quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Histórias de Évora - Capítulo XXV


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXV

A matrona de Évora

Elmar Carvalho

Na minha infância, aos domingos, quando eu ia com meu pai participar da missa da manhã, para depois assistirmos à sessão matinal do Cine Galileia, vi algumas vezes dona Ângela Fontenele sentada na larga calçada de seu vetusto sobrado solarengo. Simpática, gentil, sempre com um sorriso nos lábios, cumprimentava todos os passantes. Às vezes nos dirigia breves palavras. Aprendeu meu nome. Certa vez disse, talvez para aumentar minha autoestima:
– Para onde você vai, Marcos, tão bonito, tão bem vestido? Parece que vai a um baile, ou então se encontrar com alguma namoradinha...

Fiquei encabulado e nada respondi. Meu pai respondeu por mim:
– Vai pra missa, aprender a rezar, e depois vai assistir a um filme de faroeste, com Giuliano Gemma.
– Ah, muito justo. Como vai dona Rita? Estimo que esteja bem, nunca mais tive o prazer de encontrá-la.
– Vai bem, obrigado, dona Ângela. Só que sempre muito ocupada com os afazeres de mãe e dona de casa.

Ângela Fontenele era uma mulher alta, considerando-se a época e a região. Na juventude, segundo soube, era esbelta, conquanto não fosse magra. Comentava-se que havia sido uma muito bela mulher, alva e loura, de olhos claros, verde-azulados. Descendia de franceses, que se fixaram na Ibiapaba. Com o tempo, tornara-se um tanto corpulenta, mas não gorda, o que lhe dava uma imponência de matrona romana. Vestia-se com elegância, mas sempre com sobriedade, de modo a jamais afrontar a pobreza de quem quer que fosse. Sua voz era suave, audível, porém nunca elevada.

Morreu quando eu tinha uns quinze anos de idade, ou um pouco menos, já não sei ao certo. Teve, creio, uma morte suave, discreta, sem sofrimento e sem testemunhas. Faleceu à noite, em sua cama. A empregada, de manhã, quando foi chamá-la para o café, já que ela não viera espontaneamente para a enorme mesa de refeições, como era seu costume, a encontrou morta. Seu velório e cortejo fúnebre foram o de maior acompanhamento de que já se teve notícia. A igreja matriz ficou lotada durante a missa de corpo presente.

Provocado por minha curiosidade e consequentes perguntas, meu pai, aos poucos, foi me contando a vida de dona Ângela. Também fui sabendo de outros pormenores através de diversas pessoas. Sem dúvida, sua vida dava um romance, porque fora um verdadeiro romance, a que não faltou um pouco de picaresco e de tragédia. Irei resumi-la, o máximo que me for possível.

Seus avós e parentes eram retirantes, fugidos da Ibiapaba, por causa de terrível seca, que assolou a região, no final do século 19. Passaram a morar em Évora, com ânimo definitivo; afinal haviam vendido tudo que possuíam na Serra Grande. Seu avô, gracejando, dizia que em Évora poderiam até morrer de fome, por preguiça, mas jamais de sede, pois que ali havia o grande lago Galileia e o caudaloso Paraguaçu. A sua graciosa e querida Viçosa perdera o viço naquela seca medonha.

Quando Ângela completou catorze anos, e a sua beleza começou a esplender com muita intensidade, entrefechado ou entreaberto botão de rosa, como cantou, em versos nada originais, enfatuado vate eborense, o rico comerciante Constantino Cardoso, que recentemente ficara viúvo, a pediu em casamento, através de seu pai. Não me deram detalhes sobre essas tratativas.

Mas o certo é que Constantino, além de sua sortida loja de tecidos e de grande mercearia, tinha um enorme armazém atacadista, que fornecia produtos comestíveis, higiênicos e de limpeza aos pequenos comércios a varejo, entre os quais bodegas, bares, lanchonetes e botecos. O pai de Ângela sustentava a família com sua pequena mercearia, localizada no bairro Rabo da Gata, nas imediações do lago Galileia. Abastecia seu pequeno comércio graças ao crédito que possuía junto ao grande empório de Constantino. Algumas vezes atrasava o pagamento, que deveria ser mensal, mas o proprietário, condescendente, lhe dilatava o prazo.

Dizem que Ângela, a princípio, se opôs ao casamento, por achar Constantino feio, rude e muito velho para ela. Relutou, relutou, mas acabou aceitando, em face dos argumentos e da insistência dos pais. Faria esse sacrifício para o bem de sua família, sobretudo pais e irmãos. Os boatos diziam que até a saúde do opulento comerciante, que não era boa, e a sua expectativa de vida, que parecia curta, foram levadas em conta. Consta que o rico comerciante, antes do casamento, de forma dissimulada, passou alguns bens e dinheiro para o futuro sogro, que atravessava percalços financeiros.

Os seus parentes, irmãos e sobrinhos, posto que ele não tinha filhos, foram radicalmente contra o casamento, mas Constantino impôs sua vontade férrea e se casou civilmente com a bela adolescente. Foi magnífica a cerimônia religiosa, realizada na matriz de São Gonçalo. Ângela estava deslumbrante em seu vestido de noiva, cravejado de pedras preciosas, com a sua linda grinalda, de ricos bordados e rendas, tudo feito pela mais afamada modista da capital. Foram residir no suntuoso palacete, onde ele morara com sua falecida mulher, no centro histórico de Évora. 
    
Não se passou um mês, quando estourou a notícia de que Constantino morrera. Os parentes levaram ao delegado a suspeita de que ele poderia ter sido envenenado, afinal era um homem muito rico e alguém seria beneficiado com a sua herança, ainda mais que a morte fora súbita, sem que ele estivesse acometido de alguma doença.

A autoridade policial, por descarrego de consciência e para se eximir de futuras responsabilidades, mesmo não se tratando de morte acidental ou violenta, fez sumária investigação e diligências, inclusive exigindo laudo médico, assinado por uma junta. Não se constatou o menor indício de homicídio ou de envenenamento. Apenas foi encontrado, na prateleira superior de um armário, um frasco de um litro, contendo uma beberagem, que se apurou ser de ervas, talvez para fim medicinal.

Começaram a surgir os mais desencontrados boatos na cidade. Alguns diziam tratar-se de uma “garrafada”, verdadeira panaceia, produzida pelo Gonçalo Rezador. Gonçalo, ao fazer as suas orações, umedecia o rosto, as mãos e o peito do doente com um molho de vassourinha, que ele molhava numa bacia de suposta água benta. Também fornecia suas famosas “garrafadas”. O doente lhe dava o quanto podia e queria. Às vezes o pagamento era feito por meio de produtos, como cereais, capões, ovelha, etc.

Outros, mais realistas ou mais maledicentes, chegaram a afirmar que a beberagem era um produto afrodisíaco, feito de exóticos ingredientes, que, pelo uso excessivo durante a lua de mel, terminara por envenenar Constantino. Por cúmulo de maldade, alguns levantaram a hipótese de que Ângela, industriada por sua família, poderia ter adicionado algum tipo de veneno, que não deixava vestígio, à “garrafada”. O suposto afrodisíaco teria sido preparado por um mandingueiro, residente depois do Bairro Floresta. Mas nada disso foi comprovado.

Seja como for, o certo é que os irmãos de Constantino entraram com um processo, invocando a legislação e a jurisprudência vigentes na época, para anular o casamento, sob as alegações de que o comerciante já estava senil e não possuía juízo perfeito na época das bodas, pois já estaria caduco, e que o casamento não se consumara, posto que Ângela continuaria virgem.

Acrescentaram ainda que as núpcias teriam sido apenas um ardil, uma fraude, para que a adolescente  e sua família se apropriassem da riqueza do “de cujus”. Os mais detalhistas, fora dos autos, chegaram a dizer, em linguagem chula e desabrida, que a precária (se é que ainda existia alguma) ereção do comerciante seria insuficiente para romper o hímen de uma cabrocha nova e acochada como a viúva.

