quarta-feira, 6 de abril de 2016

Breve diálogo sem síntese


Breve diálogo sem síntese (Não vale culpar Sócrates, o filósofo)

 Cunha e Silva Filho

*PO:    Sim
*PTA:  Não
PO:     Sim
PTA:   Não

PO:     Sim
PTA:   Não
PO:    Sim
PTA:  Não

PO:    Sim
PTA:  Não
PO:   Sim

PTA: Não
PO:   Sim

Sim
Não
Sim
Não
Sim
Não
Sim, sim, sim, fascista! Coxinha!
Não, não,  não, lula molusco! Petralha! Comunista!

UNHAPPY UNENDED

        AL
           VO
               RA
                     DA!!!
                         
          

             L
             I
             S
            A
            R
            B!
      
       Ubi estis?

 *Partidos da oposição.
 *Partido petista e aliados.

terça-feira, 5 de abril de 2016

COINCIDÊNCIAS

Alcenor visto pelo chargista Fernando di Castro
Prédio da Caixeiral, recentemente reformado pelo SESC-PI



COINCIDÊNCIAS

Alcenor Candeira Filho


I.             COINCIDÊNCIAS  IRRELEVANTES

Depois da publicação de O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA, em 2008, livro que focaliza o assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira, no dia 11 de outubro de 1959, na Praça da Graça, em Parnaíba, praticado covardemente pela família Cavalcante (Clodoveu Felipe Cavalcante, Jamacy Guterres Cavalcante, Clodoveu  Felipe Cavalcante Filho e Veudacy Guterres Cavalcante),  constatei  em suas páginas e em documentos consultados durante  a pesquisa para a realização da obra estranhas e curiosas coincidências,  umas relevantes pelo teor ocultista, outras nem tanto.
Exemplo de coincidência destituída de qualquer apelo cabalístico está estampado no diploma expedido pela Escola Técnica de Comércio da União Caixeiral, em 08 de dezembro de 1954, conferindo a Alcenor  “o título de Técnico em Contabilidade de que trata  o Decreto-Lei nº 6.141, de 28 de dezembro de 1943”, com a assinatura do diplomado e as de seus algozes Jamacy Guterres Cavalcante como secretária e Clodoveu Felipe Cavalcante como diretor.
A sociedade civil União Caixeiral  foi   fundada em 28 de abril de 1918 por 122 comerciários, dentre os quais (ver o jornal O BEMBEM, edição nº 89, de 21.05.2015)  Lívio Ferreira Castelo Branco (n. em Barras – Pi:1876/f. em Parnaíba – Pi : 1929),  Francisco Ferreira Castelo Branco (n. em União – Pi:1897 / f. em Parnaíba – Pi: 1961)  e Fenelon Santana Castelo Branco (n. em União:  1897 / f. no Rio de Janeiro: 1978),  todos parentes próximos (bisavô, tio e avô, respectivamente).
O prédio da Caixeiral foi recentemente adquirido, reformado e transformado pelo SESC no Centro Cultural João Paulo dos Reis Velloso.  Estive presente na festa de inauguração, em 18.04.2015, e até esse dia, como declarei ao jornal O BEMBEM, edição nº 90,  eu não sabia que o estabelecimento de ensino onde meu pai Alcenor Rodrigues Candeira fez o curso técnico em contabilidade, concluído em 1954,  e onde iniciei a carreira de professor  (1971/1976)  tivesse tido, dentre os fundadores, a participação de meu bisavô, de meu tio e de meu avô.
E mais: a data  – 11.10.39  -  relacionada com a fotografia em que aparece Alcenor e seu automóvel,  inserida em O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA,  corresponde exatamente a vinte anos que antecedem o assassinato (11.10.59).
Sem pretensão de ser enfadonho registro ainda a coincidência de eu ter sido no Ginásio Parnaibano aluno dos Clodoveus  - pai e filho -  no ano do crime, como meu pai havia sido no início dos anos 50 na Caixeiral. Ambas as escolas funcionavam em majestosos prédios (tombados pelo IPHAN) situados na avenida Presidente Vargas, onde residiram as personagens centrais do crime da Praça da Graça  -  agressores e agredido –e onde ficava a sede da Prefeitura Municipal de Parnaíba, palco das primeiras desavenças entre a família Cavalcante e a vítima.
Na avenida Presidente Vargas, no imóvel em que era sediada a Capitania dos Portos do Estado do Piauí, a um quarteirão da casa de meu pai, estiveram presos por pouco tempo, logo após o crime, os assassinos detentores de curso superior: Clodoveu e Clodoveu Filho.
Antes de falar de coincidências magnetizadoras, que mais parecem verdadeiras  comunicações do além, desejo  consignar as que houve entre os versos (citados por M. Paulo Nunes na pág. 27 de O  CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA) do famoso poema “Llanto por Ignacio Sanchez Mejias”, de  Federico García Lorca, em que o poeta, envolvido na guerra civil espanhola e fuzilado em Granada pelos insurretos falangistas , chora a morte do toureiro IgnacioMejias, seu amigo, - e os versos do meu poema “Marcas do Trauma”:
                                       “Lasheridasquemaban como soles
                                       a  las  cinco de la tarde,
                                       y el gentio rompia las ventanas
                                       a las cinco de la tarde!
Ay que terribles cinco de la tarde!
Eranlas cinco em todos los relógios!
Eranlas cinco  em sombra de la tarde!”

           (LLANTO POR IGNACIO SANCHEZ MEJIAS)


                                        “nove balas certeiras
                                                    seis punhaladas traiçoeiras
                                                               coronhadas ceifeiras...


                                        e por volta das cinco da tarde
                                        de outubro onze de cinquenta e novembro
                                        magro corpo massacrado morto
                                        no silêncio dos sinos da praça.”

                                                           ( MARCAS  DO  TRAUMA)

II.            COINCIDÊNCIAS  RELEVANTES

Agora passo a escrever sobre coincidências, digamos, de arrepiar
Como primeiro exemplo de ocorrência que, por acaso, parece ter conexão com outra, reporto-me ao poema elegíaco de minha autoria “Passando em Revista”, cujo esboço ficou na gaveta durante vários anos,  à espera da estrofe final que um dia desabrochou espontaneamente, na forma como eu queria.
Segundo o poeta Elmar Carvalho, essa composição significou para o autor uma forma de “catarse”  e se refere ao assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira  em 11 de outubro de 1959, em Parnaíba, na Praça  da Graça. A derradeira estrofe faz alusão ao feriado municipal de 11 de outubro, data consagrada a Nossa Senhora da Graça, a Padroeira da cidade:
                                                  “Foi no dia 11 de outubro,
                                                  fim de tarde , a chacina.
                                                  Os sinos à procissão
                                                  deram toque de silêncio,
    enquanto o sangue na esquina
                                                  pintava todo de rubro
                                                  o mais triste mês de outubro
                                                  que já  vi em minha vida.”


