segunda-feira, 20 de junho de 2016

NOSSO FUTURO NO FUTEBOL PODERÁ SER UMA VOLTA AO PASSADO


NOSSO FUTURO NO FUTEBOL PODERÁ SER UMA VOLTA AO PASSADO

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal 
afcsousa01@hotmail.com

                -Treinador, o senhor fez uma alteração equivocada, tirando um dos raríssimos jogadores que chutaram em gol no primeiro tempo; mas havia chance de consertar o erro, já que ainda dispunha de duas substituições possíveis de serem feitas, por que não as fez? Pergunta de jornalista a Dunga em entrevista coletiva depois de Brasil versus Peru. E ele, gaguejando: - porque, ora..., ora..., veja bem, o time naquele momento estava encaixado... E errou de novo, dessa feita, também, na utilização do predicativo: em vez de “encaixado” deveria dizer “encaixotado”, pronto para ser despachado, mandado ao lixão de Massachusetts – se é que lá existe isso. É muita desfaçatez, incompetência, arrogância e ignorância, juntas.

                Um amigo disse que Dunga foi um grande jogador. Como não entendi ser brincadeira, que ele não queria referir-se ao biótipo avantajado do sujeito, mas à sua técnica, discordei; também o fiz em relação ao que, a seguir, acrescentaria: que, na seleção campeã pela quarta vez em mil, novecentos e noventa e quatro, ele, o volante ogro, e Romário - não citou o humilde jogador Bebeto, um dos melhores coadjuvantes de todos os tempos - é que deram o tetracampeonato ao Brasil. Por estar com pouca paciência e sem vontade de discutir, disse ao velho chapa, peremptoriamente: companheiro, a copa do mundo de mil, novecentos e noventa e quatro, não tenho nenhuma dúvida em afirmar, foi uma das mais pobres, tecnicamente, dentre todas as já realizadas: nunca tantos canelas de pau compuseram suas respectivas seleções nacionais.

                O Brasil em termo de seleção de futebol principal, nos últimos dois anos, conseguiu feitos memoráveis, inesquecíveis, verdadeiras quebras de paradigmas: levamos a maior goleada da história do esporte bretão, desde que começou a ser disputado por seleções nacionais, e a pior já sofrida por um campeão mundial: o doloridíssimo sete a um diante do escrete alemão; após trinta e um anos fomos derrotados pelos peruanos e, não bastasse isso, quase trinta anos depois, saímos de uma copa américa pela segunda vez  na primeira fase do torneio, com a pior participação dos últimos noventa e três anos.

                Que mais nos falta acontecer? Mantido o entourage administrativo da confederação brasileira de futebol e, consequentemente, a filosofia que a norteia quanto à escolha da comissão técnica das seleções principal e olímpica, muito provavelmente, duas desgraças, uma inédita, a outra não: ficarmos, pela primeira vez, fora de uma copa do mundo, a de dois mil e dezoito e, novamente, deixarmos de ganhar medalha de ouro no futebol olímpico. Os dois fatos podem se realizar sem surpresa: estamos fora da zona de classificação nas eliminatórias sul-americanas de futebol, enquanto nossa seleção olímpica, muito bem arrumada por treinadores que antecederam Dunga, corre o risco de esfacelar-se ou ficar desfigurada até a abertura do torneio, caso seu novo treinador decida fazer experiências.

                O tempo corre célere, mas mesmo assim, seria bastante arriscado continuarmos com Dunga; ele já provou que é egoísta, turrão e míope como poucos. Ruim sem ele, muito pior com ele. Vamos para mais um drama olímpico, mas quem sabe não nos salvemos nas eliminatórias, com outro treinador, principalmente se a ele for dada a liberdade de fazer as convocações que julgar convenientes; levando à seleção quem, de fato, envergue a amarelinha considerando-a sua segunda pele; sem qualquer interferência comercial, corporativa ou burocrática; craques temos de sobra, ou o mundo não se interessaria por nossos jogadores. Se, mesmo assim, não der certo, talvez seja chegada a hora de voltarmos ao passado. Pode ser que para salvarmos nosso futuro, precisemos praticar futebol como fazíamos entre mil novecentos e cinquenta e oito e mil, novecentos e setenta, período em que servimos de referência técnica e estética futebolística, virtudes que perdemos desde quando passamos a tentar imitar, sem sucesso, o acadêmico, pragmático e parametrizado futebol de resultados.             

domingo, 19 de junho de 2016

Seleta Piauiense - Almir Fonseca


Poema

Almir Fonseca (1918 – 1972)

Nasci em berço macio e quente,
Como a árvore no bosque silencioso e calmo;
Alimentei-me de leite materno,
Como a árvore se alimenta da seiva no seio da terra;
Tive o aconchego no colo morno de minha mãe
E a doçura dos seus carinhos revigorantes,
Como a árvore recebe o calor do sol e a frieza do luar,
Que lhe mantém o equilíbrio da vida;
Recebi os bafejos e os beijos de minha mãe querida,
Como a árvore recebe as carícias brandas
Da brisa perfumada e mansa;
Fui cercado de todos os cuidados e proteções
Contra as intempéries,
Como a árvore recebe da Natureza
Os meios peculiares à sua defesa;
Senti, por certo, caírem sobre o meu rosto inocente
As lágrimas quentes dos olhos de minha mãe
Quando chorava de contentamento
Ao apertar-me contra o seio,
Como a árvore sente correrem sobre os seus galhos verdes
As gotas de orvalho caídas do céu
Quando a Natureza lhe abraça com o véu da noite.

Cresci, tornei-me jovem,
Alegre e brincalhão, feliz da própria vida,
Como a árvore cresce, robusta e ereta,
E balança ao passar do vento forte.
E hoje, homem feito
Vivo exposto aos rigores da sorte avara
E do destino impiedoso,
Como a árvore, frondosa e altaneira,
Vive exposta aos golpes da foice afiada
E do machado bronco.

Eu morrerei,
Como a árvore morrerá,
E então nós nos encontraremos:
Eu feito defunto
E a árvore transformada em caixão,
– Iremos à última morada...   

sábado, 18 de junho de 2016

Aldeia Global à Torre de Babel


Aldeia Global à Torre de Babel

José Maria Vasconcelos 
josemaria001@hotmail.com

         Anos 70, a cidade dormia cedo, sem muros altos, sem ferramentas sofisticadas de segurança, sem sobressaltos e pesadelos. Relaxava-se fácil, quando a  TV Globo encerrava a programação, antes da meia-noite. Na vinheta, o samba de Noel Rosa, ATÉ AMANHÃ, e a nostálgica mensagem em bonita voz do locutor: "Logo, o brilho das luzes, será substituído pelos primeiros raios do sol. Fique agora, na tranquilidade de seu lar. Nós estamos aqui. Atentos aos acontecimentos da aldeia global, preparando as emoções que são a vida do povo, a alma da cidade. Até amanhã, na certeza de um novo tempo: tempo de comunicação, fazendo um homem livre no universo sem fronteiras!"

         Depois de quatro décadas, vários conceitos embutidos nessa mensagem precisam ser revistos, especialmente ao retratar a tranquilidade do lar, aldeia global, o tempo de comunicação, homem livre, emoções. A TV Globo não repetiria a mesma mensagem, bem como outros meios de comunicação, diante da avalanche de emoções e reações coletivas. Quer exemplos? Há um ano, não se tinha notícia de um estupro coletivo no Piauí. Bastou o primeiro, em Castelo do Piauí, exaustivamente explorado na imprensa. Seguiram-se mais três no estado. Como reagiram os “amantes da opinião pública sadia”- filodoxia, segundo Platão – aqueles que buscam o belo e virtuoso em si, ao contrário dos estudiosos da opinião seca, do rigorismo das demonstrações?

