quinta-feira, 12 de maio de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo V



HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

            Capítulo V

A iniciação sexual de Marcos

Elmar Carvalho

O QG ficava no centro histórico de Évora. Era considerado um dos melhores cabarés da cidade. A madame Doralice, embora educada e também instruída para os padrões da época, impunha respeito e ordem no ambiente, de modo que todos se comportavam de maneira conveniente, sob pena de ser convidado a se retirar. Ocupava um casarão antigo, conhecido como Solar da Rosa dos Ventos, que se via estampada nos mosaicos do imenso salão, que na verdade era o átrio, de onde, através do largo corredor, se acessava os quartos, que lhe ficavam de um lado e outro.

Quando Marcos e seus amigos chegaram ao Quartel General havia poucos clientes, de modo que eles escolheram uma mesa posta num dos cantos, ao fundo, onde ficariam mais à vontade. O plantel de mulheres já estava em “exposição”, em lugares estratégicos, como se elas fossem manequins em vitrine. Quase todas vestiam roupas curtas e de generosos decotes, e se apresentavam maquiadas e com unhas bem cuidadas.

Uma delas, uma cabrocha morena, quase ainda uma ninfeta, de carnes firmes e de acentuadas curvas, era muito assediada, e no intervalo de apenas duas horas foi, sucessivamente, para o quarto com quatro ou cinco rapazes. Estava sendo muito rentável para a casa, pois, além da bebida consumida pelos clientes, estes ainda tinham que pagar a chave do “abatedouro”, cuja taxa ficava toda para a proprietária. Os honorários das raparigas eram pagos “de fora à parte”, quase sempre combinados antes de adentrarem a alcova.

Fabrício Moreira se dava com a madame Doralice, que sempre lhe fornecia carne fresca, saudável, recém chegada ao lupanar. Ela era cliente da loja do pai do rapaz. Graças à intermediação deste comprara no crediário, em módicas e suaves prestações, a mais luxuosa e eficiente vitrola disponível, possuidora de um dispositivo em que poderiam ser colocados vários LP's de uma única vez, que ela ia tocando de forma automática.

Logo após o segundo copo de cerveja, ele foi falar com Doralice, sobre a possibilidade de ela ser a “professora” de Marcos em sua iniciação sexual, tendo ela ficado muito honrada com a missão. Seria ele recebido, com todas as honras e cuidados, em seu próprio dormitório, o mais luxuoso e espaçoso do prostíbulo.

Ficou acertado que tão logo Marcos se sentisse mais à vontade a procuraria. Fabrício retornou à mesa onde estavam seus amigos e explicou a Marcos o que acertara com a madame, mulher bonita, asseada, ainda nova e, segundo comentavam, muito fogosa. Talvez ela tivesse entre 35 e 40 anos, mas ainda se mostrava exuberante em suas formas curvilíneas e na textura da pele sem manchas e cicatrizes.

Doralice, após algum tempo, veio até a mesa dos três rapazes, para cumprimentá-los, e quando se despediu, Marcos a acompanhou. Foram para a grande suíte. Marcos, no ímpeto de sua juventude, a beijou com sofreguidão e a acariciou, graças à experiência angariada nas danças e nos “amassos” ou “pinos” de seus eventuais namoros. Aos poucos foram se desnudando, até se deitarem no grande e fofo colchão. Não irei, amigo leitor, entrar em detalhes sobre o que aconteceu ou deixou de acontecer. Deixo-o livre para imaginar o que bem lhe aprouver, conforme a sua capacidade imaginativa.

Contudo, algo inusitado aconteceu. Doralice, em dado momento, estrebuchou e escaramuçou agoniada; gemeu muito, e pronunciou sons ininteligíveis, que mais pareciam grunhidos, como se fosse morrer. De repente, distendeu-se toda, e retesa abraçou o parceiro com muita força, como se quisesse (na velha imagem) fundir-se com ele, suada e tremendo, como se estivesse tendo um ataque de sezão ou calafrio. Ao retesar-se, as juntas de sua espinha dorsal estalaram, como se estivessem se partindo, semelhante às vergas de um navio ante forte temporal. Com as pernas o enlaçou com força, como se fosse o bote de uma jiboia, fazendo com grande maestria a conhecida chave de pernas.
   
Todavia, o rapaz simplesmente não conseguiu atingir o orgasmo. Talvez ansioso, com medo de falhar, ou sugestionado com a conversa do Mário Cunha, sobre os supostos ou verdadeiros efeitos da bebida, não ejaculou, de modo que seu membro se manteve ereto por quase uma hora, até que Doralice, com bons modos, muita delicadeza e muito veludo em sua voz suave, perguntou se o jovem não desejava “dar um tempo”, tendo ele aceitado a sugestão.

Ela então o aconselhou a não pensar em sexo. Induziu-o a relaxar. Pegou uma cerveja da geladeira que havia no quarto, e convidou o rapaz para acompanhá-la. Iniciou uma conversa amena, mas foi aos poucos revelando os seus conhecimentos, mostrando que era de fato e de direito uma verdadeira mestra e sacerdotisa do prazer, do qual dominava todos os mistérios, ritos e mitos, tanto na prática como na teoria. Na estante podiam ser vistos, além de romances, alguns livros sobre sexo, inclusive um luxuoso e ilustradíssimo Kama Sutra, em que eram vistas as mais mirabolantes, extravagantes e acrobáticas posições sexuais, cujas pinturas  foram executadas por renomados artistas. 

Revelou a moça que, por ocasião de uma doença, fora consultar-se na capital com famoso médico, que lhe fez várias perguntas sobre sua vida e hábitos. O esculápio terminou por lhe dizer que ela nascera para o sexo, e se não fosse mulher da vida, como na época se dizia, talvez viesse a ter graves problemas mentais ou psicológicos, de tal sorte que não podia ficar muito tempo afastada desse mister. Após a segunda garrafa de cerveja, convidou Marcos para irem tomar banho. Primeiro, se assearam com o uso da ducha. Em seguida, foram para a suntuosa banheira, onde se beijaram e se acariciaram a valer.

Refrescados e perfumados voltaram para a cama. A madame, mostrando então todo o seu conhecimento, obtido nos livros e na experiência, para estimular a sensibilidade de Marcos, fez coisas inefáveis, que ele jamais havia imaginado, mesmo nos sonhos mais libidinosos. Nunca ele havia sentido língua e dedos tão macios e peritos, tão adestrados, hábeis e certeiros, que mal pareciam tocar a pele.

A luz da alcova não fora apagada, de modo que o rapaz via o lindo corpo feminino refletido no espelho fixado no teto, sobretudo as costas e a esplêndida coluna dorsal, já que Doralice tomara a iniciativa de ficar por cima. Quando a mulher baixou a cabeça, para colocá-la ao lado da sua, e alteava e baixava o bumbum, no ritmado movimento, ele lhe pôde ver o perfeito contorno dos rijos glúteos, que desenhava um coração, como na monumental Apoteose de Niemeyer. Nos movimentos ascendentes via o períneo distender-se sobre seu membro, o que mais o enlouquecia. Era quase como se estivesse se vendo e vendo a mulher de fora de seu próprio corpo. 

