quinta-feira, 16 de setembro de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Não morrerás,
meu quimérico e homérico cego.
Um mito não morre:
um mito se encanta e permanece.
Teus dois percursionistas
são dois anjos da guarda
de asas dissimuladas.
Um te abriga com a sombra
de seus olhos também sem luz.
O outro é tua estrela guia,
que te conduz em tua noite sem dia,
pelas trevas espessas de teus olhos,
como um Virgílio da nova mitologia.
Não morrerás,
não por seres Bento,
mas por teu talento.
A música escorre de teus dedos,
saltita sobre os teclados,
palpita e resfolega no fole,
cabriola no molejo moleque
do leque da sanfona,
evola-se pelos ares,
remexe as ondas dos mares,
sacoleja as folhas dos palmares,
se quebra e se requebra pelos bares
e remelexe no chamego e aconchego dos pares.
Não morrerás, cego Bento.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


14 de setembro

CONVERSA DE BANCO DE PRAÇA

Elmar Carvalho

Enquanto minha mulher foi resolver um assunto na agência do Banco do Brasil da Praça do Liceu, sentei-me num banco que havia defronte, à sombra de vetusto e frondoso oitizeiro. Nele já estava um rapaz, que logo demonstrou ser um tanto inquieto e possuidor de notável incontinência verborrágica. Ao ver uma velhinha atravessar a rua movimentada em longa diagonal, ficou agastado, e considerou o fato uma grande imprudência, o que de fato é mesmo. Incontinenti, comentou que por causa de fato semelhante matara um casal de idosos, quando fora motorista de ônibus em Belém do Pará. Na audiência, para defender-se, alegou que perto do local do atropelamento havia uma passarela. Segundo sua versão, o fato foi entendido como uma espécie de suicídio, pelo não uso do equipamento de proteção. Para lhe dar corda, eu demonstrava admiração, perplexidade e uma quase incredulidade. Não tecia comentários, nem crítica e nem julgamento, mas apenas dizia monossilabicamente: É mesmo? Não diga! Como foi mesmo? Isso fez o falastrão falar mais ainda.

Entre outras coisas formidáveis, disse que o problema do trânsito em Teresina era por causa dos “pardaizinhos”, que limitam a velocidade dos veículos. No seu entendimento, pelo que inferi, os carros deviam circular sempre a mais de sessenta quilômetros por hora, mesmo na Praça do Liceu. Falou que, num poste da rede elétrica do conjunto residencial onde morara, colidira várias vezes. Como eu expressasse muita admiração, atenuou sua culpa dizendo que isso se dera em sua adolescência. Revelando-se um verdadeiro super-homem da psicologia e da força de vontade, acrescentou que usara vários tipos de entorpecentes, mas os abandonara, sem precisar de tratamento. Na sua ótica, sequer fora viciado. Não sei por que motivo, revelou-me que convivera com catorze mulheres, em diferentes épocas. Perguntei se fora sob o mesmo teto, como marido e mulher; respondeu que sim. Indaguei-lhe sobre quantos filhos tivera; disse que quatro, mas que um morrera. Ante tantas coabitações, achei-o relativamente cauteloso e razoável quanto ao número de rebentos. Com relação ao número de companheiras, ao contrário da música de minha adolescência, considerei que ele era o próprio e famoso Barba Azul. Devo dizer que não me senti mais instruído, mais sábio e mais iluminado com a conversa de que fui ouvinte atento e quase passivo. Porém, me senti mais bem humorado, ao menos por algumas horas.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


AMOR E MORTE NA ESTRADA

Elmar Carvalho

Rodolfo seguia firme na direção da jamanta. Partira de São Paulo em direção ao Piauí. Dirigira no dia anterior. Resolveu tomar uns “arrebites”, pois tinha pressa em chegar; o contrato tinha cláusula de multa, caso não chegasse até o dia e horário assinalados. Além disso, desejava passar o sábado e o domingo em sua casa, em Teresina, fato que não acontecia há vários meses. Fazia quinze anos que dirigia carreta, e nunca sofrera nenhum acidente. Procurava dirigir com cuidado e atenção. Principalmente nesta viagem, em que estava em companhia da mulher e do filho de nove anos. Amava-os, e jamais os colocaria em risco. Só usava os comprimidos que lhe mantinham desperto em casos extremos, e assim mesmo com muita parcimônia, e desta vez não fora diferente. Tudo estava sob controle, e não cometeria nenhuma imprudência, sobretudo desta feita, em que conduzia a família, aproveitando as férias do filho. Realizara-lhe um sonho. Na verdade, fora o seu presente de aniversário.

Sabia que a ultrapassagem era proibida naquele trecho, mas a carreta que ia na frente estava em baixíssima velocidade, e a cabina alta lhe permitira enxergar que não vinha nenhum carro em sentido oposto a menos de trezentos metros. O relógio no painel marcava 17 horas e 27 minutos. Queria aproveitar o máximo de tempo de que dispunha, antes da luminosidade imprecisa do luscofusco. Dessa forma decidiu fazer a ultrapassagem, uma vez que vinha em boa velocidade, e sentia total segurança para fazer a operação. Quando já estava quase concluindo a manobra, e já sinalizava o retorno a sua faixa, um automóvel saiu repentinamente de uma estrada vicinal, que havia à esquerda. Tudo foi rápido demais. Tentou frear, puxar um pouco para a direita, mas a colisão foi inevitável. Quando sentiu que nada mais havia a fazer, fechou os olhos, mas manteve o pé calcando o pedal dos freios até o máximo que pôde. Quando teve coragem de abrir os olhos, o fez, embora sem noção do tempo. Chamou pelo nome da mulher e do filho, sem obter resposta. Sacudi-os, quando uns homens, evidentemente outros caminhoneiros, já assomavam à janela da porta da cabina. Pressentiu que eles estavam mortos. A parte direita da cabina fora atingida pela carreta que ele ultrapassava, fato que lhes provocara a morte. Ficou desesperado, perplexo, atônico, quase louco. Logo chegaram os agentes da Polícia Rodoviária Federal, que lhe abordaram. Os corpos da mulher e do filho foram logo colocados na ambulância, mas já constatada a morte. Os dois homens e as duas mulheres do automóvel atingido por sua carreta tiveram também morte instantânea. Ouviu alguém comentar que havia bebida com eles, e que deveriam estar vindo de um balneário que havia perto. Mesmo assim, sentiu-se perdido.

