sexta-feira, 6 de maio de 2016

A química das paixões, do amor e da razão


A química das paixões, do amor e da razão

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com
     
Quando as emoções e atitudes ultrapassam as fronteiras da razão, podem revelar paixão patológica. A palavra PAIXÃO origina-se do latim, PASSUS, PASSIONIS, sentimento forte a uma pessoa, objeto, religião, filosofia, partido, esporte. PAIXÃO lembra, outrossim, termo grego PATOS, excitação descontrolada, idealismo exacerbado. Nada tem a ver com AMOR, que surge de atitudes sadias e virtudes.

Os meios de comunicação e redes sociais vêm exibindo, diariamente, cenas grotescas do absurdo emocional e moral. Um parlamentar cospe no rosto de companheiro, em plena sessão da Câmara, em Brasília. Outro desafia o adversário que o chamara de mentiroso, também na Câmara, a resolver o caso “lá fora”. Uma bela moça levanta a saia, acocora-se, em via pública, urina e defeca sobre a foto de parlamentar da oposição. Empresário assassina a namorada, no apartamento, esconde o corpo no bagageiro de luxuosa mercedes. Mais de quarenta mil homicídios em 2015, no Brasil, alguns por fúteis motivos. O noticiário se transformou em assombrosas descargas emocionais, irracionais, sangrentas.

A cultura do “olho por olho, dente por dente” é tão ancestral quanto a necessidades de comer, dominar território, multiplicar a espécie, defender o corpo e a honra. Encontra-se em passagens sangrentas da Bíblia e do Alcorão, no paganismo romano, nos ritos religiosos dos ameríndios primitivos, no hino nacional de países, inclusive do Brasil.

Nem Jesus Cristo, pregando o maior paradigma de amor de todos os tempos, conseguiu transformar consciências, dentro de sua própria Igreja, apesar dos excelentes avanços da educação cristã, especialmente nos últimos séculos.

As definições de amor se multiplicam, de acordo com princípios filosóficos  e religiosos adotados e interpretados. Parece-me que o mais acertado encontra-se no segundo mandamento divino: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”, traduzido na tradição popular: “Não faças a outrem o que não queres que te façam”. Você gostaria de receber uma cusparada na cara, embora merecendo? De tratamento ofensivo em público? Uma bala no coração por avançar em cônjuge alheio, ou furtar nas caladas da noite? Não vale mais o princípio da tolerância, acompanhada de punição à luz da legalidade?

A história humana mostra: quem condena a violência, praticando violência, aprova o exercício da violência. Escarrar, desafiar adversário para luta corporal - por essas e outras irracionalidades -  só refletem a falta de educação dos sentidos, e, principalmente, das faculdades mentais. A razão das causas e efeitos da nossas atitudes.


A educação atual exalta, demasiadamente, o vigor físico e atlético como fórmula mágica de saúde. Falta, porém, destacar a educação das faculdades mentais, especialmente a razão. Aquela que analisa causas e efeitos da nossa conduta, seja nas relações sociais, amorosas e sexuais. A irracionalidade deve ser banida das estúpidas e vergonhosas reações na família, nas assembleias, nos estádios, no trânsito, na alcova. Enfim, viver com amor no amor, na misericórdia, perdão e tolerância com a desigualdade.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo IV


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

           Capítulo IV

NO CANTINHO DOS INOCENTES

Elmar Carvalho

Desde o seu alumbramento, ao ver Neuza desnuda, e o assédio de Suzana, a que resistira brava e estoicamente, Marcos não pensava em outra coisa, a não ser em perder sua virgindade com alguma rapariga, ainda que do baixo meretrício. Falou desse plano ao Fabrício, que também fazia parte do grupo responsável pelo jornal mural, no qual publicava contos e crônicas, além de ser o dono, o técnico e um dos jogadores do Flamengo Eborense Clube, time de futebol amador.

Era ele filho de um alto comerciante de Évora, proprietário de uma loja de eletrodomésticos, que vendia seus produtos para todas as cidades circunvizinhas. Tinha apenas uma irmã, de nome Marta. Recebia uma boa mesada de seu pai, mas era comedido, sóbrio, nunca esbanjava, e muito menos praticava ostentação. Simpático e previdente, quase todo dia passava pelo comércio do pai, com o intuito de obter experiência comercial e administrativa.

Fabrício exercia natural liderança sobre seus amigos e companheiros, desprovido que era de arrogância e empáfia, não obstante ser considerado rico, para os padrões da época e da localidade. Conquanto fosse o dono da farda rubro-negra eborense, da bola de couro, do campo, que ficava num terreno de seu pai, não precisava dessas “prerrogativas” para integrar a equipe, pois era um dos melhores goleiros do futebol amador. Tinha grande elasticidade e coragem. Inteligente e intuitivo, sabia se posicionar muito bem, e parecia antever a trajetória da bola, fechando os ângulos em direção ao gol. Quando necessário, arrojava-se aos pés do atacante para impedir o chute ou desviar o curso da pelota.

Dava belas “voadas” ou “pontes”, em que parecia revogar a lei da gravidade. Tinha grande habilidade em encaixar a bola nas mãos ou entre o peito e os braços. Quase nunca “batia roupa”, que é o lance em que o goleiro não agarra a bola, mas a rebatia ou espalmava para fora da zona de perigo. Pelo que se sabe, nunca engoliu um “frango”. Às vezes se auto escalava para jogar na lateral ou na ponta direita, em que atuava com boa desenvoltura, embora não fosse propriamente um craque nessas duas posições.

Ficou acertado, entre ele e Marcos, que se encontrariam no sábado, no início da noite, no bar e mercearia do Zé Afonso, para tratarem da incursão à zona meretrícia. Convidaram também o Mário Cunha, que já tinha incipiente experiência nessa seara. Fabrício, pela sua própria condição financeira, tinha razoável prática em fornicação. Foi a seu convite que Marcos bebeu pela primeira vez, com certo receio, relutância e mesmo remorso. Ficou mais alegre e espirituoso, e ria aparentemente sem motivo, pelo que recebeu admoestações de Fabrício, para que se contivesse.

No estabelecimento de Zé Afonso existia um espaço denominado Cantinho dos Inocentes, em que o chamativo letreiro vermelho, pintado na parede, formava um ângulo de noventa graus. Portanto, o Cantinho dos Inocentes ficava efetivamente em um canto do comércio, e dispunha apenas de uma mesa de madeira e quatro cadeiras. O encanto estava apenas no sugestivo e poético nome.

Os amigos pediram meio litro de Ron Montilla, coca cola, limão, gelo e três copos, e passaram a tomar, sem pressa, sucessivos copos de cuba livre, então muito na moda. Passaram a montar a estratégia para o que denominaram de Operação Descabaçamento de Marcos. Fabrício foi peremptório em dizer que a estreia sexual deste deveria ser no Quartel General, ou velho QG, e não numa espelunca qualquer; que faria as tratativas com puta experiente, verdadeira professora em prática sexual, e mormente sem as indesejáveis doenças venéreas.