Por fim, sentada triunfalmente sobre o rapaz, Doralice fez evoluções de verdadeira contorcionista, mostrando invejável elasticidade e preparo físico, em que girava 360 graus, e fazia movimentos ascendentes e descendentes, revolvendo-se para todos os lados, de forma espiralada, como se estivesse contornando os sulcos de um parafuso ou de uma rosca infinita. Quando descia, colocava todo o peso de seu corpo sobre os grandes lábios; o rapaz lhes sentia a umidade e o relevo no entorno da base de seu sexo. Até explodir num jato denso, intenso e quente.    

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A Bela dos Diários


A Bela dos Diários

 Dílson  Lages (*)

O professor de Teoria Literária Salvatore D'Onofrio, em Teoria do Texto - Prolegômenos e Teoria da Narrativa, evidencia que "os personagens constituem os suportes vivos da ação e os veículos das ideias que povoam as narrativas". Por essa razão, segundo o pesquisador, o estudo dos personagens deveria ocorrer simultaneamente ao das sequências narrativas, porque "a caracterização dos personagens ilumina o sentido da história e vice-versa".

A assertiva de D'Onofrio serve para dialogar com os temas e o estilo de "A Bela dos Diários", reunião de treze contos de Austregésilo Brito, nome de obra já consolidada  na literatura piauiense, por meio de livros de contos como Fetiche e Algodões. Austré Brito centra-se em praticamente todos os contos - como uma das estratégias maiores da interlocução com os leitores - no superdimensionamento dos personagens e das ambientações em que eles se inserem. Esse, alias, é sem dúvidas o ponto de partida da gênese de suas criações, ponto em torno do qual organiza estrutural e semanticamente suas narrativas. Ao fazê-lo, sua perspicácia e estilo selecionam exclusivamente detalhes-ações que se inter-relacionam, e paradoxalmente tornam a escritura mais exata, mais fluente.

Enfatizando esses elementos, consegue o escritor provocar os leitores, ao transferir características do ambiente para os personagens e vice-versa, em processo de humanização da paisagem, por meio do qual ganham impulso as representações mentais e as associações que asseguram o deslanchar da leitura, reiteradamente, em passagens como: "O pai na bodega, o dia todo. Caminhava pra lá e pra cá, do balcão ao armazém. De passagem pela cozinha, olhava de esguelha para Elzzira. Ela correspondia. arregaçava o vestido colado ao corpo, mostrava as coxas (O primeiro amor, p.41). Quase um Albergue. Fachada comum, porta larga ao centro separava os janelões. Corredor longo da entrada à sala de jantar, de onde seguia outro corredor menor, estreito, até a cozinha ampla e semiaberta(...). No hall, o banheiro e o dormitório de dona Judite (Casa de pensão, p.57)”.

Assim é que, respectivamente, a angústia pela consumação do encontro amoroso, acentuado pela distância dos lugares sociais de ambos (o quitandeiro e Elzzira) naquele momento, funde-se ao espaço, a partir da ansiedade gerada pelos movimentos do quitandeiro e da própria Elzzira. Assim é que o desejo de controle que almejava ou pensava em ter dona Judite sobre sua pensão se apresenta na associação entre a disposição da arquitetura do recinto em que reside e o perfil do personagem em construção, mais evidente à proporção que a narrativa avança até apontar a avareza peculiar à proprietária da pensão.

Mantendo a linha de outras produções, divide-se o escritor entre dois grandes eixos. Divide-se entre o mergulho nas insatisfações e contradições da materialidade do amor, em textos de acentuado apelo erótico, e o desnudamento de dramas sociais ou das situações pitorescas das pequenas comunidades e sua gente; com a revelação, em plano secundário, de traços característicos do ethos da paisagem social dos lugarejos.

Na primeira parte de A bela dos Diários, os leitores se absorvem com narrativas cujo cerne é as contradições da paixão cega. Em algumas sequências, a ênfase com que o tema é tratado pode até chocá-los, dada a contundência do léxico ou a estilização da vulgaridade em que se revertem as cenas fundamentais dos núcleos narrativos. Personagens como Consuella, Jéssica e Úrsula – mesmo que focalizadas exclusivamente pelo olhar do desejo – e exaustivamente erotizadas, reduzidas à condição de objeto do amor – resumem o  mistério e encantamento da sedução.

Nesse sentido, recriam os narradores a aura de perplexidade própria do jogo erótico e impulsionam as carências que alimentam o prazer. Assim, deparam-se os leitores com personagens masculinos hipnotizados, à procura de explicações que não encontram ou à busca de se libertar da paixão. Confirma-se, por meio desses personagens, o que explica Maria Rita Kehl, em estudo sobre o olhar da sedução: “O olhar seduzido é perplexo. Procura recobrar o domínio de si mesmo”.

Na segunda parte do livro, os leitores encontrarão episódios pitorescos, que resgatam a temática dos contos populares, sem, contudo, estereotipar a linguagem ou modificar o modo de contar próprio de Austré. Nesses contos, a paisagem e os personagens, humanizados pela imaginação pessoal dos leitores, dão margem a antigos costumes de pequenos lugarejos, desemborcando, sempre, em inesperada situação de humor, ou, fugindo à regra dos temas dessa parte, em denúncia social - caso específico de “O caos”, no qual o drama de se locomover pelo tráfego de Teresina-PI é tratado de maneira inusitada.

“Em literatura, todo conteúdo está associado a um colorido emocional, que faz parte da informação transmitida pela obra”, escreve Vicente Jouve, enfatizando que “os textos quase sempre exemplificam emoções (a dor, a insatisfação, a tristeza), por meio de propriedades formais que as exprimem metaforicamente”. Em A Bela dos Diários, essas emoções possuem lugar certo: personagens e ambientes que dão corpo e substância à linguagem. O leitor é capturado pelos dramas, carências e desejos de cada personagem ou sorri de situações que a literatura, como a vida, revela-nos inesperadamente.

(*) Dílson Lages Monteiro é professor, diretor do Portal e Editora Entretextos e membro da Academia Piauiense de Letras (APL). E-mail: dilsonlages@uol.com.br    

Fonte: portal Entre-textos

terça-feira, 10 de maio de 2016

A Raposa e o Pau Doce


            A Raposa  e o Pau Doce

             Des. Valério Chaves
             Escritor, jornalista e articulista                    

             A raposa, faminta, caminhava à procura de alguma presa para matar a fome quando deparou-se com uma roça cheia de cana boa e doce.
            Parou, indecisa, mas resolveu pular a cerca e chupar alguns gomos de cana, sem perceber que o dono da roça estava escondido no alto de uma árvore para flagrar quem estava furtando suas canas todos os dias.
            Pensando estar sozinha no meio a tanta fartura, a raposa a cada mordida gritava bem alto: ô pau doce, ô pau doce…
            Até que, de repente, ouviu uma voz cavernosa vindo do alto que dizia: então é você, sua ladra, que vem aqui todos os dias aqui comer minhas canas? Vai se arrepender, agora. Como um raio, apareceu o dono, furioso, para pegar a pobre raposa faminta.
            Não sabendo direito para que rumo corresse, saiu em disparada por dentro do canavial, até que lembrou-se do amigo macaco, para quem apelou com toda força da garganta, pedindo por socorro:    
- Me acode amigo macaco, me acode…
Ao macaco, sabendo ser ele o verdadeiro ladrão de cana, só restou dizer, morrendo de medo:
            - Não sei porque nem para aonde está correndo, mas faz volta amiga raposa, faz volta, faz volta...
A raposa, já morta de cansada de tanto correr, apenas dizia:
            - Não tem tempo, não tem tempo, não tem tempo…

Moral da história. Quem se aventura pegar no alheio, a pretexto de matar a fome, corre o risco de perder vida e o apreço dos amigos.
            
