terça-feira, 27 de setembro de 2016

CONSIDERAÇÕES EM FORMA DE CARTA A ELMAR CARVALHO



CONSIDERAÇÕES EM FORMA DE CARTA A ELMAR CARVALHO

Cunha e Silva Filho

             Era para lhe ter feito o comentário que ora lhe faço, mas, como usava, aí em Teresina, um tablet, eu não conseguia digitar o texto no espaço adequado.

            Agora, de volta à minha casa, escrevo-lhe, como habitualmente, do meu computador.

         V. me antecipou, poeta "malabarista do verso," na crônica “Passeio sentimental no tempo e no espaço” o que eu faria também sobre a nossa visita a Amarante, quer dizer,   o que nós, em família, experimentamos  na viagem  de algumas horas a Amarante. E o fez em crônica saborosa, fiel aos acontecimentos vividos por mim, V., Fátima e Elza.

            Foi, na verdade, o que poeticamente diz o título da mencionada crônica. Vejo  que o amigo, no seu texto se mostrou, como vem fazendo ao longo do  processo de sua  escrita literária, seja em poesia,  seja em prosa, exemplarmente  nesta  tarefa de relatar  com   naturalidade    e  sentido  lírico, fixando  o olhar  na paisagem  humana,  na paisagem   física e na sua forma de   interpretar  os homens e os fatos  com muita   dose  de humor  saudável, brincalhão,  mesmo fazendo coisas sérias, que é  produzir suas crônicas   no seu conhecido e bem lido “Blog de Elmar Carvalho”.

           A sua crônica, portanto, não deixou um único aspecto de fora em "nossa" visitação à Amarante, ao fundir harmoniosamente as nossas vivências com vida literária.

          Daí, a adequação que teve para declamar um poema seu com o seu sotaque tão característico e cheio de exaltação lírica, resultando num quadro perfeito de escrita posteriormente elaborada.

          É pena que, no mirante de Amarante, a sua empolgação na fala aludindo ao poeta da Costa e Silva (1885-1950) e ao lamentar que foi rejeitado   o pedido  feito  ao filho  do poeta para  que os restos mortais  do maior vate  de Amarante e da poesia  piauiense  fossem trasladados do Rio para Amarante.É pena também que o, ao manejar o meu tablet, me faltasse  competência técnica para realizar  a filmagem com som e tudo.

         Ainda falando de sua crônica, há que nela se destacar a singularidade da escrita como resultado do que, de improviso, do alto da escadaria, ressaltou sobre as belezas bucólicas da cidade de Amarante e das serras do lado do Maranhão tendo como intermediação afetiva e nostálgica a figura do Velho Monge, do hoje maltratado rio Parnaíba, elemento físico inseparável da beleza natural daquela cidade que tanto amamos.

         V., Elmar, me surpreendeu como figura humana bem mais descontraída do que no tempo em que o conheci ainda muito jovem nos idos de 1990, tempo em que tive o grato prazer de iniciar com V. uma amizade que, da minha parte, jamais esvaecerá ainda que  sabendo o quanto, por vezes, as amizades  mudam para   melhor ou para pior. Da minha parte, julgo que será durável nos limites de nossa perenidade na Terra.   Já o considero uma pessoa que conquistou o meu coração e o da Elza.

       Volto à crônica que vinha comentando em alguns traços gerais. Mas, não posso esquecer   de  mencionar  o momento  de encanto quando  entramos no Museu  Odilon Nunes. Ali a história se volta inteiramente para o passado e toca todas as fibras do meu ser saudoso, sempre tentando conviver com o valioso legado da afetividade relacionada à figura de meu pai.

     As fotos que tiramos juntos têm como elemento de identidade e aproximação entre nós o sentimento profundo da afetividade minha e, creio, sua também, cujo ponto de união se manifesta através da presença do busto de meu velho pai, obra que é fruto do talento do meu irmão Winston, um escultor boêmio e desapegado das coisas materiais.

     Tudo naquele ambiente de objetos antigos da cultura amarantina me desconcerta e invade profusamente o meu mundo interior dadas as associações que ali fiz de todo um tempo que já foi vida trepidante, em salas nas quais meu pai, na condição de professor do Ginásio Amarantino, sob a direção de Odilon Nunes (1899-1989) tantas vezes por ali andou e principalmente por ali tinha seu espaço de sobrevivência, suas alegrias e tristezas e todas as vicissitude por que passa   a vida de um  docente.

      Ah, não poderia deixar de mencionar em nossa viagem sentimental algumas circunstâncias, que, no final, acabam por fazer parte da própria andança sentimental: a travessia de municípios no trajeto para Amarante, as cidades de, por exemplo, Regeneração, Angical, Água Branca; a parada de carro para um rápido lanche na Lanchonete do Sales cheia de santinhos de candidatos de todos os partidos; a dúvida que V. teve sobre qual a estrada, na agradável viagem de carro, seria a correta, pois, numa certa altura, ela se bifurcava em dois sentidos, um dos quais nos levaria a Amarante, porém, o problema logo felizmente foi resolvido pela informação de um morador; a dificuldade de encontrarmos o restaurante que queríamos constituíram momentos de muito humor para todos nós. Por último, o fato de que, naquela hora que estávamos em Amarante à procura da casa de minha irmã Sônia, observamos que toda a cidade     poderia estar fazendo sua sesta debaixo do calorão de uma cidade velha, cheia de mistérios e com um ar de solidão e abandono.

       V., graças à sua poesia com uma vertente dirigida à condição de poeta geográfico do Piauí, se sente, a meu ver, liricamente preso à velha Amarante, tanto mais que a poetizou engrandecendo assim o repertório da lírica amarantina em versos que seguramente ficarão gravados para sempre na história cultural da cidade.

     A poesia faz parte da sua personalidade literária, meu caro Elmar, e mesmo na sua ficção, ou na crônica, ela se faz presente.

      A sua crônica marca um ponto de convergência saudável e aglutinador entre a minha pessoa e a sua. Isso me é confortante e me desvanece o espírito.

     Sua crônica sela em definitivo uma amizade que passou do domínio da intelectualidade para o domínio de uma amizade que só poderá crescer com os anos. Ou seja, da condição de crítico de sua obra me tornei um seu amigo. Não é o primeiro caso na história literária brasileira ou universal.


    Quero, por outro lado, lhe agradecer mais uma vez pelo gentil convite que me fez e à Elza para, junto com a Fátima, fazermos uma deliciosa, histórica e afetuosa visita à minha Amarante regada a um "causeur" divertido, espirituoso, cavalheiro e sobretudo amigo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Um Juiz Educador e Boa Praça

Juiz José de Ribamar Fiquene

Um Juiz Educador e Boa Praça

José Pedro Araújo
Historiador e escritor

Estávamos no início da ditadura militar que governaria o país pelos 23 anos seguintes, quando chegou à cidade um jovem juiz de direito para assumir os destinos da comarca. Seu nome, José de Ribamar Fiquene. Cidadão tranquilo, amante das letras e das artes, logo nos brindou com duas das coisas mais importantes com que se pode presentear um cidadão: o acesso à justiça, e a uma educação de qualidade. Acesso à justiça feita através do emprego efetivo da lei, e acesso à educação disponibilizando o curso ginasial à população, além do curso normal e o de contabilidade. Fiquene, bom samaritano cultural, criara o hábito de fundar escolas por onde passava, propiciando o acesso à educação aos estudantes que não possuíam recursos suficientes para se deslocar para outras cidades mais desenvolvidas para dar continuidade aos estudos. O seu legado foi se estendo por onde passou até culminar com a fundação de uma universidade na cidade de Imperatriz. Por tudo que fez, a providência divina o presenteou com o cargo de governador de todos os maranhenses, cunhando seu nome definitivamente na história do Maranhão.
  
