segunda-feira, 11 de abril de 2016

Um viajante atribulado


Um viajante atribulado

José Pedro Araújo
Contista, cronista e romancista

            Se para certas pessoas viajar é algo tremendamente gratificante, para outras só em pensar na possibilidade, já começam a sentir calafrios, efeitos de uma viagem mal sucedida. Depois, passados os momentos de intranquilidade, quando já se chegou ao destino, ai a coisa fica boa demais. Como nesse ponto todos concordam e terminam viajando, as agruras ficam apenas na memória do viajante sofredor. Afinal, quem não gosta de mudar de ares de vez em quando? Quem não gosta de conhecer novos lugares, novas pessoas, cultivar novas amizades?

Mas, que existem pessoas que acham que viajar é um suplício, continuo afirmando que há.

             E o Dr. Jonas Araújo é uma delas. Dentista dos mais respeitados da cidade de Presidente Dutra, preza muito pela qualidade do seu trabalho ao ponto de facilmente se encontrar clientes que não se incomodam de ficarem horas de boca aberta, saliva escorrendo esôfago abaixo, causando coceira e cansaço na mandíbula. E essas pessoas não se incomodam em razão do ótimo profissional que o atende. Ficam lá pacientemente ouvindo as histórias contadas por esse Palmeirense de quatro costados, amigo de todos e incapaz de agravar quem quer que seja. Eu, que já o acompanho há muitos e muitos anos, nunca o vi sair do seu jeito calmo para encarar as situações mais vexatórias. Está sempre ali, tranquilo, procurando encontrar vantagens no que parece ser somente desacerto. E, no final de tudo, como o trabalho sai bem feito, e o preço uma verdadeira pechincha, ponto para o cliente!

            Esse calmo senhor, foi um menino meio magricela, cabelos arrepiados, e de um branco que só pode ser comparado a uma raiz de mandioca descascada. E quando viajava, já ficávamos de sobreaviso, pois por certo aprontaria alguma coisa.

Em uma das vezes que viajava de Presidente Dutra para Piracuruca, onde nossos pais residiam naquele momento, após sofrer muito no péssimo trecho até Teresina, concluiu que suas agruras haviam terminado ao chegar à capital, Teresina. Era o que se podia depreender em razão da melhoria da estrada dali para frente. Embarcou na Praça Saraiva em um ônibus novinho da Marimbá, e foi logo procurando uma janela para se acomodar perto. Mas, daí a poucos instantes, embarcou também, quando o veículo já estava de partida, um rapaz cabeludo e com barba bastante longa, que veio justo reclamar que a poltrona onde o menino estava lhe pertencia. Falou isso na maior grosseria, acenado o bilhete da passagem. A contragosto, o menino viajante saiu de onde estava, e verificou chateado que todas as demais poltronas já estavam ocupadas, inclusive a cadeira que lhe fora destinada. Nesta, logo viu que se sentava no seu o lugar era uma senhora bastante idosa. Resolveu deixar tudo como estava.

            Para piorar as coisas, o sujeito que havia reclamado o lugar, continuava resmungando, falando alto contra as pessoas que ocupavam o lugar dos outros somente para esquentar o assento.

            Vendo que o garoto havia ficado sem lugar para se sentar, meu pai, que o acompanhava na viagem, pediu para ele acomodar-se em sua perna, próximo à janela, pois sabia que logo ele precisaria fazer uso dela. Jonas sentou-se, e a viagem continuou. O ônibus tomou a estrada no rumo norte e tudo parecia ter se aquietado.

            Atrás de onde eles se encontravam, o rapaz barbudo abriu a janela de vidro e começou a falar grosserias contra as pessoas que se encontravam nas calçadas. E quando o pedestre era do sexo feminino, assobiava, mandava beijinhos, na maior algazarra. Alguns passageiros já começavam a reclamar do estúpido sujeito, mas, ele não dava a menor atenção às reclamações. E a viagem transcorria assim. Ônibus novo, motorista pé-de-chumbo, ia o veículo comendo estrada, dando a entender que chegariam cedo ao destino final.

            Em certa altura da viagem, Jonas cochichou para o meu pai que estava ficando enjoado. E ele, mais que depressa o ajudou a abrir a janela. O garoto lamentou o fato de ter almoçado aquele prato de arroz com feijão, macarrão e carne, quando o motorista, momentos antes havia parado em um restaurante de beira de estrada. Mas, o ar fresco, fez com que ele melhorasse um pouco do enjôo, criando a falsa ilusão de que tudo se ajeitaria. Que nada! Logo uma náusea bem mais forte o acometeu, e ele assomou a cabeça para fora do ônibus a tempo apenas de despejar o produto do almoço para fora.

Atrás dele, também com a cabeça para fora do veículo, estava o inconsequente cabeludo, fazendo uso mais uma vez de suas brincadeiras sem graça. Quando viu o que viria sobre ele ainda tentou se recolher, mas já era tarde demais: recebeu o produto do vômito diretamente na cara. A barba, antes negra, estava ruiva agora, meio enferrujada, engordurada, com macarrão espalhado até mesmo pela cabeça.

            Descontrolado, parecendo um touro furioso, o sujeito saiu de sua poltrona e veio atrás do garoto para agredi-lo. Meu pai, prevendo o desfecho, e já chateado com o inoportuno companheiro de viagem, levantou-se também e despejou sobre ele algumas palavras intimidatórias. Vendo que seu oponente era um homem alto e musculoso, o pobre infeliz tratou de retroceder até sua cadeira e passou o restante da viagem ouvindo brincadeiras dos outros passageiros, satisfeitos por ver que ele agora estava calado e humilhado.

            De outra feita, Dr. Jonas, ai por volta dos 11 anos, juntamente com o irmão Jônatas, pegaram carona em uma camioneta que levaria de volta Jean Carvalho e seus irmãos, que retornavam das férias, para Teresina. Na caçamba do carro conduziam também um chiqueiro, feito de talos de babaçu, com vários frangos aprisionados. Estavam sendo levados para consumo próprio. Jonas, preocupado com a sua situação de viajante sempre mareado, resolveu sentar-se na ponta oposta do chiqueiro enquanto o carro saia rodando pela estrada. Não andaram muito e o enjôo foi se achegando, a  principio de maneira suportável, depois mais forte, até que ele começou a vomitar fora da caçamba. Mas, logo, as forças começaram a diminuir e ele passou a soltar suas golfadas sobre o chiqueiro mesmo. Os frangos começaram a gostar daquilo e logo já estavam esticando os pescoços, elevando as cabeças para fora da grande gaiola, indo buscar o produto quase dentro da boca do pobre garoto que teve que ser socorrido pelos companheiros de viagem de modo a não perder a língua e tudo o mais que possuía na boca.

            Abatido e quase sem forças, finalmente chegaram a Timon, onde passariam a noite na casa dos colegas. No dia seguinte, logo cedo, tomaram um ônibus urbano para a Praça Saraiva. Jônatas, um pouco mais velho, conduzia as sacolas mais pesadas, ficando as nem-tão-mais–leves-assim para o irmão menor. Carregavam com eles bolos de todos os tipos, doce de leite e queijo, o que aumentava o peso da bagagem.