            Teresina – maio de 2016               

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Brochar ou broxar?


Brochar ou broxar?

Antônio Gallas
Professor, jornalista e cronista

Não importa a grafia, mas esta pequenina e dissilábica palavra quando pronunciada apavora qualquer homem, até mesmo  um jovem em pleno vigor de  sua virilidade.
               Falar em broxar é como se o demo saísse das profundezas dos infernos pra espetar a bunda  dos homens com aquele seu ferrão quente.
               Os machões, os garanhões, nunca narram as broxadas que deram. Contam apenas vantagens, mesmo que não sejam verdadeiras. "Fulano disse que  deu três ontem a noite". Mas três o que?
               Muitos são os motivos que podem levar o homem a fracassar na hora H e passar um vexame, uma vergonha diante de sua parceira. O cansaço, o stress, a preocupação, o nervosismo podem estar relacionados ao nosso desempenho sexual, entretanto,  na minha opinião,  a principal causa é a ansiedade. Às vezes ficamos tão preocupados com nossa performance sexual que no momento exato  somos levados ao fracasso, o que é constrangedor, vergonhoso e deprimente para o homem. Aí vem a famigerada desculpa :  isso nunca aconteceu antes!...
               Ao ler o terceiro capítulo do romance Histórias de Évora de autoria do poeta e escritor Elmar Carvalho, quando Marcos,  um dos personagens do romance teria sua iniciação sexual com uma profissional do sexo da chamada ZBM (Zona do Baixo Meretrício) da cidade de Évora lembrei-me do meu sobrinho Prodamor quando broxou pela primeira vez.
               Nas décadas de 60 e 70 meu sobrinho Prodamor morava em Teresina. Na Rua da Estrela, hoje Rua Desembargador Freitas. Esquina da Rua Area Leão, no centro da capital piauiense. Nessa época menores de idade não tinham acesso aos cabarés ou boates da famosa rua Paissandu e imediações devido rigorosa vigilância das Polícias Militar, Civil e ainda tinha a Policia Estudantil comandada pelo Centro Estudantal Piauiense entidade que representava a classe estudantil à época.
Se algum menor fosse encontrado na ZBM era preso, comunicado aos pais, e o resultado  pode-se imaginar... A sova que levariam dos pais. Sim, naquela época os pais podiam punir seus filhos. Não era constrangimento. Era educação!
               Pra não ficar só na bronha,  a negradinha (como diz o professor Alprim Amorim) procurava  soluções alternativas, ou seja aqueles lugares  e horários em que a polícia não fazia ronda.
               Existiam em Teresina, nas proximidades da estação ferroviária e arredores do 25 BC, algumas profissionais do sexo e que recebiam menores em troca de um sabonete Gessy, um tubo de  pasta Kolynos, qualquer besteira ou até mesmo dinheiro, cédulas de pouco valor como a de dois cruzeiros, uma amarelinha.
               Adentrando-se à área da estação ia-se   até o "moi-de-vara" por trás dos muros do BEC. Era nesse cenário que meu sobrinho Prodamor procurava as mulheres para se satisfazer  sexualmente. Lembro-me bem das irmãs paraibanas que tinham o apelido de "as preciosas" e de dona Raimunda conhecida como pernambucana.  Existiam outras mas não recordo os nomes.
               Nessa época poder-se-ia andar em Teresina a qualquer hora do dia ou da noite sem receios de sermos assaltados.
               A pernambucana era a preferida do meu sobrinho Prodamor. Numa bela tarde de domingo, após retornar da sessão das 3 do Cine Rex, pegou sua bicicleta Caloi e foi fazer uma visita  a dona Raimunda ( a pernambucana) de quem já era um freguês bastante conhecido. Quando já estava nos preparativos iniciais, no momento da penetração alguém bate à ´porta e com voz alta e estridente bradou:
- Dona Raimunda, a senhora já foi advertida. Continua recebendo "de menor"! Vai preso  a senhora e o menor. Dona Raimunda disse ao Prodamor: - Aguarda aí menino. Eu sei o que ele quer. Em seguida voltou para continuar o serviço. Mas já era tarde e a Inês estava morta, ou seja o pintinho do meu sobrinho estava de crista baixa e não houve jeito de levantar. A pernambucana fez de tudo! Alisou, acariciou, fez bolo frito... e nada! Nem reza, magia ou hindu tocador de flauta  seria capaz de  levantar o pingulin do Prodamor!
               Nessa época o sexo oral era uma coisa nojenta, repugnante. Mas acho que diante do susto e o medo de ser preso nem isso resolveria. E o meu sobrinho Prodamor broxou mesmo!

               Foi a última vez em que visitou a pernambucana.

domingo, 8 de maio de 2016

AMOR NUNCA É DEMAIS


AMOR NUNCA É DEMAIS

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)


Acreditava que tinha apreço pelo segundo domingo de maio, simplesmente, porque ele homenageia o mais importante de todos os indivíduos que habitam a Terra. Isso me parecia bastante ou suficiente para vê-lo como efeméride, verdadeiramente, inigualável.

Sempre gostei do dia das mães. Se existe um ser humano que mereça uma data especial e diferenciada, essa figura é a mãe. Que me desculpem os pais, os tios, os primos e tantas outras pessoas que, certamente, também possuem datas exclusivas para comemorarem. Parabéns!

Fato é que, no curso da caminhada, eu, que dispensava a pouquíssimas pessoas quase a mesma proporção de um sentimento que julgava haver chegado ao seu limite e que, por conseguinte, tanto tempo mais tivesse ou vivesse, não conseguiria produzi-lo em maior quantidade - como era e é o amor materno dedicado à minha legítima mãe e à minha venerável bisavó - percebi que não há necessidade de buscar uma superação na grandeza ou qualidade de amor em relação ao que se tem pela mãe: a vida é uma sequência de ciclos; outras pessoas surgem no nosso caminho existencial e nos fazem ver que, sem diminuir o dado àquela, os novos agregados vão recebendo, segundo méritos próprios, seu quinhão. Ou seja, estou convicto disto: quanto mais se tem a quem dedicar amor, mais ele cresce e se multiplica; se, reciprocamente, também somos amados, então há sobra desse sentimento, e, nesse caso, somos convidados a redistribuí-lo entre outros companheiros de jornada para que se reproduza cada vez mais abundantemente.

 Coincidentemente, no período em que julgava estar a quantidade de amor a mim disponibilizado pelo Criador próxima de sua exaustão, surgiram pessoas na minha vida candidatando-se a serem novos receptores dele: esposa, filhos, sogros; isso me alertou para o fato de que, talvez, ainda faltasse muita gente a quem poderia entregar, compulsoriamente, mas não por obrigação, por não ter como me opor a isso, porção semelhante ou até maior do amor que plantara antes.