Coadjuvado por Mário, transmitiu a Marcos o que sabia e o que fingia saber dessa hedonística atividade. Recomendou que ele procurasse ter calma e não demonstrasse ansiedade. Mário Cunha, além de ter largo conhecimento livresco e teórico sobre o assunto, tinha uma imaginação fértil, com vasto arsenal de truques e simpatias, muitas sem a menor base científica. Explicou que o Ron Montilla, bebido com moderação, era uma espécie de afrodisíaco e retardava a ejaculação.

Recomendou ainda que, uma hora antes da relação, Marcos fosse ao banheiro e praticasse uma bronha, para que o coito fosse mais demorado. O rapaz ficou mais apreensivo e impressionado, ante tantos aconselhamentos e recomendações. Desconfiou que a bronha poderia ensejar, talvez, muito mais uma broxada. Na verdade, ficou mais nervoso do que já estava. Mas se manteve firme, e não pensou em bater em retirada.

Marcos empunhou o litro vazio de rum, olhou demorada e fixamente o seu rótulo, em que o esvoaçante papagaio pousava sobre o ombro esquerdo do estilizado pirata caolho, e se lembrou com indisfarçável emoção do livro A Ilha do Tesouro, cuja leitura tanto lhe encantou em sua meninice. Tocado de leve pelo espírito da garrafa, se autoproclamou pirata Gran Montilla, desbravador dos sete mares ou bares, e concitou:

– Partamos, meus amigos, para a ilha da Fantasia, do Tesouro ou da Utopia, onde iremos chafurdar no reino da putaria!...


Gargalharam e partiram. Sem pressa, contando anedotas e fazendo chistes, em prosa e em versos, sob a bênção prateada de uma esplêndida lua cheia, com a vida toda pela frente a lhes sorrir, estuante, cheia de graças e de flores, os três amigos seguiram a pé para o QG. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

SOMOS TODOS ANÔNIMOS


SOMOS TODOS ANÔNIMOS

Cunha  e Silva Filho

          No decorrer do tempo, a visibilidade de uma autor, seja critico, cronista, articulista,  ficcionista,  dramaturgo,  gramático, filólogo, tradutor, o que seja no domínio  da escrita literária, se apaga, passa ao limbo à medida que os anos e os séculos se inscrevem no tempo  decorrido.  O tempo é como um  grande  romance conhecido de Machado de Assis (1839-1908), tudo devora,  pois é uma sucessão de passamentos que valem, a meu ver,  por uma definição, ou melhor,  uma  concepção algo  pessimista  da vida. Todos  somos tragados, pulverizados pelo silêncio  do tempo, da época. Ninguém quase escapa dessa condição humana auto-refletida na vaidade e na rapidez enlouquecida dos tempos  pós-modernos.
       Certa feita, um professor universitário, diante de seus alunos, confessou essa situação da existência contingencial diante  dos valores  conhecidos e incensados numa data etapa, valores em geral  constitutivos de nichos,  de grupos, que têm muito em comum,  até as práticas  acadêmicas,  as pesquisas semelhantes,  os interesses intelectuais,  os  postos de comando. Diria  o professor: ”Ele tem o seu grupo, os seus  seguidores. Nós (não sei a que grupo ele quis se referir  para si) temos o nosso. Isso nos basta. Cada um fica na sua fronteira,  no seu espaço conquistado. Não me importo se eles me estimam ou não. Não quero saber  disso. Faço a minha parte.”
      Se a vida literária nas décadas de 1930, 1940, 1950, somente para  recortar  um  bom  período de tempo em que  houve tantas  lutas,  polêmicas,   injustiças a autores,   má  interpretação de outros, cabotinismo, estrelismo,  luta  pelo  poder  das ideias  literárias   ou de métodos  críticos  ou de  práticas  estéticas  vigentes  na produção  literária  brasileira, é caracterizada  por marchas e contramarchas,  por  grupos a favor  disso ou  daquilo  no âmbito da literatura  ou de grupos  contra  o establishment  literária, é bem visível  igualmente que a voragem do tempo foi   devastadora.[1]
     Um crítico marxista, em livro,  afirmou que  um determinado  crítico brasileiro  não valia  a pena ser mais lido. Já não falava mais nada no tocante às suas ideias  sobre literatura. Vejo, diante de um fato dessa natureza, que  a visibilidade é realmente  uma leve brisa que passa e se fixa no passado sepultada até que, por uma circunstância ou outra,  sai do limbo.
    Ora,  esta condição de ser um  sujeito  efêmero na atividade  literária de alguma maneira   tem um efeito salutarmente   pedagógico  àquelas figuras  que se  julgam  ou são  consideradas  por seus  simpatizantes, seus contemporâneos,  seus incensadores, ou endeusadores de suas qualidades ímpares   muito acima da mediania visto que  lhes fazem  despertar  para  as condições impostas  pelo dinamismo de mudanças  e multiplicidades de  concepções e de ideias. A história literária mostra que a contemporaneidade   é apenas uma fase  transitória  que logo é atropelada  por novos ventos que se lhe opõem ou a superam.  Diria Gilbert Frankau (1884-1952): “For all heights are lonely”[2].
      Serve, então,  de alívio  àqueles que, por diversas  razões  ou  condicionantes de vida, nunca se tornaram  figuras marcantes  ou foram  mal  julgadas  ou rejeitadas na sua  época. A historiografia   literária está repleta de  exemplos  que se  encaixam nessas condições  de escassa  visibilidade. 
     Por outro lado,  é confortador   que  o julgamento  alheio  jamais será  um indicador  imparcial  de  valorização  de autores em qualquer gênero. Os autores que se julgam  subestimados  não devem ter uma  postura acabrunhante a ponto de  desejarem   desistir de seus objetivos  ou projetos  traçados no terreno  da produção  de sua obra. Muito ao contrário,   deveriam ter sempre ao seu alcance  sua  utopia, o acalanto de um  sonho  que se realizará  a despeito  dos  espinhos e dos  dissabores   que   terão que enfrentar.
    Sua grande saída  é revestir-se de uma  grande   força de vontade  e de desprendimento  sem sinalizar  nenhuma  marca  de desânimo e de abandonar  o percurso   já conquistado com ou sem  visibilidade. Todo o seu esforço deve ser em direção ao auto-aperfeiçoamento contínuo, resistindo a tudo e a todos e tendo sempre em mente  a ideias de que todos os seus pares, mais conhecidos ou menos conhecidos,   conhecerão  o ocaso  do esquecimento e da ultrapassagem dos novos, numa sucessão incansável de perdas e ganhos. A metáfora  dessa fase de  ultrapassagem ou superação das novas gerações  está bem descrita pelo  hoje esquecido  escritor  Origens Lessa (1903-1986), precisamente  nas páginas  finais  de seu  romance O feijão e o sonho, [3] obra que,  por sinal,  foi adaptada ao cinema. A metáfora a que aludi constitui parte ponderável dos últimos  capítulos da obra. Vejamos uma citação que representaria bem  a glória  literária e a sua  decadência, que chamei de ultrapassagem:

         [...] Todo o alto castelo  que construíra com lágrimas, com sofrimento, com paixão, esbarrondava ao simples sopro de uma geração que o demolia, como ele tentara  demolir trinta anos antes, com a mocidade do seu  tempo, as glórias  encontradas.”