Perdera a mulher e o filho. Fizera a ultrapassagem em lugar proibido, e isso o acompanharia como um estigma denunciador. Ninguém iria dizer que a imprudência maior fora do motorista do automóvel, que entrara abruptamente na BR em alta velocidade, e talvez embriagado. Seria o bode expiatório da tragédia, sem direito a remissão. Já tinha 43 anos de idade, o que lhe dificultaria ainda mais a chance de manter o emprego ou de encontrar uma nova colocação. Achou que sua vida não teria mais nenhum sentido a partir de então. Estava perdido. Sequer tinha pais ou irmãos que lhe fossem visitar quando estivesse preso. Quando os patrulheiros lhe pediram para que os acompanhassem até o Posto da PRF, assentiu prontamente; apenas pediu licença para apanhar no porta-luvas alguns pertences, inclusive seus documentos e a carteira de cédulas. Demorou a retornar. Um dos patrulheiros, um tanto apreensivo, foi verificar o que ocorrera. Constatou que o motorista estava com os miolos esfacelados, com salpicos de sangue em vários locais da cabina. Notou que ele tivera o cuidado de envolver o revólver no vestido da mulher, para diminuir o barulho do estampido. Evidentemente, não haveria carta de suicida.

domingo, 12 de setembro de 2010

SELETA PIAUIENSE



CANÇÃO DE AMOR E MORTE

PAULO MACHADO

Antônia Flor – flor da gameleira –
toda manhã lavrava a terra
com a sabença de quem conhecia
o sabor agridoce dos araçás.

Antônia Flor – flor da gameleira –
na cinzentura da tarde, guardava
no aprisco cabritos e borregos
da fúria profana dos carcarás.

Antônia Flor – flor da gameleira –
aos oitent’anos tinha os olhos acesos
a alumiar, como os olhos de maracajás.

Antônia Flor – flor da gameleira –
fez do amor à terra sua peleja,
sua crença, sua razão de bem-viver.

Antônia Flor – flor da gameleira –
teve o corpo crivado de balas –
à sombra de uma velha ingazeira.

Carpideiras puxaram excelências
e tiranas, com a notícia da morte
a correr nos estirões das veredas.

sábado, 11 de setembro de 2010

SEUCAM (SEMANA UNIVERSITÁRIA DE CAMPO MAIOR)

CORINTO ARAÚJO FILHO




Em uma determinada tarde de janeiro de 1974, curtindo férias estudantis sentados na mureta da esquina de dona Mocinha Leite (cruzamento das ruas coronel Eulálio Filho com Dr. Moura) estava eu e meu irmão José Wagner Brasil, bom irmão, religioso praticante, alto, elegante, corpo atlético, amigo, inteligente, alegre, brincalhão e prosador, essas características o tornavam bastante cômico e com ar de galanteador. Músico violonista e cantor faziam deste conjunto uma das pessoas mais admirada e estimada por todos que o conheciam. Estudante de Bacharelado em Administração de Empresa na URNE ( Universidade Regional do Nordeste em Campina Grande PB) José Wagner contava-me vantagens e entre elas que fazia parte do plantel de atletas daquela escola e que representava muito bem nas competições de Natação, Lançamento de Disco e Dardo nos Jogos Universitários da Paraíba e que queria realizar aquele movimento de integração do esporte, lazer e cultura em nossa cidade. Foi assim que nasceu a Semana Universitária de Campo Maior. Ali mesmo enquanto explicava o audacioso projeto, surgiu em um Puma vermelho o estudante de Economia da UNB, José Paulino de Miranda, filho de Ivon Pacheco, o qual atentamente e entusiasmado não só ouviu mas aceitou o convite do idealizador para ser o primeiro Presidente daquele que viria a ser um dos mais ricos e acreditados movimentos estudantis do Piauí.

A I SEUCAM, como ficou conhecida, todos os planos e metas do projeto foram discutidos e praticamente concretizados ali mesmo naquela esquina, saímos dalí às 20:00 horas com tudo traçado e decidido, como: 1 - formar diretoria; 2 –o evento teria que ser realizado duas semanas antes do carnaval e se estenderia por uma semana, 3- As modalidades esportivas seriam: Futsal, voleibol, basquete, handebol, ciclismo, futebol de campo, mini maratona, natação (travessia do açude) competições de damas e xadrez, outras modalidades como: palestras, debates e oficinas, baile de entrega das medalhas e para o encerramento teríamos um grande churrasco de confraternização, 4- A participação de outras cidades como Teresina, Esperantina, Pedro ll, Altos, Barras, e Piripiri. 5- propaganda, abertura com a presença das autoridades como: governador, prefeito, vereadores e outras autoridades e por último as Receitas e Custos. No dia seguinte partiu-se para a realização destas metas: logo cedo fomos a Teresina marcar audiência com o governador Dirceu Mendes Arcoverde para convidá-lo a participar da abertura. Não só fomos atendidos mas pra nossa surpresa aceitou com agrado o convite, não veio mas mandou um representante, o secretário de saúde do estado, Dr. Luis Pires.

Campo Maior historicamente é reconhecida por todo o estado como cidade pólo da educação universitária e, nessa época, era difícil numa família não ter filhos matriculados em um dos mais variados cursos em universidades espalhadas por todos os estados do Brasil e que periodicamente, nas férias, estes encontravam-se em seu torrão querido e, à medida em que a novidade da SEUCAM se espalhava, toda esta comunidade não só abraçava a causa mas queria participar e por este motivo foi fácil trabalhar o evento. A diretoria foi formada, a abertura foi no Campo Maior Clube com as autoridades convidadas as quais usavam retóricas de motivação e progresso para com todos os universitários presentes, as competições esportivas eram realizadas no quartel da PM, AABB, IATE e Estádio Deusdedite Melo, as equipes de futsal eram formadas pelos universitários dos estados representantes como Brasília, Bahia, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Piauí e a sobra formava-se uma equipe mista denominada de Mistox e que cada time poderia ter dois alunos secundaristas como motivação e inclusão. No final do campeonato formava-se uma seleção para confrontar com as equipes das cidades convidadas, assim eram o voleibol masculino, feminino, handebol e basquete. Tinham as palestras com variados temas culturais, jurídicos e Socioeconômicos com palestrantes da área como o jurista Celso Barros, o filósofo Antonio José Medeiros, o economista Prof. Puscas. O baile realizado na AABB com glamour teve a responsabilidade musical de “Os Dragões de Piripiri” que tocavam um repertório riquíssimo de canções da época que hoje são conhecidos clássicos da música internacional, o churrasco de confraternização era aberto a todos os universitários e os convidados com uma simples senha em uma fazenda ou chácara mais próxima (por conta do deslocamento) emprestada por um amigo que congratulava com o movimento, no mais tudo eram doações também de amigos , como carneiros que chegamos a ganhar em média, 20( vinte) cabeças por cada SEUCAM, a cerveja e outras despesas eram pagas pela organização. Nossas receitas eram adquiridas da seguinte forma: tínhamos parceria com a prefeitura que ajudava com combustível, hospedagem para as equipes de fora; a taxa de inscrição das competições esportivas, eram usadas na compra de material de expediente, taças e medalhas e a maior receita mesmo, era o lucro do baile com o qual se fechava o caixa.