            Por muito tempo pensei que todos os dias das mães seriam iguais: lindos, sonoros, plenamente felizes e repletos de bons fluidos; hoje sei que, na verdade, o que fiz foi imiscuir querer com desejar. Os sábios estavam certos quando afirmaram que querer nem sempre é poder. Ah se assim fosse! Mas ninguém consegue concatenar nem compatibilizar desejos com pensamentos e certezas. Não é incomum alguém que surge na estrada de nossas vidas lá pelas tantas do percurso, ungido de sabedoria, beleza e humildade, de repente, não poder mais, como talvez desejasse, manifestar seu agradecimento àqueles que viram nele virtudes que o fizeram merecedor de destaque nos melhores e mais felizes momentos vivenciados. A ausência física ou moral de pessoas de esse quilate, infelizmente, pode se constituir em motivo ou razão para que eventos festivos ou comemorativos especiais, no mais das vezes, resultem em grande tristeza. Fazer o quê? Resignar-se.

            Ora, se a vida assim quer que seja; se o Criador chega à conclusão de que é preciso uma mãe ser obstada ou limitada em suas vontades e anseios materiais para que seu amor e fortaleza moral unam, aconcheguem, aproximem ou reconciliem todos que a viram sofrer em seus piores momentos, que devemos fazer senão ficar felizes pela decisão divina?

            O Todo Poderoso sabe que amor nunca é demais; nós, falíveis filhos, vamos ter que provar isso, tentando amar o mais que pudermos aqueles que durante a vida nos amam mais que a si mesmos. O dia das mães é uma boa data para começarmos a dar mostra do que somos capazes.

            Feliz oito de maio do ano bissexto dois mil e dezesseis - dia das Mães – para todas vocês.  

sábado, 7 de maio de 2016

Homens de arroz


Homens de arroz

José Pedro Araújo
Romancista, contista e cronista

Durante os anos cinquenta até os setenta, grande parte da atividade econômica de Presidente Dutra girava em torno da cultura do arroz. Em anos passados, ao arroz somava-se o algodão, e em menor importância, o gado bovino. Se no período em que o algodão era muito forte na economia proliferavam as bolandeiras, ou descaroçadoras de algodão - culminou com uma usina de maior porte, cuja força motriz era a caldeira a vapor -, no período em que o arroz era mais importante, houve um grande aporte de usinas de beneficiamento deste produto na cidade. Era em torno dessas usinas que gravitavam os trabalhadores que convencionei chamar de “homens de arroz”. E passei a chamá-los assim porque estavam sempre, dos pés à cabeça, cobertos por palha de arroz, grãos do cereal presos ao cabelo e também por aquele pó fino igual poeira, extraído no ato do beneficiamento do produto. Cabelos, cílios, pestanas, braços, pernas, tudo recebia resquícios do produto que inflava a economia regional naquele tempo.

Por essa época também, os pátios das usinas ficavam repletos de caminhões de diversos municípios nordestinos. Menino curioso, eu gostava de ler as placas pregadas nos para-choques que atestavam a origem daquele transporte. Nomes como Baturité, Icó, Jaguaribe, Crato, Sobral, Juazeiro, Campina Grande, Cajazeiras, Souza, Mossoró, Caruaru, Goiana, Campo Maior, Piripiri, Piracuruca, Picos, entre tantos outros, aguçavam a minha curiosidade e faziam meu pensamento voar até eles, fazendo-me prometer que algum dia ainda iria conhecê-los. Sonhador, perguntava-me como seriam essas cidades e, vez por outra, abordava algum motorista com essa pergunta.

Era nesse período também que a Praça da Bomba se enchia dos “homens de arroz”, chamados pejorativamente de Chapeados. Eram, em geral, homens rústicos, fortes, que traziam sobre a cabeça uma espécie de chapéu muito esquisito, sem aba, com a copa acolchoada para diminuir o impacto da sacaria sobre a cabeça, uma vez que transportavam tudo sobre ela. Quase todos eles usavam a metade de uma bola de futebol costurada naquele chapéu horroroso. Pobres trabalhadores braçais, sem contrato de serviço assinado com as usinas, a descoberto de qualquer cláusula trabalhista de lhe conferisse proteção em caso de acidentes de trabalho, recebiam muito pouco para carregar os caminhões. E no fim tarde, exaustos e suados, procuravam os sórdidos botecos para aliviar a tensão do pesado dia de trabalho, e lá deixavam parte considerável da féria arrecadada. Para suas casas pobres, conduziam apenas o suficiente para mantê-las abastecidas do mínimo necessário a uma dieta alimentar para manter a família precariamente alimentada.

Esses homens incógnitos tiveram grande importância no desenvolvimento do município que se formava. Mas, duvido que tenha sido, algum deles, homenageado com o nome simples em alguma das centenas de ruas da cidade. A atividade, contudo, era tão importante naquela época que levou o nome da cidade ao conhecimento de vários municípios nordestino. Presidente Dutra passou a ter o nome de fartura, terra do arroz, em distantes rincões, lugares em que sobre as mesas de famílias desconhecidas era servido o que era produzido no Curador, transportados por caminhões possantes e carregados por homens de força, pagos com aviltante ordenado.

Lembro-me do nome de alguns desses carregadores, mas não vou decliná-los para não cometer injustiça com os demais. E eram muitos. Viviam em grupo, transitando de uma usina para a outra à medida que seus serviços eram solicitados.

A cidade mudou. Já não é mais celeiro de produção de alimentos. Pelo menos não mais como era. Hoje é um polo de comércio dos mais importantes do interior maranhense. Os chapeados também sumiram. Sumiram é a forma de dizer. Mas o município não tem hoje tantas usinas de beneficiamento de arroz que possa ofertar trabalho para tanta gente como no passado. Pois o arroz que chega à panela do nordestino, inclusive do presidutrense, é quase todo ele originário do Rio Grande do Sul ou de Tocantins. Mudou o foco do município, mudaram de atividade os nossos trabalhadores braçais que também não precisam mais transitar com seus chapéus esquisitos, quase uma rodilha, como as que usavam as mulheres para transportar legumes da roça na cabeça.


Ilustra o presente texto uma fotografia antiga, da minha época de criança, que atesta tudo o que disse acima. Nela aprecem algumas crianças que gostaria muito de saber por onde andam. Perdi o contato com elas quando tive que sair à procura de um jeito melhor de escrever a minha história. A fotografia atesta também a importância que a produção agrícola tinha para o município: a maioria dos meninos posou ao lado do caminhãozinho feito de lata de óleo lubrificante, carroceria assentada sobre molas de arco de barrica.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A química das paixões, do amor e da razão


A química das paixões, do amor e da razão

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com
     
Quando as emoções e atitudes ultrapassam as fronteiras da razão, podem revelar paixão patológica. A palavra PAIXÃO origina-se do latim, PASSUS, PASSIONIS, sentimento forte a uma pessoa, objeto, religião, filosofia, partido, esporte. PAIXÃO lembra, outrossim, termo grego PATOS, excitação descontrolada, idealismo exacerbado. Nada tem a ver com AMOR, que surge de atitudes sadias e virtudes.