NOTAS:

[1] Cf. Acerca da vida literária   duas obras,  a meu  ver,  são fundamentais  ao conhecimento da vida  literária  brasileira  quanto ao recorte  temporal  de cada uma.. Ver BROCA,  Brito. A vida literária no Brasil -1900.   3 ed.   Introdução de Francisco de Assis Brasil Rio de Janeiro: Livraria  José Olympio Editora/PROLIVRO, 1975 e COUTINHO, Afrânio. No hospital das letras.  Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1963.A primeira  se notabiliza pela notável abrangência de  exposição e de fatos ; a segunda,   pelo  tom  polêmico e contundência da exposição.
[2]  Ver o ensaio desse autor, ”I am a lowbrow.” Apud ECKERSLEY,  C.E. Brighter English. Revised edition. London: Longmans, 1964, p. 217. .

[3]  LESSA,  Orígenes. O feijão e o sonho. 6. edição. rev. Biografia de Renard Perez  e Introdução e notas de Ivan Cavalcanti Proença.. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1968, p. 200.

domingo, 1 de maio de 2016

Pintura


PINTURA

Elmar Carvalho

Minha estrada
é a esteira de luz
que o Sol traça no mar.
Meu arco-do-triunfo
é o arco-íris
que o Sol pinta no céu.
Meu louro
é o pentelho dourado
que cobre tua nudez.
Então eu:
laureado com tua pubescência de ouro
percorro a estrada de luz do sol no mar
passo por baixo do arco-íris-do-triunfo:
herói anônimo que se venceu a si mesmo. 

sábado, 30 de abril de 2016

O lírico e telúrico em Elmar Carvalho

Capa da segunda edição

O lírico e telúrico em Elmar Carvalho (*)

Reginaldo Miranda
Presidente da Comissão Editorial da APL.

O fazer poético é trabalhar arduamente com as palavras em busca da sintetização de ideias, da sonoridade da frase, da busca do belo, em linguagem mais metaforizada, ritmada e sujeita a maiores peripécias estruturais que a linguagem em prosa. Ser poeta é trabalhar intensamente o processo artístico, o estilo, enfim, a busca da expressão perfeita.

Poeta tem de ter dom e trabalhar intensamente a forma e o estilo. Elaborar o texto com sonoridade, porque fazer poesia é cantar, sempre cantar, podendo ser esse canto de amor, alegria, tristeza, lamúria, dor, revolta, guerra, mas é preciso ser sonoro, sensível, penetrar a alma.Sem isso, a meu sentir não é poesia, embora possa ser um bom texto de qualquer outro gênero, menos poético. Sei que pode haver quem pense de forma contrária, e respeito.

No caso deElmar Carvalho, temos uma poesia lírica, elaborada com rara sensibilidade, sem esquecer o drama social. O poeta não está enclausurado num mundo de sonhos, em castelos de areia, mas consciente de seu papel na sociedade, em sintonia com o povo, de que é exemplo o poema Sou poeta: “sou poeta/E estou de mal com a vida/ que nos acena/ com miragens/ que jamais irá cumprir./Sou poeta Alcides Pinto,/nunca neguei, sou poeta./ Mas sou puto com a vida,/megera encarquilhada/ que nos acorda dos sonhos/ que sonhamos acordados/ pelo prazer de ser madrasta”. E noutro trecho do mesmo poema: “e sei que o povo/ passa fome/ Sei que/algum dia o/ ter’ar’pão/ virá tecido no (te)ar/ pelo arpão do povo/ e pão haverá/ Sei que/ alguma coisa está errada/ porque o povo era pra ser/ tudo/ e agora não é nada”.

Então, não se diga que a poesia de Elmar Carvalho não tem viés social. Tem sim. O poeta manifesta revolta, engajamento e consciência de que algo está errado e tem de mudar. Ele se reconhece poeta, é consciente de seu papel na sociedade, de que sua missão não é cantar os “políticos que tanto mentem pro povo, que tanto enganam o povo”, mas cantar e denunciar o drama da vida, das putas, dos assassinos, dos botequins, “dos deserdados da sorte, dos enteados da vida”.Nessa toada segue toda a poesia do Cancioneiro do Fogo, com indisfarçável protesto social. Aliás, essa é uma tendência da poesia moderna, sempre preocupada com o drama social.

Contudo, a poesia de Elmar Carvalho é essencialmente lírica, envolvendo a emoção, os sentimentos, o seu estado de alma, o que vem sendo acentuado por diversos críticos, entre os quais M. Paulo Nunes, Cunha e Silva Filho, Teresinha Queiroz, Cléa Rezende, Alcenor Candeira Filho e tantos outros que têm se debruçado sobre sua obra.

Elmar Carvalho canta a sua terra, exalta as suas singularidades, as suas belezas, também seus problemas sociais, guiando o leitor pelas veredas do Piauí. O Cancioneiro da Terra e da Água é todo um hino de louvor à natureza e ao rincão natal. De forma lírica e telúrica canta em Marítima as ondas e eflúvios do mar; Flagrantes de Teresina, onde à meia-noite, silente e fria nenhuma estrela luzia, apenas os bêbados passeiam equilibrados sobre a corda bamba dos pés, entre velhas meretrizes sem freguesia; Elegia a Campo Maior, onde as águas mortas do açude tudo viam e tudo refletiam; Postais de Parnaíba, com seu cais da beira-rio, onde lavadeiras sem roupas lavam as roupas dos ricos; também, realçam as subjetividades de Luzilândia, Barras, Amarante, José de Freitas(antiga Livramento), Sete Cidades, Lagoa do Portinho, fazendas e esse consagrado poema que é Noturno de Oeiras, em que homenageia a velha Capital.

Depois de ler esta obra perceberá o leitor que o Piauí é muito mais que um mero lugar no mapa do Brasil. Tem uma gente alegre, laboriosa, que sonha, realiza, sofre, luta e sabe vencer.

Outra vertente da poesia de nosso vate é o poema épico pós-moderno, de que é exemploDalilíada, enfocando a vida e obra de Salvador Dalí; assim como A Zona Planetária, inspirada no meretrício de Campo Maior, onde o poeta mostra toda a pujança de seu talento.


Elmar Carvalho é poeta na acepção da palavra, lírico, essencialmente lírico e telúrico; ao mesmo tempo épico pós-moderno, sem esquecer de invocar o povo simples, os deserdados da sorte, enfim, odrama social. Denuncia a dor, a solidão, o sofrimento. Também, canta a sua terra e, assim cantando seus males espanta. Por isso mesmo a sua obra é universal porque canta a sua aldeia, como diria Leon Tolstoi.  

(*) O vertente texto será a orelha da terceira edição de Rosa dos Ventos Gerais, pela Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras (já no prelo).

