terça-feira, 5 de julho de 2016

Lançamento da Coleção Florianenses



Conforme convite acima, no próximo dia 8 de julho, às 19 horas, no Salão de Eventos do Garoto Park Hotel (Avenida Dirceu Arcoverde - Anel Viário), na cidade de Floriano, será lançada a Coleção Florianenses - nº 5, editada pela Fundação Floriano Clube.

Sobre esta importante obra, escrevemos o seguinte texto, que se encontra estampado na sua contracapa:

            A Coleção Florianenses, já em seu quinto número, editada pela Fundação Floriano Clube e sendo sua organização capitaneada por Cristóvão Augusto Soares de Araújo Costa, pode ser considerada um misto de revista, anuário e almanaque, pela diversidade de autores e matérias, algumas pequenas, outras com características de verdadeiros ensaios biográficos. Versam diferentes temáticas, mas todas relacionadas a Floriano. Quase todos os textos são ricamente ilustrados por fotografias, que os documentam, tomando, algumas vezes, o status de ensaio ou reportagem fotográfica. Neste número (cito apenas como exemplo), há uma sequência delas sobre velhos carnavais e folguedos juninos, que nos fornecem a nítida imagem de costumes e sociabilidades de outrora, quase sempre singelos e mesmo ingênuos.

            Os perfis biográficos, alguns longos e profundos, em que o caráter e o ideário do biografado são fixados, retratam não só florianenses ilustres, mas também notáveis piauienses e brasileiros, que lhe prestaram bons e inestimáveis serviços, como o barrense Raimundo Artur de Vasconcelos, signatário da lei que elevou a povoação à categoria de cidade. Entretanto, não apenas as figuras proeminentes da história oficial são objetos desses estudos, mas também pessoas humildes, que fizeram ou fazem parte da paisagem humana da comunidade; nessa seara figuram profissionais liberais, mestres dos mais diversos ofícios, artesãos, artistas, poetas e intelectuais, além daqueles que se celebrizaram como figuras ditas folclóricas, pelos episódios engraçados, jocosos de que foram protagonistas, mercê de sua verve ou de seu espírito brincalhão.

            A coletânea, logo em suas páginas iniciais, registra as “Curiosidades Florianenses”, tanto através de textos, como de anúncios publicitários e “santinhos”, todos fac-similados, para que o leitor possa ter noção de uma época sem internet, sem redes sociais, em que o tempo parecia escoar com maior lentidão. Nas páginas finais, sob o título de “Verdades, boatos e mentiras contadas na barbearia do Zé Venâncio e no bar do Sinhozinho”, foram relatados os “causos” e as façanhas pitorescas e hilárias de pescadores, caçadores, boêmios, cachaceiros e outros mentirosos e fanfarrões, todos integrantes e enriquecedores da mais legítima fauna folclórica florianense.

            Na capa de todas as edições aparece, de forma emblemática e simbólica, a porta principal do Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, que originou Floriano. Pode-se dizer que ela é o portal por onde entrou, fulgurante em sua glória, a Princesa do Sul. É o seu pórtico inaugural e o seu Arco do Triunfo.

Elmar Carvalho
Das Academias Piauiense e Florianense de Letras    

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O MINC E OS OPORTUNISTAS


O MINC   E  OS   OPORTUNISTAS

 José Ribamar Garcia
         
                  O Ministério da Cultura (Minc) surgiu em 1985, no governo  do sr.  José Sarney. Antes, as atribuições dessa pasta eram da competência do Ministério da Educação, que se chamava Ministério da Educação e Cultura (Mec). A ele, Minc, coube a responsabilidade pelas letras, artes, folclore e outras formas de expressão da cultura nacional, bem como pelo patrimônio histórico, arqueológico, artístico e cultural do País.    

                   Esse desmembramento, essa retirada de uma costela do Ministério da Educação e Cultura para criação de outro ministério, segundo Fernando Gabeira foi resultado de muitos esforços, a fim de "recolher e preservar nosso patrimônio artístico  e histórico". No entanto, esse propósito acabou sendo desviado e corrompido pelos  desgovernos do lulopetismo, que transformaram o Minc num lupanário. Tal a farra de distribuição de cargos e sinecuras entre  petistas e seus apaniguados. Além da concessão de verbas, bolsas, prêmios e  viagens ao exterior com hospedagens em hotéis de luxo aos  artistas e intelectuais amiguinhos. Houve até um ministro cantor, que passava mais tempo fora do ministério, cuidando de sua cantoria e excursionando pela África, mas  no final do mês, recebia seus vencimentos integralmente.  

                   Daí a reação desses artistas e intelectuais à fusão  do Ministério da Cultura com o Ministério da Educação. Ou melhor: da substituição do ministério por uma Secretaria Cultural, com a mesma competência, as mesmas funções, atividades e   finalidades, porém, vinculada ao Ministério da Educação.

                    Diga-se, reação de uma minoria corporativista e patrimonialista, agindo   em causa própria. Gente que não está nem aí para a cultura, e sim, para defender seus interesses. Tanto que nunca reagiu  contra o abandono de nossos museus nem de nossas bibliotecas. Como é o caso, entre outros, do Museu do Índio,  desativado e em ruínas. Do Museu Nacional de História Natural da Quinta da Boa Vista, fechado e sem perspectiva de reabertura. Também do Museu do Homem Americano, na Serra da Capivara, no Piauí, que, sem verbas, ainda não fechou, graças à imbatível cientista Niéde Guidon. A Biblioteca Nacional, a cada chuva, perde centenas de livros raros por causa das goteiras e com uma obra paralisada há mais de ano. Tudo isso de conhecimento público. E nunca mereceu desses intelectuais e artistas um mero protesto. Como disse Merval Pereira, também não se insurgiram contra "a lista de salários astronômicos pagos pela estatal Empresa Brasil de Comunicação (EBC), falida e sem audiência". E finaliza o ilustre e destemido articulista do jornal "O Globo": " Talvez explique a gana com que defendem um governo criminoso". 
             

                 Essa gente está acostumada a fazer cinema, teatro e publicações de  livros à custa do Estado. Assim é fácil. Ora, que faça às suas expensas e vá disputar o mercado. Se a obra for boa terá espectador. Se não tiver, como normalmente acontece, é porque realizou uma porcaria. O que não é justo e decente  é a utilização do dinheiro público  para suas aventuras.   

                 Cinema não é para oportunistas, espertalhões, incompetentes, ou canastrões. Disse certa produtora -  uma das beneficiadas - que  "a indústria criativa não pode ser tratada como coisa de vagabundos", referindo-se a substituição do Minc pela Secretaria  Cultural. Ora, se ela se julga industrial que  proceda como tal  e aplique os próprios recursos nos seus projetos, e vá competir no mercado. Só que isso exige  competência e, sobretudo trabalho, o que não é o seu forte - nem o de seus colegas.

             Anselmo Duarte, por exemplo, realizou o filme "O Pagador de Promessa" com dinheiro do próprio bolso, sem qualquer ajuda oficial e arrebatou a Palma de Ouro, no festival de  Cannes. Fato exclusivo, que até hoje a tal "indústria criativa" não conseguiu repetir, apesar de todo apoio governamental.
      