Devidamente citada para se defender, Ângela contratou os serviços do mais brilhante advogado da cidade, Antenor Vasconcelos, formado na famosa faculdade de Direito do Recife, solteiro, e considerado pelas moças casadoiras de Évora como um bom partido e como um belo tipo de homem.

Em seu bem localizado e bem mobiliado escritório, o causídico conversou longamente com a sua constituinte sobre os fatos alegados pelos autores, inclusive sobre a vida conjugal e íntima dela com seu falecido esposo. Dizem que o doutor Antenor Vasconcelos saiu encantado com a juventude e com a inefável beleza de Ângela, então na flor de suas quinze primaveras, mas já revelando um caráter forte, decidido, ornado por bela inteligência e sabedoria de vida. De fato ela demonstrava ter muito discernimento e maturidade para a sua idade. Seu sinuoso corpo ainda desabrochava para mais incisiva beleza, a plena beleza do auge da mocidade.

Na contestação, o advogado disse que tudo que a inicial afirmava não passava de mentiras e aleivosias; que a peça estava eivada de maledicências, sem nenhuma prova e sem nenhuma possibilidade de comprovação; que o laudo cadavérico e a sindicância realizada pela autoridade policial não comprovara absolutamente nada. Era, portanto, inepta e estapafúrdia a petição inicial, pelo que pedia o seu imediato arquivamento.

Não se sabe ao certo se movido por maliciosa curiosidade ou se por que achasse a diligência relevante para o deslinde da causa, o digno representante do Ministério Público requereu perícia médica para comprovar se Ângela fora ou não deflorada pelo marido, cuja impotência para o coito fora arguida na inicial. Essa providência foi prontamente deferida pelo magistrado. Antenor teve nova e secreta conversa reservada com Ângela. Dizem, aliás, que bastante longa, e a porta fechada. Não mais voltaram a se encontrar sem que houvesse testemunhas.

Imediatamente, ele ingressou com um requerimento, no qual pedia ao juiz para reconsiderar seu decisum; não foi atendido. Manejou, em tempo hábil, recurso para o Tribunal de Justiça. Cinco meses depois a corte o indeferiu. No mês seguinte Ângela foi submetida à perícia, na forma da lei, inclusive com a participação de assistentes indicados por ambas as partes.

Foi constatado que ela não era mais virgem. Todavia, os peritos não souberam responder a dois quesitos, que eram considerados fundamentais pela parte autora e pelo promotor de Justiça. Não souberam precisar a data do defloramento e nem quem o teria praticado. Portanto, em decisão fundamentada, a Justiça presumiu que ele teria ocorrido logo após as núpcias e que o seu autor só poderia ter sido o falecido marido da periciada.

Meses depois Antenor e Ângela se casaram, em cerimônia discreta, sem festa, e com poucos convidados. Para sempre os eborenses ficaram com a dúvida sobre quem teria efetivamente desvirginado a matronal dona Ângela.


A maioria, contudo, acreditava que o seu defloramento teria sido a única chicana perpetrada pelo notável, competente e conspícuo Dr. Antenor Vasconcelos, que depois veio a ser um dos melhores prefeitos de Évora.”     

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A VIOLÊNCIA NA FICÇÃO DE MILTON BORGES


A VIOLÊNCIA NA FICÇÃO DE MILTON BORGES

Cunha e Silva Filho

               Só conhecia  o autor,  Milton  Borges,   dos comentários gerais e breves que lhe faz  o poeta, historiador, literário e  ficcionista Francisco Miguel de Moura na sua indispensável   obra  Literatura  do Piauí.(Teresina: EDUFPI, 2 edição revista, ampliada e atualizada, 2013, 387 p).

               O historiador me informa  sobre   a produção  do ficcionista Milton  Borges, sobre o  prêmio  “Fontes Ibiapina”  que lhe foi concedido pela FUNDAC (Fundação Cultural do Piauí, pelos romances  Destino sobre rodas (2002) e Vale dos mal amados, este último   inédito, segundo o  historiador. Esclarece ainda que  Borges  participou de antologias e de outras obras coletivas. Na mesma história do autores  piauienses,  Miguel de Moura  o enquadra no grupo de autores  piauienses denomina de modo geral,  de “Geração marginal.” Na presente   resenha,  não  é  minha intenção de   discutir  esse tipo  de classificação  geracional.

             Na obra de Miguel de Moura, logo após  considerações  em torno da posição de Borges na  história da literatura  piauiense, o historiador inclui um conto de Milton Borges de título “ O passeio” (p.263-265) que, de alguma  maneira,  me permite refletir sobre alguns  traços  particulares e temáticos da forma de narrar  desse  autor.

           Não faz muito tempo, em  artigo, falei   que a literatura  piauiense   é muito mais numerosa em  poesia do que em prosa de ficção. Ora,  tal circunstância, por si  só,  nos deixa  mais animado  quando  mais um  ficcionista  surge  no  panorama  dos autores  piauienses  que se voltam  para  escrever ficção. Este é o caso também de Milton Borges (assim como de outros até mais jovens)   que nos surpreende  com  o seu mais  recente  livro, Sabor de vingança (Teresina: Editora Nova Aliança, 2015,  173 p.). A edição tem orelhas de  outro ficcionista   piauiense bastante  conhecido  do sobretudo público  piauiense,  José Ribamar Garcia. O livro tem   sugestiva capa de Ângela Rêgo.

        Situemos  criticamente  algumas características  evidentes na escrita literária de Milton Borges sem a pretensão de  avaliá-lo  por inteiro, já que só havia lido  o citado  conto  “Passeio”  que,  por  sinal,   abre  um flanco  para o conhecimento de sua  temática,  e, além do mais  nele pinço uma  particularidade   facilmente  à vista:  a tematização da violência e a força do seu  diálogo, muito vivo, muito ágil,  que me remete de alguma  maneira,  para  uma estratégia  de natureza cinematográfica,   quer  dizer,   iniciar  suas histórias, em geral,  in medias  res, e por diálogos que, a princípio, podem embarcar  o leitor quanto a saber  quem é quem  dos interlocutores. Este incipt do ato de narrar ficcionalmente,  de   representação  fílmica  ou  de telenovela é muito comum  na atualidade. Este estranhamento  inicial  faz, a meu ver,  parte do desenvolvimento de uma obra  de ficção nestas três formas de representação dramática.

        No entanto,  à medida que vamos  lendo o texto ficcional, que é o tipo que me interessa aqui,  o narrador  nos vai    aclarando  quem  é quem  e,  desta forma,  nos vai  pondo  diante  da identificação  dos personagens. Obviamente, este modo de iniciar  uma narrativa pelo diálogo  não é um  constante única,  mas é efetivamente uma   das constantes no livro de Milton  Borges.  Mais ainda,  se o diálogo  assim configurado  não surge no  início de cada história,  ele é frequente  na narrativa  de Milton  Borges a partir do que constato  pela  incursão  no seu    texto.

     Por outro lado,  o dado digressivo  ou  descritivo, da mesma forma   é utilizado   pelo narrador.  Entretanto,  isso  nos leva a uma  dedução,  Milton  Borges me parece   dar grande importância  à oralidade do discurso  . A estruturação  do seu texto   se constrói  por uma liberdade que  o  narrador se permite, observando-se mesmo,em algumas   frases um   forma sintática que nos lembra um   anacoluto. Seria nele uma traço estilístico ou  uma  defeito  de  estilo?

    Creio que seja  um traço  estilístico. Ou  seja,  uma maneira de  escrita literária  que se vale  da riqueza da oralidade,  no discurso ficcional  a fim de  mimetizar  ao máximo  o recurso da verossimilhança,uma aproximação  tanto  quanto  possível  do discurso do narrador  conectado  à oralidade  do próprio  leitor.  Esta  estratégia narrativa  resulta numa possibilidade renovada de  narrar sem as peias de  um discurso linguisticamente bem comportado. 

     Sabor de sangue, composto de  vinte e oito contos, de   extensão  breve, a maioria não ultrapassando três páginas,  é uma outra   forma de  estratégia  narrativa   que, de nenhuma maneira,  deseja  entediar  o leitor,  uma vez que a trama, a intriga,o desfecho e o  epílogo se realizam  tecnicamente dentro dos limites da  sua  brevidade   de tempo de leitura, embora o espaço  seja  diversificado e dinâmico.