         Será que a exposição demasiada dos crimes, escândalos sexuais e maracutaias das autoridades, embora condenados pela Justiça, o país se libertará das mazelas? Claro que não, nem por isso a Justiça fugirá às suas funções. Porém, os meios de comunicação, que contribuem em colocar cidadãos a par dos crimes, não poderiam dedicar mais espaços às fronteiras do bem? Por que novelas costumam escancarar mais conflitos conjugais do que amores decentes? Afinal, o que é decência para formadores de opinião?

         O termo aldeia global, um conceito criado pelo canadense Marshall MacLuhan, na década de 60, explica os efeitos da comunicação de massa sobre a sociedade contemporânea, transformando o mundo numa tribalização de costumes e culturas. Quando se repete, exaustivamente, um produto ou episódio, termina virando moda de bem ou de mal. De bem é o que pouco se explora. Um programa de TV em que jovens testemunham seu resgate do submundo dos vícios, faz bem.

         Num mundo híper conectado em que vivemos, encurtam-se territórios e fronteiras. Tragédias e sofrimentos nos chegam, constantemente, ao ponto de nos acostumarmos com as dores alheias, avessos à misericórdia e sentimentos de solidariedade. Explica-se a frieza dos que não respeitam pudor, autoridade, o exercício da nobreza, a própria vida. Vive-se uma era glacial de puros sentimentos.


           A aldeia global ainda não aprendeu a usufruir-se da tecnologia da comunicação entre os povos, de um novo tempo, sem fronteiras do ódio. Construída, como a ancestral Torre de Babel, serve mais para exploração do orgulho, do domínio de uma mesma língua. Infelizmente, tende a ruir. Uma modesta e saudável vinheta serve de alerta.   

quinta-feira, 16 de junho de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo X


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo X  

Consummatum est

Elmar Carvalho

No liceu, Marcos teve rápida conversa com Fabrício. Este lhe disse que estivera no QG e que a madame Doralice perguntara por ele.
– O menino Marcos está difícil, nunca mais apareceu. Diga a ele para aparecer. A casa continua de portas abertas para ele, e eu continuo a mesma e de braços abertos...

O rapaz gostou da notícia. Estava lendo, com muita atenção, os livros que Madalena lhe emprestara. Dera especial importância aos prefácios, estudos introdutórios e notas de rodapé, para só então devolvê-los. Estava ansioso para rever a mulher do médico, para enfim consumar o que mal iniciara, se tal fosse possível.

 Ante o que Fabrício lhe contara, de forma auspiciosa, decidiu ir ao QG naquela mesma noite de quarta-feira, em que o movimento no lupanar não era tão grande, como nos finais de semana. Com certeza o entrevero amoroso com a madame lhe serviria para apaziguar a sofreguidão que sentia em reencontrar Madalena. Teria mais tenência, e não iria com tanta sede ao pote. Dessa forma, poderia se esmerar nas carícias e nas chamadas preliminares.

A madame, levando muito a sério a sua missão de mestra do jovem, que espontaneamente se impusera, resolveu se exceder nas lições práticas e teóricas. Indicou-lhe as carícias e manipulações que mais excitavam uma mulher. Mostrou-lhe as principais zonas erógenas. Enfatizou que os toques preliminares eram de capital importância para o sucesso de um amante, sobretudo os mais sutis em certas partes da anatomia feminina.

Disse-lhe que ser o gatilho mais rápido só era importante nos filmes de faroeste ou bangue-bangue. Deixasse isso para Ringo, Billy the Kid ou Django. Como no velho brocardo, a pressa era inimiga da perfeição. Os dois repetiram as performances e pulutricas anteriores, e inventaram outras mais. Doralice, demonstrando ser a sacerdotisa suprema do sexo, exercitou a arte do pompoarismo, o que levou Marcos ao delírio, no embalo de sucções e fricções tão ritmadas.

Com essas novas aprendizagens, e após a leitura meticulosa dos livros, o rapaz se sentiu apto a retornar à casa de Madalena, sob o pretexto de devolvê-los. Tocou a campainha. Um pouco depois a dona da casa apareceu, e o cumprimentou com um breve e discreto sorriso. Pediu-lhe para que entrasse e sentasse à mesa da sala, em que ele depôs os livros. Foi até a cozinha, de onde retornou com um delicioso suco de cajá. Com paciência o rapaz o sorveu, demonstrando sentir muito prazer nessa lenta degustação.

Madalena, quase como se fosse uma dedicada mãe a tomar as lições do filho, fez várias perguntas, tanto sobre o conteúdo das obras como sobre o estilo dos autores. O jovem, para impressioná-la e para provar que fizera cuidadosa e profunda leitura, falou com muita vivacidade sobre os livros e seus autores. Falou, inclusive, da escola literária a que eles pertenciam, enunciando suas características mais notáveis.

Nessa breve conversa o rapaz notou que a mulher o mirava com ternura e encantamento. Por seu turno, ele não lhe regateou olhares em que tentou expressar admiração e desejo. Com embevecimento contemplou seu rosto de incomparável formosura, e com certa cobiça mergulhou seus olhos nas colinas de seu colo, tentando adivinhar as curvas, os detalhes, os contornos e a textura dos seus seios, empinados e firmes. Tentando disfarçar a impaciência, ela o convidou a irem até a biblioteca, para que ele escolhesse novos livros.

Marcos só era tímido no primeiro contato. Feita a conquista, tinha a desenvoltura e traquejo de um verdadeiro amante. Observou que, dessa feita, Madalena cerrara a porta. Ele sabia que um livro era bem mais delicado que uma mulher, pois uma simples lágrima podia danificá-lo e manchá-lo para sempre; um simples toque inadequado ou canhestro podia amarfanhar suas folhas. Mas a tocou com muito mais suavidade do que tocaria uma página feita do mais delicado e frágil papel.

Afagou-lhe os cabelos e as têmporas. Em seguida, seus dedos percorreram-lhe as sinuosas e bem delineadas sobrancelhas. Seguiram o contorno da boca. Pousou o côncavo das mãos sobre as maçãs do rosto em inefável massagem. Após fixá-la em profundidade, olhos nos olhos, como se quisesse lhe devassar os mais recônditos pensamentos, colheu-lhe os lábios entreabertos, ansiosos. Beijaram-se longamente, em frenesi, enquanto se abraçavam.

Marcos se afastou um pouco para poder lhe tocar os seios ainda velados pela blusa. Quando quis desabotoá-la, ela lhe afastou as mãos, e o beijou novamente. Depois, conduzindo-o, abriu a porta que separava a biblioteca do quarto do casal. O rapaz, então, a desnudou completamente. Viu a magnífica beleza de seu corpo, cheio de curvas, relevos e encantamentos. Beijou-lhe os seios esculturais. Afagou-os com suavidade e vigor, de baixo para cima, até se fixar nos túmidos mamilos de eriçadas e áureas aréolas. Foi metódico, quase ritualístico. Sussurrou e ofegou ao seu ouvido, como se seguisse profano breviário.


Aplicou em Madalena tudo o que aprendera com Doralice, ponto por ponto, milímetro por milímetro, até a consumação suprema da própria consumação. E ainda assim, como na música, o cio venceu o cansaço.  