Os meios de comunicação e redes sociais vêm exibindo, diariamente, cenas grotescas do absurdo emocional e moral. Um parlamentar cospe no rosto de companheiro, em plena sessão da Câmara, em Brasília. Outro desafia o adversário que o chamara de mentiroso, também na Câmara, a resolver o caso “lá fora”. Uma bela moça levanta a saia, acocora-se, em via pública, urina e defeca sobre a foto de parlamentar da oposição. Empresário assassina a namorada, no apartamento, esconde o corpo no bagageiro de luxuosa mercedes. Mais de quarenta mil homicídios em 2015, no Brasil, alguns por fúteis motivos. O noticiário se transformou em assombrosas descargas emocionais, irracionais, sangrentas.

A cultura do “olho por olho, dente por dente” é tão ancestral quanto a necessidades de comer, dominar território, multiplicar a espécie, defender o corpo e a honra. Encontra-se em passagens sangrentas da Bíblia e do Alcorão, no paganismo romano, nos ritos religiosos dos ameríndios primitivos, no hino nacional de países, inclusive do Brasil.

Nem Jesus Cristo, pregando o maior paradigma de amor de todos os tempos, conseguiu transformar consciências, dentro de sua própria Igreja, apesar dos excelentes avanços da educação cristã, especialmente nos últimos séculos.

As definições de amor se multiplicam, de acordo com princípios filosóficos  e religiosos adotados e interpretados. Parece-me que o mais acertado encontra-se no segundo mandamento divino: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”, traduzido na tradição popular: “Não faças a outrem o que não queres que te façam”. Você gostaria de receber uma cusparada na cara, embora merecendo? De tratamento ofensivo em público? Uma bala no coração por avançar em cônjuge alheio, ou furtar nas caladas da noite? Não vale mais o princípio da tolerância, acompanhada de punição à luz da legalidade?

A história humana mostra: quem condena a violência, praticando violência, aprova o exercício da violência. Escarrar, desafiar adversário para luta corporal - por essas e outras irracionalidades -  só refletem a falta de educação dos sentidos, e, principalmente, das faculdades mentais. A razão das causas e efeitos da nossas atitudes.


A educação atual exalta, demasiadamente, o vigor físico e atlético como fórmula mágica de saúde. Falta, porém, destacar a educação das faculdades mentais, especialmente a razão. Aquela que analisa causas e efeitos da nossa conduta, seja nas relações sociais, amorosas e sexuais. A irracionalidade deve ser banida das estúpidas e vergonhosas reações na família, nas assembleias, nos estádios, no trânsito, na alcova. Enfim, viver com amor no amor, na misericórdia, perdão e tolerância com a desigualdade.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo IV


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

           Capítulo IV

NO CANTINHO DOS INOCENTES

Elmar Carvalho

Desde o seu alumbramento, ao ver Neuza desnuda, e o assédio de Suzana, a que resistira brava e estoicamente, Marcos não pensava em outra coisa, a não ser em perder sua virgindade com alguma rapariga, ainda que do baixo meretrício. Falou desse plano ao Fabrício, que também fazia parte do grupo responsável pelo jornal mural, no qual publicava contos e crônicas, além de ser o dono, o técnico e um dos jogadores do Flamengo Eborense Clube, time de futebol amador.

Era ele filho de um alto comerciante de Évora, proprietário de uma loja de eletrodomésticos, que vendia seus produtos para todas as cidades circunvizinhas. Tinha apenas uma irmã, de nome Marta. Recebia uma boa mesada de seu pai, mas era comedido, sóbrio, nunca esbanjava, e muito menos praticava ostentação. Simpático e previdente, quase todo dia passava pelo comércio do pai, com o intuito de obter experiência comercial e administrativa.

Fabrício exercia natural liderança sobre seus amigos e companheiros, desprovido que era de arrogância e empáfia, não obstante ser considerado rico, para os padrões da época e da localidade. Conquanto fosse o dono da farda rubro-negra eborense, da bola de couro, do campo, que ficava num terreno de seu pai, não precisava dessas “prerrogativas” para integrar a equipe, pois era um dos melhores goleiros do futebol amador. Tinha grande elasticidade e coragem. Inteligente e intuitivo, sabia se posicionar muito bem, e parecia antever a trajetória da bola, fechando os ângulos em direção ao gol. Quando necessário, arrojava-se aos pés do atacante para impedir o chute ou desviar o curso da pelota.

Dava belas “voadas” ou “pontes”, em que parecia revogar a lei da gravidade. Tinha grande habilidade em encaixar a bola nas mãos ou entre o peito e os braços. Quase nunca “batia roupa”, que é o lance em que o goleiro não agarra a bola, mas a rebatia ou espalmava para fora da zona de perigo. Pelo que se sabe, nunca engoliu um “frango”. Às vezes se auto escalava para jogar na lateral ou na ponta direita, em que atuava com boa desenvoltura, embora não fosse propriamente um craque nessas duas posições.

Ficou acertado, entre ele e Marcos, que se encontrariam no sábado, no início da noite, no bar e mercearia do Zé Afonso, para tratarem da incursão à zona meretrícia. Convidaram também o Mário Cunha, que já tinha incipiente experiência nessa seara. Fabrício, pela sua própria condição financeira, tinha razoável prática em fornicação. Foi a seu convite que Marcos bebeu pela primeira vez, com certo receio, relutância e mesmo remorso. Ficou mais alegre e espirituoso, e ria aparentemente sem motivo, pelo que recebeu admoestações de Fabrício, para que se contivesse.

No estabelecimento de Zé Afonso existia um espaço denominado Cantinho dos Inocentes, em que o chamativo letreiro vermelho, pintado na parede, formava um ângulo de noventa graus. Portanto, o Cantinho dos Inocentes ficava efetivamente em um canto do comércio, e dispunha apenas de uma mesa de madeira e quatro cadeiras. O encanto estava apenas no sugestivo e poético nome.

Os amigos pediram meio litro de Ron Montilla, coca cola, limão, gelo e três copos, e passaram a tomar, sem pressa, sucessivos copos de cuba livre, então muito na moda. Passaram a montar a estratégia para o que denominaram de Operação Descabaçamento de Marcos. Fabrício foi peremptório em dizer que a estreia sexual deste deveria ser no Quartel General, ou velho QG, e não numa espelunca qualquer; que faria as tratativas com puta experiente, verdadeira professora em prática sexual, e mormente sem as indesejáveis doenças venéreas.

Coadjuvado por Mário, transmitiu a Marcos o que sabia e o que fingia saber dessa hedonística atividade. Recomendou que ele procurasse ter calma e não demonstrasse ansiedade. Mário Cunha, além de ter largo conhecimento livresco e teórico sobre o assunto, tinha uma imaginação fértil, com vasto arsenal de truques e simpatias, muitas sem a menor base científica. Explicou que o Ron Montilla, bebido com moderação, era uma espécie de afrodisíaco e retardava a ejaculação.

Recomendou ainda que, uma hora antes da relação, Marcos fosse ao banheiro e praticasse uma bronha, para que o coito fosse mais demorado. O rapaz ficou mais apreensivo e impressionado, ante tantos aconselhamentos e recomendações. Desconfiou que a bronha poderia ensejar, talvez, muito mais uma broxada. Na verdade, ficou mais nervoso do que já estava. Mas se manteve firme, e não pensou em bater em retirada.