   O conjunto de  contos  gira em torno  de um  tema, a violência urbana, opção no livro  que é explicitamente  reconhecida pelo  narrador num dos contos,  “Um copo de tentação,”  um dos pontos altos da narrativa de Milton Borges.. Nesta história  o protagonista, Edilson, é uma  espécie de símbolo da    policial brasileiro  às voltas com a sua  precária condição  de vida, carência de alimentação,   baixos salários, falta de preparo para a sua  missão de defender a lei,  flagrado  num instante de fraqueza  diante da insistência de beberrões resultando na prisão dele por embriaguez  envergando a própria  farda.

    Este livro de contos se alinha  no tipo de  narrativa  que, nos anos setenta e oitenta, já fizera surgir  notáveis  autores  brasileiros que tematizaram  a marginalidade, a violência urbana, como  Aguinaldo Silva,  João Antonio (1937-1996),  Rubem Fonseca, José Louzeiro, entre outros  ficcionistas.

    Com o processo de industrialização crescente  por que passava o pais e com o crescimento  desordenado das  capitais  brasileiras, estas se  inflaram   de um   grande contingente do interior dos estados,  e imigrantes despossuídos que  invadiam  as nossas metrópoles e as nossas capitais, inclusive o  espaço geográfico de Teresina,   onde se ambienta todo o cenário  de crimes e do surgimentos do tráfico de drogas   e da  escalada da violência sem precedente   na cidade e, por extensão, no país inteiro. 

     Milton  Borges se inclui neste filão de ficcionistas que têm como  tema nuclear   a exploração,  no campo  ficcional,  de histórias nas quais  os protagonistas   pertencem à galeria  de  criminosos   e de todos os vícios  que  apareceram  nas urbes, quer nos redutos das favelas   verticais (os morros cariocas,  por exemplo)), quer na horizontais,  nos bairros da periferia, onde a miséria e a promiscuidade  prosperam  de forma crescente.

   É bem provável que  estamos diante do  ficcionista piauiense que  mais se concentrou   em narrar  todas as mazelas  trazidas  pela nova marginalidade   que assola o país atualmente  e até no  interior. Sabor de sangue radiografa, sem papas na língua, este underground  do crime  e abre  espaço para a discussão  da marginalidade   tentacular que tomou  conta  do Brasil  sem a correspondente  competência dos governos  para   reduzir este gravíssimo  problema  social

   Usando  a técnica da surpresa  no desfecho  de um conto, como   o primeiro  do livro, de título ”Segredo de confissão” (p.7-13),em que uma mulher, fingindo  manter uma vida limpa,  após confessar-se,  subtrai  o celular  do  padre;  a denúncia social, a brutalidade  escancarada,  o tráfico de influência, como no conto “O maioral”(p73-79),. em que  um funcionário da Secretaria de Segurança, um espertalhão, por ser primo do governador,  não permitia que lhe cortassem  o fornecimento de luz por fala  de pagamento, deixando em situação  embaraçosa  o funcionário designado para  desligar  a luz de sua  casa;.o conto do vigário  de que foi vítima uma viúva metida a esperta , no conto  “Loteria premiada” (p.57-62); um deficiente bancando de assaltante, no  conto  “Pavor coletivo” (p. 103-109);  a delinquênca  juvenil,  no conto “Amor de mãe” (p. 149-150); o  trágico drama  de um jovem  epilético e doente mental, no conto “O cadáver  disputado” (p. 157-161); outro   drama trágico de dois amigos de infância que se tornam  marginais de “gangues rivais,” no conto que dá título ao livro, “Sabor de sangue”(111-115).


     Este livro de contos  - pode-se  dizer -  é o cartão de visita  às avessas  da marginalidade e da violência   em que se transformou  a velha Teresina  tranquila e provinciana dos anos 1960, aproximadamente. . Milton  Borges se coloca, assim, como um dos seus principais  intérpretes e como um ficcionista  que  traz para as páginas desta obra  a fisionomia de uma  Teresina  que reclama por soluções  mais  efetivas e urgentes  no enfrentamento   da criminalidade, da brutalidade,  da selvageria  e do desamparo em que   encontra a sociedade local, desde as camadas mais  humildes até as mais  sofisticadas.Violência que se  equipara, em muitos  ângulos,  àquela enfrentada   pelas grandes metrópoles brasileiras.. Por outro  lado,   fica uma sugestão ao autor, que  não  restrinja  a sua  imaginação  e o seu talento apenas ao tema da  marginalidade. Que abra espaços do seu  universo ficcional  para novos  temas  visto que  me parece  ter  domínio   e condições   de  amadurecer  tanto a linguagem literária  quanto    a sua disponibilidade  para novas   obras.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Apenas Memórias


Apenas Memórias (*)

Carlos Said
Escritor e jornalista

Ao pé da letra, memória é a faculdade de reter as ideias adquiridas anteriormente.

Assim, o livro do professor, poeta e escritor Francisco Cunha e Silva Filho (Amarante - Piauí, 1964), titulado " Apenas Memória", recém-lançados em Teresina, Piauí, apresenta  nas lembranças das 299 páginas , coisas próprias ajudando as recomendações  e cumprimentos do filho daquele que, em vida foi um dos mais argutos defensores do tempo portentoso da literatura mafrensina: o conceituado  Francisco da Cunha e Silva (Amarante Piauí 1905 - Teresina Piauí 1990), autor de dois magníficos livros: "República dos Mendigos"(critica social dirigida  aos governantes nacionais) e "Copa & Cozinha" (Sátira ironizando as diferenças  entre ricos e pobres na organização social do Piauí).   

     O cronista foi alvo duma recomendação. Nas páginas  69/70, excelente livro, estão assentados as gratas recordações de Teresina quase apagadas  pelo tempo. "A Rua Arlindo Nogueira(Arlindo Francisco Nogueira: Valença -Piauí , 1853 Teresina Piauí 1917), para o lado em direção à zona norte, ela se prolongava  até  praticamente  à Praça do Mercado  Novo, local onde havia residências, a Faculdade de Direito (data da fundação: 25 de março de 1931), o Colégio Demóstenes Avelino(Demóstenes Constâncio Avelino: Oeiras Piauí 1847 - 1914), do professor Felismino Freitas Weser (Piripiri Piauí 1893 - Teresina Piauí 1984)e, nessa direção , até chegar aquela  praça  ou largo, eu passava pelo lado lateral do Colégio das irmãs (Colégio sagrado Coração de Jesus (data da fundação 4 de outubro de 1906), onde minha mãe  estudou n infância ou adolescência. algumas vezes, de manhã, me dirigindo ao Mercado Novo, me deparava  com o jornalista escritor Carlos Said (Teresina -Piauí 1931). Batíamos um papo até o mercado.

      Não sei se ele lembra  deste pormenor. Na verdade, a particularidade faz parte das reminiscências entremeadoras de sentimentos compassivos. Entre amigos outros do Cunha e Silva Filho, um deles o advogado e escritor José Ribamar Garcia(Teresina 1946), declarou com sobriedade: "Superou ele todos os obstáculos. Um vencedor (...) Hoje, um dos mais importantes  críticos literários  do País com vários livros publicados". Alargando  a opinião do Ribamar Garcia, adiantamos os títulos de três importantes livros publicados antes de Cunha e Silva Filho articular a finalidade das admoestações familiares: "Da Costa e Silva(Antonio Francisco da Costa e Silva(Amarante Piauí 1885 - Rio de Janeiro 1950), uma leitura de "Saudade"(1966); "Breve Introdução do Curso de Letras: uma orientação"(2009); "As ideias do Tempo((2010) e agora "Apenas Memórias" (2016), o talento nato do Cunha e Silva filho acertou definitivamente a transferência da ímpar inteligência do seu pai para que não pairasse a dúvida da vitória através da intervenção paterna "Meu filho, você tem sede de sabedoria".