Vários anos depois de ter escrito esse poema, captei com enorme surpresa na segunda estrofe  (“Foi em Parnaíba/na Praça da Graça/ali por onde passa/o povo que passa/que meu pai ao passar/passou”)  o som macabro dos nove tiros que mataram meu pai, provocado pelo uso reiterado da consoante oclusiva/bilabial/explosiva “p”   com efeito de harmonia imitativa ou de onomatopeia.
Embora o recurso sonoro presente na estrofe tenha sido instaurado de propósito, e não por acaso, - o acaso, no caso, decorre do fato de que a letra “p” foi empregada nove vezes de forma não intencional, mas coincidindo com os nove tiros  que, segundo o exame de corpo de delito mencionado em O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA, atingiram a vítima. O poema “Marcas do Trauma”, já transcrito acima  faz  expressa  referência aos nove disparos fatais.
Ainda como exemplo de eventos que, por acaso, parecem ter algumas conexões entre si, lembro os episódios referentes à mudança do Dia da Padroeira da Parnaíba, onde Alcenor Candeira  residiu e foi  assassinado, antecipado de 11 de outubro para 08 de setembro a partir de 1992,  e  à troca da imagem da Padroeira de Santa Quitéria (Maranhão), sua vila/cidade natal, pela da Padroeira da vila)cidade homônima localizada no Ceará. O episódio da troca das imagens foi  evidenciado, conforme transcrição nas páginas 28/29 de O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA,  no romance  A ILHA ENCANTADA, de Renato Castelo Branco:


“Alcenor continuaria rio acima, até alcançar Santa Quitéria.  Santa Quitéria era conhecida como ‘a Vila da Padroeira Trocada’.  Ocorreu  quea vila do Maranhão tinha uma homônima no Ceará. Ambas encomendaram, ao mesmo tempo, imagens de suas respectivas padroeiras a santeiros de Portugal A da primeira era Nossa Senhora dos Aflitos; a da segunda, Nossa Senhora do Carmo. Algum tempo depois de entregues    e entronizadas as imagens, descobriu-se que houvera uma troca. Mas  os devotos de ambas as vilas recusaram-se a permutá-las.  E a Nossa Senhora do Carmo permaneceu no Maranhão, como Nossa Senhora dos Aflitos. E a Nossa Senhora dos Aflitos permaneceu no Ceará, como Nossa Senhora do Carmo.A troca  de nome não arrefeceu, entretanto, a devoção dos fiéis.E anualmente, no dia da Padroeira de Santa Quitéria do Maranhão,  vinha gente das vilas vizinhas de São Bernardo, de Brejo de Anapurus, de Luzilândia participar dos estrondosos festejos de Nossa Senhora dos Aflitos que culminavam em bailes famosos no palacete do coronel Raimundo Candeira, pai de Alcenor.”

               (CASTELO BRANCO, Renato Pires. “A Ilha Encantada”. 
                           São Paulo, T. A. Queiroz, 1992, p. 82/83)


III.          CONCLUSÃO

Diante das coincidências aqui assinaladas, quero concluir com a declaração de que  -  embora nunca tenha sido dado às coisas do além, do mistério, da magia, da cabala, enfim do esotérico  -  me sinto doravante fortemente inclinado a mergulhar nas ciências ocultas.

                                                                    Parnaíba, Abril de 2016.    

segunda-feira, 4 de abril de 2016

No reino dos jabutis trepados


No reino dos jabutis trepados

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

       Entrei na livraria para completar o estoque da obra, Escorregões no Português. Logo me deparei com notável jornalista que folheava uma obra de Graciliano Ramos: “Zé, sou devorador de livros. Não admito exercer a profissão sem cultivar as letras, apreciar grandes escritores, dos quais extraio lições e modelos de produção de texto”.

      A conversa desembarcou na  análise de conhecidos jornalistas e colunistas de textos enxutos e profundos; ou de outros de períodos longos e tortuosos, argumentação rasa. Estes até conseguem postos de trabalho, frequentam banquetes, amealham prosperidade. Inserem-se no reino de jabutis trepados. Categoria de outras patentes, por aí, que arrota poder e fortuna, sabe Deus de qual origem, sem mérito nem dignidade.

         Adágio popular explica o sucesso e prosperidade da classe de oportunistas, políticos, gestores públicos, empresários: “Jabuti trepado, foi por enchente ou mão de gente”. Inebriados por se instalarem no alto da árvore – diga-se, pirâmide – confundem a opinião pública com certificados de mérito nenhum. Privilegiados posando de chefes, magistrados, ministros, diretores, secretários, sem talento.

      O poder político age de forma organizada. É um verdadeiro exército de políticos e executivos, que marcham sobre o erário público, sem piedade. E nada lhes acontece, porque as forças da oposição são impotentes para convocar e colocar esses ratos no banco dos réus.

      Com dinheiro alheio é fácil se fazer política, prosperar a empresa, conquistar prestígio social. Jabutis trepados, à custa das mãos calejadas dos que trabalham.

      A população, em geral, desconhece e afaga jabutis trepados, hoje proprietários de pomposas empresas. Que iniciaram negócio, vendendo para prefeituras, Estado e secretarias, em cretinas transações. Quando fisgados por fiscais fazendários, ameaçam transferirem-se para outros rincões. Ou corrompem autoridades.

      Em encontro com amigo, em churrascaria de Teresina, competente professor universitário confidenciava-me que fora escolhido pelo governador para assumir a Secretaria de Administração. Fui curto e direto: “Quer conselho? Não aceite! Sua ética e moral não combinam com a esperteza do governador e de alguns empresários corruptos.” Dito e feito. Meses depois, empresário de revenda de carros entrou no gabinete do gestor, final de expediente de sexta, exigiu-lhe que assinasse, urgentemente, uma nota de empenho e compra de carros oficiais. O secretário pediu-lhe que aguardasse a semana seguinte, para analisar a compra. O arrogante empresário cobrou-lhe pressa. O secretário bateu-lhe a porta: “Cai fora, seu corrupto!” O arrogante ameaçou-o: ”Na próxima semana, quem vai sair daqui será você!”. E foi.

      No reino dos jabutis, não há vagas para consciências puras. “Vós não sois deste mundo, por isso, o mundo vos odeia, como odiou a mim.” Eis um grande adágio de Cristo.    

domingo, 3 de abril de 2016

Seleta Piauiense - Martins Napoleão


Prelúdio

Martins Napoleão (1903 - 1981)

As árvores aqui são tão altas
que as estrelas cansadas dormem nos seus galhos.

E há tanto silêncio nos seus vales
que o sol da tarde para, admirado, em cima das montanhas.

Os pássaros têm um canto tão bonito
que a madrugada nasce mais cedo para os ouvir.
E a noite é tão clara
que as almas pensam que seja um lago de se banharem.

Há tanta riqueza
que as águas mortas dos pauis brilham de noite
fabulosamente:
é um delírio tão grande como o da febre dessas águas.