Com as duas mãos ocupadas, Jonas, que não era muito acostumado a andar naquele tipo de condução urbana, acercou-se da roleta para pagar a passagem, quando motorista arrancou de uma vez. Só não caiu para trás porque se apoiou no irmão que vinha um pouco atrás. Mas, antes mesmo que pudesse se recompor, o motorista afundou o pé no freio com bastante força. Viu alguém gesticulando na parada seguinte de onde se aproximavam. O pobre Jonas foi arremessado para a frente com suas duas  sacolas e passou como um raio pela roleta fazendo a danada rolar diversas vezes para desespero do cobrador. Com as mãos ocupadas, o menino saiu tentando se equilibrar no corredor àquele momento sem passageiros, até espatifar-se na tampa do motor que ficava ao lado do motorista. Por sorte não foi arremessado para fora do ônibus.

Foi um desespero, junta sacola daqui, senta ali, com os demais passageiros demonstrando grande camaradagem com ele. Até estavam com vontade de rir da situação, mas, o aspecto apavorado do jovem os fazia ficar quietos.


            Hoje, Dr. Jonas transita tranquilamente com a família por essas estradas da vida, sem o incômodo e a vergonha que sentia quando era criança. É certo que faz isso no seu próprio carro, pois, não sei se dentro de um desses ônibus enormes de hoje, o homem não tivesse ímpetos de brotar para fora o que comeu momentos antes. Sorte dos passageiros também. Especialmente daqueles que gostam de viajar com a janela do seu lado aberta.  

domingo, 10 de abril de 2016

Seleta Piauiense - Martins Vieira


O Parnaíba

Martins Vieira (1905 – 1984)

Vem de longe, tangendo alvacentas espumas
Ao sabor da corrente, eriçando cachoeiras;
Aqui, se aperta; ali, se espraia, enquanto as plumas
De leques vegetais baloiçam nas palmeiras.

Leva a flor que tranquila adormece entre as brumas
E se deixa impelir como as balsas fagueiras,
Onde geme o violão do embarcadiço, e algumas
Das cordas vão ferir as cordas verdadeiras...

— Ó rio lá de casa, ó Pai velho das crianças,
Águas que vão molhar o solo e as belas tranças
Da noiva que se banha em ti, ao vento e à luz,

Ó rio benfazejo, aplacarás a sede
Do mar, deixando aqui o pão em cada rede
a nós elo batismo, o nome de Jesus.    

sábado, 9 de abril de 2016

Teresina, Cidade Olímpica

Foto meramente ilustrativa

Teresina, Cidade Olímpica

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Compareci ao Centro de Formação Odilon Nunes, manhã de sábado, para cerimônia de premiação a estudantes do Ensino Fundamental, campeões em olimpíadas brasileiras, em Química, Física, Língua Portuguesa, Astronomia e Matemática. Surpreendi-me com o número de 150 medalhistas, convocados para receber o prêmio de um tablet das mãos do prefeito Firmino Filho.  Desinformado, pensei tratar-se de adolescentes de conceituadas e badaladas escolas privadas. Que nada! Mais motivos havia para festejar tantos talentos, em plena puberdade, filhos de classe trabalhadora, nas dezenas escolas do município.

No enorme auditório, estudantes, familiares, professores, coordenadores e convidados aguardavam a presença do prefeito Firmino Filho, do secretário Kleber Montezuma, da coordenadora do PROGRAMA CIDADE OLÍMPICA EDUCACIONAL, Professora Valdete Maria da Silva. Ela sintetizou os objetivos do programa: selecionar alunos de bom desempenho escolar, capacitá-los nas disciplinas de Matemática, Português e Ciências, para concorrerem às olimpíadas de âmbito nacional. Um total de 150 estudantes de 42 escolas municipais, do 7º, 8º e 9º Ano do Ensino Fundamental, com treinamento especial na leitura, redação, edição de livro, experiência laboratorial, em Ciências, com apostilas, vídeos, aulas de campo, com apoio da Coordenação da Olimpíada Brasileira de Astronomia, Observatório Nacional e de instituições, como a UFPI.

Teresina goza de invejável posição no ranking nacional, em conquista de medalhas olímpicas, nas disciplinas citadas, além da primeiríssima colocação no Nordeste. Entre 2012 a 2015, nossos adolescentes de Ensino Fundamental da rede do município abocanharam 64 medalhas de ouro, 33 de prata, 7 de bronze. Observem-se outras referências exitosas, como Cocal dos Alves e algumas escolas privadas, no exame do ENEM e em competições esportivas de nível internacional.

O secretário Kléber Montezuma, acostumado a chegar cedo à secretaria e a cobrar metas e resultados positivos, encantou a plateia pelo entusiasmo e resultados obtidos. Em seguida, discursou prefeito Firmino, exibindo dados comparados com os de outras capitais, sempre aplaudido, ao se referir “aos alunos de ouro, de prata e de bronze”.

Leitor de Fortaleza perguntou-me qual o segredo de tanto sucesso na educação municipal de Teresina. Respondi-lhe: “A seriedade com que, há décadas, os prefeitos administram os recursos públicos”. Um secretário do município de Teresina confessou-me: “A prefeitura encontra-se tão organizada que se torna quase impossível algum ato de corrupção, devido à vigilância. Secretários saem como entraram”. Caso contrário, os escândalos pipocariam. Explicam-se os repetidos mandatos de Firmino Filho.

Quando se exerce política e serviço público com entusiasmo, despojamento, ética, sem embromação eleitoreira, fica fácil e menos oneroso repetir o mandato.

Medalhas, medalhas... ouro em Astronomia. Só nos falta um planetário, como em outras capitais. Que seja no Odilon Nunes, para que eu possa, um dia, comparecer, vislumbrar universo de estrelas.   

quinta-feira, 7 de abril de 2016

AQUARELAS OEIRENSES




AQUARELAS OEIRENSES

Elmar Carvalho

Conheci Antonio Reinaldo Soares Filho, o Soarinho, em 1994, quando ele se preparava para editar seu livro Oeiras – Geografia Urbana. Trocamos ideias, sendo que algumas de minhas sugestões foram por ele aceitas. Desde 1988 a 1990, quando fui o presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE/PI, eu já havia iniciado um processo de aproximação afetiva e cultural com Oeiras, inclusive tendo ali realizado um Encontro de Escritores, no qual prestei homenagem ao notável romancista O. G. Rêgo de Carvalho.

Por essa época e um pouco depois passei a conhecer vários intelectuais oeirenses, entre os quais cito: Balduíno Barbosa de Deus, meu professor na UFPI, Paulo Gutemberg, meu colega no curso de Direito, Pedro Ferrer Freitas, Dagoberto Carvalho Jr., Expedito Rêgo, Carlos Rubem, Possidônio Queiroz, Rogério Newton, Gutemberg Rocha, João José Ferraz e os já referidos Reinaldo e O. G. Depois, em diferentes ocasiões, vim a conhecer outros amigos da velhacap.

Antonio Reinaldo já havia escrito o importante livro Oeiras Municipal, em que demonstrou ter muita paciência, em virtude da laboriosa pesquisa que teve de empreender. A obra abarca um corte cronológico que vai de 1810 a 1992. Trouxe novas e mais aprofundadas informações sobre a história da terra mater. Além de suas qualidades intrínsecas e de conteúdo, é de grande interesse para os historiadores, em razão dos documentos que cita e/ou transcreve.

