sábado, 18 de junho de 2011

ADULTÉRIO NO PALÁCIO DO GOVERNO


JOSÉ MARIA VASCONCELOS

O exercício do poder é uma porta escancarada para o inferno, quando se adotam condutas de soberba, vingança, prepotência, corrupção, dissimulação, hipocrisia e adultério. Sim, adultério, verdade, presidente americano Clinton? Mentira, governador Shuazeneger? O poder já abateu reis, papas, epíscopes, pastores, magistrados e executivos. No pico da pirâmide, abnegam-se virtudes pregadas antes, e se negligencia o caráter. Decência não se prova com discurso. Testemunha-se.
Escândalo lacrado de silêncio escapuliu, virou notícia de pé de ouvido, pesquei a história, graças a um cronista que garimpa o subsolo da “alta sociedade”. Prudentemente, não citarei nomes das personagens. Fica por conta curiosa dissecá-la.
   De família camponesa, devagar conquistou espaços na vida pública, enfrentando batalhas, cultivando espírito coletivo. Ainda adolescente, tocava instrumento de cordas e compunha versos, convidado para saraus da nobreza. Dizia-se que o belo e talentoso rapaz, quando cantava afugentava estresse e espíritos malignos. Nutria especial amizade para com o filho do governante, de lhe dedicar poema, depois da morte prematura, em que dizia: “Tua amizade me era mais preciosa / Que o amor das mulheres.” Deu o que falar, mas o bonitão conquistava corações femininos. Apaixonou-se por donzelas e plantou-lhes rebentos.
  O rapaz popularizou-se, virou líder político, sagrou-se ao Palácio do Governo. Mulherengo, colecionava belas matrizes, não se importava acolhê-las no palácio. Espirituoso, também recebia, no gabinete, conhecido homem de Deus, para orar e consultar os céus.
   Insaciável, o governante ardeu-se de luxúria pelo talhe sedutor da esposa de seu segurança, que residia nas beiradas da mansão. Ela banhava-se no relento da casa, o chefe a contemplava da sacada do prédio, brechando a carne nua afogada em labaredas sedutoras, enquanto o marido se empenhava nas tarefas do chefe.
   Poder, prestígio e nobreza despertam paixões ousadas, proibidas e assassinas. O governante mandou chamar sua vizinha, trocaram afetos, adotou-a como concubina, transferiu o marido para longínquas e mortais missões.
    Se você é incapaz de dominar a curiosidade, de saber quais as personagens desta história, imagine controlar paixão proibida, domar uma conduta imoral. Quer saber, de verdade, as personagens desta história? Poeta, músico, instrumentista, guerreiro, salmista, profeta, pecador e santo rei Davi, dez séculos antes de Cristo. Apaixonou-se por Betsabé, esposa do general Urias, ao contemplá-la no banheiro. Urias morreu em posto perigoso de batalha, por ordem do rei, para conviver com a viúva. Profeta Natan, seu consultor divino, previu-lhe desgraças pelos dois pecados cometidos. Davi enfrentou, no poder, a fúria e conjuração do filho, Absalão, que morreu como Urias noutra batalha. Uma lição, até hoje, para os poderosos não brincarem de iniquidades com o cônjuge alheio, com a vida, com a coisa pública. Um dia, o castigo bate à porta, com justiça dos homens ou veredicto do além.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

APL COMEMORA CENTENÁRIO DE MOURA REGO


O presidente da Academia Piauiense de Letras, Reginaldo Miranda da Silva, já expediu convite para a solenidade comemorativa do centenário de nascimento do acadêmico Raimundo de Moura Rego, segundo ocupante da cadeira nº 7, cujo pronunciamento em sua homenagem será feito pelo atual ocupante da cadeira, Humberto Soares Guimarães. Além de romancista e poeta, o homenageado era também compositor e instrumentista, sobretudo violinista. O evento cultural acontecerá amanhã, dia 18 (sábado), às 9:30 horas, no auditório do sodalício (Av. Miguel Rosa, 3300-Sul).