           José Ribamar Garcia - Membro da Academia Piauiense de Letras - E mail: jrg@jrgadvogados. com.br   

domingo, 3 de julho de 2016

O Natal


O Natal

Newton de Freitas (1920 – 1940)

Senhor!  No teu Natal tanta ventura,
tantos sorrisos, tantas esperanças,
e eu cansado e sozinho,
sentindo tanta mágoa em meu Natal?
Senhor, no teu Natal tanta alegria,
e eu sem fé, sem vontade de viver?
Ah! Meus dez anos de ilusão tão bons,
o tempo em que eu beijava a borda dos presepes
e sorria feliz, contemplando os pastores! 
Senhor!  No teu Natal tanta ventura
e eu pensando em saudade e eu sentindo amargura!      

sábado, 2 de julho de 2016

Universo na ponta de uma agulha


Universo na ponta de uma agulha 
(tema oportuno para levar aos jovens)

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Minha neta Luizinha já se surpreende com os mistérios das coisas minúsculas, quase invisíveis. Correu para me mostrar uma florzinha branca, miudinha que um grão de arroz, colhida na beira da calçada: “Vô, olha que coisinha tão linda!” E aí me acendeu a crônica.

         Luizinha, só quatro aninhos, ainda não sabe o significado da palavra NANICO ou ANÃO, termos tão familiares ao cotidiano. Ou de seres e coisas infinitamente miúdas como caroço de arroz, moléculas e átomos, um mundo de infinitos mistérios quanto o universo sideral.

Luizinha vai demorar anos de estudos para entender a etimologia do radical grego, NANNOS, que, a partir de 1959, gerou o neologismo pouco conhecido, NANOTECNOLOGIA. A garotada, mesmo desconhecendo fascinantes princípios e descobertas, já desfruta, até mais que muitos adultos, os benefícios da NANOTECNOLOGIA. Basta observá-los manuseando computador, pendrive ou crivando um chip no celular.

O termo NANOTECNOLOGIA foi adotado 1974, na Universidade Científica de Tóquio, quando cientistas pesquisavam instrumentos tão minúsculos quanto promissores. Para entender um pouco desses mistérios científicos, basta olhar a evolução das gravações musicais: há 60 anos, botava-se um disco de cera, 78 rotações, na vitrola, que só concentrava uma música de cada lado, com imperfeições e ruídos. Final dos anos 50, a revolução do disco de vinil, 33 rotações, som estéreo, seis músicas de cada lado. De 2000 para cá, o nanico pendrive arquiva centenas de músicas ou uma biblioteca de toda a literatura brasileira. E lembrar que tudo começou com a ciência espacial: quando o homem pisou na Lua, o computador da Nasa ocupava uma sala inteira.

 A NANOTECNOLOGIA é como reduzir a Lua numa moeda. A vida por um chip vasculhando nossas esferas cerebrais, coração, primeiras batidas cardíacas no útero. Aparelhos médicos sofisticados para detectar doenças mais estranhas, que outra exame não corresponderia.

A florzinha encanta a Luizinha, com razões que a vã ciência nanotecnológica está a anos luz de descobrir. Porque os gênios se acham mais inteligentes que a inteligência divina. Nem precisa olhar pros céus, se na ponda do nariz existe um mistério. Basta observar o salto de uma pulga: enquanto atletas conquistam glórias e ouro com salto de três ou quatro metros, a pulga salta centenas de vezes seu peso e altura. A formiga carrega uma presa dezenas de vezes mais pesada, e  o homem se esfola para levantar uma barra de ferro de seu peso. A formiguinha vem de longe, sobe a perna da mesa e descobre partículas de alimento, por faro inimaginável nos humanos.

Confesso que não me seduzo com os assombros científicos, mesmo em minúsculas nanografias. Parece-me que quanto mais nos entupimos de remédios ou nos armamos de aparelhos, falta-nos a inocência e sabedoria de Luizinha: “Vô, olha que coisinha tão linda!” O reino dos céus começa por uma florzinha ou uma semente de mostarda. Não existe maior milagre do que a fé, “a certeza na esperança do impossível acontecer” – não é, Paulo apóstolo?    

sexta-feira, 1 de julho de 2016

ALGUNS AUTORES SÓ QUEREM ELOGIOS, NÃO A CRÍTICA


ALGUNS AUTORES SÓ QUEREM ELOGIOS, NÃO A CRÍTICA

Cunha  e Silva Filho

         O locus da crítica literária pelo menos do país  anda um tanto  cabisbaixo. Longe está dos antigos rodapés impressionistas, alguns até de grandes  méritos, dos anos ferozes de  1930, 1940, 1950, até princípios dos anos 1960. São muitos os nomes, mas os mais conhecidos e afamados eram os de Agripino Grieco (em atividade  crítica mais remota), Tristão de Athayde, Álvaro Lins,  Sérgio Buarque de Hollanda, Antonio Candido,  entre muitos outros bons leitores e analistas  da obra literária.
       Veio, então,  o crítico Afrânio Coutinho, nos anos  1940, trazendo dos Estados Unidos, onde estudara,  novidades e promessas de mudanças nos velhos hábitos  críticos, procurando  implantar entre nós o resultado de seus estudos, naquele país, sobretudo, na Universidade de Colúmbia,  de teoria literária, história  literária e crítica literária, tendo como mestres, entre outros, René Welleck e Austin Warren,  Roman  Jakobson (este  da corrente   formalista  russa), entre outros  autores do new criticism  norte-americano.
         A mudança que  Coutinho desejava para os estudos  literários e críticos  resumia-se no que denominava de Nova Crítica, uma abordagem adaptada por ele, aos avanços da crítica  literária, a qual tinha como seu primado na apreciação, análise e interpretação do  fenômeno  literário os valores estéticos  do texto, ou melhor, os valores intrínsecos, o seu aspecto formal, mobilizando para a crítica a contribuição  dos elementos  constitutivos da literatura ao contrário do Impressionismo, pensamento crítico mais alicerçado no gosto estético, na cultura geral, na impressão  provocada no crítico pela obra literária.
           O alvo mais premente da Nova Crítica seria desalojar  o Impressionismo muito forte ainda na vida intelectual  brasileira e que tinha como sua figura-chave o crítico Álvaro Lins, chamado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade de o “Imperador  da Crítica.”
         O  Impressionismo  se impregnava  da subjetividade do crítico. Interessava-lhe a questão do gosto estético e as causas e consequências de fatores  extrínsecos (psicológicos, filosóficos,sociológico, históricos, personalidade literária do crítico).
          O veículo com que contava, então, o crítico  impressionista era o jornal, através de uma coluna a  que chamavam  de rodapé e, daí, crítica de rodapé. Álvaro Lins era a figura mais incensada nos anos 1940 e 1950, sobretudo.
           Coutinho se opunha a esse tipo de crítica que analisava livros no calor da hora, quer dizer,  as obras que eram lançadas se tornavam logo objeto dos críticos impressionistas em publicações semanais. Para Coutinho, que contraditoriamente,  usava o rodapé de jornais,  esse tipo de crítica não passava do que na América se chamada de review. Para ele,  a crítica  literária  teria que ser feita em outros espaços, o livro,   a cátedra, a monografia, a dissertação,   a tese na universidade. Por outras palavras,  Coutinho opunha a crítica de rodapé à crítica universitária.Ele próprio alegava que a análise de uma obra pressupunha maior tempo,  maior  pesquisa,  bibliografia,   método crítico, antiamadorismo.
          Decerto Coutinho travou uma batalha sem trégua contra o Impressionismo.Daí ter mantido uma “briga feia” com Álvaro Lins. Houve exageros de ambas as partes. A crítica de rodapé, nas mãos de um  grande crítico, como foi o caso de Lins, teve acentuada  aceitação. Lins era muito conhecido e respeitado  pelos seus pares.  Era  crítico  exigente e polêmico. Além disso,   fora  também  professor catedrático de literatura do  Colégio Pedro II e, mais tarde,  lecionou  na Universidade de Lisboa e exercia o seu ofício  com muita  vitalidade, com muita consciência  atual   da obra literária. 
        Fundamentado nas leituras profundas dos  grandes críticos franceses, como Saint-Beuve, Anatole France,  e, depois,  familiarizado-se com a crítica anglo-americana, Lins  permaneceu sempre atento  ao que se produziu nos grandes centros  do mundo  em matéria  de crítica  e de autores de renome. Não foi, pois, um crítico  impressionista à la lettre. Se não fosse pela morte prematura,  seguramente  se enquadraria   numa das correntes  modernas do pensamento crítico ocidental.Sua produção, nos últimos anos de atividade  crítica em livro,  sinalizava  mudanças  e renovação  de suas ideias sobre literatura e abordagens críticas..
           Coutinho, tal como Lins,  primeiro foi  professor de literatura do Colégio Pedro II, em seguida,  alçou-se à cátedra universitária,  tornando-se   professor titular de Literatura Brasileira  da antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, depois chamada Universidade Federal do Rio de Janeiro.
        Sua atividade de crítico,  depois combinada  com a de historiador literário, foi fecunda e podemos afirmar  que foi a ele que devemos hoje os avanços  nos estudos literários    sob  enfoques modernos,  a introdução da disciplinas teoria literária, a atualização  da crítica  literária e da historiografia literária. Foi, pois, um renovador  desses estudos  no país  nos níveis médio e universitário.
      Tendo neste artigo feito uma   digressão histórica num recorte e exposição  bastante esquemáticos, quase de passagem, de duas correntes do pensamento  crítico  do passado mais recente, devo  chamar a atenção para um novo  e ao mesmo  tempo  velho problema com que se defronta quem  se atreve  ainda ao exercício da crítica  literária  atualmente.
        De resto, em obra (ver Literatura nos jornais: a crítica literária dos rodapé às resenhas. São Paulo: Summus,  2007)   de  pouca extensão mas de profunda   reflexão, a ensaísta,  Cláudia Nina discute essa questão da antiga review e da sua correspondente hoje resenha literária em jornais, observando ela que o antigo  tom  polêmico  na crítica arrefeceu drasticamente.
        Ora,  tentando  explicitar  as palavras dela, o que está acontecendo é a ausência, nas resenhas críticas, da contribuição  do papel do julgador, no sentido  de seriedade de analista e crítico  de uma obra,  o qual  hoje apenas  faz sua resenha (evidentemente há exceções) de maneira a não se ater aos pontos fracos e falhos de uma livro, dando-nos  a impressão de que  todos  escrevem obras boas, seja na ficção, seja na poesia especificamente.
        O  velho Lins (empregado o termo "velho" no sentido do tempo histórico decorrido),  numa passagem de um de seus livros, afirmou: “[...] o ato de  tudo  aceitar  como de tudo negar,  não é um ato  de crítica.  É um ato de positiva  ou negativa apologia, e só  [....].”  Pelo que se está  vendo nos dias que correm, o que se lê, nas seções de literatura dos jornais em geral,  não é crítica. Quase só elogios.