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Histórias de Évora - Capítulo III



HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

            Capítulo III

O APELO DO SEXO

Elmar Carvalho

Desde sempre e até muitos anos depois da adolescência de Marcos a maioria esmagadora das mulheres de Évora (e de outras cidades, sobretudo nordestinas) preservava a virgindade até o casamento. Algumas, quando confiavam no namorado e sob promessa de casório, abriam exceção. Quase sempre a promessa era cumprida, sob pena de escândalo e inimizade entre as famílias envolvidas. Como dizia o cantor Reginaldo Rossi, num de seus grandes sucessos da época, a pílula já existia, mas ninguém falava, e muito menos era usada pelas moças solteiras de então.

Desse modo, os jovens se iniciavam no sexo com as raparigas, como eram designadas as prostitutas. Algumas tinham foro de professoras, e várias gerações de “alunos” passaram pelo seu tirocínio pedagógico. Cada cidade tinha os seus bordéis, com seus nomes pitorescos e muitas vezes jocosos. Havia os de luxo, os caros, os populares e o chamado baixo meretrício; estes eram infestados por mulheres mais feias e mais velhas. Algumas das meretrizes eram “importadas” de outros estados, entre os quais Pernambuco e Bahia. Era raro, mas apareciam as estrangeiras, de preferência louras e de fala enrolada.

Os jovens, quase sempre sem emprego e sem dinheiro, passavam pelos cabarés, para espiar o movimento e os casais no salão, geralmente cheio de espelhos e envolto na penumbra de luzes negras. Às vezes, tinham recurso para tomar apenas duas ou três cervejas, enquanto ouviam os sucessos musicais do momento, sobretudo músicas românticas, recheadas de muita paixão, adultério, vingança e amores infelizes.

Das velhas vitrolas evolavam as vozes de Waldick Soriano, Roberto Muller, Evaldo Braga, José Ribeiro, Carmem Silva e outros astros da chamada música brega. Vez por outra um felizardo, metido a galã e conquistador, conseguia que alguma rapariga fosse com ele gratuitamente. Outros, mais sortudos ainda, tornavam-se gigolôs de madame (como era chamada a dona do brega) ou de alguma rameira de alta rotatividade.

Alguns mais afoitos, na ânsia incontida de apaziguar o sexo, iam para o quarto com alguma das mulheres, e somente após o coito declaravam não ter dinheiro. Era o chamado “passar o seixo”. Quase sempre as raparigas se revoltavam com o logro; faziam uso de palavrões e xingamentos, e algumas vezes lesionavam o caloteiro com giletes, navalhas ou facas, ou com unhadas e dentadas. Algumas ostentavam as cicatrizes e hematomas de eventuais revides.

Marcos já fazia planos de fazer sua estreia, principalmente desde o seu alumbramento, ao ver Neuza desnuda. Via com frequência as revistas proibidas, que seus colegas e amigos lhe exibiam. Conseguia algumas por empréstimo, e ficava com elas durante alguns dias, até que o proprietário lhe cobrava a devolução. Um amigo seu, filho de próspero comerciante, tinha o requinte de possuir um luxuoso almanaque pornográfico, em papel couchê e com fotos em policromia, recurso gráfico raro na época. Mas não o emprestava, e só deixava que outra pessoa o folheasse por poucos minutos, sob seu olhar atento e cuidadoso.

Seguindo o exemplo de seus colegas, gostava de observar as coxas das colegas do ginásio. Algumas, mais atrevidas, encurtavam as saias da farda, fora da vigilância materna. Outras, por displicência, malícia ou generosidade davam brecha, em que se podia flagrar pequena nesga triangular de calcinha, às vezes retesas, esticadas. Alguns seios mais volumosos pareciam querer voar da clausura do sutiã pelo decote da blusa. Mamilos mais aguçados espetavam os tecidos mais finos. Nada escapava aos olhares famintos e curiosos dos jovens que desabrochavam para o apelo do sexo, numa época em que ainda havia certo recato e o mistério, natural ou dissimulado, fazia parte da sedução e do fascínio.

Marcos Azevedo atingiu o ápice de notoriedade local quando escreveu a épica Ode à punheta, em que parodiava Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira. Várias cópias mimeografadas do poema circularam na cidade, passadas de mão em mão. Alcançou o auge de sua glória quando o famoso boêmio e declamador Cazuza o recitou embriagado, em magnífica interpretação, ilustrada por esclarecedora mímica, no enorme “saloon” do Quartel General, ou simplesmente QG, um dos mais luxuosos lupanares da velha urbe, com sua voz grave, possante, levemente metálica e estentórica. A estrofe inicial retumbou no saguão lotado de fregueses assíduos e convidados especiais:

Vou-me embora pra Solitária,
Em Évora não sou Dom João.
Em Solitária sou rei, e terei
As mulheres que sempre desejei
No côncavo de minha mão.

Certo dia estava ele na sala de sua casa, enquanto sua mãe fazia alguns afazeres, quando chegou Suzana, uma garota da vizinhança, doente mental. Ela era mais ou menos de sua idade. Não era considerada bonita, mas tinha seios empinados e encantadores. Por mistério insondável tinha forte inclinação para o sexo, embora, nos demais aspectos, fosse ingênua e inocente como uma criança, já que a sua idade mental era bem menor que a real. Corriam rumores de que alguns meninos já tinham transado com ela e feito outras saliências.

No entanto, ela gostava de dar esmolas, rezar, frequentar a igreja e cantar músicas religiosas, com sua angelical voz e ar de beatitude. Insistia para que seus pais fizessem caridade; com eles visitava o abrigo dos velhinhos. Viria a morrer pouco tempo depois, aos dezessete anos, vítima de fulminante aneurisma. Ganhou fama de alma milagrosa e seu túmulo se tornou o mais visitado do velho cemitério de Évora.

As duas irmãs e os dois irmãos de Marcos haviam saído para o colégio, de modo que a garota puxou conversa com dona Rita. Logo após, o rapaz resolveu ir para o seu dormitório a fim de ler uma antologia de poemas brasileiros, que a Fename – MEC havia publicado. Na verdade ele já estava relendo alguns poemas dessa seleta, que conservaria para sempre.

Não demorou muito Suzana, aproveitando-se do fato de que dona Rita fora orientar Neuza sobre o preparo do almoço, entrou no quarto em que Marcos se encontrava. Entabulou rápida conversa, apenas para lhe atrair a atenção. Começou a se embalar. Em seguida, no sentido da largura da rede (e não do comprimento), entreabriu as grossas coxas, puxou o vestido para o busto, e curvou a cabeça e os seios para baixo, de modo a ressaltar o monte de Vênus, que já era naturalmente acentuado, vendo-se logo abaixo a concha de valvas bem cerradas.

Tirara a calcinha, e uma quase imperceptível e delicada penugem o recobria. Marcos, como se dizia na época, foi no outro mundo e voltou, mas tudo fez para se controlar. Como a moça notou que ele se mantinha distante, retraído, parecendo recear alguma coisa, com os dedos de ambas as mãos afastou os grandes lábios, e disse, com a voz embargada de desejo, sussurrante, vem, coloca teu pinto bem aqui, neste buraquinho.

Nesse curto instante, coisas demais passaram pela cabeça alucinada de Marcos. Recordou que Suzana era irmã de um amigo seu, grande craque de seu time. Lembrou os conselhos de seus pais, para que nunca agisse de forma precipitada e jamais fizesse coisas de que pudesse vir a se arrepender, que viessem a lhe pesar na consciência.