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXXVII

O discóbolo do cosmo
em vigorosa e rigorosa torção
arremessa o disco do Sol
para uma outra desconhecida dimensão.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

PARNAÍBA, ENFIM 300 ANOS DE HISTÓRIA



VICENTE DE PAULA ARAÚJO SILVA

A partir de 11 de junho do ano 1711, A Villa Nova da Parnahiba, feitoria de salga de carne e courama bovina, propriedade de Pedro Barbosa Leal, capitaneada no lugar pelo seu Sargento-mor João Gomes do Rego Barros, passou a ser chamada de Villa de Nossa Senhora do Monserrathe da Parnahiba, quando da autorização pelo Bispado do Maranhão para a construção de uma igreja para a veneração de Nossa Senhora do Monte Serrathe, santa de devoção do proprietário e nome da 2ª esposa do seu representante na região. Portanto, em 11 de junho deste ano de 2011, Parnaíba, oficialmente completou 300 anos de memória de sua fundação, conforme documentos comprobatórios, existentes no Arquivo Público do Maranhão.
As festividades alusivas aos 300 anos de existência do lugar que posteriormente, foi Villa de São João da Parnahiba e hoje é a cidade de Parnaíba, iniciaram-se em 06/06 - segunda-feira, com a instalação do Memorial Parnaíba 300 Anos, na Ermida de Nossa Senhora de Monserrathe, marco ainda existente dessa história. A seguir, nos dias 09/06 – quinta-feira e 10/06 - sexta-feira, no Porto das Barcas, passaram a acontecer eventos culturais, entre os quais salientaram-se :
* Amostragem de banners contemplando artigos, documentos e plantas a partir de 1703, e fotos da cidade ao longo dos tempos;
* Fórum Parnaíba 300 Anos, com ilustres palestrantes e temas:
o Prof. Diderot Mavignier – Parnaíba 300 anos de História
o Prof. Mauro Júnior – Os Tremembés
o Editor Francisco Carlos Pontes – Cultura e Cidadania
o Dr. Marcos Antonio Siqueira – Harbeas Corpus
o Prof. Iweltman Mendes - Porto de Luiz Correia
o Prof. Raglan Rodrigues Gondim – Patrimônio Histórico e Tombamento
o Prof. Vicente de Paula Araújo – De Villa Nova da Parnahiba à Villa de São João da Parnahiba
o Dr. Elmar Carvalho – Literatura Parnaibana
o Dr. Florentino Veras Neto – Os desafios da Administração no Atual Decênio do Século XXI
* Apresentações de Danças
* Exposição de artes
* Atendimento médico comunitário
* Desfile de Modas
* Show Musical com artistas da terra e Intervenções em Palco Livre
* Luarada musical e poética na Casa de Dona Auta (sede do IHGGP)
* Apresentação do trabalho da UFPI “1º Censo de Cultura da Parnaíba”
* Lançamento da 1ª edição da revista “Panorama” , alusiva aos 300 anos de história da Parnaíba.
11/06 – manhã de sábado: Te Deus Laudamus, na Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça; Hasteamento das Bandeiras da Parnaíba, Piauí e Brasil; Desfile Cívico-Militar com o Tiro de Guerra 10 -012, Batalhão da Polícia Militar e Grupo de Escoteiros “Ventos do Norte” na Praça da Graça; Bênção e Procissão com a imagem de Nossa Senhora de Monserrathe, confeccionada pelo artesão Charles Santeiro, até a Ermida, onde foi efetuada a cerimônia de entronização da 1ª padroeira da atual cidade de Parnaíba.
11/-06 – manhã de sábado: Auditório da Associação Comercial de Parnaíba, Sessão Solene da Câmara Municipal e Instituto Histórico e Genealógico de Parnaíba, alusiva aos 300 anos de Parnaíba, onde foram entregues medalhas de Mérito Legislativo.
12/06 – Tarde de sábado: Largadas e Chegadas do passeio ciclístico e corrida de rua “Parnaíba 300 Anos”, no percurso de 7.5 Km, com início na confluência dos bairros Piauí, Planalto Monserrathe e Planalto Conselheiro Alberto Silva; e final no Porto das Barcas.
13/06 – manhã de domingo: Roteiro dirigido a pontos históricos com concentração no Porto das Barcas, e passagem pelo sobrado de azulejo – casa da poetisa Luíza Amélia Queiroz -, Ermida de N.S.de Monserrathe, IHGGP, Casa Inglesa, Solar dos Dias da Silva, Igreja Matriz, Academia Parnaibana de Letras, bem como, visitas ao lugar Testa Branca (comunidade Chafariz) e estação ferroviária do Floriópolis (reconstituída pelo IPHAN).
Phb. 13 jun 2011.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