      Diante de todos esses  empecilhos,  travam a atividade da  crítica literária. Houve já  alguns casos em nossa  história literária recente  de críticos  militantes desistirem, passados alguns anos nessa  atividade.  Confesso, sem medo do juízo alheio, que às vezes me dá vontade de seguir esses  desistentes e me ocupar com  outras  coisas do espírito.   

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Histórias de Évora - Capítulo XII


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XII   

Confissões (1)

Elmar Carvalho

Marcos e Fabrício combinaram se encontrar no bar e mercearia do Zé Afonso naquele sábado, por volta das sete da noite. Tomariam umas talagadas de calibrina no Cantinho dos Inocentes, e depois se deslocariam para a Praça Lucas Mendes Furtado, no centro da cidade, onde tentariam fisgar alguma garota na tertúlia dançante do Évora Clube.

Quando Marcos chegou, estavam no local alguns conhecidos, alunos do Liceu. Entre eles se encontravam Milton Ferreira, sempre risonho, alegre, brincalhão, e Cláudio Bastos, meio fechado, sem senso de humor e um tanto antipático. Este último tinha a má fama de derramar a bebida, dissimuladamente, após fingir bebê-la, para posar de resistente e até para debochar dos colegas que por ventura ficassem embriagados. Marcos considerava esse tipo de atitude um defeito grave, uma grande deslealdade e sinal de mau caráter. Quando os rapazes se despediram, jovial e bem humorado, disse:
– Grande Milton, você é um verdadeiro pai-d’égua, um legítimo cavalo batizado.
– Cavalo batizado não, gigante; eu ando batizando os cavalos – retrucou o outro, a gargalhar, com a sua esfuziante e ruidosa simpatia. Marcos não se deixou abater, e respondeu em cima da bucha:
– Pois corre, vai buscar água, e batiza primeiro a ti próprio, porque você é o mais cavalo de todos nós.
– Marcão, rapaz, você não tem jeito mesmo... Não quer perder nenhuma parada – disse Milton, a balançar a cabeça, retirando-se com seus amigos, por entre ruidosas gargalhadas e feliz algazarra. 

Enquanto aguardava a chegada de Fabrício, Marcos foi se sentar numa das cadeiras do Cantinho dos Inocentes. Um homem desconhecido, que se encontrava no local, de aparentemente 58 anos de idade, perguntou a Marcos se poderia ocupar uma das cadeiras da mesa, tendo o rapaz respondido que sim.

O homem trouxe um litro de uísque, que colocou sobre a mesa. Parecia estar já um tanto tocado pelo álcool. Perguntou se o rapaz não lhe desejava fazer companhia na bebida, não tendo Marcos se feito de rogado. Logo chegou Fabrício, que virou de imediato um generoso trago, para compensar o pequeno atraso.

O homem disse se chamar Pedro Pinto Pereira, mas que os amigos, por brincadeira, muitas vezes o chamavam de PPP. Parecia ansioso, com vontade de conversar, como se algo o afligisse.
– Sou tenente reformado do Exército. Não sou daqui. Sou carioca. Mas fui amigo de um colega desta cidade, que me falava tão bem daqui, com tanto entusiasmo, que resolvi, ao me tornar inativo, vir morar em Évora. Estou gostando muito da cidade e aqui pretendo refazer minha vida até a chegada da velha ceifadeira, que já deve andar me rondando. Não tenho filhos e faz uns dez meses que me separei de minha mulher, após um casamento de mais de trinta anos, por motivo que tenho até vergonha em revelar.

Contudo, algumas doses depois, após promessa dos rapazes de que guardariam sigilo de sua conversa, resolveu contar os motivos que o levaram à separação. Contou uma longa história, por sinal um tanto estranha e escabrosa, cheia de detalhes, que segue aqui resumida e sem muitos pormenores.     

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Família Léda e o Domínio dos Sertões


A Família Léda e o Domínio dos Sertões

José Pedro Araújo
Historiador, cronista e romancista

Pela importância histórica que o clã dos Léda tem na política local, peço licença aos meus dois ou três leitores para regredir um pouco na história e levantar a sua vida pregressa. Tudo isso porque a família objeto deste sucinto e despretensioso texto teve três representantes como principais mandatários do município: Ariston, Adilon e Antenor Léda. Ao mesmo tempo, interessa-nos saber um pouco mais sobre a origem dessa família, em razão das tensões políticas vividas desde os primórdios da nossa história.