Em Oeiras – Geografia Urbana se reporta aos bairros, praças, logradouros, ruas e becos da velha capital. Traça rápida biografia da figura histórica homenageada. Quando a rua tem alguma peculiaridade digna de nota, descreve a sua topografia e geologia. Não tendo o logradouro nome de pessoa, assinala os fundamentos de sua denominação.

Em muitos verbetes, indica o nome antigo da rua, muitos deles poéticos, interessantes ou históricos. Essa obra é tanto mais importante porque, segundo tenho observado, muitos moradores sequer sabem o nome da rua em que moram, quanto mais terem conhecimento de sua história e da biografia do epônimo. E discrimina a localização, direção, extensão e limites dos logradouros e ruas.

Sou tentado a dizer que Aquarelas de um Tempo é um misto de artigos, crônicas e ensaios de história social, sobretudo referentes ao período que vai da meninice do autor até o início de sua juventude, passando, claro, pela sempre emotiva, sentimental e fugaz adolescência. Ao sabor de suas lembranças, anotações e pesquisas, Antonio Reinaldo, como um cicerone poderoso e mágico, nos faz viajar no tempo e no espaço de sua querida Oeiras, e como que nos faz vivenciar as emoções dos saudosos tempos e lugares que relembra, com riqueza de detalhes por vezes pitorescos.

O livro é de capital importância para a história imediata e recente de seu torrão, bem como para a historiografia de seu cotidiano, porquanto, no período que vai do final dos anos 1950 a meados dos 70, relata os costumes sacros e profanos, entre os quais os eventos religiosos da Fugida, da Procissão dos Passos, a beleza luminosa do Fogaréu, a Missa de Ramos. Muitas das cerimônias sacras são verdadeiras encenações, quase uma espécie de teatro a céu aberto, em que todos são atores e plateia ao mesmo tempo. O episódio da Verônica, no qual um canto magoado nos comove, nos faz lembrar uma espécie de ópera popular.

As Aquarelas do Reinaldo trazem ao procênio de nossa imaginação velhos boêmios, esquecidos poetas e as inesquecíveis serestas e tertúlias, que tanto encantamento provocavam nos jovens de outrora. Figuras populares são trazidas ao nosso convívio. Os antigos carnavais, com seus adereços quase artesanais e suas alegres ou melancólicas marchas, mas sempre encantadoras, são lembrados. E são referidos os locais onde eles aconteciam: Oeiras Clube, União Artística, Círculo Operário, Furna da Onça e cabaré do Cícero Cego.

Na solenidade de lançamento, recordei que ao passar pela Furna da Onça, de tão pitoresco e imaginativo nome, alimentei o desejo de tomar uma talagada de calibrina, com um tira-gosto de umbu, e com direito a uma cuspidela ao pé do balcão. Por motivos que não vêm ao caso, nunca pude realizar esse modesto “sonho de consumo”, até porque a Furna já não existe e a onça foi embora para desconhecida paragem ou dimensão.

Ao tratar das sociabilidades, diversões, lazer, costumes e ocupações de Oeiras, no período enfocado, Aquarelas de um Tempo narra a história do Ginásio Municipal de Oeiras, do Oeiras Clube, e relata os banhos nos poços do velho Mocha, então perene, de nomes tão sugestivos e poéticos. Aliás, ao falar nesses poços, lembro que o médico Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, que também os descreveu, pediu-me para falar sobre a degradação do Mocha, tendo eu escrito uma crônica que se encontra publicada na internet. Menciona os antigos moradores de ruas e bairros da velha urbe. Cita os grandes craques futebolísticos da época, entre os quais o des. Raimundo Eufrásio e o jurista Moisés Reis, e meus colegas da ingrata posição de goleiro Oscar Barros e Chico Castanhola.

Nessas páginas, prenhes de emoção e lembranças, o autor, como um demiurgo, materializa a velha Oeiras, fazendo-nos viajar no tempo e no espaço; no tempo de sua juventude e no espaço oeirense de sua saudade. Não pude deixar de recordar os versos do poeta Luís Guimarães Jr.: “– Uma ilusão gemia em cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade...” E encerro estas breves considerações com as palavras do próprio autor: “A saudade fez estas páginas.”   

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Breve diálogo sem síntese


Breve diálogo sem síntese (Não vale culpar Sócrates, o filósofo)

 Cunha e Silva Filho

*PO:    Sim
*PTA:  Não
PO:     Sim
PTA:   Não

PO:     Sim
PTA:   Não
PO:    Sim
PTA:  Não

PO:    Sim
PTA:  Não
PO:   Sim

PTA: Não
PO:   Sim

Sim
Não
Sim
Não
Sim
Não
Sim, sim, sim, fascista! Coxinha!
Não, não,  não, lula molusco! Petralha! Comunista!

UNHAPPY UNENDED

        AL
           VO
               RA
                     DA!!!
                         
          

             L
             I
             S
            A
            R
            B!
      
       Ubi estis?

 *Partidos da oposição.
 *Partido petista e aliados.

terça-feira, 5 de abril de 2016

COINCIDÊNCIAS

Alcenor visto pelo chargista Fernando di Castro
Prédio da Caixeiral, recentemente reformado pelo SESC-PI



