quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Como é difícil se chamar Ideilce


Como é difícil se chamar Ideilce

Valdir Fachini

O meu nome é esse aí, do título, sem tirar nem por. É difícil de acreditar, mas é isso aí. Então você pergunta: Como pode alguém se chamar assim? É fácil, é só ter um par de pais doidos como eu tive.
Também não sei onde eles acharam isso, se era nome de alguma planta da região, ou de algum calango, ou se foi o sol abrasador do sertão baiano que queimou os miolos deles.
Mas, enfim...! Esse é o meu nome e confesso que não me envergonho dele. Eu poderia mudar pra Virgulina (olha só, nome de herói!), Severina (mais vida do que morte), ou Bastiana, ói que nome lindo! Mas eu prefiro esse que tenho.
Ah! Eu ia me esquecendo, eu sou mulher, é meio difícil de identificar porque esse nome pode ser masculino ou feminino, embora muita gente ache que não serve nem pra um e nem pra outro.
Sou baiana arretada, nascida num vilarejo de nome estranho. Acho que no passado era município de Caculé, mas hoje já é dono do seu nariz. Meus pais moravam no sítio e nunca registravam o filho logo que nascia. Eles esperavam juntar depois fazia um pacote só, então eles não lembravam a data e punham qualquer uma. Eu, por exemplo, faço aniversário em dois dias do ano, mas até hoje não sei qual o dia certo.
Bom! Já terminei o meu dossiê, agora vou falar da dificuldade de ter o meu nome. O problema é que ninguém acerta e nem é tão difícil assim, mesmo assim o pessoal se complica. Já me chamaram de uns trocentos nomes diferentes. Ontem mesmo ligaram no meu serviço e queriam falar com o senhor Idelco. Aí eu me estressei, senhor Idelco o escambau! Eu sou uma menina, não um trator (depois eu descobri que o nome do veículo é Iveco e não Idelco e também não é trator, é caminhão).
Já me chamaram de tantos palavrões que às vezes até esqueço minha identidade. Faço cara de brava, xingo, não respondo, mas no fundo eu até gosto, não importa se colocam mais letras ou se tiram algumas; o importante é que tentam falar o meu nome.
Já pensei até em fazer um dicionário e já pensei até como se chamaria: Dicionário Ideilcês... Acho até que seria um Best Seller! Já me vejo numa noite de autografo.
É isso aí, esse foi o nome que me deram e eu sou feliz assim, pelo menos é exclusivo. Já mandei um e-mail pra Globo pra eles darem meu nome pra uma protagonista de uma novela das nove, já pensou? Aí as mães iam querer esse nome nas suas recém-nascidas. Legal né?
Se algum dia algum jornal publicar uma história tirando sarro desse meu lindo nome, pode ter certeza que foi aquele chato do meu marido, metido a escritor, que escreveu.

Tô nem ai, eu não ligo mesmo!    

terça-feira, 6 de setembro de 2016

RETORNO AO “NORTE DO PIAUÍ”

Alcenor Candeira Filho
RETORNO AO “NORTE DO PIAUÍ”
                                      
Alcenor Candeira Filho

          Fui colaborador contumaz durante algum tempo dos jornais A AÇÃO , NORTE DO PIAUÍ e A LIBERTAÇÃO, dirigidos respectivamente por Mão Santa,  Mário Rodrigues Gomes Meireles e Bernardo Batista Leão.

          Todos esses jornais, bem como os demais que circularam ou circulam na cidade, sempre acolheram em suas páginasjornalistas, escritores, professores, doutores, artistas. No mundo da internet, blogues e portais também vêm dando espaço para todos. E assim vai girando o mundo dos que lutam com palavras, ainda que “sem maior proveito/ que o da caça ao vento”, como disse Carlos Drummond de Andrade no poema “O Lutador”.

          Minha iniciação na imprensa escrita parnaibana se deu nos anos 70 em jornais alternativos ou marginais: O LINGUINHA e INOVAÇÃO.

          Colaborações esporádicas em revistas culturais: PRESENÇA, CADERNOS DE TERESINA, ALMANAQUE DA PARNAÍBA, REVISTA DA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS e REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE OEIRAS.

          A maior parte do que publiquei em jornais da Parnaíba trata de assuntos culturais, especialmente literários.

          Até hoje não entendo a falta de apetite para escrever sobre política municipal, porque em verdade sou apaixonado pelo assunto e tenho sido político militante, comfiliação partidária, desde 1972 , quando iniciava a vida profissional como advogado e professor e apoiei publicamente, inclusive com discursos em palanque, a candidatura a prefeito de Elias Ximenes do Prado pelo MDB. Partido adversário: ARENA. Era a época do bipartidarismo ditatorial. Elias derrotou o deputado Ribeiro Magalhães, que tinha o apoio dos governos federal (Garrastazu Médice), estadual (Alberto Silva) e municipal (Carlos Carvalho).

            Sempre estive filiado a agremiação partidária, apesar de nunca ter disputado mandato popular. Encontro-me filiado ao PTB desde que o deputado José Hamilton FurtadoCastelo Branco assumiu a presidência do partido em Parnaíba.

          É inconcebível, porque meramente utópico, um mundo sem governantes e governados.

          Encaro a política como ciência, arte e prática e a considero fundamental no destino dos povos, em qualquer época. Não se deve generalizar na crítica aos que detêm ou detiveram mandato eletivo. Como em todos os setores da sociedade se haverá sempre de distinguir o “alto” do “baixo clero”, “o joio do trigo”.

          Gosto de ler, ver e ouvir notícias e opiniõespolíticas. Hábito antigo, mas O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇA ´´é o único livro de minha autoria que trata de política municipal.

          Quem sabe um dia não venha a escrever artigos sobre o passado e o presente da política parnaibana, a partir de 1950, quando desde o nascimento era vizinho do prefeito João Orlandode Moraes Correia. Em razão dessa vizinhança guardo vaga lembrança da visita a Parnaíba feita em agosto de 1950 pelo então candidato à presidência da república Getúlio Vargas, que se hospedou no casarão da rua Grande, hoje av. Presidente Vargas, onde residia o dr. João Orlando.

          Há algum tempo só tenho escrito esporadicamente em jornais e blogues locais: O BEMBÉM, O PIAUGÜÍ, BLOG DO POETA ELMAR CARVALHO, PORTAL COSTA NORTE e ACESSE 24 HORAS.

      Daqui para frente espero publicar um texto, como aliás já fiz no número anterior, em todas as edições do jornal NORTE DE PIAUÍ.

       Para mim é um feliz retorno ao conceituado jornal, após algumas décadas de ausência voluntária.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Discurso em apresentação a Teodoro Bicanca

Renato Castelo Branco
Discurso em apresentação a Teodoro Bicanca

Dilson Lages Monteiro (*)

Senhores e senhoras,

Saúdo a todos, lembrando a figura do notável romancista Orlando Geraldo Rêgo de Carvalho (O. G.); de suas palavras em memorável palestra para numerosa plateia de estudantes secundaristas e alguns curiosos, entre os quais me incluía, nos idos de 1990. No auditório do Liceu Piauiense, ao falar sobre sua formação como literato,  O. G. fez um apanhado dos traços que definiam a prosa de ficção quando publicou Rio Subterrâneo.

Em dia de iluminação, daqueles em que as ideias têm asas, de voz firme em sua energia que respirava literatura quando se pronunciava sobre ela, a sua literatura notadamente,  citou, para minha surpresa, eu que já o ouvira manifestar-se várias vezes sobre como se fez escritor, Teodoro Bicanca, de Renato Pires Castello Branco.

O nome do autor já me era conhecido dos compêndios de literatura. Também o mesmo nome sobre quem, em menino, ouvira minha avó materna falar em algumas ocasiões, aludindo saudosamente à sua tia – e também do esposo - Antônia Pires Rebello (Tunica), avô do escritor; a tia acolhedora a quem visitava quando estudante em Parnaíba e sobre quem se enchia de felicidade ao falar. A obra, porém, somente naquele dia, percebi tratar-se, segundo revelava O. G. Rego, valiosa, porque precursora do modernismo na Literatura Piauiense.

Em objetivas palavras, Orlando Geraldo resumiu o cerne do romance; traçou-lhe apanhado de sua mímese e dos elementos identitários que a tornavam única. Então, recém-egresso ao curso de Letras, vasculhei as bibliotecas de Teresina, para sorver de Bicanca a atmosfera de que o nosso notável prosador havia falado com um entusiasmo sincero de que se tratava de um livro especial.