15 de junho

PALESTRA SOBRE LITERATURA PARNAIBANA

Elmar Carvalho

Mais uma vez em Parnaíba. Mais uma vez com a finalidade de proferir palestra sobre a Literatura Parnaibana, como parte das comemorações aos 300 Anos de História de Parnaíba, tomando-se como marco a data em que o governador do Bispado do Maranhão teria autorizado a construção da ermida de N. S. de Monserrat, descoberta faz pouco tempo, na rua Duque de Caxias, nas proximidades do Porto das Barcas, cuja data foi convertida por lei como uma das efemérides magnas do município. A igrejinha estava camuflada há muitos anos pela marquise e outros apetrechos de loja comercial. Um dos coordenadores da programação comemorativa foi o Vicente de Paula Araújo Silva, que foi um dos mais assíduos colaboradores do jornal Inovação, com a sua série de Missivas a Simplício Dias, que ele pretende enfeixar em livro. O Vicente é hoje um dos mais profícuos e diligentes historiadores de Parnaíba, inclusive com elucidativos estudos genealógicos referentes a velhas estirpes do norte do Piauí.

Na minha palestra, que era sobre literatura em sentido estrito, falei nos periódicos e nos livros que mais divulgaram a arte literária parnaibana. Nesse segmento de minha fala, dediquei bom espaço ao jornal Inovação e ao Almanaque da Parnaíba, que ainda hoje circula, porém como revista da Academia Parnaibana de Letras. No Almanaque, ainda sob a direção de Ranulfo Torres Raposo, na segunda metade da década de 1970, foi publicado um poema de minha autoria, sobre Pedra do Sal, cuja beleza ímpar sempre me encantou, desde 1975, quando vim morar em plagas parnaibanas, juntamente com minha família. O poema foi estampado no periódico graças ao professor Joaquim Furtado de Carvalho, primo de meu pai, que também foi colaborador do anuário. Perdi a cópia do meu poema, e nas minhas várias mudanças extraviei o exemplar em que ele se encontrava estampado. O professor Joaquim, solteirão, tinha uma conversa agradável, atraente, e falava a língua inglesa com muita fluência, tanto que era amigo do professor Antônio Gallas, com quem entretinha conversação nesse idioma. Embora contido e até mesmo recatado, no poema publicado no Almanaque da Parnaíba, o meu parente, num arroubo digno de um adolescente, ao falar na saudade, que se dizia roxa, também falava na beleza de certo feminil palmo de coxa, em poética imagem, devidamente rimada e metrificada.

Voltando à bitola de minha palestra, citei os livros que mais difundiram a poesia parnaibana, entre os quais o A Poesia Parnaibana, que idealizei, e cuja publicação consegui através do amigo Eliseu Fernandes Monteiro Filho (o Tourinho), então sub-chefe de gabinete do governador Moraes Souza. Nesse livro foram publicados os principais poetas parnaibanos, tanto os antigos como os novos. Entre os críticos e historiadores de literatura, considero que é o Alcenor Candeira Filho quem mais tem falado sobre a literatura e sobre os escritores locais, em seus vários trabalhos e livros sobre o assunto, especialmente na obra Aspectos da Literatura Piauiense, na qual enfeixa vários ensaios e monografias a esse respeito. Disse que o livro A Poesia Piauiense no Século XX, organizado por Assis Brasil, publicado pela Imago, em parceria com a Fundação Cultural Monsenhor Chaves, quando eu tive a honra de ser o presidente do Conselho Editorial dessa entidade pública, acolheu vários poetas parnaibanos, cujos nomes referi. Creio ser essa obra uma das principais antologias da poemática piauiense. Mas citei vários outros livros, entre os quais Poemágico – a nova alquimia e Poemarít(i)mos, que divulgaram bem alto a poesia produzida por parnaibanos, natos ou que se fizeram parnaibanos.