Consta que a presença da família Léda no sul e centro sul do Maranhão se deu com a chegada do comerciante português Antônio Rodrigues de Miranda Léda à região. Ao casar-se com a jovem Leocádia, filha do comerciante paulista, radicado em Grajaú, Bento José Moreira, gerou a grande família Léda que se espalhou pelo Maranhão, além de outros estados brasileiros. Um dos filhos advindos dessa união foi Ana Léda, irmã do famoso Leão Léda, maior líder político de Porto da Chapada(como se chamava na época o município de Grajaú), chefe do partido liberal, que travou os maiores embates já registrados no sul do Maranhão, episódios que ficaram conhecidos para os historiadores como a “Questão do Grajaú”, ou a “Guerra do Léda”.

O sangue derramado nessas escaramuças políticas encharcou o chão do sul maranhense e escreveu uma página negra na nossa história. Entretanto, praticamente todos os historiadores marcam posição ao lado dos Léda, atribuindo a violência ao poder discricionário dos políticos assentados nos postos de comando na capital maranhense. Mas, isso é outra história, e não é nosso propósito tratar aqui nesse texto.

Voltando ao nosso objetivo, trataremos sobre Ana Léda, matriarca nascida no apagar das luzes do século XIX, gerada da união de Antônio Léda com Leocádia Moreira. Ana casou-se com Laurindo Pires de Araújo, e gerou numerosa família, entre estes, Antônio Pires Léda, pai dos três irmãos que viriam, muito mais tarde, tomar assento na cadeira de prefeito de nossa terra.

A região central do Maranhão, na qual se situava o Curador, última fronteira desbravada pelos bandeirantes que partiram de Pastos Bons para se estabelecer no sul e centro sul do estado, era uma região de difícil acesso, protegida por inúmeras tribos guerreiras e por uma floresta densa e, por isso mesmo, de difícil acesso. E essas dificuldades se viam aumentadas de forma drástica pela ausência de um dreno fluvial, um rio perene, que permitisse acessá-la com maior facilidade. Todos esses impedimentos acobertavam uma região de solo fertilíssimo, com excelente índice pluviométrico, e estrategicamente situada entre os rios Itapecuru e Mearim. Foi essa região de terras excelentes, incultas e devolutas que atraiu os irmãos Léda.

Ariston Arruda Léda, o mais velho, situou-se na região de abrangência do Curador, distante da sua sede, Barra do Corda, mais de cem quilômetros. Não no maior povoado da região, o Curador, mas escolheu para sua morada outra povoação, conhecida como Tuntum.

O sangue dos Léda que corria pelas veias de Ariston, continha aditivos próprios da família, o que sempre empurrava seus membros em direção à política partidária.  E Ariston não se fez de rogado. Logo no primeiro embate eleitoral no recém-criado município do Curador, em 19 janeiro de 1948, apresentou o seu nome para concorrer naquele pleito contra Virgulino Cirilo de Sousa, cidadão residente no povoado do Curador. Começava ali um dos períodos mais conturbados da nossa história. Depois de uma campanha difícil, na apuração dos votos dos 800 eleitores que compareceram às urnas, em pleito presidido pelo juiz Raul Porciúncula, o resultado encontrado gerou profundo debate, e os apontavam para uma vitória do adversário de Ariston. Deste modo, o resultado final só foi conhecido depois de passar pelo crivo do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão, que reconheceu Ariston Léda como vencedor. Não me cabe aqui emitir juízo de valor sobre o resultado real daquele pleito, como também dos outros que lhe sucederam. O que, naquele tempo reinava entre nós o “vitorinismo”, nome atribuído ao espaço de tempo em que comandou a política estadual o pernambucano Vitorino de Brito Freire.

Ariston Léda era um político sagaz, articulado, e devotava a maior parte do seu tempo ao mister. Para isto, era apoiado por forças poderosas em São Luís, a começar pelo seu cunhado, José Martins Dourado, deputado estadual. E coube a ele instalação da estrutura física e administrativa para viabilizar o funcionamento do novo município. Naqueles tempos as verbas públicas destinadas aos municípios eram irrisórias, o que mostra o quão difícil foi o início da caminhada. Como não se tinha ainda o Fundo de Participação dos Municípios, o ICMS, ou mesmos os tais fundos constitucionais, os repasses do SUS ou do Fundeb, entre eles, vivia-se à espera da boa vontade dos governadores para se conseguir algum repasse de dinheiro. Paralelo a isto, Ariston ainda lutava para criar um município novo, retirando do território do Curador, o seu maior naco. Quase 70% do território passaria a fazer parte do novo município. Mas, como afirma o historiador, professor e articulista do blog Bate Tuntum, Jean Carlos Gonçalves, a propósito de um depoimento colhido de um cidadão que vivenciou os problemas da época: “Enquanto os Serenos e os Gomes de Gouvêia travavam o embate pelo controle do poder, Ariston contratou secretamente um topógrafo em São Luís para percorrer e traçar as linhas limítrofes do mapa que viria constituir no território de Tuntum”.

Ninguém reclamou, pelo que se saiba, desta violência, menos ainda o prefeito de Presidente Dutra na época, que era seu aliado. E o seguinte, seu irmão.

No pleito para eleger o seu sucessor, a temperatura política aumentou ainda mais, ocasião em que foi eleito o comerciante José de Freitas Barros, tendo como vice-prefeito o senhor Gerson Sereno. E pela oposição concorria o agro-pecuarista Honorato Gomes de Gouvêia, que abandonara o seu grupo político pouco antes. Ariston elegeu-se vereador e assumiu a presidência da câmara municipal na sua segunda legislatura, e ainda elegeu-se vereador mais uma vez, para a terceira legislatura da câmara. Mas, este mandato ele deixou sem terminar, pois concorreu e ganhou as eleições municipais para prefeito do novo município de Tuntum, desmembrado do Curador. O conturbado período administrativo de Zeca Freitas vai ser relatado em outra crônica sobre a família Sereno.

Adilon Arruda Léda foi o segundo membro da família a tomar assento na cadeira de prefeito municipal do agora município de Presidente Dutra. E o terceiro prefeito eleito por sufrágio popular. Esse foi um período relativamente tranquilo para os moldes que a política local ia tomando. E em sendo assim, Adir Léda, como era conhecido, teve tempo para se dedicar mais à administração do município.

A construção de escolas, especialmente nos povoados maiores, como Angical e São José dos Basílios foi uma das metas alcançadas pelo prefeito, que ainda deixou para a posteridade uma das suas obras mais importantes, o Açude Grande do Crioli do Joviniano. Essa obra se revestiu de grande importância para aquela região já densamente ocupada, mas que não tinha um só rio permanente, e que, por isso mesmo, padecia de enorme falta do produto no período de estiagem.

Quando menino, visto que meu pai tinha relações estreitas com aquele povoado, e possuía uma filial do seu comércio ali, observei, sobretudo aos sábados, que uma quantidade imensa de lavadeiras que se deslocavam em suas montarias dos inúmeros povoados circundantes, para lavar a roupa da família no Açude Grande. A sua longa parede, transformava-se num tapete de cores diversas, em razão das roupas estendidas para quarar ou secar ao sol naqueles dias. Também nesse período teve início à construção de Brasília, o que provocou grande êxodo de presidutrenses para lá.

Antenor Arruda Léda foi o terceiro dos irmãos Léda a assumir os destinos do município querido. A família já se encontrava em franco declínio político, e a política local já estava sob o domínio do grupo de Valeriano Américo.

Antenor Léda foi eleito em uma grande composição política firmada entre as facções situacionista e da oposição. E foi esta a única vez em que isto aconteceu. Antenor, mostrando a sua boa relação com os grupos que normalmente se digladiavam na política local, foi candidato único e, naturalmente, eleito. Seu governo teve um período mais curto, com vistas à adequação do novo calendário eleitoral.
Antenor era coletor estadual e teve como vice-prefeito, o empresário Nelson Barros Falcão, primo deste escriba. Foi também mais um dos irmãos Léda, o terceiro, a assumir os destinos do município. Diferentemente das eleições anteriores, como só tínhamos um candidato, foi naturalmente uma eleição tranquila, apenas para se cumprir tabela.