      A continuidade daquele fato doméstico percorreu os caminhos da mãe Ivone Setúbal e Silva tantas vezes identificada pelos desenhos arregimentados e colocados no universo mágico da fantasia - desta para o filho.

       Ademais, culto e dominador emérito da língua inglesa com fluência universal Francisco Cunha e Silva Filho protagonizou como discípulo de Shakespeare(William Shakespeare: Strattford-upon.Avon, Inglaterra 1564 - 1616), os lances artísticos de "All is well that end well". "(Tudo fica bem quando acaba bem)"

(*) Texto digitado e enviado por Itamar Abreu Costa 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

POLÍTICA PARNAIBANA A PARTIR DE 1950 (Parte II)

Dr. Lauro Andrade Correia

POLÍTICA PARNAIBANA A PARTIR DE 1950 (Parte II)

Alcenor Candeira Filho

II.              A N O S 5 0 E 6 0

•             PRESIDENTES DA REPÚBLICA NO PERÍODO:

- 31-01-1951: posse de Getúlio Vargas
- 24-08-1954: posse de Café Filho
- 31-01-1956: posse de Juscelino Kubitschek
- 31.01.1961: posse de Jânio Quadros
- 01-09-1961: posse de João Goulart
- 15-04-1964: posse de Humberto Castelo Branco
- 10-03-1967: posse de Artur da Costa e Silva
- 30-10-1969: posse de Emílio Garrastazu Médici


A)           PREFEITO JOÃO ORLANDO DE MORAES CORREIA

          Como mencionei no artigo “Retorno ao Norte do Piauí”,guardo vaga lembrança das eleições gerais de 1950,  quando  foram eleitos pelo PTB Getúlio Vargas (Presidente), pelo PSD  Pedro de Almendra Freitas (Governador)  e pelo PTB João Orlando de Moraes Correia (Prefeito).
          Além da hospedagem de Getúlio Vargas na casa de João Orlando em agosto de 1950, lembro-me de um episódio que pode ter contribuído para a derrota do candidato a prefeito pela UDN,  deputado Acrísio de Paiva Furtado, que havia ocupado por pouco tempo o cargo de prefeito municipal em 1947.
          Consta que o poderoso industrial José de Moraes Correia, irmão de João Orlando, apoiava a candidatura de Acrísio, que estava muito bem na aceitação popular.
           Com o propósito de reverter a situação, petebistas combinaram com João Orlando uma simulação de tentativa de seu assassinato.  Um tiro de arma de fogo foi disparado da residência do vereador Alcenor Rodrigues Candeira em direção da vizinha casa de João Orlando, que teria desempenhado bem o papel de ator: caiu no chão gemendo bastante. A cidade era pequena e a notícia se espalhou rapidamente. O coronel Zeca Correia imediatamente retirou o apoio a Acrísio Furtado para ficar solidário com o irmão.
          Para alguns a adesão de Zeca Correia não foi novidade:afinal de contas, como corre solto entre maliciosos e gozadores, a família Moraes Correia é semelhante a pintos de granja que se bicam o tempo todo  mas terminam sempre se acomodando na paz familiar.
          A propósito do tiro que teria partido do quintal de minha casa, ouvi um dia minha mãe desabafar: “Em política tenho visto de tudo. De todos os lados. Dizem que feio mesmo é perder eleição”.  E me aconselhava a nunca entrar nesse jogo. Não tenho sido filho obediente, mas jamais me esqueci do conselho.

          Principais realizações:
          - aprimoramento dos serviços de limpeza pública
          - construção do centro comercial
          - construção de escolas
          - pavimentação poliédrica de ruas e avenidas

          Fui amigo do dr. João Orlando. Admirava-o menos como político do que como professor e médico. Dele guardo a imagem de um homem simples, bom, desprovido de ambições materiais e que, pela deficiência auditiva, ouvia rotineiramente, com som bem alto, músicas de Luís Gonzaga.
          João Orlando governou o município no período de 1951 a 1954.


B)           PREFEITO ALBERTO TAVARES SILVA

          A campanha municipal de 1954 foi acirrada e polarizada:Alberto Tavares Silva  (UDN)  contra  José Alexandre Caldas Rodrigues (PTB).
História ou estória marcante da disputa política de 1954  revela que na véspera do  pleito a Justiça mudou o local de votação das seções eleitorais deixando boa parte dos eleitores do PTB desorientados. Muitos teriam deixado de votar.
          Os udenistas, acusados de participação na trama em benefício próprio, revidavam:o pessoal do PTB  foi que articulou com a Justiça e o Ministério Público a mudança das seções eleitorais da Ilha Grande de Santa Isabel,  reduto da família Silva, que ali teria sido prejudicada.
          Se houve realmente mudança de urnas de última hora, qual a versão verdadeira  -  a dos petebistas ou a dos udenistas?  Talvez só o vento responda.
          Conhecido como grande engenheiro e bom administrador, Alberto Silva realizou importantes obras como prefeito nos dois mandatos que exerceu (1948-1950 e  1955-1958),  destacando-se:
          - combate a enchentes
          - abertura e pavimentação de ruas e avenidas
          - construção de escolas
          - construção de postos de saúde

          As mais expressivas realizações de Alberto Silva aconteceram quando exerceu por duas vezes o mandato de Governador do Estado,assunto que será tratado em outra parte deste trabalho.


C)             PREFEITO JOSÉ ALEXANDRE CALDAS RODRIGUES

        Em 1958 o prefeito Alberto Silva e seu irmão João Silva Filho  lançaram pela UDN  a candidatura do Monsenhor Roberto Lopes Ribeiro como candidato a prefeito de Parnaíba, concorrendo com o empresário José Alexandre Caldas Rodrigues (PTB),  que tinha o apoio de seu irmão Francisco das Chagas Caldas Rodrigues, candidato a governador do Estado,  e do coronel Epaminondas Castelo Branco (PSD).
          O padre Roberto, como gostava de ser chamado, era forte candidato em razão das obras que realizou na cidade, destacando-se a construção  da igreja     de São Sebastião  e a Igreja de São José, além da construção do Ginásio Clovis Salgado.
          Sacerdote dinâmico, o padre Roberto foi professor e um dos fundadores do Ginásio Parnaibano, hoje Colégio Estadual Lima Rebelo.
          Diferentemente do que se poderia imaginar, a cúpula da Igreja Católica em Parnaíba apoiou, embora discretamente, José Alexandre por influência do deputado Chagas  Rodrigues, muito estimado pelo clero parnaibano.
          Para agradecer o recebimento do livro O CRIME DA PRAÇA DA GRAÇAo escritor Assis Fortes, ex-seminarista e amigo pessoal do primeiro bispo de Parnaíba, Dom Felipe Conduru Pacheco  (1946-1959), me enviou uma carta, em 18-06-2008, com revelações importantes:

       “Dom Felipe tinha, como eu tenho ainda hoje, um certo amor de predileção pelo nosso eterno governador Chagas Rodrigues, o melhor governante que o Piauí já teve. Não poderia Dom Conduru fazer campanha para o Monsenhor Roberto Lopes e por tal motivo sofreu amargamente por optar, embora discretamente, pela candidatura de José Alexandre, irmão de Chagas, o grande benfeitor da Diocese, quando era deputado federal. Sei dessas coisas porque, além de merecer confidências de Dom Felipe, trabalhei nas campanhas do PTB, em prol  de Chagas Rodrigues”.

          O acontecimento de maior repercussão durante o primeiro ano da gestão de José Alexandre foi o assassinato de Alcenor Rodrigues Candeira, em 11 de outubro de 1959.
          José Alexandre administrou a cidade no período de 1959 a 1962, deixando como principais realizações:
 - luta pela estadualização do Ginásio Parnaibano
          - luta pela estadualização da Escola Normal Francisco Correia
          - luta pela implantação de ensino superior em Parnaíba
          - abertura de estradas vicinais
          - calçamento de ruas e avenidas
          - ampliação da rede municipal de ensino.
           Por sua firme e corajosa posição política contra o regime militarfoi-lhe cassado o mandato de deputado estadual em 1964 e punido com a redução dos direitos políticos.