COINCIDÊNCIAS

Alcenor Candeira Filho


I.             COINCIDÊNCIAS  IRRELEVANTES

Depois da publicação de O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA, em 2008, livro que focaliza o assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira, no dia 11 de outubro de 1959, na Praça da Graça, em Parnaíba, praticado covardemente pela família Cavalcante (Clodoveu Felipe Cavalcante, Jamacy Guterres Cavalcante, Clodoveu  Felipe Cavalcante Filho e Veudacy Guterres Cavalcante),  constatei  em suas páginas e em documentos consultados durante  a pesquisa para a realização da obra estranhas e curiosas coincidências,  umas relevantes pelo teor ocultista, outras nem tanto.
Exemplo de coincidência destituída de qualquer apelo cabalístico está estampado no diploma expedido pela Escola Técnica de Comércio da União Caixeiral, em 08 de dezembro de 1954, conferindo a Alcenor  “o título de Técnico em Contabilidade de que trata  o Decreto-Lei nº 6.141, de 28 de dezembro de 1943”, com a assinatura do diplomado e as de seus algozes Jamacy Guterres Cavalcante como secretária e Clodoveu Felipe Cavalcante como diretor.
A sociedade civil União Caixeiral  foi   fundada em 28 de abril de 1918 por 122 comerciários, dentre os quais (ver o jornal O BEMBEM, edição nº 89, de 21.05.2015)  Lívio Ferreira Castelo Branco (n. em Barras – Pi:1876/f. em Parnaíba – Pi : 1929),  Francisco Ferreira Castelo Branco (n. em União – Pi:1897 / f. em Parnaíba – Pi: 1961)  e Fenelon Santana Castelo Branco (n. em União:  1897 / f. no Rio de Janeiro: 1978),  todos parentes próximos (bisavô, tio e avô, respectivamente).
O prédio da Caixeiral foi recentemente adquirido, reformado e transformado pelo SESC no Centro Cultural João Paulo dos Reis Velloso.  Estive presente na festa de inauguração, em 18.04.2015, e até esse dia, como declarei ao jornal O BEMBEM, edição nº 90,  eu não sabia que o estabelecimento de ensino onde meu pai Alcenor Rodrigues Candeira fez o curso técnico em contabilidade, concluído em 1954,  e onde iniciei a carreira de professor  (1971/1976)  tivesse tido, dentre os fundadores, a participação de meu bisavô, de meu tio e de meu avô.
E mais: a data  – 11.10.39  -  relacionada com a fotografia em que aparece Alcenor e seu automóvel,  inserida em O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA,  corresponde exatamente a vinte anos que antecedem o assassinato (11.10.59).
Sem pretensão de ser enfadonho registro ainda a coincidência de eu ter sido no Ginásio Parnaibano aluno dos Clodoveus  - pai e filho -  no ano do crime, como meu pai havia sido no início dos anos 50 na Caixeiral. Ambas as escolas funcionavam em majestosos prédios (tombados pelo IPHAN) situados na avenida Presidente Vargas, onde residiram as personagens centrais do crime da Praça da Graça  -  agressores e agredido –e onde ficava a sede da Prefeitura Municipal de Parnaíba, palco das primeiras desavenças entre a família Cavalcante e a vítima.
Na avenida Presidente Vargas, no imóvel em que era sediada a Capitania dos Portos do Estado do Piauí, a um quarteirão da casa de meu pai, estiveram presos por pouco tempo, logo após o crime, os assassinos detentores de curso superior: Clodoveu e Clodoveu Filho.
Antes de falar de coincidências magnetizadoras, que mais parecem verdadeiras  comunicações do além, desejo  consignar as que houve entre os versos (citados por M. Paulo Nunes na pág. 27 de O  CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA) do famoso poema “Llanto por Ignacio Sanchez Mejias”, de  Federico García Lorca, em que o poeta, envolvido na guerra civil espanhola e fuzilado em Granada pelos insurretos falangistas , chora a morte do toureiro IgnacioMejias, seu amigo, - e os versos do meu poema “Marcas do Trauma”:
                                       “Lasheridasquemaban como soles
                                       a  las  cinco de la tarde,
                                       y el gentio rompia las ventanas
                                       a las cinco de la tarde!
Ay que terribles cinco de la tarde!
Eranlas cinco em todos los relógios!
Eranlas cinco  em sombra de la tarde!”

           (LLANTO POR IGNACIO SANCHEZ MEJIAS)


                                        “nove balas certeiras
                                                    seis punhaladas traiçoeiras
                                                               coronhadas ceifeiras...


                                        e por volta das cinco da tarde
                                        de outubro onze de cinquenta e novembro
                                        magro corpo massacrado morto
                                        no silêncio dos sinos da praça.”

                                                           ( MARCAS  DO  TRAUMA)

II.            COINCIDÊNCIAS  RELEVANTES

Agora passo a escrever sobre coincidências, digamos, de arrepiar
Como primeiro exemplo de ocorrência que, por acaso, parece ter conexão com outra, reporto-me ao poema elegíaco de minha autoria “Passando em Revista”, cujo esboço ficou na gaveta durante vários anos,  à espera da estrofe final que um dia desabrochou espontaneamente, na forma como eu queria.
Segundo o poeta Elmar Carvalho, essa composição significou para o autor uma forma de “catarse”  e se refere ao assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira  em 11 de outubro de 1959, em Parnaíba, na Praça  da Graça. A derradeira estrofe faz alusão ao feriado municipal de 11 de outubro, data consagrada a Nossa Senhora da Graça, a Padroeira da cidade:
                                                  “Foi no dia 11 de outubro,
                                                  fim de tarde , a chacina.
                                                  Os sinos à procissão
                                                  deram toque de silêncio,
    enquanto o sangue na esquina
                                                  pintava todo de rubro
                                                  o mais triste mês de outubro
                                                  que já  vi em minha vida.”


Vários anos depois de ter escrito esse poema, captei com enorme surpresa na segunda estrofe  (“Foi em Parnaíba/na Praça da Graça/ali por onde passa/o povo que passa/que meu pai ao passar/passou”)  o som macabro dos nove tiros que mataram meu pai, provocado pelo uso reiterado da consoante oclusiva/bilabial/explosiva “p”   com efeito de harmonia imitativa ou de onomatopeia.
Embora o recurso sonoro presente na estrofe tenha sido instaurado de propósito, e não por acaso, - o acaso, no caso, decorre do fato de que a letra “p” foi empregada nove vezes de forma não intencional, mas coincidindo com os nove tiros  que, segundo o exame de corpo de delito mencionado em O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA, atingiram a vítima. O poema “Marcas do Trauma”, já transcrito acima  faz  expressa  referência aos nove disparos fatais.
Ainda como exemplo de eventos que, por acaso, parecem ter algumas conexões entre si, lembro os episódios referentes à mudança do Dia da Padroeira da Parnaíba, onde Alcenor Candeira  residiu e foi  assassinado, antecipado de 11 de outubro para 08 de setembro a partir de 1992,  e  à troca da imagem da Padroeira de Santa Quitéria (Maranhão), sua vila/cidade natal, pela da Padroeira da vila)cidade homônima localizada no Ceará. O episódio da troca das imagens foi  evidenciado, conforme transcrição nas páginas 28/29 de O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA,  no romance  A ILHA ENCANTADA, de Renato Castelo Branco:


“Alcenor continuaria rio acima, até alcançar Santa Quitéria.  Santa Quitéria era conhecida como ‘a Vila da Padroeira Trocada’.  Ocorreu  quea vila do Maranhão tinha uma homônima no Ceará. Ambas encomendaram, ao mesmo tempo, imagens de suas respectivas padroeiras a santeiros de Portugal A da primeira era Nossa Senhora dos Aflitos; a da segunda, Nossa Senhora do Carmo. Algum tempo depois de entregues    e entronizadas as imagens, descobriu-se que houvera uma troca. Mas  os devotos de ambas as vilas recusaram-se a permutá-las.  E a Nossa Senhora do Carmo permaneceu no Maranhão, como Nossa Senhora dos Aflitos. E a Nossa Senhora dos Aflitos permaneceu no Ceará, como Nossa Senhora do Carmo.A troca  de nome não arrefeceu, entretanto, a devoção dos fiéis.E anualmente, no dia da Padroeira de Santa Quitéria do Maranhão,  vinha gente das vilas vizinhas de São Bernardo, de Brejo de Anapurus, de Luzilândia participar dos estrondosos festejos de Nossa Senhora dos Aflitos que culminavam em bailes famosos no palacete do coronel Raimundo Candeira, pai de Alcenor.”

               (CASTELO BRANCO, Renato Pires. “A Ilha Encantada”. 
                           São Paulo, T. A. Queiroz, 1992, p. 82/83)


III.          CONCLUSÃO

Diante das coincidências aqui assinaladas, quero concluir com a declaração de que  -  embora nunca tenha sido dado às coisas do além, do mistério, da magia, da cabala, enfim do esotérico  -  me sinto doravante fortemente inclinado a mergulhar nas ciências ocultas.