Vieram-lhe à mente certas lições do catecismo sobre pecado. Parecia ouvir as palavras severas do padre Alberto, ameaçando os pecadores com o infernal fogo eterno; castigo bem mais severo que a ofensa. Lúcifer, com as suas negras asas de morcego, com as suas garras longas e aduncas, parecia ter saído das ilustrações do livro de edificação religiosa e estar ali bem perto, a revoar. Pensou nas irmãs. Achou que se atendesse ao chamado de Suzana estaria se aproveitando de sua inocência de doente. Ela, no entanto, o instigou novamente. Vem, coloca teu negócio bem aqui... Tu vai ver como é bom. E acrescentou, talvez para forçá-lo a sair de sua indecisão: Parece que tu não é homem...

Chateado, constrangido e envergonhado, ele então lhe exibiu o membro, ereto, tinindo de teso, e pulsante. Você está vendo como estou, mas não quero. A qualquer momento a mamãe pode entrar aqui. A moça ainda disse, deixa de ser besta, a gente faz ligeiro.

Felizmente, nesse momento dramático e de alta tentação, sua mãe gritou, chamando-o, talvez temendo o que pudesse acontecer:
– Ei! Marcos, vem cá, vem ajudar a mudar este móvel para outro local.


O jovem, ainda afogueado, sentiu como se houvesse saltado uma fogueira, talvez a fogueira eterna do padre Alberto, em suas catilinárias sacras incandescentes, em que o perdão parecia não existir, em que a punição era infinitamente maior do que o pecado.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Belas tardes de domingo

Foto meramente ilustrativa

Belas tardes de domingo

José Pedro Araújo
Contista, cronista e romancista

Existem coisas que marcam a fogo a nossa memória para sempre e, invariavelmente, tornam do canto escuro em que ficaram guardadas eternamente, despidas da parte ruim, é claro, para nos inundar de saudades. A maioria delas é composta por acontecimentos simples que, quando damos conta delas para outrem, ficam sem entender onde reside a graça daquilo que dizemos. Para nós, entretanto, elas são tão importantes quanto pequenas joias de valor incalculável, pois nos levam para o passado mais alegre da nossa pretérita existência. Essas lembranças, muitas vezes, são trazidas até nós sempre que alguma coisa nos acontece, como quando ouvimos uma velha música de que gostamos, e ela sempre vem acompanhada pela lembrança de um lugar, de uma pessoa, ou mesmo de um fato acontecido quando a ouvíamos.

O tempo vai passando, a idade vai chegando sorrateira com suas dores e suas cores cinzentas, mas traz costumeiramente também lembranças muito queridas para nós. Uma dessas lembranças simples e duradouras nos dá conta do que acontecia nas tardes dominicais do meu Curador.

Nos primeiros anos dos sessenta, havia pouca coisa para se fazer numa cidade tão pequena e desprovida de opções de lazer como a nossa. Para os aficionados pelo futebol, sempre restava o velho radio de pilhas e suas ondas médias, que traziam até eles o som das transmissões futebolísticas, por exemplo. Sentados confortavelmente em cadeiras espreguiçadeiras, esses torcedores sertanejos ouviam com atenção os ataques de histeria dos locutores quando algum atacante do seu time favorito se aproximava do gol adversário. Às vezes, não havia o jogador ainda ultrapassado a linha que divide o gramado, mas eles já carregavam na emoção e deixavam o sofrido torcedor com a impressão de que a bola já estava quase dentro do gol adversário.

Para a garotada, porém, restava pouco o que fazer. Assim, tinha que se agarrar em alguma coisa para ocupar o tempo que se escoava vagarosamente rumo ao anoitecer. Tocavam a inventar brincadeiras e a buscar emoção nas coisas à disposição e tão corriqueiras. Sem alumbramento, entretanto.

Uma dessas possibilidades de dar um pouco de alegria às tardes de domingo, aconteceu quando um empresário da cidade, Zé da Cruz, adquiriu um caminhão novinho em folha, para transportar mercadorias e produtos relativos à sua atividade empresarial. Corria ai, como já falei, o inicio dos anos sessenta, e existiam poucos carros na cidade ainda inexpressiva. De modo que a simples aquisição de um veiculo por algum dos moradores da cidade já era assunto para ser tratado nos pontos de maior ajuntamento de pessoas, como a praça da matriz, o mercado central ou mesmo as igrejas.

Como ia dizendo, o caminhão do Zé da Cruz era uma das novidades mais alvissareiras da localidade e todo mundo queria conhecer o tal veículo motorizado e, se possível, desfrutar do seu conforto, dando uma voltinha nele. Nem precisava ser na cabine. Na carroceria já estava de bom tamanho.  Não posso negar, fiquei encantado com aquele Chevrolet branco e de para-lamas pintados na cor azul (se não me falha a memória).  Logo que fiquei sabendo da novidade, convidei meu pai, grande amigo do empresário, a lhe fazer uma visita. Era uma tarde linda de domingo e o sol brilhava forte, cobrindo de amarelo toda a região presidutrense. Com muita luta, meu pai acedeu ao meu convite e dali a pouco partimos em direção à praça da matriz. A casa a qual nos destinávamos ficava em uma das esquinas da praça principal da cidade. E, como sempre acontecia, fomos recebidos com o maior carinho e afeto pelo casal de amigos. Como não poderia deixar de ser, a conversa logo enveredou para a chegada do novo transporte, recentemente adquirido.

Conversa vai, muda para as novidades da politica, depois volta ao assunto que nos levara até ali. E eu ali, quieto e esperançoso. Esperançoso que o anfitrião nos convidasse para conhecer a novidade. Mas, como em muitas coisas da minha vida, aconteceu melhor. Em dado momento, Zé da Cruz perguntou ao amigo (depois sócio em uma loja de tecidos), por que não davam uma voltinha no Chevrolet. Ai, não me aguentei e já levantando da cadeira clamei em alto e bom som: claro que meu pai aceita! Posso ir junto?

Bom. O que aconteceu depois, não recordo muito bem. Nem mesmo quem dirigiu o caminhão, pois o seu proprietário não possuía habilitação para guia-lo. O que eu sei, com certeza, foi que logo estávamos passeando pelas ruas empoeiradas da cidade. Meu pai ia na cabine (boleia) junto com o proprietário, e eu encarapitado na carroceria, seguro ao gigante. E daí a pouco, a carroceria estava repleta de gente. Adultos, crianças, mulheres e homens, somavam um só e coeso grupo: a trupe dos cidadãos mais felizes da cidade.

Ah! Quem nunca experimentou aquele vento frontal no rosto, fresco e a despentear-lhe os cabelos, não faz ideia do prazer que sentíamos naquele instante. A alegria era visível no rosto de cada um dos sortudos que ali estava. O riso saia fácil e as gargalhadas acompanhavam o solavanco do caminhão pelas ruas esburacadas e poeirentas. E quando avistávamos algum conhecido, aqueles felizes passageiros acenavam inebriados e gritavam para chamar-lhe a atenção. Queriam ser vistos naquela comitiva da felicidade. E, de vez em quando, alguém corria atrás do carro e subia na carroceria para aproveitar o convescote dominical. Dai a pouco, a carroceria não cabia mais ninguém.