Hoje é possível avaliar que a qualidade do ensino do colégio por ele fundado não ficava a dever a nenhum outro, pois possuía um corpo docente que, favorecido por um conjunto de fatores favoráveis, fez com que se juntasse naquela época e em um mesmo local, profissionais da qualidade do professor universitário Hubert Lima de Macedo(história), do engenheiro Onildo Fortes(matemática),  e do próprio Dr. Fiquene(português), além de muitos outros que por lá passaram.
  
Vivíamos um tempo de revolução nos costumes através da música e das artes. Enquanto nos Estados Unidos da América e na Europa alguns cabeludos se insurgiam à velha ordem estabelecida através do movimento hippie, aqui nossos jovens criavam um novo ritmo musical, a bossa nova, que assombrava o mundo com o seu incrível teor melódico e suas letras simples, mas rebuscadas.  Ao mesmo tempo, enquanto lá fora os Beatles levava o temor a muitos com suas músicas de protesto contra o preconceito e a tirania, aqui o regime militar fechava mais ainda o sistema, e músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso, Torquato Neto, Gilberto Gil, entre tantos outros, se rebelaram e gritaram em alto e bom que “é proibido proibir”. Tal demonstração de coragem custou o exílio para alguns.
  
Talvez estimulados pelos ventos de liberdade que vinham do exterior, quase nunca noticiado pela imprensa brasileira ajoelhada perante o regime estabelecido, um grupo de estudantes, ao acabar a aula, se organizava em marcha e descia a rua Grande cantando palavras de ordem, como se estivessem em um desfile militar. Era uma brincadeira simples, sem intenção de se contrapor ao regime instalado. Mas o fato é que desagradou a certas pessoas com poder de mando. Naquele tempo as luzes da cidade se acendiam às 6: 00 da tarde e apagavam-se às 10:00 da noite. As tais marchas aconteciam exatamente após esse horário, passando talvez uma ideia de insubordinação. O certo é que algumas pessoas da comunidade foram até ao juiz, e também diretor do colégio, onde se originavam as passeatas, reclamar da situação.
  
Chamados por sua excelência para justificar tais atos, os líderes da brincadeira, responderam que não estavam provocando nenhuma desordem, e, apesar da insistência do diretor para que parassem com as passeatas, continuaram a fazê-las. Alguns dias depois, foram advertidos pelo diretor do colégio de que estavam suspensos em razão da insubordinação. Apesar do respeito e da admiração que o Dr. Fiquene gozava no seio da classe estudantil, houve uma revolta generalizada pelo que consideravam uma punição injusta e, portanto, desnecessária, contra aqueles jovens que só queriam se divertir, saindo da mesmice que atingia os jovens de uma pequena cidade do interior. E a coisa pararia por ali, se alguns indivíduos mau intencionados não tivessem se aproveitado do ensejo para lançar sobre o juiz todo o ódio que possuíam em razão de alguma decisão que não os beneficiava. E foi assim que no dia seguinte, em pontos estratégicos da cidade, como o mercado público, o banco do Estado e a agência dos correios, foram apregoados panfletos apócrifos com calúnias virulentas contra o juiz e a sua família. Pessoas sem nenhum escrúpulo haviam se aproveitando do acontecido com os estudantes para espalhar a sua bílis em forma de mentiras sobre uma família que só havia trazido o bem para a nossa comunidade.
  
Mostrando-se um ser normal, como os demais viventes, o nosso magistrado aceitou a provocação, engoliu a isca lançada. E a sua reação não se fez esperar. Achando que aqueles panfletos caluniosos haviam partido dos estudantes punidos por ele no dia anterior, como apontava a lógica, determinou que uma guarnição militar se deslocasse à casa de cada um daqueles rapazes com ordem para aprisioná-los, sob a acusação de terem atingido a honra da principal autoridade judicial do município. Ordem dada, ordem cumprida. Os jovens estudantes, alheios a tudo o que estava acontecendo, foram surpreendido ainda em casa enquanto dormiam.
  
Foi o que bastou para deflagrar uma onda de crescente descontentamento no seio da estudantada, e eles ocuparam a praça da matriz, e em frente a casa onde o juiz morava iniciaram um ato pacífico de protesto que entrou noite adentro. Estava quebrado o elo de confiança que unia o jovem juiz e educador e a classe estudantil da cidade de Presidente Dutra.
  
Depois de muitos discursos, uma comitiva formada por estudantes e políticos da cidade foi recebida pelo magistrado em sua casa, e lá, depois de muitas ponderações, convenceram o magistrado que as calunias assacadas contra ele e a sua família não haviam partido dos estudantes e sim de terceiros interessados em se aproveitar da situação para praticar um ato de vingança, por algum interesse contrariado. Analisando melhor a situação, Dr. Fiquene deu-se por satisfeito, e o ato público que se iniciara como protesto, terminou  com em ato de repúdio contra aquele ou aqueles que atingiram tão covardemente a honra daquele eminente educador que tantos benefícios trouxe à comunidade presidutrense.
  
Os jovens foram postos em liberdade imediatamente. Mas o clima fraterno estabelecido entre o magistrado e a comunidade estava irremediavelmente comprometido. Pouco tempo depois o magistrado foi transferido para outra cidade. Mas deixou funcionando um dos melhores colégios em que estudei e que me deu possibilidades de sair para a capital e disputar alguns anos depois uma vaga para a universidade em pé de igualdade com os outros estudantes. Muitos jovens que passaram pelos bancos daquele colégio, são hoje profissionais respeitados e levaram seus conhecimentos e saberes para várias partes deste imenso país.

Nascido em Itapecuru-Mirim, além de governador do estado, Fiquene foi prefeito de Imperatriz, senador, reitor da Uema, Membro da Academia Imperatrizense de Letras, e fundador da faculdade Athenas Maranhense(Fama). O nosso juiz bonachão também foi o autor da letra e música do hino da cidade de Imperatriz. Por tudo o que fez, é topônimo de um município maranhense, além de muitas e justas outras homenagens recebidas.     

Fonte: blog Folhas Avulsas

domingo, 25 de setembro de 2016

Passeio sentimental no tempo e no espaço




Passeio sentimental no tempo e no espaço

Elmar Carvalho

            No dia 23, em companhia de Fátima, por volta de oito e meia da manhã, cheguei ao hotel onde estavam hospedados Cunha e Silva Filho e sua mulher Elza, para levá-los a Amarante, a terra azul e encantada do poeta Da Costa e Silva, e de Cunha, seu grande admirador e analista literário. E também minha terra, já que lhe dediquei poema e crônicas, e já que tenho a honra de haver recebido o título de Cidadão Honorário desse belo e bucólico torrão.

            Aliás, na noite memorável em que recebi esse galardão, lancei o livro Amar Amarante, prefaciado por Marcelino Leal Barroso de Carvalho, que fora meu professor na Universidade Federal do Piauí, no curso de Direito. O livro continha o poema Amarante e as crônicas a que me referi, além de desvanecedor depoimento de Virgílio Queiroz. O auditório estava lotado, com irmãos maçons, vereadores, convidados, parentes e amigos.

Além do professor Marcelino, estavam presentes o prefeito Luís Neto, o vereador Inácio Pinto de Moura, autor da proposta de concessão do título, Virgílio Queiroz, que é poeta com nome de poeta antigo, Homero Castelo Branco, escritor e romancista, mas que também tem nome de poeta homérico e antigo, e que fez uma bela apresentação de Amar Amarante, cuja capa contém uma linda fotografia de Ana Cândida Nunes Carvalho, filha de mestre Marcelino. Virgílio e Marcelino, velhos amigos, disseram belas palavras, que me comoveram. O primeiro rememorou minhas antigas ligações com Amarante; o segundo se referiu a minhas lutas, sobretudo as de fiscal da extinta SUNAB e as de magistrado, bem como as ligadas à cultura e ao curso de Direito.