Marcos empunhou o litro vazio de rum, olhou demorada e fixamente o seu rótulo, em que o esvoaçante papagaio pousava sobre o ombro esquerdo do estilizado pirata caolho, e se lembrou com indisfarçável emoção do livro A Ilha do Tesouro, cuja leitura tanto lhe encantou em sua meninice. Tocado de leve pelo espírito da garrafa, se autoproclamou pirata Gran Montilla, desbravador dos sete mares ou bares, e concitou:

– Partamos, meus amigos, para a ilha da Fantasia, do Tesouro ou da Utopia, onde iremos chafurdar no reino da putaria!...


Gargalharam e partiram. Sem pressa, contando anedotas e fazendo chistes, em prosa e em versos, sob a bênção prateada de uma esplêndida lua cheia, com a vida toda pela frente a lhes sorrir, estuante, cheia de graças e de flores, os três amigos seguiram a pé para o QG. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

SOMOS TODOS ANÔNIMOS


SOMOS TODOS ANÔNIMOS

Cunha  e Silva Filho

          No decorrer do tempo, a visibilidade de uma autor, seja critico, cronista, articulista,  ficcionista,  dramaturgo,  gramático, filólogo, tradutor, o que seja no domínio  da escrita literária, se apaga, passa ao limbo à medida que os anos e os séculos se inscrevem no tempo  decorrido.  O tempo é como um  grande  romance conhecido de Machado de Assis (1839-1908), tudo devora,  pois é uma sucessão de passamentos que valem, a meu ver,  por uma definição, ou melhor,  uma  concepção algo  pessimista  da vida. Todos  somos tragados, pulverizados pelo silêncio  do tempo, da época. Ninguém quase escapa dessa condição humana auto-refletida na vaidade e na rapidez enlouquecida dos tempos  pós-modernos.
       Certa feita, um professor universitário, diante de seus alunos, confessou essa situação da existência contingencial diante  dos valores  conhecidos e incensados numa data etapa, valores em geral  constitutivos de nichos,  de grupos, que têm muito em comum,  até as práticas  acadêmicas,  as pesquisas semelhantes,  os interesses intelectuais,  os  postos de comando. Diria  o professor: ”Ele tem o seu grupo, os seus  seguidores. Nós (não sei a que grupo ele quis se referir  para si) temos o nosso. Isso nos basta. Cada um fica na sua fronteira,  no seu espaço conquistado. Não me importo se eles me estimam ou não. Não quero saber  disso. Faço a minha parte.”
      Se a vida literária nas décadas de 1930, 1940, 1950, somente para  recortar  um  bom  período de tempo em que  houve tantas  lutas,  polêmicas,   injustiças a autores,   má  interpretação de outros, cabotinismo, estrelismo,  luta  pelo  poder  das ideias  literárias   ou de métodos  críticos  ou de  práticas  estéticas  vigentes  na produção  literária  brasileira, é caracterizada  por marchas e contramarchas,  por  grupos a favor  disso ou  daquilo  no âmbito da literatura  ou de grupos  contra  o establishment  literária, é bem visível  igualmente que a voragem do tempo foi   devastadora.[1]
     Um crítico marxista, em livro,  afirmou que  um determinado  crítico brasileiro  não valia  a pena ser mais lido. Já não falava mais nada no tocante às suas ideias  sobre literatura. Vejo, diante de um fato dessa natureza, que  a visibilidade é realmente  uma leve brisa que passa e se fixa no passado sepultada até que, por uma circunstância ou outra,  sai do limbo.
    Ora,  esta condição de ser um  sujeito  efêmero na atividade  literária de alguma maneira   tem um efeito salutarmente   pedagógico  àquelas figuras  que se  julgam  ou são  consideradas  por seus  simpatizantes, seus contemporâneos,  seus incensadores, ou endeusadores de suas qualidades ímpares   muito acima da mediania visto que  lhes fazem  despertar  para  as condições impostas  pelo dinamismo de mudanças  e multiplicidades de  concepções e de ideias. A história literária mostra que a contemporaneidade   é apenas uma fase  transitória  que logo é atropelada  por novos ventos que se lhe opõem ou a superam.  Diria Gilbert Frankau (1884-1952): “For all heights are lonely”[2].
      Serve, então,  de alívio  àqueles que, por diversas  razões  ou  condicionantes de vida, nunca se tornaram  figuras marcantes  ou foram  mal  julgadas  ou rejeitadas na sua  época. A historiografia   literária está repleta de  exemplos  que se  encaixam nessas condições  de escassa  visibilidade. 
     Por outro lado,  é confortador   que  o julgamento  alheio  jamais será  um indicador  imparcial  de  valorização  de autores em qualquer gênero. Os autores que se julgam  subestimados  não devem ter uma  postura acabrunhante a ponto de  desejarem   desistir de seus objetivos  ou projetos  traçados no terreno  da produção  de sua obra. Muito ao contrário,   deveriam ter sempre ao seu alcance  sua  utopia, o acalanto de um  sonho  que se realizará  a despeito  dos  espinhos e dos  dissabores   que   terão que enfrentar.
    Sua grande saída  é revestir-se de uma  grande   força de vontade  e de desprendimento  sem sinalizar  nenhuma  marca  de desânimo e de abandonar  o percurso   já conquistado com ou sem  visibilidade. Todo o seu esforço deve ser em direção ao auto-aperfeiçoamento contínuo, resistindo a tudo e a todos e tendo sempre em mente  a ideias de que todos os seus pares, mais conhecidos ou menos conhecidos,   conhecerão  o ocaso  do esquecimento e da ultrapassagem dos novos, numa sucessão incansável de perdas e ganhos. A metáfora  dessa fase de  ultrapassagem ou superação das novas gerações  está bem descrita pelo  hoje esquecido  escritor  Origens Lessa (1903-1986), precisamente  nas páginas  finais  de seu  romance O feijão e o sonho, [3] obra que,  por sinal,  foi adaptada ao cinema. A metáfora a que aludi constitui parte ponderável dos últimos  capítulos da obra. Vejamos uma citação que representaria bem  a glória  literária e a sua  decadência, que chamei de ultrapassagem:

         [...] Todo o alto castelo  que construíra com lágrimas, com sofrimento, com paixão, esbarrondava ao simples sopro de uma geração que o demolia, como ele tentara  demolir trinta anos antes, com a mocidade do seu  tempo, as glórias  encontradas.”

NOTAS:

[1] Cf. Acerca da vida literária   duas obras,  a meu  ver,  são fundamentais  ao conhecimento da vida  literária  brasileira  quanto ao recorte  temporal  de cada uma.. Ver BROCA,  Brito. A vida literária no Brasil -1900.   3 ed.   Introdução de Francisco de Assis Brasil Rio de Janeiro: Livraria  José Olympio Editora/PROLIVRO, 1975 e COUTINHO, Afrânio. No hospital das letras.  Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,  1963.A primeira  se notabiliza pela notável abrangência de  exposição e de fatos ; a segunda,   pelo  tom  polêmico e contundência da exposição.
[2]  Ver o ensaio desse autor, ”I am a lowbrow.” Apud ECKERSLEY,  C.E. Brighter English. Revised edition. London: Longmans, 1964, p. 217. .