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lançamento de Bernardo de Carvalho - 2ª edição


Lançamento da 2ª edição de Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara

Será lançado em Campo Maior o livro “Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara”, da autoria de Elmar Carvalho, em segunda edição revista e substancialmente aumentada, com a inclusão de dois novos capítulos, um sobre a localização da quase mítica Fazenda Bitorocara, e outro sobre o povoamento do Vale do Longá, além de vários outros textos sobre a história e o patrimônio natural e arquitetônico do município.

A capa é uma excelente obra artística de Gervásio Castro, em que se vê a idealização de Bernardo de Carvalho, ladeado por um índio e um negro, tendo ao fundo a antiga igreja de Santo Antônio do Surubim.

O livro contém apresentação da historiadora e professora da UFPI Sílvia Melo, membro da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE. Foi editado através de convênio entre a Universidade Federal do Piauí e a ACALE. Na oportunidade será inaugurada a Biblioteca da Academia Campomaiorense e será prestada homenagem ao reitor José Arimatéia Dantas Lopes.

A solenidade de lançamento da obra historiográfica acontecerá às 10 horas do próximo sábado, dia 18, no espaço cultural Fórum Deputado Antônio Gayoso, situado na Praça Bona Primo.

Na contracapa, João Alves Filho, presidente da ACALE, emitiu o seguinte comentário:

“(...) Segundo o historiador Pe. Cláudio Melo foi ele [Bernardo de Carvalho] a mais importante figura do Piauí colonial, fundador de várias cidades no Piauí e no Maranhão, e foi quem lançou as bases administrativas e hierárquicas do que viria a ser o Piauí.

(...) O livro prova de forma cabal, com documentação e argumentos sólidos, que a Fazenda Bitorocara ficava mesmo na confluência dos rios Surubim, Longá e Jenipapo.”    

segunda-feira, 13 de junho de 2016

TEMPO DE LEMBRAR AS PEQUENAS COISAS


TEMPO DE LEMBRAR AS PEQUENAS COISAS

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Aproxima-se a data do meu natalício, completo 83 anos de existência, o que não é pouco. Mas também não acho muito. Quero transmitir alguns pensamentos a outras pessoas, alguns já expostos em meus livros, através de personagens. E, como é sabido, personagens são ficções, não me mostram, como diria, num justo retrato ou imagem. Eles me traem. E agora eu não quero traições.  Sendo escritor, não é pecado escrever sobre mim, nada para elogiar, talvez só para desabafar. Se procurasse algum amigo para uma conversa talvez fosse difícil encontrar. Este é um dos problemas dos velhos: os amigos foram embora, uns para terras distantes, outros para o paraíso. Uns são surdos ou não têm telefone ou celular, outros estão doentes e desconsolados, por isto já quase não falam nem sequer aceitam visitas.

Ainda bem que sou escritor, penso nos meus leitores. Uma boa parte já me conhece, sabe e não me estranha. Nem a minha figura popular e humilde, nem a franqueza com que expresso minhas opiniões, algumas já misturadas com os pensamentos aprendidos nas minhas leituras. Nestas palavras não me exalto, nem tento fazer minha própria biografia. A biografia de um escritor são suas obras. E estas eu já as tenho para pesarem na avaliação que me façam no futuro. Além de meus poemas, minha mais encontrável obra está nestas páginas de artigos e crônicas que o jornal “O Dia” me vem publicando aos sábados.  Pois, de algumas coisas estou certo: Não há nenhum escritor capaz de escrever sua autobiografia, justo porque ela mostraria as coisas grandes, as melhores, deixando as pequenas de lado, como se não existissem. Num arremedo autobiográfico, escrevi um soneto, que está ali ao meu lado, pregado na parede. Título: “Quem eu sou? Impossível responder / sem confundir o ser com o ter sido / com o vir-a-ser, com o nunca ter nascido. / Sei o meu nome, é todo o meu saber”. Mas, no final, arremato assim: “Não sei mentir, por isto é que me invento. / E com a força que vem do sentimento, / não passo de um menino que se adora”.

Vaidades! São coisas pequenas. “Vanitas vanitates vanitas!” Vaidades eu tenho, você tem, querido leitor. Quem não as tem?  Então, por aqui continuo. Constam algumas coisas, dos autos de minha memória, com relação aos primeiros eventos da infância, que não gostaria de repetir sempre. Ficou o medo de ser reclamado, de ser agredido, de ser castigado, o medo de receber palavras que não me agradassem. Mas uma frase vai aqui neste relatório bem honesto:
- Oh menino chorão, oh menino feio, Zefa! Ele puxou ao pai.

Zefa era minha mãe. Certamente era muito bonita, como atesta o retrato que tenho aqui na parede, junto a meu pai, como se fosse um casal bem unido. Normalmente as fotos mentem. Tanto quanto à beleza como quanto ao que realmente apresentam de alegria ou tristeza.

Com quem eu haveria de parecer senão com meu pai? Poderia também “puxar” à minha mãe. Mas não, eu saí feio e feio continuei sendo: coisas do destino, coisas de Deus. Mas se fosse bonito não seria um bom poeta, isto eu tenho quase certeza. Certeza? Mas aquém tem certeza de nada? Nem do passado, do presente, ou do futuro.

Feio, sim, mas fui um menino bastante estimado pelas famílias de meus pais. Pouco ouvia frases desagradáveis. Constantemente ia passar dias na casa de meu avô “Sinhô do Diogo”.  O outro avô, Chico Ana, não conheci, mas me lembro de meus tios e tias. Com saudades. Da minha infância. Na casa de meu avô era tratado com muito regalo, tinha um quarto onde dormia na minha rede – pena que, de manhã, me levantava todo mijado. Talvez fosse uma deficiência minha, no aparelho urinário. O outro neto, depois de mim, era o Chico de Sinhô. A gente brincava nas roças e capoeiras, ia até o rio e tomava banho, caçava passarinhos, comia frutos do mato: os melhores eram os frutos de imbu e xiquexique, depois vinham cajá, pitomba, juá, carnaúba e mandacaru, quando era tempo. O almoço era carne de tatu e de outras caças.  Sobrava tempo para tudo. No de inverno a gente tomava banho de chuva; quando a chuva ia embora, passava o tempo jogando pedras no caldeirão e vendo a água subir fazendo aquele barulho. E nós dizíamos: Fulano. Eram os sepultados na água, os que não eram do nosso agrado. Também fazíamos cavalo de pau para brincar, depois que levava os animais para beber no rio. Tudo isto era uma delícia. Para menino não há tempo ruim. Comia, corria, dormia, fazia “malinações”, levava ralhos dos mais velhos, mas ficava por isto mesmo.

Depois, crescido, já na escola – meu pai era o mestre – ouvi algumas pessoas e colegas me elogiarem, porque eu aprendia rápido:

- Ele é inteligente como o pai. Vai ser mestre também.  Já começavam a me respeitar. E ficava envergonhado ora se!... Nunca me achei inteligente assim, para tanto destaque. Por ser tímido. Medroso igual a mim ainda estou por ver outra pessoa. Mas naquele tempo era tudo muito simples. Hoje parece que há muitas complicações, mas continuo a dizer que a vida é muito simples. Não precisamos de muito. Ela é a pequena-grande coisa que recebemos de graça. Por isto é dever conservá-la e amá-la até o seu limite. Sou inteligente, é? Mas não tenho certeza de nada. Quem sabe do futuro? Se o homem soubesse do futuro, o futuro não existiria. Deus existe, disto eu sei, mas não é uma entidade criada a nossa imagem. É a sabedoria, é o espírito santo e é também o filho (que sempre existiu). Somos uma partícula de Deus. Nossa alma, nosso espírito, nosso “eu”. Então, que sabedoria temos, se não conhecemos nem a nós mesmos?  

domingo, 12 de junho de 2016

Seleta Piauiense - Renato Castelo Branco


O instante

Renato Castelo Branco (1914 - 1995)

É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.

Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.

É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,

De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.


É um instante de glória.

sábado, 11 de junho de 2016

DIREITA, ESQUERDA, VOLVER...


DIREITA, ESQUERDA, VOLVER...

Francisco Miguel de Moura
Escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

                Há, na sociedade atual, aplicada à política, uma confusão dos diabos, envolvendo duas palavras que em si não dizem nada - direita e esquerda – se usadas fora do contexto. O contexto aqui é o da política, mas é, antes, também o da origem. 

                Para confundir mais as coisas essas duas palavras também são conhecidas como dextra e sinistra que significam, respectivamente, mão direita e mão esquerda. Logo, as duas coisas existem ao natural. E quando o comandante manda seus comandados fazer direita x esquerda, eles entendem perfeitamente. Por que nós ouros, civis, não deveremos também saber e entender o que vem a ser direita e esquerda?

                Partindo-se do princípio de que as duas formas têm origem na condição humana natural, o filósofo Olavo de Carvalho explica que “direita e esquerda, muito antes de serem diferenças ideológicas ou de programas políticos, são duas maneiras diferentes de vivenciar o tempo histórico. Essas duas maneiras estão ambas arraigadas no mito fundador da nossa civilização, a narrativa bíblica, que vai de uma origem a um fim, do Gênesis ao Apocalipse”.

Nosso sábio leitor já dever ter notado que a origem das duas expressões se localiza num tempo muito remoto, anterior mesmo à contagem pelos homens - esses pobres vermes que somos e pensamos valer muito só porque temos olhos (de pouco alcance), ouvidos (idem) e boca-voz-palavra (idem), dotados de sentimentos tão superficiais que se guardam numa pequena memória, cuja existência não pode ser concebida historicamente. Começa num “pré-tempo” ou num “não-tempo”.

Citando novamente o filósofo Olavo de Carvalho, que não é de direita nem de esquerda, mas um profundo pensador do nosso tempo com base atualizada e em consonância outros tempos, informamos:

“Se nas esferas superiores do pensamento florescem então por toda parte concepções pueris que empolgam as atenções por uma décadas para depois serem atiradas à lata de lixo do esquecimento, o distúrbio geral da percepção do tempo não poderia deixar de também se manifestar, até com nitidez aumentada, em domínios mais grosseiros da atividade mental humana, como a política”. E acrescentaria eu às sábias palavras do filósofo: - para sofrer todas as deturpações possíveis, como estamos vendo no Brasil de então. E me parece que não só no nosso país, mas em todo o globo, em toda a humanidade e desumanidade.

No meu entendimento, como só há um número em matemática, o numero 1 (hum), que já expliquei noutro artigo, também só há uma posição com relação ao tempo: – o nosso e o absoluto. Essa posição se chama CENTRO. Esquerda e direita são variações que podem ser acrescidas de outras palavras também políticas como “social”, “democrática”, “comunista”, teologal, religiosa, centro-esquerda, centro-direita, etc.

Não será que com isto pode ser explicado também que o exército, em qualquer país e em qualquer tempo, não tem direita nem esquerda, ele é o centro? Volver é centro, esquerda X direita é apenas o movimento necessário à tropa.

Na verdade, em política, quem está na “esquerda” quer sempre ir para o centro, jogando diatribes contra os que estão na “direita”, e vice-versa. Na verdade todos querem o centro, o poder material, terreno, para ser o rei, o astro e transformar o que seria do povo em coisa particular, sua. No momento atual do Brasil, a chamada “esquerda” parece reproduzir isto, com discursos falsos e mentirosos, com inação e capacidade máxima de poluir as relações éticas, morais e até as físicas, beirando a uma ligação à cadeia tráfico-traficantes.  Mas ninguém se iluda, por causa das tremendas contradições esquerda x direita: os seus discursos confundem muito aqueles menos favorecidos pela cultura, educação e prudência.

O tempo político é cheio de misérias, daí porque os pobres se apegam às religiões e muitas vezes se tornam dogmáticos e cegos aos reclamos da evidência do natural e do eterno.

E porque aqui falei em ETERNO, nunca houve palavra que tanto já me confundiu. Mas agora a vejo esclarecida na Bíblia, no “Livro dos Provérbios”, sobre a Sabedoria de Deus, cap. 8 vers. 22-31: “O Senhor me possuiu como primícias de seus caminhos, antes de suas obras mais antigas; desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes das origens da terra. Fui gerada quando não existiam os abismos, quando não havia os mananciais das águas, antes que fossem estabelecidas as montanhas, antes das colinas fui gerada. Ele ainda não havia feito as terras e os campos nem os primeiros vestígios de terra do mundo. Quando preparava os céus, ali estava eu; quando lançava a abóbada sobre o abismo, quando firmava as nuvens lá no alto e reprimia as fontes do abismo, quando fixava ao mar os seus limites – de modo que as águas não ultrapassassem suas bordas – e lançava os fundamentos da terra, eu estava ao seu lado como mestre de obras; eu era o seu encanto, dia após dia, brincando, todo o tempo, em sua presença, brincando na superfície da terra e alegrando-me em estar com os filhos dos homens”.


Neste final de citação bíblica, sinto que o filho de Deus, Jesus, sempre existiu, tal como a escritora portuguesa Maria Helena Ventura, no seu livro “Um homem só”, pesquisadora que foi morar por uns tempos em Israel e escrevê-lo com mais consciência. E sente-se também que Deus não é um ente criado à semelhança do homem de esquerda ou de direita, mas a sabedoria insondável do eterno. Enfim, direita ou esquerda são falsos argumentos que se escondem atrás do mal e das maldades humanas.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo IX


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo IX   

Caça e caçador

Elmar Carvalho

Após as explicações sobre a campanha de vacinação, Madalena, notando a timidez do rapaz, mas também percebendo o seu olhar embevecido e guloso ao mesmo tempo, sobretudo direcionado ao seu colo e ao seu rosto, com cautela e habilidade, caçou conversa. Perguntou-lhe se ele gostava de literatura, principalmente de ler poemas e romances, tendo ele lhe respondido afirmativamente.

Marcos lhe falou sobre suas produções e projetos literários. Acrescentou que publicava alguns contos, crônicas e poemas no jornal mural e no tipográfico; que já lera todos os livros da pequena biblioteca de seu pai, mas que este tomava livros emprestados de uma pessoa amiga e ele próprio recorria aos livros da biblioteca pública, cujo prazo máximo para devolução era de dez dias.

Percebendo a mulher que o jovem, embora a olhasse com admiração e desejo, jamais iria tomar qualquer iniciativa, por retraimento, receio ou respeito, pousou, muito de leve as suas mãos sobre as dele, que de imediato reagiu, entrelaçando nos seus os cálidos dedos de Madalena.