Desculpem-me a digressão temporal, e voltemos ao tempo presente. Fiz uma parada estratégica na Lanchonete Sales, situada na BR, na saída de Água Branca, que conheço desde que fui juiz em São Pedro, por um período de quatro meses. Mas depois, por muitos anos, quando fui titular da Comarca de Regeneração e do Juizado Especial de Oeiras, nela lanchei várias vezes.

Perguntei ao Sales se Água Branca possuía biblioteca pública. Ante sua resposta afirmativa, pedi-lhe o favor de entregar ao seu responsável a terceira edição de meu livro Rosa dos Ventos Gerais, inserido na Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras pelo seu dinâmico presidente Nelson Nery Costa. Recomendei-lhe que só fizesse a entrega após sua leitura. Ele sorriu e me disse que já tinha essa intenção, que para mim valeu mais do que um elogio. Despedi-me dele, que sempre me demonstrou apreço e consideração.

Já havia prevenido o bravo Cunha e Silva Filho que faria breve entrada na cidade de Regeneração, onde trabalhei por mais de seis anos e da qual recebi o título de Cidadão Honorário, por iniciativa do vereador Neto Leal. Como já cheguei tarde não fiz as visitas que pretendia fazer. Assim, mantive contato apenas com a empresária, escritora e agitadora cultural Nileide Soares, que me recebeu com a sua lhaneza de sempre e o seu contagiante entusiasmo.

Após minha promoção para a Comarca de Oeiras, a Nileide me prestou grande tributo. Fui o poeta homenageado de uma das edições do sarau lítero-musical que ela realiza mensalmente. Foram recitados vários poemas de minha autoria. O Reginaldo Miranda, meu confrade na APL, a Nileide e vários advogados e intelectuais pronunciaram expressivas e bondosas palavras, que me comoveram e fizeram chorar meu pai.

Disse ao causídico Nei Nunes Leitão, brincando, que ele havia se excedido nos elogios a minha humilde pessoa, mas ele, com o seu jeito bem-humorado e enfático, me retrucou de forma peremptória e contundente: “Eu disse foi pouco, doutor Elmar; eu deveria ter dito mais, o senhor merece muito mais”. Debitei isso ao fato de ele ser muito jovem, e me ter sincera consideração e apreço. No meu íntimo pensei: não mereço, mas agradeço.

A Nileide Soares nos brindou com deliciosa cajuína. Novamente revi seu pátio e caramanchão. Mais uma vez lhe disse que eles eram propícios para uma luarada, para uma noite plena de plenilúnio, em que seriam entoados poemas e baladas. Perguntei-lhe, como sempre o faço: E aí, tia Nil, tudo anil, tudo a mil? Para continuar a rima, direi apenas que ela sorriu e assentiu.

Deixei para ela e para o poeta e escritor José Teixeira exemplares de meus livros Retrato de meu pai e Rosa dos ventos gerais. O Teixeira, que também é ator, irá interpretar, como um monólogo, no lançamento de Rosa dos ventos gerais, no próximo dia oito, na APL, alguns poemas de minha autoria. Na saída, em feliz coincidência, encontrei o advogado Luzmanell Teixeira Absolon, com quem mantive respeitosa e amigável convivência profissional no foro regenerense.

Por fim, chegamos a Amarante, quando já passava do meio dia. Não falarei do almoço, que foi apenas uma circunstância necessária. O Cunha e Silva Filho pôde rever sua linda e bucólica cidade natal. Fomos ver o Velho Monge, que se mantinha plácido e belo como sempre. Revi as faveiras e outras árvores frondosas de seus jardins e passeios.

Revi, ao longe, as suas serras encantadoras e encantadas, a igreja de São Francisco, do outro lado do Parnaíba. Pudemos nos deslumbrar com os seus vetustos casarões solarengos. Visitamos o Museu Odilon Nunes, onde a memória do saudoso escritor e jornalista Cunha e Silva é reverenciada. Revi um quadro com o meu poema Amarante, que já começa a mostrar as marcas das ruínas do tempo.

Não posso deixar de transcrever o que já disse em outra crônica:

Numa tarde agradável de um tempo que não sei fixar no calendário comum, mas apenas no do espírito, da emoção e da saudade, encontrava-me com o poeta Virgílio Queiroz, no cais do Velho Monge, bebericando umas pingas com água tônica, quando inesperadamente, como um sortilégio, veio uma ventania que sacudiu as faveiras, debaixo das quais estávamos. As favas secas começaram a emitir um som de chocalhos e de maracás. Foi como se aquele som evocasse uma época muito antiga e ancestral, em que os índios perlustravam aquelas terras, aquelas serras azuis encantadas e perlongavam o curso sinuoso do Parnaíba.

Ainda hoje escuto a música encantatória dos maracás daquelas faveiras e a dança requebrada do arvoredo. E ainda perpassa em minha pele o afago daquele vento, que ninguém sabe de onde veio, que ninguém sabe para onde foi...

Fomos ao morro, mirante natural, que eu chamo de Morro da Saudade. Reverenciamos o poeta maior do Piauí, um dos maiores do Brasil, o excelso bardo Antônio Francisco da Costa e Silva. Falando para o tablet de Cunha e Silva Filho, que me filmava, proferi breve discurso. Relembrei que em minha juventude, nos idos de 1988/1990, fiz campanha para que os restos mortais do grande poeta viessem para a sua Amarante. Usei como justificativa estes versos de sua autoria: “Terra para se amar com o grande amor que eu tenho! / Terra onde tive o berço e de onde espero ainda / Sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho!”

Recentemente o poeta Virgílio Queiroz retomou essa minha antiga ideia, com a minha colaboração. Planejamos que os restos mortais do sublime vate seriam encerrados em belo monumento, verdadeira obra de arte, que ficaria no entorno do Memorial Da Costa e Silva, a ser construído. O prefeito Luís Neto entusiasmou-se com esse sonho, e prometeu que o realizaria. Contudo, segundo Virgílio Queiroz, o filho do poeta, o também poeta Alberto da Costa e Silva teria sido contra esse traslado.


O certo é que, do alto do Morro da Saudade, a contemplar o busto do poeta Da Costa e Silva (esculpido por Winston, irmão de Cunha), a rever as suas serras azuis, que ele magistralmente cantou, o professor, escritor, memorialista e cronista Francisco da Cunha e Silva Filho, que conheci no longínquo ano de 1990, por coincidência na sua Amarante, foi tomado de vívida emoção, e não teve medo de enfrentar o sol que então nos fustigava e resplandecia em toda a sua glória.    

Seleta Piauiense - Hardi Filho


É tarde / é cedo

Hardi Filho (1934 - 2015)

é tarde, o sol declina no horizonte,
os pássaros procuram o arvoredo,
desde ontem juntos, tenho de ir embora
mas meu amor sugere que ainda é cedo.

— é tarde, eu digo, a noite vai vestir
o manto que acoberta o seu segredo;
já nos amamos o bastante, amor.
e meu amor me diz: — amor, é cedo.

retruco: é tarde, as sombras mais se adensam
e os caminhos, escuros, causam medo.
— isso mesmo, — diz ela me beijando —
espera amanhecer... amanhã cedo...

ela é divina! eu sou feliz! atendo
ao seu convite e aos seus carinhos cedo:
mais momentos de amor então gozamos;
até que, de repente acordo, é cedo?

é tarde? a claridade de outro dia,
para nós dois, severa, aponta o dedo.
vou levantar, ela também acorda,
me abraça, e fala, insiste que inda é cedo.