Minha curiosidade logo se arrefeceu. Em nenhuma delas, encontrei o livro. Tive de me contentar com as referências apropriadas e oportunas de Herculano Moraes em Visão Histórica da Literatura Piauiense, embora não me desse por satisfeito da frustração de, naquele momento, não ler livro tão fundamental para nossa história literária. Muitos jovens interessados em literatura piauiense, creio, vivenciaram a minha insatisfação e esperam até hoje o momento para conhecer o romance que insere o Piauí na prosa moderna de ficção.

Em meu caso, particularmente, quase uma década depois da palestra de O. G., meu desejo  materializou-se em presente a mim encaminhado pelo sociólogo e genealogista Edgardo Pires Ferreira. Ele desfrutara da amizade com o autor, a quem muito estimava, e me concedera a surpresa de fazer com que os livros mais valiosos de Renato Pires Castello Branco me chegassem às mãos. E, assim, surgia a oportunidade de conhecer Teodoro Bicanca e Civilização do couro, há muito ausentes de nossas bibliotecas.

No caso de outros curiosos e interessados em nossas letras, a quem não foi concedido ainda o privilégio da leitura de Renato Castello Branco, o momento chegou: Teodoro Bicanca, agrupada em edição com o clássico estudo sociológico Civilização do Couro, integra a centena de obras basilares da história cultural do Estado, reunidas em esforço histórico, para comemorar, em 2017, os cem anos deste Cenáculo de Letras.

Senhores e senhoras,

Escrevendo sobre o romance de 30, o crítico literário José Hidelbrando Dacanal reúne alguns elementos comuns aos romances produzidos em torno do ideário regionalista:

a)”O que é narrado é verossímil, é semelhante à verdade”;

b)”Em termos de estrutura narrativa, isto é, a forma como são apresentados os fatos narrados, é fundamentalmente linear”, em geral;

c)A linguagem “é filtrada pelo chamado código urbano culto”,

d)”O romance fixa diretamente estruturas históricas perfeitamente  identificáveis por suas características econômicas e sociais;

e)”As estruturas históricas são geralmente agrárias (...) As personagens vivem no espaço urbano, mas procedem do espaço agrário, do que resultam conflitos não poucas vezes centrais no desenvolvimento do enredo”;

f)”O romance de 30, está impregnado de um otimismo que poderia ser qualificado de um ingênuo. (...) E, portanto, reformável, se preciso e quando preciso. Basta a vontade dos indivíduos e/ou grupo para que a consciência, que domine o real o transforme”;

A par disso, em Teodoro Bicanca, cuja primeira e única edição é de 1948, Renato Castello Branco            narra o drama da divisão de classes, expressa na exploração dos trabalhadores braçais na fazenda Areia Branca, nos lugares sociais pré-demarcados na sociedade parnaibana, na exploração do capital sobre  vareiros, canoeiros e embarcadiços do Parnaíba.

Esta seria na literatura piauiense a primeira obra a conjugar os traços temático-estilísticos a que se refere Dacanal,  os quais servem como pano de fundo para denunciar as injustiças sociais, ideário comum a toda essa literatura produzida com sucesso entre 1928 e 1960, ainda que calcada em grande preocupação com a ambientação social e humana, herdada do realismo. Ainda que, como lembra Antônio Cândido, em Iniciação à literatura brasileira, ocorram os riscos expressos “pela redução da humanidade dos personagens, pelo pitoresco superficial e pela dificuldade de ajustar a linguagem culta aos torneios populares” .

A estrutura do romance regionalista, entretanto, conforme explica Alfredo Bosi, citando Lucien Goldmann, apresenta um “herói que se opõe e resiste agonicamente às pressões da natureza e do meio social”:

“Os fatos assumem significação menos ingênua e servem para revelar as graves lesões que a vida em sociedade produz no tecido da pessoa humana: logram por isso alcançar uma densidade moral e uma verdade histórica muito mais profunda. Há menor proliferação de tipos secundários e pitorescos: as figuras são tratadas em seu nexo dinâmico com a paisagem e a realidade sócio-econômica. (...) E dessa relação que nasce o enredo. Passa-se do tipo à expressão; e, embora sem intimismo, talha-se o caráter do protagonista”.

Nesse sentido, Bicanca, o primeiro protagonista,  é um resistente. Resiste, ou tenta resistir, à reprodução do ciclo de arbitrariedade que cerca o destino do pai, explorado na roça, explorado na extração da cera de carnaúba. Resiste ao aventurar-se na venda de água de porta em porta em Parnaíba. Resiste no brutal esforço de vareiro valente. Resiste ao abraçar a causa da consciência do amigo e advogado Abedias – este, talvez alter ego de Renato. Resiste, enfim, ainda que sem sucesso, a reproduzir silenciosamente as engrenagens da opressão.

Em Teodoro Bicanca, a fusão entre lirismo e preocupação social consiste em fator que torna a narrativa envolvente, ressaltando traço a que a crítica é unânime em afirmar: há um alto grau de associação entre o eu do escritor e a sociedade que o formou, de tal modo que a memória rompe como elemento vital do processo de escritura até nos efeitos de sentidos alçançados por termos próprios do falar regional.

Essa fusão é mais determinante, a nosso ver, em passagens que recuperavam os hábitos da vida na fazenda, ou a estratificação social na Parnaíba representada. Nesse ponto, marcam a leitura a lembrança das regras que regem a distribuição do trabalho no mundo rural e  o “sereno” na porta da associação festiva parnaibana. Marcam, principalmente, pela imposição da memória sobre a ficção em perceptível carga de lirismo.

Em dissertação de mestrado sobre Teodoro Bicanca, de leitura recomendável, a professora Arlene Soares, em lúcida e inteligente interpretação discursivo-estilística da obra, diz que

“Renato Castello Branco Jamais abandonou as reflexões que o despertaram na juventude as questões humanitárias, mostrando-se sempre atento às injustiças sociais e às transformações do Mundo”.

É nesse ponto que, a nosso ver, compromissado com o ideário do regionalismo, o escritor alcança seu ponto mais elevado. Revela-se aqui a incorporação do marxismo como fundamento para a gênese de seu projeto literário no romance. Ao incorporar postulados marxistas para a tessitura das ações do romance e do perfil dos personagens de maior relevo, age em defesa, no fundo, do próprio humanismo, alcançando efeitos próximos aos alcançados por Graciliano Ramos em São Bernardo.

Neste, Paulo Honório, para manter sob controle os agregados, utiliza-se dos mais variados meios de controle social, inclusive do extremo da violência física. A esse propósito, essa aproximação ideológica é cabível em passagens como:

(...) Uma tarde surpreendi no oitão da Capela (...) Luís Padilha discursando para Marciano e Casimiro Lopes:

-- Um roubo. O que tem sido demonstrado categoricamente  pelos filósofos e vem nos livros. Vejam: mais de uma légua de terras, casas, mata açude, gado, tudo de um homem. Não está certo.

Marciano, mulato esbodegado, regalou-se, entrochando-se todo e mostrando as gengivas banguelas:

-- O senhor tem razão, seu Padilha. Eu não entendo, sou bruto, mas perco o sono assuntando nisso. A gente se mata por causa dos outros. É ou não é, Casimiro?

Casimiro Lopes franziu as ventas, declarou que as coisas desde o começo do mundo tinham dono.

-- Qual dono! Gritou Padilha. O que há é que morremos trabalhando para enriquecer os outros.

(São Bernardo, p.44)                         

Analogamente, em Teodoro Bicanca, deparamo-nos com passagens como esta:

“Com a convivência de Abedias, Teodoro ia compreendendo coisas que nunca lhe passara pela cabeça. O mundo começava a se apresentar a seus olhos de modo diferente.

E os coronéis, também, tinham outros coronéis ainda maiores acima deles, os que compravam a cera, ou o babaçu, ou as peles, para mandar para a estranja. E Abedias dizia que também dependiam de gente ainda mais poderosa.

O mundo de Teodoro tornava-se cada vez mais complexo, - era o mundo do bicho maior comendo o menor: o coronel comendo o agregado, o exportador comendo o coronel, a estranja comendo o exportador.”

 (Teodoro Bicanda, p. 135).

Senhores e senhoras,

Resumindo a resistência literária em Teodoro Bicanca, de Renato Castello Branco, cabe dizer sobre o autor, o que disse Antônio Cândido ao analisar a obra de Graciliano Ramos:

“A literatura é o seu protesto, o modo de manifestar a reação contra o mundo das normas contritoras. Como em quase todo artista, a fuga da situação por meio da criação mental é o seu jeito peculiar de inserir-se nele, de nele definir um lugar”.