                                                                    Parnaíba, Abril de 2016.    

segunda-feira, 4 de abril de 2016

No reino dos jabutis trepados


No reino dos jabutis trepados

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

       Entrei na livraria para completar o estoque da obra, Escorregões no Português. Logo me deparei com notável jornalista que folheava uma obra de Graciliano Ramos: “Zé, sou devorador de livros. Não admito exercer a profissão sem cultivar as letras, apreciar grandes escritores, dos quais extraio lições e modelos de produção de texto”.

      A conversa desembarcou na  análise de conhecidos jornalistas e colunistas de textos enxutos e profundos; ou de outros de períodos longos e tortuosos, argumentação rasa. Estes até conseguem postos de trabalho, frequentam banquetes, amealham prosperidade. Inserem-se no reino de jabutis trepados. Categoria de outras patentes, por aí, que arrota poder e fortuna, sabe Deus de qual origem, sem mérito nem dignidade.

         Adágio popular explica o sucesso e prosperidade da classe de oportunistas, políticos, gestores públicos, empresários: “Jabuti trepado, foi por enchente ou mão de gente”. Inebriados por se instalarem no alto da árvore – diga-se, pirâmide – confundem a opinião pública com certificados de mérito nenhum. Privilegiados posando de chefes, magistrados, ministros, diretores, secretários, sem talento.

      O poder político age de forma organizada. É um verdadeiro exército de políticos e executivos, que marcham sobre o erário público, sem piedade. E nada lhes acontece, porque as forças da oposição são impotentes para convocar e colocar esses ratos no banco dos réus.

      Com dinheiro alheio é fácil se fazer política, prosperar a empresa, conquistar prestígio social. Jabutis trepados, à custa das mãos calejadas dos que trabalham.

      A população, em geral, desconhece e afaga jabutis trepados, hoje proprietários de pomposas empresas. Que iniciaram negócio, vendendo para prefeituras, Estado e secretarias, em cretinas transações. Quando fisgados por fiscais fazendários, ameaçam transferirem-se para outros rincões. Ou corrompem autoridades.

      Em encontro com amigo, em churrascaria de Teresina, competente professor universitário confidenciava-me que fora escolhido pelo governador para assumir a Secretaria de Administração. Fui curto e direto: “Quer conselho? Não aceite! Sua ética e moral não combinam com a esperteza do governador e de alguns empresários corruptos.” Dito e feito. Meses depois, empresário de revenda de carros entrou no gabinete do gestor, final de expediente de sexta, exigiu-lhe que assinasse, urgentemente, uma nota de empenho e compra de carros oficiais. O secretário pediu-lhe que aguardasse a semana seguinte, para analisar a compra. O arrogante empresário cobrou-lhe pressa. O secretário bateu-lhe a porta: “Cai fora, seu corrupto!” O arrogante ameaçou-o: ”Na próxima semana, quem vai sair daqui será você!”. E foi.

      No reino dos jabutis, não há vagas para consciências puras. “Vós não sois deste mundo, por isso, o mundo vos odeia, como odiou a mim.” Eis um grande adágio de Cristo.    

domingo, 3 de abril de 2016

Seleta Piauiense - Martins Napoleão


Prelúdio

Martins Napoleão (1903 - 1981)

As árvores aqui são tão altas
que as estrelas cansadas dormem nos seus galhos.

E há tanto silêncio nos seus vales
que o sol da tarde para, admirado, em cima das montanhas.

Os pássaros têm um canto tão bonito
que a madrugada nasce mais cedo para os ouvir.
E a noite é tão clara
que as almas pensam que seja um lago de se banharem.

Há tanta riqueza
que as águas mortas dos pauis brilham de noite
fabulosamente:
é um delírio tão grande como o da febre dessas águas.

A luz, de tão intensa,
atravessa a alma dos meus patrícios:
é por isso que há tantos poetas
na minha terra.     

sábado, 2 de abril de 2016

MIMBÓ, UM PEDACINHO DA ÁFRICA

Virgílio Queiroz em visita ao Mimbó


MIMBÓ, UM PEDACINHO DA ÁFRICA

Bebeto Soares

            MIMBÓ – trata-se do nome de uma antiga comunidade da Zona Rural de Amarante, a 20 km do centro da cidade. Pesquisadores, historiadores e imprensa de várias partes do Brasil, sempre visitam o povoado para colherem junto aos mais velhos “mimboenses”, a origem e cultura daquele povo simples e acolhedor.
           O professor e jornalista amarantino, Virgílio Queiroz, foi um dos pioneiros a levar o nome “MIMBÓ” para o mundo, através de seus valiosos escritos, expressivas palestras e entrevista aos grandes comunicadores do país. A memorável cidadã amarantina, historiadora, poeta e escritora Emília da Paixão Costa (Bizinha), membro da cultura amarantina, também há longos anos, forneceu dados preciosos sobre aquela comunidade para várias pessoas, a exemplo da saudosa historiadora amarantina Nasi Castro.
          Nestes últimos anos, o povoado é tratado também como QUILOMBO MIMBÓ devido o seu povo ser de origem africana. Idosos da comunidade contam que tudo começou há mais de cento e cinquenta anos atrás, quando três negros escravos, os irmãos: Francisco, Laurentino e Pedro e as irmãs: Antônia, Benedita e Rita, fugiram de uma fazenda da região de Oeiras, na época, Capital do Piauí, para a Zona Rural de Amarante. Os escravos, temerosos de capturas e grandes castigos de seus donos, se esconderam num lugar de difícil acesso repleto de grutas e penhascos nas imediações do riacho Mimbó e rio Canindé. Lá encontraram Antônia, Benedita e Rita, pertencentes a um grupo de negros que já residiam na localidade, e constituíram matrimônio.
         Contam ainda que a família Rabelo da Paixão, considerada descendente dos escravos fugitivos é precursora do crescimento populacional e desenvolvimento social da comunidade MIMBÓ. Muitos anos depois, as famílias “mimboenses” instalaram residência numa área plana, próxima da inicial moradia dos escravos fugitivos, onde vivem até hoje. Para os mimboenses subirem para a parte plana, abandonando as antigas moradas, foi necessário o convencimento dos professores Cineas Santos e Virgílio Queiroz que justificaram a mudança como algo benéfico para os habitantes, pois a parte alta fica perto da BR, facilitando assim o intercâmbio do MIMBÓ com Amarante e outras cidades. Além disso, havia o problema de doentes que precisavam de tratamentos médicos e a subida até a parte alta era muito difícil. O primeiro a subir foi um dos troncos da comunidade, Pedro Rabelo da Paixão.

         Nestes últimos anos, formou-se o ASSENTAMENTO HABITACIONAL MIMBÓ com a maioria de descendentes de escravos, próximo à antiga moradia e à BR 343.  

sexta-feira, 1 de abril de 2016

APL convida para lançamento de livros


Academia Piauiense de Letras

  


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: História, Literatura, Sociabilidade, nº 27, de Teresinha Queiroz; Poesia Completa, nº 31, de Lucídio Freitas; Limites entre os Estados do Piauí e do Maranhão e Questões Territoriais, nº44 – 3ª edição, de Antonino Freire; completando a Coleção Centenário e  começando a Coleção Século XXI, Artigos de Primeira Necessidade  nº 2; Lázaro do Piauí; Oligarquia Pires Ferreira: Família e Poder Político no Piauí (1889-1920) nº 3, de Maria Cecília; bem como O Hortigranjeiro e a Médica, de Rita de Cássia Amorim Andrade.