Muitos foram os responsáveis e batalhadores para a realização da SEUCAM: José Wagner Brasil, José Paulino, Erivan Napoleão, Benedito Portela, Maria Teresa Portela, Nazaré Portela, Edgar Bandeira, Zezinho Machado, José Neves Neto, Edvar Alves Rodrigues, Lafayette Andrade, Gilberto Ferreira, Marco Bona, Bernadete Alves Rodrigues, Gracinha Bezerra, Corinto Brasil, Lourdinha Cardoso, Antonio Francisco Ibiapina, Élcio Leite, Raimundo Filho, Margarette (Baiana), Bebeta da Olindete, Bebeta Araújo Costa, Raimundo Pereira, Valdecy Ribeiro, Edmar Napolelão, Carlos Ibiapina, Carlos Batista, Evaldo Bandeira etc.

Mantendo as mesmas programações com exceção dos conjuntos musicais, dos locais de jogos, dos locais de festa e locais do churrasco, assim foi realizada a II SEUCAM presidida por José Wagner Brasil, a III SEUCAM , Edgar Bandeira, a IV SEUCAM, Edvar Alves Rodrigues, no entanto na V SEUCAM tivemos que atender as aspirações democráticas que pairavam sobre todos nos universitários, e assim foi feita uma eleição com duas chapas que eram encabeçadas por Valdecy Ribeiro X Corinto Brazil . Vitoriosa, nossa chapa era composta por vários estudantes compromissados com a causa entre eles Leopoldo Portela, Bernadete Alves Rodrigues,Ferdinand A. Rodrigues, Carlos A. Rodrigues, Carlos Ibiapina, Ângela Brasil, Lúcia da Esmeralda, Anaíde Portela, Márcia Bona, Lafaiette Andrade, Marco Bona, Helder Andrade, Fábio Andrade, Élvio Andrade, Nina Melo, Rosario Félix, Dasdores Félix e Filosinha. Nessa gestão além de manter toda a programação procurou-se inovar no sentido de enriquecer mais ainda a SEUCAM e incluímos na programação um conjunto de metas entre elas: assistência comunitária voltada para a saúde como: atendimento médico, odontológico e vacinação anti-rábica com atendentes profissionais médicos, odontólogos e universitários da área que cursavam o último ano da faculdade. A VI SEUCAM, presidida por Lafayette Andrade, manteve a programação da anterior, a VII SEUCAM, presidida por Gilberto Ferreira, caracterizou-se por uma luta de reivindicações por uma universidade em Campo Maior e foram realizadas passeatas durante toda a semana, luta esta continuada pelas outras SEUCAM seguintes e que culminou tempos depois com a criação da UESPI. Também lançado na AABB durante a festa de entrega de medalhas ao som da Banda “Os Geniais” o Hino da Semana Universitária de Campo Maior de minha autoria:
“A emoção nos corações dos estudantes/Dessa terra é brilhante e arrogante /Esta virtude é completa de união/Força de trabalho e decisão/Da assistência comunitária/Ao esporte preferido/ Dos shows as palestras culturais/se fincam as realizações da linda SEUCAM/É espírito de luta/ É espírito de glória/É uma vida universitária/ Vivemos nela um paraíso / Pois foi um grande sonho construído/SEUCAM, SEUCAM, SEUCAM.... “

A VIII SEUCAM foi presidida por Raimundo Pereira, estudante de Economia da UFPI, cheio de idéias entre elas a criação de uma associação para os estudantes universitários, e a realização de festivais de música. Grande baluarte na continuidade do evento assumiu a responsabilidade da IX SEUCAM com uma equipe de trabalho formada por Sena Rosa, Josino Gomes, Joãozinho Félix, Gilberto Ibiapina, Helton Andrade, Adalberto Soares, Juraci Gonçalves, Rosário Félix, Bernadete A. Rodrigues. Em 18 de Fevereiro de 1984 foi criada a AUCAM (Associação Universitária de Campo Maior) simultaneamente funcionando em sede própria construída às margens do açude grande com a ajuda do poder público seguindo um projeto do arquiteto Fábio Andrade de construção simples mas bonita onde foram usados como matéria prima, a palha e o caule da carnaúba. Também naquela semana, foi realizado com grande sucesso o I FEMCAM (Festival de musica de Campo Maior) com a participação de vários compositores e intérpretes de renome da música do nosso estado. Após o término do evento, foi realizada a eleição de uma nova diretoria para assumir o próximo mandato da associação que a partir daquele momento seria de caráter permanente.

A gestão eleita da AUCAM, permanecia no exercício durante 1 (um) ano, com poderes de ajudar e responder pelos os interesses e lutas da classe, promover na sede, festas e shows periodicamente, organizar e acompanhar a realização da semana universitária. Com muitas realizações e conquistas poderia citar alguns presidentes como: Joãozinho Félix, Benedito, José Peres, Zico Martins, Orivan Ibiapina, Rosy N. Santos (a Primeira mulher a assumir a presidência da associação), Luzia Pereira, Mário Rogério Ibiapina, Gilda Ibiapina, Assis Lima, Marcos Soares. Atualmente a AUCAM não realiza mais a semana universitária, o prédio está caído por conta de um temporal ocorrido “ainda”no inverno passado e a luta de várias gerações está prestes a se apagar da memória dos campomaiorenses.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



– Maria Onça!
– Onça é a tua mãe,
filho de uma égua.
A cara feia de Maria
transformava-se na
carranca de uma onça.
Não de uma onça pintada,
não de uma onça rajada,
mas de uma onça
pobre, feia e desbotada.
E Maria Onça seguia
como um bicho acuado
por entre os apupos
da molecada.
E Maria Onça chorava
no meio da molecada.