A luz, de tão intensa,
atravessa a alma dos meus patrícios:
é por isso que há tantos poetas
na minha terra.     

sábado, 2 de abril de 2016

MIMBÓ, UM PEDACINHO DA ÁFRICA

Virgílio Queiroz em visita ao Mimbó


MIMBÓ, UM PEDACINHO DA ÁFRICA

Bebeto Soares

            MIMBÓ – trata-se do nome de uma antiga comunidade da Zona Rural de Amarante, a 20 km do centro da cidade. Pesquisadores, historiadores e imprensa de várias partes do Brasil, sempre visitam o povoado para colherem junto aos mais velhos “mimboenses”, a origem e cultura daquele povo simples e acolhedor.
           O professor e jornalista amarantino, Virgílio Queiroz, foi um dos pioneiros a levar o nome “MIMBÓ” para o mundo, através de seus valiosos escritos, expressivas palestras e entrevista aos grandes comunicadores do país. A memorável cidadã amarantina, historiadora, poeta e escritora Emília da Paixão Costa (Bizinha), membro da cultura amarantina, também há longos anos, forneceu dados preciosos sobre aquela comunidade para várias pessoas, a exemplo da saudosa historiadora amarantina Nasi Castro.
          Nestes últimos anos, o povoado é tratado também como QUILOMBO MIMBÓ devido o seu povo ser de origem africana. Idosos da comunidade contam que tudo começou há mais de cento e cinquenta anos atrás, quando três negros escravos, os irmãos: Francisco, Laurentino e Pedro e as irmãs: Antônia, Benedita e Rita, fugiram de uma fazenda da região de Oeiras, na época, Capital do Piauí, para a Zona Rural de Amarante. Os escravos, temerosos de capturas e grandes castigos de seus donos, se esconderam num lugar de difícil acesso repleto de grutas e penhascos nas imediações do riacho Mimbó e rio Canindé. Lá encontraram Antônia, Benedita e Rita, pertencentes a um grupo de negros que já residiam na localidade, e constituíram matrimônio.
         Contam ainda que a família Rabelo da Paixão, considerada descendente dos escravos fugitivos é precursora do crescimento populacional e desenvolvimento social da comunidade MIMBÓ. Muitos anos depois, as famílias “mimboenses” instalaram residência numa área plana, próxima da inicial moradia dos escravos fugitivos, onde vivem até hoje. Para os mimboenses subirem para a parte plana, abandonando as antigas moradas, foi necessário o convencimento dos professores Cineas Santos e Virgílio Queiroz que justificaram a mudança como algo benéfico para os habitantes, pois a parte alta fica perto da BR, facilitando assim o intercâmbio do MIMBÓ com Amarante e outras cidades. Além disso, havia o problema de doentes que precisavam de tratamentos médicos e a subida até a parte alta era muito difícil. O primeiro a subir foi um dos troncos da comunidade, Pedro Rabelo da Paixão.

         Nestes últimos anos, formou-se o ASSENTAMENTO HABITACIONAL MIMBÓ com a maioria de descendentes de escravos, próximo à antiga moradia e à BR 343.  

sexta-feira, 1 de abril de 2016

APL convida para lançamento de livros


Academia Piauiense de Letras

  


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: História, Literatura, Sociabilidade, nº 27, de Teresinha Queiroz; Poesia Completa, nº 31, de Lucídio Freitas; Limites entre os Estados do Piauí e do Maranhão e Questões Territoriais, nº44 – 3ª edição, de Antonino Freire; completando a Coleção Centenário e  começando a Coleção Século XXI, Artigos de Primeira Necessidade  nº 2; Lázaro do Piauí; Oligarquia Pires Ferreira: Família e Poder Político no Piauí (1889-1920) nº 3, de Maria Cecília; bem como O Hortigranjeiro e a Médica, de Rita de Cássia Amorim Andrade.

Nelson Nery Costa 
Presidente

 

       Data: 2 de abril de 2016 (Sábado)
Horário: 10hs9h 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
       Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86)  3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI

“QUE UM DIA ESSA TRISTEZA TENHA FIM”


“QUE UM DIA ESSA TRISTEZA TENHA FIM”

Jacob Fortes

Certa feita uma agremiação política fez tremular uma bandeira que continha slogan tão contagiante quanto o dístico, em latim, (Libertas Quæ Sera Tamen,) que a conjurada Bárbara Heliodora cunhou na lindíssima bandeira dos INCONFIDENTES. Refiro-me ao Partido dos Trabalhadores, PT, que idealizou e hasteou uma bandeira nas cores da ética para simbolizar a retidão, o sentimento de salvação nacional. Professando-se ético, o PT despontou no cenário político prometendo tudo: desde tratamento judicioso para todos ao rejuvenescimento da velhice. Foi dessa maneira, propalando farta messe que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder em 2002.  Todavia, ao apossar-se das rédeas do País esse partido político mudou de ideia quando se deparou com uma vacaria, pródiga em leite, estabulada no seio do governo.  A vacaria não lhe pertencia, mas era cordata; se deixava mungir. E assim, desenfadando-se nos apetites de uma ordenha que lhe era palatável, o PT acabou olvidando-se do ideário que lhe permitira chegar ao topo. 
Na sequência dos dias, e principalmente das noites, os escândalos se sucedem em níveis que já não cabem mais nos noticiários. À notícia de mais um escândalo o brasileiro, escorchado, se convence do significado embusteiro que é a ética petista. A Ética que fora hasteada no mastro da retórica (esta o vento dissipa) derruiu-se. Daquela ética contagiante que ecoou durante a reluzente aurora petista restou apenas decepção; retratada pelas multidões, às ruas, por verem o Brasil mover-se para trás. E quando reptado acerca das cifras bilionárias que foram furtadas o PT argui que os governos que lhe antecederam saquearam quantias ainda maiores. A justificação, insubsistente, em vez de remir, embaça ainda mais a estrela que encerrava tanta grandeza. Não se pode atear fogo nas cidades e nas creches por que Nero o fez, em Roma. Se o meu irmão furtou eu também o farei?  Ou seja, a conduta alheia é tomada por empréstimo para amparar o malfeito.
Ao evolarem-se os princípios éticos que faziam consistir o orgulho petista, sobrerrestou a lenda; opaca, sem fleuma. Pior: o PT — que inscreveu o seu nome no imenso rol daqueles que insistem em se distinguir envergando o uniforme da desonra — acabou por tornar-se uma página enlutada na história da política nacional. Mas ficou a lição de que as façanhas da mentira são menos duradouras que as glórias da verdade. (Não queira um aquilino fazer-se passar por colombino inocente; as diferenças são enormes).
Ao povo, vexado pelo governo, falta paz, sossego!!! “Não procuro um país, especificamente, procuro a paz” (Garotinho afegão, refugiado, que perdeu os pais na guerra, falando aos alemães). Enquanto os refugiados, cheios de aflição, vagueiam pelos continentes à procura de uma pátria que os adote, os brasileiros se hão legítimos possuidores de uma pátria diamantífera, porém de reputação lesada pela indecência na política. Por quantas vezes mais o povo irá às ruas pedir decência e paz?