D)             PREFEITO JOSÉ QUIRINO MEMÓRIA

   Com a renúncia de José Alexandre para candidatar-se a deputado estadual em 1962, assumiu a chefia do Executivo o Presidente da Câmara Municipal José Quirino Memória, filiado ao PTB.
          O vice-prefeito era o dr. Mariano Lucas de Sousa, pertencente ao PSD,    liderado pelo coronel Epaminondas Castelo Branco. Por que o dr. Mariano não assumiu a função  de prefeito?  Até hoje não entendo o gesto do grande e querido médico. Teria sido por pressão de líderes do PTB que não  queriam que o PSD ocupasse o elevado cargo?
          José Quirino executou várias obras no curto espaço de tempo em que administrou Parnaíba, tendo, segundo a professora Aldenora Mendes Moreira, em livro citado na bibliografia, “realizado uma administração caracterizada por realizações marcantes onde deixou o traço indelével de seu  trabalho e de sua honestidade”.


E)               PREFEITO LAURO ANDRADE CORREIA

         Nas eleições municipais de 1962 três candidatos disputaramo cargo de prefeito municipal: Cândido Oliveira (UDN), José Oscar Freitas (PSD) e Lauro Andrade
Correia (PTB), que foi o vencedor.
          Logo que assumiu o cargo, Lauro Correia enfrentou uma grande batalha pela preservação da integridade territorial do município. A Assembleia Legislativa do Estado do Piauíhavia aprovado e o Governador Petrônio Portella sancionado  as leis que criaram os municípios dos Morros da Mariana e de Bom Princípio, dilacerando o domínio territorial de Parnaíba.  O objetivo principal do desmembramento era beneficiar os candidatos derrotados , que deveriam ser contemplados com os cargos de prefeito desses povoados.
          O prefeito Lauro Correia, derrotado politicamente nesse episódio, foi vitorioso no Supremo Tribunal Federal, que julgou inconstitucionais as referidas leis.
          Outra ocorrência relevante durante asua gestão foi o
envolvimento de políticos do PTB (José Alexandre Caldas Rodrigues, Lauro Andrade Correia, José Nelson de Carvalho Pires, Ary Castelo Branco Uchoa, João Batista Ferreira da Silva, Benedito Ferraz e outros) no episódio da surra dada em 1965 pelo Coronel do Exército Pedro Borges e outros teresinenses no Capitão dos Portos do Estado do Piauí,
Capitão de Corveta Manuel Jansen Ferreira Neto. Tempos de ditadura militar instalada no país com o golpe de 31 de março de 1964, período em que o direito da força sobrepunha-se à força do direito, com prisões políticas e cassações de mandatos eletivos. Uma das vítimas foi Lauro Correia que sofreu ameaças de prisão.
          Lauro Correia foi prefeito de Parnaíba no quadriênio
1963 a 1966, realizando a primeira administração planejada em território piauiense, através dos Planos Quinquenal, Diretor e Urbanístico, bem como dos Códigos de Posturas,
de Obras e Tributário.
          Outras realizações:
          - Oficialização do Hino da Parnaíba e de outros Símbolos Municipais: Bandeira, Armas e Selos
          - aquisição de sede própria para a Prefeitura na avenida Presidente Vargas
          - campanha pela construção da Barragem de Boa Esperança
          - implantação do serviço de abastecimento d´água tratada e canalizada
           -Construção do Centro Cívico.
          Lauro Correia foi presidente da Federação das Indústrias do Estadodo Piauí, um dos fundadores da Faculdade de Administração de Parnaíba em 1969  e diretor do Campus Ministro Reis Velloso  da Universidade Federal do Piauí, da qual é professor emérito.


F)              PREFEITO JOÃO TAVARES SILVA FILHO

Ingressou na política na década de 1950, elegendo-se vereador e vice-prefeito.
          Médico humanitário, simples, estimado pela população,- João Silva foi um dos grandes prefeitos de Parnaíba,  com dois mandatos.
          No primeiro governo executou uma das obras mais importantes da história administrativa da cidade: a construção de muretas de proteção contra enchentes nos dois lados do rio Igaraçu: bairros Coroa (Nossa Senhora do Carmo), Tucuns (São José)e  Ilha Grande de Santa Isabel. Com essa iniciativa foi solucionado definitivamente o problema de alagamentos na cidade.
     Com o apoio do irmão Alberto Silva, então presidente   da CENORTE, em Fortaleza, conseguiu trazer para a cidade a energia elétrica de Paulo Afonso, depois substituída pela energia de Boa Esperança, bem como o sinal de televisão.
          No segundo governo destacam-se as seguintes obras:
          -Abertura e pavimentação de novas ruas e avenidas
          -Construção do calçadão central e jardins ao longo de boa parte da avenida São Sebastião
          - Construção de escolas, creches e postos de saúde.
          Um dos episódios típicos da politicagem aconteceu na eleição para prefeito no ano de 1982, disputada por João Silva contra Mão Santa, que já havia sido derrotado na eleição anterior por Batista Silva, que governou o município de 1977 a 1982. Refiro-me a um comício promovido nos Morros da Mariana por João Silva. A turma do Mão Santa espalhou  na estrada para o antigo povoado pedaços de madeira com pregos expostos para furarem pneus de veículos de opositores. O episódio inspirou a musiquinha “Ai preguinho”, tocada em rádios e em comícios, infernizando a vida de Mão Santa, derrotado pela segunda vez.
          João Silva governou o município durante dez anos, com dois mandatos : 1967-1970 e 1983-1988.

          Nas suas gestões  merece ainda destaque o papel desempenhado por Almira  Moraes e Silva  como primeira dama e titular da Secretaria de Assistência Social do Município na organização do trabalho dos artesãos parnaibanos.

(Continua na próxima semana)

domingo, 9 de outubro de 2016

Pedro Rocha


Pedro Rocha 

Reginaldo Miranda
Ex-Presidente da Academia Piauiense de Letras

A região centro-sul do Piauí perdeu um médico humanitário; a sociedade florianense está mais pobre; Bertolínia perdeu um filho ilustre. Ao raiar do último dia 7 do corrente mês de outubro, faleceu na cidade de Floriano, onde residia, o médico Pedro Alves Pereira da Rocha, o estimadíssimo Dr. Pedro Rocha.

Ele entrou pela vida ao cair da noite de 29 de junho de 1934, em Aparecida, hoje Bertolínia. Nasceu na mesma praça em que o autor dessas notas, defronte à igreja de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Ali, na pequena praça viveu os dias felizes de sua infância, brincando ora à sombra das mamoranas, ora nos quintais de seus familiares, colhendo frutos e fazendo pequenas peraltices com os irmãos mais novos e os colegas de sua geração. Completada a idade escolar frequentou a Escola Agrupada Bertolino Rocha, cujo nome é uma homenagem ao seu bisavô, onde iniciou o ensino primário.

No berço familiar, recebeu lições valiosas que ajudaram a formar sua personalidade, sob a firme orientação de seu saudoso pai, Antenor Alves Pereira da Rocha, servidor do IBGE e então prefeito municipal por mais de uma década; a mãe sempre boníssima e dedicada, preocupada com a educação dos filhos, foi dona Idalina Mendes da Rocha, matriarca de uma geração bem sucedida. O menino de Aparecida também conviveu com o velho avô Manuel Emídio, então chefe político da pacata vila.

Ainda de calças curtas foi mandado para Floriano, convivendo na companhia de familiares, onde prosseguiu com sua formação educacional. Matriculado na Escola Agrônomo Parentes, ali concluiu o ensino primário. Nesse tempo, recebeu aulas de reforço ministradas pela professora Jovina de Carvalho Mendes, preparando-se para alçar maiores voos. Foi no Ginásio Santa Teresinha, daquela cidade que cursou o ensino ginasial.

Nessa altura da existência, adolescente foi mandado para Salvador, na Bahia, onde, durante três anos cursou o científico como aluno-interno do Colégio Maristas.