O USO DE CHAPÉU

ALCIONE PESSOA LIMA


Vivemos em uma cidade de clima muito quente, com períodos em que a umidade relativa do ar atinge 20%. E seria óbvio se todos, homens e mulheres desta terra, tivéssemos o hábito de usar chapéu para a proteção da pele, principalmente, pois algumas neoplasias cutâneas são provocadas exatamente pela exposição demasiada aos raios solares.

Mas, mesmo diante do óbvio, estranha é a atitude de algumas pessoas nativas deste chão ironizarem aqueles que têm o bom senso de se utilizar da referida peça para se protegerem, ou mesmo como um complemento às suas vestimentas, demonstrando, sem sombra de dúvidas, uma elegância invejável (pelo menos para mim).

Há algumas mulheres desta terra que se destacam (poucas, é claro) usando o chapéu, mesmo à noite, pois diversificam suas cores e modelos, fugindo do clássico, feito de palha, numa forma irreverente de ser, segundo alguns observadores. Elas demonstram estar corretamente vestidas, conscientes, e deveriam ser exemplos para todos nós. E os homens? O que dizer? São poucos também, talvez não passem de dezenas.

Não há, assim, que ter a preocupação se estar ou não na moda, pois esta quem deve ditar somos nós, tanto que muitas vão e vêm, e pouco se inova, apenas se repetem, com outra cara.

O belo, portanto, deve estar ligado ao útil. O simples pode ser perfeito para a satisfação de nossas necessidades. A beleza agradecerá no futuro, pois o sol demasiado ajuda a envelhecer mais rápido as células da pele, e cremes e massagens poderão não mais fazer efeito quando a mesma der sinal de que há um processo irreversível de degradação, que, muitas vezes, nem a quimioterapia resolverá. Pensemos nisso.

NOTÍCIAS CULTURAIS


GASTRONOMIA E LITERATURA

No próximo sábado, dia 11, a partir das 12 horas, o acadêmico Jesualdo Cavalcanti e sua esposa Socorro oferecerão aos membros da APL um churrasco/almoço no sítio Malhada, de propriedade do casal. Certamente o exercício gastronômico será regado a boas conversas sobre arte, história, estórias e literatura.

LANÇAMENTO DE VALORES, AMORES E SABORES

No próximo dia 11, sábado, às 10 horas, no Auditório Acadêmico Wilson Brandão, na sede da Academia Piauiense de Letras – APL, acontecerá o lançamento do livro “Valores, Amores e Sabores”, de autoria do professor Antônio de Lisboa Mello e Freitas, irmão do patrono da cadeira 39, José Newton de Freitas, e do acadêmico Paulo de Tarso Mello e Freitas. A apresentação da obra será feita pelo imortal Celso Barros Coelho.

BRIGADA MANDU LADINO

Hoje, dia 9, às 19:30 horas, a Brigada Mandu Ladino promove mais uma atividade científico-cultural, desta feita a conferência “A Presença dos Jesuítas no Brasil Colônia”, que será proferida pelo padre Geraldo Antonio de Almeida, vindo de Salvador – BA especialmente para essa finalidade. O evento acontecerá na rua São Pedro, nº 3125, bairro Ilhotas, nesta capital. À frente da Brigada o médico e poeta Luiz Ayrton Santos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)


ABDIAS DA COSTA NEVES

Abdias da Costa Neves nasceu em Teresina, Piauí, em 19/11/1886. Advogado, professor, jornalista e servidor público. Publicou: “Um Manicaca”, “Piauí na Confederação do Equador”, “A Guerra do Fidié”, “Moral Religiosa”... Morreu em Teresina, em 28/08/1928.

Muito cedo ainda conheceu a dureza da vida e a enfrentou com coragem e galhardia muito acima da sua idade e de suas próprias forças. Aos 15 anos ficou órfão de pai.
Fez o primário e os preparatórios em sua terra natal. Seguiu depois para Recife, matriculando-se na Faculdade de Direito, ali. Muito inteligente e aplicado aos estudos, seu curso superior foi uma colheita ininterrupta de louros.

[...] foi o único acadêmico aprovado com distinção numa turma de 39 bacharelandos, dos quais 26 foram reprovados e 12 aprovados simplesmente.

[...] Voltando a Teresina, Abdias foi juiz de direito interino de Piracuruca de 1900 a 1902, juiz substituto federal de 1902 a 1914 e secretário do Governo em 1914.

[...] Tocava flauta, violino e violão. Era exímio dançador, figura obrigatória nos salões de baile, principal diversão da capital naquele tempo.

Foi um grande jornalista. Aliás, para ele o jornal era tudo. Sem jornal não podia viver: sentia-se amesquinhado, desamparado, diminuído, desarmado como peixe fora d’água. O jornal era a sua arma predileta para comentar os fatos, orientar a opinião pública, fazer literatura. Belíssimas páginas literárias suas estão esparsas em A Pátria, O Monitor, A Notícia, O Dia e Litericultura.

[...] Abdias teve os seus momentos de pura arte e produziu belos versos, cumprindo assim entre os homens a sua “missão de sol” na expressão de Martins Napoleão.

Fonte: Monsenhor Chaves, Obra Completa.

(*) Texto e charge de João de Deus Netto.

ACALE ELEGE NOVA ACADÊMICA

Acadêmicos Antônio Manoel Gayoso, Domingos José, João Alves Filho e a eleita Ana Maria Cunha


Os membros da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE elegeram ontem o acadêmico que irá ocupar a cadeira nº 12, vaga com o falecimento do poeta Cunha Neto. Concorriam à vaga os intelectuais Genilda Silva Cruz, Ana Maria Oliveira Cunha, Evaldo Lopes, Jacob Fortes Carvalho e Francisco de Assis de Lima. Entre os que compareceram e os que enviaram a cédula, votaram 26 acadêmicos. Foi eleita a escritora Ana Maria Cunha, filha de Cunha Neto, com 13 votos. Compareceram à sede da Academia os imortais João Alves Filho (presidente), Cardosinho, Avelina Rosa, Sargento Loiola, Lisete Napoleão, Raimundo Monteiro de Santana, Jesus Andrade,Toinha, Moacir Ximenes, Luciana, Helano Lopes, Zé Didor, Corinto Brasil,Jesus Araújo, Antonio Manoel Gayoso Castelo Branco e Domingos José de Carvalho. Para o presidente João Alves Filho foi uma festa da cultura e da democracia acadêmica.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO







7 de setembro

MARINHEIRO DE ÁGUA DOCE

Elmar Carvalho

Logo ao atravessar o paredão da barragem do lago de Corredores, avistei um bando de cabras, que pareciam pastar magras rações de pedra, pois o capim se confundia com a paisagem seca e encardida. Ali estavam uns jumentos, que hoje parecem abandonados, uma vez que os rurícolas já não os usam como montaria; preferem trafegar em ruidosas motocicletas. Entre os asnos, peludo e cheio de graça, havia um jumentinho albino, cuja cor destoava da cor cinzenta de seus irmãos. Vi-o mamar com sofreguidão, e depois seguir o rebanho, saltitante e contente. No local, havia um barco, ancorado na sequidão da caatinga. Talvez fosse mais exato dizer naufragado nos pedregulhos do sertão, porque seu casco tinha rombos que já não lhe permitiriam singrar as águas doces do lago. O motor fora desentranhado de seu ventre. Talvez por medo de que o barco saísse a voar, levado por um vendaval, alguém tivera o cuidado de prendê-lo a uma corda, como se fora um cabresto. Aquele barco em ruínas, parado na terra esturricada, me fez lembrar um passeio que fiz, em minha juventude, ao povoado Água Doce, no Maranhão, que na época eu pensava tratar-se de uma ilha, encravada no Delta do Parnaíba. Convidados pelo jornalista Bernardo Silva, que ali nascera, fomos eu e o Paulo de Athayde Couto, que às vezes eu chamava de PAC.

Passamos uma semana no povoado, em conversas, libações e a desmontar as peças e patas de saborosos crustáceos. Voltei lá outras duas vezes, novamente a convite do B. Silva, mas tendo como terceiro escoteiro o Reginaldo Costa. Fomos na proa do barco, uma chalana, em animada conversa, entremeada de música e poesia, sorvendo sorrateiramente umas talagadas do velho pirata Ron Montilla, sob o olhar negligente do cobrador, que não viu ou fez que não viu, o que para nossa juventude dava no mesmo. Como eram gostosos aqueles imensos caranguejos. Fomos na época do carnaval, e o povoado estava festivo, com a presença alegre e bonita das moças que estudavam em Parnaíba. Estávamos no final da década de setenta. Ao conversar com um jovem nativo, expressei-lhe minha admiração pelo velho Luiz Gonzaga. Fiquei chocado quando o jovem, em linguagem desdenhosa e cheia de gíria, retrucou-me: “Qualé, cara, eu gosto é do Michael Jackson!” Preferia ficar macaqueando os ídolos norte-americanos em detrimento da genialidade do velho Lua, totalmente alienado de sua origem interiorana e nordestina. Mas o leitor deve estar perguntando o que tudo isso tem a ver com o barco encalhado nas pedras da caatinga. É que isso me fez recordar uma canoa atolada na lama do mangue, na qual tirei uma fotografia, a fingir que estava remando. Foi então que me surgiram os versos em que eu, no auge de meu entusiasmo juvenil, acreditando que a mocidade não morreria nunca, proclamava que era “um homem que remava no seco contra a corrente das águas”. Quando voltávamos, ultrapassamos uma pequenina e preguiçosa chalana, que ironicamente se chamava “Ligeirinha”. Na verdade, o velho motor toque-toque mal conseguia vencer a correnteza, e havia momentos em que parecia andar para trás. Escrevi uma crônica sobre essa viagem, que publiquei no jornal Inovação. Ó tempos ditosos, diria o poeta que ainda canta em mim.

QUARENTA ANOS DE SUCESSO LITERÁRIO

WILTON PORTO


“Seleta em verso e prosa” foi o último livro publicado pelo poeta parnaibano Alcenor Cadeira Filho. É uma coletânea em comemoração a quatro décadas do poeta projetando uma literatura de muita qualidade. Alcenor está entre os destaques da poesia piauiense e seu nome já deu saltos mais longínquos: voa Brasil afora.
Nesse livro, Alcenor Candeira Filho contempla trabalhos, em sua maioria, publicados em outras obras dele. Ele escolheu escritos – em poesia ou não – que ele considera como mais lidos e que lhe marcaram como homem das letras.
O poeta, como professor de literatura, e com uma sensibilidade arrebatada, vem fazendo obras de uma significância incomum. Com a capacidade de poetar e conhecedor das limitações de muitos estudantes, ele produz poesias que nos colocam diante de conhecimentos de como manejar a literatura, dos caminhos que temos de seguir para, não só escrever, como também entender, os passos a serem dados para traçarmos uma literatura que satisfaça.
“Em Teoria do texto”, o literato nos brinda com informações importantíssimas. E acreditem: o faz com poesias belas, numa musicalidade que chama a atenção e numa poesia vigorosa. Informa sobre reportagem; romance com sua estrutura de narrativa, classificação, o foco narrativo, quais os tipos de personagens, fala e espaço, tempo e desfecho; como se fazer um conto; uma novela, com sua etimologia, ação, espaço e tempo, linguagem...
No subtítulo POEMA, o professor nos lembra, por exemplo, que o poema não pode prescindir do “significado”: conceito, conteúdo, valor, significação. “Significante”: a imagem acústica associada a um significado e que forma um signo lingüístico.
A junção de significado com significante, lapidados com harmonia, geram a poesia, que através do verso deve sobrepujar o poeta. Ou seja, a poesia deve ser tão bem trabalhada, a ponto de ganhar mundo. Não é o poeta que eleva a poesia, é a poesia que eleva o poeta. Um poeta só arranca muitos aplausos, quando a poesia que leva ao público é destacada por todos. E Alcenor usa da expressão: “sobrevive ao poeta”
Para o poeta parnaibano, a melodia é indispensável, assim como a ideia “tão livre quanto o vento”. Uma poesia que não faça bem aos ouvidos, palavras que não geram imaginação visual e nem levem ao pensamento real, não é poesia. Assim, o poeta tem que fazer dos versos um “código para ser decodificado” pelo leitor.