— é tarde, eu mostro, há luz em toda a alcova,
impondo fim ao nosso doce enredo.
— não! — ela diz — isto é clarão da lua...
amor, não vá, ainda é muito cedo!     

sábado, 24 de setembro de 2016

O rato comeu. Cadê o rato?


O rato comeu. Cadê o rato?

José Maria Vasconcelos
cronista, josemaria001@hotmail.com

         Ultimamente, o mundo político vive de cantarolar parlendas com a opinião pública, brincando de esconde-esconde a roubalheira. Lembra-se das folclóricas historinhas infantis repassadas pelas tias e educadoras? Eram parlendas. Entre dezenas, escolhi a dos ladrõezinhos dissimulados: “Cadê o queijo que deixei aqui? / O rato comeu. / Cadê o rato? / O gato comeu...” E assim os malandros tentam sabotar “a verdade conhecida como tal”, um pecado contra o Espírito Santo.

         A mais recente malandragem de esconde-esconde ocorreu no Congresso: Projeto de Anistia para Caixa Dois, que livraria a cúpula do Poder sob a mira da Lava Jato.

Ninguém viu o presidente do Congresso no comando da sessão. Escafedeu-se. Seu vice o substituiu. O Projeto entrou em pauta pelos fundos da falta de vergonha e seria aprovado em final de sessão (noturna!). Até o momento, ainda não se sabe o autor da marmelada! Só se sabe que fora apresentada por líderes dos partidos, gatos e ratos que se misturam no cinismo do esconderijo, com vergonha de serem identificados. O autor, mesmo, seja descoberto nos próximos dias.

Graças aos parlamentares do bem, que ainda resistem às tentações do queijo roubado, e se encontravam na sessão, berraram e conseguiram retirar o despacho maligno da pauta. E há, ainda, políticos e gestores do bem? Há, sim, o atual governador do Rio Grande do Sul, que cortou dez secretarias de governo, convocou prestadoras de serviços para redução das cobranças, que dispensa viagens aéreas, que botou na rua centenas de comissionados. Há, sim, o ministro da Saúde, que, em quatro meses, já economizou quase um bilhão de reais tomando as mesmas medidas.

O Projeto de Anistia para Caixa Dois visava anular investigações e processos em andamento, que vão julgar o pagamento de propinas pelas empreiteiras aos políticos. Alguns compõem alto comando dos governos Temer, Lula e Dilma, além do presidente do senado, vários deputados federais, senadores, governadores, diretores de estatais. Embora as investigações da “Operação Lava Jato” tenha avançado para outras organizações criminosas, o nome inicial se consagrou. Só o rombo da Petrobras mostra que em dez anos quatro organizações criminosas de gatunos empanzinaram-se de queijo, reduzindo o valor da estatal, cuja ação beirava os 100 reais, para menos de 10. Explica-se como a ratazana conseguia eleger-se, reeleger-se, levando a tiracolo a esposa, filhos, sobrinhos, gatos, cobras e lagartos. E se fazem de vítima até de um juiz federal.


Neste último domingo, os textos bíblicos tratavam da corrupção com o dinheiro dos pobres, no tempo do profeta Amós. No evangelho, a parábola do gestor desonesto, capaz de falsificar recibos para agradar o patrão. O celebrante da missa, Padre Tony Batista, bateu forte na desavergonhada conduta da classe política. E resumiu: “Eles se fazem de descartáveis, tudo naturalmente, como se não houvesse crime”. Só faltou contar uma parlenda, daquelas do rato e do gato.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXII

Foto meramente ilustrativa

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXII

A serra encantada (I)

Elmar Carvalho

Desde menino a visão da serra me fascinava. Vista de todos os pontos da cidade, parecia um debrum do céu, no sobretom de seu azul diferenciado. Nas manhãs friorentas de inverno, a Serra do Cachimbo parecia cachimbar as névoas pousadas em seu cume; daí o seu nome. Como disse um poeta louco, nostálgico daquele azul esfumaçado, nevoento:

Ao longe, nas manhãs de inverno,
a serra cachimbava suas névoas.
As névoas se misturavam com as nuvens
que rondavam sobre o cume.

Conforme o horário do dia, a serra mudava de cor, tomando as mais diferentes nuanças de azul, indo do mais escuro ao mais pálido, intercambiando a opala e a esmeralda quase azulada, em perfeito furta-cor. Ao por do sol, era um espetáculo de beleza e suave melancolia ver-se a serra refletida no Lago Galileia, que se transformava em imenso e mágico caleidoscópio, variável conforme as águas estivessem onduladas ou não.

Na primeira metade da década de sessenta, uns aviões esquisitos sobrevoaram Évora durante uma semana, seguindo em direção à serra. Os mais estranhos boatos e especulações surgiram. Uns diziam que uma guerra estava para estourar. Outros afirmavam que os estranhos objetos voadores eram americanos, dotados de modernos aparelhos, e estariam descobrindo e demarcando nossas jazidas de metais e de pedras preciosas, além de areia monazítica.

A revoada aeronáutica durou pouco tempo e logo os boatos cessaram. Mas para sempre me ficou essa lembrança. Não sei se a memória que guardo da forma desses aviões corresponde ou não à realidade. Muitos anos depois, à noite, quando parei minha motocicleta nas imediações da Serra do Cachimbo, vi umas luzes estranhas, no meio da escuridão, a cinquenta metros da estrada e a dez metros de altura. Mas aí já é outra história, que não desejo contar.

Muitas vezes, em minha infância, vi uns clarões na encosta da serra. Na vez primeira, um tanto assombrado e imerso em deslumbramento, perguntei a minha mãe sobre o que seria aquilo. Ela me respondeu que talvez fosse uma queimada de roça ou alguém procurando o tesouro escondido por jesuítas em fuga, há mais de dois séculos. Disse que muitos acreditavam que ela fosse uma cidade encantada; que quando o sortilégio fosse quebrado suas pedras e árvores se transformariam em casas, palácios, templos, carruagens, pessoas e bichos.

Contou-me algumas dessas lendas ou crendices do povo simples.  Segundo diziam, em lugar esconso e quase inacessível, havia uma furna repleta de objetos de ouro e prata, como taças, cálices, lampadários, candelabros, ostensórios, rosários, pulseiras, colares e outras joias. Entretanto, quando um homem, dotado de invulgar coragem, tentou recolher esses objetos, foi atingido por forte vendaval, que rugia de forma assustadora no interior da gruta. Também ouviu gritos pavorosos, gemidos, imprecações medonhas, arrastar de correntes, uivos e esturros de animais ferozes. Quando ele conseguiu sair, viu que sua luta e coragem tinham sido em vão. As joias que conseguiu retirar se transformaram em cinza e poeira.

Guardei com muita nitidez uma dessas histórias, que muito me impressionou. Mais tarde, quando planejei escrever as minhas Histórias de Évora, obtive mais informações com os parentes e amigos do protagonista, e eis que a conto agora, algumas décadas depois, não sei se envolta em amálgama de ficção involuntária.

No final da década de cinquenta, o senhor João Galdino foi caçar na região da serra em companhia de uns amigos. Foram os quatro homens num Jeep Willys, do tipo cara alta. Cada um seguiu à procura de uma ‘espera’, já no final da tarde. Combinaram se encontrar no local onde ficou o carro, por volta das cinco da manhã. Todos retornaram, menos Galdino.

Às seis da manhã, seus companheiros começaram a ficar preocupados, temendo tivesse ele sofrido algum acidente, como queda da árvore, em meio a fatal cochilo, ou que teria sido atacado por algum animal selvagem. Até mesmo picada de cobra ou eventual ataque cardíaco não foram descartados.