Mas, mal começou a sua administração, os problemas com o grupo dos Américo de Oliveira começaram a aparecer, culminando com o rompimento pouco tempo depois. Como o prefeito perdeu apoio de um grupo de vereadores, as escaramuças políticas voltaram ao padrão anterior. Mesmo assim, no que pese a perda da paz para administrar o município, Antenor Léda proporcionou a realização de grandes obras e viu surgir no seu tempo de prefeito grandes ganhos para a região. Como a chegada do Banco do Brasil e da agência do regional INPS, por exemplo.


Todavia, a sua administração ficou marcada para sempre pela instalação de linhas telefônicas na cidade, e pela implantação do novo sistema elétrico que cobria todo o dia, abolindo o velho sistema com postes de madeira e o fornecimento de energia apenas durante uma parte da noite. Atrevo-me a dizer que começou ali o florescimento do comércio na região. Por conta disso, já era possível se ter uma geladeira elétrica em casa, mudando também o velho hábito da se tomar água apenas resfriada, coletada em potes de barro e jarras. O velho ferro de engomar a carvão também foi esquecido. Começava um novo tempo para as famílias presidutrenses.  

terça-feira, 28 de junho de 2016

Salgado Maranhão do Piauí


Salgado Maranhão do Piauí

José Maria Vasconcelos
josemaria001@hotmail.com

         Isto mesmo, do Piauí. Salgado no Maranhão, consagrado na Assembleia Legislativa do Piauí com título de cidadão. Adolescente, veio de Caxias, só de cuia e familiares, residir em Teresina, na Piçarra. Nas agruras da pobreza, aprendeu o exercício da poesia, virtudes, espiritualidade e amigos do bem. Admirado e benquisto na minha família.

Da Piçarra, se mandou pro Rio, onde seu talento despertou admiração de celebridades das letras e músicas. Cantores, como Zizi Possi (CAMINHO DO SOL, linda de morrer) gravam com letras de Salgado, generoso retorno financeiro. O poeta não se desgarra do torrão, conectado aos eventos e amigos locais. Hoje, consagrado no mundo, traduzido e estudado em universidades americanas, já na mira dos japoneses.

Para entender Salgado Maranhão, precisa conhecer algumas técnicas utilizadas na criação de um poema. Primeiramente, o poeta foge às mesmices frases do cotidiano. Arte não é só fazer, mas criar, diferenciar.  Lapidar a pedra bruta. Salgado perde tempão, dias para concluir um poema. Escolhe o tema, sai garimpando fontes históricas, paisagens, tipos e conflitos humanos. Elementos que servem apenas de pano de fundo para traduzir estados mentais, abstratos. Substantivos cuja substância escapa ao sensorial ao transcendente. Observe o poema abaixo, ESGRIMA, inspirado na arte marcial japonesa. Tente descobrir a mensagem embutida nos elementos associados à técnica de combate, até morrer. Reuni estrofes para economia de espaço:

“Foi no escudo de aço em alta têmpera/que Musashi forjou a sua esgrima,/removo agora a poeira dessa era/que a espada se confunde com a sina,/que o samurai ao despertar a morte,/vai de encontro à sua própria rima)./ Colhendo os anos ao sabor da sorte,/ aos treze, racha o crânio de um rival;/foi o carimbo de seu passaporte./ para o caminho do risco integral:/ o Bushido, a katana, o sangue em flor,/sob o clamor de um céu medieval!/Eram combates de um certo esplendor,/de cortes limpos, quase sem fratura,/para alcançar a perfeição da dor./pois esse deus de fogo e de loucura,/em cuja lenda um povo se conduz,/largou no esquecimento a tal bravura,/para fundir-se ao Zen e à sua luz/de cerejeira na estação que cai:/pra não deixar do antes no depois,/nem sombra do que fora no que vai,/e, entre pincéis, pinturas e Kanjis,/reinventar seu mito num hai kai.

Elementos históricos que compõem o poema: Esgrima, espada fina de aço muito resistente; espadachim, o lutador, o samurai; Musassi, maior samurai (lutador) da arte marcial, nascido em 1584, em Harima, atualmente Japão. Samurais, classe feudal, guerreiros da elite feudal japonesa; Niten, apelido de Musassi, por criar o estilo de luta com duas espadas, isto é, dois céus, deus, que, aos treze anos, mata um rival. Bushido, código rigoroso de honra, alma e espírito (katana) do samurai, até de morte, se rompido, por exemplo, tornando mais perfeito do que o mestre; Musassi foi além do mestre, por isso, ele mesmo ofereceu o pescoço a um samurai, durante duelo: “Mata-me!”. Negado, ele mesmo desferiu a esgrima no pescoço. Alcançou a máxima perfeição, iluminado, Zen, divino, festejado nas flores de cerejeira que caem, nos Kanjiis (ideogramas japonese), no herói nacional dos samurais) e nos hai kais, na memoria e artes japonesas.


Se eu não soubesse alguma coisa sobre as fontes inspiradoras, não chegaria ao fundo do pré sal do poema, para extrair o recado do poeta: exaltar a grandeza humana e talento dos heróis na pessoa de Felipe Hiro, 33 anos, filho de brasileiro com japonesa. Jornalista, escritor, correspondente nos Estados Unidos, fala árabe, alemão, inglês, italiano, português, japonês e espanhol. Felipe não aparece no poema, porque a mensagem é universal. Um herói zen. Um poema porreta, quase indecifrável, do herói samurai das letras, Salgado Maranhão do Piauí.   

domingo, 26 de junho de 2016

SONETO DA SOLIDÃO


SONETO DA SOLIDÃO

Elmar Carvalho

Nas noites em que a lua alumia
a solidão das desertas chapadas,
soturnamente, adormece a melancolia.
Os raquíticos espinheiros, como ossadas,

quando a noite é bem sombria,
a sós com a solidão das quebradas,
contemplam, tristonhos, a nostalgia
das lúgubres noites amortalhadas ...


A araponga, se a noite desce,
solta seu grito que esmaece
na solidão, seu calvário!

Quando o dia chega ao termo,
a solidão que envolve o ermo
é como minha alma de solitário.    

sábado, 25 de junho de 2016

O QUE É A AMIZADE?


O QUE É A AMIZADE?