A VIDA

nasc
ente
cresc
ente
do
ente
po
ente

PEDRA DO SAL

Pedra do Sal
porta do céu
porto do cio
pista do sol
no sal azul

As poesias concretas de Alcenor encerram melodia, têm significado e significante, são livres como o vento, beleza visual, nos abrem a mente para a imaginação em busca de uma decodificação.
A primeira poesia – Vida – mostra a trajetória da vida: nascemos, crescemos, ficamos doentes e morremos. Este é o núcleo do pensamento do autor. Está nas entrelinhas que, entre o nascer e o morrer (poente), muita coisa acontece. O ato de crescer, nos leva a passarmos por muitos trabalhos, conflitos, até chegarmos à doença ou outro meio para nos empurrar para o desencarne.
Na segunda poesia, o vate descreve sobre uma Pedra do Sal como tapete chamativo para o erotismo. Quem está nos braços da amada, deixando fluir por todos os poros o erotismo do momento, se encontra no céu. A beleza daquela praia, com as pedras à beira do mar, não tem como negar que não seja um porto do cio! Pista do sol (e que calor nesse momento! Que suor se misturando!) no tempero do amor (sal azul) que encanta e satisfaz os amantes!
Os “Poemas elegíacos” são momentos de finíssima inspiração. Ali o poeta se elevou a alturas inimagináveis. Eu não saberia dizer qual a mais bela. Umas são mais profundas no trabalhar os versos. Outras, o bardo está mais sensível à morte do pai, que todos sabemos, fora de forma trágica.
O soneto “No cemitério”, que irá abaixo, me toca por demais. Sinto muita emoção ao lê-lo. O poeta ali, junto à mãe, que contrita eleva o pensamento aos céus. Está lembrando o marido que partira sem breve aviso, sem apresentar doença. Fora de uma forma que não dá para se explicar e entender. Olhar preso no etéreo todo azul, o poeta deveria estar angustiado pela morte do pai e o sofrimento da mãe. As lágrimas naquele momento desafiavam o infinito. A dor sublimava a musa. “A campa, a escuridão, o isolamento são o retrato de que é nada o tudo”.
E como o é! Perder já é uma luta contra a saudade e solidão. Perder por assassinato bárbaro é perceber que tudo fora construído se desmoronou! Então, tudo se transforma em nada. A própria vida perde o valor.

De Parnaíba no velho Cemitério,
Á tarde, de meu pai junto à lousa,
Mamãe e eu... Ela reza qualquer cousa,
Com o meigo olhar fitando o azul etéreo;

E eu, sem conter em mim da fé a força,
Quero descortinar todo o mistério
Que diante de nós, ali, repousa,
Em silêncio mais frio que o de ascetério.

E, enquanto minha mãe segue rezando,
Às alturas eu solto o pensamento;
Porém, de súbito, paro... e, chorando,

Descubro, só, naquele vale mudo,
Que a campa, a escuridão, o isolamento
São o retrato de que é nada o tudo.

O livro SELETA EM VERSO E PROSA, de Alcenor Candeira Filho, é daqueles que todo escritor tem que ter na estante e pesquisado com constância por estudantes.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



O CORCUNDA E SUAS ALMAS

Elmar Carvalho

Chamava-se Perácio Pinto Pereira. Mas os amigos íntimos o chamavam simplesmente de PPP ou Pereirão, quando estavam mais efusivos nas rodas de cerveja. Ele parecia gostar do aumentativo. Integrara a Força Expedicionária Brasileira – FEB. Nas paradas de 7 de setembro, desfilava na avenida Frei Serafim, a ostentar as brunidas medalhas de herói. Guerreara na Itália e ficara com neurose de guerra. Sempre fora um tipo excêntrico, fanfarrão e falastrão. Também tivera a sua dose de herança genética da esquizofrenia, que atacara vários membros de sua família. A doença progredira, com a guerra e com a idade. Quando voltou da Itália, lecionou Geografia e História no Colégio das Irmãs, por pouco tempo. Certo dia, em que as alunas adolescentes estavam a fazer algazarra nas cadeiras de trás da sala, durante a aplicação de prova, Pereira, em linguagem desabrida, como era do seu feitio, com seu vozeirão tonitruante, mandou que elas fizessem silêncio, senão mandaria “pau na retaguarda”, no sentido de que as reprovaria. As alunas se sentiram ofendidas com a linguagem metafórica do mestre, e foram se queixar para a irmã diretora do educandário, e o certo é que Perreira foi exonerado do cargo.

Após esse episódio burlesco, que faz parte de seu anedotário, foi lecionar no Domício. Em suas aulas, contava piadas, com o seu jeito extrovertido e expansivo. Às vezes, com nítido exagero, contava as suas verídicas e supostas proezas nas batalhas contra o fascismo italiano. Contava detalhes, quando falava em esguichos de sangue e em pedaços de cérebros estilhaçados. Suas excentricidades e esquizofrenia progrediam a olhos vistos. Certa ocasião, quando narrava um episódio de guerra de que teria sido protagonista, sentado em cima da mesa, e não à mesa, como seria o usual, um aluno irreverente lançou pela janela uma forte bomba de São João, que certeiramente foi parar debaixo da mesa. Quando o artefato estourou, Pereira se jogou ao chão, e saiu rolando para debaixo de uma carteira, gritando a pleno pulmões: “Soldados, entrem nas trincheiras, o inimigo está atacando!” Somente com muito esforço, o diretor conseguiu acalmá-lo e convencê-lo de que não havia guerra; que estava na época dos festejos juninos, e um aluno gaiato, ainda não identificado, jogara um traque poderoso na sala de aula.

Com a velhice, além da loucura, que então já era acentuada, Pereira adquiriu uma proeminente corcunda. Andava bastante curvado. Parecia um pequenino Atlas, a carregar o mundo nas costas. Um dia lhe perguntaram sobre a causa de sua corcunda. Pereira olhou fixamente o interlocutor, e com ar sério e compungido, imerso em sombrios pensamentos, como se estivesse impregnado de remorsos e sofrimentos, respondeu que não tinha corcunda; que andava curvado pelo peso das almas dos homens que matara em Monte Castello. E saiu a cantarolar uma linda e triste melodia italiana.

DECÁLOGO


GISLENO FEITOSA
Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

Perguntas formuladas por Elmar Carvalho


1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

Quando criança, aprendi as primeiras letras na casa do escritor José de Alencar, pois meu avô era o responsável pela manutenção da mesma, em Messejana. Meu avô lia para mim as obras deste imortal cearense e eu escutava embevecido. Depois fui para o Seminário da Prainha, em seguida para Maranguape e finalmente para o Mata Galinha (hoje Dias Macedo, onde fica o Castelão). Estudei latim, grego e literatura com os padres. Era estudar e rezar, em regime de internato.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária?

