “Ô Chaico, traz aai o painaico que eu quero fazer xai-xai”!

terça-feira, 1 de março de 2016

O Brasil na boca dos estrangeiros


O Brasil na boca dos estrangeiros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Gringos adoram o Brasil, será? Há tempos, coleciono opiniões extraídas do noticiário, empresas de turismo, amigos residentes fora do Brasil ou viajam ao estrangeiro.

Começo pela piauiense Maurienne, residente em Estocolmo. Ela apareceu em matéria anterior. Mais uma vez, Maurienne volta para comentar a crônica EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA JÁ ERA: “Hoje mesmo, comentávamos, sentadas em um banquinho muito gelado da praça, entre aulas, eu e uma professora de árabe, iraniana, sobre essa falta de educação moral e cívica. E não falávamos com vantagens para o mundo de cá, não! Parece que o mundo afunda-se no mesmo barco, em todo lugar, infelizmente”.

Americano, casado com brasileira, morou em São Paulo por três anos, odeia morar no Brasil, por diversos motivos: brasileiros são rudes com vizinhos, aumentam volume de músicas, não pedem desculpas quando esbarram a gente; agressivos e oportunistas, não respeitam fila. Querem ganhar vantagem em tudo; não respeitam o meio ambiente, ao despejar lixo em toda parte; ruas sujas; recursos naturais abundantes, mas desperdiçados. Toleram a incrível corrupção. Mulheres excessivamente obcecadas com o corpo; homens e mulheres propensos a casos extraconjugais. Gostam de depreciar e ferir sentimentos alheios. Realizam serviços com certa malandragem e atraso. Ricos se acham no direito além do imaginável, arrogantes, imunes a regras. Brasileiros interrompem conversas - espécie de competição - e gritam. A polícia inexiste, especialmente para com cidadãos simples. Sistema judicial, uma piada. As pessoas vivem atemorizadas, cercadas de muros, pagam taxas elevadas para viverem em condomínios fechados. Demasiadamente tolerantes com a péssima prestação de serviços públicos, especialmente na saúde e educação, na burocracia escandalosa e lenta, na expedição de serviços e documentos. Impostos e taxas exorbitantes, perseguição aos empreendedores. Há uma mentalidade generalizada de que todo rico é desonesto. Como resultado, a corrupção impera entre autoridades e empresários. Qualidade discutível da água. Carros três vezes mais caros que os americanos. Brasileiro adora conversar futilidades, como novelas, Big Brother, Ratinho, Sílvio Santos, música medíocre.

Ao contrário da opinião do americano que odeia o Brasil, estrangeiros, em geral, gostariam de repetir certos hábitos brasileiros em seus países: alegria, bom humor, até nas horas difíceis; abraços cordiais, inclusive com desconhecidos. Na França, são raros e só ocorrem nas famílias. Cordialidade no atendimento em pontos comerciais. Brasileiros se estressam menos que outros povos. O famoso jeitinho brasileiro talvez explique o motivo por que se dão bem lá fora. Compartilhar a cervejinha e comida surpreende muitos estrangeiros, cada qual na sua. Ao contrário de outros povos, brasileiros banham-se até mais de uma vez ao dia, dão carona, festejam e brindam com facilidade, dão risadas e piadas com os deslizes das autoridades.


O riso abunda na boca dos tolos. Menos no Brasil do samba de Chico Buarque, “Mesmo com toda a fama, com toda a brahma / Com toda a cama, com toda a lama / A gente vai levando, a gente vai levando”.