Nelson Nery Costa 
Presidente

 

       Data: 2 de abril de 2016 (Sábado)
Horário: 10hs9h 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
       Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86)  3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI

“QUE UM DIA ESSA TRISTEZA TENHA FIM”


“QUE UM DIA ESSA TRISTEZA TENHA FIM”

Jacob Fortes

Certa feita uma agremiação política fez tremular uma bandeira que continha slogan tão contagiante quanto o dístico, em latim, (Libertas Quæ Sera Tamen,) que a conjurada Bárbara Heliodora cunhou na lindíssima bandeira dos INCONFIDENTES. Refiro-me ao Partido dos Trabalhadores, PT, que idealizou e hasteou uma bandeira nas cores da ética para simbolizar a retidão, o sentimento de salvação nacional. Professando-se ético, o PT despontou no cenário político prometendo tudo: desde tratamento judicioso para todos ao rejuvenescimento da velhice. Foi dessa maneira, propalando farta messe que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder em 2002.  Todavia, ao apossar-se das rédeas do País esse partido político mudou de ideia quando se deparou com uma vacaria, pródiga em leite, estabulada no seio do governo.  A vacaria não lhe pertencia, mas era cordata; se deixava mungir. E assim, desenfadando-se nos apetites de uma ordenha que lhe era palatável, o PT acabou olvidando-se do ideário que lhe permitira chegar ao topo. 
Na sequência dos dias, e principalmente das noites, os escândalos se sucedem em níveis que já não cabem mais nos noticiários. À notícia de mais um escândalo o brasileiro, escorchado, se convence do significado embusteiro que é a ética petista. A Ética que fora hasteada no mastro da retórica (esta o vento dissipa) derruiu-se. Daquela ética contagiante que ecoou durante a reluzente aurora petista restou apenas decepção; retratada pelas multidões, às ruas, por verem o Brasil mover-se para trás. E quando reptado acerca das cifras bilionárias que foram furtadas o PT argui que os governos que lhe antecederam saquearam quantias ainda maiores. A justificação, insubsistente, em vez de remir, embaça ainda mais a estrela que encerrava tanta grandeza. Não se pode atear fogo nas cidades e nas creches por que Nero o fez, em Roma. Se o meu irmão furtou eu também o farei?  Ou seja, a conduta alheia é tomada por empréstimo para amparar o malfeito.
Ao evolarem-se os princípios éticos que faziam consistir o orgulho petista, sobrerrestou a lenda; opaca, sem fleuma. Pior: o PT — que inscreveu o seu nome no imenso rol daqueles que insistem em se distinguir envergando o uniforme da desonra — acabou por tornar-se uma página enlutada na história da política nacional. Mas ficou a lição de que as façanhas da mentira são menos duradouras que as glórias da verdade. (Não queira um aquilino fazer-se passar por colombino inocente; as diferenças são enormes).
Ao povo, vexado pelo governo, falta paz, sossego!!! “Não procuro um país, especificamente, procuro a paz” (Garotinho afegão, refugiado, que perdeu os pais na guerra, falando aos alemães). Enquanto os refugiados, cheios de aflição, vagueiam pelos continentes à procura de uma pátria que os adote, os brasileiros se hão legítimos possuidores de uma pátria diamantífera, porém de reputação lesada pela indecência na política. Por quantas vezes mais o povo irá às ruas pedir decência e paz?

Enquanto o governo do PT, — que embarga o desenvolvimento nacional com sua conduta trágica – se houver indigno do papel de fiel depositário dos anseios e do suor do contribuinte, o povo, lutuoso, viverá sem paz, em desassossego às ruas. “[...] que um dia essa tristeza tenha fim”.   

quinta-feira, 31 de março de 2016

O TRIUNFO DO TREMEMBÉ




Os aventureiros comemoram, com dois visitantes, o sucesso da expedição Barra do Longá e o triunfo do super Tremembé

O TRIUNFO DO TREMEMBÉ

Elmar Carvalho

Na sexta-feira desta Semana Santa saí direto de Teresina para a Várzea do Simão, com o objetivo de inaugurar, no sábado de Aleluia, o motor de popa Yamaha, 15 HP, dois tempos, que comprei através da internet na Paraqueda Náutica, por indicação do amigo Roberto Carlos Sales da Silva, brioso delegado da Polícia Civil do Piauí, de cuja Academia é reitor.

O equipamento se destinava a mover o pequeno barco de alumínio, que designei como Tremembé, em homenagem aos bravos indígenas, que antigamente percorriam o delta do Parnaíba. A saga desse barco, como muitos de meus leitores sabem, foi infelizmente inglória. Farei, como dizem os juristas em seus floreios de linguagem, uma apertada síntese.

O projeto inicial era muito simples e muito modesto. Comprei um barco inflável modelo Cheyenne 500, através do site da loja Submarino. Fiz duas viagens, sem nenhum acidente ou uso indevido. Quando fui usá-lo pela terceira vez, no intervalo de apenas três meses, descobri que o equipamento estava descolado, na parte que liga o fundo à borda, o que o tornou inservível.

Fiz contato com a Submarino, para que resolvesse o problema, mas ela se negou a isso, alegando que já se passara mais de sete dias. No meu parco entendimento, essa empresa deveria encontrar uma solução, já que se tratava de defeito oculto (ou vício redibitório), podendo ela, depois, usar o chamado direito de regresso contra o fabricante, sediado no estrangeiro, mas não empurrar a parte mais fraca para resolver esse ônus.

Logo constatei que o motor de 2,6 HP que eu havia comprado para o barco inflável era insuficiente para o barco de alumínio que eu adquirira por causa do defeito do inflável. Fui aconselhado pelo advogado Carlos Eduardo, experiente em motonáutica, a adquirir um de 15 HP, que seria o ideal para o tamanho e peso do meu casco. Então, seguindo a orientação do comandante Roberto Carlos, sempre em ritmo de aventura, fiz o negócio referido no primeiro parágrafo.

Como o comandante Natim Freitas, que antes demonstrava ser um panteísta, dissesse que havia feito uma promessa com Santa Luzia, padroeira do povoado Barra do Longá, seguimos eu, ele, Francisco Ribeiro e o Didi para essa localidade, distante aproximadamente 18 km a montante. O rio Parnaíba estava muito cheio, com forte correnteza. Após a ponte do Jandira, percurso por nós desconhecido, vimos belas paisagens, sobretudo agora, em que se mostravam verdejantes, por causa das chuvas.

Em certo trecho, vimos uma comunidade, talvez familiar, com as casas encarapitadas em imponente morro, situado numas das curvas do Velho Monge. Noutro local, umas grandes pedras formavam uma espécie de estreito, que tornavam as águas revoltas. Nosso hábil timoneiro venceu essa corredeira, sem nenhum acidente ou sobressalto.