Num impulso, quase sem pensar, cego de paixão e desejo, o rapaz se levantou, contornou a mesa, e foi em direção à mulher, que também se levantara. Olhando-a profundamente nos olhos, segurou as suas têmporas, em seguida a enlaçou com suavidade, e colheu nos seus os carnudos lábios dela. Ela correspondeu, mas em seguida, com muita delicadeza, se afastou.
– Olhe, aqui não, cuidado, a empregada pode nos ver. Por favor, me acompanhe, venha conhecer a nossa biblioteca.

Foram para um amplo compartimento, onde se encontravam grandes e altas estantes de madeira, repletas de livros. Para não chamar a atenção da empregada, ela puxou a porta, mas a deixou entreaberta. Para a realidade da época, era uma grande biblioteca particular.

Em suas estantes se enfileiravam os volumes da Enciclopédia Britânica, do Tesouro da Juventude, dos Clássicos Jackson, da Biblioteca do Prêmio Nobel, das coleções Clássicos da Literatura Brasileira e Clássicos da Literatura Universal, todos em capa dura, com vinhetas, cercaduras e letras douradas, além de centenas de livros avulsos de poemas, contos, fábulas e romances.

O moço contemplava tudo isso com ternura, e uma quase beatitude, tal qual estivesse diante de um tesouro sagrado. Retirava alguns exemplares e os folheava com delicadeza, em verdadeira carícia. Chegou a roçar o nariz em alguns deles, como se os estivesse cheirando e beijando.

Com muita suavidade e cuidado, passou páginas e páginas da Poesia Completa de Manuel Bandeira, impressa em papel bíblia. Nada disso escapou aos olhares furtivos e periféricos de Madalena, que lhe franqueara escolhesse alguns livros, que só deveriam ser devolvidos quando ele concluísse a leitura, que deveria ser atenta e sem pressa. Ela imaginou a pele suave de seu rosto afagada por dedos tão hábeis e tão macios, conforme já pudera constatar, ainda que por instante demasiado fugaz.  

Marcos escolheu dois romances e Poesias Escolhidas, de Castro Alves, edição comemorativa do centenário do poeta, obra publicada em 1947 pela Imprensa Nacional. Ela se aproximou dele. Fitou-o nos olhos, e emocionada e nervosa disse, com a voz embargada:
– Peço todo sigilo e que não pense mal de mim. Não sou uma leviana e nem doidivanas. Amo e respeito meu marido. Não sei o que deu em mim. Quando você voltar para devolver os livros, conversaremos novamente...


Marcos lhe fez discreta reverência e, sério, a fitou nos olhos, mas não tentou beijá-la ou afagá-la. Não era caçador, mas se fosse, jamais espantaria uma incauta e entontecida gazela.   

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O PLANETE TERRA É NOSSO, NÃO DELES


O PLANETE TERRA É NOSSO, NÃO DELES
  
 Cunha e Silva Filho
         

          Estão brincando com  fogo, ou melhor, com  água,  pois as águas estão rolando em Paris,  em toda a  França,  e furiosas, não respeitando nem   as belezas das cidades nem o seus inesquecíveis e imponentes  monumentos, museus, sua invejável Torre Eiffel, seu Arco do Triunfo,  a Catedral de Notre Dame,  sua avenida Champs Elysées,  seu Bois de Boulogne, praças, quer  dizer, marcos históricos, arquitetônicos de incomparável beleza, os quais  podem  ser danificados com as inundações  sem trégua. Deus nos livre delas! Já imaginou o mundo sem Paris?
      Em termos de finesse, de encantamento, de civilização, de erudição, de vida civilizada, de alta filosofia, dos grande  poetas e  prosadores,  a primeira cidade que me vem à mente é  sempre Paris,  a “vitrine do mundo,” como diria um crítico brasileiro aludindo à sua densidade cultural  O Sena (Le Saône, em francês) que  elegantemente  atravessa a  capital francesa, com toda o seu charme   fluvial, seus barcos  turísticos,  desta vez  subiu além das medidas, tal qual fez em 1910, deixando mortos, e tal qual ocorreu em 1982, segundo  informa uma reportagem saída no Globo (04/06/2016), na seção “Mundo.”
       O que neste artigo quero ressaltar é a discussão das mudanças do  clima no mundo hoje.As inundações devastadoras na Europa e mesmo  em outros continentes,  segundo os cientistas, se devem ao velho e batido tema do aquecimento global,  questão à qual não se tem dado a devida  importância ainda que  consideremos  os órgãos ou entidades mundiais e as reuniões de países   que se debruçaram sobre essa questão sem que, todavia,  seus resultados  tenham  sido  aproveitados  para que o nosso  planeta  recue nas taxas altas de poluição,  de  esbanjamento  de dióxido do carbono  por todas as cidades  do mundo.
      Debates,  seminários,  reuniões de especialistas  têm sido realizados sem  que, até agora,  vislumbremos  um quadro  menos sombrio.Os sinais de situações catastróficas  estão à vista de todos. Até crianças  já sabem que os efeitos do CO2  são para valer e que a humanidade  aguente as consequências  que não são  alvissareiras. Muito ao contrário.
     A citada mesma reportagem,  refere duas  opiniões nada  otimistas  sobre o clima no planeta. Uma, de Chris Feild,   coordenador, em 1912,  de um  relatório do “Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas” Foram suas palavras: (...) uma atmosfera mais quente é capaz de reter mais água, e como consequência, as chuvas tornam-se mais pesadas.”  A outra é de Michael Oppenheimer, da Universidade de Princeton EUA),  ainda mais  dramática: (...) Chuvas forte? Inundações? Acostumem-se! Com as mudanças  climáticas, essa é a nova realidade.”
     Diante de um panorama  apreensivo como  o atual,  há que discutir  profundamente  o que se poderia mesmo  fazer  a fim de amenizar os desastres  das águas. Não é tão difícil de   equacionar, mas o difícil mesmo  é mudar as mentalidades dos chefes de Estado que, não obstante comparecendo alguns  às  reuniões de cúpulas,  estabelecem  limites   de diminuição  de níveis de poluição de CO2,  para seus respectivos  países,  inclusive com marcos temporais  para implementação  de medidas  visando à redução dos gases poluentes. Na prática,  não temos  segurança bastante de que se cumprirão esses acordos.
    A hesitação de chefes de Estado   é fácil  deduzir – tem profundas   implicações econômicas, i.e.,  a ambição natural dos homens  põe à frente  o dado econômico,  e , em segundo plano, o ser humano. Mas, isso é um raciocínio distorcido que não resiste   nem mesmo à mais frágil argumentação. Se, em primeiro plano,  só se pensa nos lucros  da economia, do capitalismo desenfreado  e cada vez mais  devorador  dos valores éticos do ser humano, a contrapartida  vem pelos golpes   mortais da Natureza-Mãe, que é sábia e não se dobra à avidez da produtividade  global  desmedida.
   Depois, não me venham se queixar  dos  bilhões de prejuízos ( o caso agora de Paris , da França) causados pelas  inundações  e outros   efeitos   destruidores do meio-ambiente,  os quais  lhes serão  mais  nefastos  do que os ganhos financeiros em razão da  insistência na produção  multiplicada e desenfreada para a  satisfação fútil do consumismo. Ou seja, nesse barco furado  de adesão das pessoas aos   produtos  do capitalismo ególatra  e hedonista, saem perdendo  todos  os consumidores doentios  mais  ainda  os grandes  empresários e  os governos.   É por essa razão que países  como os Estados Unidos, por exemplo, não  têm  presença tão marcante  em cúpulas   onde se discutem   as reduções  exigidas  em defesa  da despoluição  terrestre.  
   Daí ter dito linhas acima  que a questão   dos poluentes de todas  as formas, sobretudo do CO2,  exige uma reforma de mentalidades de líderes mundiais. Obviamente, se  não derem  a devida  atenção a esse debate, não podemos vislumbrar   nossas cidades livres de catástrofes e acts of  God  que porão em risco  a  continuação  da vida em nosso  planeta.  Os avisos das águas  não  são de brincadeira. São para valer.
  Nessa batalha contra a  poluição,  os escapamentos de  gases de veículos, de chaminés, de altos-fornos, de queimadas  criminosas,  do desflorestamento (da Amazônia, sobretudo), de desapreço  pela limpeza de nossos  rios e mares, nós, que não temos peso  ou voz de líderes  mundiais ou nacos de barganha  junto  aos países ricos e desenvolvidos, o que temos  que fazer de bom   é repudiar,   por todos os meios de comunicação,  com  o nosso clamor de indignação contra os  predadores  da Terra.