Muito obrigado!


(*) Discurso proferido pelo escritor e ocupante da cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras, Dílson Lages Monteiro, em apresentação de Teodoro Bicanca, durante lançamento do volume 81 da Coleção Centenário, na Academia Piauiense de Letras, em 25.08.2016.   

domingo, 4 de setembro de 2016

Seleta Piauiense - Álvaro Pacheco


Poema da Mulher

Álvaro Pacheco (1933)
 
de âmbar e ostras
o cheiro forte
um mistério profundo
de pérolas líquidas
and strange scents
no começo de tudo.
de lábios e dobras
folded, exhilarating
uma coisa simples
e inexplicável - e nela
em mucos liquefeitos
se experimenta a morte.

de formas fugitivas
como nuvens e sonhos
em matéria úmida
no mistério de âmbar
e pérolas liquefeitas:
nesse túnel sem fim
a terra mágica, o caminho
que nunca se encontra
e o exposto segredo
ao nosso indecifrar.


Rio, novembro 74

sábado, 3 de setembro de 2016

POSSE NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA MAÇÔNICO DO GOB-PI

Irmão Carvalho, Grão Mestre José Antônio Dias e Edvaldo Marques, presidente do TJ-GOB-PI

Alguns dos obreiros presentes à solenidade

Elmar Carvalho discursa, vendo-se os seus colegas de posse Marcus Vinicius, João Fernandes e Lirton Nogueira

POSSE NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA MAÇÔNICO DO GOB-PI

Elmar Carvalho

No dia 31 de agosto, quarta-feira, em solenidade iniciada às 19 horas, tomamos posse no Tribunal de Justiça Maçônico do Grande Oriente do Brasil – Piauí Lirton Nogueira, Marcus Vinicius, João Fernandes e este obreiro. A sessão foi presidida pelo presidente do Tribunal, Edvaldo Marques, coronel e vereador de Teresina no mundo profano, coadjuvado pelo eminente Grão Mestre, José Antônio Dias, que proferiram generosas palavras de acolhimento. Os novos juízes foram agraciados com o diploma e medalha do Mérito Judiciário.

Estavam presentes representantes dos Poderes da sublime Ordem e expressivo número de obreiros. Fui indicado à Poderosa Assembleia Legislativa Maçônica, para exercer o cargo magistratural, pelo valoroso irmão José Ataíde, que também, mais de duas décadas atrás, me convidou a ingressar na Maçonaria; tenho certeza de que serei “compelido” por ele a bem servir neste novo mister, como, aliás, é meu propósito.

Prestamos juramento, um a um, e assinamos o termo de posse. Fui indicado pelos novéis juízes a proferir discurso, em que procurei ser breve e conciso. Disse que um julgador deve procurar sempre agir com justiça e celeridade; que a Justiça tardia é muita vezes crassa injustiça. Acrescentei que deveríamos nos esforçar para engrandecermos a nossa colenda corte julgadora maçônica.

Relembrei estas palavras, que disse no já distante dia 19 de dezembro de 1997: “Quando tomei posse de meu cargo de juiz junto ao Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Piauí (...) disse que uma dúvida me assaltava naquela ocasião: sobre o que seria mais importante, se a justiça, se a bondade. Mas eu próprio resolvi o aparente paradoxo da equação, ao dizer que quem era justo era bom, e quem era justo necessariamente teria que ser bom.” Por coincidência, o irmão Lirton Nogueira também tomava posse nessa ocasião. Por pura blague, disse que, aposentado na magistratura piauiense, voltava à plena atividade na judicatura maçônica.

O irmão Luciano Machado, vice-presidente do Tribunal, proferiu um belo discurso, de profunda erudição maçônica, ornado de belos ensinamentos, alguns extraídos da mitologia, e recheado de pertinentes reflexões sobre o melindroso ofício de julgar.

Após a solenidade, o grão mestre José Dias inaugurou as ampliações e reformas feitas no prédio da sede do GOB-PI. Como corolário, foi servido farto, saboroso e variado coquetel.  

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Histórias de Évora - Capítulo XIX


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XIX

Montevidéu, ontem e hoje

Elmar Carvalho

A chácara Montevidéu pertencera ao coronel e fazendeiro Marcolino Ferreira, que nela passava os finais de semana com a sua família. Às vezes ele convidava amigos para eventuais comemorações, à base de churrasco e cerveja. Todavia, no meio da semana, em frequência que variava de quinze a trinta dias, o coronel levava uma mulher, prostituta ou não, para passar uma tarde com ele nesse sítio.

Já cinquentão, no começo dos anos 60, seja por mérito exclusivamente seu ou com a intermediação de pessoa de sua confiança, começou a ter um caso com três irmãs, sendo uma viúva e duas outras solteironas. Acredita-se que ele começou esse relacionamento com a primeira, que depois teria aliciado as irmãs. A filha única da viúva já era casada e morava na capital, de modo que as irmãs Alvarenga moravam na mesma casa. Não se sabe por que inusitado capricho o coronel, embora na periodicidade já referida, as “usava” na mesma ocasião, e não em dias diferentes. Também se desconhece o motivo pelo qual elas aceitavam essa situação digna de um harém. Nunca se soube se elas iam para a alcova ao mesmo tempo, ou se em diferentes momentos do conciliábulo amoroso.

Comentava-se em Évora que o coronel Marcolino era como sarampo, atacava a família toda. Na época, um homem com mais de cinquenta anos já era tido como velho. Por isso mesmo, as pessoas se admiravam de seu vigor. Contudo, quem conhecia a realidade dos fatos era o farmacêutico Sousa Santos, que detinha em sua memória uma fórmula milagrosa, que nunca partilhou com ninguém, levando-a para o túmulo.

Acrescente-se que esse notável boticário era o principal responsável pelas curas das famigeradas doenças venéreas, não raras vezes através de métodos heterodoxos e dolorosos. Ante algumas situações introduzia ardentes bastonetes em vaginas e uretras, untados com as poções miraculosas que ele próprio preparava. A vítima urrava e estrebuchava de dor. Era ele quem sarjava os árdegos cavalos de crista, pégasos tão abomináveis quanto indesejados, e espremia ou extirpava os venéreos tumores e úlceras, jamais veneráveis. Prescrevia dietas e receitas.

Uma hora antes do colóquio amoroso do coronel com as irmãs Alvarenga, o Sousa Santos, debaixo de muita discrição e cautela, lhe injetava diretamente no membro esse precursor do Viagra, que fora originalmente criado para controlar problemas cardíacos. O fato é que ele provocava severos problemas colaterais, inclusive óbito, especialmente quando usado como afrodisíaco. Em vários casos, era tiro e queda: matava mesmo.

Assim, o bravo coronel veio a falecer com apenas 63 anos de idade, no início dos anos 70. As irmãs Alvarenga não botaram luto fechado, porque isso seria uma afronta à família de Marcolino, sobretudo a sua esposa, de quem elas eram amigas, apesar dos rumores, mas passaram a usar roupas escuras, sempre muito discretas. E nunca mais se ouviu falar em relacionamento amoroso de nenhuma delas. A chácara terminou ficando de herança para um dos filhos de Marcolino, que veio a se tornar próspero comerciante e fazendeiro.  

Segundo comentários ouvidos por Marcos, o cabaré Montevidéu de Gracinha estava indo de vento em popa. Os carros, lambretas e vespas ficavam bem resguardados, dentro do cercado da antiga chácara, longe da vista de passantes curiosos e de fofoqueiros ditos profissionais. A clientela vinha aumentando a olhos vistos, talvez por causa de prostitutas novas e bonitas que ali marcavam presença. Em consequência, novas raparigas passaram a fazer ponto no Montevidéu, e isso, por sua vez, atraiu novos fregueses, em contínuo processo de retroalimentação.

Ante essas notícias, ao se encontrar com Fabrício e Mário Cunha, Marcos os convidou para uma “incursão” ao prostíbulo. No sábado, cedo da noite, os três seguiram para lá. Em face do horário, o salão principal ainda tinha algumas mesas vagas. Alguns preferiam beber no alpendre, e outros, debaixo do enorme e frondoso oitizeiro, sobretudo à tarde, quando uma brisa soprava, vinda, ao que se dizia, das bandas do lago Galileia.