No decorrer da viagem o Natim, com o aval do Francisco Ribeiro (que em seus 73 anos de vida demonstrou mais vitalidade e preparo físico que nosotros), nos contou que seus saudosos avós João Simão e Filomena, meus sogros, na embarcação Borboleta, com a ajuda de uma vela, iam participar dos festejos de Santa Luzia. No retorno, embora a correnteza fosse a favor, o vento soprava em sentido contrário, de modo que a vela era arriada. Por esse motivo, os filhos Pedro, Beré e Zuza, na época jovens e fortes, empunhavam os remos com todo vigor e velocidade.

Atracamos na comunidade Barra do Longá, em local perto da ermida. O mestre Natim se dirigiu ao templo, que se encontrava fechado. Ante esse óbice, ele espalmou suas mãos sobre a madeira da porta e rezou contrito, como convinha. A viagem de retorno, rio abaixo, não teve, felizmente, nenhum percalço ou acontecimento notável, com exceção do vento forte, que provocava fortes ondulações, quase pequenas pororocas, nos causando a sensação de cavalgada fluvial.

Enfim, chegamos ao nosso porto seguro. Após retirarmos o triunfante Tremembé do rio, fomos comemorar a venturosa aventura na Toca do Velho Monge. O Natim Freitas nos esclareceu que em suas orações pedira que uma forte chuva caísse sobre a Várzea do Simão. Outrora os coronéis da política interiorana eram chamados algo talvez ironicamente de mandachuvas. Logo após suas palavras, uma torrencial chuva nos afagou a pele, tornando a tarde mais agradável e mais abençoada.

O autoproclamado mago Paulo Coelho, autor de O Alquimista, O Diário de um Mago e A Bruxa de Portobello, afirmou ver anjos e que sabia produzir chuva, embora tenha acrescentado, numa crise de humildade, que vira apenas as asas angélicas, e que esses atributos não eram importantes. Assim, tenho como certo que, atualmente, apenas o bruxo Paulo Coelho e o comandante Natim Freitas fazem chover.

Estou até pensando em mudar o nome do Natim, por causa de sua bravura, para Mandu Ladino, o grande líder indígena, que comandou a confederação tribal de que faziam parte os Tremembés, já que ele é também intrépido piloto do agora super Tremembé, de gloriosa saga, apesar de todos os percalços e embaraços, que já enfrentou.  

terça-feira, 29 de março de 2016

O circo chegou!


O circo chegou!

José Pedro Araújo
Historiador, cronista e historiador

A notícia corria chão e virava o mote das conversas nos botequins, nas esquinas e nas ruas da cidade modorrenta. Um velho e fumarento caminhão International acabara de chegar trazendo a trupe de artistas juntamente com toda a estrutura do Circo, noticiavam algumas pessoas com ar de imensa satisfação estampada no olhar. Acontecia assim na nossa velha e querida aldeia sertaneja do Curador quando um Circo, por mambembe que fosse, chegava à cidade pequenina dos idos da minha infância. A comunidade se agitava e as ruas enchiam-se de gente para observar a passagem do grupo empoeirado, rostos cansados, que acabava de chegar da vizinha Dom Pedro, onde estivera instalado nos dias anteriores.

Empoleirado na janela da minha casa, meus olhos curiosos tentavam adivinhar quais seriam as principais estrelas do espetáculo que se iniciaria já no próximo final de semana, dali a dois dias: aquele mais animado, sorriso aberto, gesticulando muito, deveria ser o palhaço, enquanto que o rapaz de porte atlético e postura convencida, deveria ser o trapezista principal, não restava dúvidas; já a mocinha com cara de enfado, lenço colorido cobrindo a cabeça para proteger os cabelos da poeira vermelha seria, sem medo de erro, a principal atração feminina, aquela que se apresentaria em trajes sumaríssimos e excesso de lantejoulas, purpurina e miçangas enfeitando a alegre vestimenta que deixava à mostra as belas e torneadas pernas de vedete. Estavam todos aboletados em um velho e enferrujado Jeep Willys que abria o cortejo da alegria e seguia lentamente para a velha Praça do Mercado.

A chegada de um Circo na cidade era motivo de alegria e regozijo para a garotada nestes sertões faltos de tudo, especialmente de atividades de lazer. Instalados no lugar se sempre, atraiam gente de todas as idades para assistirem ao espetáculo que começava, invariavelmente, às sete da noite. E com o propósito de observar de perto a novidade, de todas as ruas, becos e vielas, famílias inteiras acorriam ao local para admirar o frenético vai-e-vem do pessoal encarregado de proceder aos últimos ajustes para deixar o Circo pronto para dar inicio ao primeiro espetáculo daquela turnê na cidade.

Na maioria das vezes, tratavam-se de pequenos Circos mambembes, empanadas de chita ruim, um único trapézio onde um aprendiz de trapezista fazia algumas estripulias simples, para desgosto daquelas pessoas que já haviam assistido a espetáculos bem mais elaborados. E nesses casos, quem salvava a noite era mesmo o palhaço, garantindo a alegria com uma performance engraçada e seu jeito estabanado de se apresentar. Enquanto isto, no palco pobre erguido em frente ao picadeiro, protegida por uma cortina desbotada, uma velha vitrola emite em alto e fanhoso som uma música característica das apresentações de palhaços. A emoção estampada no rosto da plateia era o atestado de aprovação ou desaprovação do espetáculo. 

Vez por outra, aparecia também algum circo com melhor estrutura, lona colorida e bem conservada, trazendo uma trupe bem maior e até mesmo alguns animais exóticos. Esses já possuíam os três trapézios, além de trapezistas de maior gabarito. Chegavam em uma frota de caminhões mais novos e arrastavam atrás de si vários trailers para acomodação dos artistas do espetáculo. Esse tipo de Circo era raro. Mas, fomos brindados algumas vezes com alguns deles, para delicia dos aficionados.

Depois disto, de observar o circo instalado, era hora de correr atrás do ingresso para assistir a apresentação de logo mais a noite. Como o dinheiro estava sempre em falta, só tínhamos duas possibilidades de adentrar ao recinto do Circo: a primeira delas era ofertada pelo palhaço que saia pelas ruas da cidade conclamando o pessoal a assistir ao espetáculo de logo mais à noite. Atrás dele a meninada ia repetindo os conhecidos refrãos: “Hoje tem espetáculo? – gritava o palhaço – “Tem sim, senhor”! – replicava a meninada. “Às sete horas da noite”? – continuava – “Tem sim, senhor”! – “Hoje tem marmelada”? “Tem sim, senhor”! “O brilho do Sol esconde a Lua”! “Olha o palhaço no meio da rua”!, repetia a criançada em procissão. E assim seguia-se pelas ruas da cidade. O término da propaganda era exatamente na frente do Circo, local também da partida. Nesse momento eram distribuídos três ou quatro ingresso, o que causava um tumulto enorme no meio da criançada. E não foram poucas as vezes em que a disputa das mais de vinte crianças pelos poucos ingressos terminava em tapas e empurrões.