No ano de 1955, ingressa no curso médico da tradicional Faculdade de Medicina, então já integrada à Universidade Federal da Bahia, ao lado de um primo, Gilberto Martins de Araújo Costa, que, mais tarde, também se destacaria na profissão. Perspicaz e inteligente,Pedro Rocha houve-se com distinção ao longo do curso, formando-se em outubro de 1962. Na mesma Faculdade especializou-se em Ginecologia e Obstetrícia. Ao final dos estudos foi premiado juntamente com um grupo de colegas, com viagem de estudos à Europa.

De regresso ao Piauí, fixou-se profissionalmente na cidade de Floriano, então um importante polo regional. Abriu clínica médica e, a partir de janeiro de 1963, dedicou-se com afinco e denodo à profissão, atuando no atendimento clínico e cirúrgico da especialidade.Foi pioneiro no tratamento preventivo do colo uterino, prestando, assim, inestimável serviço àquela região.

Depois de submeter-se a concurso público, passou também a trabalhar no posto doantigo  INPS, hoje INSS. Como reconhecimento por seu relevante trabalho, a Câmara Municipal de Floriano outorgou-lhe o título de cidadania local.

Do início de sua atividade profissional, gostaria de lembrar um fato que me é muito caro. Estando minha mãe grávida do primeiro filho em agosto de 1964, começou a sentir dores e dificuldades na cidade de Bertolínia, ao final dos festejos de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Porém, ali se encontrava o jovem médico Pedro Rocha, participando dos festejos religiosos. E sob instâncias de meu avô Dermeval Rocha, então prefeito da cidade, atrasou seu retorno à cidade de Floriano, adiando, assim, seus compromissos para fazer o parto de minha mãe numa segunda-feira(17 de agosto). Nasci, assim, por suas mãos na cidade de Bertolínia, nossa terra comum. Durante minha infância ele ainda teria oportunidade de me atender por algumas vezes, entre Bertolínia e Floriano, até minha mudança para Teresina, aos 13 anos de idade.

Sobre sua vida familiar, Pedro Rocha convolaria núpcias em 29 de junho de 1965, na cidade de Bertolínia, com a professora de inglês e artes industriais, Eva Macedo, natural de São João dos Patos, mas exercendo sua profissão em Floriano. O casal gerou quatro filhos, todos esmeradamente educados e bem-sucedidos na vida: Pedro Júnior e Jaime, são pós-graduados e empresários radicados em Fortaleza, o primeiro tendo sido meu contemporâneo de brincadeiras nas férias escolares em Bertolínia; Cristiane, é enfermeira com mestrado, professora universitária e coordenadora geral do SAMU-PI; por fim, Jairo, é médico cardiologista em Brasília(DF).


Pedro Rocha foi um profissional competente, dedicado, com larga folha de serviços prestados, sobretudo ao centro-sul do Piauí e ao leste maranhense. Homem honrado, decente, educado, um verdadeiro gentleman, cuja ausência fará falta a todos nós que privávamos de sua amizade e consideração. E, como preito de justa gratidão, registro essas notas para a memória dos pósteros.  

Seleta Piauiense - Cid Teixeira de Abreu


Como seria bom

Cid Teixeira de Abreu (1937 – 2004)

1.
como seria bom
se eu rolasse a vida
com a esperteza dos meninos
que rolavam a bola
pelo bariri

e o placar
me fosse favorável
no apito final

2.
aprendi a contar
pelos urubus
que escureciam a tarde
para o pernoite
e algumas vezes errava
pelo retardatário
que se distraía
num fato de boi

3.
os peitos das lavadeiras
eram bem maiores
que a lage
onde batiam roupa
só minha infância
entendia esse contraste    

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Inéditos


Inéditos

Fabio Morábito
( trad. Vasco Gato)

Pedem-me sempre poemas inéditos.
Ninguém lê poesia
mas pedem-me poemas inéditos.
Para a revista, o jornal, a performance,
o encontro, a homenagem, o sarau:
um poema, por favor, mas inédito.
Como se soubessem de cor o que escrevi.
Como se estivessem cheios da minha poesia
e precisassem agora de algo inédito.
A poesia é sempre inédita, disse o poeta num poema,
mas eles ignoram-no porque não lêem poesia,
só pedem poemas inéditos.

Fonte: Blog Modus Vivendi

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXIV


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXIV

Melancólica despedida

Elmar Carvalho

Uma ou duas vezes por semana, Marcos aparecia no cabaré de Gracinha. Quando ela não estava na sala ou no alpendre, o rapaz notava certa má vontade de Lurdinha, sua mãe, como se em seu íntimo não lhe desejasse a presença. Existia mesmo certa antipatia recíproca. Ele também não morria de amores pela “velha bruxa”, como a chamava em pensamento. Mas quando Gracinha chegava, afável e risonha, o cenário parecia mudar, e até Lurdinha fingia lhe ter simpatia.

Após algum tempo, os dois iam para o quintal. A rapariga o tomava em seus braços, e se tornava pródiga em afagos, carícias e ternura. Aliás, ela se tornava, com o passar do tempo, cada vez mais meiga e amorosa. Contudo, Marcos já estava ficando enjoado desse namoro pudico com uma meretriz, e sempre tentava ir “às vias de fato”.

Gracinha, porém, com muita perícia se esquivava, o que deixava o jovem ainda mais fremente e ansioso. Entretanto, parecia ser isso o que ela desejava, valorizar-se com essas esquivanças e negaças, e fazê-lo ainda mais apaixonado. O rapaz, já com alguma experiência prática e por via de leituras especializadas, sabia dessas intenções, e no começo não se enfadava com isso. Chegava a ter certo prazer nesse jogo amoroso.

Contudo, achava que isso já estava se tornando um tanto enjoativo e prolongado em excesso. Afinal, a madame transava com qualquer homem que a sustentasse ou a remunerasse bem; por que não ia aos “finalmente” com ele? Por que ficava nessas infindáveis preliminares com ele, que sequer eram preliminares, mas apenas um namoro com certo recato de donzela virgem?

Talvez, como uma espécie de compensação psicológica ou coisa que o valha em psicologismo romanesco, ela, nesse namoro, quisesse recordar os seus tempos de adolescente “encabaçada” e pura. Ou talvez pensasse que se Marcos a possuísse iria achá-la igual a todas as outras raparigas, e fosse logo se cansar dela; a não lhe ter mais ternura e respeito, como demonstrava ter, ou pelo menos o fingia de forma convincente.

Já na idade madura, Marcos leu um poema, salvo engano de Goethe, em que uma mulher prolongava o momento de se deixar penetrar, para que o seu homem ficasse ardendo de desejo por ela. Essa fêmea sabia que o seu macho, ao se saciar, já não lhe daria a mesma importância de antes da fornicação e do gozo. Esse texto lhe fez lembrar as manhas e artimanhas de Gracinha, as suas carícias mais ternas, mais etéreas, os seus avanços, recuos e negaças de puta ardilosa, que desejava tirar onda de santinha do pau oco.

Um dia, de chofre, talvez para testar seus sentimentos e reação, Gracinha lhe deu a notícia de que iria se mudar para longe, para o Bairro Floresta, do outro lado do Paraguaçu. Não lhe deu o motivo dessa mudança. Segundo notava, ela não gostava de pedir favores e muito menos se queixar. Agia com profissionalismo, tanto na administração do prostíbulo como no trato com as raparigas e os clientes.

Marcos ouviu comentários contraditórios. Uns diziam que o proprietário do imóvel não quisera renovar o contrato ou pedira um valor exorbitante. Outros diziam que um alto comerciante lhe propusera tê-la como teúda e manteúda, desde que ela fosse exclusividade sua e se mudasse para o Bairro Floresta, onde ficaria num imóvel de sua propriedade. Prometera lhe doar esse sítio, caso se mantivesse fiel, durante o tempo em que mantivessem a mancebia.

O novo ponto de Gracinha ficava a aproximadamente três quilômetros da casa de Marcos, na periferia da cidade, quase no início da zona rural. Duas semanas após a mudança, o rapaz foi visitá-la no novo endereço. Mais uma vez constatou a antipatia de Lurdinha, que foi logo lhe dizendo, sem cumprimentá-lo:
– A Gracinha está no quarto, dormindo.