Enquanto o governo do PT, — que embarga o desenvolvimento nacional com sua conduta trágica – se houver indigno do papel de fiel depositário dos anseios e do suor do contribuinte, o povo, lutuoso, viverá sem paz, em desassossego às ruas. “[...] que um dia essa tristeza tenha fim”.   

quinta-feira, 31 de março de 2016

O TRIUNFO DO TREMEMBÉ




Os aventureiros comemoram, com dois visitantes, o sucesso da expedição Barra do Longá e o triunfo do super Tremembé

O TRIUNFO DO TREMEMBÉ

Elmar Carvalho

Na sexta-feira desta Semana Santa saí direto de Teresina para a Várzea do Simão, com o objetivo de inaugurar, no sábado de Aleluia, o motor de popa Yamaha, 15 HP, dois tempos, que comprei através da internet na Paraqueda Náutica, por indicação do amigo Roberto Carlos Sales da Silva, brioso delegado da Polícia Civil do Piauí, de cuja Academia é reitor.

O equipamento se destinava a mover o pequeno barco de alumínio, que designei como Tremembé, em homenagem aos bravos indígenas, que antigamente percorriam o delta do Parnaíba. A saga desse barco, como muitos de meus leitores sabem, foi infelizmente inglória. Farei, como dizem os juristas em seus floreios de linguagem, uma apertada síntese.

O projeto inicial era muito simples e muito modesto. Comprei um barco inflável modelo Cheyenne 500, através do site da loja Submarino. Fiz duas viagens, sem nenhum acidente ou uso indevido. Quando fui usá-lo pela terceira vez, no intervalo de apenas três meses, descobri que o equipamento estava descolado, na parte que liga o fundo à borda, o que o tornou inservível.

Fiz contato com a Submarino, para que resolvesse o problema, mas ela se negou a isso, alegando que já se passara mais de sete dias. No meu parco entendimento, essa empresa deveria encontrar uma solução, já que se tratava de defeito oculto (ou vício redibitório), podendo ela, depois, usar o chamado direito de regresso contra o fabricante, sediado no estrangeiro, mas não empurrar a parte mais fraca para resolver esse ônus.

Logo constatei que o motor de 2,6 HP que eu havia comprado para o barco inflável era insuficiente para o barco de alumínio que eu adquirira por causa do defeito do inflável. Fui aconselhado pelo advogado Carlos Eduardo, experiente em motonáutica, a adquirir um de 15 HP, que seria o ideal para o tamanho e peso do meu casco. Então, seguindo a orientação do comandante Roberto Carlos, sempre em ritmo de aventura, fiz o negócio referido no primeiro parágrafo.

Como o comandante Natim Freitas, que antes demonstrava ser um panteísta, dissesse que havia feito uma promessa com Santa Luzia, padroeira do povoado Barra do Longá, seguimos eu, ele, Francisco Ribeiro e o Didi para essa localidade, distante aproximadamente 18 km a montante. O rio Parnaíba estava muito cheio, com forte correnteza. Após a ponte do Jandira, percurso por nós desconhecido, vimos belas paisagens, sobretudo agora, em que se mostravam verdejantes, por causa das chuvas.

Em certo trecho, vimos uma comunidade, talvez familiar, com as casas encarapitadas em imponente morro, situado numas das curvas do Velho Monge. Noutro local, umas grandes pedras formavam uma espécie de estreito, que tornavam as águas revoltas. Nosso hábil timoneiro venceu essa corredeira, sem nenhum acidente ou sobressalto.

No decorrer da viagem o Natim, com o aval do Francisco Ribeiro (que em seus 73 anos de vida demonstrou mais vitalidade e preparo físico que nosotros), nos contou que seus saudosos avós João Simão e Filomena, meus sogros, na embarcação Borboleta, com a ajuda de uma vela, iam participar dos festejos de Santa Luzia. No retorno, embora a correnteza fosse a favor, o vento soprava em sentido contrário, de modo que a vela era arriada. Por esse motivo, os filhos Pedro, Beré e Zuza, na época jovens e fortes, empunhavam os remos com todo vigor e velocidade.

Atracamos na comunidade Barra do Longá, em local perto da ermida. O mestre Natim se dirigiu ao templo, que se encontrava fechado. Ante esse óbice, ele espalmou suas mãos sobre a madeira da porta e rezou contrito, como convinha. A viagem de retorno, rio abaixo, não teve, felizmente, nenhum percalço ou acontecimento notável, com exceção do vento forte, que provocava fortes ondulações, quase pequenas pororocas, nos causando a sensação de cavalgada fluvial.

Enfim, chegamos ao nosso porto seguro. Após retirarmos o triunfante Tremembé do rio, fomos comemorar a venturosa aventura na Toca do Velho Monge. O Natim Freitas nos esclareceu que em suas orações pedira que uma forte chuva caísse sobre a Várzea do Simão. Outrora os coronéis da política interiorana eram chamados algo talvez ironicamente de mandachuvas. Logo após suas palavras, uma torrencial chuva nos afagou a pele, tornando a tarde mais agradável e mais abençoada.

O autoproclamado mago Paulo Coelho, autor de O Alquimista, O Diário de um Mago e A Bruxa de Portobello, afirmou ver anjos e que sabia produzir chuva, embora tenha acrescentado, numa crise de humildade, que vira apenas as asas angélicas, e que esses atributos não eram importantes. Assim, tenho como certo que, atualmente, apenas o bruxo Paulo Coelho e o comandante Natim Freitas fazem chover.

Estou até pensando em mudar o nome do Natim, por causa de sua bravura, para Mandu Ladino, o grande líder indígena, que comandou a confederação tribal de que faziam parte os Tremembés, já que ele é também intrépido piloto do agora super Tremembé, de gloriosa saga, apesar de todos os percalços e embaraços, que já enfrentou.  

terça-feira, 29 de março de 2016

O circo chegou!


O circo chegou!

José Pedro Araújo
Historiador, cronista e historiador

A notícia corria chão e virava o mote das conversas nos botequins, nas esquinas e nas ruas da cidade modorrenta. Um velho e fumarento caminhão International acabara de chegar trazendo a trupe de artistas juntamente com toda a estrutura do Circo, noticiavam algumas pessoas com ar de imensa satisfação estampada no olhar. Acontecia assim na nossa velha e querida aldeia sertaneja do Curador quando um Circo, por mambembe que fosse, chegava à cidade pequenina dos idos da minha infância. A comunidade se agitava e as ruas enchiam-se de gente para observar a passagem do grupo empoeirado, rostos cansados, que acabava de chegar da vizinha Dom Pedro, onde estivera instalado nos dias anteriores.