Não me considero um literato. No Seminário eu produzi alguns trabalhos que foram premiados e isto me incentivou a pensar em escrever. Meus escritos, como na maioria das pessoas, ficavam engavetados.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

Fui influenciado por membros da minha família como o meu bisavô que escreveu a “Genealogia da Família Feitosa”, pelo Padre Neri Feitosa, um tio que tem mais de trinta livros publicados e pelo Professor Aécio Feitosa, primo e padrinho, autor de diversas obras com passagem pela Bélgica e pelo Canadá. Eles me deram muita força na minha juventude.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

Como disse, não sou literato, contudo o lançamento dos meus dois trabalhos que contaram com a expressiva ajuda do Acadêmico Herculano Moraes, me emocionou. Nenhum deles era para ser um livro (quando muito, um opúsculo), mas, após a coleta do material, Herculano resolveu editá-los.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

Como disse anteriormente, com a ajuda inestimável do mestre e amigo Herculano de Moraes.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

O principal é o último “Gisleno Feitosa...em verso e prosa”. Outros trabalhos estão sendo preparados: “Cachet” com orientações para as clientes do consultório. Se eu conseguir meu intento de publicar duas obras que estão quase prontas, aí então poderei dizer que sou um literato. Uma diz respeito ao estudo dos seios (Seios ou não Seios?) e outra é um resgate histórico sobre a vida de um médico francês chamado Samuel Pozzi.

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

Não gosto de opinar sobre aquilo que não conheço profundamente, mas pelo que tenho escutado dos escritores amigos, há uma deficiência de estímulo aos que desejam produzir obras aqui no Piauí, principalmente os não muito conhecidos e desapadrinhados. Aqui, entre nós, existe gente interessada em ajudar àqueles que queiram se dedicar à causa literária. Posso citar os Professores Cineas Santos, Luís Romero, Wellington Soares, Nilson Ferreira, Professora Jasmine Malta e muitos outros, bastando que o interessado seja realmente “interessado”.

8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

Merece um lugar de destaque. Fico feliz quando, no SALIPI, autores reconhecidos internacionalmente como Afonso Romão de Sant'Anna, Laurentino Gomes, Zuenir Ventura ou Ignácio de Loyola Brandão, fazem referência ou mesmo rasgados elogios a Fontes Ibiapina, Mário Faustino, Hermínio Castelo Branco, H. Dobal, Da Costa e Silva, O. G. Rêgo, Assis Brasil, Elmar Carvalho e tantos outros. Porém, nomes mais recentes e menos divulgados, mas não menos importantes como Enéas Barros autor de “Parabélum”, “O Turco e o Cinzelador” e “15:50” e Sérgio Idelano Matos autor do romance “Somos Todos Velhas Fotografias” merecem o nosso respeito e a nossa admiração.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

A internet é um veiculo que permite acelerar a busca a livros que outrora não tínhamos como conseguir. Permite a leitura de livros on-line e a compra de e-books. Baste citar a importância do site “Domínio Público” onde encontramos obras maravilhosas, disponíveis a qualquer hora.

10 – Como e por que se fez literato?

Não me fiz, mas tenho esperança, antes da senectude ou de partir, em publicar uma obra que deixe marcada a lembrança da minha passagem por este chão cáustico que ferve o sangue nas veias, torra os miolos, mas nos acolhe aconchegante, como a um filho pródigo.

CEMITÉRIO DO SERTÃO


No retorno, fotografei um cemitério campestre, abandonado na solidão e no abandono do abandonado semi-árido. Com o êxodo rural, é muito provável que até as almas tenham se exilado daquele campo santo do sertão. E já não entoem os miseres e excelências nas noites mortas do ermo. (Trecho extraído do Diário Incontínuo, publicado neste blog no dia 22 de junho, sob o título CORREDORES, UM LAGO NA CAATINGA.)

ARMAZÉM DO PÓ


Não, não, caro internauta. Não se trata do que possa parecer à primeira vista. Não se trata de estabelecimento de alguma favela de morro carioca, até porque não se vê na foto nem favela nem morro. Não se trata, portanto, de nenhuma ousadia explícita de algum audacioso traficante. É apenas um armazém que compra pó de cera de carnaúba, que foi no passado uma das maiores riquezas do Piauí, e de Campo Maior, em particular, em que os coronéis da carnaúba imperavam na política e na sociedade.

sábado, 4 de setembro de 2010

AMAD’AMOR

ELMAR CARVALHO


Eu te amo.
Eu te (ch)amo.
Eu sou tua (ch)ama.
Eu te des’gosto.
Eu te ado(u)ro.
Eu te douro.
Eu sou teu (m)ouro/mourão.
Eu sou teu tes’ouro.

És minha ama’da.
És minha d’ama.
E neste jogo de (d)ama
o xeque-mate é um Pirro/pirrônico
em que o vencido é vencedor
e o escravo é senhor.

Somos um laço:
tu me (en)laças,
eu te (en)laço.
Somos um cadafalso
onde somos vítima,
carrasco e baraço.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SEM RUMO