 Cunha e Silva Filho

        Eis algo que está sempre me surpreendendo. Será que a amizade é semelhante a uma definição do percurso existencial  que uma conhecida me deu um dia ao falar que a vida tem prazo de validade? Sendo assim, me pergunto: a amizade tem também prazo de validade, como a data de fabricação de um remédio ou do estado  normal da duração de uma fruta?
     Confesso que não sou capaz de pensar numa definição própria do que seja a verdadeira amizade. O leitor, a essa  altura, me poderá  perguntar  por que, de  vez em quando, me assalta essa preocupação em tentar  um explicação plausível para o sentimento  nobre da amizade.
     Um poeta de minha terra, em crônica recente, chamava a atenção do leitor para a crescente solidão que sentia diante  das amizades que teve, ou seja,  para o crescente  afastamento das antigas amizades com a chegada da velhice octogenária.
     Ora, isso basta para  abrir uma discussão  isenta do que  seja o que se chama de  amizade, além de indagações outras, como   saber se ela realmente existe, se depende de fatores condicionantes do relacionamento  social, se depende da condição de riqueza ou outras motivações inconfessáveis envolvendo a amizade entre as pessoas, se esse sentimento, tão altruísta é inalcançável, e não passa de uma  doce ilusão  dos homens que a desejam  para si e julgam   que são  correspondidos,enfim, se ela não existe, mas o que dela fazemos, nós mortais, é apenas um expediente, uma convenção  social  ou uma mentira da civilização antiga ou moderna,
    O que, nuclearmente desejo assinalar é um ponto controverso e por mim jamais compreendido: por que, de repente, por uma nonada rosiana, por uma simples divergência sem intenção  mínima de  ferir alguém, se estremece uma  suposta amizade? Será que aquele que consideramos amigo  realmente era nosso  amigo ou não  era mais do que um aparente  e  flutuante  recuo de uma onda do mar? Assim como é fácil muitas vezes  fazer-se uma amizade, assim é rápido o instante em que ela soçobra e escapa de nossas mãos. Amiúde  intuímos quais sejam os motivos do afastamento, mas não temos a coragem de claramente apontá-los para o alvo certo. Preferimos deixar que o esquecimento aconteça, em tempo mais maduro, até o seu desaparecimento  total.
    Podemos até recorrer à compreensão desse sentimento lendo o tratado da amizade do grande orador, escritor, filósofo, político romano  Cícero ( 3/01 de 106  a. C -7/12 de 43 a.C.) ou até mesmo procurar, em alguns filósofos antigos e modernos,  por uma  explanação  que nos faça  entender todos os  componentes  implicados nesse sentimento e no  seu esfacelamento doloroso.
   Sinto, no mais recôndito do meu ser, que a amizade existe; contudo ela, como quase tudo na vida, é passageira até porque materialmente acaba, já que estou  discutindo a amizade terrena, não a espiritual, não a transcendente, não a dos místicos  puros,  dos santos, do Ser Supremo, a qual está situada em planos mais elevados ou elevadíssimos e nada tem a ver com  as misérias e as fragilidades humanas, tomando essa expressões últimas num sentido machadiano  de  perscrutar  a alma humana..
     O que me intriga,  porém,  é a incógnita, a solução  da questão  da  quebra desse sentimento. O que me deixa assustado, abismado, é a prima ratio da questão crucial. Por que somos tão mesquinhos diante de um sentimento  que poderia  ser uma das soluções até da paz entre os homens  no mesmo  país,  entre países e tendo como referência magna, a Humanidade?
    Por que divergências étnicas, ideológicas, políticas, epistemológicas, linguísticas, literárias, históricas são  estopins  venenosas  que redundam  na pulverização  da amizade e, daí em diante, pelo sofrimento ou  ressentimento  provocados, não mais adquirem aquele viço alegre,  gostoso,  saudável da antiga  amizade que, aqui para provocar o leitor, havia entre dois cultivadores da amizade? A ferida resultante é praticamente não cicatrizável. O passo errado  deixou  o vaso da amizade  estilhaçado, sem volta. Tudo passar a ser diferente,  ainda que seja retomada. Seremos  gatos   escaldados. Uma vez  aquele vaso quebrado,  partido,   suas partículas mínimas, sopradas pelo vento,  não mais  farão retroceder  a antiga   naturalidade,  o antigo   afeto ainda não  partido, ainda não arranhado..
     Por outro lado,  sei que o pensamento  cético  ainda não me invadiu de vez. Isso me consola em parte. Não quero o socorro de Schopenhauer (1788-1860), nem o  de Nietzsche (1844-1900), nem de nenhum pensador que possa me fazer inteiramente descrente do sentimento da amizade. Obviamente, sinto a dor  imensa,  a  incompreensão, o espanto diante  do fato.

   O que me incomoda muito,  além  da ruptura da amizade súbita ou paulatina, é a certeza de que nunca, do me lado,  a quis  ver  abalada,  capenga,  claudicante. Não, sempre a quis saudável, viçosa, inalterável, perene, fecunda até o final de meus dias. O mundo para mim  é muito vasto (o “vasto mundo” drummonmdiano poderia ser) e eu sou  muito pequeno  para enfrentá-lo  da forma como ele é e não como eu  desejo que  seja. O “Fiat lux" bem poderia ser a metáfora da eclosão da amizade e o seu rompimento seria    o seu antípoda, i.e.,  a escuridão,  a qual desfaz um dos mais belos dos sentimentos do Homem: a amizade, que deve ser duradoura, estreme, imaculada,    incondicional,  simples e bela como os “lírios do campo.”  

sexta-feira, 24 de junho de 2016

PROFESSOR AMARANTINO “INCORPORA O ESPÍRITO DE UM FILÓSOFO ALEMÃO”


PROFESSOR AMARANTINO “INCORPORA O ESPÍRITO DE UM FILÓSOFO ALEMÃO”

Luís Alberto Soares (Bebeto)

           Comenta-se em Amarante (PI), que o simpático e extrovertido professor RAIMUNDO DIAS DA COSTA, natural de AMARANTE, é um forte médium e que ele recebe o espírito de um famoso filósofo alemão do século XX, MARTIN HEIDEGGER. Comenta-se ainda que em várias ocasiões, pessoas que convivem com o professor RAIMUNDO DIAS já notaram comportamento estranho do educador, como se ele estivesse em transe.

            O intelectual amarantino Virgílio Queiroz diz que o professor Raimundo se parece muito com o filósofo que ele incorpora. “Olhem bem! Olhem bem! A cara de um é a cara do outro. Certa vez, o digníssimo, chateado com a demora na apresentação da dança "tiroli", começou a praguejar impropérios em alemão. Eu não entendi nada. Depois de alguns minutos, ele já sereno, perguntei-lhe sobre as palavras ditas em tom raivoso e ele me respondeu: "eu? eu não disse nada!". Vi, sou testemunha de sua transformação ao receber o filósofo MARTIN HEIDEGGER” – assinalou Virgílio Queiroz.

            Vale esclarecer que o professor amarantino é portador de vários cursos, entre eles, Licenciatura Plena em Letras Português. Especializado em Docência e Gestão Escolar. Funcionário público estadual (PI) e municipal (Educação) de Amarante e São Francisco do Maranhão. 

            Em Amarante, o PROFESSOR RAIMUNDO DIAS como é mais tratado, prestou relevante serviço como diretor e coordenador pedagógico da Unidade Escolar Antonio Gramoza, onde é professor; coordenador geral e coordenador especial da UESPI, Pólo de Amarante; supervisor e tesoureiro do Hospital Estadual de Amarante. Professor de Língua e Literatura Latina da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Pólo de São João dos Patos. 

               O educador trabalha ainda como coordenador do Complexo Escolar do povoado Conceição deste município. Diretor da Unidade Escolar Antonio Gramoza (1º e 2º governo de Luiz Neto). Atualmente presta acentuados serviços na Secretaria Municipal de Educação ( Amarante).

              Vale esclarecer ainda que o destacável educador, ainda é folclorista e ator amador. Casou-se com a amarantina MARIA ALICE SILVA COSTA. Do matrimônio, talentosos filhos: Francisca Laura e Felipe Augusto.

          Em março de 2012, o amigo PROFESSOR RAIMUNDO DIAS foi visitado por STEPHANIE LOTUFO, produtora do programa “Fantástico” (TV Globo). Ele ainda a acompanhou nas entrevistas com personalidades registradas no livro AMARANTE, PERSONALIDADES E FATOS MARCANTES.    

quinta-feira, 23 de junho de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XI


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XI   

Música e memória

Elmar Carvalho

Julgo de bom alvitre, até para quebrar eventual monotonia desta narrativa, em que trato, sobretudo, dos anos da puberdade e da juventude do meu protagonista, intercalar alguns trechos de suas memórias e de suas lembranças de Évora, bem como de alguns eborenses que ficaram na história oral dessa cidade.