Se bem me lembro, fomos até muito depois do bairro Campo Dantas, depois voltamos pela Magalhães de Almeida e seguimos até o Varjão. Um passeio e tanto. Uma felicidade sem par. Quando o caminhão parou na frente da casa do proprietário, a noite já cobria a cidade com o seu manto escuro, posto não termos luz elétrica naquele tempo, apesar de já termos sentido o prazer dessa modernidade em épocas passadas. Os postes de pau d’arco com toda a fiação, ainda se encontravam enfiados no chão, para atestar isso, mas o velho motor elétrico se achava fora de combate há muitos anos. Por esta razão, ao apearmos do Chevrolet a escuridão já tomava conta da cidade.

Quase não me continha na minha alegria ao volta para a nossa casa. Meu pai, como sempre fazia, estimulava o eu prazer ao concordar que aquela havia sido uma tarde de domingo sem igual. Durante muitos outros domingos, sempre à tarde, ainda voltamos a nos deleitar com aquele passeio. Entretanto, quando o caminhão se achava em viagem, ou sem gasolina, pois ainda não existia um posto do combustível na cidade, a decepção era total. Estava acostumado demais com aquele sacrossanto passeio dominical. Não me recordo também quando teve isso fim, e nem por que terminaram com o nosso lazer especial de domingo. Minha memória não guardou essa informação.

Sei apenas que durou o tempo suficiente para que não me esqueça jamais de como era doce e agradável aquelas tardes ensolaradas e o especialíssimo passeio sobre a carroceria do caminhão Chevrolet. Hoje em dia, mesmo possuindo nosso automóvel até certo ponto confortável, não sinto o mesmo gosto, a mesma sensação ao passear pelas ruas. Aquele vento fresco batendo no rosto, brincando com os meus cabelos, é uma sensação que guardarei na memória para sempre. Belas tardes de domingo!


Fonte: blog Folhas Avulsas

domingo, 24 de abril de 2016

Seleta Piauiense - Oliveira Neto


Silhueta Pagã

Oliveira Neto (1907 – 1983)

Não sei donde surgiu.  Mas de repente
se encontrava comigo conversando.
Os olhos nos meus olhos, frente a frente,
eram dois pintassilgos namorando.

De alto porte, bonita, inteligente,
a estirpe de fidalgos demonstrando,
não podia ocultar o ser ardente
na volúpia do amor se acrisolando.

Silhueta pagã, onde passou
a natureza em si paralisou
e o povo abriu honrosa passarela.

Silenciaram todos os ruídos.
E sinto que ficou nos meus ouvidos
a sonora canção dos lábios dela. 

sábado, 23 de abril de 2016

CADA QUAL COM SUA NATUREZA


CADA QUAL COM SUA NATUREZA

 Jacob Fortes

A fábula dizia mais ou menos assim: certo professor oriental costumava ministrar aulas aos seus alunos durante caminhadas matinais pelos campos; respiravam oxigênio puro e se exercitavam. Certa feita percebeu o professor que um escorpião descia o curso da água de um regato. Mais que prontamente o professor o retirou da água, mas ao fazê-lo o aracnídeo cravou-lhe à mão o aguçado esporão que carrega ao rabo recurvo. Sobressaltado, o professor, subitamente, deixou o artrópode cair na correnteza outra vez, porém não desertou do propósito de salvá-lo, o que o fez logo adiante. Perplexos, os alunos quiseram saber o porquê da insistência de salvar um espécime tão mal agradecido, ao que lhes respondeu o professor: “esporar é apenas da natureza do escorpião”.

O então Senador José Roberto Arruda ao traquinar no painel de votação do Senado negou inicialmente a autoria da traquinice, mas, ante as provas incontornáveis admitiu haver adulterado o painel de votação. À tribuna, cheio de comoção e humildado, pediu perdão aos seus pares, que o relevaram.  Posteriormente, antes de lançar sua candidatura ao cargo eletivo de Governador do Distrito Federal, Arruda, igualmente humildado e transbordando em comoção, pediu ao povo de Brasília um voto de confiança. Resultado: elegeu-se a governador do Distrito Federal. Durante o mandato de governador, (posto que não se houvesse curado do esquisito hábito de traquinar), fora flagrado recebendo, à sorrelfa, alguns fardos de dinheiro, circunstância que o levou ao cárcere e a perda do mandato. Profundo conhecedor da alma humana, (sabe como ninguém amolgar os corações dos eleitores), Arruda, por certo, apresentará nas próximas eleições um terceiro pedido de perdão; a julgar pelas estatísticas há de sagrar-se vitorioso.

Diferentemente, a Presidente Dilma cometeu muitos erros, mas jamais pediu desculpas, sequer os admitiu.  Cada qual com sua natureza, “cada qual acredita salvar-se na lei que segue”.     

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Dois novos comentários sobre Histórias de Évora


Dois novos comentários sobre Histórias de Évora

Diante de uma nova análise do professor Cunha e Silva Filho sobre os dois capítulos iniciais de meu programado romance Histórias de Évora, julguei oportuno fazer alguns esclarecimentos, que foram objeto de um percuciente comentário crítico do festejado cronista e crítico literário.

Seguem os dois referidos textos, para que o leitor os analise e coteje:

Caro Cunha,

Aos poucos, assim espero, irei desvelando minhas poucas personagens, mas sem ter a pretensão e o desejo de revelar "tudo", até porque, mesmo na vida real, nunca conhecemos totalmente uma pessoa, mesmo as que convivem conosco há muitos anos.

Por outro lado, junto com as histórias das personagens principais, irei contando outras histórias da cidade de Évora e de outras pessoas, como está a indicar o próprio título do livro.

Cabe ao leitor, com a sua inteligência, experiência de vida e imaginação, interpretar as entrelinhas e os silêncios, e complementar as lacunas.

Muitas vezes, a meu ver, uma obra de arte deve mais sugerir, do que dizer de forma explícita.

Portanto, se faz necessária sempre a cumplicidade do leitor.

Espero também fazer uso da concisão, para não cansar e maçar o apressado leitor dos dias internéticos de hoje.

Abraço,

Elmar

...................................................

Caro Elmar:

 Sua mensagem à minha tem um valor inestimável. V., sem se valer de protocolos e trâmites teóricos, afirma alguns pontos fundamentais da esfera da composição ficcional.

O primeiro, o que mais me chamou a atenção foi ao dizer que mais vale "sugerir" do que explicitar, o que é um traço significativo de outro gênero literário: a poesia, sobretudo a poesia simbolista.

Um segundo é quanto ao que se refere ao "silêncio' na estrutura ficcional, seja conto, novela, romance. drama, teatro (na forma escrita).

Uma notável professora que tive de psicologia educacional me ensinou que o silêncio é também "comunicação". Alegava a estudiosa que não é possível ficar em silêncio sem se comunicar. Realmente, uma grande sacada de minha ex-professora.