CUNHA E SILVA FILHO
Para Cunha e Silva Neto


Em qualquer parte estaremos. A vida, algumas vezes, nos dá o seu sem-sentido. Vago sortilégio nos empurra para algum lugar, conhecido ou não. Quem é o responsável pelos nossos rumos e andanças baudelairianos ou, em outros sentidos e latitudes, cesarioverdianos? “Pensamento de um Ocidental”. Que lindo, estranho e comovente poema!
Vejo largas ruas de Curitiba, Ruas que, na sua maioria, não conheço pelos nomes, nem pela exatidão topográfica. Dá trabalho para se conhecer uma cidade maior. No Rio de Janeiro foi a mesma coisa. Penei por mais de um mês pra poder me posicionar no tocante às ruas do Centro e este, a meu ver, não é tão grande assim. Apanhei, contudo, aprendi, não obstante os nomes de algumas delas ainda me confundam.
O mesmo diria de Teresina, onde vivi quinze anos consecutivos, pois, em Amarante, minha terra natal, só morei na infância de três anos. Hoje, a bela Cidade Verde”, tão sabiamente cantada em verso pelo poeta Hardi Filho, desconheço nos seus desdobramentos progressistas. Só a velha parte do Centro me é agora familiar. A nova Teresina, a sua nova periferia, os seus novos bairros e construções verticalizadas, isso tudo me é estranho e nesse mapa atualizado me perco. Invejo os que puderam acompanhar-lhe o crescimento sem perder por isso o bonde, não o da História, mas o da urbe.
Ruas curitibanas. São ruas pelas quais já passei muitas vezes, entretanto, na confusão automobilística, por elas cruzo e recruzo tentando em vão ( o grande Eça diria “debalde”) situar-me. Nunca fui bom de mapas e muito menos de assunto relacionado a espacialidade, ao contrário de minha mulher, que, uma vez visto um local, logo o guarda com a sua invejável memória, assim como o faz com respeito a números de telefones e celulares. Quanta memória que não tenho! Em compensação, minha capacidade retentiva se distingue potencialmente para armazenar palavras. Oh, como as guardo tão bem e, amiúde, até sei quando as vi pela primeira vez e mesmo nos contextos lingüísticos nos quais as aprendi!
Gosto de palavras, em especial das que desconheço. Elas me dão a medida correta de quanto somos, vocabularmente, pobres e desamparados.Uma vez uma professora de língua inglesa me contou que um colega dela, também professor dessa disciplina, sabia praticamente todas as palavras de um dicionário inglês-português. Suponho que de tamanho médio, porquanto reter os milhares de verbetes de um dicionário desk-type me parece descomunal e impossível, tendo em vista que esses gigantes lexicográfico contêm milhares de cross-refrences, ou seja, armazenamento só possível a um computador.
Na realidade, esta crônica, como se vê, não tem rumo. Será que tem sentido? A se ver pelo titulo, portanto, pela sua função catafórica, não tem com certeza. “Pouco me importa”, nesta situação aquela frase fina do diálogo entre o sedutor capitão Rett Butler, galã de “E o vento levou.”, no papel desempenhado pelo ator Clark Gable e Scarlet O’Hara, aquela linda e estouvada personagem vivida pela atriz Vivien Leigh. Não havia mais volta para uma possível reconciliação de um grande amor na tumultuada vida do belo par romântico.
Quem dita o rumo de uma crônica é o momento epifânico do ato da escrita. Só ele detém a autonomia deste mistério das palavras no papel ou na tela do computador. Só ele sabe por que me abalanço a alinhar à mão e, depois, a digitar no teclado, nesta meio cálida tarde de Curitiba, por sobre esta escrivaninha do quarto de minhas netinhas, estas divagações passageiras sem destino , forçando a mão e o pensamento a moldarem, na folha branca, alguma forma de comunicação íntima e unilateral, de vez que não estou cogitando aqui da figura do leitor ideal ou de qualquer classificação teórico-narratológica. Quem me dera pelo menos alcançasse o reduzido número de leitores de um certo romance de Machado de Assis!
O pensamento sem rumo ainda me empurra para o lado cultural curitibano e chego a uma conclusão que talvez, por sua natureza, se estenda a outras capitais brasileiras: a de que as histórias literárias, regionalmente falando, são tão fascinantes e enriquecedoras quanto as do conhecido eixo hegemônico Rio-São Paulo. Todas têm suas histórias específicas, suas “questões coimbrãs”, suas defasagens cronológicas em comparação com os centros culturais dominantes, todas têm seus nomes ilustres, suas figuras mais em evidência no passado e no presente,seus lances de virtudes e de vícios e, por último, suas costumeiras injustiças contra alguns escritores. A vida literária dessas antigas províncias, seus episódios mais conspícuos que merecem os registros dos historiadores locais, mantêm entre si enormes semelhanças com os outros estados do país.
No Paraná, recortando o tempo de rupturas poéticas do fazer literário canônico, não se pode esquecer o nome de Paulo Leminski, da mesma maneira que, no Piauí, não se pode esquecer de H. Dobal, Mário Faustino ou, nas suas pretensões iconoclastas, de Torquato Neto.Em Curitiba, fiquei sabendo que Leminski (1944-1989) é autor de um romance experimental chamado Catatau, que, no meu juízo, precisa de ser mais divulgado. Me pus, desse modo, a par daquilo que não conhecia da história literária contemporânea paranaense, para mim só mais evidente através dos poetas Tarso da Silveira, Emiliano Perneta e Rocha Pombo, este último como poeta, não como autor de uma Historia do Brasil, um volume da qual havia na biblioteca de meu pai. De curitibanos já conhecia, os críticos Andrade Muricy, Temístocles Linhares, Wilson Martins e, na ficção contemporânea, o mais conhecido deles nacionalmente, o contista Dalton Trevisan.
Da mesma forma, esse recorte regionalista me faz pensar naquela antiga idéia de “ilhas culturais” ou regiões geográficas, em número de sete (Amazônia, Nordeste, Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro concebidas pelo ensaísta e ficcionista gaúcho Viana Moog, formulação esta hoje algo ultrapassada, dados os seus vínculos tainianos ( clima, região e meios de produção) de unidades literárias separadas do conjunto geral da literatura brasileira, diante dos avanços das mídias atuais, tornando cada vez mais estreito o contato entre estados brasileiros, e mesmo assim longe ainda está do desejável ideal de reciprocidade.
Na minha deambulação mais recente levei comigo duas antologias, uma de autores franceses e outra, de ingleses e norte-americanos, uma obra de filosofia pra não filósofos e um livro de poemas, Onde humano (Teresina, PI, editora Nova Aliança, 2009, 114 p.) do jovem piauiense Luiz Filho de Oliveira, obra cuja leitura concluí em Curitiba e que me causou forte impressão.
No geral, pouco li do que levei, mas , em terras estranhas, os planos tornam-se sem rumo, tal como o título do cronista.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


AristorRatos
AristocraRia de
ba(r)rão falido
de (es)conde de (ex)conde
de (vil)conde de (vis)condes
de barrão/barrado/borrado
conde falido = falo k ido
conde falado = falo alado mas depenado
conde falecido = falo de morto
conde falingus = falo da língua

A VIAGEM

ALCIONE PESSOA LIMA

Soltas as mãos...mesmo sob resistência...presos pelo coração.
Um olhar pensante...uma fotografia de tão longe...
E lá está compondo uma nova paisagem...
Talvez em um trem...um presente: a felicidade!
Ou sob uma imensidão...
Pode estar também em uma tulipa, cuja gota de orvalho dela caindo transforma-se em uma janela para alma.
Um cheiro de civilização...um sonho, luzes da ribalta revelando a bailarina na ponta dos dedos...Um momento de êxtase.
Lugares nunca vistos...desejos realizados...
Um olhar que brilha, filmando tudo, até o passado...
Em um encontro consigo mesmo...
Gostoso relembrar essa viagem que nunca fiz
Pois, na beira do cais da vida, é possível realizar esse sonho,
Que comigo um dia se apagará.