Empoleirado na janela da minha casa, meus olhos curiosos tentavam adivinhar quais seriam as principais estrelas do espetáculo que se iniciaria já no próximo final de semana, dali a dois dias: aquele mais animado, sorriso aberto, gesticulando muito, deveria ser o palhaço, enquanto que o rapaz de porte atlético e postura convencida, deveria ser o trapezista principal, não restava dúvidas; já a mocinha com cara de enfado, lenço colorido cobrindo a cabeça para proteger os cabelos da poeira vermelha seria, sem medo de erro, a principal atração feminina, aquela que se apresentaria em trajes sumaríssimos e excesso de lantejoulas, purpurina e miçangas enfeitando a alegre vestimenta que deixava à mostra as belas e torneadas pernas de vedete. Estavam todos aboletados em um velho e enferrujado Jeep Willys que abria o cortejo da alegria e seguia lentamente para a velha Praça do Mercado.

A chegada de um Circo na cidade era motivo de alegria e regozijo para a garotada nestes sertões faltos de tudo, especialmente de atividades de lazer. Instalados no lugar se sempre, atraiam gente de todas as idades para assistirem ao espetáculo que começava, invariavelmente, às sete da noite. E com o propósito de observar de perto a novidade, de todas as ruas, becos e vielas, famílias inteiras acorriam ao local para admirar o frenético vai-e-vem do pessoal encarregado de proceder aos últimos ajustes para deixar o Circo pronto para dar inicio ao primeiro espetáculo daquela turnê na cidade.

Na maioria das vezes, tratavam-se de pequenos Circos mambembes, empanadas de chita ruim, um único trapézio onde um aprendiz de trapezista fazia algumas estripulias simples, para desgosto daquelas pessoas que já haviam assistido a espetáculos bem mais elaborados. E nesses casos, quem salvava a noite era mesmo o palhaço, garantindo a alegria com uma performance engraçada e seu jeito estabanado de se apresentar. Enquanto isto, no palco pobre erguido em frente ao picadeiro, protegida por uma cortina desbotada, uma velha vitrola emite em alto e fanhoso som uma música característica das apresentações de palhaços. A emoção estampada no rosto da plateia era o atestado de aprovação ou desaprovação do espetáculo. 

Vez por outra, aparecia também algum circo com melhor estrutura, lona colorida e bem conservada, trazendo uma trupe bem maior e até mesmo alguns animais exóticos. Esses já possuíam os três trapézios, além de trapezistas de maior gabarito. Chegavam em uma frota de caminhões mais novos e arrastavam atrás de si vários trailers para acomodação dos artistas do espetáculo. Esse tipo de Circo era raro. Mas, fomos brindados algumas vezes com alguns deles, para delicia dos aficionados.

Depois disto, de observar o circo instalado, era hora de correr atrás do ingresso para assistir a apresentação de logo mais a noite. Como o dinheiro estava sempre em falta, só tínhamos duas possibilidades de adentrar ao recinto do Circo: a primeira delas era ofertada pelo palhaço que saia pelas ruas da cidade conclamando o pessoal a assistir ao espetáculo de logo mais à noite. Atrás dele a meninada ia repetindo os conhecidos refrãos: “Hoje tem espetáculo? – gritava o palhaço – “Tem sim, senhor”! – replicava a meninada. “Às sete horas da noite”? – continuava – “Tem sim, senhor”! – “Hoje tem marmelada”? “Tem sim, senhor”! “O brilho do Sol esconde a Lua”! “Olha o palhaço no meio da rua”!, repetia a criançada em procissão. E assim seguia-se pelas ruas da cidade. O término da propaganda era exatamente na frente do Circo, local também da partida. Nesse momento eram distribuídos três ou quatro ingresso, o que causava um tumulto enorme no meio da criançada. E não foram poucas as vezes em que a disputa das mais de vinte crianças pelos poucos ingressos terminava em tapas e empurrões.

Perdida essa primeira oportunidade, restava a última chance de se entrar no recinto circense: “varar” o Circo, como chamávamos a invasão pura e simples, e sem pagamento. Esta, porém, não era uma tarefa fácil de se fazer. Escaldado com as costumeiras invasões da moçada, os donos do Circo tentavam evitar esse procedimento de todas as formas, colocando vigias no entorno da lona. Cercas de arame farpado com muitos fios, era a forma mais comum de proteção, mas que, na maioria das vezes, não evitava que um ou outro menino mais atrevido conseguisse penetrar no recinto para assistir ao espetáculo, coração aos pulos e olhos esbugalhados de admiração.

Uma forma eficiente de penetrar no recinto foi por mim posta em prática, com grande grau de acerto: deslocava uma das tábuas da grade de madeira que ficava próxima ao guichê – tarefa realizada cedo. E uma vez despregada, era posta novamente no lugar, e ficava somente encostada. Depois, já noite, aproveitando-me da hora de maior tumulto na fila para aquisição de ingresso, afastava rapidamente a tábua e entrava-se agilmente, voltando a peça de madeira ao seu local sem que ninguém testemunhasse. Estava consumada a ação. Algumas vezes, contudo, algum desalmado que se encontrava na fila, nos dedurava para os vigias. Ai era uma correria para nos escondermos no meio da multidão, coisa que nem sempre funcionava a contento.


De qualquer maneira, o Circo sempre era motivo de animação nas remotas comunidades sertanejas, como de resto acontecia em todos os recantos desse imenso país desde o século XIX, quando vieram para cá as primeiras companhias circenses trazidas por Ciganos expulsos de seus países de origem na Europa. Mas, além da alegria, eles traziam também alguns problemas para as famílias dessas comunidades interioranas. Não foram poucas as vezes em que esses saltimbancos levaram consigo, às escondidas, algumas moças da cidade, embevecidas e atraídas pelo charme dos espetáculos circenses e pela possibilidade de conhecerem novas terras. Velhos tempos! Belos dias!    

segunda-feira, 28 de março de 2016

Professor Alcenor Candeira Filho e a OAB/Parnaíba


Recebi o seguinte comentário, que julgo oportuno publicar:

Prezado e estimado Elmar Carvalho,

Sobre a manifestação do Professor Alcenor Candeira, também ilustre advogado parnaibano, a respeito da sessão da Câmara Municipal por ocasião de aniversário de criação da subsecção da OAB em Parnaíba, venho, embora com atraso, manifestar-me e declarar que Alcenor Candeira registrou bem os fatos, tendo sido daqueles que grande emprenho teve para a criação da subsecção. Solidarizo-me, pois, com o mestre e colega Alcenor Candeira. Por justiça, entendo que ele também merece ser homenageado, ficando esta minha manifestação como a devida homenagem. E que estendo a todos os demais que participaram da empreitada, e não tiveram seus nomes registrados na sessão de homenagem na Câmara Municipal, eventualmente.
Caro Elmar Carvalho, tentei enviar comentário direto ao seu blog sobre a citada manifestação, mas não tive sucesso, certamente por ter equivocado-me quanto ao modo de fazê-lo no espaço próprio aos comentários. Por isso é que lhe envio o presente e-mail.
Um abraço,

Marcos Antônio Siqueira da Silva
Defensor Público

domingo, 27 de março de 2016

Seleta Piauiense - Isabel Vilhena


A árvore

Isabel Vilhena (1996 – 1988)

O pequenino vegetal que agora
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.

Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!

Plantaste o berço.  E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.

E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!

sábado, 26 de março de 2016

Ovos de páscoa, uma ova!


Ovos de páscoa, uma ova!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Semana Santa, morte e ressurreição de Cristo. Somente ele, e não mais ninguém, veio ao mundo para romper o mistério do destino humano depois da morte. Jesus aceitou o aniquilamento de seu corpo, para logo ressuscitar. Prova de amor à humanidade, duvidosa da existência de outro lado da vida. Que só à luz da fé nas suas palavras para decifrar e aceitar fantástico mistério, que se repetirá conosco, conforme promessa do Mestre. Que a felicidade eterna se alcança, praticando misericórdia com o próximo, despojando-se do egoísmo exacerbado à vida material.

A sociedade moderna, pautada no consumismo e bens de capital, transforma as representações do sagrado em produtos de mercado, desviando-se de sentido mais sublime da espiritualidade.

No natal e páscoa, o homo religiosus contemporâneo direciona suas relações com o sagrado, comercializando apenas bens simbólicos da religião.  Esta demanda fortalece a constituição de um mercado de consumo, especializado na oferta daquilo que está, especialmente, na mesa. Uma espécie de religiosidade de glutões, e não de crentes.

Símbolos natalinos e pascais transformam-se em produtos mercadológicos, na hipócrita impressão de fé. Cristãos primitivos traduziam a fé com a pedagogia dos símbolos, sem intenções mercadológicas: ovos simbolizavam a ressurreição de Cristo: assim como o pinto sai do ovo, espontaneamente, Jesus libertou-se do sepulcro. A fertilidade do coelho retratava a fertilidade da graça em Jesus. Em tempo de jejum, substituía-se a carne vermelha por modesto peixe. A apelação comercial moderna, porém, explora antigas tradições com o consumo fantasiado de religiosidade. Os preços disparam, e a espiritualidade reduz-se a paganismo, “cujo Deus é o ventre”, no dizer de Paulo apóstolo.

Ouro, incenso e mirra, presentes oferecidos pelos reis magos, na gruta de Belém, servem para movimentar gigantesca indústria de papai Noel, em dezembro. O período da quaresma, com restrições ao consumo de alimentos, antecipa-se, porém, com o carnaval de nudismo, comilança e devaneios pagãos. E espírito religioso às favas.

A fé industrializou-se em ovos de páscoa, coelhinhos, papai Noel, receitas de pratos raros, caros, de nenhuma aliança com o transcendental. A televisão se enche de reportagens ao sagrado, associadas a superficialidades, superstições e crendices, quase sempre aceitas como “fé popular”, mas sem atingir o verdadeiro sentido da fé inteligente e menos emocional.

Criei-me em família cristã. Meus pais e uma vida modesta. Conceitos de virtudes e de vida santa, exemplos repassados aos filhos. Éramos abençoados porque aprendíamos, desde cedo, a exercitar a presença de Deus na família conjugada à Igreja.

O mal atravessa gerações, quando se negligencia o exercício das virtudes. O bem vai mais além, rompe até quarta ou mais gerações. Graças à educação recebida no ninho de meus pais, depois em seminário franciscano. A indústria do consumo não me seduz, na tentação do fruto paradisíaco. Ovo de chocolate com mensagem pascal, uma ova! Vai-te satanás!   

sexta-feira, 25 de março de 2016

BEM-AVENTURANÇA


BEM-AVENTURANÇA

João Borges Caminha
Advogado, articulista, historiador e professor inativo da UFPI

Bem-aventurado aquele pai em cujo aniversário mereceu, ainda vivo e consciente, a dedicatória e lançamento de um significativo livro de memórias. Este fato aconteceu em 05.01.2016, quando o Sr. MIGUEL ARCÂNGELO DE DEUS CARVALHO completou 90 anos de idade, em pleno gozo de suas faculdades físicas e mentais, louvado e agraciado por todos os seus filhos, familiares e amigos, cujo evento ficou marcado em admirável esboço de memórias da lavra de seu filho, escritor famoso, JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO.

            Ao prospecto atribuiu a designação de RETRATO DE MEU PAI. HOMENAGEM AOS SEUS 90 ANOS DE VIDA. Elmar é escritor e poeta renomado cuja vocação assimilou ainda no berço. Tem centenas de escritos publicados ou não entre prosa, verso, sonetos e novelas. Pertence à Academia Piauiense de Letras – APL e a todas as instituições culturais em terras piauienses, de que nem de seus nomes me lembro e, por isso, deve ser frequente e continuamente lido por todos d’aqui e d’além.

            Li com atenção o dignificante trabalho, de estilo claro, preciso, conciso, de 52 páginas, desta feita totalmente em prosa, a não ser na folha 10, quando ditou versos de Da Costa e Silva para recordar bois de serviço, carros e engenhos de madeira de uso no passado que, recordando, o homenageado fez como dever de casa para sua inesquecível escola.

            No brilhante resumo, relatou a vida familiar do casal inclusive de sua falecida mãe Dona Rosália entre as páginas 7 e 31, ora recordando os primeiros empregos do pai, sejam na Casa Marc Jacob, Inglesa ou definitivamente no antigo DCT ou ECT posteriormente (7 a 12). Registrou, também, a genealogia resumida de familiares, fixando suas origens entre Barras, Piracuruca, Piripiri e depois suas residências em Barras, Campo Maior, Francinópolis, Parnaíba ou Teresina (PI), por necessidade do serviço (13/16).

            Num capítulo à parte descreveu a saga da volta de seu pai em 2007 à cidade de Francinópolis (antigo povoado Papagaio) onde ingressou no DCT em 1957 e ali morou mais de ano. Com familiares e amigos descreve a viagem até Elesbão Veloso e desta àquela. Ali chegando, reviveu a terra onde ingressou no último emprego citado, que lhe permitiu viver condignamente com sua esposa e filhos. Reviu a natureza, sua adaptação pelos habitantes, as árvores frutíferas ou não, o terreno e seus morros com altos e baixos, o cemitério em seu cimo, as ruas novas ou antigas, prédios oficiais ou não e as pessoas, idosas ou jovens, notícias dos falecidos e dos vivos, inclusive o admirável progresso atual da cidade de Francinópolis. Foi fotografado um pouco de tudo para as atuais e futuras gerações do aniversariante.