Quando, porém, fui falar sobre os poetas que, no meu entendimento, tanto pelos aspectos quantitativos e sobretudo qualitativos, bem como pela dedicação e persistência, mereciam ser nomeados, tive o cuidado, para não ferir suscetibilidades mais delicadas e melindrosas, de dizer que toda lista inevitavelmente sofrerá o reparo de quem não foi mencionado, seja sob o argumento de conter inclusão indevida, seja de ter injustamente excluído alguma personalidade das letras.

Finalizando, disse que não era a pessoa mais indicada para falar sobre a literatura atualmente produzida em Parnaíba, em razão de meu afastamento físico, de minha falta de acesso a esses textos, mas também porque, a meu juízo, somente o tempo, através da persistência do escritor em sua vocação, da receptividade de sua obra, da fortuna crítica que venha a amealhar, do próprio distanciamento no tempo, que dá uma maior imparcialidade à judicatura crítica, é que iria assinalar o literato que realmente é detentor de uma legítima vocação, e que não faz literatura apenas por diletantismo, vaidade ou empolgação momentânea.

Como uma homenagem à juventude estudiosa e aos jovens escritores de Parnaíba, após traçar um paralelo entre os jornais Inovação e O Piagüí, li um pequeno texto que sobre este último periódico escrevi, do qual transcrevo, para encerrar este registro, o seguinte trecho: “Para mim, com sinceridade devo confessar, a equipe do Piagüí é a mais brilhante geração surgida após o Inovação, sobretudo porque infensa a radicalismos e individualismos tacanhos e improdutivos”.

terça-feira, 14 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Colaboradores do jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos. 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Francisco Fontenele de Carvalho (Neco), Diderot Mavignier, Francisco José Ribeiro (Franzé), Sólima Genuína, B. Silva e Reginaldo Costa; 3º plano: Danilo Melo, Jonas Fontenele de Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho, Flamarion Mesquita e Paulo Martins 

Os "inovadores" acima no bar Recanto da Saudade, do Augusto

Colaboradores do Inovação, quase todos residentes em Brasília: Porfírio Carvalho, Cícero, Ana Alice, Cândida, Jonas Carvalho, Madeira Basto, Reginaldo Costa, Ivana, Rinaldo e Ernesto Magalhães

Os saudosos Augusto e Dourado

14 de junho

 JORNAL INOVAÇÃO E VERA COUTINHO

Elmar Carvalho

Recebi recentemente um e-mail do amigo Francisco (Neco) Carvalho, em que ele inicialmente dizia haver tido dificuldade em contactar-me. Respondi-lhe que, após morar durante 25 anos no mesmo endereço, com o mesmo número de telefone fixo, eu me havia mudado para uma outra casa, e de quebra resolvi desativar a linha fixa antiga que usara, bem como decidi mudar o número de meu telemóvel, como dizem em Portugal. Na referida comunicação, o Neco fazia os seguintes questionamentos: 1) se não estava na hora de eu escrever alguma coisa a respeito da eterna secretária do inovação? Por que deixar somente para quando as palavras não dizem mais nada? 2) Se não seria interessante fazermos uma campanha entre nós todos e comprarmos o acervo de discos de vinil do Augusto [Dom Augusto da Munguba] e depositar, em comodato, nas mãos da Vera? 3) Se não está na hora de fazermos uma semana, por ano, para reunirmos na Parnaíba todos os participantes do jornal Inovação, tais quais os congressos da vida? O Neco foi um dos “inovadores”, desde os momentos iniciais, e fez uma antológica entrevista com o romancista Assis Brasil, publicada no Inovação, que foi o início de seu processo de retorno ao Piauí.

Com relação ao primeiro item, tentarei fazer isso aqui e agora, sem mais delongas e sem mais demora, linhas mais abaixo e afora. Com relação ao ponto 2, não sei se a Vera, com todo a facilidade em manusear um aparelho de CD, que facilita os adiantamentos e os retrocessos da reprodução, e principalmente torna cômodo e fácil as mudanças de faixas musicais, iria querer se dar ao trabalho de “pilotar” uma velha eletrola ou radiola, como dizíamos naqueles velhos e bons tempos de outrora. Mal ou bem comparando, seria como trocar um automóvel com direção hidráulica e câmbio automático por um sem esses itens de conforto e facilidade.