Tudo parecia indicar que o empreendimento de Gracinha se tornara rentável. Além da grande venda de cerveja, refrigerantes e outras bebidas, como uísque, conhaque, rum e vermute, a diligente madame contratou uma cozinheira para preparar saborosos tira-gostos, além de pesadas refeições, entre as quais panelada, mão de vaca e rabada. A bem da verdade, diga-se que muitos não iam ao prostíbulo em busca de mulher, mas apenas dessas iguarias e de uma cerveja bem gelada, do tipo “véu de noiva”.

Os jovens e bravos mosqueteiros não estavam à procura de mulher naquela noite, pois acertaram demorar pouco, com o objetivo de irem a uma festa no Évora Clube. Observaram o plantel, e viram que algumas raparigas eram bonitas e apetitosas, e circulavam com certa discrição, à cata de possíveis clientes. Sem dúvida descartavam os estudantes, quase sempre sem dinheiro, e apenas preparados para ratear três ou cinco cervejas, ou oito em dia mais propício. Mas sempre disponíveis para uma “trepada por amor”, como eles jocosamente diziam, em suas gabolices juvenis.

Quando Marcos e seus amigos já se preparavam para deixar o recinto, chegou uma das mulheres, bem vestida, com certa sobriedade, talvez para imprimir respeito. Usava uma pulseira e brincos de ouro, mas sem ostentação. Logo foi identificada como sendo a dona do ambiente. Fabrício tratou de providenciar uma cadeira, para que ela se sentasse, e foi logo pedindo uma cerveja para lhe oferecer um copo, que ela delicadamente recusou.

Gracinha falava em voz baixa e suave, quase a sussurrar, não obstante o bolero que a vitrola tocava. Fez algumas perguntas triviais, e disse que estava gostando do local. Esclareceu que não permitia música em alto volume, para não incomodar as famílias, que precisavam de repouso. Dessa forma cultivava a política da boa vizinha e evitava retaliações, como denúncias ao prefeito ou ao delegado, sob o argumento de perturbação ao sossego público. Perguntou se eram apenas estudantes, ou se exerciam algum trabalho.

Marcos e Mário responderam que trabalhavam em jornal alternativo, mas sem nenhuma remuneração. Fabrício disse que, de vez em quando, prestava algum serviço na loja de seu pai, mais no intuito de aprender sobre como um comércio do seu tipo funcionava; em consequência seu pai lhe aumentava a mesada e lhe dava algum presente.

A madame, furtivamente, vez ou outra, olhava para Marcos, com indisfarçável interesse. O rapaz podia ser cauto, mas não era cego e muito menos ingênuo. Logo percebeu esses olhares de admiração, embora sua eventual vaidade fosse bem administrada. Considerou que ela gostara de seu porte físico e de seu comportamento. Por isso, achou estratégico lhe revelar que morava perto, a apenas três quarteirões.
– Ora, você é quase um vizinho. Pois apareça por aqui, de manhã, quando não tem movimento, nem clientes e nem mulheres, para a gente jogar conversa fora, se isso não lhe causar problema com seus pais. Geralmente, estou sozinha, apenas com mamãe e a empregada.


O rapaz lhe agradeceu o convite, e prometeu que breve a visitaria, na parte da manhã, por volta das dez horas. Em seguida, pagaram a conta e seguiram para o centro da cidade. Marcos, sem afoiteza nem açodamento, apertou a mão de Gracinha e a beijou no rosto, como via fazerem os mocinhos elegantes das películas cinematográficas.      

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O tropel de Lampião


O tropel de Lampião

Leandro Cardoso Fernandes
Cardiologista, pesquisador e poeta
Coautor do livro Lampião: a medicina e o cangaço

No sertão de Pernambuco
Cavalgou um grupo alado,
Avante, gritando vivas,
Antônio e Livino do lado.

De onde vinham, não sei!
Pra onde vão, quem sabe?
Só sei que onde passarem,
Talvez o mundo se acabe.

Mandando n’aquela gente
Tinha um rei d’um olho só;
A grande coroa de couro,
Coberta de sangue e de pó.

Não se viu tanta riqueza
Nem nos bancos do Recife,
Como a que tinham na testa
E na bandoleira do Rifle.

Arreda daí, Severino!
Vai pra junto do teu pai.
Pois onde passa essa gente
O mato não cresce mais.

Passou e sumiu na poeira
Aquele doido grupo alado,
Deixando n’aqueles pobres
O coração aliviado.     

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Agonia do Parque Nacional Serra da Capivara


A Agonia do Parque Nacional Serra da Capivara

José Pedro Araújo
Escritor, cronista e romancista

Desde muitos anos temos acompanhado o caminhar agonizante do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no semiárido piauiense. Originalmente criado em 1979 com uma área de 100.000 ha, o parque foi beneficiado com um acréscimo de mais 35.000 hectares, através da desapropriação de áreas contíguas a ele em cuja região foram identificados novos sítios arqueológicos. Entretanto, a gleba sob os cuidados do ICMBio é muito mais extensa, abrangendo um território de 414.000 hectares, após a criação de um Mosaico Ecológico pelo Ministério do Meio Ambiente, juntando em uma só formação os Parque Nacionais da Serra da Capivara, Serra das Confusões, e o Corredor Ecológico existente entre estes. 

O Parque Nacional Serra da Capivara está encravado nos municípios de João Costa, Coronel José Dias, S. Raimundo Nonato e Brejo do Piauí. Transformado pela UNESCO em Patrimônio Cultural da Humanidade em 1991, é uma das mais importantes unidades de conservação existentes no Brasil, tanto pela importância dos seus sítios arqueológicos como pelas descobertas ali realizadas.

Desde a sua criação o parque trava uma queda de braço com uma parte da população dos municípios em cujo território ele se acha localizado em razão, principalmente, da expropriação de muitas fazendas antigas, mas também pela extinção de alguns povoados que se encontravam na sua área de abrangência. E para piorar a situação, parte dessas famílias demoraram anos para receber o que lhe era devido, sendo que algumas até pouco tempo atrás ainda estavam a esperar pelo dinheiro da indenização. Cerca de cinco anos atrás tive a oportunidade de visitar a parte mais nova do parque, e vi muitas sedes de fazendas ainda de pé e em bom estado de conservação, cercadas por muitas fruteiras, como se aquelas famílias nunca tivessem saído dali, ou como se tivessem saído apenas momentaneamente. Eram estas as que estavam ainda no aguardo das indenizações que deveriam advir dos órgãos ambientais.
     
A propósito disso, ai por volta de 1997 o INCRA foi procurado pelo Superintendente do IBAMA para propor a aquisição de um imóvel nas imediações da cidade de São Raimundo Nonato com o objetivo de abrigar um número significativo de famílias expulsas do parque. Esses excluídos, após saírem de suas povoações originárias, haviam ido residir na periferia da cidade de São Raimundo, e passavam por dificuldades por não saberem desempenhar outra atividade que não a agrícola ou a criação de animais. Deparavam-se, além disto, com um problema comum nas cidades: o envolvimento dos filhos com tudo que há de ruim em um aglomerado urbano. O INCRA providenciou a desapropriação do imóvel denominado Lagoa do Padre, área de excelente qualidade para os padrões do semiárido, e assentou mais de 200 famílias lá. O Projeto de Assentamento está hoje bem estruturado, e é um dos aglomerados rurais mais populosos do município.

Entretanto, pelo tamanho da área de abrangência do parque, centenas de outras famílias foram também atingidas após a criação do parque, e obrigadas a retomar suas vidas longe do local em que já possuíam pequenas unidades agrícolas instaladas.

Em 2013 o INCRA voltou a atuar novamente na região, criando dois projetos de assentamento diferentes do modelo costumeiro, utilizando um formato mais adequado para a região: o de Projeto de Desenvolvimento Sustentável. Localizados nos municípios de Coronel do José Dias e São Raimundo Nonato, limítrofes ao parque da Serra da Capivara, esse novo tipo de assentamento estabelece limites para a sua exploração, obrigando os beneficiários a adotarem práticas agropecuárias de baixo impacto ambiental, e limitando até mesmo o número de animais que podem ser criados, entre tantos outros compromissos firmados. Participei dos dois trabalhos.

