quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A VIDA LITERÁRIA BRASILEIRA SOB A PERSPECTIVA DE AFRÂNIO COUTINHO


A VIDA LITERÁRIA BRASILEIRA SOB A PERSPECTIVA DE AFRÂNIO COUTINHO

Cunha e Silva Filho

                    Afrânio Coutinho (1911-2000), ao classificar os  textos reunidos  na obra  No hospital  das letras[1] de “panfleto,” (termo  usado por ele  próprio),  dá o  tom  do tipo de discurso que intenta  imprimir a essa  obra. Ele  próprio declara que  foi  buscá-lo na obra homônima de Francisco  Manuel de Melo (1608-1666), famoso  escritor  português  do  período setecentista que,  não obstante ter  falecido  aos cinquenta e oito anos, deixou uma  prodigiosa e multifacetada   obra. De resto,  Coutinho  fez uma leve alteração  no  título da  obra  de D. Francisco  Manuel  de Melo, que é  Hospital  das letras, acrescentado-lhe no  início  a contração  “No,” inexistente  no título  do autor  luso.

D. Francisco  Manuel de Melo  foi  um intelectual  prolífico de vida  acidentada e aventureira, por sinal, na condição  de degredado, viveu  três anos  no Brasil,  no estado da Bahia (p.483), punido, ao que tudo  indica,  por um  suposto assassínio de um  dos mordomos  do conde de Vila Nova de Portimão. Melo  foi  julgado  e condenado,  recebendo  “desterro  perpétuo” a ser cumprido na África e, depois,  após ser-lhe comutada a pena,  veio ser   degredado  no Brasil,  no estado  da Bahia em 1665 e aqui  permaneceu até o final do degredo[2].

 Num  memorial dirigido ao  rei D.João IV,  escrito  em linguagem  magistral, elogiado  até  pelo  célebre  historiador  e  romancista Alexandre Herculano, Melo pediu ao rei  que  por ele intercedesse, mas de nada  lhe valeu seu esforço. Segundo  o historiador  Joaquim  Ferreira,[3] o rei  D. João  IV não confiava  na “lealdade  de Melo, nem mesmo uma “carta  de clemência”  do   rei  Luís XIV dirigido  ao monarca luso surtiu  efeito. Melo  amargou  a prisão por seis anos até  embarcar  para o Brasil. Afirma-se – inclusive  esta é a  opinião  do escritor Camilo Castelo Branco que sua  prisão   se deveu  a um  affair  que Melo  teve com a  esposa  do conde e este, por  vindima,   acusou Melo de  ter sido  o assassino  do mordomo, de nome Francisco Cardoso.

Segundo salienta Maria Lourdes  Belchior,  professora da Universidade  de Lisboa e autora  do verbete sobre  Francisco   Manuel de Melo   incluído no Dicionário  de literatura dirigido  por Jacinto Prado Coelho, Manuel de Melo  fez “uma crítica   de costumes,”[4] naturalmente se referindo a um das quatro  partes  que  constituem  a obra  Apólogos  dialogais,designadas  por ele  como  “esquisitas”, as quais se  intitulam Relógios  falantes,  Visita  das fontes,  Hospital das  letras e Escritório  avarento.

No entanto  a sua  obra geral não  se restringiu só a isso. Foi poeta,  prosador,  historiador, dramaturgo,  memorialista,    arguto crítico  literário, o que o tornou, na  opinião de Rebelo  da Silva,  citado no referido verbete,  um dos “primeiros eruditos  de seu  tempo e talvez  o prosador mais  substancial da língua  portuguesa.”[5]

Não é, portanto,  gratuita a escolha do autor português e do título No hospital  das letras de Coutinho,  alusivo a uma das obras  de Melo, seja  por este ser  igualmente um crítico literário, seja  porque a obra Hospital das letras, em conjugação  com  Visita  da fonte – convém  assinalarmos  para sermos mais coerentes e precisos  -  mantém traços e  pretensões comuns com o livro  de Coutinho.
Obviamente guardadas as devidas proporções de tempo e de alcance  geral: crítica   acerba contra  escritores  medíocres, importância dada  à obra de Aristóteles, de Platão e Sêneca, preocupações   teóricas  com  conceitos  de  poesia,   de  linguagem, da decadência  intelectual  da  época,   da falta de talento, do espírito   rebelado  contra  o meio  literário, os gramáticos anacrônicos, a natureza de libelo, algumas  apreciações   nem sempre justas  contra  escritores   de  reconhecido   valor, o tom moralista e didático de que se revestem  alguns  textos.[6]

Tanto  no Hospital  das letras de Melo quanto  No hospital  das letras  de Coutinho – urge  considerar -  o lexema  “hospital”  aponta para  campos semânticos  relacionados  a doença, a cura,  a reabilitação,  a melhoria   do  ambiente literário e a desejos de aprimoramento  e de  reformulações  de  novos valores estéticos no campo da literatura, quer  considerados  em julgamentos   coerentes, quer  em  julgamentos   errôneos.

A  importância do pensamento   crítico de Melo, tendo em vista  a obra  Hospital das letras, segundo   argutamente   afirma   a  professora  Maria  Lourdes Belchior, guarda afinidades   de situações   no que tange  a algumas visões  do pensamento  crítico enfrentadas  por  Coutinho. São  palavras  dela: “Esta  obra é indispensável  para o conhecimento das correntes literárias do tempo  e dos juízos feitos sobre autores e obras,  maiores e menores.”[7]

Desta  forma,  temas e questões assemelhados entre Melo e Coutinho sinalizam  propósitos de cunho  polêmico e  de natureza  panfletária, i.e., não é difícil deduzir que Coutinho  provavelmente fosse um admirador da obra de Melo, não só pela grandeza de sua  produção literária em vários  gêneros, conforme  já  frisamos, mas  sobretudo  porque Os apólogos  dialogais constituíram, na visão dos  historiadores   portugueses de maior conceito, um dos monumentos  da literatura  lusa, ou  para corroborarmos  a  opinião  do historiador  Feliciano  Ramos, “.. uma das obras-primas  da literatura clássica.”[8]

Por outro lado,  no deslindamento  das questões  concernentes ao julgamento  crítico, a obra de Melo difere num  ângulo de tratamento destinado  aos autores    analisados: ela se  pauta  pelo “equilíbrio crítico,” conforme assinala  Feliciano  Ramos:

 Há que destacar ainda  o equilíbrio  crítico que Melo denota no Hospital das  Letras, o quarto dos Apólogos, dialogais. Não envelheceram as  apreciações formuladas sobre Tito Lívio, Gil Vicente, Luis de Camões, Rodrigues  Lobo e outros.[9]

No hospital das Letras de Coutinho, consoante  tivemos   oportunidade  de  acentuar,  existe  um deliberado  objetivo de  desancar  e pulverizar  o alvo  principal  de sua  acidez de linguagem contra a vida literária viciada de imperfeições dos anos  1940, 1950 e  meados dos  aos  1960. Referimo-nos  ao  desenho  caricato que  faz de Lins,  trazendo-nos  à mente aquele período em que Sílvio Romero  procurou apequenar a figura crítica   pessoal  de José Veríssimo com a  obra  Zeverissimações  ineptas da crítica  numa tal semelhança  de situação que valeria  a pena aqui  citar a seguinte  reflexão de Brito Broca acerca  do  assunto:

A polêmica do tipo camiliano  que encontrou  em Carlos de Laet um dos seus maiores  adeptos entre nós, já estava um tanto fora de moda por volta de 1909, quando Sílvio Romero desfechou contra  José Veríssimo o violentíssimo ataque das Zeverisssimações   ineptas da crítica. Tínhamos aqui de novo  agressão  mais no terreno  pessoal do que no das ideias, em termos  rudes e brutais, com um  requinte de plebeísmo a que nunca chegara  Camilo nem mesmo  Laet.[10]

                   No  hospital  das Letras, definido por Coutinho, conforme já assinalamos  atrás,  como um  panfleto,  na realidade assume  mais   caracterizadamente  esta forma  de crítica e virulência de análise e de  linguagem  no  derradeiro   capítulo, ao qual  deu por título  “O Impostor,”* capítulo este de resto  iniciado  com duas  parataxes com teor pedagógico-moralista.[11] (p.179).
Antes de desenvolvermos  uma discussão específica daquele  capítulo, o que faremos  mais adiante neste   estudo, é preciso   enfatizarmos  uma circunstância relacionada  à composição  de No hospital das Letras, ou seja,  evidenciar que esta obra  está  associada  intimamente na maior parte dos temas  debatidos a uma  obra,  por muitos  ângulos,  fundamental  ao  pensamento  crítico-teórico-historiográfico de Coutinho.

Ao fazer essa associação  aludo ao grosso  volume  Correntes cruzadas ( 19530, no qual   Coutinho  reúne o que  ele chama  de  “crônicas, volume   precedido  de um longo e  bem  elaborado   prefácio ou  introdução, no qual  Coutinho   traça os principais   pontos  de seus  objetivos não só em  referência  às suas  ideias  polêmicas  envolvendo   questões atinentes à defesa  de seu  pensamento   crítico que  o levaram até  à  polêmica  pessoal,  como ainda  à situação,    ao seu  ver,  caótica, estéril  e  desatualizada   do meio   intelectual   brasileiro,  do ensino de literatura e das urgentes  demandas  de uma   nova   forma  de   trabalhar em  áreas  da teoria literária, da crítica literária,  da  historia literária no ensino secundário   no  ensino superior  de Letras.

Para ele,   esse grande salto só se daria principalmente  pelos efeitos  sadios  de mudanças  e  renovação  no ensino  universitário, livrando  o meio literário brasileiro ainda muito  preso  ao conservadorismo   que,  na sua visão,   impedia  o pleno  desenvolvimento  dos estudos  literarios  entre  nós.

Não será preciso  afirmar  ser No hospital  das letras  um livro no qual  subjaz um fato  determinante  da  posição  intelectual de  Coutinho se excetuarmos  o  último   capítulo a que  fiz  referência linhas  atrás:  o seu caráter  pedagógico,  que  ao leitor  atento  não  é lícito  passar despercebido.
 Coutinho é, antes de tudo,  um crítico-pedagogo,  um crítico  educador que, para  atingir seus  objetivos, não poupará   esforços, ainda que para isso,  utilize  da sátira  e do panfleto  demolidor,  no sentido  de  mostrar  caminhos  e vias novos  pelos quais  a crítica  literária,  o ensaio  literário,  a história  literária e especificamente o ensino da literatura  consigam  ser  instrumentalizados  por padrões de técnica e de  enfoques  hauridos  nas fontes  mais  originais   da tradição  universal.

 Daí ser seu  alvo  principal  a atualização   do saber  literário  entre nós que liberte  formas  anquilosadas   de ensino  e de crítica  dissociados  do  estudo sério,  profundo,  produtivo, como se  desejasse  aproximar  o pensamento   literário  brasileiro  o máximo  possível  dos níveis  avançados   da literatura   ocidental estudada  e ensinada nos  grandes  centros   do mundo, seja nos Estados Unidos, seja na Europa.  A citação seguinte  dá a medida  certa  desses  objetivos   a serem  colimados :

        O melhoramento da literatura   no  Brasil não resultará de arranjos na vida de alguns   intelectuais, mas de medidas de ensino literário; o enriquecimento de nossas  bibliotecas com  instrumentos de estudo e pesquisa, de modo a  tornar acessíveis as grandes fontes da cultura a fim de que não continuemos atrasados cinquenta e cem anos...”[12]

                       No hospital das letras, por ser, no geral,  uma  obra  acentuadamente  detratora  de erros e males de nossa  vida literária,  no conjunto de  obras do autor,  se torna um trabalho  em que se constata    uma queda no bom  nível geral do livro,  tendo em vista que   o seu  último capítulo me parece  dolorosamente  parcial   para com o seu adversário, Álvaro Lins (1912-1970). O intento caricatural  de que  se reveste o capítulo  em questão  - reforço -   prejudica  o todo da obra, particularmente pelas   referências  por vezes exageradas e destemperadas no que concerne à  figura de Lins. Esse tipo de caricatura, no entanto  -  reconhecemos -  é inerente à condição de alguém que  se sentiu  injustiçado pelo seu   opositor,  o crítico Álvaro Lins.

                     Entretanto,  conforme   assinalamos  anteriormente,  No hospital das  letras Coutinho, ao  analisar  a situação   da vida literária  brasileira em  muitos  aspectos possui  o seu tanto  de  obra  saneadora  e  identificadora  de  tantos  males  por que  atravessaram  a vida literária  brasileira  no  recorte temporal   selecionado   por Coutinho. O que,  porém,  diminui um pouco  o seu  valor  de  comentários  candentes é o fato de que  não cita  quase  nomes  dos  personagens   aludidos  e dissecados  nos seus comentários.  Há  uma excesso de generalização  de bons     juízos  críticos  acerca  dos  males,  do estado  de   inércia e do clima  arrivista   que permeava  os anos   visados  pelo autor.

Desde o primeiro  capítulo ,  intitulado intencionalmente de “A comédia da vida literária” podemos  antecipar  o que  o livro   nos revelaria  da vida literária  nacional e da  visão  acerba de crítica    que Coutinho   passaria a nos  transmitir  com a coragem   que  o caracterizou ao longo de sua  vida  intelectual. Ponderações  como a seguinte  apontam  para  o tipo de vida literária  dominante  nos anos  1940, 1950 e  1960 aproximadamente: “A vida literária é, no Brasil, muito mais importante do que a própria literatura”.[13] (grifos nossos)

Discutindo os  desacertos da vida literária do seu  tempo, Coutinho disso se aproveita para compor  um  “panfleto” o mais  abrangente  possível em temas  e situações  do que  podemos   definir como a política literária do baixo clero nacional a qual,  por isso,  não se cinge apenas a atingir seu adversário de longa  data, Álvaro Lins, mas também lançar setas ferinas contra uma série de  mazelas  no campo   intelectual, quer da vida literária, quer  do ensino da literatura, quer da crítica literária e da teoria  literária aaté então  não devidamente  formulada como  um corpus   teórico   que  seria  obrigatório  conhecer.

Seu desiderato  era  sanear  a  politicagem  literária, sentimento  que está  encerrado  no  na própria escolha do  título  do  livro onde os lexemas “hospital” e “letras”  semanticamente  apontam  para  o lugar  de “cura”, de “tratamento,  de reabilitação  de uma  vida literária   cheia de males, improvisações,  mandonismo  e imperfeições flagrantes.