Não fez a menor insinuação de sorriso, e muito menos o convidou a se sentar. Tampouco puxou conversa. Marcos se sentiu chateado, mas entrou na sala e se sentou. Afinal, não queria que os três quilômetros que percorrera em sua velha e pesada bicicleta da marca Bristol fossem em vão. Quando a “velha bruxa”, por não revelado motivo se ausentou, Marcos entreabriu a porta do quarto em que estava Gracinha. Sentou-se na cama, ao seu lado, e tentou abraçá-la e afagá-la. Ela correspondeu por um breve instante, mas logo se levantou, algo nervosa, e disse de forma firme, quase ríspida:
– Não, Marcos, peço que vá embora. Estou esperando o Feitosa. Ele pode chegar a qualquer momento. Peço, por favor, que não volte mais, pois ele sempre chega em momentos inesperados, e pode haver olheiros entre os vizinhos.  

O rapaz se sentiu um tanto ofendido e frustrado. A frustração se devia ao fato de nunca haver conhecido Gracinha, no sentido bíblico do termo. Por isso mesmo, decidiu que na semana seguinte voltaria. Pretendia manter relação sexual com ela, e dela se afastar para sempre, de forma digna e sem melodrama. Não desejava criar-lhe nenhum tipo de problema, e nem tampouco ter aborrecimento com o comerciante, que tinha uns bajuladores e capangas.

Conforme planejara, retornou na semana seguinte, na sua velha Bristol. Era um dia de quarta-feira, feriado, final de tarde, já quase escurecendo. Não encontrou ninguém na sala. Foi até o quintal, onde havia umas árvores frondosas. Debaixo de uma mangueira notou que estava havendo uma bebedeira, com a participação de homens e mulheres.

Viu Gracinha curvada, a beijar um velhote gordo, de enorme papada, escangotado, quase a cair da cadeira. Havia uma pilha enorme de garrafas de cerveja, e tanto os homens como as mulheres riam e falavam alto, denotando os efeitos do álcool. Travessas e pratos de comida guarneciam a grande mesa de madeira. A vitrola tocava um bolero em alto volume.

Marcos demorou um pouco. Viu que Gracinha percebera sua presença. Triste e decepcionado, se afastou do local, em passos lentos. Quando atravessava a sala, para sair, foi alcançado pela mulher, que o agarrou e tentou beijá-lo, já com fortes sintomas de embriaguez, a exalar o hálito amargo da bebida, que lhe pareceu repulsivo.
– Marcos, não vá agora. Não fique com raiva de mim. Eu te amo. Da próxima vez, eu vou deixar você me comer. Vou fazer tudo o que você quiser, do jeito que você desejar, mas não fique com raiva de mim.

O rapaz fixou bem o rosto de Gracinha. Mais do que mágoa, raiva ou frustração, sentiu tristeza e pena dela. Seus olhos úmidos estavam avermelhados pelo excesso de bebida. A boca suja de farofa e da baba gosmenta do velho lhe provocou uma espécie de asco. Marcos a repeliu, sem violência, mas com bastante firmeza, até sentá-la no sofá.

Pedalou forte, para se afastar com rapidez. Ainda ouviu, quando dobrava a curva do caminho, através da vitrola possante, em melodramático diálogo musical, o vozeirão do cantor implorar: “Não se vá!” E a voz suave da cantora, mais trágica ainda, rebater: “Estou partindo porque sei / Que você já não mais me ama...”   

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Convite da APL para lançamento de livros


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: Rosa dos Ventos Gerais, nº 61, de Elmar Carvalho; Meia-vida – romance – 2ª edição (revisada), nº 70, de Oton Lustosa; Rio Subterrâneo  e Como e Por que me  Fiz Escritor, nº 77, de O. G. Rego de Carvalho, todos da Coleção Centenário, bem como Duzentas Crônicas Vividas, de José Ribamar de Barros Nunes; Nossos Poemas, de José Maria de Carvalho.



Nelson Nery Costa
Presidente



Data: 8 de outubro 2016 (Sábado)
Horário: 10 horas
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86)  3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI

OBS.: Será apresentada uma performance (em forma de monólogo) com poemas de Elmar Carvalho. A encenação será realizada pelo professor, escritor e ator José Teixeira.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Discurso em Apresentação a Apenas memórias


Discurso em Apresentação a Apenas memórias 

Dílson Lages Monteiro

Senhores e senhoras,

Referindo-se a Francisco da Cunha e Silva Filho, o professor e ficcionista Godofredo de Oliveira Neto, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, definiu-o como um “sempre estudante”. De fato, foi a busca contínua e apaixonada do e pelo conhecimento o elemento central da trajetória que vem percorrendo com um entusiasmo, cuja chama se renova e renova na mentalidade de que a aprendizagem é matéria infindável.

Cunha e Silva Filho, piauiense da fantasmagórica, misteriosa e poética Amarante, chega aos 70 anos apresentando-nos, como escritor, uma das facetas de sua escritura para a qual sempre manifestou uma inclinação natural, o memorialismo. Sua produção mais conhecida entre os piauienses consiste em estudo pioneiro sobre a Obra de Da Costa e Silva, pesquisa que, por si só, já o situaria entre os grandes nomes da crítica acadêmica em nossas letras. Mas, nessa diretriz, ele não parou por aí. Ao longo de sua trajetória de escritor-pesquisador, debruçou-se sobre os mais valorosos autores da literatura piauiense, de antigos e consagrados nomes a escritores de obra ainda em construção, e construiu, em dezenas de ensaios inquietantes, um panorama do que de melhor se produziu no Piauí, em esforço cujas análises, a maioria, ainda inédita em livro.

Morando no Rio de Janeiro desde 1964, fez-se Pós-Doutor em Literatura pela UFRJ e exerceu por décadas o magistério, lecionando Inglês e Literatura Brasileira no Colégio Militar do Rio de Janeiro e na Universidade Castelo Branco. Colaborando, de longa data, com a imprensa escrita de Teresina, São Paulo e Rio de Janeiro, escreveu – e escreve - regularmente sobre temas do campo das letras e  questões contemporâneas mais polêmicas. De sua produção, cabe mencionar Além de Da Costa e Silva: uma leitura da saudade, de 1966, Breve Introdução ao Curso de Letras: uma orientação (2009) e As ideias no tempo (2010). Agora, em 2016, apresenta-nos Apenas Memórias. Apresenta-nos o percurso lírico-afetivo e didático de descobertas e lutas que empreendeu entre Amarante, Teresina e Rio de Janeiro, em viagem sentimental da qual ganhará o leitor mais do que a percepção de olhares sobre o Piauí e o tempo entre as décadas de 1940 e 1960, mais do que a percepção de olhares do Rio de Janeiro, do eu emergido na busca por mobilidade social e formação, a partir de meados de 1964. Ganhará o leitor  de Apenas Memória a oportunidade de situar-se entre experiências que são, acima de tudo, lições de persistência, sonho, idealismo e dedicação. 

Senhores e senhoras,

Para que servem livros de memórias? O que justificaria o interesse crescente pela produção e pela leitura desse gênero entre nós? O memorialismo tem se anunciado como espaço para a avaliação da vida, como documento ou interpretação da vida privada e da vida político-social, ultrapassando os limites dos gêneros e situando-se para além do narcisismo que dá origem a essa matiz de escritura. Trata-se de oportunidade para avaliar acontecimentos e figuras, representando-os, com o distanciamento e/ou o comprometimento necessário (s), a fim de que a isenção e/ou o compromisso afetivo, antagonicamente, construa(m) um olhar particular da existência, atirando o leitor para o fundo de situações em que a imaginação vale tal qual a representação da realidade. 