Em uma das vistorias realizadas no imóvel Pé da Serra, em coronel José Dias, tive que percorrer longo caminho até chegar a um de seus limites, entrando pelo município de Brejo do Piauí. Depois de longo tempo subindo uma serra, percorrendo trilha aberta por caçadores, nos deparamos com um local onde eram deixadas as motocicletas, única forma de se chegar até lá. O local recebia um sugestível nome: rodoviária. Era por este lado que os caçadores de animais silvestres costumavam adentrar ao Parque da Serra da Capivara para caçar. Esse é, portanto, um dos principais problemas enfrentados pela unidade de conservação: a caça predatória dos animais abrigados ali. Mas não o único.



Os outros problemas são as queimadas, provocadas ou não, e a falta de compromisso dos governos no repasse de recursos para a manutenção das atividades de fiscalização e pesquisa. As entidades que administram o parque, a Fundhan – Fundação do Homem Americano e o Instituo Chico Mendes – ICM Bio, vivem à mingua, padecendo horrores com a falta de dinheiro para as despesas mais urgentes. E este ano, veio a triste notícia: o parque fechou para visitações. Não poderíamos ouvir uma notícia pior do que esta. A que ponto chegou o descaso das nossas autoridades. O que parecia provável de acontecer, mas que teimávamos em não acreditar, finalmente acorreu. Chegamos ao fundo do poço. E olha que a Dra. Niéde Guidon já vinha clamando aos quatros cantos do planeta a respeito dessa possibilidade, alertando para os orçamentos apertados e insuficientes, e para a falta de sensibilidade dos nossos políticos.

Clamou no deserto, para ouvidos moucos. Logo ela, um nome de peso, cientista respeitada no mundo inteiro, com larga folha de serviços prestados desde a década de 60 quando deixou a universidade de São Paulo, a USP, para vir consumir a sua juventude nas quentes caatingas piauienses. Logo a cientista de força que parecia inesgotável, que enfrentou poderosos da região para ver funcionar uma das unidades de conservação mais respeitadas do país; que colocou a vida em risco inúmeras vezes, correndo risco de ser abatida pelos disparos de algum caçador raivoso, como de resto tem acontecido com os animais silvestres que defende.

Guidon não tem serviços prestados apenas com trabalhos de pesquisa científica. Em vez disso, foi buscar recursos no exterior, como já fazia por aqui mesmo, para montar um dos projetos sociais mais bonitos que se tem notícia por estas bandas. Construiu Centros de Educação Ambiental em diversos povoados nas circunvizinhanças do parque, excelentes construções também utilizadas para a educação formal da criançada da região. E como, na época, não existam boas acomodações para receber os turistas que vinham conhecer o parque, construiu um confortável hotel na cidade; erigiu e equipou o Museu do Homem Americano, e passou a trabalhar junto às autoridades na construção de um aeroporto de qualidade que pudesse receber voos procedentes do exterior. O que acaba de ocorrer.
Mas o trabalho de maior alcance social implantado por ela é o que realiza junto às comunidades pobres da região. A fábrica de cerâmica, por exemplo, acolhe e capacita jovens no mister, produzindo peças de altíssima qualidade, comercializada nas principais lojas de decoração instaladas até mesmo no sul do país. É todo esse legado que se acha hoje ameaçado de extinção. É o trabalho de uma vida que sofre terrivelmente com a insensibilidade das autoridades. E tudo isso em uma região carente de tudo.


Que os homens de mando abram os olhos e impeçam o cometimento dessa violência contra o que há de mais importante em toda a região sul do estado. Se até agora nada fizeram para viabilizar a implantação do Parque Nacional das Nascentes, que não permitam que este, o Serra da Capivara, que já está bem instalado, venha a fechar definitivamente.  

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

TRÊS CONTOS DE VALDIR FACHINI


TRÊS CONTOS DE VALDIR FACHINI

O TREM QUE LEVOU MARIA
 
     Eram quatro e meia, passava um pouquinho, o fosco clarinho rasgava o varjão, quando aquele trem saiu da estação levando uma porção de coisas minhas, minha primeira e única namorada, minha paixão, meu sonho e minha alegria de viver.
    Ela foi embora, porquê dizia estar cansada da vidinha de cidade pequena. Queria deixar de usar vestido de chita e se presentear com um Dior ou Versace, até Clodovil já estava de bom tamanho.
 Queria deixar de tomar pinga com capilé e só bebericar Don Perignon, trocar o torresmo com mandioca por escargot e caviar. Festa junina, Mário Zan, ....com a filha de João, Antônio ia se casar......nunca mais, dai pra frente era só Beatles, Rolling Stones, Elvis e Roberto, que já estava no auge.
      Aquele trem, também levou no mesmo dia, o meu amigo de infância, ainda me lembro dele, subindo no vagão com aquela velha mala amarela, que na verdade, nem era amarela, era bege, que no final das contas ele disse que vendeu ela pra comprar um pão com mortadela, Vi quando ele se sentou no mesmo banco com um velho senhor e foram conversando, com certeza falando do seu viralata, que ele chamava de Sultão,...oh cachorro chato pulguento e matador de galinhas, Tempos depois, ele fez uma música, contando a história dessa mala.
      Dois meses depois, minha princesa me escreveu contando da viagem, Disse ela , que o trajeto demorou um pouco mais que o combinado, porquê o trem fez uma longa parada na cidade de Brodowsky, onde estavam erguendo um monumento em homenagem a um pintorzinho que tinha nascido naquela cidade, minha fofura não conhecia, não devia ser ninguém famoso.
     Ela falou também do lugar que estava morando e que já tinha arranjado serviço, ela era garçonete (toda moça do interior quando vai pra cidade grande, trabalha de garçonete ) e que tinha uma novidade, ela descobriu que estava grávida, eu ia ser pai.
      Pra mim, foi a maior alegria, minha parentada não gostou nem um pouco, mas o meu amigo quitandeiro japonês, o Watanabe fez a maior festa, soltou rojão, fez uma churrascada e se embebedou a noite toda. Todo dia ele me perguntava dela, se estava bem, se ela precisava de alguma coisa, parece que ele se preocupava mais do que eu e olha que eles nem eram tão amigos assim.
     Enfim, quase nos dias do bacuri mostrar as fuças, o meu anjo voltou pra casa, ela pariu um molequinho com cara de joelho, que eu achava que parecia comigo, todo mundo dizia que não, mas o importante que era meu sangue e eu já gostava muito dele.
     Porém, minha alegria durou pouco, quando o varãozinho desmamou, meu doce de coco quis ir embora de novo, seu sonho ainda não tinha se realizado, ela ainda não tinha comprado seu Versace, só comprava em brechó, escargot? nem nunca viu, só comia acém com batatas, e foi.
    Eram quatro e meia, passava um pouquinho e de novo aquele trem saiu da estação, levando uma porção de coisas minhas, minha amada, minha paixão, que com o clima metropolitano se tornou mais linda e aquela preciosidade de zóinho esticadinho, meu amado filho Toshio.

                                                   
AS CARPIDEIRAS

   Não se falava de outra coisa na cidade se não na morte do coronel Deoclécio, até gente da cidade vizinha veio pro velório, Conhecido feito ele só ,todo mundo queria dar o último adeus, jogar uma flor e um punhado de terra na sua derradeira morada.
    Seu irmão Deocleciano viajou mais de quinhentos quilômetros pra assistir ao funeral e aproveitou pra ver se a cunhada ainda estava enxutona....tava não,ainda depois do passamento do marido, tava de dar dó.,Enquanto as empregadas serviam café com bolo pras visitas as carpideiras choravam.
    A irmã mais nova do cadáver, a Deocleidiane se encarregava de contar as façanhas do morto (quando era vivo ) pra ela, ele era um herói, mentiroso feito o cão, mesmo assim ela o idolatrava, dizia que ele mereceu tudo de bom que ele teve enquanto vivia e com certeza la no céu, que é pra onde ele vai, irá encontrar o paraíso que ele tem direito e a contratação das carpideiras foi uma homenagem pra la de merecida e as carpideiras choravam.
   O prefeito e sua comitiva não podiam faltar, cumprimentou todo mundo, pegou criança melequenta no colo, rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria, tentou cantar o Hino Nacional mas se atrapalhou mais que a Vanusa e disse que foi a emoção, depois pediu votos pra próxima eleição que já era no ano vindouro.
     O médico da família se desculpava dizendo que cansava de falar pro velado trabalhar menos e se cuidar mais, comer na hora certa, tomar menos conhaque, mas ele era teimoso igual uma mula, deu no que deu.
  A viúva chorava, soluçava, lamentava e ficava pensando que precisava agradecer a quem tinha contratado as carpideiras, saber quanto elas cobraram pra depois reembolsar ...e as carpideiras choravam.
     Rex, Maradona e Tarzan, os rottweilers do morto não puderam entrar na casa, por isso ficaram no quintal uivando, ninguém falou nada pra eles mas eles sabiam que algo de ruim tinha acontecido.
    Então chegou a hora de ir pro campo santo, a procissão era enorme, da casa até lá a distância era grande, a caminhada era longa,mas ninguém se cansava, os homens revesavam pra levar o caixão, seis alças que iam passando de mão em mão, as mulheres cantando A-VE-A-VE-A-VE AVE MARIA,A-VE-A-VE -A-VE AVE MARIA e no meio delas, as carpideiras chorando.
   Depois de um longo discurso o padre encomendou a alma do defunto e os coveiros desceram a esquife pra sua última morada.
   Então as pessoas foram se despedindo dizendo palavras de conforto e consolo e indo cada um pra sua casa.
    Ficando a viúva sozinha com as choronas, não resistiu e perguntou qual foi a alma bondosa que tinha contratado elas ,então uma das quatro falou ...nós não somos carpideiras, nós éramos manteúdas do falecido.
                                         