Procuraram o companheiro num raio de três quilômetros, tocando fortes e estridentes apitos, mas sem nenhuma resposta por parte de João Galdino. Os caçadores contrataram os serviços de dois mateiros, residentes na região, para que continuassem as buscas no dia seguinte. Deram-lhes quase todo o dinheiro que conduziam, e prometeram pagar-lhes uma boa quantia pelo trabalho, sobretudo se o indigitado companheiro fosse encontrado, morto ou vivo.

Retornaram no final da tarde à cidade, para comunicar o fato ao prefeito, ao delegado de Polícia Civil, ao comandante da Companhia de Polícia Militar e aos seus familiares, para que novas buscas fossem empreendidas nos dias seguintes. Durante mais de uma semana foram feitas expedições à procura de João Galdino, mas sem a obtenção de nenhuma notícia sobre o seu paradeiro. Todos o deram como morto.


Três meses depois um homem desconhecido, de barba longa e esquálida, bateu à porta de sua família. Sua aparência denotava sujeira, e suas roupas estavam em frangalhos e encardidas. Trazia feridas e arranhões em certas partes do corpo, com certeza produzidos por pedras e espinhos.”  

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

TRIBUTO A JEANE MELO


TRIBUTO A JEANE MELO

Antonio Gallas

 “...A menininha JEANE
muito se emocionou
 e na hora de meditar
foi quem primeiro chorou...”

         Esses versos foram feitos no ano de 1976 quando participamos do Primeiro ENJOPI (Encontro de Jovens do Piauí) realizado em Parnaíba no Convento de São Sebastião. O ENJOPI foi um movimento católico (tipo o cursilho da cristandade) destinado a jovens e liderado em nosso estado pelo padre salesiano (da ordem de São Francisco de Sales) Luciano Ciman. Padre Luciano era italiano.

         JEANE foi uma das jovens que participaram do encontro, o qual descrevi em versos simples, na minha maneira de fazer poesia, contando o desempenho de cada um durante os três dias em que ficamos enclausurados no  convento.

         JEANE com sua espontaneidade, com seu sorriso, cativou a todos. Tinha uma aura resplandecente que enchia qualquer ambiente de alegria. Era meiga, solidária, amiga de seus amigos.

         Dizem que pessoas assim Deus chama logo para fazer parte da sua equipe no céu, mas a JEANE Deus não a chamou.   Deus pessoalmente veio aqui, segurou sua mão e caminhou com ela até o céu. JEANE faleceu no dia 19 de agosto do corrente ano deixando-nos uma grande tristeza, uma dor, uma saudade...

         A tristeza, a dor,  que sentimos quando morre uma pessoa querida, o tempo e a nossa fé em Deus se encarregam de nos consolar, de nos confortar, de fazer  até esquecermos aquele momento...  mas  a saudade fica na lembrança dos bons momentos, das boas recordações, momentos de alegria que passamos junto daquela pessoa. E será assim que lembraremos de JEANE. Pelos bons momentos,  pelo seu sorriso largo, pela sua alegria, pela dedicação aos amigos, à família, pelo zelo ao filho JEAN e por tantos outros motivos, que são inúmeros. JEANE  Requiescat in Pace!, você continuará sendo  tão querida e admirada por todos que tiveram o prazer de conhece-la .  

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A mortadela voadora


A mortadela voadora

Valdir Fachini

Não! eu não tomei chá de lírio,mesmo porquê eu sempre fui contra a qualquer tipo de alucinógeno ,se alguém quiser pode fazer um teste ,sei lá ,com bafômetro ,cuspômetro, urinômetro, bostômetro não vai achar nada ,também não bebi cachaça ,não que a religião não permita ,meu fígado é que não aceita ,também não fumei o cigarrinho do capeta, muito menos cheirei carreirinha ,narguile só conheço de nome ,crack pra mim só Pelé, Zico e os Ronaldos.
    Também não estou lelé da cuca, ninguém acredita ,mas eu vi uma mortadela voando,ela veio lá do lado do cortume ,deu um rasante, zumm quase me acerta a cabeça e continuou sua trajetória sentido a ponte das formigas.
   Quando eu contei isso pra Claudjane ela riu feito doida ,já procurou o telefone do Juqueri (esse homem tá louco ,cheirou cola ).
   Mas é verdade, era uma mortadelona (não era fatiada não) era uma baita duma mortadela, vermelhona, tinha até o barbantinho na ponta .
    Ela foi até lá na frente ,fez uma manobra de cento e oitenta graus e voltou bem devagar ,ficou parada em cima de mim como se tivesse me analisando ,mexia de um lado para o outro ,pra frente e pra trás fez que foi embora e voltou depois deixou cair umas bolinhas que eu não sei se eram pimenta do reino ou cocô de mortadela e foi embora de vez.
    Ai eu parei e fiquei pensando ,será que estou ficando ruim da cachola? Com tanta coisa acontecendo em minha vida não é nada difícil ,a situação do país,a inflação voltando,a Dilma ficando, a Zika chegando ,a bandidagem aumentando e a dona da pensão que dá mais valor ao energético com cerveja do que com minhas meias e cuecas ,acho que posso estar mesmo ficando neurastênico.
    Mas ao mesmo tempo acho que não estou pinel não ,aquele embutido era muito real ,tinha até cheiro, só não deu pra saber se era defumada ,também não vi a marca e não era salsichão nem salame ,era mortadela com todas as letras e gordurinhas .
    No outro dia eu voltei ao mesmo local na mesma hora com a mesma roupa e as mesmas aflições mas a bola comestível voadora não apareceu ,também no outro dia ,com todos os mesmos e nada da coisa que voa passar.
   Porém ontem a tardezinha ,estava eu lá no lugar de sempre  sentado na calçada ,mão no queixo ,cotovelo no joelho ,tipo o pensador quando vejo lá longe alguma coisa voando no meu encontro, pensei,é ela ,finalmente ela veio .
  Mas que chato ,não era ela, era somente um Zeppelin.  

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Morre o grande goleiro Zé Olímpio

Goleiro Zé Olímpio, quando garoto. Foto gentilmente enviada pelo grande artista plástico campomaiorense João de Deus Netto. As duas outras (abaixo), foram publicadas originalmente em seu blog Bitorocara

Caiçara e o mítico goleiro Coló
Comercial e o legendário goleiro Beroso

Através do e-mail abaixo, enviado pelo amigo José Francisco Marques, tomei conhecimento do falecimento de José Olímpio da Paz Filho, grande goleiro, sobretudo de futebol de salão, e professor aposentado da Universidade Federal do Piauí:

“Mestre, transcrevo mensagem do facebook do nosso amigo Flávio Bona:

‘Faleceu hoje em Fortaleza, o Ex-Presidente do COMERCIAL ATLETICO CLUBE, JOSÉ OLÍMPIO DA PAZ FILHO; era filho do SAUDOSO JOSE OLIMPIO DA PAZ E DONA DIANA   José OLÍMPIO era conhecido na juventude como ZERO, foi o melhor goleiro de futebol de salão de Campo Maior. Era Caiçarino e depois foi ser Presidente do Comercial, através de Dr Acélio Correia, Dr. Ernane e Milton Higino, foi goleiro do CAIÇARA e do COMERCIAL, aqui mando os meus sentimentos a toda a FAMILIA de JOSÉ OLÍMPIO DA
PAZ FILHO.’"