Para isso, não  poupa  por vezes  transmitir  suas  opiniões  em linguagem  desabrida, como são  ilustrativos  os vocábulos  “chacrinha, “cafajetismo,” “palhaçada,” “picaretagem”, “vigaristas” etc.
O seu espírito  polêmico,  inconformado  diante de nossos  deficiências  culturais  isso  tudo  não poderia   passar  incólume. Daí a sua  maneira  beligerante  de  se contrapor  à estagnação de estudos literários e de um a vida literária  feitas  por vezes de grupinhos, de camaradagem, de interesses  políticos, de favores,  de tráfico de influência,   de mistura com  um  arremedo    de vida intelectual.

Qualquer desvio de conduta nos nossos  mores literários foi alvo    das verrinas de Coutinho por longos  anos. Por isso,  chamara de “comédia da vida literária” ao primeiro  capítulo  de sua  obra. Obviamente,  nem  sempre  alguns   pontos de vista  expendidos  por ele  são  justificáveis, porquanto em  num  panfleto,   como na  polêmica  acirrada,  os contendores  cometem  muitas erros e exageros, hipertrofiam  os defeitos  dos  seus em êmulos, afirmam  coisas  que nem sempre correspondem com rigor  à   realidade dos fatos, exageram na caricatura e se movem  pela  paixão  e, chegando  a  esse nível,  cometem disparates  e, ao final,  se tornam  amiúde  parciais   e passionais, perdendo  o controle  e a lógica  de suas  argumentações.

 A polêmica  tem essa dimensão  menor, esse lado  burlesco,  carnavalizado,  em que  o  polemista  inverte  a verdade dos fatos,  escamoteia  outros,  perde-se   nos seus  sofismas e na sua capacidade  de    emitir   suas ideias  com equilíbrio e isenção.

 Contudo,  em No hospital  das letras,  sem dúvida há  juízos  ponderados,  equilibrados,  voltados  para  a moralização  de nossa vida  cultural e o que Coutinho  achava de ruim  nela se afirma como  denúncia  necessária, a meu  ver,  tem do em vista  o  objetivo  de mostrar ao leitor daqueles anos do século  passado    como  não  deveria ser a vida  literária  no país.

Quer  dizer,  Coutinho  combateu ferozmente as frivolidades do homem de letras sem qualificação, ou como ele  define,  do pseudo-intelectual,  dos arrivistas,  dos  “profiteurs”,  das mediocridades  cuja meta era  galgar   posições  relevantes  na  vida  intelectual  nacional, ainda que  fosse  por  meios  pouco  escrupulosos. Lutou com veemência contra as falácias  perpetradas por  aquelas   nulidades, lutou contra  a fanfarronice,  a malandragem   da baixa  literatura, a ausência de seriedade nos   estudos  literários e  no o preparo  constante  exigido  por quem   se dedica  à produção  literária  de qualidade.

Coutinho  verberou  os malefícios  decorrentes de nossa  descontinuidade   no desenvolvimento  da  literatura brasileira  e dos estudos   literários, os quais   segundo ele,   sempre   lhe pareciam  estar  num  recomeço estéril  por falta  de  continuidade, de metas,  de projetos,  de  melhoramento  e de atualização. Para ele,  o país   carecia de valorizar devidamente os que realmente  produziam algo  de  alto  nível no campo  literário, e nos estudos   teóricos embasados  em técnicas,  metodologias, bibliografia   atualizada e  em estudos   sintonizados  com   o que  de mais avançado   se ensinava  e se  transmitia  nos países  adiantados, tal como ele  viu  na sua permanência  em solo   norte-americano, nas suas melhores  universidades onde figuras eminentes  da Europa  ali  lecionam.

A abrangência de seu panfleto resumia-se no  combate sem trégua às deficiências de nossas   cultura, de nosso  ensino,  da necessidades de aperfeiçoamento  de  nossas   Faculdades de Filosofia que datam  do final da década de 30 do século   passado e, particularmente,  dos seus cursos de letras, do ensino secundário que deveria,   segundo  ele,  separar,   os estudos de língua  dos de literatura.
Na sua luta contra a  estagnação literária  e espírito  crítico  ainda  apegado  ao  impressionismo, entre  tantas outras mazelas, Coutinho  se refere aos chamados   prêmios  literários  concedidos a escritores em concurso  com todos  os vícios e desmandos  de seus julgadores, onde não havia  por vezes   a mínima lisura, mas o  domínio deletério do capadócio     da vida literária deblaterado  por ele com  muito vigor como podemos   perceber da citação  seguinte:
  
 É fácil comprovar sempre os resultados da cobiça na disputa nojenta em torno dos  prêmios.Candidatos  a um prêmio que são, ao mesmo tempo, juízes no outro; barganhas;cálculos; acordos; bate-bocas; cavações; transigências; faltas de critério e idoneidade para  julgamento; de tudo o que a literatura  está ausente.[14]

É nesse diapasão de crítica demolidora de nossas   imperfeições culturais que Coutinho desenvolve seus  comentários e reflexões, suas análises da vida literária brasileira. Fustiga nossos  defeitos culturais mas apresenta  soluções de melhoramentos.
          Não ri como se faz na comédia para  castigar  os costumes, antes  castiga  a vida literária   pelo  mau  uso  que  fazem  suas figuras em evidência, i.e.,   fantoches  posando  de escritores. Seus ataques  ferinos desbancam as “bombachatas” (termo  empregado  por Coutinho) de nosso  cenário  literário de fancaria.

         É pena que Coutinho  não  revele os nomes da maior parte  dos personagens   aludidos  no livro. Provavelmente o faz  desta forma  para não  aumentar  o número de seus  adversários,  alvos de  sua censura.  Não  se utilizou  da sátira  camiliana ou  à moda de Agripino Grieco que,  por sinal,  é duramente  criticado  por Coutinho num artigo em defesa de Machado de Assis.*

O que  expusemos até aqui  constitui o cerne  da visão  de Coutinho acerca da vida literária a partir, segundo  acentuamos  anteriormente,  pelo menos  dos anos 1940  do último  século até os anos  de 1960. Seu propósito  foi  dissecar, através do tom  polêmico, o mapa  humano  da deplorável   realidade de  parte  considerável  de quem  se definia como  escritor no interregno recortado  por Coutinho.

O autor  age no livro  como doutrinador de suas ideias, divulgando  o seu pensamento  crítico, sua visão aberta do fenômeno  literário  pondo sempre  como  condição   fundamental  o  valor da obra  literária como  um  produto  estético. Revela-se, assim,  um pedagogo do ensino da literatura que para ele deveria  passar  do amadorismo  para   uma fase  madura  de disciplina  a ser  lecionada  com método, base científica  e rigor  de pesquisa,  de análise  e interpretação, de revisão bibliográfica e de uma  nova  abordagem   a que  denominou “nova crítica”,  aspecto que  focalizaremos  ainda  neste  estudo.

No hospital das letras  compõe-se de 37 pequenos  capítulos, todos  girando  em   torno   de temas correlatos desvelando  os bastidores e os desvãos da vida intelectual  brasileira. O panfleto, pela sua amplitude de assuntos levantados, em resumo,  visa  a discutir a falsidade de nosso  hábitos de estudos, o pseudo-intelectualismo, o ensino de literatura ultrapassado e ineficiente, os erros de nosso  ensino  superior de letras, a introdução de novas abordagens crítico-interpretativas,  a história  literária feita em geral sem critérios e metodologias que  priorizassem   a obra literária e não  a vida literária.

NOTAS:

[1] Coutinho, Afrânio. No hospital das letras. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1963. Este ensaio  faz parte de minha pesquisa de Pós-Doutorado em Literatura Comparada, submetida e aprovada pela  Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Ciências da literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ. Faculdade de Letras, 2014, 167 p. O texto, para os objetivos  deste estudo, sofreu algumas alterações e acréscimos face  ao original..O objetivo  deste ensaio  se deve, a meu ver,  a uma certa  atualidade do assunto no tocante  à vida literária  e à história literária ainda vigorantes  em certas partes do país. .
[2] FERREIRA. Joaquim. História da literatura portuguesa, 3 ed. rev.   atual. pelo autor, Porto: Domingos  Barreira, 1971, p. 488-493.
[3] Idem, p. 490.
[4] Ver verbete: MELO, D. Francisco Manuel de. In: PRADO COELHO, Jacinto do. (Dir.). Dicionário de literatura.brasileira, literatura portuguesa, literatura  galega e estilística literária.  Porto: Figueirinhas, 1973, p.621.
[5] Idem, ibidem, p.622-623.
[6] RAMOS, Feliciano. História da literatura  portuguesa. Braga: Livraria Cruz, 1950, p. 310-313..
[7] PRADO COELHO, Jacinto do. (Dir.). Op. cit. 621.
[8] RAMOS.  Feliciano. Op. cit., 313.
[9] Idem, p. 312.
[10] BROCA,  Brito. A vida literária no Brasil – 1900. Introdução de Francisco de Assis  Barbosa. 3. ed. Livraria José Olympio Editora, 1975. Coleção  Documentos Brasileiros, p. 199.
[11] COUTINHO,  Afrânio.  No hospital das letras, Op. cit., p. 179. São as seguintes as parataxes:
“E necessário uma mente equilibrada e um mínimo de decência humana para se ter um bom escritor.”
“O processo de fazer de si um melhor artista literário torna-se inextricavelmente ligado ao de fazer de si um homem melhor.”
[12] Idem ,  p. 35.
[13] Idem, p. 27.
[14] Idem, p.37.

[15] COUTINHO, Afrânio. A filosofia de Machado de Assis e outros ensaios. Rio de Janeiro: Livraria  São José, 1959, p.162-181.O desenvolvimento desta parte do livro vem indicado por seções de títulos  por vezes irônicos e demolidores: “Machado e Grieco,” “Livro de Negação,” “Machado e a Teoria do Molho,”  “A Brasilidade de Machado” “O Idioma da Crítica.”

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Os Meninos Gibizeiros da Praça Pedro II (2ª Parte)



Os Meninos Gibizeiros da Praça Pedro II (2ª Parte)

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

Tempos atrás redigi uma crônica sobre um hábito que só encontrei em Teresina, quando para esta cidade eu vim com o intuito de continuar os meus estudos: a leitura de gibis nos cinemas antes do início das sessões. Falei ainda que as revistas eram objeto de troca ou simples aquisição em bancas improvisadas sobre caixotes de madeira e postadas em frente aos cinemas. Somente para refrescar a memória dos que já leram o texto ou para informar aos que não o fizeram: o indivíduo chegava para assistir a um determinado filme já trazendo a sua revista em quadrinhos debaixo do braço para a troca por outra não lida com os gibizeiros. E depois de alguma negociação, deixava com o dono da banca um troco, a torna, além do seu gibi, e adentrava ao cinema para aguardar o início da projeção do filme. E, enquanto isto, na companhia de inúmeros outros cinéfilos, passava a ler a sua revista. Era um hábito, fazia parte do programa.

Pois bem. Ontem de manhã fui ao centro da cidade para resolver alguns negócios e, terminada a minha obrigação, resolvi dar uma passadinha na banca de revistas usadas do Dentinho para um dedo de prosa, mas também para garimpar alguma novidade. Saí depois com algumas revistas do Tex, que reservo para ler naqueles momentos de total descontração, quando até mesmo lê um bom livro é tarefa oficial. Esses momentos pedem algo mais leve, menos sério, então saco um gibi da prateleira, que pode ser um Almanaque Disney, um Chico Bento, ou um cowboy estrelado pelo Tex Willer e seu pards. Nos últimos tempos tenho procurado os sebos para adquirir revistas usadas, tanto pelo seu valor, quanto pela sua ausência nas bancas de revistas novas, ou até mesmo por estarem fora de publicação.

Dentinho, de acordo com o que me informou, é um dos últimos remanescentes de um grupo de cerca de 20 meninos que iniciou aquele negócio de vender revistas usadas na porta dos cinemas 4 de Setembro ou do Rex. O outro remanescente é o Joel, dono de várias bancas de revistas espalhadas pela cidade. Só que o Joel, desde muito tempo, migrou para a atividade das revistas novas, ficando apenas o Dentinho como o último remanescente daquela turma, ao lado de alguns outros que se iniciaram depois no mister. Dentinho é um sujeito alegre, boa prosa, que acompanhou o desenvolvimento da cidade de um ponto de observação muito bem localizado, pois situou a sua banca quase defronte ao palácio do governo, o Palácio de Karnak. E nesses últimos 50 anos, acompanhou as transformações pelas quais a cidade passou, inclusive, a migração da maioria das famílias que residiam no centro, para a zona leste.

Espremendo a memória, Dentinho, sessentão, cabelos quase completamente brancos, relacionou-me o nome de quatorze daqueles garotos que começaram a negociar revistas usadas, lá pelos idos de 1964: Pitica, Gobá, Magrelo, Magrão, Preto, Preto Prudêncio, Macaco, Pelé, Magrinho, Crente, Bode, Pixico, Joel, e ele próprio.

Uma curiosidade: ninguém ali era conhecido pelo nome de batismo. Todos eram chamados pelo apelido, de forma que ninguém lhes sabia os nomes próprios. Isso, até hoje em dia. Destes, como falei, apenas ele continua a operar no ramo de revistas usadas ali em volta da praça.  Outros garotos e adolescentes também operavam algum tipo de atividade no local. Dois desses grupos eram formados pelos vendedores de maçãs, naquele tempo totalmente importadas da Argentina, pois o país ainda não as produzia em escala comercial, e os flanelinhas. Mas o grupo mais coeso, que trabalhava junto, e se divertia também em sociedade, era o dos meninos gibizeiros. Como também já afirmei na crônica anterior, as bancas eram improvidas sobre caixotes de maçãs argentinas, as “Manzanas Argentinas”. E Sobre eles estendiam-se o papel arroxeado que acondicionava os frutos, como se fora uma toalha. Era assim que as revistas eram expostas e apresentadas para o público.

Afirmou-me também o jornaleiro que muitos daqueles meninos vieram do interior para Teresina, e se estabeleceram na praça por falta de outra ocupação. Foi este o caso dos três irmãos, Gobá, Magrelo e Magrão, originários de uma cidade do médio Parnaíba, talvez Água Branca, e que, anos depois, voltaram para lá. Aliás, daquele grupo, muitos foram embora, passaram a desenvolver outras atividades, como o garoto conhecido como Macaco. Sobre este, Dentinho me contou uma história triste, que repasso a frente. Macaco, já rapaz, foi acusado de ter participado de um arrombamento ocorrido na Lanchonete Americana, situada em uma das esquinas da praça, e também ponto de encontro da juventude daquela época. Mantido encarcerado por alguns dias, o rapaz foi solto por falta de provas, e resolveu adotar uma postura diferente para a sua vida. Ao ser libertado, entrou na loja Juçara, conhecida por vender roupas de boa qualidade, comprou algumas peças e, devidamente bem vestido, procurou Dentinho para lhe vender todo seu estoque de revistas usadas. Surpreso com o gesto, Dentinho lhe perguntou sobre o porquê daquele gesto. E recebeu como resposta: vou mimbora daqui!

Mostrando que ainda carregava o peso daquela injustiça praticada contra o amigo de tantas passagens, Dentinho me afirmou, com voz entristecida e saudosa, nunca ter visto, durante este tempo todo, alguém tão correto e de palavra quanto o amigo Macaco. E arrematou: “disse-me ele naquela ocasião: Dentinho, se a minha alma tiver vergonha, ela nunca mais botará os pés nesta cidade quando eu morrer”. E, de fato, ele nunca mais voltou a Teresina. Sabe-se que foi visto algum tempo atrás chefiando o departamento de crédito de uma grande loja em São Paulo. Continuava no ramo do comercio, mas Teresina nunca mais o viu.


Joel, como já falei, é um comerciante bem posto em Teresina, e Dentinho, o único a permanecer no ramo de revistas usadas, também leva uma vida de relativo conforto, residindo em um sítio que ele montou para passar os últimos anos da sua vida em contato com a natureza. Mas, todos os dias, desembarca nas imediações da Praça Pedro II para exercer o seu ofício de vendedor de revistas e livros usados. É um gibizeiro convicto.  

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Fazenda Bocaina


Fazenda Bocaina

Reginaldo Miranda
Ex-Presidente da Academia Piauiense de Letras

O povoamento das cabeceiras do riacho Guaribas data de princípio do século XVIII, quando ali fincou a caiçara dos primeiros currais e apascentou seu rebanho, o coronel Antônio Borges Marim(1680 – 1749).

Oriundo de Portugal, o coronel Borges Marim era um respeitado militar que serviu no reino e, depois, nas tranqueiras de Saibana, em Baçaim, hoje Vasai-Virar, porto no extremo sul de uma ilha localizada a 50km de Bombaim, no noroeste da Índia, onde foi graduado ao posto de coronel de ordenanças em 23 de novembro de 1701. Nesse mesmo ano foi mandado para atuar nas vilas de Santo Antônio de Itabaiana, hoje em Sergipe, e Santo Amaro, na Bahia. Por volta de 1712, com cerca de 32 anos de idade viera em missão militar, para combater os indígenas do sudeste do Piauí e proteger os currais que se iam instalando pelos colonizadores lusitanos. Em 1714, segundo relata o padre e historiador Cláudio Melo, ele meteu de paz e aldeou no lugar Cajueiro os índios Jaicós. Os indígenas demoraram pouco tempo no aldeamento, logo mais se rebelando e entrando novamente na mata íngreme.

A sua fazenda se situava entre serras assemelhadas a uma boca, onde nasce uma das vertentes do referido riacho, por isso recebendo o nome de Bocaina. Foi nesta localidade que o aludido militar fixou residência, juntamente com sua esposa Maria de Sousa e parentes que o acompanhavam nas missões militares, sobretudo alguns sobrinhos, a exemplo de Félix Borges Leal. Este último, mais tarde se estabeleceria na vizinha fazenda Curralinho, da mesma ribeira e deixaria enorme descendência. Portanto, é esta a gênese de Bocaina, hoje cidade de mesmo nome.

Não sabemos ao certo quando faleceu o coronel Antônio Borges Marim, o velho colonizador, embora haja registros de que tenha sido no ano de 1749, já velho e doente. Foi ele casado com a senhora Maria de Sousa, que lhe sobreviveu. Um filho do casal, Antônio Borges Marim, o moço, nascido em 1746, continuaria a carreira militar do pai e desempenharia saliente papel na vida pública, tendo sido vereador de Oeiras por diversas vezes, a cujo termo pertencia a fazenda e membro de uma junta de governo do Piauí(1791).

Depois da morte do velho militar português, a viúva Maria de Sousa convolaria novas núpcias com Gonçalo Rodrigues de Brito, que sucederia o primeiro consorte de sua esposa na administração da fazenda. Uma relação de todos os possuidores de terras do Piauí, elaborada em 16 de novembro de 1762, pelo conselheiro Francisco Marcelino de Gouveia, esclarece esse situação: “Gonçalo Rodrigues de Brito, possue hua fazenda na mesma ribeyra(do Itaim, em que vão incluídas as de Guaribas e Riachão), chamada a Bocayna, com três legoas de comprimento e hua de largura, a qual possuía o coronel Antonio Borges Marim, por morte do qual pertenceo a sua mulher, que hoje é do atual possuidor”.

Segundo consta no Censo Descritivo do Piauí, finalizado em 6 de junho de 1765, naquele tempo residia na fazenda da Bocaina, a viúva Maria de Sousa com o segundo esposo Gonçalo Rodrigues e dois filhos seus, Antônio Borges Marim, o moço, e Anna Borges, acompanhados de quatro escravos, cinco escravas, a mulatinha forra Izabel e mais o casal Quitério Luciano e sua mulher Antônia de Sousa. É a população de então, na Bocaina.


Com essas notas fica esclarecido que existiram dois Antônio Borges Marim, pai e filho; que sua esposa casou-se duas vezes, e ao que parece deixou filhos de ambos os leitos; que o senhor de Bocaina, que aparece nos registros históricos ao tempo da capitania e dos primeiros governos, de que tomou parte, é o segundo de mesmo nome. E essas notas são publicadas para o resgate das origens mais remotas de um promissora comuna piauiense, a hoje cidade de Bocaina, na região de Picos.

POLÍTICA PARNAIBANA A PARTIR DE 1950 (Parte III)

Elias Ximenes do Prado

POLÍTICA PARNAIBANA A PARTIR DE 1950 (Parte III)

Alcenor Candeira Filho

III.            A N O S 70 E 80 

•             PRESIDENTES DA REPÚBLICA NO PERÍODO
                            - 15-03-1974: posse de Ernesto Geisel
                            - 15-03-1979: posse de João Figueiredo
                            - 15-03-1985: posse de José Sarney

A)             PREFEITO CARLOS FURTADO DE CARVALHO

          Carlos Carvalho foi empresário por vocação e político por acaso e por pouco tempo.
          Sem nunca ter disputado cargo eletivo, venceu a primeira e única eleição de que participou como candidato, elegendo-se prefeito com o apoio de Alberto e João Silva para um mandato de dois anos: 1971 a 1972. Concorrente: Elias Ximenes do Prado.
          Sua administração voltou-se sobretudo para o     embelezamento da cidade e  para o aprimoramento dos serviços de limpeza pública.
          Uma das obras mais lembradas: recuperação e asfaltamento da estrada para a Pedra do Sal.

B)             PREFEITO ELIAS XIMENES DO PRADO

              Elias Ximenes é um cearense que veio para Parnaíba em 1934, com nove anos de idade.
        Trajetória política vitoriosa: várias vezes vereador e deputado estadual e um mandato de prefeito.
          Participei da campanha eleitoral de 1972 quando iniciava a vida profissional como advogado e professor e apoiei publicamente a candidatura de Elias a prefeito pelo MDB. A ARENA era o outro partido.  Época do bipartidarismo ditatorial. Elias derrotou o deputado estadual Francisco das Chagas Ribeiro Magalhães, que teve o apoio dos governos federal (Garrastazu Médici), estadual (Alberto Silva) e municipal (Carlos Carvalho).
          Dentre os políticos tradicionais Elias foi apoiado, embora discretamente, pelos irmãos Caldas Rodrigues, cassados e perseguidos pelo regime militar.
          No plano federal Elias Ximenes contava com a simpatia e a velha amizade do Ministro João Paulo dos Reis Velloso, que vem dos tempos de militância integralista, ao lado dos professores José Rodrigues, José Nelson de Carvalho Pires e outros.
          Contudo, a participação ativa e vibrante de profissionais liberais em início de carreira em Parnaíba é que foi determinante na vitória do candidato da oposição. Lembro alguns, quase todos médicos: Mão Santa,  Mário Lages Gonçalves, Paulo Lages Gonçalves, Valdir Aragão, Joaquim Narciso de Oliveira Castro, Roberto Broder.
          O apoio do grande advogado Celso Barros Coelho, deputado estadual cassado em 1964 pela Assembleia Legislativa do Estado do Piauí, foi também importantíssimo na campanha, especialmente pelos serviços profissionais que prestou ao candidato do MDB.
          Alguns seguidores de Elias sofreram ameaças de prisão feitas pelo Delegado Geral de Polícia em Parnaíba, o promotor de carreira Genez de Moura Lima.
          O juiz de direito Walter de Carvalho Miranda, que não admitia arbitrariedades, concedeu vários habeas corpus preventivos em favor dos ameaçados.
          Em depoimento transcrito no livro POLÍTICA: TEMPO E MEMÓRIA, de Celso Barros Coelho (Teresina, Academia Piauiense de Letras/Bienal Editora, 2015), desabafa Elias Ximenes do Prado:

                                                    “Durante a apuração, com a contagem nominal das cédulas pelo juiz, o governo usou de todos os meios para alterar o resultado da eleição não conseguindo em razão da corajosa posição do juiz e da defesa assumida prontamente pelo advogado Celso Barros Coelho.
                          A luta não termina. Desesperados o Governador e o candidato iniciaram um processo na Justiça Eleitoral para barrar a diplomação do candidato eleito . Na defesa mais uma vez se alteia aquele advogado, ocupando a tribuna daquele Tribunal para denunciar o embuste, com argumentos assentados na lei e na jurisprudência do Tribunal” (p. 115/116).
          Elias Ximenes administrou a cidade no período de 1973 a 1976, com muitas realizações, destacando-se:
          - implantação do Sistema Popular de Administração, com Gabinete para receber a população
           - Construção da sede do Tiro de Guerra
          -Construção de escolas
          - Implantação do Pronto Socorro Municipal
          - Pavimentação de ruas e avenidas
          - Abertura e pavimentação da avenida São Sebastião a partir da rua Tabajaras até o aeroporto
          - Construção da sede da Prefeitura, na Praça da Graça.     

C)             PREFEITO JOÃO BATISTA FERREIRA DA SILVA

                    Para um mandato de seis anos disputaram a  eleição para prefeito em 1976 o jornalista e servidor público federal João Batista Ferreira da Silva e o médico Francisco de Assis de Moraes Souza, o Mão Santa, que teve o meu apoio.
Batista Silva obteve um leque de apoios inimaginável: José Alexandre e Chagas Rodrigues, Alberto e João Silva, Elias Ximenes, Cândido Athayde, Ribeiro Magalhães, Roberto Broder. O importante era derrotar Mão Santa, nem que fosse necessário unir os que sempre foram desunidos politicamente.
          Dentre as lideranças políticas consolidadas Mão Santa só contou com Lauro Andrade Correia e Antônio José de Moraes Souza. Resultado: vitória expressiva de Batista Silva.
          Na longa administração de Batista Silva houve pontos positivos e negativos.
          Principais pontos positivos:
          - municipalização da Escola Roland Jacob
          - construção e restauração de estradas
          - construção do Terminal Rodoviário
           - construção de mercados
           - incentivo ao turismo
          - construção de escolas.

          O principal ponto negativo foi a destruição e reconstrução da Praça da Graça.
          O ato impensado do prefeito provocou grande revolta na população que na madrugada de 31 de agosto de 1979 ateou fogo nos tapumes que cercavam e escondiam a praça destroçada.
          O professor Benedito Jonas Correia externou sua revolta em artigo publicado em Caderno Especial do INOVAÇÃO, edição de setembro de 1979. Eis parte do artigo:

“É inadmissível a realização de reformas em praças,  parques e jardins, pela simples vaidade de reformar, sem  no entanto, atender ao valor histórico desses logradouros públicos.    O passado grandioso traz reminiscências grandiosas. O patrimônio histórico, quando preservado, nos seus estilos primitivos, são verdadeiras paisagens de amor e de vida para a cultura de   um povo. A sua destruição será, pois, a desolação, a morte do sentimento cívico, a tristeza de recordações imperecíveis.
                              Muitas vezes, o homem do momento, totalmente ignorante, dotado de imbecilidade integral, não pode compreender o vínculo sentimental que une as gerações, no amor à terra natal. É o caso do infeliz demolidor da Praça da Graça, o sr. Batista Silva.
                              O recente episódio da Praça da Graça tem muito que ver com a nossa história. Primeiro, uma simples pergunta:  os bancos, a pérgula, os valiosos postes de iluminação, onde estão?  Tudo isso é história.
                                                      (...)
                              Devemos sentir na manifestação popular de 31 de agosto passado, reflexos sócio-culturais  da gente parnaibana. Não houve vandalismo, houve, sim, um grito de alerta , sentido, vivido, necessário, e que ficará assinalando um acontecimento de real valor na vida de um povo que ama sua história, que honra seus antepassados, que preza seu patrimônio.

                              A destruição da Praça da Graça, isso, sim, foi puro vandalismo, e o responsável é o sr. Batista Silva, prefeito de Parnaíba,  -  verdadeiro inimigo da nossa Praça mais representativa.”

Continua na próxima semana

domingo, 16 de outubro de 2016

Seleta Piauiense - Torquato Neto


LET´S PLAY THAT (*)

Torquato Neto (1944 – 1972)

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let's play that


(*) Este poema foi musicado por Jards Macalé   

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Noturno de Oeiras e Edson Guedes de Morais














MAIS UM MIMO DE EDSON GUEDES DE MORAIS

Elmar Carvalho

Quando retornava de consulta médica, hoje, dia 13, por volta das onze e meia, encontrei sobre a mesa da sala um pacote e o Jornal da ANE, número 73, ano XI, referente a setembro/2016.

A simultaneidade da entrega dos Correios não passou de mera coincidência (se é que existe coincidência neste mundo de meu Deus), posto que o primeiro foi postado em Jaboatão dos Guararapes - PE, onde reside o remetente, e o segundo foi enviado pela Associação Nacional dos Escritores, sediada em Brasília – DF.

O pacote tinha o seguinte conteúdo: 13 pequenos cartões, cada um contendo diferentes versos de meu “Noturno de Oeiras”, de sorte que neles estava esse texto na íntegra, quando corretamente dispostos; 2 cartões maiores, nos quais foram impressos os meus poemas “Auto-Apresentação” e “Noturno em dor maior”, e vários cartões com pequenos e primorosos textos em prosa da autoria de Edson Guedes de Morais, verdadeiras obras-primas minimalistas. Ele é considerado pela crítica como um grande contista e notável poeta brasileiro.

Todo esse material foi impresso com esmerada arte gráfica, em policromia e em papel de alta qualidade, com lindíssimas ilustrações e vinhetas.

O Jornal da ANE trazia o texto “Edson Guedes de Morais: arte literária e arte gráfica”, da lavra do ilustre escritor cearense Sânzio de Azevedo.

O poema e as ilustrações podem ser vistos acima, na sequência correta, e o texto referido, que endosso e subscreveria, segue logo abaixo.


Edson Guedes de Morais: arte literária e arte gráfica

Sânzio de Azevedo

Leio no livro Do que é feito o poeta (2016), de Anderson Braga Horta, o ensaio “Um mago da poesia e da boa vontade”, sobre Edson Guedes de Morais. Diz o poeta e ensaísta que, além de contista e poeta, o autor focalizado, também artista plástico, exibe ainda “o gosto de editar companheiros de ofício”.

Lembro que pus o nome de Edson Guedes de Morais entre as dedicatórias impressas de meu pequeno livro de haicais Lanternas cor de aurora (2006). O que é muito pouco, e que faz com que me sinta desconfortavelmente ingrato. Por sinal, desse meu livro ele tirou uma pequena edição de meia dúzia de exemplares, em belo colorido.

Perdi a contas dos livros, calendários e postais que EGM me tem enviado. É longa a lista dos poetas que ele tem resgatado, como Raimundo Correia, Olegário Mariano, Augusto dos Anjos, Hermes Fontes e nomes para muitos desconhecidos, como Narcisa Amália e Paula Brito.

Entre poetas mais recentes e já falecidos, lembro Waldemar Lopes, Alcides Werk, Francisco Carvalho, Lêdo Ivo e Homero Homem, que vi muitas vezes no Rio de Janeiro.

Outro que já se foi, Henriques do Cerro Azul, era meu amigo nos tempos de nossa adolescência em Fortaleza...

Quanto aos contemporâneos, cito Anderson Braga Horta, Napoleão Valadares, Dimas Macedo, Ruy Espinheira Filho, dentre muitos outros.

Já me presenteou com cartões e opúsculos de Otacílio de Azevedo, meu Pai, e meus. Às vezes vêm numas belas caixas de madeira, o que mais de uma vez me fez pensar que EGM é um milionário excêntrico...

Em forma de pequeno livro, tem editado vários contos de sua autoria, como Suellen e Amor de Elvira, ambos de enredo trágico e com belas ilustrações.

Nasceu ele na Paraíba e residiu em Brasília, mas há muito está em Pernambuco, precisamente em Jaboatão dos Guararapes. Seu livro Poemas de Dispersão teve uma edição no Rio de Janeiro, em 1956, outra em Jaboatão no ano de 2006 e uma terceira, também pernambucana, em 2011.

João Carlos Taveira, escritor de Brasília, fez o elogio do artista e, entre outras coisas, disse: “Para mim, seu mérito maior é fazer o papel que as escolas públicas, ou mesmo as particulares, há muito abdicaram de realizar.”

Volto aos Poemas de Dispersão, ricos de belos versos, e transcrevo “Segundos”:

Esta alegria
fora de tempo
que vem agora,
de onde é que vem?

Será pedaço de uma alegria
sentida outrora,
depois perdida,
que vem agora?

Poderia transcrever “Crepúsculo”, “Tristeza”, “Final”, “Vernissage no Bar do Joaquim” e outros mas, para não mutilar nenhum texto, contento-me com a reprodução de “Determinação”:

Nada acontecerá
mas tudo irá mudando.
Não haverá, eu sei,
momentos decisivos
ou emoções maiores
mas, quando olhar para trás,
não reconhecerei
tão antigas imagens,
nem mesmo o rosto amado.
Fatal, irrevogável
a fumaça que envolve
os momentos vividos.


Sei que não me redimo da minha falta com relação a esse benemérito da literatura e da arte. Mas me sinto um pouco mais leve depois de fazer o elogio de Edson Guedes de Morais, que Anderson Braga Horta chamou com justiça “Um mago da poesia e da boa vontade”. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Histórias de Évora - Capítulo XXV


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXV

A matrona de Évora

Elmar Carvalho

Na minha infância, aos domingos, quando eu ia com meu pai participar da missa da manhã, para depois assistirmos à sessão matinal do Cine Galileia, vi algumas vezes dona Ângela Fontenele sentada na larga calçada de seu vetusto sobrado solarengo. Simpática, gentil, sempre com um sorriso nos lábios, cumprimentava todos os passantes. Às vezes nos dirigia breves palavras. Aprendeu meu nome. Certa vez disse, talvez para aumentar minha autoestima:
– Para onde você vai, Marcos, tão bonito, tão bem vestido? Parece que vai a um baile, ou então se encontrar com alguma namoradinha...

Fiquei encabulado e nada respondi. Meu pai respondeu por mim:
– Vai pra missa, aprender a rezar, e depois vai assistir a um filme de faroeste, com Giuliano Gemma.
– Ah, muito justo. Como vai dona Rita? Estimo que esteja bem, nunca mais tive o prazer de encontrá-la.
– Vai bem, obrigado, dona Ângela. Só que sempre muito ocupada com os afazeres de mãe e dona de casa.

Ângela Fontenele era uma mulher alta, considerando-se a época e a região. Na juventude, segundo soube, era esbelta, conquanto não fosse magra. Comentava-se que havia sido uma muito bela mulher, alva e loura, de olhos claros, verde-azulados. Descendia de franceses, que se fixaram na Ibiapaba. Com o tempo, tornara-se um tanto corpulenta, mas não gorda, o que lhe dava uma imponência de matrona romana. Vestia-se com elegância, mas sempre com sobriedade, de modo a jamais afrontar a pobreza de quem quer que fosse. Sua voz era suave, audível, porém nunca elevada.

Morreu quando eu tinha uns quinze anos de idade, ou um pouco menos, já não sei ao certo. Teve, creio, uma morte suave, discreta, sem sofrimento e sem testemunhas. Faleceu à noite, em sua cama. A empregada, de manhã, quando foi chamá-la para o café, já que ela não viera espontaneamente para a enorme mesa de refeições, como era seu costume, a encontrou morta. Seu velório e cortejo fúnebre foram o de maior acompanhamento de que já se teve notícia. A igreja matriz ficou lotada durante a missa de corpo presente.

Provocado por minha curiosidade e consequentes perguntas, meu pai, aos poucos, foi me contando a vida de dona Ângela. Também fui sabendo de outros pormenores através de diversas pessoas. Sem dúvida, sua vida dava um romance, porque fora um verdadeiro romance, a que não faltou um pouco de picaresco e de tragédia. Irei resumi-la, o máximo que me for possível.

Seus avós e parentes eram retirantes, fugidos da Ibiapaba, por causa de terrível seca, que assolou a região, no final do século 19. Passaram a morar em Évora, com ânimo definitivo; afinal haviam vendido tudo que possuíam na Serra Grande. Seu avô, gracejando, dizia que em Évora poderiam até morrer de fome, por preguiça, mas jamais de sede, pois que ali havia o grande lago Galileia e o caudaloso Paraguaçu. A sua graciosa e querida Viçosa perdera o viço naquela seca medonha.

Quando Ângela completou catorze anos, e a sua beleza começou a esplender com muita intensidade, entrefechado ou entreaberto botão de rosa, como cantou, em versos nada originais, enfatuado vate eborense, o rico comerciante Constantino Cardoso, que recentemente ficara viúvo, a pediu em casamento, através de seu pai. Não me deram detalhes sobre essas tratativas.

Mas o certo é que Constantino, além de sua sortida loja de tecidos e de grande mercearia, tinha um enorme armazém atacadista, que fornecia produtos comestíveis, higiênicos e de limpeza aos pequenos comércios a varejo, entre os quais bodegas, bares, lanchonetes e botecos. O pai de Ângela sustentava a família com sua pequena mercearia, localizada no bairro Rabo da Gata, nas imediações do lago Galileia. Abastecia seu pequeno comércio graças ao crédito que possuía junto ao grande empório de Constantino. Algumas vezes atrasava o pagamento, que deveria ser mensal, mas o proprietário, condescendente, lhe dilatava o prazo.

Dizem que Ângela, a princípio, se opôs ao casamento, por achar Constantino feio, rude e muito velho para ela. Relutou, relutou, mas acabou aceitando, em face dos argumentos e da insistência dos pais. Faria esse sacrifício para o bem de sua família, sobretudo pais e irmãos. Os boatos diziam que até a saúde do opulento comerciante, que não era boa, e a sua expectativa de vida, que parecia curta, foram levadas em conta. Consta que o rico comerciante, antes do casamento, de forma dissimulada, passou alguns bens e dinheiro para o futuro sogro, que atravessava percalços financeiros.

Os seus parentes, irmãos e sobrinhos, posto que ele não tinha filhos, foram radicalmente contra o casamento, mas Constantino impôs sua vontade férrea e se casou civilmente com a bela adolescente. Foi magnífica a cerimônia religiosa, realizada na matriz de São Gonçalo. Ângela estava deslumbrante em seu vestido de noiva, cravejado de pedras preciosas, com a sua linda grinalda, de ricos bordados e rendas, tudo feito pela mais afamada modista da capital. Foram residir no suntuoso palacete, onde ele morara com sua falecida mulher, no centro histórico de Évora. 
    
Não se passou um mês, quando estourou a notícia de que Constantino morrera. Os parentes levaram ao delegado a suspeita de que ele poderia ter sido envenenado, afinal era um homem muito rico e alguém seria beneficiado com a sua herança, ainda mais que a morte fora súbita, sem que ele estivesse acometido de alguma doença.

A autoridade policial, por descarrego de consciência e para se eximir de futuras responsabilidades, mesmo não se tratando de morte acidental ou violenta, fez sumária investigação e diligências, inclusive exigindo laudo médico, assinado por uma junta. Não se constatou o menor indício de homicídio ou de envenenamento. Apenas foi encontrado, na prateleira superior de um armário, um frasco de um litro, contendo uma beberagem, que se apurou ser de ervas, talvez para fim medicinal.

Começaram a surgir os mais desencontrados boatos na cidade. Alguns diziam tratar-se de uma “garrafada”, verdadeira panaceia, produzida pelo Gonçalo Rezador. Gonçalo, ao fazer as suas orações, umedecia o rosto, as mãos e o peito do doente com um molho de vassourinha, que ele molhava numa bacia de suposta água benta. Também fornecia suas famosas “garrafadas”. O doente lhe dava o quanto podia e queria. Às vezes o pagamento era feito por meio de produtos, como cereais, capões, ovelha, etc.

Outros, mais realistas ou mais maledicentes, chegaram a afirmar que a beberagem era um produto afrodisíaco, feito de exóticos ingredientes, que, pelo uso excessivo durante a lua de mel, terminara por envenenar Constantino. Por cúmulo de maldade, alguns levantaram a hipótese de que Ângela, industriada por sua família, poderia ter adicionado algum tipo de veneno, que não deixava vestígio, à “garrafada”. O suposto afrodisíaco teria sido preparado por um mandingueiro, residente depois do Bairro Floresta. Mas nada disso foi comprovado.

Seja como for, o certo é que os irmãos de Constantino entraram com um processo, invocando a legislação e a jurisprudência vigentes na época, para anular o casamento, sob as alegações de que o comerciante já estava senil e não possuía juízo perfeito na época das bodas, pois já estaria caduco, e que o casamento não se consumara, posto que Ângela continuaria virgem.

Acrescentaram ainda que as núpcias teriam sido apenas um ardil, uma fraude, para que a adolescente  e sua família se apropriassem da riqueza do “de cujus”. Os mais detalhistas, fora dos autos, chegaram a dizer, em linguagem chula e desabrida, que a precária (se é que ainda existia alguma) ereção do comerciante seria insuficiente para romper o hímen de uma cabrocha nova e acochada como a viúva.

Devidamente citada para se defender, Ângela contratou os serviços do mais brilhante advogado da cidade, Antenor Vasconcelos, formado na famosa faculdade de Direito do Recife, solteiro, e considerado pelas moças casadoiras de Évora como um bom partido e como um belo tipo de homem.

Em seu bem localizado e bem mobiliado escritório, o causídico conversou longamente com a sua constituinte sobre os fatos alegados pelos autores, inclusive sobre a vida conjugal e íntima dela com seu falecido esposo. Dizem que o doutor Antenor Vasconcelos saiu encantado com a juventude e com a inefável beleza de Ângela, então na flor de suas quinze primaveras, mas já revelando um caráter forte, decidido, ornado por bela inteligência e sabedoria de vida. De fato ela demonstrava ter muito discernimento e maturidade para a sua idade. Seu sinuoso corpo ainda desabrochava para mais incisiva beleza, a plena beleza do auge da mocidade.

Na contestação, o advogado disse que tudo que a inicial afirmava não passava de mentiras e aleivosias; que a peça estava eivada de maledicências, sem nenhuma prova e sem nenhuma possibilidade de comprovação; que o laudo cadavérico e a sindicância realizada pela autoridade policial não comprovara absolutamente nada. Era, portanto, inepta e estapafúrdia a petição inicial, pelo que pedia o seu imediato arquivamento.

Não se sabe ao certo se movido por maliciosa curiosidade ou se por que achasse a diligência relevante para o deslinde da causa, o digno representante do Ministério Público requereu perícia médica para comprovar se Ângela fora ou não deflorada pelo marido, cuja impotência para o coito fora arguida na inicial. Essa providência foi prontamente deferida pelo magistrado. Antenor teve nova e secreta conversa reservada com Ângela. Dizem, aliás, que bastante longa, e a porta fechada. Não mais voltaram a se encontrar sem que houvesse testemunhas.

Imediatamente, ele ingressou com um requerimento, no qual pedia ao juiz para reconsiderar seu decisum; não foi atendido. Manejou, em tempo hábil, recurso para o Tribunal de Justiça. Cinco meses depois a corte o indeferiu. No mês seguinte Ângela foi submetida à perícia, na forma da lei, inclusive com a participação de assistentes indicados por ambas as partes.

Foi constatado que ela não era mais virgem. Todavia, os peritos não souberam responder a dois quesitos, que eram considerados fundamentais pela parte autora e pelo promotor de Justiça. Não souberam precisar a data do defloramento e nem quem o teria praticado. Portanto, em decisão fundamentada, a Justiça presumiu que ele teria ocorrido logo após as núpcias e que o seu autor só poderia ter sido o falecido marido da periciada.

Meses depois Antenor e Ângela se casaram, em cerimônia discreta, sem festa, e com poucos convidados. Para sempre os eborenses ficaram com a dúvida sobre quem teria efetivamente desvirginado a matronal dona Ângela.


A maioria, contudo, acreditava que o seu defloramento teria sido a única chicana perpetrada pelo notável, competente e conspícuo Dr. Antenor Vasconcelos, que depois veio a ser um dos melhores prefeitos de Évora.”