O SAFADO E A ROLHA DE POÇO

  Safado!era assim que ela se referia a ele quando queria lhe colocar os grilhões,quando fazia comentário com amigos e parentes que envolvesse a sua pessoa ,ou simplesmente quando queria te xingar e humilhar.,Na casa ,a prole e até o papagaio chamava ele assim e aqueles parentes (da parte dela ,é claro)que se achavam os donos da verdade também tiravam uma casquinha.
     Rolha de poço!era assim que ele chamava ela ,mas só em pensamento e ainda assim pensava bem baixinho .
    Tudo começou quando Epaminondas ,que era um homem de Deus,católico mas não muito frequente ,executivo de uma firma grande com um salário bem grande também ofereceu carona pra sua secretária numa tarde muito chuvosa .A danada era muito bonita com um belo par de coxas ,seu Nonô até que deu uma olhadinha ,mas ficou na sua.
    Mas teve um espírito de porco que achou por bem contar pra dona Laudicéia Cristina (dona Cris ,também católica mais frequente que o marido,porém o diabo habitava aquele corpo balofo que com o tempo embalofou mais.
      Ela passou a mão na cabeça e gritou ....é isso que eu mereço seu traste ,chifre?
    Desse dia em diante sua mansão passou a ser a casa dos fundos junto com os ratos ,só entrava na casona pra fazer algum serviço que os pamonhas dos filhos não sabiam fazer.
     Chegou janeiro ,férias calor,a galera toda foi pro nordeste ,menos seu Nonô e o papagaio.Lagosta, água de coco,camarão,brisa gostosa,massa adiposa bronzeando,mas na hora de pagar a conta ...danou-se,o cartão estava bloqueado.Ficaram os relógios e jóias pra pagar a conta,a filha mais nova teve até que dar um beijinho no gerente pra ter um desconto e voltaram pra casa no meio das férias.
    Na garagem da casona tinha uma caminhonetona da hora OKM as portas da casa nem adiantava tentar abrir,seu Nonô trocou todas as fechaduras ,mas a casa dos fundos estava a inteira disposição,seu Nonô só pediu pra não machucar os ratos pois ele tinha pego amor nos bichinhos.
   Mas agora está tudo bem,eles estão felizes na edícula,dona Cris os parasitas e o papagaio.
    Na casona,de caminhonete mais nova ainda também está muito feliz o Pepezinho (apelido que ele ganhou da namoradinha trinta anos mais nova que ele arranjou) mas isso eu não posso afirmar ,me contaram.
                                         
valdirfachini53@gmail.com  

domingo, 28 de agosto de 2016

Seleta Piauiense - Mário Faustino


Legenda         

Mário Faustino (1930 - 1962)

No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se estendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.

Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
e mudo sou para contar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia. 

sábado, 27 de agosto de 2016

São Raimundo Não Nascido


São Raimundo Não Nascido

José Maria Vasconcelos
Professor, escritor e cronista
        
         Se não nasceu, não viveu nem morreu nem ressuscitou. Certo? Não. Explico já o mistério.

         Anualmente, uma voltinha ao novenário de São Raimundo Nonato, paróquia do Bairro Piçarra. Nem parece com os anos da minha infância ou dos párocos capuchinhos que por ali passaram. Coroinha de sete anos, eu me apaixonava pelas noites festivas de leilões, barracas, mundão de gente que se deslocava de toda parte para a modesta capela de São Raimundo, 1955, que se erguia à direita do atual templo.

         Paupérrima Piçarra, piçarrenta, sem caçamento, sem água encanada. Um poço artesiano da Prefeitura ao lado do velho Mercado servia à população. A ponte de madeira sobre o Poti, no final da Higino Cunha. Por ali, passavam “caboclos” trazendo produtos agrícolas para vender na feira. Pela madrugada, caravanas de noivos, em cavalos, vestidos de branco, soltavam foguetes e se dirigiam ao templo para casar. Comerciantes “lavavam a burra”, vendendo de tudo. Vaqueiros a cavalo vinham para homenagear noite deles.

         Frei Eliézer, italiano queridíssimo na comunidade, iniciou movimento para construção de novo templo, moderno e gradioso, além de um prédio para serviço social. De motocicleta, levava-me para acolitar a missa, ligar o som, atender a periferia. Feliz, pois meu pai só dispunha de bicicleta, fruto da bodega. Na pobreza, Martinho e Dedé nunca negaram à Igreja serviços e ofertas. A Divina Providência multiplicou-lhes com a prosperidade.

         Antigos paroquianos recordam-se dos tempos heroicos de Frei Eliézer, abraçado à procissão de fiéis, nas tardes de domingo, dirigia-se a pé, até o Poti, para encher sacos de areia para a construção da igreja. No meio da generosidade coletiva, eu só suportava uma latinha de areia; o frade transformava o chapuz da batina em fardo. Exibia filmes, com entrada paga e promovia leilões. O milagre da multiplicação dos pães e peixes em doações e sacrifícios. Suado e exausto, ele servia de pedreiro no alto dos paredões.

         Uma convocação urgente da província transferiu Frei Eliézer de Teresina para Belém, ainda no início da cobertura do templo. O frade abateu-se profundamente.

         Dona Rita, 84 anos, reside ainda em antiga residência, frente ao templo. Sentada, contempla o que foi entregue à administração dos frades franciscanos. Desencantada, resume a nostalgia: “Aquilo não é a mesma coisa. Os frades nem ligam para o novenário. Só um tiquinho de gente nas quermesses. Até o marco da fundação do templo foi arrancado.”


         Arrancado, também, foi Frei Eliézer, que não experimentou o parto de seus sonhos. Arrancado do ventre de sua mãe, morta, foi Raimundo Nonato. Do latim, portanto, Não Nascido, no século 12 na Espanha. Sacerdote da Ordem dos Mercedários, perseguido por muçulmanos, na Argélia, por libertar escravos e cristãos da tirania. Preso, torturado e doente, regressou à patria e faleceu, quando era escolhido para cardinalato.   