Portanto, a seguir e em outros capítulos deste livro, interpolarei textos de Marcos Azevedo, escritos, alguns, em sua madureza, e, outros, quando ele já descambava para a terceira idade. Os textos, desentranhados de Histórias de Évora, Mitologia de Évora e Memórias, serão transcritos em itálico e entre aspas, para que não paire nenhuma dúvida sobre a autoria, porém, sem indicação expressa de título e autor.  Passo-lhe, pois, a palavra:

“Marcel, o narrador dos romances de Proust, disse que ao degustar uma madeleine, mergulhada numa xícara de chá, teve remotas lembranças despertadas, e de maneira tão viva, que ele veio a recordar pormenores já completamente esquecidos.

Afirmam outros que suas memórias são aguçadas por algum tipo de perfume ou cheiro, que sentiram na época em que os fatos ocorreram. Na parte que me diz respeito, os maiores catalisadores de minhas lembranças são os sons, sobretudo os provenientes da música, e a visão de velhos prédios e logradouros.

Por muitos anos, quando quis recordar certos episódios de minha vida, no intuito de aproveitá-los em algum texto literário, mormente em poemas evocativos, contemplei vetustos sobrados, velhas casas solarengas; percorri algumas praças e ruas que não haviam sido desfiguradas, que ainda mantinham os traços que vi em minha infância e adolescência. E pude relembrar certos momentos de minha vida, que já se esfumaçavam em minha memória.

Dessa forma consegui capturar um pouco do clima emocional e psicológico da época. Contudo, como muitos afirmam, a memória é seletiva, e certos fatos são completamente esquecidos; de alguns só voltamos a relembrar através da memória dos outros, amigos ou parentes. Acredito mesmo que alguns fatos, que incorporamos como sendo frutos exclusivos de nossa memória, são na verdade lembranças de outras pessoas, que acabamos acolhendo como sendo parte original de nossa reminiscência própria.

Por outra parte, como a tessitura das lembranças é muito frágil, diáfana e se esgarça com facilidade, suponho que algumas de nossas memórias, com o passar dos anos, com o surgimento de muitos e novos fatos ao longo de nossa existência, terminam por se modificar, por se transformar, seja por obra de nossa fantasia, seja por se entrelaçar com outras recordações.

Acredito que deficiências nos neurônios e em suas complexas conexões e mecanismos eletroquímicos podem causar essas modificações, mitigando ou exagerando alguns acontecimentos, associando-os a outros. Alguns episódios poderiam ser apagados completamente de nosso cérebro, enquanto outros, segundo imagino, poderiam ser criados, através de falsas lembranças.

Diferentemente de Marcel, o famoso narrador proustiano, a minha madeleine não foi o bolinho embebido no chá; foram os sons e as músicas que mais me marcaram em minha meninice e juventude. Por exemplo, o canto de uma rolinha fogo-apagou me provoca funda e saudosa melancolia, ao passo que o trinado de um bem-te-vi sempre me alegra. Ambos me despertam lembranças antagônicas, que não irei, agora, expor.

Já casado, com filhos e entrando na idade madura, passei a ouvir essas músicas com insistência e de forma, às vezes, repetitiva e quase obsessiva. Primeiro através de velhos discos de vinil, que consegui adquirir, fossem eles remasterizados ou fossem as melodias novas versões.

As capas e as canções desses antigos LP’s, muitos dos quais adquiri em lojas de produtos usados, quando já descambava para a chamada terceira idade, me permitiram reconstituir minhas recordações, me possibilitaram interligar as memórias fragmentadas de minha adolescência e juventude. Ruminava, nostálgico e comovido, as minhas mais caras e ardentes lembranças. Quase sentia as mesmas emoções da época em que os fatos aconteceram. Para coroar tudo isso, comprei uma eletrola em estilo retrô e vários álbuns sobre a Jovem Guarda, nos quais eram estampadas as capas mais famosas dos ídolos de então.

Depois, com o progresso tecnológico, encontrei muitas dessas velhas canções reproduzidas em CDs, originais ou que eu mandava gravar, com as músicas que eu indicava. Mais adiante, fiz passar essas dezenas e dezenas de CDs com minhas músicas favoritas para o sistema MP3, que me facilitava ouvi-las, especialmente no carro, tanto em viagem como nos deslocamentos na cidade. Também as ouvia em libações e degustações dominicais.

Por último, aprendi a passar as músicas que encontro na internet para um pendrive. Com as minhas lembranças, consultas a amigos contemporâneos, pesquisas nos sites de buscas, muitas vezes utilizando pequeno trecho das letras, fiz uma rigorosa seleção dessas melodias que me encantaram, como já frisei, na minha meninice, adolescência e juventude. Ao ouvi-las, em diferentes ocasiões, elas potencializaram a minha memória, tornando nítidos e vivos certos episódios e momentos, que pensava haver esquecido.


E pude recordar, com o mesmo encantamento, tristeza, saudade e emoção, os acontecimentos que marcaram minha vida, bem como pessoas que conheci ou de quem ouvi falar. Tenho tentado reviver e restaurar essas pessoas e esses fatos através de minhas memórias e outros escritos. É a precária ressurreição de um tempo que insiste em permanecer."

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara" à venda na livraria da UFPI


O livro “Bernardo de Carvalho, o fundador de Bitorocara”, segunda edição revista, ampliada e melhorada, já se encontra à venda na Livraria Monsenhor Melo – UFPI, espaço Rosa dos Ventos (perto do Banco do Brasil).

O livro contém, no anexo, vários textos sobre o patrimônio natural, arquitetônico e histórico de Campo Maior.


Contém dois novos capítulos, um dos quais sobre a localização da Fazenda Bitorocara, marco inicial da fundação da cidade, no qual foi transcrita elucidativa documentação, que embasa conclusivos argumentos e fundamentação.   

NOSSO FUTURO NO FUTEBOL PODERÁ SER UMA VOLTA AO PASSADO


NOSSO FUTURO NO FUTEBOL PODERÁ SER UMA VOLTA AO PASSADO

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal 
afcsousa01@hotmail.com

                -Treinador, o senhor fez uma alteração equivocada, tirando um dos raríssimos jogadores que chutaram em gol no primeiro tempo; mas havia chance de consertar o erro, já que ainda dispunha de duas substituições possíveis de serem feitas, por que não as fez? Pergunta de jornalista a Dunga em entrevista coletiva depois de Brasil versus Peru. E ele, gaguejando: - porque, ora..., ora..., veja bem, o time naquele momento estava encaixado... E errou de novo, dessa feita, também, na utilização do predicativo: em vez de “encaixado” deveria dizer “encaixotado”, pronto para ser despachado, mandado ao lixão de Massachusetts – se é que lá existe isso. É muita desfaçatez, incompetência, arrogância e ignorância, juntas.

                Um amigo disse que Dunga foi um grande jogador. Como não entendi ser brincadeira, que ele não queria referir-se ao biótipo avantajado do sujeito, mas à sua técnica, discordei; também o fiz em relação ao que, a seguir, acrescentaria: que, na seleção campeã pela quarta vez em mil, novecentos e noventa e quatro, ele, o volante ogro, e Romário - não citou o humilde jogador Bebeto, um dos melhores coadjuvantes de todos os tempos - é que deram o tetracampeonato ao Brasil. Por estar com pouca paciência e sem vontade de discutir, disse ao velho chapa, peremptoriamente: companheiro, a copa do mundo de mil, novecentos e noventa e quatro, não tenho nenhuma dúvida em afirmar, foi uma das mais pobres, tecnicamente, dentre todas as já realizadas: nunca tantos canelas de pau compuseram suas respectivas seleções nacionais.