  V., consumista inveterado, pense em nosso  planeta, já por si, tão vilipendiado,  tão escavado,  tão esburacado (vejam as explorações contínuas das minas pelo mundo),  tão explodido em testes   de armas atômicas,  ou ameaçado por usinas  nucleares , pense nos seus semelhantes  que não têm a sua mentalidade,  e  nos deixe viver em paz e principalmente deixe em paz o nosso  planeta, lindo,  maravilhoso,  deslumbrante, que é a Terra, com a sua lua, o seu sol e o espaço sideral, à noite, pontilhado de estrelas.  

terça-feira, 7 de junho de 2016

Café Literário homenageia Eduarda Miranda e Raduan Nassar


A CAMA DE FERRO DA INTOLERÂNCIA


A CAMA DE FERRO DA INTOLERÂNCIA

Jacob Fortes

Ensinamento marcante pode ser extraído da mitologia grega, mais precisamente do lendário Procusto, bandido que, vivendo, oculto, na serra de Elêusis, à margem da estrada que ligava Mégara a Atenas, tinha em sua casa uma cama de ferro para a qual convidava os viajantes a se deitarem. Os hóspedes de altura superior ao comprimento da cama tinham, enquanto dormiam, as pernas amputadas a machadadas. Os de altura inferior eram esticados, com cordas e roldanas, até que se igualassem ao comprimento da cama.  O reinado de horror do tirânico Procusto chegou ao fim quando o herói ateniense Teseu o capturou e fê-lo deitar em sua própria cama onde teve a cabeça e pés decepados.  Teseu aplicou a Procusto o mesmo suplício que infligia aos seus hóspedes, incautos. A lógica doentia de Procusto era a padronização, isto é, todos deveriam caber na sua medida, na sua régua. Os que estivessem fora da medida única seriam enquadrados, subjugados. Embora Teseu tenha aniquilado o monstro da mitologia grega, seu espírito intolerante até hoje faz estragos pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Aliás, a medida única de Procusto, representada por sua cama de ferro, metaforiza cabalmente o sentido da intolerância de uns em relação a outros. Mesmo sem a crueldade dos métodos de Procusto, frequentemente queremos enquadrar as pessoas na nossa régua de comportamento, nos padrões que julgamos ideias, ajustando-as aos conceitos de como deveriam ser. Vezes sem conta o espírito de Procusto se interpõe à história da humanidade. Exemplos de singular relevo são o holocausto e escravidão negra, onde os que se julgavam seres superiores acharam-se no direito de subjugar os que eram “diferentes”. Na inquisição usou-se até o nome de Deus para enquadrar os “diferentes”.  As cenas comuns de homofobia e ataques a homossexuais não são outra coisa senão reminiscências despertadas da cama de ferro de Procusto.  “Mas, não é a diversidade uma característica de homens e mulheres? Então,  por que insistir em obrigar homens e mulheres a viverem segundo os mesmos padrões e ideais, forçando-os a ajustar suas vidas aos conceitos pré-estabelecidos?”

Acautelemo-nos: o espírito, à solta, do crudelíssimo bandido mitológico ainda não encontrou a quietude do melhor sono; ressurge impondo a sua régua mutiladora, ora fisicamente, ora psicologicamente. Visível ou invisivelmente, a cama de Procusto pervaga por diversos ambientes inclusive nas escolas. “Alunos “diferentes” têm sido mutilados em suas características em nome do padrão social”. Muitos são os que tentam adequar os outros aos seus imperativos, forçando-os a entrarem nas suas medidas.

Que não sejamos acometidos da odiosidade que faz apertar o gatilho contra os que são “diferentes” ou pensam de modo diverso. A diferença entre pessoas é da essência do mosaico de povos. Que Deus abençoe a todos, sobremaneira os que, por serem “diferentes” são molestados pelos procustianos, simpatizantes da cama de ferro da intolerância, dentre os quais conhecidos apóstolos da intransigência: figuras da política, célebres redatores, etc.   

segunda-feira, 6 de junho de 2016

AS VELHARIAS DO JUDICIÁRIO


AS VELHARIAS DO JUDICIÁRIO

Valério Chaves
Desembargador inativo

                 Seria pouco realista esconder que nos últimos cinquenta anos, a sociedade brasileira passou por profundas transformações com os avanços da ciência e da tecnologia projetando nos indivíduos comportamentos e entendimentos diferentes de costumes do passado.
                Apesar dos avanços, inclusive no campo político-institucional, o universo jurídico brasileiro permaneceu distanciado da realidade prática na psicologia do povo e preso ao império do conservadorismo pernicioso.
                Mantendo-se na contramão dos costumes modernos como um paradoxo explícito, permanece em pleno vigor na legislação brasileira um verdadeiro rosário de velharias ou expressões inúteis concebidas sem nenhuma relação com a índole do povo e desajustadas às ideias fundamentais à preservação de valores sociais da atualidade.
                Em pleno século XXI, infelizmente, ainda temos de conviver com leis, decretos e regulamentos feitos e adaptados aos usos e costumes de séculos passados, inalterados e intocáveis como as “cláusulas pétreas” das chamadas Constituições do Estado burguês de direito.
                Na própria legislação codificada, não obstante as recentes reformas introduzidas, permanecem em vigor diversas figuras jurídicas praticamente inúteis e desconhecidas como: herança jacente, anticrese, codicilos, servidão, álveo, aguestos, avulsão, vícios redibitórios, colações, nascituro, embargos infringentes, cartas testemunhais, homogação do penhor legal, avaria grossa e tantas outras nomenclaturas que, pelo desuso, a grande maioria dos indivíduos nada sabe sobre sua serventia.
                Sem falar numa infinidade de leis esparsas e pontuais, parece temerário supor que num país onde a Constituição garante a todos pleno acesso à informação e à Justiça, ainda se possa conviver com vulgaridades jurídicas incapazes de responder com urgência aos anseios da população.
                A julgar pelas aspirações predominantes clamando por uma prestação jurisdicional mais célere, torna-se cada vez mais imperiosa e justificável a necessidade de pôr fim a tantas excrescências permissivas da chicana e da protelação do processo judicial brasileiro.    

domingo, 5 de junho de 2016

Seleta Piauiense - Hermes Vieira


NORDESTE

(Introdução)

Hermes Vieira (1911 - 2000)

Meu Nordeste feiticeiro,

Morenão de brônzeo peito,

Genuíno brasileiro,

Eu me sinto satisfeito

Em ser filho de um teu filho

E no chão por onde trilho,

Que venero com respeito;


Meu Nordeste das moagens

Nos engenhos de madeira,

Dos açudes, das barragens,

Da lavoura rotineira,

Das desmanchas de mandioca,

Do foguete-de-taboca

Irmão gêmeo da ronqueira;


Meu Nordeste onde os velórios

São rezados no sertão,

E improvisam-se os casórios

(Sem juiz, sem capelão),

Os padrinhos e os compadres,

As madrinhas e as comadres,

Na fogueira de São João;


Meu Nordeste do bornal,

Rifle, bala e cartucheira,

Da "lombada" e do punhal,

da "garruncha" e da peixeira,

Do cacete e do facão,

Com que um cabra valentão

Desmantela festa e feira;


Meu Nordeste em rede armada

(De algodão ou de tucum),

Aguardando a maxixada

Com quiabo e jerimum,

Mel, canjica e milho assado,

Feijão verde e arroz torrado,

Na semana de jejum;



Meu Nordeste a boi de carro...