            Completaram o excelente esboço com chave de ouro as comoventes mensagens dos filhos, netos, amigos, além de outros e a memória fotográfica pontificada de fls. 35 a 52. O epíteto do trabalho não retrata tão somente as fotos da capa dos 90 anos de vida de um homem e mais um pouco, mas, muito mais ainda, mostra sua vida de trabalho, dedicação, prudência, coerência, altivez, humildade, zelo, dignidade e bem-aventurança. Eis aí, pois, a certeza da adequação do título ao texto. Quem dentre nós outros cidadãos honrados, cumpridores de seus deveres para com a Família e a Pátria não gostaria de receber tão merecida e digna moção, ainda em vida? 

quinta-feira, 24 de março de 2016

FRANCISCO CARDOSO E SEUS OITENTA ANOS DE VIDA

Francisco Cardoso, esposa, filhos, genros, nora e netos

O aniversariante com familiares e convidados


FRANCISCO CARDOSO E SEUS OITENTA ANOS DE VIDA

Elmar Carvalho

No dia 12 de março, no salão Vip do Iate Clube de Teresina, Francisco Cardoso comemorou suas oito décadas de existência, e aproveitou para lançar o seu mais novo livro – Solar dos Furtados. Havia me pedido para eu falar nessa solenidade. Como não me tenha sido possível compulsá-lo antes, resolvi dizer algumas palavras sobre seus livros anteriores, que conhecia bem. Tentarei fazer um resumo do que disse.
Sobre Memórias da adolescência ressaltei que ainda lhe conheci o embrião, manuscrito em grafite. Certo dia do ano de 1993 ou 1994, Francisco Cardoso me apareceu na extinta SUNAB, que então funcionava no prédio do Ministério da Fazenda, atendendo recomendação, acredito, de seus sobrinhos José Ataíde e Carlos Cardoso, irmãos maçônicos e velhos amigos. Conversei com ele e lhe dei algumas sugestões, no que fui coadjuvado por Adrião Neto, também fiscal dessa autarquia federal.
O livro foi editado um pouco depois e continha prefácio de minha lavra. Foi ilustrado por versos e fotografias de minha autoria, para minha honra e gáudio. Foi feita uma segunda edição, praticamente fac-similada. É muito importante para a história recente ou imediata de Campo Maior, uma vez que, de forma sucinta, narra episódios interessantes e engraçados de pessoas do povo, mas que faziam parte da paisagem humana da cidade; muitas marcaram época por suas idiossincrasias e excentricidades.
O autor, dotado de memória prodigiosa e detalhista, traça o perfil biográfico e psicológico de cachaceiros, boêmios, seresteiros, instrumentistas, prostitutas, operários etc., ao tempo em que narra episódios hilários, interessantes ou mesmo pungentes, de que eles foram protagonistas. A obra também contempla narrativas lendárias, que mais cedo ou mais tarde poderiam cair no esquecimento, em face da fragilidade da história oral.
Em suas páginas desfilam figuras como Bodão, Corega, Poldra, Zé Bocoso (este tinha fama de virar lobisomem, nas noites de plenilúnio), Chagas Porca, grande sanfoneiro, que ainda tinha a habilidade de dançar com alguma cachopa do meretrício, enquanto tocava o seu instrumento musical. Alguns desses perfis foram publicados em Geração Campo Maior – anotações para uma enciclopédia, de Reginaldo Gonçalves de Lima, já falecido, obra notável que tive a honra de prefaciar, e que bem merece ser reeditada, pela sua importância historiográfica e cultural para Campo Maior.
Na parte autobiográfica, em que são contados fatos de sua meninice, adolescência e juventude, constam episódios que encerram lição de vida, e outras façanhas jocosas. O texto que mais me provocou gargalhadas está contido nesse livro, sob o título de Jumento Preto. Já o trecho intitulado Morte de um amigo, que narra o sacrifício do cachorro Rex, de forma quase covarde e ingrata, me provocou funda tristeza, porque me fez recordar nossas saudosas cadelinhas Anita e Belinha. O autor discorre ainda sobre costumes, culinária, festejos e folguedos campomaiorenses, além de alguns fatos, como crimes ou traições, que tiveram muita repercussão na época.
Muito do que foi dito sobre Memórias da adolescência é aplicável ao Memórias de Campo Maior. Acrescento que neste último foram citados os principais sobrados, casarões e logradouros, muitos já destruídos pela incúria do Poder Público e pela falta de sensibilidade de particulares. Foram mencionadas “figuras da noite”, tais como Vicentim, Maria Pau-d’Arco e Mira, donos de freges (misto de restaurante popular e botequim).
Relatou Cardoso como era feito o abastecimento d’água, em geral por meio de “roladeiras” ou de carroças com pipa, cujas águas eram retiradas de cacimbas à margem do Açude Grande ou trazidas da localidade Lindoia, muito afamada pela qualidade do precioso líquido. Falou ainda de transportes e do comércio, inclusive do extrativismo da maniçoba, tucum, cera de carnaúba e babaçu.
Cardoso narrou, como já disse, muitos casos curiosos ou humorísticos. O autor, com riqueza de pormenores e com sua maneira peculiar e engraçada de contar “causos”, é mestre em provocar o riso ou em atrair a atenção do leitor. Em minha meninice cheguei a ouvir umas buzinas fortes e melódicas, verdadeiros instrumentos musicais altissonantes. Como nessa época tudo era analógico, pensei que existisse nelas algum mecanismo de corda, semelhante aos de realejos e caixas musicais. Cardoso, todavia, nos esclarece que as buzinas eram ligadas a um teclado, que o motorista, com dote artístico, dedilhava.
Sobre o Solar dos Furtados quase não pude emitir comentários, porquanto só o vi na ocasião de seu festivo lançamento. Contudo, esclareci que me tornei amigo de vários membros dessa família, entre os quais cito Cristina do Vale e Silva, seus pais João Capucho e dona Consolação (já falecidos), seus irmãos João Francisco, Augusto César e Otaviano Furtado do Vale, este ainda vivo no panteão de minha saudade; seus primos José Ataíde, Carlos Cardoso e o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho.
Nessa festa natalícia e cultural revi Antônio Francisco Cardoso Costa e sua irmã Isabel (Bebel), os quais não via há mais de 40 anos, desde quando eles, com seus pais, foram morar na capital dos alencarinos verdes mares bravios. Enfim, foi uma noite de muita emoção e lembranças. Como disse o poeta, “Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade”. Haja coração!...   

terça-feira, 22 de março de 2016

As “Aquarelas” de Soares Bolão


As “Aquarelas” de Soares Bolão

Dagoberto Carvalho Jr.
Da Academia Piauiense de Letras

Antes de mais nada fica esclarecido que o livro a comentar neste espaço de jornal, é “Aquarelas de um tempo”, do escritor oeirense Antônio Reinaldo Soares Filho que, bondosamente, também, atende pelo heterônimo que só faltava ser literário, para - ecianamente - completar-se. Já não me lembro desde quando e o porquê da associação de nomes tão ilustres; um deles, até curioso. Alguma coisa com Azevedo Bolão? Nem eu mais me lembro da origem da homenagem, se é que o foi. Certo mesmo, é que ele atende e, até, agradece honras que lhe prestem, também, ao segundo nome, mais para português, de Portugal, mesmo. Mas, acaba tendo mais a ver é com o de um líder baiano que fez história como republicano, no vizinho Ceará dos tempos distantes de Tristão Gonçalves. Personagem histórico, portanto e, assim, mais ligado a ele pelas pesquisas de arquivos; onde, decerto, ter-se-ão encontrado.