                O Brasil em termo de seleção de futebol principal, nos últimos dois anos, conseguiu feitos memoráveis, inesquecíveis, verdadeiras quebras de paradigmas: levamos a maior goleada da história do esporte bretão, desde que começou a ser disputado por seleções nacionais, e a pior já sofrida por um campeão mundial: o doloridíssimo sete a um diante do escrete alemão; após trinta e um anos fomos derrotados pelos peruanos e, não bastasse isso, quase trinta anos depois, saímos de uma copa américa pela segunda vez  na primeira fase do torneio, com a pior participação dos últimos noventa e três anos.

                Que mais nos falta acontecer? Mantido o entourage administrativo da confederação brasileira de futebol e, consequentemente, a filosofia que a norteia quanto à escolha da comissão técnica das seleções principal e olímpica, muito provavelmente, duas desgraças, uma inédita, a outra não: ficarmos, pela primeira vez, fora de uma copa do mundo, a de dois mil e dezoito e, novamente, deixarmos de ganhar medalha de ouro no futebol olímpico. Os dois fatos podem se realizar sem surpresa: estamos fora da zona de classificação nas eliminatórias sul-americanas de futebol, enquanto nossa seleção olímpica, muito bem arrumada por treinadores que antecederam Dunga, corre o risco de esfacelar-se ou ficar desfigurada até a abertura do torneio, caso seu novo treinador decida fazer experiências.

                O tempo corre célere, mas mesmo assim, seria bastante arriscado continuarmos com Dunga; ele já provou que é egoísta, turrão e míope como poucos. Ruim sem ele, muito pior com ele. Vamos para mais um drama olímpico, mas quem sabe não nos salvemos nas eliminatórias, com outro treinador, principalmente se a ele for dada a liberdade de fazer as convocações que julgar convenientes; levando à seleção quem, de fato, envergue a amarelinha considerando-a sua segunda pele; sem qualquer interferência comercial, corporativa ou burocrática; craques temos de sobra, ou o mundo não se interessaria por nossos jogadores. Se, mesmo assim, não der certo, talvez seja chegada a hora de voltarmos ao passado. Pode ser que para salvarmos nosso futuro, precisemos praticar futebol como fazíamos entre mil novecentos e cinquenta e oito e mil, novecentos e setenta, período em que servimos de referência técnica e estética futebolística, virtudes que perdemos desde quando passamos a tentar imitar, sem sucesso, o acadêmico, pragmático e parametrizado futebol de resultados.             

domingo, 19 de junho de 2016

Seleta Piauiense - Almir Fonseca


Poema

Almir Fonseca (1918 – 1972)

Nasci em berço macio e quente,
Como a árvore no bosque silencioso e calmo;
Alimentei-me de leite materno,
Como a árvore se alimenta da seiva no seio da terra;
Tive o aconchego no colo morno de minha mãe
E a doçura dos seus carinhos revigorantes,
Como a árvore recebe o calor do sol e a frieza do luar,
Que lhe mantém o equilíbrio da vida;
Recebi os bafejos e os beijos de minha mãe querida,
Como a árvore recebe as carícias brandas
Da brisa perfumada e mansa;
Fui cercado de todos os cuidados e proteções
Contra as intempéries,
Como a árvore recebe da Natureza
Os meios peculiares à sua defesa;
Senti, por certo, caírem sobre o meu rosto inocente
As lágrimas quentes dos olhos de minha mãe
Quando chorava de contentamento
Ao apertar-me contra o seio,
Como a árvore sente correrem sobre os seus galhos verdes
As gotas de orvalho caídas do céu
Quando a Natureza lhe abraça com o véu da noite.

Cresci, tornei-me jovem,
Alegre e brincalhão, feliz da própria vida,
Como a árvore cresce, robusta e ereta,
E balança ao passar do vento forte.
E hoje, homem feito
Vivo exposto aos rigores da sorte avara
E do destino impiedoso,
Como a árvore, frondosa e altaneira,
Vive exposta aos golpes da foice afiada
E do machado bronco.

Eu morrerei,
Como a árvore morrerá,
E então nós nos encontraremos:
Eu feito defunto
E a árvore transformada em caixão,
– Iremos à última morada...   

sábado, 18 de junho de 2016

Aldeia Global à Torre de Babel


Aldeia Global à Torre de Babel

José Maria Vasconcelos 
josemaria001@hotmail.com

         Anos 70, a cidade dormia cedo, sem muros altos, sem ferramentas sofisticadas de segurança, sem sobressaltos e pesadelos. Relaxava-se fácil, quando a  TV Globo encerrava a programação, antes da meia-noite. Na vinheta, o samba de Noel Rosa, ATÉ AMANHÃ, e a nostálgica mensagem em bonita voz do locutor: "Logo, o brilho das luzes, será substituído pelos primeiros raios do sol. Fique agora, na tranquilidade de seu lar. Nós estamos aqui. Atentos aos acontecimentos da aldeia global, preparando as emoções que são a vida do povo, a alma da cidade. Até amanhã, na certeza de um novo tempo: tempo de comunicação, fazendo um homem livre no universo sem fronteiras!"

         Depois de quatro décadas, vários conceitos embutidos nessa mensagem precisam ser revistos, especialmente ao retratar a tranquilidade do lar, aldeia global, o tempo de comunicação, homem livre, emoções. A TV Globo não repetiria a mesma mensagem, bem como outros meios de comunicação, diante da avalanche de emoções e reações coletivas. Quer exemplos? Há um ano, não se tinha notícia de um estupro coletivo no Piauí. Bastou o primeiro, em Castelo do Piauí, exaustivamente explorado na imprensa. Seguiram-se mais três no estado. Como reagiram os “amantes da opinião pública sadia”- filodoxia, segundo Platão – aqueles que buscam o belo e virtuoso em si, ao contrário dos estudiosos da opinião seca, do rigorismo das demonstrações?

         Será que a exposição demasiada dos crimes, escândalos sexuais e maracutaias das autoridades, embora condenados pela Justiça, o país se libertará das mazelas? Claro que não, nem por isso a Justiça fugirá às suas funções. Porém, os meios de comunicação, que contribuem em colocar cidadãos a par dos crimes, não poderiam dedicar mais espaços às fronteiras do bem? Por que novelas costumam escancarar mais conflitos conjugais do que amores decentes? Afinal, o que é decência para formadores de opinião?

         O termo aldeia global, um conceito criado pelo canadense Marshall MacLuhan, na década de 60, explica os efeitos da comunicação de massa sobre a sociedade contemporânea, transformando o mundo numa tribalização de costumes e culturas. Quando se repete, exaustivamente, um produto ou episódio, termina virando moda de bem ou de mal. De bem é o que pouco se explora. Um programa de TV em que jovens testemunham seu resgate do submundo dos vícios, faz bem.

         Num mundo híper conectado em que vivemos, encurtam-se territórios e fronteiras. Tragédias e sofrimentos nos chegam, constantemente, ao ponto de nos acostumarmos com as dores alheias, avessos à misericórdia e sentimentos de solidariedade. Explica-se a frieza dos que não respeitam pudor, autoridade, o exercício da nobreza, a própria vida. Vive-se uma era glacial de puros sentimentos.


           A aldeia global ainda não aprendeu a usufruir-se da tecnologia da comunicação entre os povos, de um novo tempo, sem fronteiras do ódio. Construída, como a ancestral Torre de Babel, serve mais para exploração do orgulho, do domínio de uma mesma língua. Infelizmente, tende a ruir. Uma modesta e saudável vinheta serve de alerta.