Carro-de-boi do Nordeste,

Tosco, humilde, simples, charro,

Submisso e a nada investe,

Que, arrastado estrada afora,

Range, grita, canta e chora

Ajoujado à canga agreste;

sábado, 4 de junho de 2016

A vingança de Nabucodonosor


A vingança de Nabucodonosor

José Pedro Araújo

Nabucodonosor não era uma ave igual às outras, seu dono pôde verificar isso desde o início quando ele chegou por ali, adquirido em uma feira da capital. Pequeno ainda – e plumagem tingida de azul para agradar à meninada - já se mostrava cheio daqueles costumes somente vistos nos seres superiores, inigualáveis, naqueles que vieram predeterminados a não se comportar como o grosso dos da sua espécie. E ele procedia sempre assim, empinado, orgulhoso, pescoço em riste, desconfiado com o ser humano que adentrava no seu espaço para trazer-lhe comida ou agrados.

“Esse bicho é diferente dos outros”, pensou o homem logo que o viu assim, com aquele jeito afetado, mantendo-se à distância e comportando-se como um nobre, munido daquela pose altiva. Foi adquirido mesmo assim. Não para fazer às vezes de brinquedo para crianças. Foi adquirido porque era diferente.

Ganhou logo o nome do Rei da Babilônia, Nabucodonosor. Entre os doze de sua espécie que vieram habitar o quintal da casa, era um dos três machos. As outras nove fêmeas, à medida que o tempo ia passando, cercavam-no de cuidados cada vez maiores o que não tardou a despertar ciúmes nos outros dois companheiros de sexo. Esse sentimento foi passando de um simples desconforto inicial, para uma grande aversão, culminando com uma disputa tão acirrada por espaço que chegou ao extremo da violência física. E nesses momentos, ele mostrou que era realmente diferente, batendo, em sequência, seus dois contendores. Surrou-lhes tanto que ganhou da parte deles uma reverência total, inconteste. Passaram estes da qualidade de opositores, para a de fieis escudeiros.

            Mas o destino das aves emplumadas da sua espécie é sempre fazer parte de algum banquete, na qualidade de repasto para os presentes, não na de convidado. E assim acontecia sempre que o dono do galinheiro encontrava alguma razão para mudar um pouco o cardápio. E esse destino negro fez com que, paulatinamente, seus pares fossem sendo eliminados um a um, quando chegaram à fase adulta. Só sobrou ele. 

Nesse período, já era uma ave de porte avantajado, belíssimo na sua vestimenta de penas brancas, e mais compenetrando ainda. Não se deixou abater pela perda de seus vassalos. Contrariamente, mostrava-se cada vez mais arredio, arrogante, avesso a qualquer aproximação com o pessoal da casa. O chefe da família, que o observava desde o início, e o admirava, apesar da esnobação de Nabucodonosor, era o seu grande defensor, e não permitia que ele tivesse o mesmo fim de seus companheiros.

- O quê esse galo tem de tão importante que você não permite que o levemos à panela, homem!? – indagava a mulher cada vez que era impedida de lançar mão no bicho, transformando-o em uma gostosa iguaria.

- Então você não está vendo, mulher! Ele é o nosso grande Nabucodonosor, o rei desses quintais – respondia orgulhoso.

- E para que nós precisamos de um rei no nosso quintal? – irritava-se a mulher.

- Para alegrar as nossas madrugadas com o seu canto eterno. Lembra-me minha infância na roça, quando eu acordava à noite para ouvir o canto desses bichos. Era uma festa. Um cantava perto, outro respondia mais distante, outro mais distante ainda, até não se ouvir mais nada. E ai o primeiro começava tudo novamente! Esse aí traz o sertão para dentro da minha casa aqui na cidade. – Respondia orgulhoso e saudoso o homem.

A conversa terminava sempre assim, e Nabucodonosor ia sempre escapando de ter o seu pescoço decapitado.

Não se sabe se por desconhecimento desse assédio cada vez maior, ou se por conta da sua herança nobiliárquica, o certo é que o bicho mostrava-se cada vez mais compenetrado e refratário à aproximação com o pessoal da casa. Nem mesmo o seu grande defensor era tratado de maneira diferente, e isso só fazia aumentar o número dos que lutavam pela causa da sua extinção pura e simples; queriam vê-lo convenientemente servido em postas no almoço de Domingo.

Mas, estranhamente, seu defensor arguia com ardor sempre maior, lutando pela sua salvação. Uma coisa que não conseguiu, contudo, foi livrá-lo do cativeiro atroz. Passou o seu “rei” a viver aprisionado, amarrado pelos pés para evitar que atacasse as pessoas que por ventura adentrasse ao quintal. Território Nabucodonosor já considerava como seu reino indevassável.

Não se sabe se pelo fato de ter sido mantido em cativeiro, o certo é que o bicho passou a se mostrar um pouco mais dócil. Não sabiam que isso era fruto do amadurecimento dele, da sua esperteza. O fato é que Nabucodonosor ganhou mais liberdade, recebeu permissão para se deslocar pelo quintal livremente, e seu canto melhorou sensivelmente, voltando ao nível melódico de quando estava ainda com o seu séquito intacto. Nos últimos tempos, sua ode lhe saía triste, tremido, e sem força, quase não ultrapassava os limites do próprio quintal. Agora não, soltava seus solfejos pelos ares qual um menestrel medieval, numa tentativa de agradar a sua amada enclausurada nas alturas da torre de um castelo fictício.

E seu território foi se expandindo, se expandindo, já podia até andar pelo gramado da frente da casa. E nesses momentos, espiava interessadamente para a rua, observando o vai-e-vem das pessoas e dos automóveis que se movimentavam livremente.

Certo dia arriscou uma subida na mureta baixa que protegia a casa da rua propriamente dita. Gostou de ficar ali em cima, em um ponto de observação acima do nível do solo, mas sempre voltava para dentro, para o seu quintal. Até mesmo a dona da casa passou da desconfiança estremada a um estágio de tolerância sob vigilância. O preço de uma bicada que o galo aplicara na sua caçula, estava lhe custando muito caro ainda, precisaria de muito tempo para que fosse esquecida.