É verdade que os puristas, de ouvidos mais afinados, dizem ser melhor o som dos velhos “bolachas” de vinil, mesmo com os característicos rangidos das ranhuras. Eu mesmo ainda conservo uma velha eletrola, na qual, vez ou outra, quando bate o saudosismo, coloco um velho LP, tanto pelo som em si, como também para ver o braço do aparelho e a agulha a se movimentarem, enquanto esta percorre obedientemente a labiríntica espiral do sulco do disco. Sobretudo para o atendimento de pedidos de músicas, em faixas e/ou discos diversos, é necessário que o operador tenha muita habilidade, visão aguçada e mãos de cirurgião. De qualquer sorte, se a Vera se dispuser a essa empreitada, sem dúvida darei a minha ajuda, e creio que todos os “inovadores” colaborarão, na medida da possibilidade de cada um.

No tocante ao 3º questionamento, seria deveras interessante. Contudo, observo que a maioria dos membros do Inovação mora, hoje, fora de Parnaíba. Portanto, teria que haver a coincidência de que vários “inovadores” estivessem na cidade, na mesma época, cuja ocorrência mais propícia creio ser no mês de julho. Todavia, suponho que o articulador mais indicado deveria ser um participante do jornal, que ainda esteja residindo em Parnaíba, para fazer os necessários contatos e adotar as providências necessárias ao evento, tais como locação, comestíveis e “bebíveis”, além de eventual confecção de lembranças, cartazes, ornamentação temática, etc. Se a reunião dos “inovadores” tiver que acontecer, que aconteça o mais rápido possível, pois quem é vivo é mortal, e já não somos mais nenhuma criança, e a “indesejada das gentes”, do poema bandeiriano, já pode estar a nos rondar, com a sua foice afiada, no intuito de desfalcar esse bonito grupo de intelectuais. Como bom soldado, aqui fico de pé e à ordem, caso a corneta de convocação seja acionada.

A Vera Coutinho era uma valorosa guerreira do Movimento Social e Cultural Inovação, que editava o bravo jornal de mesmo nome, sobre o qual já escrevi em diversas oportunidades, podendo essa afirmativa ser conferida através dos sites de busca da internet. Era uma guerreira e uma das musas do Inovação, na flor de sua alvissareira juventude. Como já disse em outros textos, o Movimento, além de publicar o periódico, fazia pesquisas de cunho social, com metodologia científica, elaboradas pelo estatístico e professor João Batista Teles, proprietário do IPOP, promovia eventos culturais e mantinha uma biblioteca no centro histórico e comercial da cidade, que era bem frequentada. E a Vera participava de tudo isso, sempre emprestando o melhor de seu esforço e de sua boa vontade, numa feliz antecipação do chamado voluntariado de hoje.

Depois, alguns anos depois de o Inovação entrar em inatividade, a Vera Coutinho instalou um bar, na parte da frente do terreno de sua casa, no conjunto do IPASE, perto da rua Caramuru. Como sempre dinâmica, empreendedora e atilada, conseguiu se firmar, e o fato é que o seu estabelecimento comercial já existe há mais de uma década. Embora afável e prestativa, não admite falta de respeito e descortesias, de modo que impõe a ordem e a civilidade no seu comércio. Além da cerveja estupidamente gelada e dos tira-gostos, coloca sempre uma boa música popular brasileira, além do que de melhor existe em termos de bossa nova, jovem guarda, bolero.

Ao lhe prestar esta merecida homenagem, creio estar respondendo ao 1º item das indagações do amigo Neco Carvalho, e espero estar correspondendo ao que esse amigo comum almejava. Hoje, o bar da Vera Coutinho transformou-se no último reduto de resistência dos aguerridos e bravos “inovadores”, onde nos encontramos por acaso ou nem tanto por acaso assim, pois muitas vezes somos os construtores desses encontros, aparentemente casuais, e que indevidamente consideramos coincidência. Na verdade, são confluências de espíritos afins, irmanados na amizade e na boa convivência.  