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

CAPITÃO IGNÁCIO RODRIGUES DE MIRANDA

Foto meramente ilustrativa

CAPITÃO IGNÁCIO RODRIGUES DE MIRANDA

Reginaldo Miranda
Escritor, historiador e membro da APL

Descoberto o vasto sertão do Piauí iniciou-se a lenta marcha de desbravamento e conquista territorial no objetivo de assentar a base colonial portuguesa. Desde o ano de 1662, bandeirantes paulistas armam as tendas do primeiro arraial nas margens do riacho de Santa Catarina, sendo o mesmo denominado Arraial dos Paulistas. Logo mais, a Casa da Torre, então sob o comando de Francisco Dias d’Ávila e de seu sócio Domingos Afonso Sertão, assenta a caiçara dos primeiros currais nos vales ribeirinhos, sendo 129 as fazendas ao final do referido século XVII. No início do século seguinte ainda estava o nosso sertão em plena era de conquistas, oportunizando a muitos portugueses vir aqui viver a sua epopeia colonial, desbravando terras e implantando currais. Estavam, assim, ao mesmo tempo adquirindo patrimônio particular e alargando o domínio de sua pátria portuguesa. Não faziam nada de errado, estavam conquistando e construindo uma nova sociedade dentro dos padrões do cristianismo, do capital e do trabalho.
Entre os que chegaram ao tempo de conquista do sertão estava João Rodrigues de Miranda, casado com Josefa de Sousa. O casal se estabeleceu na fazenda Buriti, na margem do Riacho do Brejo, também chamado Brejo do Buriti, afluente do Riacho Fundo, no médio curso do rio Piauí. No Mapa de Henrique Antônio Galluzzi(1760), aparece como fazenda com capela, o que denota a fé cristã dos moradores. Todavia, mesmo arriscando suas vidas para afastar os indígenas e colonizarem os novos domínios, inicialmente, são obrigados a pagar renda aos Regulares da Companhia de Jesus, como sucessores de Domingos Afonso Sertão, no valor de 10$000 (dez mil réis) anuais. Depois adquiririam a fazenda(AHU-Piauí - Cx. 4 – D. 4; Cx. 25 – D. 60; Cx. 4 – D. 309). Alargando seus domínios e aumentando o rebanho, cedem novas conquistas aos dois filhos mais velhos, que as situam com gado vacum e cavalar, sendo a fazenda Trindade dada a Antônio Pereira de Miranda e a fazenda Guaribas a Francisco Félix de Miranda, ambas sendo retiro da do Buriti. Em 1764, este último filho aparece como intendente arrecadando alimento (gado e farinha), em sua região, para abastecer as tropas de combate aos índios Pimenteiras. Depois muda-se para o Gurgueia. Além desses dois filhos mencionados, o indicado casal ainda deixou os filhos José, Ignácio, Luiz e João Rodrigues de Miranda.                                                                               
Pois bem, Ignácio Rodrigues de Miranda nasceu 1737, provavelmente em 31 de julho, dia consagrado a Santo Ignácio de Loyola no calendário cristão. Foi quem herdou a fazenda, nela vivendo até o fim de sua vida, criando gado e administrando a lavoura e escravatura. Viveu com abastança.
Além de fazendeiro, foi também militar e político. Desde a mocidade assentou praça de soldado Dragão, de onde galgou o posto de ajudante das primeiras ordenanças, posteriormente extintas. Em 1776, teve seu nome proposto para o mesmo posto de ajudante do Terço de Cavalaria Ordenança, porém, não sendo aceito em face de não encontrar-se servindo na mencionada tropa ao tempo da proposta, assumiu em seu lugar, Félix do Rego Castelo Branco.                                                                          
No entanto, no ano seguinte foi promovido ao posto de capitão do mesmo Terço de Cavalaria Ordenança da Capitania de São José do Piauí, atendendo à indicação ainda de 24 de fevereiro de 1776. Nesse posto realizou inúmeras diligências e prestou relevantes serviços à sua terra.
Na carreira política foi eleito por diversas vezes, vereador, presidente do Senado da Câmara e juiz ordinário da cidade de Oeiras, então capital do Piauí.
No ano de 1781, na falta de ouvidor letrado, foi eleito ouvidor-geral da capitania pela lei, assumindo essa elevada magistratura em 2 de janeiro do ano seguinte. E, por força da lei, tendo em vista a vacância do cargo de governador, para atender o disposto no Alvará Régio de Sucessão, assumiu na mesma data a chefia da Junta de Governo do Piauí, sendo auxiliado por dois adjuntos, o sargento-mor Manoel Pinheiro Ozório e o vereador Antônio Gameiro da Cruz. Sendo reeleito pelo Senado da Câmara, permanece no exercício desses dois cargos até 2 de janeiro de 1784, quando transfere as funções ao sucessor Marcos Francisco de Araújo Costa. No entanto, retornou às funções, por poucos dias, durante o mês de junho de 1784.
Nesse mesmo período, acumulou também as funções de provedor da real fazenda e dos defuntos e ausentes, capelas e resíduos, corregedor da Câmara, com alçada, chanceler juiz das justificações de índio e mina, e dos feitos e agravos da Coroa, vedor e auditor geral da gente de guerra, com alçada cível e criminal, e mais anexos.
Conforme se vê, durante dois anos consecutivos(2.1.1782 – 2.1.1784), acumulou a justiça e a chefia administrativa do Piauí, enfeixando, assim, grande soma de poderes. Figura, pois, entre os governantes do Piauí.
Durante sua gestão conduziu-se com altivez e independência, entrando em rota de colisão com o ajudante Antônio do Rego Castelo Branco e seus familiares. Então, em 1783, porque um preto cativo de nome João, encarregado de cortar carnes no açougue da cidade, fora à sua casa fazer-lhe a barba, ao retornar ao açougue foi injustamente preso na cadeia pública, carregado de ferros, por ordem do almotacé Manoel José dos Santos, aliado de Rego. Era um ato de provocação, valendo-se o almotacé da autoridade do cargo. Em represália, ignorando a imunidade do funcionário, Miranda manda pôr o mesmo debaixo de ferros na cadeia pública, por duas horas. Desde então, passou a sofrer as maiores perseguições por parte de Antônio do Rego e seus seguidores, que manipulando os vereadores, fizeram diversas representações contra sua pessoa, até conseguirem uma punição em maio de 1788. É que Miranda não podia prender o almotacé, apenas afastá-lo das funções(AHU. Cx. 016. D. 838).
Todavia, em 1786 o ajudante Antônio do Rego Castelo Branco se confronta com o padre Dionísio José de Aguiar, vigário de Oeiras. E durante processamento de devassa o capitão Ignácio Rodrigues de Miranda, comparece em juízo dia 10 de outubro daquele ano, para dar testemunho em favor do vigário. É qualificado como “natural e morador nesta freguesia e da governança desta cidade, na qual serviu de ouvidor pela lei, de idade que disse ser de quarenta e nove anos, pouco mais ou menos, que vive de seus bens” (AHU. Cx. 14. D. 820; Cx. 15. D. 825, 827, 829 e 832).
Ignácio Rodrigues de Miranda era um homem extremamente católico, devoto de Nossa Senhora da Conceição e de Santo Antônio de Lisboa, ou de Pádua, cujas imagens à vezes levava consigo durante espinhosas missões militares. Era também de visão elevada, com instrução acima da média, sendo possível que tenha estudado com padres jesuítas no colégio de Salvador, ou na companhia de parentes em Portugal. Durante seu indicado depoimento em favor do padre Dionísio, atacou Antônio do Rego, mostrando altivez, independência e consciência política, ao declarar:

“que ordinariamente os que costumam servir na governança desta cidade são homens fazendeiros, e por isso pouco experientes nos negócios políticos e públicos, aproveitando-se por isso o dito Rego para os dirigir; e outrossim disse que é bem verdade que o dito Rego todas as vezes que se não segue os seus ditames, não perde a ocasião de se vingar daquela pessoa procurando por falsas ideias e calúnias deitá-la a perder muito principalmente aqueles que lhe podem fazer alguma sombra, e por isso ouve muitos queixarem-se de seu gênio orgulhoso e vingativo” (AHU. Cx. 14. D. 820; Cx. 15. D. 825, 827, 829 e 832).

Conforme se vê, era um inquebrantável piauiense que não se dobrava a conluios políticos, pugnando ao lado de outros denodados como Marcos Francisco de Araújo Costa e Domingos Gomes Caminha.
Na carreira militar, merece referência a exitosa entrada que fez contra os índios Pimenteiras, em 1790. Por aqueles dias essa nação vinha causando preocupações nas cabeceiras do rio Piauí, atacando fazendas e matando pessoas e animais domésticos. Aterrorizados, muitos colonos ameaçavam abandonar as fazendas. Muitos são os relatos de desinteligências entre os indígenas e colonos, que, à medida que avançavam com fazendas pelas cabeceiras daquele rio, iam reduzindo a área dos indígenas. A estes só restava atacar as fazendas e tentar recuperar o antigo território. Foi esta a última grande nação indígena que habitou o território piauiense, resistindo até princípio do século XIX, ajudados pela geografia local, pois abrigavam-se em plena caatinga entre as costaneiras e reentrâncias serranas do Piauí, fronteiriças à Bahia.  Algumas entradas anteriores, feitas pelo tenente-coronel João do Rego Castelo Branco e seus filhos Félix e Antônio do Rego, haviam sido infrutíferas. Assim, pouco se sabia sobre esses indígenas, ignorando-se a quantidade e força. Eram de língua desconhecida, mesmo pelos indígenas que integravam as tropas, entre esses Acoroás, Gueguês, Jaicós e Timbiras. Dizia-se que eram rebelados do rio de São Francisco, mas não se sabia ao certo. Portanto, era muito importante a obtenção de intérpretes. Foi nessa conjuntura que o governo interino da Capitania, ainda composto por outros membros da Junta Trina, o nomeou em 27 de fevereiro de 1790, para comandar tropa de combate aos mesmos indígenas. Nesse mesmo dia o referido governo interino lhe comunica a nomeação na forma seguinte:

“Tendo este governo interino notícias certas do estrago que fez o gentio na fazenda intitulada o Cavaleiro, vamos por esta nomear a V. Mce., comandante da tropa que V. Mce., sem perda de tempo deve formar de todos os soldados auxiliares e ordenanças, e ainda dos que o não forem com as armas que cada um tiverem, e puderem haver, e formada como lhe for possível, mandará municiada com a pólvora que leva o capitão Joaquim José Vicente de Almeida, e mande com ela correr a fronteira do mesmo gentio para o fazer retirar, e atemorizar, caso estejam postados próximo a nós. (...). Devemos lembrar a V. Mce, que S. Maj. proíbe a guerra ofensiva a estas nações, e que só nos concede a defensiva, por ser direito natural cada um defender a sua vida, a sua pessoa e os seus bens, e os do soberano de quem é vassalo” (AHU 016 – Cx. 18 – D. 929).

