quinta-feira, 10 de junho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Hosana nas alturas!
Hosana nas alturas
de sua vida sofrida
de pobre e alienada.
Interventora dos gabinetes
(cediam-lhe os pequenos tronos
de burocratas para rirem
o riso fácil e gratuito).
Cobradora de impostos e taxas
(davam-lhe ínfima moeda em
troca do riso rasgado).
Andava sempre com sua
roupa branca de marinheiro –
primeira e única almirante:
alma mirante
alma errante
alma navegante.
Sempre de
branco como as nuvens
que alvejavam em sua
cabeça de nefelibata.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



9 de junho

A LEMBRANÇA DE BRUENQUE

No meu discurso proferido quando recebi o Título de Cidadão Regenerense, abordei o fato histórico do aldeamento dos índios nesta região. Falei na figura sinistra de João do Rêgo Castelo Branco, de sua fúria feroz e sanguinária na perseguição dos indígenas, e que por isso mesmo foi chamado de El Matador pelo poeta H. Dobal, em poema com esse título. Segundo me contaram, quando estavam sendo feitos os serviços de ampliação da igreja de São Gonçalo, foram encontrados indícios de que o local poderia ter sido um cemitério indígena. Feito esse breve preâmbulo, entrarei no mérito do que quero contar. Fui convidado, pelo presidente João Alves Filho, para fazer o discurso de louvação dos patronos da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE, cuja solenidade aconteceu no dia 29 de maio. A peça retórica foi planejada para ser parte escrita e parte improvisada. Eu teria que falar, entre vários outros, em Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da fazenda Bitorocara, que deu origem à cidade de Campo Maior. Foi um dos chamados heróis da Conquista e mestre de campo, considerado fundador de outras cidades, no Piauí e no Maranhão. Ressaltei que ele combatera os índios, porém sem a ferocidade e sanguinolência de João do Rêgo, o que desagradava os senhores da Casa dos Ávila, na Bahia. Citei os historiadores padre Cláudio Melo e Afonso Ligório de Carvalho para dizer que ele tinha o respeito dos índios, e que chegou a defendê-los e protegê-los da fúria de seus perseguidores. Porém, quando eu meditava sobre o que ia dizer sobre Antônio da Cunha Souto Maior, que o antecedera no comando das armas do Piauí, e que fora um feroz e brutal perseguidor de indígenas, tanto que foi assassinado numa espécie de rebelião de silvícolas, que estavam sob seu comando, aconteceu um fato estranho, para o qual não desejo emitir opinião, mas apenas dizer enfaticamente que aconteceu. Em Regeneração, cidade ligada aos massacres e extermínios de índios, por causa das deserções ocorridas no aldeamento de São Gonçalo, a que já me referi, resido num dos apartamentos do condomínio Pingo d' Água. Quando mentalizei o nome de Souto Maior, imediatamente minha rede vazia foi sacudida com muita força, e ouvi um ruído de ferros, como se fora um ranger de correntes. Isso foi ao entardecer, quase anoitecendo. Fiquei arrepiado durante um bom tempo. Em meu imaginário, era como se os espíritos dos índios trucidados quisessem protestar contra a lembrança de um homem cruel. Lembrei-me do bravo e indômito cacique Bruenque, em sua luta contra as crueldades, falsas promessas e traições dos seus algozes, cuja saga heroica foi bem relatada pelo historiador Reginaldo Miranda, em seu livro São Gonçalo da Regeneração, que está a merecer nova edição. Julguei que a agitação da rede tivesse sido provocada pela ventilação do aparelho de ar condicionado, mas verifiquei que suas aletas estavam direcionadas para baixo. E por que essa ventilação só sacudira a rede naquele dia e no momento em que pensei nas atrocidades do Souto Maior? Descarto, pela mesma razão, o vento que poderia passar pelas venezianas da janela do quarto, ainda mais porque a porta estava fechada e, portanto, não poderia ser formada uma corrente de ar. É certo que várias explicações poderão ser aventadas. Deixo que cada um fique com a sua. Eu, na minha condição de franco atirador e de não sectário, admitirei todas as possibilidades. Contudo, não me apegarei a nenhuma.

terça-feira, 8 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



8 de junho

UM SÍRIO EM ARRAIAL DO PIAUÍ

Esteve hoje à tarde no fórum um neto de Elias Helal Tajra. Seu nome é o mesmo do avô, trocado o sobrenome Tajra pelo vocábulo Neto. Fez o curso de Edificações na velha Escola Técnica Federal do Piauí e formou-se em Licenciatura Plena em Química. Tem funcionado como perito ou como assistente técnico em alguns processos. Contou-me ele a história desse seu ancestral. O velho Elias nasceu em Damasco, na Síria. Era alto, alourado e de olhos azuis. Para fugir da primeira guerra mundial, foi para a Turquia de onde conseguiu embarcar em um navio. Para conseguir a vaga, embriagou um marinheiro e tomou o seu lugar na tripulação. No Brasil, esteve inicialmente em Belém, de onde seguiu para São Luís. Desta cidade foi para Teresina, de onde foi dar com os costados em Floriano, onde havia uma colônia de sírios e libaneses. Seus patrícios conseguiram-lhe a ocupação de caixeiro-viajante, em cuja atividade percorreu várias cidades do interior do Piauí, inclusive a cidadezinha de Arraial do Piauí, na qual terminou se fixando. Estabeleceu uma farmácia. Lá, exerceu informalmente várias atividades, porquanto se tornou uma espécie de conselheiro, juiz, conciliador e médico, além de farmacêutico. Dificilmente, cometia erro em suas consultas, diagnósticos e receitas. Tanto que um posto de saúde ostenta seu nome. Também seu nome foi dado a uma rua dessa urbe. Conviveu com quatro mulheres, com as quais gerou 14 filhos. Quando a primeira morreu, convidou uma mulher para ser a ama de leite de seu filho mais novo, que tinha apenas um pouco mais de mês de vida. Terminaram convivendo como marido e mulher. Quando a segunda veio a falecer, preferiu não sair da família, e se tornou companheiro de uma irmã dela. Com a morte desta, arranjou a quarta e última companheira. Ao que se sabe, teve apenas uma mulher de cada vez. Viveu até os 108 anos, como um homem ativo e rijo. Nessa idade fez uma operação de hérnia. Inquieto, mesmo operado, trepou num monte de tijolos, para tirar algo de cima de um muro. Pisou em falso, vindo a cair, o que lhe arrebentou novamente a hérnia objeto da cirurgia. Em consequência, veio a óbito, vinte e um anos atrás. Foi sepultado na pequenina Arraial, onde exerceu as suas atividades e a sua liderança natural, carismática e humanitária, sem os interesses escusos da politicalha. Deixou vários filhos e netos. Muitos não carregam os sobrenomes Helal e Tajra. Mas carregam o DNA de um homem que foi sábio, bom e digno.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

Elmar Carvalho


O CORTEJO DOS PÁSSAROS

Era um homem bom. Sem arestas. Nunca se lhe ouviu palavras ásperas, nem de queixas, nem de azedumes. Servidor público, nunca ambicionou cargos comissionados. Mas sempre sustentou a família com dignidade. Entretanto, sem luxo nem ostentação. Dizia-se cristão, e frequentava todas as igrejas de sua cidade, tanto a católica como as evangélicas. Quando lhe questionavam sobre isso, respondia que todos somos irmãos em Cristo e em Deus, e que as igrejas eram as diferentes maneiras de se buscar Deus; e que todos buscavam Deus, mesmo os que não frequentavam nenhum culto, mesmo os que se diziam ateus. Dizia que uma pessoa não tinha culpa de não ter fé. Em suas folgas, prestava serviços em hospitais e abrigos de órfãos e idosos. Pedia esmola em benefício dos desamparados. As moedas pareciam se multiplicar em suas mãos, e ele conseguiu construir umas pequenas casas para seus velhinhos. Discretamente, alimentava os vira-latas da cidade, que vagavam sem dono, à procura de restos de comida. A cajazeira de seu quintal era abrigo de pássaros, pois ele tinha o hábito de lhes jogar alimentos. Havia mesmo quem dissesse haver visto passarinhos pousados em seus ombros ou em suas mãos. Sua fala era mansa, baixa e pausada, como se temesse incomodar ouvidos mais sensíveis. Parecia evitar a palavra eu, embora de forma velada, quase imperceptível. Muitas vezes parecia absorto, como se estivesse ausente de si mesmo. Nessas ocasiões seus lábios pareciam se mover, como se estivessem falando. Todos sabiam que ele estava contrito, em fervorosa oração. Todos se sentiam bem e confortados em sua presença. Um dia, quando falava em Deus, quando falava do seu desejo de a cada dia se aproximar mais Dele, com ar de mansa felicidade, de verdadeira beatitude, silenciou, porém mantendo um leve sorriso nos lábios. Pensaram que estava a meditar ou a orar, alheado do mundo e de si próprio. Depois de alguns minutos, constaram que ele havia morrido, na mais profunda paz, sem medo, sem sofrimento. Quase toda a cidade foi a seu sepultamento. Foram velhos, mendigos e órfãos, que ele ajudara de alguma forma. Viram alguns cães acompanharem o cortejo. Muitos acharam que era simples coincidência a presença dos vira-latas. Mas quando viram, adejando sobre a cova, uma revoada de pássaros, que voltearam até o momento final da cerimônia fúnebre, já não acharam que fosse tanta coincidência assim. Ainda mais porque o bando era composto por diferentes tipos de aves. Quando tudo terminou e todos abandonavam a necrópole, os pássaros, que ninguém sabia de onde vierem, modularam diferentes gorjeios; fizeram uma grande espiral em direção ao céu, e depois sumiram no azul do horizonte longínquo.

sábado, 5 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




5 de junho

NA CASA DO ESTUDANTE E NO LICEU

Passando ontem pela rua Rui Barbosa, em direção ao bairro Tabuleta, vi o velho prédio da Casa do Estudante, que fica perto do Verdão e do Estádio Lindolfo Monteiro. Recordei o jovem de 16 anos, prenhe de esperanças e de sonhos, que fui um dia. Nessa época, consegui com o Gilberto Ferreira, então seu presidente, meu conterrâneo, uma vaga, disputadíssima, considerando que em 1973 poucas cidades do interior do Piauí possuiam o 2º Grau. Cheguei a esse abrigo em março desse ano, na época das chuvas, com pouca bagagem e uma velha cama de campanha, de lona verde, creio, que meu pai tinha e me deu. Os apartamentos já estavam lotados, de modo que fui designado para ficar num grande alojamento, que mais se assemelhava a uma enfermaria de um hospital público, com dezenas de camas bem próximas, espalhadas pelo vasto recinto. Restou-me um local perto de uma janela de venezianas. Na hora, não atinei por que aquele local ainda estava vago. De repente, acordo atordoado, em meio a grande alvoroço. Chovera, e todos que ficáramos perto da janela recebíamos os respingos da chuva. Não me recordo de como consegui voltar a dormir. O chamado prédio novo estava quase concluído. Os veteranos iriam ocupá-lo. O Gilberto Ferreira, irmão do Paulo Ferreira, hoje médico bem sucedido e humanitário, dono do Hospital das Clínicas de Teresina, e do Clemilton, de estrepitosa e contagiante gargalhada, meus amigos, prometeu que os quatro de Campo Maior iríamos “herdar” o seu apartamento, que era um dos melhores do prédio velho, tão logo ocorresse a mudança. O quarteto éramos eu, o Rui Lima, o Edmar Pinto, já falecido, um dos maiores craques do futebol piauiense, e Alfredo da Paz Neto, hoje advogado da CEPISA. A promessa foi cumprida. As instalações hidráulicas e elétricas eram antigas e já estavam comprometidas, de modo que, às vezes, sofríamos pequenos choques, na hora do banho, o que me deixava sempre apreensivo. Quando eu passava o final de semana em Teresina, o principal lazer consistia em irmos, em pequenos grupos, a pé, à Praça Pedro II, e contemplarmos os volteios das raparigas em flor, na expressão feliz e poética de célebre escritor. Eu estudava, à noite, no velho Liceu Piauiense. Quando meu pai foi ali me matricular no primeiro ano do antigo Científico, recebeu a notícia de que não havia mais vagas, o que foi um choque para mim. Meu pai pediu para falar com o diretor. O professor Olímpio Castro nos recebeu. Meu velho lhe explicou a situação, tendo ele dito que só dava para arranjar uma vaga no turno da noite. Dei-me por satisfeito, e fui matriculado. Achava bonito, como mais ainda acho, o velho educandário. Contemplava, encantado, o seu auditório, e menino-poeta interiorano me sentia o próprio Castro Alves, a recitar os seus versos condoreiros no Teatro Santa Isabel, no Recife. Eu havia lido o ABC de Castro Alves, de Jorge Amado, e aquilo tudo me deslumbrava. As estátuas das mulheres, que pareciam sustentar o teto do auditório, se me afiguravam enormes e belas deusas gregas, e a minha imaginação me transportava à Grécia de que ouvira falar através de minhas leituras. Pouco tempo atrás, revi esse auditório. O recinto já não me pareceu tão grande, e as mulheres já não me pareceram deusas e nem tão belas. Era a diferença entre as perspectivas de um rapazola ingênuo, cheio de sonhos, espectativas e devaneios, e um homem maduro, que já não acalenta ilusões. Saudoso de minha terra e de meus pais, voltei, como diz a música do Roberto Carlos. Lá concluí o primeiro e fiz o segundo ano letivo. Tive bons mestres, cujos nomes, com alguma involuntária omissão, declino: Altivo da Costa Araújo, odontólogo, homem bom e bem-humorado, José Martins, bioquímico, meu irmão maçônico, Luís Francisco Miranda, meu vizinho, em cuja motoneta, uma Vespa ou Lambreta, peguei carona algumas vezes, Iracema Gomes e Margarida Alacoc, todos competentes e dedicados. De modo que o meu retorno ao aconchego do lar paterno e materno em nada me prejudicou.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

SELETA INTERNACIONAL


FAREWELL

Pablo Neruda

1
Desde o fundo de ti, e ajoelhado
um menino triste, como eu, nos olha.

Pela vida que arderá nas suas veias
teriam que amarrar-se nossas vidas.

Por essas mãos, filhas das tuas,
teriam que matar as minhas mãos.

Pelos seus olhos abertos na terra
verei nos teus lágrimas um dia.

2
Eu não o quero, Amada.

Para que nada nos amarre
que nada nos una.

Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que disseram as palavras.

Nem a festa de amor que não tivemos,
nem os soluços junto à janela.

3
(Amo o amor dos marinheiros
que beijam e partem.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e partem.

Uma noite deitam-se com a morte
no leito do mar.

4
Amo o amor que se reparte
em beijos, leite e pão.

Amor que pode ser eterno
ou que pode ser fugaz.

Amor que quer libertar-se
para voltar a amar.

Amor divinizado que se chega
amor divinizado que se vai.)

5
Já não se encantarão meus olhos nos teus,
já não abrandará junto a ti minha dor.

Mas onde quer que vá levarei o teu rosto
e onde quer que vás levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos demos
uma volta no caminho por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te amar,
do que colher no teu jardim o que eu semeei.

Vou-me embora. Estou triste: estou sempre triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

... Do teu coração diz-me adeus um menino.
E eu digo-lhe adeus.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Trazia a lembrança viva
de um passado morto e sepulto
dos Bailes Azuis e do
burburinho dos porcos d’água
e das meretrizes do cais.
Reinava na boite Rio-Chic
e desfilava pelo grande salão
cheio de espelhos e de sonhos
e de risadas esparsas
como num reino encantado.
A imagem de Jibóia morta
reproduzia-se pelos quatro
cantos do salão através das
pupilas perplexas dos espelhos.
(As velas do velório
lágrimas de cera choravam,
enquanto as mulheres, entre soluços,
rezavam contritas.)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


2 de junho

DE POEMAS E DE PECADOS

De manhã cedo, em Regeneração, fui a uma farmácia, perto da matriz de São Gonçalo, colocar crédito em meu celular. Enquanto era atendido, de repente, caiu uma chuva torrencial, que me prendeu no estabelecimento. Aproveitei para olhar a chuva e os pequenos córregos que se formaram e desciam em direção ao Mulato, que separa o centro do bairro Jaicó. Quando o tempo amainou um pouco, resolvi ir à gráfica Mulato, para conversar um pouco com a Nileide. Conversamos sobre assuntos diversos, mormente sobre cultura, experiência de vida, comportamento e sobre os pecados abordados pelo Zuenir Ventura em seus livros temáticos. Nos detivemos a analisar o triste sentimento da inveja. Disse-me a Nileide que foi esse pecado que mais trabalho deu ao escritor, porquanto ninguém admite ser invejoso. Falamos sobre os despreparados para o exercício de cargos públicos, sobretudo os que se empolgam demais com o poder e sobre os que o usam sem a observância do princípio constitucional da impessoalidade, e querem administrar a coisa pública como se fossem donos. Contou-me ela que o seu irmão Moacy, dotado de senso de humor e verve, foi visitar um amigo na sua repartição. Ao chegar, encontrou um conhecido com quem costumava brincar e que era expansivo e cordial com ele. Notou que o cidadão estava “fechado”, monossilábico, quase taciturno, e que mal lhe respondera o cumprimento. Em conversa com o amigo que fora visitar, recebeu a informação de que essa pessoa sorumbática havia se tornado o chefe da repartição pública. O irmão da Nileide, incontinenti, observou que havia notado que algo errado havia acontecido com ele. Ou seja, deram-lhe um cargo público sem que ele estivesse preparado para assumi-lo. Por isso mesmo, o povo, em sua sabedoria, diz que a formiga quando quer se perder cria asas. A Nileide aproveitou para me mostrar um livro que havia recebido de seu parente Climério Ferreira, poeta e músico da melhor cepa. Era um livro graficamente belo, impresso em papel grosso, quase cartonado, algo semelhante a uma caderneta. Seu título era Da Poética Candanga, e tinha o subtítulo de Poesia sobre Poesia. Pela subtitulação e pela rápida folheada que fiz, foi fácil inferir que tem metapoemas e que intertextualiza com autores diversos, sendo que alguns estão entre os melhores poetas contemporâneos do Brasil. Pelos poucos poemas que pude ler, tenho certeza que se trata de uma ótima obra poética, cujos poemas estão na mesma altitude das matrizes de que provieram.

terça-feira, 1 de junho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



1º de junho

ENTRE FARISEUS E SAMARITANOS

No domingo, degustando um chopp no shopping, conversei com o Paulo Nunes, que foi meu colega no curso de Direito da velha UFPI. Estávamos no simpático Botequim, de propriedade de sua mulher. Ele é aposentado como agente da Polícia Federal e é o chefe de gabinete da Secretaria de Segurança Pública. Contou-me ele um caso curioso, que bem mostra como às vezes pode ser difícil o mister de um julgador, e que demonstra que cada caso é um caso, como diz o jargão jurídico, com as peculiaridades e nuanças próprias. Ele fazia parte de uma blitz da PF, quando os agentes abordaram um caminhoneiro gaúcho. Encontraram no veículo uma razoável quantidade de maconha. O motorista, desesperado, chorou e soluçou copiosamente, e terminou confessando que fizera o transporte da droga porque estava desesperado, com quatro prestações do carro em atraso, e que já havia sido notificado de que a empresa concessionária iria entrar com uma ação de busca e apreensão. Mostrou o carnê com as prestações atrasadas e o aviso de que a ação seria ajuizada. Foi-lhe permitido fazer as ligações de praxe para os seus familiares. Posteriormente, no cárcere, contou para o Paulo que a sua mãe iria vender o pequeno imóvel agrícola, do qual seus parentes tiravam o sustento, para contratar um advogado do Rio Grande do Sul. Condoeu-se Paulo com o drama que se delineava, e resolveu ligar para a mãe do motorista. Pediu-lhe que tivesse paciência, e não vendesse a propriedade, pois tentaria encontrar um advogado de Teresina, que cobrasse honorários mais em conta e parcelasse o pagamento. Contactou o César Feitosa, que aceitou a causa do caminhoneiro, que acabou sendo solto três meses após. O motorista e sua família cumpriram fielmente o acordado. Além disso, o caminhoneiro tinha a virtude da gratidão, e todos os anos, na época do Natal, liga para o seu benfeitor, ainda reconhecido pelo gesto de bondade e compreensão. Paulo cumpriu fielmente o seu dever, mas soube compreender as vicissitudes e tragédias a que todos somos suscetíveis, na fragilidade e instabilidade da condição humana. Sem dúvida, entendeu que aquele homem não era propriamente um bandido, mas alguém que, num momento de fraqueza e de desespero, cometera um crime, do qual se arrependera amargamente. Aposentou-se sem nunca ter sofrido uma pena disciplinar. Certamente, muitos fariseus, que se acham mais catões do que o próprio Catão, jamais fariam o gesto de solidariedade e compreensão humana que o Paulo fez, sem outro interesse senão o de mitigar o sofrimento do próximo, como se fora o samaritano da parábola de Cristo.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

SAL SOL SOLIDÃO

ELMAR CARVALHO


está tão frio
e eu estou tão triste
um homem segue
pela rua gelada
e a sua alma está
mais gelada engelhada
que a rua deserta
as sombras tristes
espiam frias pelas
frestas das venezianas
nesgas de luz geladas
conspiram das caladas
dos calabouços
o homem triste
acende um cigarro
que não fuma
e segue só
e o homem
triste sou eu
e o homem
triste sofre
o sol e
o sal
de suas
dez desgraças
é triste como
o canto/pranto
do galo gago gogo
alçado dos alçapões
pelas madrugadas geladas
cheias de neves e geadas
é triste como
o ladrar de
um cão cãozinho de
um cão sozinho
nas noites negras
nas noites nada
e a neve cai
e a neve caia
os túmulos e os ciprestes
e a neve é nave
por onde trafega
a res/ins/piração
do homem só
do homem pó
mas a neve
não é nada
o que é tudo
é a tristeza
que perscruta
dos esgotos
que espia
dos desgostos
( a solidão é uma aranha
tecendo teias de saudade
onde ela própria se enleia)
e o homem
triste sou eu
e o homem
triste acende um cigarro
que sequer fuma
e segue em sua
grande solidão
de gênio e de cabotino
e de louco três vezes tresloucado
e nada não
e nada não denuncia
ou anuncia sua presença
apenas ele
contempla a solidão
do nada absoluto
do nada só luto
do nada soluço
e segue só
sobre as cinzas
do nada e do não
do apocalipse
do após calipso
e este homem
é um deus
que se construiu e se destruiu
à sua imagem e (des)semelhança
e o seu grande ne’gado
e o seu grande le’gado
será a certeza de sua morte
e este homem sou eu: poeta/profeta
e jeremias chorão
e hão de chorar
sobre o meu choro/coro
e hão de cantar
sobre o meu canto/pranto
mas apenas eu estarei
de pé sobre as cinzas
do caos/cão e do nada
e seguirei sempre só
sobre e sob o signo da solidão
que será o meu sinal
e eu serei
o suor e
o sal e
o sol de
minha própria
girasolidão

NOTÍCIA CULTURAL




LANÇAMENTO DE CAMPO MAIOR RECORDAÇÕES

No próximo sábado, dia 5, às 17 horas, na sede da Câmara Municipal de Campo Maior, na Praça Bona Primo, ocorrerá o lançamento do livro “Campo Maior Recordações”, da autoria de Sílvia Maria Melo de Sousa. Sílvia tem já longa experiência como professora da Universidade Federal do Piauí. É casada com o também professor Demerval Sousa. Não é nenhuma estreante na arte de escrever, pois em sua juventude foi colaboradora do jornal A Luta, que relevantes serviços prestou à cultura e à memória histórica de Campo Maior. Quem se desse ao trabalho de se debruçar sobre seu acervo certamente teria material para um belo livro sobre a história cultural e política do município. Nesse jornal, no qual também estreei, ao publicar contos e crônicas, aos 16 anos de idade, a autora publicou crônicas e notas sociais, que eram lidas com sofreguidão, sobretudo pelos jovens estudantes, quando vinham de férias. Alguns dos textos de Sílvia foram recolhidos pelo saudoso Reginaldo Gonçalves de Lima em seu livro “Geração Campo Maior – Anotações para uma Enciclopédia”, que tive a honra de prefaciar. Acredito, pela sugestão do título, que no livro estarão estampadas muitas reminiscências de Sílvia, obviamente referentes a sua cidade natal.

domingo, 30 de maio de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


20 de maio

A CULPA QUE NÃO ME CABE

Estive ontem em Campo Maior, a velha Bitorocara, para fazer a saudação e louvação dos patronos da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE. Louvei, com muita ênfase e entusiasmo, entre outros, Bernardo de Carvalho e Aguiar, Hilson Bona, Raimundinho Andrade, padre Mateus Cortez Rufino, Cláudio Melo, Bilé Carvalho e Chico Pereira da Silva. Com modéstia ou sem modéstia, devo dizer que fui aplaudido e cumprimentado entusiasticamente por todos. Por todos, exceto por um confrade, que alegou o meu discurso ter sido longo, já que fazia calor e as pessoas estavam em pé. Em minha defesa, devo dizer apenas que reduzi bastante o que tinha a dizer; que disse muito menos do que os patronos mereciam, e que nenhuma culpa tive pela circunstância de que as pessoas não estavam sentadas e de que fazia calor. Ao contrário, até sugeri ao dinâmico presidente João Alves Filho que a solenidade fosse realizada no prédio da Câmara Municipal (antigo Campo Maior Clube), que tem um grande e climatizado auditório, e que ficava bem perto. De lá, as pessoas poderiam se deslocar, ao final do panegírico, para a inauguração das galerias dos patronos e dos acadêmicos.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SELETA PIAUIENSE


A SOMBRA DO DESTINO

Martins Napoleão

Sobre a minha cabeça dolorida
cai, de repente, a sombra do Destino
como uma noite sobre a minha vida:
morre, dentro de mim, quanto é divino

em meio do caminho da subida
por onde inutilmente peregrino.
Toda esperança desaparecida,
tropeço, pela treva, em desatino.

De certo, alguém me impele, alguém me arrasta,
qual uma pedra, na descida escura
desta montanha, cada vez mais vasta.

Eu sinto a sua mão, de quando em quando.
- Sísifo é o meu destino, ó criatura!
e eu sou a pedra que ele vai rolando.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Assim como há
o espírito de porco
o espírito de gato há.
Xigaaaau... Xigaaaaaau...
Não articulava palavras,
apenas miados e miados
e a semiótica linguagem
de seus gestos de gato.

NOTÍCIA CULTURAL

Elmar Carvalho


ACALE EM FESTA CULTURAL - GALERIAS E HOMENAGENS

A Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE, presidida pelo escritor João Alves Filho, no próximo dia 29, sábado, às nove horas, em sua sede, na Praça Bona Primo, promoverá a solenidade de entrega do Diploma do Mérito de Benfeitor da Cultura Campomaiorense aos homenageados Venício Saraiva de Lima, Antônio de Pádua Portela Bona e João Alberto Alves Rodrigues, que serão saudados pelo prefeito João Félix de Andrade Filho. No mesmo evento, ocorrerá a instalação das Galerias dos Patronos e dos Acadêmicos, os quais serão louvados, respectivamente, por Elmar Carvalho e Ernane Napoleão Lima, membros da ACALE. A acadêmica Maria de Jesus Andrade Paz será a responsável pelo Momento Cultural, e declamará poema de sua autoria. Para o presidente João Alves Filho a ACALE “entra em caráter definitivo para a história. É a instituição mais abrangente, pois, preserva o patrimônio cultural material e imaterial da nossa Campo Maior e de toda a sua área geográfica”. A galeria dos acadêmicos falecidos é integrada por monsenhor Joaquim Chaves, Abdias Silva, Marlene Mourão Araújo Ibiapina e Cunha Neto, recentemente falecido. À frente do cerimonial, estará o acadêmico Domingos José de Carvalho. A atual gestão de João Alves Filho conseguiu que o prefeito Joãozinho Félix construísse o Memorial Histórico de Campo Maior e fizesse a doação do solar em que morou a professora Briolanja Oliveira para ser a sede do sodalício.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


26 de maio

NOVO SESSENTÃO

No sábado, fui à festa de aniversário do Evangelista, casado com a Elza, amiga de minha mulher, e que conheço desde o início de minha vida profissional, quando ingressei na ECT, em setembro de 1975. Evangelista é um botafoguense afogueado e fogoso, de muito entusiasmo e vibração, e a sua festa teve detalhes decorativos, que lembravam essa sua condição de torcedor fervoroso. Muitos convidados, além de seus amigos, eram também adeptos do Botafogo. A festa aconteceu no salão nobre do Jockey Club. Encontrei vários amigos, como o coronel Bastos, que foi meu colega do curso de Direito, que não via há um bom tempo. À mesa dele estava o Antônio Luiz Medeiros, promotor de Justiça aposentado, que hoje reside em Santa Catarina. Muitos colegas do aniversariante usaram da palavra, e todos exaltaram as suas boas qualidades de cidadão e de pai de família, bem como enalteceram o bom amigo que ele é. O Antônio Luiz, que poderia ter sido juiz de Direito, mas optou em permanecer como membro do Ministério Público, perguntou-me se eu não desejaria também falar. Respondi-lhe que não, pois sendo flamenguista, não desejava botar fogo em festa botafoguense. Encontrei o meu xará Elmar Veras, que deixou de ser louro, para assumir com galhardia os cabelos grisalhos. Recordamos o tempo em que moramos na pensão de dona Teresinha Cardoso, que ficava perto da Casa Saló, portanto, nas imediações da Escola Sambão e da Baixa da Égua, de muita folia e tradição. Recordamos o Marcos, natural de Pedro II, que era o meu relógio despertador, pois todo dia me acordava para me perguntar as horas. Dona Teresinha ficava furiosa com a impertinência ingênua do Marcos. Para mim, teria sido mais proveitoso ter-lhe dado o meu relógio, ou comprar-lhe um, para não ser perturbado em horário tão matinal, pois ele acordava com as galinhas, na preocupação de não chegar atrasado ao trabalho. Demorei pouco tempo na hospedaria, pois voltei para Parnaíba, para cursar Administração de Empresas no campus local da UFPI. Também encontrei o Vila Nova, que por brincadeira chamo de grande Vilão, quando na verdade ele é um mocinho dos filmes de antigamente. É um artista na arte da dança. Com a sua mulher, praticou todo tipo de dança, tanto que eu lhe disse que ele não era apenas um “pé de valsa”, como se dizia outrora, mas era também um pé de samba, um pé de forró, um pé de tango, e, se alguém duvidasse, para não perder a viagem, dançaria até ao som de um hino. Vila Nova, irmão maçônico, contou-nos uns casos anedóticos e engraçados, de cunho autobiográfico. Como não poderia deixar de ser, cantamos a música Parabéns pra Você. E Evangelista bem fez por merecê-la, em seus sessenta anos bem vividos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


25 de maio

TRÁGICO DESENCONTRO

Nesta sexta-feira, estive na CEF, tratando de assuntos de meu interesse. Fui atendido pela Natália, servidora dinâmica e atenciosa. Estava presente uma senhora que não conhecia. Não sei por que motivo, começamos a falar sobre assuntos de Oeiras. Eu disse a essa senhora que eu era um quase oeirense, e me dava com quase todos os intelectuais da velhacap, que são muitos e de escol; que havia escrito poemas e crônicas, em que fiz a louvação da Terra Mater. Ela me perguntou se eu conhecera o saudoso escritor e médico Expedito Rêgo. Respondi-lhe que sim, e que ainda no final do ano passado eu tivera a honra de ser o apresentador de seu livro Crônicas Esquecidas, que também prefaciara. Disse-lhe que também havia sido, por indicação de Ferrer Freitas, o apresentador de Vidas em Contraste, em memorável noite de cultura, em que vi pela derradeira vez Balduíno Barbosa de Deus, que havia sido meu professor no curso de Direito da UFPI. A senhora terminou por me contar uma tragédia que se abatera sobre sua vida, quando era recém casada e estava na flor da idade. Manoel Felipe, seu marido, era irmão de Expedito Rêgo, que apesar da cara fechada e de poucos sorrisos, era um médico humanitário e um homem bom. Quando ela estava prestes a ganhar seu bebê, o Dr. Expedito recomendou-lhe que viesse tê-lo em Teresina, tendo ela seguido o conselho. Teve parto normal, sem nenhuma complicação, de sorte que dois dias depois pode retornar a Oeiras. Seu marido achou por bem ir a seu encontro, em um jeep, como uma forma de homenagear a mulher e a filha. Seguiram pela estrada que vai para o povoado Gaturiano, que na época era uma carroçável de piçarra. Em certo trecho, próximo do povoado São João da Varjota, hoje cidade, um caminhão emparelhou com o jeep, em que iam Manoel Felipe, um amigo deste, e o motorista, um jovem de aproximadamente 18 anos de idade, provavelmente com pouca experiência e talvez com o entusiasmo próprio da idade. Ao que parece seguiram em parelha durante algum tempo, com o pó da piçarra turbilhonando no ar, o que terminou fazendo com que o motorista do caminhão fizesse uma manobra, de modo que a traseira da carroceria atingisse o carro menor, que foi projetado para fora da estrada. Acredita-se que essa manobra tenha sido proposital, pois soube-se que ele se gabara de tal proeza, ao parar em um posto de combustível. Manoel Felipe foi conduzido para Teresina, enquanto seu amigo faleceu no local do acidente. Poucos dias depois veio a falecer, quando tirava um cochilo, em consequência de sequelas do desastre, com apenas 26 anos de vida. Acompanhei a narrativa atentamente, com poucas interrupções para duas ou três perguntas. Olhei para o rosto de Durcila Sá Rêgo, era este o nome de minha interlocutora. Seus olhos vertiam sentidas e copiosas lágrimas. O poeta Manuel Bandeira, em célebre e elegíaco poema, chorou pelo que não foi, mas que poderia ter sido. Ela parecia chorar pelo que fora, mas que poderia não ter sido, se em lugar do desencontro ocasionado pelo trágico desastre automobilístico houvera acontecido o encontro sonhado e buscado por Manoel Felipe. Perguntei-lhe se poderia contar o caso. Com voz firme, sem titubeios, respondeu-me que sim. Certamente, tem o consolo de ter tido uma boa filha, a competente médica Conceição Sá, casada com o seu colega Tupinambá Vasconcelos, de cujo consórcio lhe vieram os netos.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

SELETA NACIONAL


A FLOR DO MARACUJÁ

Fagundes Varela

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças de mãe-d’água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas,
Que falam de Jeová!
Pela lança ensangüentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela,
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh’alma
De tua alma escrava está!…
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em – á -
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos, ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!

sábado, 22 de maio de 2010

NOTÍCIA CULTURAL



ELEIÇÃO DE JESUALDO CAVALCANTI À APL

Foi eleito hoje para a cadeira nº 3 da Academia Piauiense de Letras o escritor e historiador Jesualdo Cavalcanti Barros. Dos 39 votantes, obteve 34 votos, sendo que 5 eleitores deixaram de votar. Não houve votos nulos e nem em branco. A Comissão da Mesa Receptora e Apuradora de Votos foi constituída pelo Des. Nildomar Silveira Soares, presidente, e pelos acadêmicos Elmar Carvalho e Altevir Alencar. Jesualdo substituirá o também historiador e geógrafo João Gabriel Baptista, que escreveu importantes livros a respeito da Geografia e da História do Piauí, mormente sobre a preservação e navegabilidade do Parnaíba e sobre a memória de nossos indígenas. Formado em Direito, fez pós-graduação em Administração de Empresas e em Direito Público. Jesualdo Cavalcanti foi operoso secretário da Cultura, sobretudo com a implantação do Projeto Petrônio Portella, que publicou importantes obras literárias e historiográficas, e com a criação de uma rede estatal de hoteis e pousadas, como incentivo ao turismo. Também foi exemplar como presidente da Assembleia Legislativa, tendo construído o 3º pavimento de sua sede, editado o Manual do Deputado e modernizado a sua administração, inclusive com a implantação do centro de informática. Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, exerceu a sua presidência, oportunidade em que construiu a sua sede própria. Foi vereador de Teresina, deputado estadual em várias legislaturas e exerceu o cargo de deputado federal, tendo sido também deputado federal constituinte. Após a sua aposentadoria como conselheiro do TCE, faltando ainda oito anos para ser alcançado pela aposentadoria compulsória, empreendeu um grande esforço de pesquisa histórica, que lhe possibilitou publicar importantes livros, bem como desenvolver novas interpretações, com as quais pretende demonstrar que o povoamento do nosso Estado teria começado pela região dos rios Gurguéia e Paraim, assim como procurou trazer novas e importantes contribuições à nossa História. Escreveu e publicou o livro Tempo de Contar, de caráter autobiográfico. Também dedica parte de seu esforço e inteligência à criação do Estado do Gurguéia, uma vez que entende que isso será melhor para o Piauí como um todo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


21 de maio

A CHARGE DO GERVÁSIO

Recebi e-mail do amigo Gervásio Castro, em que ele me manda, em anexo, uma belíssima charge. O texto do bilhete eletrônico diz: “No desenho uma tentativa de retratar meu amigo Elmar, flamenguista, blogueiro, juiz, poeta e, acima de tudo, um ser humano de primeira linha. Desses que enchem de orgulho o Criador”. Sobre a mensagem, embora desvanecido em tê-la recebido, tenho a dizer que de fato sou torcedor do glorioso Flamengo, sou blogueiro, magistrado e literato, mas estou longe, e não se trata de falsa modéstia, de pertencer à primeira linha da raça humana, em que a generosidade do Gervásio me colocou. Apenas, seguindo as lições e orientações da maçonaria, venho lutando para desbastar e polir a pedra bruta que sou eu mesmo. Mas considero as palavras amigas como um incentivo para continuar perseverando nessa difícil escalada. A charge enviada é mais uma demonstração da genialidade do Gervásio nessa seara da arte plástica. Não se trata de uma tentativa, mas realmente me retrata, com invulgar propriedade e talento, nas quatro situações referidas. Quando o livrinho PoeMitos da Parnaíba, cujas charges ilustrativas são de sua autoria, foi lançado, o poeta Alcenor Candeira Filho, na apresentação do opúsculo, observou que o amigo chargista tem o hábito antigo de se vestir de negro, o que poderia revelar uma personalidade sorumbática, melancólica, mas que é um saudável boêmio, com senso de humor, e tranquilo, sem nenhum tipo de pessimismo e negativismo. Apesar da indefectível roupa escura, o artista gosta de injetar em suas charges muitas cores, belas, vivas e harmônicas, perpassadas por desenhos curvilíneos, que muitas vezes lhe servem de fundo ou moldura. Quando aceitou, para honra minha, fazer as ilustrações dos poemas, achei que ele poderia ter grandes dificuldades, pois as informações sobre os retratados eram muito escassas, e nem sempre há um feliz casamento entre ilustrações e poemas, como também entre músicas e composições poéticas. Como autor, posso dizer que ele se houve bem demais, e reproduziu os “mitos” e o espírito dos poemas fielmente, com beleza e emoção, expressando a história e o seu cenário. Mesmo nos poemas mais satíricos e que poderiam ser considerados “impiedosos”, Gervásio Castro, através da inventividade, dos traços e das cores, encontrou maneira de lhes delinear de forma menos crua, menos rude e mais sutil, a mitigar o que eles poderiam ter de mais pejorativo e escatológico. Vou emoldurar a charge e, como uma homenagem ao chargista e à sua grande arte, vou entronizá-la em meu local de trabalho.