DOCUMENTÁRIO "AS ESCRAVAS DA MÃE DE DEUS"


O lançamento do documentário “As Escravas da Mãe de Deus", que trata da celebração em louvor a Nossa Senhora da Piedade, acontecerá no próximo dia 16, quinta-feira, às 19 horas, no Cine Teatro da Universidade Federal do Piauí. Nele é apresentada a riqueza da tradição, através dos recursos da etnografia e da música; são valorizados na narrativa sons, palavras, cantos, silêncios, expressões e movimentos corporais, que revelam um ritual próprio da cultura popular da região. A celebração ocorre entre os meses de junho e julho, em uma comunidade de afro-descendentes, Igarapé do Lago, Distrito de Santana, no Amapá. Os fiéis celebram e reafirmam crenças seculares, praticam rituais repletos de símbolos, sentidos e significados.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


SONO MISTERIOSO

Elmar Carvalho



Na madrugada do dia 17 de dezembro de 1997, na pequena cidade de Brejo das Almas, Carlos Gomes, de 17 anos de idade, não acordou no horário de costume, e, portanto, não foi tomar o café, juntamente com seus pais e a irmã Sandra, mais nova que ele. Algum tempo depois, Helena, a mãe, foi ao quarto do filho. Chamou-o, sem obter resposta. Empurrou a porta, que estava apenas encostada, e viu o filho deitado na cama, aparentemente imerso em sono profundo. Chamou-o em voz alta, em voz cada vez mais alta, mas ele não não esboçou qualquer reação. Sacudiu-o freneticamente, porém o jovem se manteve inerte e silente.

Helena começou a chorar, achando que o filho estava morto. Mandou a diarista chamar a vizinha. Logo se espalhou a notícia de que o rapaz estaria morto. Não demorou muito, foram adotadas providências para que o rapaz fosse velado. A empresa funerária trouxe a urna em que foi depositado o corpo do rapaz, rodeado pelos castiçais metálicos. Perto da cabeça do adolescente, foi colocado um estilizado crucifixo, com os seus raios de prata. Foram feitas as orações. Mulheres, empunhando rosários, rezaram o “terço”.

Um vizinho, homem judicioso e prudente, após observar o suposto cadáver por várias vezes e por diversas vezes tocá-lo, tanto na região da glote como do pulso, pediu um espelho. Colocou o objeto bem perto do nariz de Carlos durante algum tempo, e depois verificou a sua superfície brilhante com muita atenção. Já eram três horas da tarde. O cortejo fúnebre sairia às quatro horas. Tomé – era esse o nome do vizinho – fez nova verificação, desta feita apalpando o tórax, na área do coração, para dizer, com firme e alta voz:
- O Carlos está vivo. Tenho certeza do que afirmo. Deve ter tido um ataque de catalepsia. Mandem chamar um médico, para melhor examiná-lo, com os seus conhecimentos e aparelhos.

A afirmativa causou perplexidade, mas quase todos não acreditaram que o rapaz pudesse estar vivo. Todavia, como Tomé reiterasse sua conclusão, dizendo enfaticamente ter certeza do que dizia, e até chegando ao ponto de declarar que ia ser cometido um crime, pois iriam enterrar uma pessoa viva, os parentes resolveram chamar o clínico geral mais respeitado de Brejo das Almas. Ante fato tão inusitado, ele veio o mais rápido que pode. Após meticulosa verificação e depois de haver auscultado o adolescente por três vezes, o médico disse, com toda a autoridade da ciência de que se sentia investido:
- O Tomé tem razão. O rapaz está vivo. Ele deve ter sofrido uma espécie de catalepsia e a qualquer momento poderá voltar a si.

Após afirmativa tão categórica, ainda mais vinda de um médico experiente e sábio, algumas pessoas começaram a murmurar que, de fato, o corpo não estava muito pálido e nem estava muito frio; que, na verdade, sua cor parecia a de quando estava vivo, e tinha certo calor, o calor de quem não morrera. Por precaução, a família resolveu deixá-lo no caixão até o dia seguinte, à espera de que ele acordasse.

Às dez horas da manhã, como o sono se mantivesse inalterado e não houvesse nenhum sinal de decomposição, resolveram levar o corpo adormecido de Carlos para a sua cama. O boato já se espalhava pela cidade, relatando o assombroso acontecimento. As mais diferentes hipóteses foram levantadas, algumas sem pé nem cabeça, outras sem o menor fundamento científico. Os mais realistas diziam que ele tivera um forte ataque de catalepsia, outros afirmavam que ele teve uma espécie de coma, por motivo inexplicável. Um leitor de ficção científica conjecturou que ele teria algum defeito congênito no cérebro, que o levara a esse sono invencível.