O terceiro ponto reside na sua afirmação de que - e isso é por demais digno de nota - na vida não chegamos mesmo a compreender as pessoas mais íntimas que nos rodeiam há anos. Eu diria mais, me lembro de uma imagem que tenho sempre presente: a da multidão que passa por nós. Vemos uma pessoa e talvez seja aquela a última vez que a vimos na vida. Na ficção, mutatis mutandi, se dá o mesmo. É preciso fazer-se o recorte regido pela seguinte série de elementos constitutivos na ficção: personagem, enredo, espaço, tempo e visão do narrador/autor e tratamento específico e basilar da linguagem literária à qual tudo se resume e se transforma em objeto estético.

Com o avanço dos estudos teórico-críticos, cada vez mais se compreende o quanto o leitor é relevante na interpretação de uma obra literária. E aí podemos citar correntes do pensamento teórico como a "estética da recepção", de Hans Robert Jauss, e outras ramificações da crítica fenomenológica de Edmund Hussell, como a "reader-response criticism", de Stanley Fish e Wolfgang Izer, ou de outros teóricos com George Poulet e J. Hills Miller.Tais abordagens têm o leitor como um dos pilares na compreensão e exegese da obra literária.

Essa brevíssima digressão se enquadra perfeitamente no que V. entende por narrativa.

Um último aspecto que inferi de sua mensagem diz respeito à concisão que é muito bem-vinda em tempos rápidos e revolucionária da era digital.

Julgo que o diálogo franco com um ficcionista, na minha condição de ensaísta e crítico, sempre foi salutar na vida literária sem, no entanto, ser parcial, submisso ou hipócrita.

Um abraço do


Cunha e Silva Filho

quinta-feira, 21 de abril de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo II

Foto meramente ilustrativa

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

Capítulo II

O DONO DO CÉU

Elmar Carvalho

Marcos Azevedo cursava o terceiro ano ginasial no Liceu Eborense. Tinha certo pavor à matemática, e estudava apenas o suficiente para passar de ano. Entretanto, era um dos primeiros alunos em História, Geografia, Português, Literatura e outras disciplinas da área de Humanidades.

Ele e mais cinco colegas do Liceu idealizaram um jornal mural, que tinha colunas com notícias, informações sociais, artigos, crônicas, contos e poemas. Era um de seus principais colaboradores, sobretudo com matérias literárias. Eventualmente divulgava seus textos através de fotocópias e mimeógrafo. O Arauto, assim se chamava o jornal estudantil, dispunha de um talentoso desenhista e pintor, Mário Cunha, que lhe fazia as caricaturas, charges e ilustrações. Ele e Marcos eram grandes amigos.  

Por intermédio de seu pai, vez ou outra, publicava contos e crônicas no jornal tipográfico A Batalha, o único de Évora, na época. Escrevia seus textos à mão, com um emaranhado de correções, cortes e acréscimos, e depois os datilografava na velha Remington de seu pai. Por estudar à tarde, reservava a manhã para ler livros literários (muitos deles tomados por empréstimo de particulares e da biblioteca pública), bem como estudar e escrever.

Por volta das nove horas, saiu com o objetivo de se encontrar com seus amigos no Liceu, e trocarem as velhas matérias por novas, para que o jornal mural não perdesse a grande receptividade que tinha entre os alunos e professores do colégio e mesmo entre outras pessoas da cidade.

Ao passar pela Vila Inglesa, que tinha um grande terreno descampado na frente, viu uma linda garota loura, muito alva, de pele muito fina e sedosa, de olhos azuis. Ouvira falar que ela era uma neta do alto comerciante James Cavalcante Taylor, proprietário da Casa Britânica, a mais poderosa empresa do estado, com filiais em várias cidades do Brasil.

Marcos olhou para a jovem e lhe admirou as curvas e a beleza longilínea e esbelta; seus cabelos longos e dourados faiscavam à luz do sol, levemente agitados pela brisa que vinha do grande lago Galileia, situado perto. O rapaz, além de sua discreta timidez, ou por isso mesmo, cultivava certo retraimento orgulhoso, nos primeiros contatos. Mesmo assim olhou novamente para a ninfa, que lhe observava, a segurar sua nova e cara bicicleta, cheia de enfeites cromados e reluzentes. Seguiu adiante, sem apressar ou diminuir a velocidade.

Marcos não estranhou o olhar da moça, afinal era considerado um belo tipo de rapaz, moreno claro, de boa estatura e olhos esverdeados.

– Ei! Menino, venha cá – ouviu a garota chamá-lo, com uma inflexão que lhe pareceu levemente imperiosa. Foi até onde ela estava, com as suas roupas caras e a sua rica bicicleta. Notou-lhe certo desdém no semblante e o olhar incisivo de quem se considerava acima dos outros.

– Você sabe de quem é esta Vila? É do meu avô.

E vendo estampada a perplexidade nos olhos do rapaz, continuou de forma fria e com certa arrogância:

– Você sabe de quem é este terreno onde nós estamos e que vai até acolá?... – e estendeu o indicador, como se quisesse abarcar o mundo todo. É do meu avô.

Marcos ficou decepcionado com essa moça tão linda, mas tão tola em sua ridícula presunção. Mais do que decepcionado ficou aborrecido, e o sangue lhe subiu à cabeça. Ele não sabia, algumas vezes, se conter, especialmente quando achava que o seu amor próprio havia sido golpeado; e se tornava impulsivo, sem medir as consequências de seus atos ou palavras. Por isso, fixando nos olhos a bela ninfa dourada, de rosto angelical, disse com toda sua altivez e desprezo:

– E, por acaso, seu avô é também o dono deste céu que nos cobre e deste ar que respiramos?


Virou-lhe as costas, e sequer ouviu o seu arremedo de resposta. Seguiu firme, com os versos do poeta Carlos Pena Filho a lhe borbulharem na cabeça e na alma: “Deu-lhe o frio esquecimento. E mais não podia dar.” Contudo, não a esqueceu inteiramente, e aquela beleza de cachopa presumida e fútil ainda o perseguiria por muitos anos.   

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Escolas militares, urgente!


Escolas militares, urgente!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Colégio Estadual Governador Dirceu Arcoverde, de Teresina, próximo à Avenida Kennedy, fundado em 1978, dirigido, durante anos, por autoridade da Polícia Militar, mas sem regime militar. Só em 2015, a secretária de Educação, Rejane Dias, do PT, inaugurou as novas instalações e instituiu a experiência do regime militar, iniciativa brilhante que já vem produzindo excelentes resultados e aplausos, tanto dos 400 estudantes matriculados no ensino médio, em regime integral, quanto das famílias.

         Percorrendo corredores e salas, acompanhado por uma psicopedagoga ou inspetor militar, fardado, tive a sensação de voltar ao passado das escolas públicas, dirigidas por respeitáveis diretores e professores, cuja autoridade era aplaudida pelos estudantes e pais. Cantava-se o Hino Nacional, em pé, postura ereta, seguida de preleções cristãs e cívicas. A disciplina estabelecia fardamento, calçados e meias padronizadas. Não se forneciam livros e refeições de graça, apenas merenda rasa.