Nas memórias, reminiscências funcionam como pano de fundo para outras intenções. Lembrando, o memorialista relê-se: revive, denuncia, desculpa, silencia, documenta etc. e, enfim, emociona-se; emociona. Reminiscências deixam de ser apenas lembranças, para que aflorem as camadas mais subjacentes da linguagem, as quais dão ao gênero a tonalidade, a partir dos traços mais característicos da personalidade do narrador e da identidade dos tempos e dos espaços que relata, (re)cria ou revive. Compõe-se, assim, o gênero memorialístico de confissões e testemunhos, para condensar uma forma particular de enxergar o mundo e as relações sociais e humanas nele construídas.

Em Apenas memórias, Cunha e Silva Filho elabora escritura que ultrapassa o simples relato de situações e o retrato de pessoas com quem convive ou com quem conviveu; vai adiante das simples reminiscências e, por isso, a obra atinge dimensão estética. A dimensão estética de suas memórias se fundamenta em dois princípios subjacentes a cada fragmento do pensar e na tessitura circular que remete à própria elaboração do pensamento.  Situando as lembranças entre os acontecimentos vividos no Piauí e no Rio de Janeiro, a tônica da escritura foca-se ora no lirismo, ora na intenção didática subliminar, tônica com duas funções evidentes, respectivamente: recordar, para sentir saudades,  ou para  orientar e avaliar a formação humana, a partir de seu percurso pessoal nas relações sociais. Esta segunda vertente, linha central de todo o livro.

Ao Evocar a saudade, vê-se o hedonismo escapista do olhar romântico confundir-se com o idealismo não menos romântico, presentes em todo o texto: o prazer em simplesmente sentir saudades (a saudade da mãe, do pai, do quarto-biblioteca, da rua Arlindo Nogueira, da adolescência, da universidade, dos amigos, do subúrbio carioca, ou simplesmente, dos flertes e do amor em forma de contemplação); o idealismo expresso no domínio da língua estrangeira, na ampliação da cultura geral e na conquista da cidade grande em meio às incertezas (a busca por moradia, por trabalho, por novos amigos, pela cultura acadêmica, enfim, pela afirmação de uma nova identidade, alicerçada nos encantos  do saber e da paisagem carioca, nos desafios do magistério e nas novas e frutíferas amizade que conquistou).

Assim, figuram na obra as lembranças da família, das escolas onde estudou, de Amarante de meados de 1940, da Teresina da infância e da adolescência e do Rio de Janeiro a partir de 1964. A mãe Ivone aparece em seus traços físicos (“uma jovem senhora de cabelos escuros meio ondulados, pele morena clara e bela naquele sempre lembrado sinalzinho por sobre os lábios”); o pai Cunha e Silva, proprietário do Ateneu Rui Barbosa em Amarante, figura como  diligente professor e combativo jornalista (“sempre que possível me via atento ao que meu pai fazia: preparando aulas, lendo e, logo depois, falando em voz alta sobre o assunto da aula, ou lendo continuamente livros, jornais,  ou ainda escrevendo febrilmente artigos para jornais locais”); Teresina é principalmente a biblioteca do pai, onde descobriu o gosto pela leitura (“fazia intensas e contínuas leituras, quase diárias, de antologias que me chegaram às mãos ou mesmo aproveitando tudo de textos de livros didáticos de língua portuguesa do ginásio e científico ou clássico, para deles fluir, ora o sabor do lirismo poético, ora o enredo das narrativas, ora ainda procurando dinamizar a capacidade de conhecer palavras novas, de saber-lhes os sentidos e, quando possível, internalizá-los ao máximo de minhas possibilidades); Teresina é os Colégios Domício de Magalhães e, sobretudo, o Liceu Piauiense, onde se intensificou o estímulo para estudar a linguagem e conheceu grandes mestres (No Liceu Piauiense, conheci professores de grandes méritos. A. Tito Filho (1924-1992), mestre inigualável. Pontual, dedicado às suas aulas tipo conferência, nas quais, além, da disciplina específica, despertava os jovens à reflexão crítica dos grandes temas de natureza histórica, política e social”); Teresina é a lembrança da janela da rua Arlindo Nogueira e a imagem pitoresca dos transeuntes (“essa janela se confunde com a minha passagem da infância para a adolescência. (...) nada me agradava mais ficar olhando para a rua e ver a passagem das pessoas no vai e vem dos transeuntes, dos carros, carroças, vendedores de rua, sobretudo das cuscuzeiras. Ó famosas cuscuzeiras! (...) Da janela, aprendi a ver as meninas mais lindas de Teresina e não me intimidava a lançar-lhes um olhar mais ousado” ); Teresina é os carnavais de antigamente, o último carnaval antes de rumar para o Rio de Janeiro (“Era fevereiro de 1964. (...) Naqueles carnavais de minha terra, em se tratando de cenas de ruas, a grande expectativa do povão  era permanecer dos dois lados da avenida Frei Serafim, ou de outras ruas para esse fim escolhidas, aguardando a passagem dos carros com gente fantasiada, à semelhança do que aquele povão fazia, mas em ocasião solene, no dia da ‘parada’ de sete de setembro.”)

Assim, figura o Rio de Janeiro dos espaços conquistados pela força do trabalho, dos livros e do estudo, alimentado pela grandeza do idealismo e da saudade. O idealismo e a saudade do que aprendeu na temporada de quatro anos como funcionário de banco, no estágio no Diário de Notícias, no bico no Diretório Acadêmico de Engenharia da PUC-Rio, na convivência no restaurante Calabouço e na universidade, na amizade de Ribamar Garcia, no casamento com sua amada Euza, na leituras de sua formação docente, nos subúrbios cariocas etc. Paro de enumerar, por que creio já os cansei o suficiente e a leitura do livro já dispensa qualquer apresentação, ainda que apresentações tenham a função de situar a obra, ou instigar o leitor e fornecer-lhes rumos para a leitura. Não poderia, entretanto, finalizar sem me remeter a uma das principais estratégias de que se vale o escritor Cunha e Silva Filho para fisgar o leitor.

Anota Perelmam e Obrecht-Tyteca, no clássico Tratado da Argumentação, que toda analogia transforma-se espontaneamente em metáfora. Em Apenas memórias, o narrador, ao eleger os referentes de sua memória afetiva, intercala-os com digressões que funcionam como passagens para julgamentos ou avaliações nem sempre explicitados, mas que, ao modo da construção de uma metáfora, estabelecem novos sentidos ao tópico sobre o qual se detém. Funcionam as digressões como termos comparantes, tal qual ocorre na metáfora mais convencional, e assim se transferem noções de sentido que dão mais dinamismo ao ato de recordar, estimulando o conhecimento prévio do leitor e seu maior envolvimento na formulação das hipóteses tão peculiares ao ato de ler. Ao utilizar essa estratégia, o narrador funde o memorialismo à crônica e subverte o relato, aspecto que se amplia na natureza alinear que perpassa todo o livro e que, paradoxalmente, dá-lhe unidade. Passado e presente se confundem e se transformam em tempo único, fortalecendo o memorialismo em um de seus traços temáticos valiosos, o não esquecimento.

Senhores e senhoras,

Que controle temos sobre nossas memórias? Elas costumam ser como um barco à deriva, que navega ao sabor de nossas percepções, ou um trem descarrilhado que não se sabe onde vai parar. Ao fluxo das lembranças, somos tomados de múltiplas sensações a tal ponto que a razão, não raro, é encontrada nos caminhos do afeto e da emoção.

Em Apenas Memórias, de Cunha e Silva Filho, para além do fundo moral, que comporta estudo detalhado, a lembrança tem sua feição primeira na satisfação de amar o passado, de querer fixar nas dobraduras do tempo o horizonte do olhar, referendando o que disse sobre a lírica Salvatore D’ Onófrio: “Operando na linha da similaridade, por meio de processo psíquico de associação, a lírica encontra relações surpreendentes entre o sentimento do presente, as recordações do passado e o pressentimento do futuro, entre os fenômenos da natureza cósmica e os atributos do ser humano”.



Boa leitura! Muito obrigado!


Discurso proferido na solenidade de lançamento de Apenas Memórias, de Cunha e Silva Filho, na Livraria Entrelivros, em Teresina, na noite de 24.09.2016.