Na minha adolescência admirei três grandes goleiros campomaiorenses: Coló, Beroso e Zé Olímpio. Os dois primeiros, na opinião do notável cronista esportivo Carlos Said, que também foi um grande golquíper, atuando no River por muitos anos, estão entre os dez maiores goleiros do Piauí em todos os tempos. Zé Olímpio foi o maior arqueiro de futebol de salão que já presenciei jogando. Corajoso e arrojado, fazia excepcionais “pontes” em rústicas quadras, duras e que ralavam mais do que lixa. Sobre ele, em meu livro O Pé e a Bola, fiz o seguinte comentário: “No futebol de salão, Zé Olímpio foi um goleiro extraordinário, que me despertou muita admiração e uma quase pontinha de inveja, em razão dos seus saltos acrobáticos de gato maracajá.”

Sobre Coló e Beroso escrevi, tempos atrás, o seguinte texto:

BEROSO X COLÓ

Elmar Carvalho

            Desde garoto, quando meu pai me levava a assistir as acirradas pelejas futebolísticas entre o Caiçara e o Comercial, no estádio Deusdete Melo, em Campo Maior, passei a admirar a ingrata e espinhosa posição de goleiro, em que as falhas costumam ser fatais. É, portanto, a posição em que o atleta fica mais tenso e com os nervos em frangalhos, pois um “frango” pode ser o estopim de uma derrota, podendo o goleiro ser crucificado pela torcida e pelos seus companheiros, em verdadeira execração pública.

            Por isso mesmo, tenho sido, ao longo de minha vida, um admirador dos fabulosos e imortais goleiros Coló e Beroso, tendo certa predileção pelo legendário Coló, não só pelo fato de ser eu um caiçarino, mas também pelo seu estilo. Talvez, em decorrência dessa admiração, tenha me tornado um goleiro razoável, com atuações quase sempre regulares ou boas, em que também perpetrei as minhas levitações acrobáticas e ornamentais, em defesa de minha baliza.

            Pelo que consigo recordar e também pelo que tenho ouvido e lido, o Coló, magrinho, leve como uma ave, tinha umas “voadas” excepcionais, em que exercitava toda a sua elasticidade felina, projetando-se no espaço, para encaixar a bola em seu peito, ou segurá-la em suas mãos hábeis e precisas, ou espalmá-la, desviando o seu curso para fora de sua meta. Nessas “pontes”, conseguia arrancar aplausos longos e entusiasmados da torcida caiçarina.

Nesses saltos ornamentais, verdadeiras acrobacias circenses, muitas vezes estraçalhava os nervos de seus torcedores, pois, quando o chute era propício, e a trajetória da bola o permitia, esse goleiro estiloso simulava deixar a bola passar, para em seguida saltar para trás e desviar o curso da bola, o que fazia a galera delirar e suspirar angustiada, em virtude do susto. Tinha um defeito em um dos dedos da mão, que não lhe permitia espalmá-la plenamente; entretanto, agarrava a bola com segurança, como se tivesse mãos de onça ou tenazes.

Era um tanto nervoso, às vezes, nas disputas esportivas, mas era quase sempre elegante no trato pessoal. Conta-se que, em certa ocasião, irritado com a torcida, abandonou a meta, em protesto contra a sua ingratidão e volubilidade. Amado e aplaudido pelos caiçarinos, foi inventada uma modinha, muito conhecida no auge de sua carreira, cuja letra dizia: “Coló quebrou a perna, / eu também quebrei a minha. / Coló colou com cola / e eu colei com Mariquinha.”

            Beroso, que tinha esse apelido em razão de ser algo retraído, como se fosse um matuto, tinha um estilo mais sóbrio, mais contido. Ao que tudo indica, procurava controlar os seus nervos e emoções. Talvez fosse mais pragmático e objetivo em suas atuações, procurando focalizar mais a defesa em si do que efetuar “enfeites” em suas intervenções, embora, quando necessário, a exemplo de Coló, também soubesse executar “vôos” extraordinários.

Segundo o grande craque Zé Duarte, um dos maiores atletas campomaiorenses, esse lendário goleiro, em certa ocasião, foi coberto por um lance. Instintivamente, esse arqueiro executou o pulo-do-gato, arremessando-se de costas para trás, desviando o curso fatal da bola, e efetuando uma cambalhota em pleno ar, para cair de bruços no chão, em legítimo “salto mortal”, como se fora um acrobata circense.

            Nessa época, os guarda-metas se vestiam de preto: camisa de mangas compridas e calções. Usavam um protetor branco, chamado suporte, que saía do calção e era dobrado por fora, formando uma espécie de cinta, que dava uma elegância toda especial à farda. Pelo que relembro, Coló e Beroso eram mais ou menos da mesma altura, sendo o segundo mais encorpado. Tinham uma boa estatura para a época, o que lhes dava uma boa presença e elegância em seus uniformes pretos.

            Numa enquete pessoal e sem os requisitos metodológicos e científicos de uma pesquisa estatística, tenho procurado saber qual dos dois teria sido melhor arqueiro. Nunca cheguei a nenhuma conclusão definitiva. Os torcedores do Caiçara “puxam” um pouco para o Coló, e os simpatizantes do Comercial, evidentemente, acham que o Beroso seria um pouco melhor. Ambos, creio, tinham aproximadamente a mesma idade e atuaram na mesma época, anos 60 e começo dos 70. Talvez, para resolver o imbróglio, com eqüidade e um tanto salomonicamente, fosse mais adequado dizer-se que, em determinadas fases e partidas, um atuasse um pouco melhor do que o outro, sendo certo dizer-se que ambos estão entre os melhores goleiros do Piauí de todos os tempos.

Foram ícones incontestes de seus times, aclamados e aplaudidos pelos seus fãs, que incendiavam as ensolaradas tardes domingueiras de outrora, fase áurea do futebol campomaiorense, em que o Estádio Deusdete Melo era um verdadeiro alçapão, onde os times forasteiros eram implacavelmente massacrados e trucidados.

            Carlos Said, o Magro de Aço (mas aço inoxidável, acrescento), um dos melhores comentaristas esportivos do Brasil, homem erudito na literatura, na vida e na história, emérito divulgador do esporte e da arte literária piauiense, que igualmente foi um grande golquíper, jogando no River por vários anos, afirmou-me, categoricamente, que em determinada época o Coló foi o melhor guardametas do Piauí. Sem dúvida, em consonância com o que já afirmei acima, no intuito de resolver essa pendenga, o mesmo, suponho, poder-se-ia afirmar em relação ao Beroso. Como se fosse algo semelhante às vidas paralelas de que nos fala Plutarco, esses dois varões, mantendo o paralelismo biográfico, morreram sem alcançar a velhice.


            Diz a música popular que morre o homem e fica a fama. Dizem que algumas pessoas não morrem, ficam encantadas. Esses dois excepcionais atletas, transformaram-se em mitos do futebol piauiense. Encantaram-se e se tornaram lendas do nosso futebol. Ou viraram duas estrelas na constelação do firmamento esportivo piauiense.

domingo, 18 de setembro de 2016

Seleta Piauiense - Francisco Miguel de Moura


DEUSA

Francisco Miguel de Moura (1933)

Era uma deusa humanamente bela,
de olhos molhados a deitarem luz,
sobre perdidos corações sem cores.
Desprendia paixões nos seus encantos.

Da carne, o cheiro, a tepidez, o orvalho
eram pingos da tarde... E a noite vinha.
Mas o brilho dos olhos tão intenso
iluminava todos os caminhos.

E eu disse - “tolo”! - à blusa desdobrada
à brisa, que assanhava as mentes frias,
cheia da graça dos recantos da alma.

De repente, nas asas dos seus braços
levado vi-me e, pelos céus abertos,
caírem penas pelos meus pecados.   

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Encontro sobre a relva do Parque


Encontro sobre a relva do Parque

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Neste verão de temperaturas elevadas, recebi convite para comemorar aniversário de sobrinho sobre a relva do Parque Ambiental da Cidadania, recentemente inaugurado.