Perdida essa primeira oportunidade, restava a última chance de se entrar no recinto circense: “varar” o Circo, como chamávamos a invasão pura e simples, e sem pagamento. Esta, porém, não era uma tarefa fácil de se fazer. Escaldado com as costumeiras invasões da moçada, os donos do Circo tentavam evitar esse procedimento de todas as formas, colocando vigias no entorno da lona. Cercas de arame farpado com muitos fios, era a forma mais comum de proteção, mas que, na maioria das vezes, não evitava que um ou outro menino mais atrevido conseguisse penetrar no recinto para assistir ao espetáculo, coração aos pulos e olhos esbugalhados de admiração.

Uma forma eficiente de penetrar no recinto foi por mim posta em prática, com grande grau de acerto: deslocava uma das tábuas da grade de madeira que ficava próxima ao guichê – tarefa realizada cedo. E uma vez despregada, era posta novamente no lugar, e ficava somente encostada. Depois, já noite, aproveitando-me da hora de maior tumulto na fila para aquisição de ingresso, afastava rapidamente a tábua e entrava-se agilmente, voltando a peça de madeira ao seu local sem que ninguém testemunhasse. Estava consumada a ação. Algumas vezes, contudo, algum desalmado que se encontrava na fila, nos dedurava para os vigias. Ai era uma correria para nos escondermos no meio da multidão, coisa que nem sempre funcionava a contento.


De qualquer maneira, o Circo sempre era motivo de animação nas remotas comunidades sertanejas, como de resto acontecia em todos os recantos desse imenso país desde o século XIX, quando vieram para cá as primeiras companhias circenses trazidas por Ciganos expulsos de seus países de origem na Europa. Mas, além da alegria, eles traziam também alguns problemas para as famílias dessas comunidades interioranas. Não foram poucas as vezes em que esses saltimbancos levaram consigo, às escondidas, algumas moças da cidade, embevecidas e atraídas pelo charme dos espetáculos circenses e pela possibilidade de conhecerem novas terras. Velhos tempos! Belos dias!    

segunda-feira, 28 de março de 2016

Professor Alcenor Candeira Filho e a OAB/Parnaíba


Recebi o seguinte comentário, que julgo oportuno publicar:

Prezado e estimado Elmar Carvalho,

Sobre a manifestação do Professor Alcenor Candeira, também ilustre advogado parnaibano, a respeito da sessão da Câmara Municipal por ocasião de aniversário de criação da subsecção da OAB em Parnaíba, venho, embora com atraso, manifestar-me e declarar que Alcenor Candeira registrou bem os fatos, tendo sido daqueles que grande emprenho teve para a criação da subsecção. Solidarizo-me, pois, com o mestre e colega Alcenor Candeira. Por justiça, entendo que ele também merece ser homenageado, ficando esta minha manifestação como a devida homenagem. E que estendo a todos os demais que participaram da empreitada, e não tiveram seus nomes registrados na sessão de homenagem na Câmara Municipal, eventualmente.
Caro Elmar Carvalho, tentei enviar comentário direto ao seu blog sobre a citada manifestação, mas não tive sucesso, certamente por ter equivocado-me quanto ao modo de fazê-lo no espaço próprio aos comentários. Por isso é que lhe envio o presente e-mail.
Um abraço,

Marcos Antônio Siqueira da Silva
Defensor Público

domingo, 27 de março de 2016

Seleta Piauiense - Isabel Vilhena


A árvore

Isabel Vilhena (1996 – 1988)

O pequenino vegetal que agora
Acabas de plantar, a vida encerra.
Sob as carícias maternais da aurora,
Ele há de erguer-se, em flores, sobre a terra.

Plantaste o lume e o mastro das bandeiras,
Plantaste o fruto, a sombra dos caminhos
E o repouso das horas derradeiras!...
Deste um novo aposento aos passarinhos!

Plantaste o berço.  E, assim, essa alegria
Que à nossa vida todo o encanto empresta,
E até mesmo, o perfume que, num dia,
Hás de levar no lenço para a festa.

E quanta coisa mais há de te dar,
Pedindo em paga, apenas que a protejas!
Sob as bênçãos do céu, a farfalhar,
Tesouro vegetal, bendito sejas!

sábado, 26 de março de 2016

Ovos de páscoa, uma ova!


Ovos de páscoa, uma ova!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Semana Santa, morte e ressurreição de Cristo. Somente ele, e não mais ninguém, veio ao mundo para romper o mistério do destino humano depois da morte. Jesus aceitou o aniquilamento de seu corpo, para logo ressuscitar. Prova de amor à humanidade, duvidosa da existência de outro lado da vida. Que só à luz da fé nas suas palavras para decifrar e aceitar fantástico mistério, que se repetirá conosco, conforme promessa do Mestre. Que a felicidade eterna se alcança, praticando misericórdia com o próximo, despojando-se do egoísmo exacerbado à vida material.

A sociedade moderna, pautada no consumismo e bens de capital, transforma as representações do sagrado em produtos de mercado, desviando-se de sentido mais sublime da espiritualidade.

No natal e páscoa, o homo religiosus contemporâneo direciona suas relações com o sagrado, comercializando apenas bens simbólicos da religião.  Esta demanda fortalece a constituição de um mercado de consumo, especializado na oferta daquilo que está, especialmente, na mesa. Uma espécie de religiosidade de glutões, e não de crentes.

Símbolos natalinos e pascais transformam-se em produtos mercadológicos, na hipócrita impressão de fé. Cristãos primitivos traduziam a fé com a pedagogia dos símbolos, sem intenções mercadológicas: ovos simbolizavam a ressurreição de Cristo: assim como o pinto sai do ovo, espontaneamente, Jesus libertou-se do sepulcro. A fertilidade do coelho retratava a fertilidade da graça em Jesus. Em tempo de jejum, substituía-se a carne vermelha por modesto peixe. A apelação comercial moderna, porém, explora antigas tradições com o consumo fantasiado de religiosidade. Os preços disparam, e a espiritualidade reduz-se a paganismo, “cujo Deus é o ventre”, no dizer de Paulo apóstolo.

Ouro, incenso e mirra, presentes oferecidos pelos reis magos, na gruta de Belém, servem para movimentar gigantesca indústria de papai Noel, em dezembro. O período da quaresma, com restrições ao consumo de alimentos, antecipa-se, porém, com o carnaval de nudismo, comilança e devaneios pagãos. E espírito religioso às favas.

A fé industrializou-se em ovos de páscoa, coelhinhos, papai Noel, receitas de pratos raros, caros, de nenhuma aliança com o transcendental. A televisão se enche de reportagens ao sagrado, associadas a superficialidades, superstições e crendices, quase sempre aceitas como “fé popular”, mas sem atingir o verdadeiro sentido da fé inteligente e menos emocional.

Criei-me em família cristã. Meus pais e uma vida modesta. Conceitos de virtudes e de vida santa, exemplos repassados aos filhos. Éramos abençoados porque aprendíamos, desde cedo, a exercitar a presença de Deus na família conjugada à Igreja.

O mal atravessa gerações, quando se negligencia o exercício das virtudes. O bem vai mais além, rompe até quarta ou mais gerações. Graças à educação recebida no ninho de meus pais, depois em seminário franciscano. A indústria do consumo não me seduz, na tentação do fruto paradisíaco. Ovo de chocolate com mensagem pascal, uma ova! Vai-te satanás!