Mas Nabucodonosor possuía o sangue quente dos guerreiros conquistadores, e não tolerava quem o confrontasse com brincadeiras fora de hora ou mesmo com gracinhas que considerava carregadas de pejoração. Essa assertiva foi confirmada pelo menino Bruno, um vizinho que morava em uma casa próxima ao território de Nabucodonosor. Garoto brincalhão, o garoto estava ai pelos seis anos de idade, no auge da sua curiosidade, e por isso mesmo explorava as cercanias de sua residência, sempre sob os olhos cuidadosos da mãe. Nesse dia, estava Nabucodonosor empoleirado em seu ponto preferido de observação, sobre o muro, quando Bruno se aproximou acompanhado por Andrey, um garoto um pouco mais novo, mas extremamente curioso também. Vinham subindo a rua, brincando, espantando os besouros e borboletas que pousavam sobre as flores dos imensos jardins que enfeitavam as largas calçadas.

Um pouco mais abaixo, conversavam com o dono do galo à sombra de um frondoso ficus, seu pai, o pai do menino Andrey e o avô deles dois, pois eram primos. Por isso, de onde se encontravam, os homens procuravam não perder as duas crianças de vista.

Quando já estavam próximos do lugar aonde o galo se encontrava no seu ponto de observação, cerca de uns cinqüenta metros de distância da sua casa, Bruno chamou a atenção do primo.

- Olha ali, Andrey. Que galo bonito!

A ave não se mexeu. Continuou lá, altivo, sem demonstrar o mínimo interesse pelos observadores que se aproximavam solícitos dele. Depois de admirá-lo por um bom tempo, Bruno resolveu mexer com o galináceo e começou a jogar-lhe alguns seixos que trazia nas mãos, no que foi acompanhado por Andrey.  Os meninos arremessavam as pedrinhas e riam gostosamente com a reação que o galo tinha agora. Nabucodonosor, para não ser atingido, pulava de um lado para o outro, abrindo as poderosas asas para se equilibrar sobre o muro. E isso serviu de estimulo aos dois garotos que se aproximaram mais para conseguir acertá-lo em cheio.

O que era brincadeira para os meninos, passou a ser encarada pelo galo como um acinte, uma agressão despropositada contra seus direitos à tranqüilidade. E ele, que não admitia nenhum desrespeito à sua condição de nobre na sua espécie, começou a indignar-se e a perder o autocontrole. E foi então que, abrindo as asas até ao limite, lançou-se no espaço em direção aos garotos.

Foi um vôo curto, mas parecia um Condor que se lançava do alto de um penhasco para o espaço infinito. As garras afiadas, e os esporões amoladíssimos estavam prontos para atingir dolorosamente a quem o estava molestando naquele momento.

Quando os meninos viram o salto majestoso de Nabucodonosor em direção a eles, partiram em desabalada carreira rua abaixo. Tentavam chegar até ao local em que estravam seus parentes. E Nabucodonosor, cada vez mais furioso, corria atrás deles com velocidade crescente. As asas agora abertas lhe davam um aspecto de uma aeronave que tentava levantar vôo sem, contudo, conseguir sair do solo. Saltitava, na verdade, na tentativa de voar, pois acabava voltando ao solo. Mas se não conseguia voar, empreendia uma velocidade grande, incerta, é verdade, mas crescentemente perigosa para os dois guris.

Bruno olhou para trás, e o que viu o deixou apavorado, razão pela qual soltou um grito de terror que ecoou pela rua inteira. Andrey, um pouco menor que o primo, estava ficando para trás na longa carreira que empreendiam, ficando à mercê do galo. Também já vinha gritando a plenos pulmões, completamente aterrorizado com o que adivinhava está prestes a acontecer.

Mas o galo, cheio de ódio e com gana de atacar dolorosamente a quem ele achava que o tinha destratado, emparelhou com Andrey e, sem nem ao menos olhar para ele, o ultrapassou na corrida. As asas que não conseguiam fazer com que aquela ave pesada alçasse voo, elevavam-no do solo por pequeníssimos instantes, e depois depositavam-no novamente sobre a calçada, mostrando, na verdade, que ele se deslocava aos pulos. Tal fato conferia ao bicho um aspecto aterrorizante, e ele já se encontrava próximo ao menino que considerava o seu verdadeiro inimigo.

De onde estavam os homens ouviram os gritos dos meninos e, ao observarem para saber a razão de tamanho alarido, ficaram preocupados com a cena dantesca que avistaram, e com a iminente agressão que se prenunciava. Nabucodonosor já estava quase alcançando o menino Bruno que, já sem forças, corria desequilibrado, quase flutuando, mantendo-se a muito custo de pé, sem cair ao chão. Os braços abertos do guri, tal qual as asas de Nabucodonosor, era o que o mantinha ainda em posição vertical, de pé.

Mais rápido que os demais, o pai de Andrey correu em socorro dos meninos e ainda teve tempo de amparar Bruno nos braços antes que ele caísse desfalecido e fosse atacado pelo feroz bípede.

Nabucodonosor não se intimidou, contudo. Estava já tomado por um furor animal que o fez atacar o garoto, e também quem o amparava. Os outros homens, vendo que a situação estava passando de crítica, atacaram o galo a pesadas tentando afastá-lo de sua pretensa presa. A muito custo fizeram com que ele refluísse do seu intento e voltasse para o seu território.

Passado o susto, com o garoto Andrey já devidamente sob os cuidados dos parentes, os salvadores caíram em estrepitosa gargalhada. Quanto aos garotos, continuavam em estado de terror absoluto, com os olhos quase a saltar das órbitas.

Os homens riram por um bom período até não conseguirem suportar o incômodo na barriga. Um pouco aliviados, e outro tanto admirados com a valentia daquele animal que não demonstrara, em momento algum, receio pela presença deles, recolheram os dois meninos à segurança do lar.

Todavia, esse incidente quase teve resultados catastróficos para o nobre Nabucodonosor. Preocupados em manter a política da boa vizinhança, e com receio de que o reizinho viesse a atacar outras crianças, decidiram sacrificar o belo galo.

Mais uma vez seu protetor entrou em ação para salvá-lo do banquete do qual ele não tinha o menor interesse de participar. E, em nome da diplomacia e da boa política, decidiu agir. Na noite que antecedeu ao previsto banquete, o galo foi sorrateiramente retirado de lá, e levado, às escondidas, para o sítio de um amigo que possuía um mini zoológico com várias espécies de animais e aves, muitas da mesma espécie de Nabucodonosor. Lá o fugitivo se encontrou com belas companheiras originadas de muitos países, como a inglesa Bianca Leghorn, as americanas  Mimi Rhode Island Red,  Angel New Hampshire e  Desirée Plymouth Rock Barradas, entre outras, todas logo incorporadas ao seu novo séquito real. Para isto, não encontrou muitas dificuldades, pois os espécimes masculinos que antes reinavam no terreiro, foram vencidos um a um e passaram a fazer parte da sua corte, servindo-o e adotando-o como novo e verdadeiro líder. Chegara novo rei ao pedaço.


Até que Nabucodonosor gostava de suas novas pretendentes. Eram belas e educadas, de fina estirpe e o tratavam com carinho e devoção. Mas, apaixonar-se mesmo, só aconteceu com uma: a bela Gail White América, de andar gingado e orgulho nas alturas. Portadora essa índole também real, fazia questão de não acompanhar as outras amigas quando o assunto era bajular o recém-chegado rei do pedaço. E esta talvez tenha sido a razão para ela ter sido escolhida para rainha. A mais bela e inteligente rainha que se conheceu por aquelas terras em uma centena de anos. Quanto a Nabucodonosor, viveu feliz por muitos e longos anos e deixou numerosa prole que hoje se espalha por vários reinados onde ocupam os mais importantes cargos na realeza.