         Festa de aniversário sobre a relva? Sim, por que não? Os parques ambientais lembram paisagens bucólicas e aconchegantes, pintadas e plasmadas por artistas do século 18. Eles fugiam aos clássicos palácios de figurões principescos, de retóricas tortuosas e filosofias greco-romanas, para ambientes naturais. Era o começo da decadência dos reinos, e a aurora das democracias. O Arcadismo do século 18 abria caminhos para o Romantismo: a valorização das paisagens naturais, dos personagens rústicos e populares, mais dados à contemplação paradisíaca do que ao racionalismo pagão.

         Às 8 da noite, entrei no Parque . Logo senti a leve e úmida brisa emanada dos imensos espaços cobertos de gramíneas e das árvores. Era diferente das estúpidas e infernais ondas de calor ardendo no asfalto e calçadões.

         Longa toalha estendida sobre a relva. Familiares sentados ou deitados na vegetação. No centro, o bolo de aniversário, presentes, chocolate, sucos e salgadinhos. Adoro quibe. A criançada pedalava sobre rodas. Enfim, um encontro sem bebedeira e exibicionismo pagânicos. Eu tinha razões para remoer a mais romântica e prazerosa experiência do amor e a curtição da família.

         O Parque oferece mais segurança do que as praças, hoje dominadas por duvidosos desocupados, traficantes e viciados. Circulando pela imensa área, descobrem-se grupos de estudantes deitados, exercitando terapia espiritual, estudando, debatendo, pintando em telas, expressando arte teatral. No Parque, ainda se diverte e se respira outro ar, o da civilidade. E tem de ser assim, se os vigilantes continuarem nos portões de entrada ou circulando.

         Que tal cultivarem-se peixes e patos nos lagos do Parque? Os peixes devoram insetos e larvas; os patos movimentam a água, oxigenando-a. Cadê a ração para atrair pássaros? Plantem-se árvores que produzam frutas silvestres (tuturubá, por exemplo). Em geral, a administração pública não se interessa pela cultivo de árvores, devido aos depredadores bípedes. Deixem-nos se servirem, para aprender que a natureza serve de melhor laboratório de saúde do que foco de queimadas.

         A obra custou quase 10 milhões de reais e revela quanto uma administração séria e de mãos limpas é capaz de operar milagre. O dinheiro veio do Ministério do Turismo. Há outras fontes de recursos para a diversificação dos atrativos turísticos da capital piauiense. Já se vão cento e poucos milhões, uma merreca, com a qual se construíram diversos parque, se comparada à montanha de verbas para obras faraônicas, inacabadas de administrações corruptas.

         A Cidade Verde tem atrativos que merecem ser lembrados e visitados pela população, em especial as crianças, que precisam de atividades saudáveis.


Somos abençoados com dois mananciais que se abraçam, rios Parnaíba e Poti. Parques ambientais foram desenvolvidos às suas margens, mas falta muito, muito mais, considerando-se as dezenas de esgotamentos sanitários, quase invisíveis e ocultos no subsolo das avenidas, todavia servindo de agonia mortal à mesopotâmica dádiva divina. A amargura sobe-me ao paladar, só de ver que ainda falta bastante vergonha na cara para envergar o caro projeto de desvio de tanta imundície. Eu me consolo, cuidando do meu quintal, plantando, atraindo dezenas de pássaros, diariamente, com xerém de milho. Eles festejam comigo a vida, como um esbaldar-se na grama do Parque, em festa infantil.

Resposta ao comentário do escritor e cardiologista Itamar Abreu Costa:

Caro amigo Dr. Itamar,

Como você é sabedor e testemunha, por escrito e em diferentes eventos, com relação a Campo Maior, já apresentei as seguintes sugestões:

1) Despoluição do Açude Grande e criação de jardins e fontes luminosas no seu entorno.

2) Transformação da floresta da barragem do Surubim em Jardim Botânico e área de preservação ambiental, com criação de restaurante, piscinas e bicas para lazer dos campomaiorenses.

3) Transformação da Serra Azul, Serra de Santo Antônio ou Serra Grande de Campo Maior em área de preservação ambiental, com a instalação de teleférico, tirolesas e a construção de restaurante, pousada, cabanas, piscinas, bicas, etc., além do estímulo à prática de esportes como rapel, arborismo, arvorismo, trilhas e outros.

4) Transformação do Cemitério Velho de Campo Maior em museu e memorial a céu aberto, com a criação de alamedas, caramanchões, estátuas alegóricas, espaço cultural (talvez sobre pilotis), com a preservação e restauração de tudo o que nele atualmente existe.
Abraço,
Elmar Carvalho

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

História de Évora - Capítulo XXI


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXI

Idílio

Elmar Carvalho

Marcos, conforme convite e recomendação feitos por Gracinha, após alguns dias, foi ao cabaré Montevidéu. Encontrou-a na sala, a conversar com a mãe. Pachola arranjara uma amigação como uma das mulheres que frequentavam o ambiente, e fora morar numa casinha, distante vários quarteirões, de modo que só aparecia à tarde, para resolver algum problema ou ajudar na arrumação de mesas e cadeiras.

O rapaz se manteve de forma discreta, a certa distância da madame, que se encontrava bem vestida e com vestígio de haver saído do banho há pouco tempo. Morena clara, de finos e lustrosos cabelos, que lhe desciam ondulados até o ombro, sua pele era fresca, macia, sem manchas, denotando muita limpeza. De seu corpo evolava suave perfume. Seu rosto era bonito, porém de feições regulares, sem nenhum traço de exotismo. De boa estatura, era ainda bonita, mas já começando a dar sinais de que tinha tendência a engordar.

Gracinha e Marcos entretiveram breve conversa. A mulher lhe perguntou acerca de algumas coisas do bairro e de como iam seus estudos. Como se não tivesse muito interesse, simulando certo descaso, indagou-lhe sobre suas paqueras e namoradas. Marcos respondeu que no momento não tinha nenhuma, ao que ela, sorrindo, retrucou:
– Mas não é possível... Um rapaz tão jovem e bonito, e com tantas garotas por aí, esperando por um namorado.

O rapaz, que não era nada bobo, tinha o seu tanto de ator, e se fez de encabulado. Baixou um pouco a cabeça, e fingindo hesitação:
– Pois é, para você ver, uns com tantas e outros sem nenhuma.

O jovem, alegando que tinha um problema a resolver no centro da cidade, disse que tinha que ir. Gracinha o acompanhou até o alpendre, quando lhe tomou as mãos, como se o toque fosse casual. Marcos, ante essa iniciativa, se voltou, e se curvou um pouco, como se lhe fosse dar um beijo convencional de despedida, mas, em premeditado erro de cálculo, lhe tocou os lábios.

Ela correspondeu e o abraçou, mas logo se afastou. O rapaz não insistiu, renovando apenas o tchau de despida. Ela, com um simpático sorriso, reiterou o seu convite de dias atrás:
– Não se acanhe; volte sempre. De preferência, pela manhã. Você será sempre bem-vindo.       

Marcos, para se valorizar, resolveu retornar apenas na semana seguinte, no mesmo horário. Gracinha ficou muito alegre em revê-lo, e disso deu demonstrações com acolhedoras palavras e sorrisos, e com um delicioso suco de bacuri. Dona Lurdinha, não se sabe se por recomendação da filha ou se captando mensagem em troca de olhar, tratou de deixar a sala, e seguiu para o interior da antiga chácara.