         A Escola Dirceu Arcoverde revive a experiência que deu certo, no passado, e que produziu cidadãos de notável conduta cristã e patriótica, que resplandecia na organização da família.

         Veem-se estudantes impecavelmente fardados com insígnias militares, moças e rapazes de boina na cabeça, em fila, eretos, cantando hino cívico, ouvindo a “Ordem Unida”, sobre disciplina, a marcha, continência, oração, missa ou culto evangélico, ensino e práticas culturais. O prédio nem se assemelha ao desconforto, imundície, instalações improvisadas das escolas públicas, em geral.

         Apenas em Minas, mais de 20 mil alunos matriculados em nove escolas do Exército e da Polícia Militar. O Estado de Goiás coloca-se à frente. Segredo? Normas rígidas, consciência cívica, exercício do dever, inclusive ético e religioso.

O sistema de educação militar expande-se pelo Brasil com aplauso dos próprios estudantes, mas criticado por movimentos de esquerda marxista, inclusive em Teresina, onde funciona a primeira escola. O policial militar que me acompanhava orgulhava-se de mostrar o refeitório com instalações modernas, qualidade dos lanches e refeições acompanhadas por nutricionista: “Aqui, tudo é limpo, disciplinado e conservado. E de graça. Malandro não quer vir pra cá, porque sabe o duro que vai dar, inclusive para passar no teste seletivo”. E adianta: “A procura por uma vaga é diária”.

A experiência da escola militar, no Piauí, apenas começou, com a brava coragem de Rejane Dias, oriunda de um partido frouxo para com desocupados, e aberto a direitos, sem cobrança de deveres e méritos. A secretária poderia avançar, começando pelo Liceu: confiando, pelo menos, a direção e coordenação a educadores militares. Nem precisaria chamar a polícia para se postar à frente do colégio para combater criminosos.


Em meio às críticas, um fenômeno curioso, alheio a tudo, chama a atenção: a sociedade que busca o conhecimento que liberta, cresce, cada vez mais, a demanda por colégios militares pelo país.   

terça-feira, 19 de abril de 2016

Comentário sobre o 1º capítulo de Histórias de Évora


Comentário sobre o 1º capítulo de Histórias de Évora

Cunha e Silva Filho
Cronista, memorialista e crítico literário

"Histórias de Évora". Esse é o título de um livro de ficção no gênero romance, conforme o próprio autor anuncia, nesse espaço de seu conhecido blog, esse novo trabalho de sua vida de escritor.

Não é sua estreia de ficcionista, visto que anteriormente, a espaços, já escrevera textos que eu poderia rotular de ficção. Foram mini-contos, ou mesmo contos mais longos.

O título faz pensar em uma série de contos, mas creio ser apenas um modo de referir-se à forma contínua de uma unidade de textos que avancem em direção a uma estrutura de maior fôlego com a intenção de amoldar-se ao gênero do romance, de resto, já declarado pelo próprio autor: "Este romance será publicado..." [...]

Seguindo o costume de outros autores, cada capítulo terá um título alusivo a episódios específicos desenvolvidos na trama.

"Triângulo encantado" é um desses episódios. Já nele surgem alguns elementos estruturais da narrativa que, pelo menos nessa parte, dá um andamento no qual se percebem o interior e o exterior de uma personagem de nome Marcos, uma adolescente em seus primeiros anos e em toda a sua força da libido, irrefreável no alvorecer da puberdade.

Neuza é o pivô desse vendaval de sensualidade sexualidade.

Espaço e tempo são delineados: o jovem está em sua própria casa. Tem irmãs, tem seus pais. E tem a empregada, Neuza, o fruto proibido que é preciso desvendar.

Entretanto, ao fixar a vista para uma porta entreaberta, numa madrugada silenciosa, defronta-se com uma espécie de visão do paraíso carnal, numa cena eletrizante, enlouquecedora.

À sua frente seus olhos se detêm na parte mais sensível de seu arroubo juvenil.

O "triângulo encantado" é um sintagma que marca para sempre a imagem do sexo feminino num momento de quietude corporal e de êxtase, misturado ao desejo incontido mas refreado pelos interditos ou códigos de honra familiar e medo de reações tanto decorrente do objeto cobiçado quanto do medo de transgredir padrões arraigados na conduta familiar, sobretudo por ocorrer no recesso sagrado do lar.

Aquele objeto proibido provoca o frêmito da posse quanto ao sentimento abortado de mais uma vez repetir-se aquela cena em fogo.

Marcos se surpreende com o despertar de Neuza ao flagrar o adolescente fruindo a antecipação orgástica.

Ele teve a certeza de que não seria recriminado por ela diante de seus pais. Ficaria entre os dois apenas aquele instante de êxtase secreto em início de uma cena viva de nudez.

A descrição visual é perfeita nos seus traços firmes do desenho geométrico expresso pela metáfora do sexo.

É nesse ponto que o jogo da linguagem se torna um componente primordial da descrição com seu potencial de sensualidade e volúpia.

Repare-se que nesse capítulo não há diálogo explicito. Tudo se constrói na base da visualidade voltada para o centro deflagrador da cena inesquecível e jamais fisicamente apagada da memória do adolescente posto que misturada com a frustração da vontade não satisfeita.

A linguagem opera no texto, sem descambar para o grotesco e o pornográfico rasteiro, como se fora uma tomada de uma cena fílmica, em close focando toda uma região do corpo feminino que a masculinidade não se cansa de cultuar com a obsessão e a curiosidade desde tempos imemoriais, seja na pintura, na escultura, seja na fotografia, seja no cinema ou teatro.

“O triângulo encantado" é o fetiche supremo da masculinidade ou até mesmo para as cultivadoras do lesbianismo.

Volto ao título e fico a atinar: por que Évora? Ao que tudo indica , será um nome de lugar. Agora, me lembro, não sei por que, de Eça de Queirós, assim com da cidade de Évora, em Portugal. Há alguma ligação intersemiótica com o espaço físico do romance de Elmar Carvalho? Só saberei quando ler os próximos capítulos.

Esse início já me aponta para uma boa narrativa. Esperemos que o seja.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

GRATIDÃO AUDÍVEL


GRATIDÃO AUDÍVEL

Jacob Fortes

Agradeço a DEUS pelas bênçãos inumeráveis: pela vida; pela saúde; pela água; pelo ar; pelo pão; pela família; pela pátria (escangalhada, vilipendiada); pelos parentes; pelos amigos; pelos calos de cada mão; pela fauna e flora; pelos que me serviram (não como a servos: estes nunca os tive; nunca os terei).

Apesar de reconhecer esses generosos benefícios, confesso não viver consoante a vontade de Deus, inclusive porque, mortal reles e mal iluminado, não aprendi a reconciliar-me com todas as coisas do universo. Mas bem sabes, ó DEUS — empenhado em perdoar aos que delinquem — que a perfeição não é característica dos humanos.


Obrigado meu DEUS, por tudo. Não TE evocarei em vão, mas se encontrar-me turvo invocarei a TUA misericórdia!