[3]  LESSA,  Orígenes. O feijão e o sonho. 6. edição. rev. Biografia de Renard Perez  e Introdução e notas de Ivan Cavalcanti Proença.. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1968, p. 200.

domingo, 1 de maio de 2016

Pintura


PINTURA

Elmar Carvalho

Minha estrada
é a esteira de luz
que o Sol traça no mar.
Meu arco-do-triunfo
é o arco-íris
que o Sol pinta no céu.
Meu louro
é o pentelho dourado
que cobre tua nudez.
Então eu:
laureado com tua pubescência de ouro
percorro a estrada de luz do sol no mar
passo por baixo do arco-íris-do-triunfo:
herói anônimo que se venceu a si mesmo. 

sábado, 30 de abril de 2016

O lírico e telúrico em Elmar Carvalho

Capa da segunda edição

O lírico e telúrico em Elmar Carvalho (*)

Reginaldo Miranda
Presidente da Comissão Editorial da APL.

O fazer poético é trabalhar arduamente com as palavras em busca da sintetização de ideias, da sonoridade da frase, da busca do belo, em linguagem mais metaforizada, ritmada e sujeita a maiores peripécias estruturais que a linguagem em prosa. Ser poeta é trabalhar intensamente o processo artístico, o estilo, enfim, a busca da expressão perfeita.

Poeta tem de ter dom e trabalhar intensamente a forma e o estilo. Elaborar o texto com sonoridade, porque fazer poesia é cantar, sempre cantar, podendo ser esse canto de amor, alegria, tristeza, lamúria, dor, revolta, guerra, mas é preciso ser sonoro, sensível, penetrar a alma.Sem isso, a meu sentir não é poesia, embora possa ser um bom texto de qualquer outro gênero, menos poético. Sei que pode haver quem pense de forma contrária, e respeito.

No caso deElmar Carvalho, temos uma poesia lírica, elaborada com rara sensibilidade, sem esquecer o drama social. O poeta não está enclausurado num mundo de sonhos, em castelos de areia, mas consciente de seu papel na sociedade, em sintonia com o povo, de que é exemplo o poema Sou poeta: “sou poeta/E estou de mal com a vida/ que nos acena/ com miragens/ que jamais irá cumprir./Sou poeta Alcides Pinto,/nunca neguei, sou poeta./ Mas sou puto com a vida,/megera encarquilhada/ que nos acorda dos sonhos/ que sonhamos acordados/ pelo prazer de ser madrasta”. E noutro trecho do mesmo poema: “e sei que o povo/ passa fome/ Sei que/algum dia o/ ter’ar’pão/ virá tecido no (te)ar/ pelo arpão do povo/ e pão haverá/ Sei que/ alguma coisa está errada/ porque o povo era pra ser/ tudo/ e agora não é nada”.

Então, não se diga que a poesia de Elmar Carvalho não tem viés social. Tem sim. O poeta manifesta revolta, engajamento e consciência de que algo está errado e tem de mudar. Ele se reconhece poeta, é consciente de seu papel na sociedade, de que sua missão não é cantar os “políticos que tanto mentem pro povo, que tanto enganam o povo”, mas cantar e denunciar o drama da vida, das putas, dos assassinos, dos botequins, “dos deserdados da sorte, dos enteados da vida”.Nessa toada segue toda a poesia do Cancioneiro do Fogo, com indisfarçável protesto social. Aliás, essa é uma tendência da poesia moderna, sempre preocupada com o drama social.

Contudo, a poesia de Elmar Carvalho é essencialmente lírica, envolvendo a emoção, os sentimentos, o seu estado de alma, o que vem sendo acentuado por diversos críticos, entre os quais M. Paulo Nunes, Cunha e Silva Filho, Teresinha Queiroz, Cléa Rezende, Alcenor Candeira Filho e tantos outros que têm se debruçado sobre sua obra.

Elmar Carvalho canta a sua terra, exalta as suas singularidades, as suas belezas, também seus problemas sociais, guiando o leitor pelas veredas do Piauí. O Cancioneiro da Terra e da Água é todo um hino de louvor à natureza e ao rincão natal. De forma lírica e telúrica canta em Marítima as ondas e eflúvios do mar; Flagrantes de Teresina, onde à meia-noite, silente e fria nenhuma estrela luzia, apenas os bêbados passeiam equilibrados sobre a corda bamba dos pés, entre velhas meretrizes sem freguesia; Elegia a Campo Maior, onde as águas mortas do açude tudo viam e tudo refletiam; Postais de Parnaíba, com seu cais da beira-rio, onde lavadeiras sem roupas lavam as roupas dos ricos; também, realçam as subjetividades de Luzilândia, Barras, Amarante, José de Freitas(antiga Livramento), Sete Cidades, Lagoa do Portinho, fazendas e esse consagrado poema que é Noturno de Oeiras, em que homenageia a velha Capital.

Depois de ler esta obra perceberá o leitor que o Piauí é muito mais que um mero lugar no mapa do Brasil. Tem uma gente alegre, laboriosa, que sonha, realiza, sofre, luta e sabe vencer.

Outra vertente da poesia de nosso vate é o poema épico pós-moderno, de que é exemploDalilíada, enfocando a vida e obra de Salvador Dalí; assim como A Zona Planetária, inspirada no meretrício de Campo Maior, onde o poeta mostra toda a pujança de seu talento.


Elmar Carvalho é poeta na acepção da palavra, lírico, essencialmente lírico e telúrico; ao mesmo tempo épico pós-moderno, sem esquecer de invocar o povo simples, os deserdados da sorte, enfim, odrama social. Denuncia a dor, a solidão, o sofrimento. Também, canta a sua terra e, assim cantando seus males espanta. Por isso mesmo a sua obra é universal porque canta a sua aldeia, como diria Leon Tolstoi.  

(*) O vertente texto será a orelha da terceira edição de Rosa dos Ventos Gerais, pela Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras (já no prelo).

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Histórias de Évora - Capítulo III



HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos foram sendo escritos.

            Capítulo III

O APELO DO SEXO

Elmar Carvalho

Desde sempre e até muitos anos depois da adolescência de Marcos a maioria esmagadora das mulheres de Évora (e de outras cidades, sobretudo nordestinas) preservava a virgindade até o casamento. Algumas, quando confiavam no namorado e sob promessa de casório, abriam exceção. Quase sempre a promessa era cumprida, sob pena de escândalo e inimizade entre as famílias envolvidas. Como dizia o cantor Reginaldo Rossi, num de seus grandes sucessos da época, a pílula já existia, mas ninguém falava, e muito menos era usada pelas moças solteiras de então.

Desse modo, os jovens se iniciavam no sexo com as raparigas, como eram designadas as prostitutas. Algumas tinham foro de professoras, e várias gerações de “alunos” passaram pelo seu tirocínio pedagógico. Cada cidade tinha os seus bordéis, com seus nomes pitorescos e muitas vezes jocosos. Havia os de luxo, os caros, os populares e o chamado baixo meretrício; estes eram infestados por mulheres mais feias e mais velhas. Algumas das meretrizes eram “importadas” de outros estados, entre os quais Pernambuco e Bahia. Era raro, mas apareciam as estrangeiras, de preferência louras e de fala enrolada.

Os jovens, quase sempre sem emprego e sem dinheiro, passavam pelos cabarés, para espiar o movimento e os casais no salão, geralmente cheio de espelhos e envolto na penumbra de luzes negras. Às vezes, tinham recurso para tomar apenas duas ou três cervejas, enquanto ouviam os sucessos musicais do momento, sobretudo músicas românticas, recheadas de muita paixão, adultério, vingança e amores infelizes.