A madame, sentada no sofá, começou a afagar a mão direita de Marcos. Às vezes, a beijava e lhe roçava os lábios carnudos e macios em seu dorso e dedos; outras vezes, a colocava entre as suas ou sobre o coração. O rapaz se levantou, tomou-lhe as mãos e a fez se levantar. Abraçou-a e a beijou com intensidade. Após breve intervalo, Gracinha se afastou de seu corpo, contudo sem lhe soltar as mãos. Marcos quis conduzi-la para o quarto que sabia ser o dela, mas sob o pretexto de que sua mãe poderia retornar, simulando recato de casta donzela, a madame o puxou em direção ao quintal, que era cheio de frondosas árvores.

Subiu ao galho baixo de um velho cajueiro, recostando-se no grosso tronco. Marcos subiu até onde ela estava, e começou a acariciá-la com ternura. Voltou a beijá-la com volúpia. Notou, porém, que a mulher, novamente fingindo pruridos de arisca virgem, não deixava que ele lhe encostasse o sexo, vibrante, vivo e intumescido, negaceando o corpo, aceitando-lhe apenas os afagos no rosto e os beijos.


Sequer permitiu que ele lhe explorasse os empinados, rijos e volumosos seios. Marcos se sentiu um poeta árcade, em cenário bucólico, a cortejar sua virginal “pastora”, ninfa dos bosques, musa de seus idílios e de suas odes líricas e castas. Próximo, ouvia-se o canto rascante e melancólico de uma cigarra, e, ao longe, um sabiá soltava seus melodiosos gorjeios.  

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Onde está o Brasil?


ONDE ESTÁ O BRASIL?

 Cunha e Silva Filho

       A crítica literária, o ensaio, a tradução, a crônica, o artigo  acerca de temas  da minha preferência me atraem, mas o momento brasileiro,se não me atrai pela positividade,  me atrai  para a discussão,  o debate,  político,  a escrita indignada, a escrita “rebelde” ressonâncias limabarretianas?), cuja  natureza  discursiva  às vezes resvalam para o panfleto. Mas, me perdoe, leitor,  é que, em razão de tanta sem-vergonhice de que se tem notícia a respeito do que ocorre no país, de  tanta impunidade consentida, de  tanta   traição  fingida ou verdadeira, mais uma vez, aqui estou  para falar da vida nacional.
     No Facebook, me deparo com uma cena, no mínimo,  hilariante: o ex-presidente Lula na posse da presidente da Suprema Corte. Lá estava ele,  lépido e ladino,  com  a mesma facies  que sempre lobriguei  no seu olhar e, no seu andar entre pícaro- malandro  e investigado pela LavaJato. Lá estava ele  livre, solto,  um passarinho  à procura  de uma solução para o país.
     Naturalmente,  conversava com a elite, com os donos do poder  ((ainda que, na Terra um tanto devastada,   só provisório). Imagine se fôssemos eternos,  imortais,  infinitos... Quem suportaria tanta  notícia e contranotícia,  versões e versões, os  prós e  os contras, fuxicos e conversas ao pé do ouvido, sussurros, balbucios, linguagens cifradas, esoterismos  e camuflagens,  espelhos trocados,  imagens  torcidas,   “um vasto mundo”   cheio de miasmas se alguns  poderosos  fossem  imortais?
    Eu procuro  pelo destino  da minha pátria amada como  o filósofo  Diógenes  procura um  homem  honesto com uma lamparina em pelo dia  de sol. Só vejo neblinas, nuvens pesadas. Descortino realidades inimagináveis  no grotesco  da política nacional. Não encontro uma saída para  atinar com tanta   impureza no cenário  fosco que se me apresenta  o quotidiano  da nossa  aviltada  vida  pública. 
   A LavaJato não me sai da cabeça e o diabo é que não consigo dissociá-la da figura  do Lula. Por outro lado,  como hei de enfrentar  os subterrâneos, a intimidade da intimidade, da intimidade, como se  tratasse de uma ficção utilizando-se do recurso do mise-en abyme?  Onde estão a “verdade” e a imaginação  do inconsciente  coletivo? Será que Freud teria alguma pista para chegar aos fatos   incontestáveis das causas  primeiras da origem de todo  esse sofrimento  por que  parte considerável  dos brasileiros está passando? Seria isso  algo  só  destrinchado  por um  Sherlock Holmes  saído da ficção e transformado em ser de carne e osso para a nossa realidade tupiniquim?  Ou a débâcle financeira nacional teria sua resposta  em alguma das    tragédias shakespearinas?   
   Como  explicar, com argumentos sólidos,  inatacáveis o fato de um  ex-presidente  ser presença  na posse de uma  presidente do STJ? Então, foram só  boatos  os resultados da LavaJato,  a quase prisão  do ex-mandatário? Não se pejam  os três poderes da presença do ex-sindicalista  na Suprema Corte? Não seria  esta uma resposta  dos donos do Poder  acenando  para os brasileiros  que, no caso do Lula,  da sua transformação em  homem de posses, com filhos  enriquecidos,   ainda que pese  a dúvida sobre ser ele dono ou  não do sítio de Atibaia?
    Ora,  tudo isso  é um grão de areia  no Saara se fôssemos a fundo  na investigação do famigerado Escândalo do Mensalão,cujos  desdobramentos ainda não tiveram um desfecho  cabal.
   Onde esta o Brasil que queremos a salvo das tramoias   e chicanas  político-partidárias? Será que desejamos um país desenvolvido  convivendo com um país   campeão da impunidade em  quase todos  setores da vida pública? Seria um desatino pensarmos assim, de vez que a alta impunidade  mexe com a infraestrutura  das instituições públicas e democráticas. Não pode m coexistir  progresso  com  corrupção e impunidade.
     Os atos lesivos à economia e às finanças do país se sustentam até certo ponto, mas, em seguida,  começam  a desintegrar-se e os resultados  estão  à vista dos brasileiros: maior violência,  estados falidos,  saúde pública  falida,  funcionários  públicos estaduais, juros altíssimos  nos cartões de crédito, desemprego,  lojas fechando, custo de vida  em alta,  salários encolhidos e arrochados,  cujo exemplo mais  trágico  é o do Rio de Janeiro,   passando seu funcionários e seus aposentados e pensionistas   privações  sem precedentes na história  da vida  pública  brasileira. De longe,  até nos lembram os sofrimentos por que tem passado  a sociedade  grega atual.
     Se fôssemos fazer uma arqueologia das causas  da delicadíssima  situação  financeira do pais, nos últimos quinze anos, um dos  fatores  mais  determinantes  posso apontar os seguintes  a roubalheira ativa e passiva , a gastança  e   a propinagem, os escândalos  e as sucessivas denúncias  de  desvios  do dinheiro  público  em conluio  descarado com  alguns setores  corruptos da  empresariado  brasileiro.Isso explicita  à saciedade o  motivo nuclear e  decisivo   da falência  do Estado Brasileiro.

      O país de nossos  sonhos não encontro  no mapa  geográfico. Onde está o Brasil?

Convite para o painel Eleição e seus desafios


A ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS e o NÚCLEO DE ESTUDOS POLÍTICOS E ELEITORAIS – NEP – da Universidade Federal do Piauí convidam para a realização do Painel: ELEIÇÃO E SEUS DESAFIOS, sob a presidência do Acadêmico Celso Barros Coelho, tendo por painelistas o Acadêmico Antônio Fonseca e o Professor Cleber de Deus. Na mesma ocasião será lançada a revista CADERNOS DE COMUNICAÇÃO, edição dedicada ao Acadêmico e Jornalista Deoclécio Dantas, sob a responsabilidade do Sindicato dos Jornalistas  Profissionais do Piauí, Presidido pelo Jornalista José Olímpio.
           
Nelson Nery Costa
Presidente


Data: 17 de setembro 2016 (Sábado)
Horário: 9h 40mh 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras  - Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão
Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86)  3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI