quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



11 de agosto

DOIDO POR CARROS

Elmar Carvalho

Sempre o vejo, perto do semáforo do cruzamento das avenidas Petrônio Portella e Duque de Caxias. Vem de longe ou vai para longe, a descer ou a subir a ladeira do Parque da Cidade. Caminha puxando o seu minúsculo carro de brinquedo. Mas não é nenhuma criança. Deve ter mais de trinta anos. É o que o vulgo convencionou chamar de doidinho. Todos os dias fica, pontualmente, no semáforo, como se estivesse a cumprir uma jornada de trabalho, a passar sua esfarrapada flanela nos carros, que esperam a abertura do sinal verde. É como se fosse um ritual; contorna o veículo a lhe esfregar o velho trapo vermelho. Parece estar cumprindo uma obrigação. Não espera receber moedas, pois nunca as solicita. Se algum motorista lhe oferta alguma, não lhe dá a mínima importância, e a guarda displicentemente no bolso, quase como se estivesse a fazer um favor a quem a deu.

Soube que uma pessoa bondosa lhe deu um carrinho novo de presente. Parece não ter dado importância ao mimo, uma vez que continuou a puxar o seu diminuto e velho brinquedo. Talvez tenha ficado com pena de deixá-lo esquecido, no canto, como se costumava dizer antigamente, por causa de um novo amor. Poucos dias atrás, o vi a puxar por um cordão um de seus velhos carrinhos. Era um caminhão, com duas desproporcionalmente grandes rodas dianteiras, sem nenhuma na parte de trás, que lhe faziam empinar a frente, como um avião sem asas e sem voo. Vi quando ele fez o brinquedo dar o chamado “cavalo de pau”, a rodopiar sobre si mesmo. Admirei-me disso, pois ele é muito circunspecto, e até mesmo a usar um brinquedo não gosta de brincadeira, e não sorri. Aparenta viver hermeticamente fechado em seu mundo de silêncio e demência, porquanto não liga a mínima para os passageiros, mas apenas cumpre religiosamente a sua auto-imposta tarefa de “abanar” os carros com a sua escassa tira de flanela. Tudo indica que vive num mundo só dele.

Em sua mansa loucura, nunca o vi furioso ou revoltado, mas apenas a cumprir, como um autômato, o mister que impôs a si mesmo. Mas me contaram que outro dia ele se revoltou contra uma ambulância. Ficou bastante agitado, e em lugar de seus afagos flanelísticos, quis espancar o carro. Embora sem nenhuma vocação detetivesca a la Sherlock Holmes, e sem o adjutório do bom e elementar caro Watson, deduzi que, numa de suas crises, pois até os chamados sãos têm as suas, alguma ambulância deve tê-lo levado para longe de seu rebanho de carros, para confiná-lo em algum hospício, onde lhe devem ter aplicado alguma dolorosa injeção medicamentosa, ou onde lhe podem ter ministrado alguma dosagem/voltagem de choque elétrico, que, segundo ouvi um psiquiatra dizer, ainda tem a sua eficácia, não se tornando, ainda, de todo obsoleto e banido do mundo da medicina. Oxalá, tenha sido excluído das práticas de tortura, que não mais deveriam existir; que, aliás, nunca deveriam ter existido.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO



10 de agosto

UMA NOITE GURGUEANA

Elmar Carvalho

Na sexta-feira ocorreu a solenidade de posse de Jesualdo Cavalcanti Barros, que passou a ocupar uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras. Foi uma verdadeira noite gurgueana. Estavam presentes vários de seus parentes e amigos, além de muitos de seus conterrâneos. O presidente do sodalício, Reginaldo Miranda, é também das ribas gurgueanas, mais precisamente de Bertolínea. Durante quase quatro anos, semanalmente, eu passava por essa cidade, quando era alta madrugada, a bordo de um velho e empoeirado ônibus da Princesa do Sul, quando ia para a longínqua Comarca de Ribeiro Gonçalves. Reginaldo em sua breve, porém entusiasmada palavra, exaltou a cultura dessa região e enalteceu os seus principais representantes. O novel acadêmico, que escreveu o notável livro Memória dos Confins, falou sobre os primórdios históricos dessa plaga dos cerrados piauienses. No seu entendimento, a colonização do Piauí começou por lá, usando como fundamento o fato de que as primeiras sesmarias estavam ali encravadas, bem como a circunstância de que parte dessa região se limita com a Bahia, e consequentemente era o local mais próximo da famosa Casa da Torre, de onde teriam saído os primeiros desbravadores de nosso território. Falou dos homens ilustres do Gurgueia, sobretudo aqueles que pontificaram na cultura e ocuparam cadeira de nossa academia. Elogiou, com muita ênfase o seu antecessor, João Gabriel Baptista, em suas várias atividades, mormente como administrador público competente e probo, como professor talhado para o mister e como historiador e geógrafo de nosso estado, que muito contribuiu com seus livros para a elucidação de fatos e aspectos dessas duas matérias, trazendo novidades, e não repisando fatos já sabidos e já escritos. O escritor Oton Lustosa, que lhe fez a saudação, fez o seu justo elogio, louvando-lhe as qualidades de homem público e de historiador. Também enalteceu a história dos confins gurgueanos, exaltando seus filhos ilustres, mormente os que palmilharam os caminhos da arte e da literatura. Foram dois excelentes discursos, que bem merecem ser recolhidos em livro. Não posso deixar de dizer, sob pena de esta nota ficar incompleta, que o coquetel foi farto, variado e delicioso.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



A MORTE DE CHICO

Elmar Carvalho

Era um pequeno macaco, da raça prego. Logo, tornou-se o mimo da casa, especialmente das crianças. Olhos pequenos, vivos, ligeiros. Prestava atenção em tudo o que as pessoas faziam. Tinha o hábito de lhes imitar os gestos, o que o tornava ainda mais querido, simpático e engraçado. Os pequenos gostavam de vê-lo descascar e comer uma banana.

O dono da casa o comprou numa feira livre. A seu favor, diga-se que cuidava muito bem do macaquinho, limpando-lhe diariamente a casinha. Banhava-o, escova-lhe o pelo, e o alimentava convenientemente. Deu-lhe o nome de Chico, que é um nome quase comum em se tratando de símio. O macaquinho retribuía-lhe o amor e dedicação, afagando-o e procurando a sua proximidade. Gostava de imitar o dono, quase como se fosse um número circense de mímica. Parecia saber que o homem gostava de suas imitações gestuais.

Um dia, não sei por que motivo, o dono da casa resolveu tirar a barba no quintal, perto de onde ficava o Chico. Parece que faltou energia elétrica, e o banheiro ficava muito escuro, de modo a dificultar o manuseio da navalha. O homem não tinha barbeador elétrico e não gostava de aparelho de barbear moderno, de lâminas descartáveis. Na verdade, gostava de uma navalha antiga, importada da Inglaterra, e herdada de seu pai. Era um verdadeiro ritual quando ia amolá-la numa madeira apropriada a essa finalidade. Igualmente, era quase uma cerimônia ritualística o seu barbear, em que utilizava um recipiente esmaltado, também antigo, para produzir a espuma; depois, usava um pincel de cerdas naturais para espalhá-la no rosto. Então, abria a navalha, com seu cabo de madrepérola e sua lâmina da aço, brilhante e bem limpa. Chico, com seu jeito esperto, com seus olhinhos vivazes, não tirava a vista do dono, parecendo achar muito graça naquela novidade do barbear. Viu quando o homem meticulosamente esticava a pele, para depois ceifar os pelos com a lâmina inoxidável, que reverberava ao sol da manhã. Após fazer a barba, quando mal terminava de lavar o rosto com água e sabão, foi chamado às pressas para atender um telefonema.

Chico não perdeu tempo. Saltou para a pequena mesa, onde o homem deixara a vasilha com a espuma, o pincel e a navalha. Pegou o pincel; mergulhou-o na espuma e passou-a no rosto. Ficou muito engraçado, parecendo um pequenino palhaço simiesco, o que despertou o riso das crianças, que estavam perto. Em seguida, pegou a navalha, que ficara com a lâmina aberta, e a levou em direção á face, em local próximo ao pescoço, como vira o dono fazer. Em sua inocência animal, sem noção de como a lâmina deveria ser posicionada, movimentou-a de cima para baixo, e nesse gesto, que os meninos acharam tão engraçado, cortou a jugular. Soltou um grito fino, estridente, lancinante, com os olhos esbugalhados, como se quisesse entender o que havia acontecido.

Logo caiu, esvaindo-se em sangue. O sangue de um vermelho vivo misturou-se com o branco da espuma. Mas agora já não era um palhaço buscando uma outra cor. Era a morte pintando de rubro a mesa e o Chico. Foi o dia mais triste daquelas crianças. Fizeram um pequeno caixão e sepultaram o maquinho no quintal, à sombra de um pau-d'arco, que então desabrochava suas flores, como se fossem lustres de ouro.

sábado, 7 de agosto de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)

LUCÍDIO FREITAS


Lucídio Freitas nasceu em 05-04-1894, e faleceu em 14-05-1921, em Teresina (PI). Filho de Clodoaldo Freitas e Carolina Freitas. Poeta, jornalista, professor, magistrado e conferencista. Formado em Direito. Foi Delegado-Geral da Capital, servindo junto ao gabinete do governador Miguel Rosa. Foi professor da Academia de Direito do Pará e Juiz Substituto, em Belém. Foi o idealizador e o principal fundador da Academia Piauiense de Letras, sendo, posteriormente, escolhido para ser patrono da Cadeira 23. E como justa homenagem, a sede da Academia passou a denominar-se “Casa de Lucídio Freitas”. Bibliografia: “Alexandrinos” (1912), em parceria com Alcides Freitas; “Vida Obscura” (1917), versos; “Questões Processuais”; “Minha Terra” (1921), poesia; “História da Poesia” e “Literatura Piauiense”. Foi incluído na “Antologia de Sonetos Piauienses” (1972) e na coletânea “Os Mais Lindos Sonetos Piauienses” (1940), ambas organizadas por Félix Aires e no livro “A Poesia Piauiense no Século XX” (1995), de Assis Brasil.

(*) Texto e charge de João de Deus Netto.

DECÁLOGO



ALCENOR CANDEIRA FILHO

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.


1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

R - Comecei a me interessar por literatura quando criança. Lembro-me de que a Editora Melhoramentos publicava coleções com narrativas de expoentes da literatura universal adaptadas para o público infantil. Os livros eram bem condensados mesmo, com belas ilustrações. "Viagens de Gulliver", "Alice no País das Maravilhas", “Dom Quixote de la Mancha" são alguns títulos que conheci na infância.
Quando fazia o curso primário, na Escola Santa Maria Goretti, declamei dois poemas de Juvenal Galeno, poeta romântico cearense: "A Jangada" e "Cajueiro Pequenino"

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

R - A partir de 1967, aos vinte anos de idade, escrevi as primeiras composições literárias. Mostrava esses poemas a familiares e a alguns amigos. No jornaleco mimeografado "O Linguinha" (início dos anos de 1970) publiquei alguns desses poemas.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

R - Todo escritor sofre e exerce influências. Já publiquei um livro sobre o assunto: "Das Fornas de Influência na Criação Poética". Acho que os poetas que mais me influenciaram foram Carlos Drummond de Andrade e Augusto dos Anjos.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

R - Ter escrito alguns textos literários que foram elogiados por leitores, alguns dos quais expoentes da literatura piauiense.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

R- Os dois primeiros livrinhos - "Sombras entre Ruínas" e "Rosas e Pedras" - foram mimeografados no Colégio Cobrão, em Parnaíba. Várias instituições públicas e privadas já publicaram livros de minha autoria: Universidade Federal do Piauí, Fundação Estadual de Cultura e do Desporto do Piauí, Instituto Euvaldo Lodi, Academia Piauiense de Letras. Os livros mais recentes ("Antologia Poética", "Teoria do Texto", "O Crime da Praça da Graça" e "Seleta em Verso e Prosa") foram financiados por mim e impressos na Sieart Gráfica e Editora".

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

R - Meu principal livro é "Seleta em Verso e Prosa", publicado neste ano. É o livro mais importante porque reúne os melhores textos que escrevi ao longo da vida. Cabe registrar que a minha obra mais procurada tem sido "O Crime da Praça da Graça", publicada em 2008.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

R - De minha parte não tenho queixas. Como já assinalei, diversas instituições públicas e privadas já publicaram livros de minha autoria e obras coletivas de que participei.

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

R - A Literatura Piauiense, como a de qualquer região do planeta terra, é constituída de livros ótimos, bons, razoáveis. Os medíocres ou ruins, é claro, não contam. Em termos de literatura feita no Brasil, não se pode pretender que a piauiense seja tão rica quanto à de entes federativos em que a atividade literária se desenvolveu a partir dos séculos XVI e XVII, como ocorreu em São Paulo, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais... A Literatura Piauiense só surgiu no início do século XIX, com "Poemas" (1808), de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

R - Até agora pouco tenho utilizado a internet para divulgar trabalhos literários. Por enquanto apenas no quotidiano da burocracia pública venho usando o computador. Mesmo assim com limitações. Mas tenho consciência de que a internet é importante meio de veiculação de trabalhos literários. Necessito urgentemente de me familiarizar melhor com esse meio de comunicação.

10 – Como e por que se fez literato?

R - O gosto pela literatura começou pela leitura de grandes escritores. Escrevo poesia (gênero com que mais me identifico) por necessidade interior. Através de poemas é que consigo verdadeiramente exteriorizar minha visão do mundo.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O SEGREDO DE “LUNGUINHA”

ALCIONE PESSOA LIMA

Igreja e convento do Memorare

Igreja e convento do Memorare

Pelos anos setenta, aproximadamente, iniciou-se a pavimentação da Av. Centenário, na zona norte, desta Capital...E antes de ser asfaltada foi calçada com “pedra jacaré”, quebrada não por máquinas, mas por um cidadão afro descendente, conhecido por todos como o “Seu Lunguinha”. Era um tipo corpulento, braços marombados pela marreta, grande estatura...Um tanto quanto sinistro, taciturno...

Por ficar tanto tempo naquela labuta, a construir a pavimentação tão desejada pelos moradores daquela via e, em especial, pelos do bairro Poty Velho, tornou-se conhecido, a ponto de se saber coisas a seu respeito que até Deus duvida.

Parecia um anjo, calmo, silente, atento ao seu trabalho...E como produzia! Pena que, posteriormente, o asfalto tenha escondido toda a sua obra. E quanto suor derramou! No rosto, por vezes, não se sabia se não eram lágrimas. E por que lágrimas? Ah! O senhor pacato, de características escravas, lembrando Kunta Kintê, da série Raízes, exibido há tempos pela televisão, tinha um segredo. E que segredo! Deixou de sê-lo não se sabe pela boca de quem. Imagina-se que nunca o tenha contado e sim, que alguém que o conhecia, dos tempos do ocorrido, tenha feito essa revelação. Deduzo que, por pura maldade. Por um desejo inerente aos invejosos, aos malfeitores, aos mesquinhos.

E o que aconteceu mesmo com o ser em comento que tanto nos deixou estupefato? Pois bem. Ele simplesmente, após ter descoberto a traição de sua mulher a matou com pauladas...Um gesto de um homem ferido em seu brio, mas que a sua ignorância não o conteve a ponto de agir em semelhança à estória de um certo “joão-de- barro” contada em uma conhecida canção sertaneja.

Depois de saber de tudo, mesmo ainda criança, eu ficava por horas, não somente observando aquele moço realizar o seu trabalho, mas a pensar na atitude maléfica que teria realizado. A minha idade pouco compreendia. Logo eu que estudava em colégio de freiras (Memorare), e que ouvia de meus pais e professoras (na maioria religiosas) constantes lições de humanismo. Mas era isso que me fazia ver aquele cidadão ainda como uma criatura de Deus e entender que aquele trabalho duro era uma forma não só de dar o sustento àquele homem/máquina, mas de descontar tremendo pecado que carregava no coração. Eu o via como um anjo. E, em momento algum, percebi o contrário.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

LVIII – PELA GRANDEZA E BELEZA DE AMARANTE

Lauro Correia
Professor Emérito UFPI





1ª PARTE

Com dois versos de “Os Lusíadas”, maior poema épico de nosso idioma, inicio este escrito homenageando e defendendo a bela e encantadora cidade de Amarante:
“Cesse tudo quanto a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”
A grandeza de Amarante está fundamentalmente vinculada a sua gente, seu povo, seus filhos ilustres, seus amigos e defensores.
A grandeza da poética e histórica Amarante é descrita desde os tempos da Vila de São Gonçalo, e foi consolidada pela migração de famílias ilustres de nosso Piauí, que lá se fixaram, entre elas: Ribeiro Gonçalves, Mendes, Pinto de Moura, Sobral, Vilarinho, Nunes, Carvalho, Noronha, Campelo, Lira, Almeida, Guimarães.
Na década de 1930, o notável industrial piauiense, nascido no litoral, José de Moraes Correia, conhecido entre os amigos e familiares como Zeca Correia, instalou uma Usina de descaroçamento das plumas de algodão, “ouro branco” daquela época, iluminou a cidade com energia elétrica, pela primeira vez, e gerou mais desenvolvimento para toda a região.
Entre seus filhos ilustres, nacionalmente conhecidos, correndo o risco de involuntária omissão, mencionarei os nomes de Da Costa e Silva, o príncipe dos poetas piauienses e autor da letra do nosso Hino; Odilon Nunes, sem contestação, o melhor e maior pesquisador e historiador nascido no Piauí; Clovis Moura, antropólogo e poeta; Alberto da Costa e Silva, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras.
Entre seus amigos e admiradores, com involuntárias omissões, citarei os mais recentes, com artigos publicados em jornais, revistas e pela internet:
01 – Elmar Carvalho – 24/09/2008 - “Recuerdos de Amarante”
02 e 03 – Olavo Pereira da Silva e Claudiana Cruz dos Anjos, Maio/2009. - “Cultura,
Memória e Identidade da Cidade de Amarante” - Revista Presença.
04 – Natacha Maranhão – Maio/2009 - “Amarante” - Revista Presença.
05 – Dagoberto Carvalho Junior – 11/10/2009 - “SOS AMARANTE”
06 – Fonseca Neto – 26/10/2009 - “Amarante, SOS”
07 – Alberto da Costa e Silva – 25/03/2010 - “Em defesa de Amarante”
08 – Cunha e Silva Filho – 27/04/2010 - “Crime de lesa – pátria”
09 – Enéas Athanazio – 29/05/2010 - “SOS AMARANTE”
10 – M. Paulo Nunes – 25/06/2010 - “Salvemos Amarante”
11 – Lauro Correia – 10/07/2010 - “ Pela Grandeza e Beleza de Amarante”
A grandeza de Amarante depende também obviamente de sua economia representada pela agricultura, pecuária, comércio e indústria.
A beleza de Amarante está amplamente descrita, elogiada, cantada e divulgada nos escritos e fotografias que compõem as manifestações de uma dezena de intelectuais piauienses citados.
A beleza de Amarante se evidencia em vários aspectos: natural, paisagístico, urbanístico, arquitetônico e histórico.
Admirar o belo é ser artista; cantá-lo pertence aos poetas, escrevi quando jovem; e hoje, longevo de 86 anos, com apenas um único e singelo soneto, de minha autoria, dedicado à amada esposa Rosette, não obstante mais de vinte livros e folhetos impressos ou inéditos, solicitarei ao poeta Israel Correia, meu filho, que preste homenagem em versos à bela, bucólica e querida Amarante.

2ª PARTE

Em Fevereiro de 2007 há mais de 3 anos, quando do lançamento do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento, em Teresina, capital de nosso Estado, os Ministros dos Transportes – Paulo Passos e da Integração Nacional – Pedro Brito, em companhia do Presidente José Machado da Agencia Nacional de Águas – ANA, anunciaram, como as duas principais obras do PAC no Piauí, a construção da FERROVIA TRANSNORDESTINA e a implantação de cinco USINAS HIDROELÉTRICAS no curso do Rio Parnaíba.
Escrevi à época o artigo XXI – 05 EQUÍVOCOS DOS MINISTROS, em 03/03/2007, com cinco folhas, e outros se seguiram até hoje, publicados no jornal “Norte do Piauí”, de Parnaíba, e em Teresina, combatendo as indesejadas, desnecessárias e assassinas Usinas Hidroelétricas.
Evidenciei a importância de outra ferrovia por mim denominada FERROVIA TRANSPIAUÍ, de sul a norte, partindo de Elizeu Martins ou Coronel Gervásio, seguindo para Floriano – Teresina – Campo Maior – Piripiri – Piracuruca – Cocal, com bifurcação para Luiz Correia e Timonha, futuro segundo Porto Marítimo de nosso Estado, na fronteira do Ceará.

A TRANSNORDESTINA está sendo implantada, e a TRANSPIAUÍ, deveria também estar sendo implantada!
Os artigos e documentos anexos estão reunidos em duas publicações: “Análise e Comentários”, com 120 folhas, e “Rio Parnaíba e Usinas Hidroelétricas” com 55 folhas.
O artigo LVII, sob o título “Usinas Hidroelétrica”, datado de 20/10/2010, com 6 folhas, apresenta OITO ARGUMENTOS – claros, seguros, técnicos e irrefutáveis, contrários à implantação no Rio Parnaíba de 5 hidroelétricas, entre elas a de Castelhano, a qual inundaria a bela e histórica Amarante, inclusive as preciosas casas residenciais de Da Costa e Silva e Odilon Nunes.
Os 8 ARGUMENTOS têm os seguintes títulos:
01 – Cada Rio, um Rio
02 – Exemplo dos Estados Unidos
03 – Lição do Rio Tietê
04 – Usina Eólica versus Usina Hidroelétrica
05 – Hidrovia versus Usina Hidroelétrica
06 – Razão Histórica
07 – Navegabilidade do Rio Parnaíba
08 – Relatório da JICA
O presente artigo se constitui no 9º Argumento contrário às Usinas Hidroelétricas.
Alguém perguntaria porque somente agora, em Junho de 2010, lembrei-me de escrever sobre Amarante, e a resposta é fácil, pois os técnicos do Ministério das Minas e Energia, da CHESF e da ELETROBRAS escondiam que Amarante seria inundada pelas águas do Rio Parnaíba, o qual atualmente a envolve, beija e acaricia. Um telefonema do mestre M. Paulo Nunes, meu amigo há meio século, trouxe-me a triste notícia, fazendo-me intranqüilo até que esse pesadelo seja eliminado por Deus ou pelos homens.
Voltemos ao poema “Os Lusíadas” e façamos a adaptação dos dois versos citados aos dias atuais, e afirmarei que o valor mais alto que se alevantou é o da POESIA, da CULTURA, da HISTÓRIA, do BELO, da INTELIGENCIA, do RESPEITO, da ÉTICA, da MORAL, da DIGNIDADE, do TRABALHO, da LEI, da JUSTIÇA.
O valor mais alto é o ESPÍRITO, sustentáculo do ser humano, dos povos e de suas civilizações.
Se a República Brasileira é Federativa e Democrática, constituída por 3 poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário, independentes e harmônicos, não é possível que nós piauienses, filhos da Terra do Sol, mas brasileiros como os demais irmãos federados, assistamos de braços cruzados que o Poder Executivo, através do Ministério das Minas e Energia, da CHESF, Eletrobrás e ANEEL prejudique o nosso Rio Parnaíba, o Velho Monge de Da Costa e Silva, inunde com um dilúvio a nossa querida Amarante, implantando cinco usinas hidroelétricas, distantes apenas 50 quilômetros entre si, denominadas indesejadas, desnecessárias e assassinas, pois gerariam cada qual em média o inexpressivo valor de 60 megawatts, os quais serão supridos pela energia eólica dos ventos do nosso litoral e da área da cidade de Paulistana.
O Rio Parnaíba é o único do Nordeste navegável, até o oceano, numa extensão de 1.100 km, de Santa Filomena a Luiz Correia, e deverá voltar a ser navegado, para o transporte da SOJA produzida nos Cerrados piauienses e maranhenses, até o Porto Marítimo de Luiz Correia, atualmente em obras para sua conclusão, com calado a ser elevado, mediante dragagem, de 6 para 10 metros.
É preciso que a Associação dos Magistrados Piauienses, o Ministério Público Federal e Estadual do Piauí, OAB – Seção do Piauí participem dessa CAMPANHA CÍVICA EM DEFESA do RIO PARNAÍBA e da CIDADE de AMARANTE.
E, certamente, esta CAMPANHA CÍVICA continuará com a efetiva e permanente atuação da FURPA – Fundação do Rio Parnaíba, capitaneada pelo Professor Francisco Soares, e continuará a merecer o apoio do Lions Clube, Rotary Clube, Maçonaria, Jornais, Rádios, Televisão, Universidades, Academias de Letras, Organizações não Governamentais ligadas ao Meio Ambiente, e outras instituições piauienses.
A proteção das nascentes do Rio Parnaíba, na Chapada da Mangabeira, onde nasce o Riacho Água Quente, origem do longo rio, está sendo efetivado por intermédio de um Parque Nacional, cuja criação e implantação são resultados da ação e persistência de duas importantes instituições piauienses: Associação dos Magistrados e Ordem dos Advogados.
Urge concluir, e antes desejo solidarizar-me com os dignos amarantinos, intranqüilos e magoados com o perigo do dilúvio.
Com manifestações de estima, respeito e admiração, dedico este artigo à amarantina Senhora Clara Nunes, esposa do Mestre M. Paulo Nunes, escritor e acadêmico, uma das maiores e melhores expressões da intelectualidade piauiense, e também amarantino pelos laços do coração.
Estarei, permanentemente, na luta pela defesa de nossa querida Amarante, e certamente Deus não haverá de permitir que as Usinas Hidroelétricas indesejadas, desnecessárias e assassinas sejam incluídas e retiradas de um quarto leilão da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, como aconteceu recentemente no dia 30 de Junho.

Parnaíba, 10 de Julho de 2010.
166º da Cidade e 248º da Vila

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Sua saia rodada
sua saia rodando
era uma festa de
cores e folhas e flores
nas festas de que gostava.
Das pontas estelares de seus dedos
saltavam saltitantes valsas
pelos tec-tec teclados do piano.
Hoje ela estendeu um arame
nas pontas da lua nova,
colocou uma estrela e toc-toc
toca berimbau.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


4 de agosto

BENJAMIM SANTOS, O RETORNO

ELMAR CARVALHO


Em minha recente estada em Parnaíba, visitei o teatrólogo e escritor Benjamim Santos. Mantivemos uma longa conversa em sua residência, na avenida Presidente Vargas. Falei-lhe de meus projetos na área literária, inclusive de que estou escrevendo dois livros em meu blog, este Diário Incontínuo e o Arte-Fatos Oníricos e Outros. Benjamim é filho de Benedito dos Santos Lima, que criou o Almanaque da Parnaíba e o editou por vários anos; este anuário, ainda em atividade, foi depois publicado sob a responsabilidade do empresário Ranulpho Torres Raposo, do seu neto Manuel Domingos Neto (uma edição) e é atualmente a revista da Academia Parnaibana de Letras, que já lhe publicou várias edições, com alguma alteração na linha editorial. O dramaturgo esteve muitos anos afastado do Piauí. Arrebatou prêmios, teve peças montadas por importantes companhias, escreveu livros e peças teatrais. Produziu textos que foram encenados em grandes apresentações ao ar livre, sob o patrocínio da Prefeitura Municipal e da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Destacam-se, entre esses espetáculos, Paixão de Cristo, Auto de São Sebastião e Auto de Corpus Christi, que foram montados, durante vários anos, no encerramento das procissões. Pode-se, portanto, dizer que foi, viu, venceu e... voltou. Voltou para o bem do Piauí e de sua Parnaíba. Tenho observado em várias pessoas e em mim mesmo, que a partir da maturidade começamos a sentir a vontade de regressar aos pagos de nossa infância e adolescência; um verdadeiro chamado de sereia a que muitos não conseguem resistir. É como se fosse a nostalgia de nosso entardecer, misto de saudade e encantamento.

Benjamim retornou, e como se quisesse recuperar o tempo, não digo perdido, muito pelo contrário, mas não vivido em sua cidade, começou a desenvolver um trabalho árduo e louvável em prol da cultura parnaibana. Sem dúvida, foi dinâmico secretário municipal da Cultura, promovendo eventos populares, incentivando o folclore, apoiando os folguedos, sobretudo os juninos, especialmente a dança do boi, uma verdadeira ópera popular, com todos os seus adereços, música, encenação, enredo e personagens; entre as obras físicas criadas em sua gestão, merecem menção especial o Museu do Trem e o Jardim dos Poetas. Como pessoa física continua estimulando a literatura, os brinquedos populares e o teatro. E graças a seu esforço pessoal e perseverança, criou o jornal O Bembém, cujo título é uma homenagem a seu pai, um dos mais importantes periódicos culturais do Piauí, já com mais de trinta edições, o que é uma tarefa de invulgar merecimento, mormente pelas dificuldades que certamente encontra para manter a sua regularidade mensal. Nesse jornal vem escrevendo excelentes matérias literárias e em defesa da cultura e de todas as manifestações artísticas. De maneira especial, registro a bela série de textos que elaborou sobre notáveis mulheres parnaibanas, que bem poderia ser publicada como um pequeno grande livro. Em seus trabalhos, mesmo os de caráter apenas jornalístico, tenho notado que é um perfeccionista, com o seu estilo límpido, fluente, escorreito, e sempre primando pelo bom conteúdo. Encerrando, repito: Benjamim foi, viu, venceu e... Voltou para ficar e empreender o inestimável trabalho cultural que vem desenvolvendo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

NOTÍCIA CULTURAL

Danilo Melo

Professor Danilo de Melo Souza vai proferir palestra e lançar livro no II Salipa

O secretário de educação do município de Palmas(TO), professor Danilo de Melo Souza, vai ser um dos palestrantes do II Salão do Livro de Parnaíba(Salipa). Além de discorrer sobre “Educação Estética e a Construção do Pensamento Criativo - o currículo da educação básica" ele vai lançar o livro “(In)Certos Versos e Alguma (P)Rosa. Segundo explicou, este é o seu primeiro livro solo e contem 100 poemas escritos de 1988 e 2008, dos quais 83 são inéditos. A obra retrata parte da experiência estética do autor e divide-se em quatro partes: "(In)Certos Versos"; "Para Terra Prometida e outras Terras"; "Poesia Engajada"; e "Alguma (P)rosa".

Danilo de Melo Souza, parnaibano, é Secretário Municipal da Educação de Palmas-TO, professor da Universidade Federal do Tocantins – UFT, membro da Academia Parnaibana de Letras e da Diretoria Executiva da Undime-TO. É graduado em Pedagogia pela Universidade Federal do Piauí; pós-graduado em Administração da Educação; e mestre em “Educação, Estado, Políticas Públicas e Gestão da Educação”, pela Universidade de Brasília (UNB).

Foi Secretário Municipal da Cultura de Parnaíba-PI; professor da Universidade do Tocantins (Unitins) e do Ceulp/Ulbra, entre outras instituições de ensino superior; Presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação do Tocantins (Undime-TO) e da Região Norte; e Secretário Municipal da Educação e Cultura de Palmas-TO, gestão 2005/2008, ocasião em que implantou programas como o Salas Integradas, as Revistas Tempo Integral e Patrimônio Cultural, a Escola de Tempo e Formação Integral, as Olimpíadas Escolares de Palmas, e Padrões Mínimos Educacionais. Atualmente, exerce a função de Secretário da Educação, Presidente da Undime-TO e professor da Universidade Federal, em Palmas-TO.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Francisco Carvalho, Rita Alves, Alcenor Candeira Filho, Wellington Soares, José Hamilton Furtado Castelo Branco e Fátima Carmino

3 de agosto

LANÇAMENTO DO II SALIPA

ELMAR CARVALHO

No sábado, estive, a convite do poeta e amigo Alcenor Candeira Filho, na solenidade de lançamento do II Salão do Livro de Parnaíba – II SALIPA, ocorrido no auditório da Prefeitura. Tive a satisfação de participar da edição anterior, em que proferi palestra sobre a importância que as escolas podem ter na educação integral do ser humano, nos aspectos de convivência, civilidade, cidadania e ética. No lançamento a que me referi, o secretário municipal da Comunicação, jornalista Francisco Carvalho, falou sobre a programação, apresentando eslaides e informações pertinentes. Falaram também a secretária da Cultura, artista plástica Fátima Carmino e o presidente da Fundação Quixote, realizadora do evento em parceria com o Município, professor e escritor Wellington Soares. O prefeito de Parnaíba, José Hamilton Furtado Castelo Branco, falou da importância do Salão, e disse que lhe dará o apoio necessário, assim como fez em relação ao SALIPA anterior.

Em minha fala, além de discorrer sobre a importância das palestras como incentivo aos que fazem literatura, enalteci a homenagem ao escritor Humberto de Campos, que, embora nascido no Maranhão, no povoado de Miritiba, hoje cidade que ostenta seu nome, morou alguns anos em Parnaíba, para onde se mudou sua mãe, dona Ana, após a morte do marido, quando ele tinha apenas seis anos de idade; exaltei a importância do seu livro Memórias, bem escrito, e prenhe de lições e experiências de vida, no qual são narrados episódios pungentes e emocionantes de sua rica vida, repleta de vicissitudes e percalços. Observando que nos folders e cartazes apareciam, de forma estilizada, os cataventos da usina eólica de Parnaíba, aproveitei o ensejo para dizer que os sucessivos governos nada fizeram pelo rio Parnaíba, que sofre os efeitos danosos de desmatamentos, queimadas e poluição, que o ferem de morte; e que agora esse rio tão importante, navegável, mas quase não navegado, sofre a terrível ameaça da construção de cinco usinas hidroelétricas, cujas barragens mais ainda o degradariam, impedindo a sua navegabilidade e diminuindo o seu escoamento d' água, quando a construção de novas usinas eólicas supririam com vantagem essa produção das cinco hidroelétricas, e sem danos ambientais. Aproveitei para esclarecer que essa redução do fluxo do rio poderá provocar a salinização do Delta do Parnaíba, inclusive com prejuízo para o atual sistema de abastecimento de água potável da cidade parnaibana. Falei outras coisas mais, que deixo de consignar porque já tratei delas em notas anteriores deste Diário. Por fim, registro que fui convidado pelo Wellington Soares para fazer a apresentação do livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram”, do Manuel Domingos Neto. Aceitei o convite e lhe disse que até já o havia lido, tendo escrito três notas desta obra diarística sob sua inspiração.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


SALTO SEM TRAPÉZIO

ELMAR CARVALHO

Sua história é quase igual à de vários outros jovens, exceto pela tragédia que depois desabou sobre ele. E pode ser contada em poucas palavras. Entrando na adolescência, foi advertido pelos pais sobre as ciladas das drogas. Concordava com tudo que eles lhe diziam. Foi induzido a assistir palestras sobre esse tema. Compraram-lhe livros sobre o assunto. Prometeu lê-los. Na verdade não o fez. Apenas os folheou displicentemente. Emotivo, sensível, um tanto tímido e taciturno, tinha apesar disso seus dois ou três amigos mais ousados e mais extrovertidos. Talvez extrovertidos e ousados demais, o que lhe atraía como uma forma de compensação, sem nenhum psicologismo e estereótipos de manuais. Logo, para tomar o primeiro trago de cachaça ou rum foi um pulo excessivamente rápido. No início, negaceou um pouco, mas lhe convenceram de que era uma coisa extraordinária e que, além do mais, todos bebiam, nem que fosse uma vez ou outra. Depois, o primeiro cigarro de maconha, as duas ou três primeiras baforadas, sem tragar, mas, em seguida, as outras, para valer. Também lhe convenceram a fazer a cabeça com loló. Maria-vai-com-as outras foi indo, foi ficando, até que o vício começou a ficar incontrolável. Como muitos outros garotos de sua idade, começou a furtar pequenas quantias e alguns objetos em casa, para sustentar o vício, já que sempre extrapolava a sua mesada. Vieram as pressões para fazer tratamento de desintoxicação. Argumentava não precisar, já que dizia não ser viciado. Por muita insistência dos pais e das duas irmãs, foi para uma clínica, mas acabou por não seguir as regras que lhe foram prescritas. Começou tudo de novo e com mais intensidade. Expulso de casa, começou a cometer furtos e assaltos na rua, desta feita já sob o efeito do crack. Preso provisoriamente, foi solto em virtude do excesso de prazo, uma vez que ainda não havia sido condenado.

Naquele dia, o dia da tragédia, foi se drogar no apartamento de uns colegas. No dia seguinte, não se lembrando de como tudo acontecera, deu por si no leito de um hospital. Disseram-lhe que estava paralítico, da cintura para baixo. Por fim, soube como os fatos aconteceram. Tudo lhe foi contado com base nas informações de seus colegas, e devidamente apurado pela polícia. Estava muito doido, consumindo as bolinhas em ritmo acelerado. Em dado momento foi ao banheiro. Quando voltou, ao ver o seu reflexo estampado no vidro que dava para a sacada do apartamento, sob o surto de violente delírio, partiu contra esse vulto, dizendo que iria esganá-lo. Tudo aconteceu de modo demasiadamente rápido e inesperado. Seus colegas disseram que ele, ao correr contra o vidro, na tentativa de trucidar seu próprio reflexo, tropeçou, saiu despontando, catando mamonas, como se dizia antigamente. Ao bater no peitoril da sacada, caiu, em verdadeiro salto mortal, porém sem rede e sem trapézio. Como dito, não morreu; ficou paralítico. Forçado pelas circunstâncias, libertou-se da dependência química. Voltou ao convívio familiar. Arranjou novo vício, o vício da leitura. Em consequência deste, adquiriu o hábito de escrever. E a tragédia terminou não sendo tão grega assim.

domingo, 1 de agosto de 2010

DECÁLOGO

Escritores Herculano Moraes, Virgílio Queiroz e Francisco da Cunha e Silva Filho

CUNHA E SILVA FILHO

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Tentarei alcançar o fio da memória que me leve com certa precisão aos onze anos de idade, tempo em que era aluno do “Domício,” nome carinhoso pelo qual chamávamos, em Teresina, o Ginásio “Des. Antônio Costa”. Isso era nos idos de 1954 para 55 do século passado. Não se pense que eu seja tão velho, sou de dezembro de 1945. Mas, é que o século 20 (à maneira de Antonio Candido) só terminou há dez anos, o que nos faz ainda muito ligados a ele, não é? Presumo que o meu contato inicial com o exercício da escrita se deu justamente com o Prof. Domício Melo Magalhães, pessoa encantadora, bonachão, contador de piadas. Era ele quem cuidava da parte de português no curso de Exame de Admissão ao ginásio. Me recordo que costumava pendurar, no quadro-negro (era negro mesmo naquele tempo, hoje é verde, tudo muda!) uma gravura de papel grosso e liso, que desenrolava de um canudo onde havia várias situações contextualizando temas para descrições. Não me lembro que incluísse o gênero narrativo. Isso, contudo, foi o primeiro ponto de referência que me chamava a atenção para a visualidade dos objetos, pessoas, plantas, animais, cores, dimensões, formas e movimentos “congelados” como nas fotografias e na pintura clássica, afora pormenores, perspectivas e, sobretudo, o aspecto pictórico das paisagens e das situações humanas que se mostravam ao olhar do aluno.
Quanto ao meu início como leitor, acredito que vou localizá-lo já como aluno da primeira série ginasial, período em que tomo contato com os livros didáticos de José Cretella Júnior, de Enéas Martins de Barros. Devo imensamente aos livros didáticos, com seus textos antológicos que me ensinaram sobre a vida e os homens, sobre o que entendo por sensibilidade poética. Os livros didáticos foram o meu grande passo em direção às obras literárias. Infelizmente, como outras crianças, não fui iniciado na chamada literatura infantil de Monteiro Lobato, pois no acervo só havia uma obra dele, Urupês. Sinto inveja de quem leu Lobato ainda criança Na biblioteca de meu pai só havia o Lobato para adultos, . Não tenho dúvida de que neles me despertei para o luminoso e mágico universo literário, tanto na poesia quanto na ficção. Um professor de português que tive no Domício nos pedia que memorizássemos poemas. A mim coube um soneto de Bilac, “A pátria,” que não mais sei de memória.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

É preciso fazer aqui uma distinção. Confesso, sem falsa modéstia, que primeiro me senti pronto a escrever pra mim mesmo. Quando morava na casa da Rua Arlindo Nogueira, zona sul, esquina com a Rua São Pedro, bem pertinho onde morava o meu coetâneo Herculano Moraes, iniciei os meus primeiros passos na arte da escrita. Comprei um caderno de algumas páginas, não muitas, e fiz um planejamento de temas para desenvolver como exercício de redação: a pátria, o estudante, o amor, a paz, a vida, os livros, os estudos, a felicidade e assim por diante . Não é que me desincumbi deles todos. Só tinha um leitor: eu mesmo. Nem mostrei a ninguém. Tampouco sei do destino do caderno.
No entanto, a minha atividade literária impressa, pública, se deu em jornais, conduzido que fui pela mão de me pai, jornalista político de muito talento e homem profundamente amante da literatura. Assim, minha “estréia” se deu com a publicação em jornal com um artigo sobre o Dia do Estudante. Foi grande a minha alegria em vê-lo estampado em jornal. Meu pai gostou do artigo e me corrigiu apenas dois erros de gramática, erros, aliás, não muito sérios. Daí em diante – eu estava com apenas uns quinze ou dezesseis anos – escrevi mais alguns artigos, uns contos(?) depois, umas duas ou três traduções do inglês e francês. Só me lembro de que posteriormente, já no científico, a maior parte dos meus artigos versavam sobre literatura brasileira. Naturalmente eram “exercícios ” ou tentativas de fazer “apreciações” sobre movimentos literários, sobre autores e livros. Outras tentativas de fazer ficção. Porém, gostava mesmo era desses artigos sobre livros e temas literários. Acho que aí nasceu o meu interesse sério pela atividade crítica. Papai , de vez em quão, me informava que colegas dele, intelectuais de peso, gostavam de meus artigos, com A. Tito Filho, Darcy Fontenele, Simplício Mendes, mais tarde, Wilson Brandão. Isso só me reforçou o desejo de continuar escrevendo.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Li autores diversos, brasileiros, portugueses e estrangeiros em traduções. Aliás, li tudo que me chamava atenção. Até gibis, fotonovelas, a revista O Cruzeiro. Não lia muito jornal na íntegra. Lia só o que me interessava. Ao mesmo tempo, me preparava , praticamente sozinho, a golpes de dicionários (como diria José de Alencar) e manuais da biblioteca de papai em línguas, francês, inglês e espanhol, um pouco de latim. Queria me preparar pra a atividade de crítica literária. Sentia que o meu caminho e onde m e achava mais confortável intelectualmente. Papai me incentiva. Sempre ate a morte, em 1990.
Acredito que tudo que li, principalmente de autores brasileiros, desde Rui Barbosa, José de Alencar, Humberto de Campos, Coelho Neto, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Machado de Assis e tantos e tantos outros autores, mais em ficção do que em poesia, pois me aproximei da leitura , de forma cerrada, só mais tarde, na universidade.
Só sei que sempre me preparei para a atividade crítica e ensaística. E nunca parei. E, por falar em crítica, acredito que a leitura dos grandes críticos brasileiros, do passado e do presente, Ronald de Carvalho, José Veríssimo, Sílvio Romero, Afrânio Peixoto, Agripino Grieco, Álvaro Lins, Afrânio Coutinho, José Maria Bello, Brito Broca, Tristão de Athayde, e, depois, Antonio Candido, Fábio Lucas, Robert Schwarz, Eduardo Portella, Olívio Montenegro, Temístocles Linhares, Davi Arrigucci, sem falar nos estrangeiros, como os formalistas russos, nos críticos do “New criticism”, e de outras correntes contemporâneas . Um parêntese: esta lista de críticos sai assim de improviso. . .

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

Foi quando, em 1966, lancei meu primeiro livro, Da Costa e Silva: uma leitura da saudade, na Academia Piauiense de Letras..

5 – Como conseguiu editar seus livros?

Não temo como negar: foi graças ao apoio que recebi do Embaixador Alberto da Costa e Silva que, com a colaboração de alguns membros da APL, conseguiram editar meu ensaio num convênio de APL com a UFPI.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

É uma pergunta inteligente mas difícil de ser respondida por um autor. Eu tenho um carinho geral por tudo que escrevo, já que o faço pensando em contribuir de alguma forma para este fluir da história literária. Penso ainda que escrevo em defesa do Homem e da Natureza. Por isso, me exponho, não me importando com repercussão que tenha, positiva ou negativamente. Não tenho medo das minhas limitações no campo das letras. De uma coisa esteja certo, escrever já faz parte da minha vida, da minha índole, da minhas constituição psicológica e principalmente do meu intelecto. O resto é silêncio, conforme diz belamente aquele livro de Érico Veríssimo.


7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí tem cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Em parte, sim. Devo, entretanto, dizer que há muitas falhas no que respeita a eleições de obras que são publicadas, aí mesmo no Piauí. Persistem certas igrejinhas camufladas, e isso me desagrada profundamente.

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

Em meus artigos e ensaios, tenho provado que literatura que se faz atualmente no Piauí merece aplausos. Há um florescimento de muitos autores, nos diversos gêneros jovens e brilhantes, que não voou citar porque não quero cometer o erro crasso das omissões dos etcs. de Raquel de Queiroz.. Também me cabe declarar que ainda não se fez um amplo estudo crítico ou historiográfico que faça justiça não só aos bons autores do passado quanto aos da contemporaneidade. A historiografia piauiense é escassa em número de cultores. Faço votos que essa realidade mude em médio prazo, de vez que o tempo urge e a vida é breve e os autores, conquanto jovens, também são mortais.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

A Internet veio pra ficar. Tem defeitos, é claro. Sabendo usá-la pro bem, é um instrumento valiosíssimo dos tempos atuais Foi , depois, da Imprensa, a maior revelação dos meios de comunicação. Graças à Internet, todos ficaram mais conhecidos e divulgados. É um auxiliar ímpar do escritor e do pesquisador. Louvemos esse prodígio da pós-modernidade.

10 – Como e por que se fez literato?

Me perdoe, mas não gosto muito do termo” literato” Me parece algo antigo. Prefiro, à falta de melhor termo, simplesmente a designação de “escritor”.
Suponho que me tornei escritor, ou melhor, crítico, ensaísta ou cronista, por gosto, por prazer, por inclinação, componentes que muito foram estimulados pelo ambiente lá na casa de meus pais, junto de meus irmãos, alguns do quais também muito chegados à área das letras, do amor aos livros, à cultura, ao conhecimento das áreas humanas, da vida artística. Respirava-se livro por toda a parte e com constância. Tenho um irmão que é um escultor de muito talento, o Winston. A minha irmã Sônia foi muito ligada, tempos atrás, ao cinema. O meu irmão Evandro , à poesia e ficção, o meu irmão Emílio, já falecido, à pintura e poesia. Meu pai ele próprio, fez poesia e, bissextamente, ficção e apreciação crítica.. Pena é que meus irmãos não quiseram dar continuidade a essa tendência familiar para as letras, que vem do lado de meu pai. Da minha mãe, que tinha talento para o desenho, veio a herança plástica, o vigor pictórico, as mãos hábeis, inclusive para os bordados.

sábado, 31 de julho de 2010

FLAGRANTE DO GERVÁSIO CASTRO

Muricy Ramalho visto por Gervásio Castro

O PIAUÍ NÃO É MAIS UMA PROVÍNCIA LITERÁRIA

CUNHA E SILVA FILHO

Da Costa e Silva

Me permita o leitor uma autocitação de um pequeno trecho de uma crônica de título “Impressões da cidade”, título, de resto, sugerido oportunamente por meu saudoso pai, que publiquei no jornal “Estado do Piauí”, em 1974, e que constará de um dos textos reunidos do meu livro As ideias no tempo ainda a ser publicado: “Hoje possuímos a Universidade Federal do Piauí. A Universidade dá uma nova dimensão à vida cultural de um estado. Ela é seu porta-voz maior, evitando o marasmo cultural. O desenvolvimento intelectual de Teresina se intensifica. Nota-se que há uma ânsia de se fazer alguma coisa que nossa e identifique valores culturais nossos. Nossos homens de letras sentem vontade de escrever, de publicar. A COMEPI é um exemplo edificante do governo”.
A observação citada acima tem uma distância de trinta e quatro anos! Ou seja, três décadas e uns quebrados. É uma vida. De lá pra cá aconteceram, na esfera cultural, muitas coisas que, pouco a pouco, foram mudando o perfil daquele Estado que deixei ainda com fortes traços provincianos. No intervalo desse longo período, a história da inteligência piauiense longe ficou de qualquer óbice entrópico.
Ao contrário, a cultura literária, antes mais circunscrita aos redutos da Academia Piauiense de Letras e à benevolência e espírito de visão de alguns donos de jornais, eles próprios, em geral, ligados à causa cultural, foi esgarçando lentamente alguns comportamentos e atitudes que não mais se coadunavam com os novos tempos agora impulsionados pelos ventos da comunicação de massa, pela criação de novas universidades e proliferação de campi das universidades públicas, sem se falar no aperfeiçoamento do corpo docente de professores que foram realizar cursos de alto nível nos centros mais adiantados do país ou mesmo no exterior.
Assim, se foi desenvolvendo não só a universidade em si, mas sobretudo o que dela se irradia na conquista de novos saberes, de novas tecnologias em todos os domínios do conhecimento e, agora, mais do nunca, da inimaginável experiência haurida pela Internet, universalizando e democratizando mais as fontes do conhecimento humano.
Era de se esperar que o impulso advindo das universidades de forma indireta repercutiu nos arraiais ainda presos ao anacronismo e , assim, foram aparecendo fundações culturais, conselhos de cultura, revistas culturais de expressão nacional, e, no que se refere ao capital humano, o surgimento de uma massa crítica mais tecnicamente preparada para dar continuidade ao passado. No âmbito da comunicação escrita, criaram-se vários jornais de alta qualidade de impressão e diagramação, com um corpo de redatores graduados por universidades atuando profissionalmente, sem mais o amadorismo dos velhos tempos idos e vividos, e servidos de colaboradores pertencentes à alta cultura do Estado piauiense.
Ainda por força do progresso provocado pela chegada das universidade públicas e particulares, novos escritores foram surgindo em todos os gêneros e bem assim novos talentos nos domínios das artes plásticas, do cinema, da humorismo, do teatro.
No campo específico do ensaísmo e da crítica literária, é de se notar a efervescência. de talentos que estão surgindo e procurando ocupar os espaços que o presente e o futuro estão a eles reservando. Sirvam-se de exemplos livros com Os sinais dos tempos, de João Kennedy Eugênio Teresina, (Halley S.A. Gráfica e Editora, 2007), Cantigas de viver – leituras, de João Kennedy Eugênio e Halan Silva (orgs., Teresina, Fundação Quixote, 2007), As formas incompletas apontamentos para uma biografia de H. Dobal, de Halan Silva (Oficina da Palavra, 2005), São os novos teóricos graduados e pós-graduados e, portanto, especificamente treinados, como diria Terry Eagleton, nas universidades para a atividade literária no sentido técnico-científico do que em geral havia no tempo em que deixei Teresina, quando o intelectual, o crítico, o ensaísta contavam mais com o talento e os estudos autodidáticos a fim de dedicar-se à vida literária. Mas, essa realidade não era só no Piauí de então, mas nos estados mais pobres.
Li uma publicação sobre estudos lingüísticos e ensaios literários em grosso volume, PHOROS ( Rio de Janeiro, Editora Caetés,2006 ), reunindo trabalhos de mestrandos e doutores da Universidade Federal do Piauí que me surpreenderam pela profundidade de reflexão crítica, da alta pesquisa na área multifacetada de Letras. Obviamente, todo essa produção que esta sendo feita no Piauí ainda não recebeu o tratamento de correspondentes estudos nos campos da teoria literária, da histografia literária e da crítica literária. Dado ser já considerável atualmente essa produção cultural-literária do Piauí, é bem provável que o levantamento e a transformação desse lastro conquistado em forma de livros de referência, tenham que ser tarefa para equipes a fim de poder abarcá-la em profundidade de estudos e atualidade de pesquisas.
Da mesma forma, digno é de salientar que o Piauí já dispõe de editoras – a exemplo da novíssima Editora Nova Aliança - com disposição de crescer e lançar autores novos como, entre outros, o próprio editor, Dílson Lages, e antigos, como Assis Brasil ,cujo retorno ao Piauí foi benéfico para a vida literária local).
Ora, como não deixar de reconhecer esse nítido florescimento de uma nova mentalidade de autores piauienses, nos diversos gêneros literários e em gêneros afins com os estudos literários , como a história ( campo de estudos no qual o Piauí tem conhecido bons autores e uma boa produção científica ou fora do estrito espaço acadêmico-universitário.), a sociologia, o jornalismo, a filosofia. Nem seria justo assinalar nestas longas três décadas, as inúmeras gráficas, editoras particulares, editoras oficiais da importância da Fundação Monsenhor Chaves, da antiga COMEPI, da atual Fundação Quixote, de publicações do porte da revista Presença, editada pelo Conselho Estadual de Cultura sob a operosa presidência do escritor e crítico literario M. Paulo Nunes, de outras tantas editoras já existentes no Piauí, das publicações feitas em convênio com a Academia Piauiense de Letras e a Universidade Federal do Piauí, de outras publicações entre o setor privado e instituições públicas e mesmo, do esforço próprio, digno de aplausos, das edições particulares. Isso tudo é inequívoca evidência de uma afirmação de um Piauí consolidado nas suas raízes culturais e nos desdobramentos futuros de um Estado que, no seu universo de produção intelectual, dá exemplo de pujança e perene desejo de ultrapassar fronteiras regionais e lançar-se corajosamente rumo a uma posição merecedora do respeito nacional sem mais receios de parecer - porque efetivamente não o é -, provinciano frente aos Estados brasileiros mais adiantados.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO





30 de julho

FLAGRANTES NO CÉU

ELMAR CARVALHO

Estive literalmente no céu. Mais precisamente no restaurante do Zé Nilson, situado na região da Fazenda Céu. De fato, a paisagem é paradisíaca. Quando fui para a beira-rio, para melhor contemplar a beleza ímpar do Parnaíba, uma ave canora, ou anjo – nunca se sabe ao certo as verdades limítrofes deste mundo e do outro – desatou umas notas musicais de inefável beleza. Disse que poderia ser um ente do outro mundo uma vez que o canto não era de nenhum pássaro do meu conhecimento. Com certeza, não era sabiá, nem corrupião, nem chico preto, as criaturas aladas de mais belo canto que conheço.

Dois homens falavam placidamente de negócios e serviços, enquanto tomavam banho, com certeza delicioso, sob o testemunho de um menino. Estavam à sombra de uma árvore ribeirinha, que lentamente amadurecia seus tenros frutos. A conversa só foi interrompida por uma canoa que passou perto deles, deslizando suavemente contra a corrente. O rio se embarreirava largamente, na bela, porém triste degradação ambiental, que lenta, mas inexoravelmente poderá conduzi-lo à morte de há muito anunciada.

À sombra de copada árvore, uma vaca, que mais parecia uma gorda e maternal matrona, ruminava preguiçosamente. Parecia ruminar o próprio tempo, que parecia não passar, como as águas do rio, que rolavam lentamente para o Atlântico. Voltei para a churrascaria do Zé Nilson, onde comi muito vagarosamente uma gostosa galinha caipira, à sombra do teto e de uma imensa árvore, que parecia sair do galpão. Na verdade, o telheiro nascera em seu derredor, servindo-lhe o tronco grosso e anoso de esteio e decoração. Não fiz nenhuma viagem mística, não precisei morrer, mas estive literalmente no céu.

DUAS OU TRÊS COISAS QUE VI POR AÍ

PAULO JOSÉ CUNHA

1) O mundo mudou, o perfil das pessoas que andam de avião também. Conheço um velho jornalista que ainda cultiva o hábito de vestir terno e gravata pra viajar de avião, porque era assim no passado: viagem aérea era um fato tão raro que exigia traje a caráter, em respeito à distinta companhia de endinheirados que podiam pagar o elevado preço das passagens. Hoje, o que mais se vê é gente de sandálias de dedo, bermudas e camisetas tipo regata circulando pelos aeroportos. Enquanto isso, ao folhear as revistas de bordo, verifica-se que os anúncios ainda são de marcas de produtos altamente sofisticados, caros, que só podem ser adquiridos por uma restrita minoria. Aquela minoria que lá no passado envergava traje fino para entrar num avião. Das duas uma: ou os anunciantes perderam o foco e estão gastando dinheiro a toa, pois usam munição pesada pra matar passarinho ou pretendem despertar a cobiça do público de renda mais baixa recém-chegada ao tráfego aéreo até faze-lo sucumbir às tentações dos anúncios dos produtos chiques. Se tivesse que escolher, ficaria com a primeira hipótese. E acrescentaria que as grandes marcas continuam anunciando nessas revistas por inércia, não por resultado. Devem estar tendo prejuízo.

2) “O sol nas bancas de revistas me enche de alegria e preguiça”. O verso da canção famosa de Caetano remete a uma realidade nova, que chegou pra ficar: o jornal da banca, jornal de papel, esse que suja os dedos do leitor, está acabando. E se transformando num monte de bytes que recobrem as telas dos computadores. O Jornal do Brasil já não circulará mais em papel a partir de setembro. Num out-door em Buenos Aires li o seguinte: “O jornal que você compra nas bancas só traz notícias de ontem”. Era a propaganda de um site ou blog, nem me lembro mais. O certo é que o velho formato – o empacotamento das notícias em edições diárias – cede cada vez mais espaço à notícia do instantâneo, em real time, que não precisa ser entregue diariamente, mas sim durante todo o dia, toda a noite e toda a madrugada, no momento em que ocorre. Jornais e revistas – eletrônicas, veja bem – futuramente irão concluir que seu papel (sem trocadilhos, por favor) é muito mais o de analisar e dar sentido aos acontecimentos do que o de noticiá-los em edições fechadas. Notícia engarrafada não vende mais. E é impossível engarrafar uma cachoeira que não pára de jorrar.

4) Um homem armado com duas pistolas, em Pilar, Buenos Aires, manteve 40 pessoas como reféns durante cinco horas, dentro de uma agência do Banco de la Nación, até se entregar à Polícia. Não houve vítimas. Mas enquanto mantinha os reféns sob a mira das armas concedeu entrevista ao canal de televisão C5N. Eu estava no hotel na hora da entrevista, concedida ao âncora da emissora, e transmitida ao vivo. Entrevista longa, generosamente repetida ao longo da programação. Aqui, quando do seqüestro de Eloá e Nayara, a jornalista Sônia Abraão, da Rede TV, entrevistou o seqüestrador ao vivo, interferindo nas negociações. Especialistas como Laurindo Leal Filho, apresentador do Ver TV, da TV Câmara, condenaram a interferência, considerada inconstitucional. Não soube de qualquer condenação dos órgãos de representação dos periodistas argentinos à atitude do âncora da C5N. Pelé é melhor que Maradona, isso todo mundo sabe. Mas o sensacionalismo deles é melhor do que o nosso, e muito mais bem aceita, temos de reconhecer.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Enchia galões de gasolina
até a borda de cerveja
para beber e banhar.
Comprava defuntos frescos
para fazer o enterro.
O caixão seguia de carroça,
enquanto a banda tocava
por entre goles de aguardente.
Acendia charutos cubanos
com cédulas de cinco mil réis.
Dirigia carro importado dos EUA
vestido com roupa de estopa
de saco de açúcar.
Expedito Maciel,
Howard Hughes da Parnaíba,
milionário e excêntrico,
perdulário e esquizofrênico,
filho pródigo de si mesmo.

DECÁLOGO


FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

R - Lá pelos meus 15 a 16 anos, quando li o romance “Inocência”, de Alfredo d’Escragnolle Taunay ( Visconde de Taunay). Fiquei encantado e procurei ler outros e outros, inclusive livro de poesias. Antes, lá pelos meus 10 a 12 anos, eu já havia lido textos escolares, na famosa “Crestomatia” e poemas infanto-juvenis de Olavo Bilac, nos livros escolares, decorando-os e recitando-os na escola.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária ?

R - Posso considerar que foi a partir da publicação de um poema no jornal “Flâmula”, do Grêmio Estudantil dos ginasianos de Picos, no ano de 1953.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

R - Primeiramente de Casimiro de Abreu, Castro Alves, Álvares de Azedo, e direi que de todos os grandes poetas românticos brasileiros. Depois de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva e por aí vai. Finalmente, de J.. G. de Araújo Jorge, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa. São esses os que me vêm à lembrança, embora tenha lido dentre os modernos praticamente quase tudo. Romances também muitos, especialmente José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Lígia Fagundes Teles, enfim quase todos os que me caíram nas mãos.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

R - Tudo, a partir de minha estréia em 1966, com AREIAS, do elogio que recebi de Drummond quando publiquei UNIVERSO DAS ÁGUAS, em 1979, até a publicação de minha POESIA (IN) COMPLETA, pela Fundação Mons. Chaves, quando o editor era poeta ELMAR CARVALHO.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

R - Aos trancos e barrancos, brigando com a mulher e comigo mesmo, sem saber se teria leitores ou não. Felizmente, tenho vendido sempre e quando não vendo dou, empresto, mostro, mando para bibliotecas e escritores do Brasil e do Exterior. Assim, acredito que ganho alguns leitores. Lucro, praticamente nenhum. Mas não me queixo do pouco dinheiro que investi neles. Aliás, os livros meus de mais aceitação não são os publicados por editoras, mas, sim, aqueles que eu mesmo banco a edição.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

R - O principal livro, para todo escritor, é o mais novo. Dos romances, é o “D.Xicote”, premiado por concurso do Governo do Estado do Piauí e ainda não editado em edição “solo”, como dizem os músicos e cantores; de poesia – e o “Tempo contra Tempo” (em parceria com o poeta Hardi Filho). Contos e crônicas, eu os escrevo por brincadeira, não os considero de grande importância. Já a crítica, eu faço porque alguém tem que fazer. E é uma obrigação de todo bom escritor, pois somos nós que opinamos e temos peso perante a imprensa, muito mais do que os jornalistas que não são escritores. Tenho publicado poucos livros de crítica. O que me valeu nome nacional foi “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”. Mas, como um todo, o mais importe é a “Literatura do Piauí”, onde teoricamente, coloco todas as minhas idéias sobre literatura. Dessa obra, estou preparando a 2ª edição, a pedido da Academia Piauiense de Letras..

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

R - Não têm cumprido de modo satisfatório. Ressalvo a Fundação Cultural “Mons. Chaves”, cujos recursos são geridos pela Prefeitura Municipal de Teresina. Nossos produtores culturais vivem à mingua de recursos para suas produção, a literatura não é exceção. Os processos são morosos, misturam-se com a política, são minguados, precisam melhorar. Esses subsídios, de modo geral (Estado, Prefeitura, Governo Federal) provêem dos impostos que pagamos, noutra parte da vida econômica, e são muitos. A fim de que a cultura e a educação avancem, num país tão sem educação e cultura, é necessário que tenhamos muito mais e mais bem administrados..
8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

R - Diria que é uma grande literatura regional (o Brasil, tão grande, é feito de regiões). Nomes como Da Costa e Silva, O. G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Assis Brasil e tantos mais, da atualidade e do passado, são jóias da literatura de qualquer país, em qualquer região.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

R - A princípio, por desconhecimento, eu não dava muita importância à internet. Depois, meu filho me ofereceu três blogues, coisa que eu posso manejar plenamente. Hoje, estou convencido do seu valor. Não há mais jornais que publiquem literatura, a boa literatura que publicava a nossa imprensa, no passado. E a imprensa alternativa teve sua fase áurea, mas vai minguando, minguando. A internet veio pra ficar. É um bom meio de divulgação literária. Claro que ela não basta, é preciso que livros e livros sejam publicados, que a imprensa, a televisão e todos os meios de comunicação de massa façam o seu papel de difusores de cultura e educação, não apenas de divertimento.

10 – Como e por que se fez literato?

R - Vamos resumir: não creio em inspiração como motora principal da produção artística. Mas cada homem nasce com algumas inclinações. Eu, acredito, nasci com esse pendor para as letras. Se tivesse nascido num tempo e lugar em que não existisse a literatura, acho que a inventaria. Digo isto pensando nos meus 13 a 14 anos, já fazendo versos imitativos dos grandes poetas românticos. Meu pai era professor e, dentro das possibilidades da época, leitura, escrita e livros começaram cedo em minha vida. Quando não conseguíamos literatura impressa, tínhamos manual. Meu pai era um grande redator de cartas, fazia composições excelentes, tudo isto eu li, ele me incentivou a escrever dessa forma, foi meu primeiro mestre – grande mestre. Com minha inclinação para a poesia e o meu temperamento romântico e introvertido, daí nasceu o literato, o poeta e o que mais me digam que sou e faço.

NOTÍCIA CULTURAL

Poeta Alcenor Candeira Filho, secretário municipal da Educação

II SALÃO DO LIVRO DE PARNAÍBA – II SALIPA


O poeta e secretário da Educação de Parnaíba, Alcenor Candeira Filho, informou sobre a realização do segundo Salão do Livro de Parnaíba (II SALIPA), cujo lançamento acontecerá na manhã do próximo sábado, dia 31 de julho, às 9 horas da manha, no auditório da Prefeitura de Parnaíba. O evento será realizado no período de 19 a 21 de agosto, no Porto das Barcas, através de parceria entre a Prefeitura e a Fundação Quixote, que promove anualmente o Salão do Livro do Piauí(SALIPI). Estão sendo contatados palestrantes respeitados no cenário das letras, a exemplo do que foi feito no ano passado, quando o SALIPA recebeu os escritores Moacyr Scliar, Ana Miranda, Assis Brasil, Cineas Santos, Elmar Carvalho, Alcenor Candeira Filho e outros literatos de projeção no Piauí e no Brasil.