Mais tarde, em 8 de julho de 1790, o referido governo interino assim comunica a situação ao capitão-general do Estado, fazendo breve relato dos acontecimentos:

“... e ao mesmo passo requerendo providências sobre o mesmo gentio, ao contrário largariam suas fazendas deixando seus gados ao desamparo sem o devido benefício por não se esporem a experimentar a tirania daquele bárbaro gentio, assim como aqueles dois miseráveis experimentaram, em benefício dos mesmos moradores, e dos das Reais Rendas de S. Maj., por lhe ser indubitável o acontecimento de prejuízo com a despovoação das ditas fazendas na falta dos dízimos que delas recebia, se incumbiu ao capitão de cavalaria ordenança Ignácio Rodrigues de Miranda, morador na ribeira do Piauhy, a diligência de formar uma tropa para correr as fronteiras do sertão acima referido, para o fim de se atemorizar o sobredito gentio e retirar-se, quando estivesse postado perto de nós, (...); e remetendo-se-lhe dez libras de pólvora com o seu competente chumbo para municiar a dita tropa com a qual passaria o dito capitão/ a quem nomeamos comandante dela/ao predito sertão” (AHU 016 – Cx. 18 – D. 929).                                                                                   

No cumprimento dessa importante missão, conforme mais tarde relatou, se dirigiu à fazenda da Conceição com 50 soldados, fazendo ciência aos mesmos de seu objetivo e os exortou a bem o cumprirem. Disse da importância de fazerem algumas presas, a fim de as prepararem para intérprete em missões futuras. Então, liderando os mesmos marchou procurando uma lagoa que fica quatro léguas distante da referida fazenda, para daí descer em busca da aldeia indígena, correndo as fronteiras até a fazenda o Cavaleiro. Dessa forma, chegou à referida lagoa no dia 30 de maio, às 8h da manhã e às 14h expediu 40 homens escoteiros, nomeando por cabo José Dias da Costa, com as recomendações de estilo. No dia seguinte(31.5.1790), aqueles descobriram rastro fresco do gentio. E a poucos passos chegaram a uma roça, de onde ouviram rumor de gente e pancadas de pisar pilões em duas partes distintas. A essa altura, seguiram a uma das partes por onde um pequeno caminho os guiava, sendo que “por milagre da Virgem N. Sra da Conceição e do glorioso Santo Antônio, que levaram por guia, chegaram sem ser vistos nem ouvidos pelos indígenas”. Então, os assustaram com o disparo de quatro armas, fazendo com que corressem assustados, aprisionando os soldados aqueles que estavam mais a jeito. Todavia, “em face dos gritos das presas e crianças, voltaram os homens com o mesmo ímpeto, que foi necessário ao cabo com muito trabalho e fadiga dos soldados fazer fogo ao inimigo, ficando deles quatro mortos e dois soldados flechados, ambos varados nos braços esquerdos”.  Diante dessa forte reação, fugiram os indígenas “e de longe gritavam, lançando por cima algumas flechas”. Então, “o cabo mandou também gritar e disparar alguns tiros, com que tudo se acalmou”.
Diante dessa situação, “os soldados quiseram queimar tudo e custou ao cabo controlá-los para que só queimassem as armas, inclusive imensas flechas, trazendo algumas, de que vão duas flechas ao governo sendo uma de ferro, que flechou um soldado”, além de dois machados e alguns outros utensílios, disse Miranda em correspondência.
Porém, para retornar em segurança os soldados fugiram da trilha por onde tinham ido, com receio de serem vítimas de tocaias. Rasgando a íngreme caatinga, sem estradas, chegaram ao encontro do capitão Ignácio Rodrigues de Miranda no dia 1º de junho.
Quatro dia depois, em 5 de junho, Ignácio Miranda chega com seus solados e presas indígenas à fazenda da Onça, de seus amigos Ribeiro Soares. Então escreveu ao governo interino:

“Ilmo. Sr. Hoje, cinco de junho, me acho nesta fazenda da Onça, com a presa de cinco índias mulheres, três crianças fêmeas, e três machos, que fazem o número de onze, tudo do gentio das Pimenteiras, alguns dos pequenos doentes, que me é necessário conduzi-los de cavalo, e assim os vou conduzindo com todo o amor e zelo até donde V. Sa., for servido//Também me assiste o cuidado de que essa cidade ainda se acha infestada das bexigas, e que indo elas para lá se lhes der semelhante mal será certo morrerem, [ficando] V. Sa., com esse desgosto, eu com o meu trabalho perdido, e os moradores sem esperança de alívio e no mesmo perigo, ou em muito mais que até agora: este é o meu sentir; V. Sa., mandará o que for servido// De todo o acontecimento que nesta diligência tem havido, breve será V. Sa., ciente; esta só vai dirigida a dar a V. Sa., este gosto, que sei há de ser grande; eu por ora não necessito cousa alguma, mas sempre desejo que V. Sa., dê a providência que vir será necessária pelas fazendas da Inspeção, e no enquanto me não chegar resolução de V. Sa., sempre me hei de ir valendo do que me for preciso. Deus guarde a V. Sa.// Fazenda da Onça, 5 de junho de 1790.// De V. Sa., obediente súdito// Ignacio Rodrigues de Miranda”.                                          

Mais tarde, em 14 de junho, já em sua fazenda do Buriti, no vale do Riacho Fundo, escreveu outra correspondência:

“No dia onze do presente mês de junho cheguei a este Riacho Fundo bastantemente molesto, e com as índias muito destroçadas, umas sem poderem andar por razão das muitas pedras dos caminhos, outras com febre e catarrões, mandando-as conduzir nas garupas dos soldados, em muitas vezes com os filhinhos nos braços, porque só corações de ferro, não terão compaixão de tal miséria, lembrando-me ao mesmo passo do muito que V. Sa., me recomendou respeito ao amor com que deviam ser tratados, mas o certo é que só o que não for católico, não terá compaixão de tanta miséria”.
E noutro trecho da mesma correspondência:
“As índias eu sentirei se se perderem ou se forem parar onde lhes falte amor e caridade, ou instrução para servirem de guia, no que V. Sa., não deixará de pôr todo cuidado, como benigno pai”.
Chegando adoentado dessa missão, recomendou ao cabo José Dias da Costa lavá-los para Oeiras.
Ao chegarem à capital faleceram de imediato duas índias em face de doenças, febre e catarrões. Em seguida, chamam os índios Guegués, Acoroás e Jaicós, assim como pessoas que conheciam a língua geral e ninguém conseguiu entendê-las. Foram então distribuídas em casas de família, a fim de que aprendessem o nosso idioma e, assim, servirem de intérpretes em missões futuras, bem como informar sobre sua nação. Infelizmente, esses indígenas seriam exterminados no primeiro quartel do século seguinte, por José Dias Soares, a serviço do governo.
Depois dessa importante missão, o capitão Ignácio Rodrigues de Miranda ainda permaneceria no posto de comandante militar do rio Piauí, prestando relevantes serviços. Todavia, faleceu algum tempo depois, provavelmente em sua fazenda do Buriti, onde residia. Deixou viúva, D. Leandra Maria de Jesus e já com família constituída o filho Felipe Nery de Miranda.
Foi um grande piauiense do período colonial, deixando um nome honrado, grande descendência e larga folha de serviços prestados à pátria.