Vencido o alegre preâmbulo da apresentação, é bom que se registrem os títulos de estreia do escritor que, em “Aquarelas de um tempo” firma-se como cronista de sua cidade do nascimento e da memória. Apresentou-se, ele, em “Oeiras Municipal” (1992), verdadeiro arrolamento das testemunhas de nossa história vivida na primitiva povoação dos “Sertões de Dentro do Piauhy”, depois Vila da Mocha. Pelos seus olhos e sua escrita passaram todos os construtores da grandeza piauiense. E, para não abandonar seus personagens, aos cuidados apenas do tempo, logo tratou de dar-lhes os endereços que a própria história estabelece e quer documentados. Assim, competentemente, ele os situa e personifica em “Oeiras, Geografia Urbana” (1994).

Partem, portanto, dessa sólida base de dados reais, suas novas experiências – de resto, já exercitadas nas páginas de muitos jornais de Teresina –, agora definitivamente associadas à memorialística mafrense, nunca esquecidos (os seus leitores) que os oeirenses, de todos os séculos, assim – sempre o quiseram, e adotaram o termo, quase como patronímico. Vem de um de nossos colonizadores, Domingos Afonso, da freguesia portuguesa de Mafra, onde se eterniza o palácio-convento de Dom João V e do ouro das brasileiras Minas Gerais.

Temos, agora, em nossas mãos e para os nossos olhos e lembranças, tão ciosos do passado que a cada um nos foi dado viver, as “aquarelas” do bom pintor de memórias oeirenses que Reinaldo Soares acaba de se relevar. Gratificante, sobretudo, para os seus companheiros de geração e, até, os contemporâneos que lhe conheceram e admiraram os juvenis arroubos de menino “de qualquer peraltice capaz”, como dito pelo poeta pernambucano Mauro Mota, em seu  belo “Soneto muito passadista na Ponte da Madalena”.

“Last but not least”, as muitas e ricas ilustrações das crônicas que o realismo das descrições elevou à categoria de boas memórias. Elas, como quê, complementam as estórias contadas, enriquecendo-as pela força documental que se reservam à arte da fotografia, à pintura, ao desenho. No livro comentado, texto e “traços” interagem e completam-se como guardiões da memória que a tudo e todos impregna e magnetiza.

Em tempo: O livro será lançado na Livraria “Entrelivros”, Teresina, quarta-feira, 23 de março de 2016, às 19 horas.   

UM DEUS PARA OS DEMAGOGOS


UM DEUS PARA OS DEMAGOGOS

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

Tudo o que falam ou comentam a respeito dele os outros, os da enorme suposta elite e opositores, ou seja, os inimigos do Brasil, está errado, é invenção, não existe, é cria de mentes conspiratórias ou de golpistas de plantão. 
                Por outro lado, tudo que ele, o mesmo, diz, faz, diz que faz ou faz que diz, de forma indireta, velada, valendo-se de subterfúgios ou de pura ironia, é expressão da mais alta e incontestável verdade, fato irretocável, pacífico e consumado, portanto, não passível de qualquer contra-argumento.
                Pode, inclusive, dita figura, em conversa reservada ou não com amigos, companheiros, cupinchas, asseclas, camaradas, parentes ou correligionários, depreciar, ridicularizar, trucidar, execrar, amaldiçoar autoridades de quaisquer poderes, gente de bem; enfim, pessoas ou indivíduos sobre quem, a princípio, não paire pecha, dúvida, denúncia ou acusação; sem que tal atitude signifique, de sua parte, falta de educação, de bons costumes, de ética, sequer, uma forma inadequada de alguém que já ocupou os mais altos escalões do parlamento e governo do país exprimir-se, se o ato verborrágico ocorrer entre quatro paredes, isto é, desde que não vaze para além dali o resultado daquele encontro verborreico.
Pensando bem, parece que a pessoa de quem estamos falando, mesmo querendo ou, ainda que isso fosse a única e inescapável opção, não pode cometer erros, equívocos ou desatinos a que os demais seres humanos estão suscetíveis, predispostos, propensos. Como se tudo que pudesse ser considerado erro, falha, engano, incorreção ou deslize de ordem moral, ética, existencial ou comportamental, apenas se aplicasse ou fosse impingido aos outros.
                É falácia alguém afirmar ser a mais honesta - dentre todas as honestas - alma que existe no universo vivente; jactar-se, para alegria de deslumbrados, como se isso fosse motivo de júbilo ou contentamento, de ser o único brasileiro capaz de incendiar o país - não verbalizou, mas talvez quisesse deixar dito nas entrelinhas ou para interpretação de quem quer que fosse: se decidisse peitar o parlamento, o poder judiciário, a imprensa e a opinião pública, a fim de fazê-los mudar de ideia a respeito do que sobre ele dizem, pensam ou concluem. Quem, verdadeiramente, se quimeriza como alguém de tamanha envergadura e pretensão, certamente, deve sentir-se maior e mais poderoso que um deus.
                Não pode querer ser inferior a um deus quem, além de se ver como um, exige, espera e aguarda de normais comuns que ousaram desafiá-lo, acusando-o de haver se envolvido em falcatruas humanas, indignas, portanto, de uma divindade mítica, que venham pedir-lhe desculpas e perdão. Pouco importa a esse deus dos demagogos saber que os motivos pelos quais é acusado ou investigado seriam conhecidos por todos em quase todo o universo. Em síntese: na visão de esse homem maior do que qualquer outro, simplesmente, ninguém, ninguém mesmo, seria competente ou poderoso o suficiente para acusá-lo, duvidar ou desconfiar de sua honestidade, retidão e lisura de caráter.
                Felizmente, nem todos o veem como se imagina: apenas a maioria de uma minoria que se exaure e diminui toma-o por guru, lume, farol. O contingente formado pelos que não comungam nem aceitam esse tipo de condução, discute e refuta a pretensa supremacia existencial desejada por ele, e vão à luta, envidando esforços no sentido de enquadrá-lo no parâmetro de humanidade que lhe cabe: o das pessoas e indivíduos falíveis. No nicho em que se encontram os que desconfiam de tão ufanista honestidade está a parte honesta do parlamento, do poder judiciário e de outras categorias da sociedade que não se deixam enganar pela lábia de mercadores de ilusão, que conseguem diferenciar, nas falas, atos e ações daqueles que se julgam perfeitos, demagogia e hipocrisia do que, racionalmente, pode ser aceito como factível.