Das velhas vitrolas evolavam as vozes de Waldick Soriano, Roberto Muller, Evaldo Braga, José Ribeiro, Carmem Silva e outros astros da chamada música brega. Vez por outra um felizardo, metido a galã e conquistador, conseguia que alguma rapariga fosse com ele gratuitamente. Outros, mais sortudos ainda, tornavam-se gigolôs de madame (como era chamada a dona do brega) ou de alguma rameira de alta rotatividade.

Alguns mais afoitos, na ânsia incontida de apaziguar o sexo, iam para o quarto com alguma das mulheres, e somente após o coito declaravam não ter dinheiro. Era o chamado “passar o seixo”. Quase sempre as raparigas se revoltavam com o logro; faziam uso de palavrões e xingamentos, e algumas vezes lesionavam o caloteiro com giletes, navalhas ou facas, ou com unhadas e dentadas. Algumas ostentavam as cicatrizes e hematomas de eventuais revides.

Marcos já fazia planos de fazer sua estreia, principalmente desde o seu alumbramento, ao ver Neuza desnuda. Via com frequência as revistas proibidas, que seus colegas e amigos lhe exibiam. Conseguia algumas por empréstimo, e ficava com elas durante alguns dias, até que o proprietário lhe cobrava a devolução. Um amigo seu, filho de próspero comerciante, tinha o requinte de possuir um luxuoso almanaque pornográfico, em papel couchê e com fotos em policromia, recurso gráfico raro na época. Mas não o emprestava, e só deixava que outra pessoa o folheasse por poucos minutos, sob seu olhar atento e cuidadoso.

Seguindo o exemplo de seus colegas, gostava de observar as coxas das colegas do ginásio. Algumas, mais atrevidas, encurtavam as saias da farda, fora da vigilância materna. Outras, por displicência, malícia ou generosidade davam brecha, em que se podia flagrar pequena nesga triangular de calcinha, às vezes retesas, esticadas. Alguns seios mais volumosos pareciam querer voar da clausura do sutiã pelo decote da blusa. Mamilos mais aguçados espetavam os tecidos mais finos. Nada escapava aos olhares famintos e curiosos dos jovens que desabrochavam para o apelo do sexo, numa época em que ainda havia certo recato e o mistério, natural ou dissimulado, fazia parte da sedução e do fascínio.

Marcos Azevedo atingiu o ápice de notoriedade local quando escreveu a épica Ode à punheta, em que parodiava Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira. Várias cópias mimeografadas do poema circularam na cidade, passadas de mão em mão. Alcançou o auge de sua glória quando o famoso boêmio e declamador Cazuza o recitou embriagado, em magnífica interpretação, ilustrada por esclarecedora mímica, no enorme “saloon” do Quartel General, ou simplesmente QG, um dos mais luxuosos lupanares da velha urbe, com sua voz grave, possante, levemente metálica e estentórica. A estrofe inicial retumbou no saguão lotado de fregueses assíduos e convidados especiais:

Vou-me embora pra Solitária,
Em Évora não sou Dom João.
Em Solitária sou rei, e terei
As mulheres que sempre desejei
No côncavo de minha mão.

Certo dia estava ele na sala de sua casa, enquanto sua mãe fazia alguns afazeres, quando chegou Suzana, uma garota da vizinhança, doente mental. Ela era mais ou menos de sua idade. Não era considerada bonita, mas tinha seios empinados e encantadores. Por mistério insondável tinha forte inclinação para o sexo, embora, nos demais aspectos, fosse ingênua e inocente como uma criança, já que a sua idade mental era bem menor que a real. Corriam rumores de que alguns meninos já tinham transado com ela e feito outras saliências.

No entanto, ela gostava de dar esmolas, rezar, frequentar a igreja e cantar músicas religiosas, com sua angelical voz e ar de beatitude. Insistia para que seus pais fizessem caridade; com eles visitava o abrigo dos velhinhos. Viria a morrer pouco tempo depois, aos dezessete anos, vítima de fulminante aneurisma. Ganhou fama de alma milagrosa e seu túmulo se tornou o mais visitado do velho cemitério de Évora.

As duas irmãs e os dois irmãos de Marcos haviam saído para o colégio, de modo que a garota puxou conversa com dona Rita. Logo após, o rapaz resolveu ir para o seu dormitório a fim de ler uma antologia de poemas brasileiros, que a Fename – MEC havia publicado. Na verdade ele já estava relendo alguns poemas dessa seleta, que conservaria para sempre.

Não demorou muito Suzana, aproveitando-se do fato de que dona Rita fora orientar Neuza sobre o preparo do almoço, entrou no quarto em que Marcos se encontrava. Entabulou rápida conversa, apenas para lhe atrair a atenção. Começou a se embalar. Em seguida, no sentido da largura da rede (e não do comprimento), entreabriu as grossas coxas, puxou o vestido para o busto, e curvou a cabeça e os seios para baixo, de modo a ressaltar o monte de Vênus, que já era naturalmente acentuado, vendo-se logo abaixo a concha de valvas bem cerradas.

Tirara a calcinha, e uma quase imperceptível e delicada penugem o recobria. Marcos, como se dizia na época, foi no outro mundo e voltou, mas tudo fez para se controlar. Como a moça notou que ele se mantinha distante, retraído, parecendo recear alguma coisa, com os dedos de ambas as mãos afastou os grandes lábios, e disse, com a voz embargada de desejo, sussurrante, vem, coloca teu pinto bem aqui, neste buraquinho.

Nesse curto instante, coisas demais passaram pela cabeça alucinada de Marcos. Recordou que Suzana era irmã de um amigo seu, grande craque de seu time. Lembrou os conselhos de seus pais, para que nunca agisse de forma precipitada e jamais fizesse coisas de que pudesse vir a se arrepender, que viessem a lhe pesar na consciência.

Vieram-lhe à mente certas lições do catecismo sobre pecado. Parecia ouvir as palavras severas do padre Alberto, ameaçando os pecadores com o infernal fogo eterno; castigo bem mais severo que a ofensa. Lúcifer, com as suas negras asas de morcego, com as suas garras longas e aduncas, parecia ter saído das ilustrações do livro de edificação religiosa e estar ali bem perto, a revoar. Pensou nas irmãs. Achou que se atendesse ao chamado de Suzana estaria se aproveitando de sua inocência de doente. Ela, no entanto, o instigou novamente. Vem, coloca teu negócio bem aqui... Tu vai ver como é bom. E acrescentou, talvez para forçá-lo a sair de sua indecisão: Parece que tu não é homem...

Chateado, constrangido e envergonhado, ele então lhe exibiu o membro, ereto, tinindo de teso, e pulsante. Você está vendo como estou, mas não quero. A qualquer momento a mamãe pode entrar aqui. A moça ainda disse, deixa de ser besta, a gente faz ligeiro.

Felizmente, nesse momento dramático e de alta tentação, sua mãe gritou, chamando-o, talvez temendo o que pudesse acontecer:
– Ei! Marcos, vem cá, vem ajudar a mudar este móvel para outro local.


O jovem, ainda afogueado, sentiu como se houvesse saltado uma fogueira, talvez a fogueira eterna do padre Alberto, em suas catilinárias sacras incandescentes, em que o perdão parecia não existir, em que a punição era infinitamente maior do que o pecado.