As mais diferentes emissoras de televisão vieram fazer reportagem com o estranho acontecimento. Uma delas, entrevistou o mais famoso psiquiatra do país, que a acompanhava, mediante vultoso cachê. O especialista, do alto de sua fama e autoridade, afirmou, aparentando ter certeza absoluta do que arguia, que o rapaz, durante o sono, tivera o mais terrível pesadelo que se pudesse imaginar, e por esse motivo o seu cérebro, não distinguindo a realidade virtual do sonho da realidade verdadeira, por mecanismos de defesa misteriosos, resolvera mergulhar o jovem naquele sono total, absoluto. Vieram equipes de cientistas do estrangeiro, com a mais sofisticada parafernália de aparelhos, que instalaram no acanhado hospital da cidade, para examinar o rapaz. Em troca, seria paga uma considerável importância à família de Carlos e os equipamentos seriam doados ao hospital. Levaram o resultado desses exames, mas nunca se soube ao certo a que conclusão chegaram.

Diante de tamanha publicidade, a casa do rapaz adormecido se tornou um ponto turístico. Começaram a chegar levas e mais levas de turistas. Novas equipes de cientistas vieram estudar o fenômeno e novas reportagens foram feitas, pelos diferentes meio de comunicação. O caso ganhou foro de sobrenatural. As lendas e as mistificações começaram a se espalhar. A cidade prosperou com o turismo, e o Carlos Gomes passou a ser considerado quase um herói de Brejo das Almas, apesar de nada haver feito de extraordinário, exceto a façanha de dormir. Uma das lendas dizia que no dia em que ele acordasse a cidade seria destruída, mas, em compensação, uma outra asseverava exatamente o contrário: no dia em que ele vencesse aquele sono, que parecia eterno, Brejo das Almas seria desencantada, para se transformar numa civilização adiantada, uma espécie de nova Atlântida, em que as ciências, a cultura, as artes floresceriam em todo o seu esplendor.

Foi construído um prédio onde Carlos era exposto à visitação dos turistas, cuja entrada era do mesmo preço dos grandes museus internacionais. Vários servidores mantinham a edificação limpa e em perfeito funcionamento, bem como executavam a vigilância com rigor, pois aquele corpo adormecido era fonte inesgotável de riqueza, além de haver promovido o renome da cidade. Um dia, quando menos se esperava, um dos vigilantes viu um dos turistas se aproximar de Carlos e retirar algo do cós da calça. O guarda correu e teve tempo de evitar que o corpo inerte há muitos anos fosse apunhalado. O caso foi investigado, e rotulado como tentativa de homicídio. O criminoso disse que pretendia salvar a cidade, porquanto, matando o dorminhoco, ele jamais acordaria, e a cidade jamais seria destruída. A vigilância, a partir de então, foi redobrada, e Carlos foi colocado numa redoma de vidro blindada.

O mais renomado escritor veio fazer a biografia do mais famoso adormecido do mundo. Trouxe uma equipe para fazer o trabalho de pesquisa. Para sua profunda decepção, descobriu que Carlos Gomes não tinha biografia. Fora apenas um adolescente de vida absolutamente vulgar, sem nada de extraordinário. Como estudante e jogador de futebol fora apenas medíocre, sem nada que o distinguisse. Como ser humano, não fedia nem cheirava, não fora santo e nem demônio. Enfim, a célebre personalidade não tivera tempo de construir a sua biografia. Tornara-se notável apenas por causa do sono em que misteriosamente jazia. Para não publicar uma legítima obra em branco, o grande escritor resolveu escrever um livro-reportagem, com os enfeites, adiposidades e redundâncias do estranho caso que acabo de relatar.

ANTOLOGIA DO NETTO

TEXTO E CHARGE: JOÃO DE DEUS NETTO


CLÓVIS MOURA

Clóvis Steiger de Assis Moura nasceu em 10 de julho de 1925, em Amarante, no Piauí. Jornalista, historiador, poeta, sociólogo, professor e escritor.
Membro de uma família de classe média-baixa, filho de mãe branca e pai negro tem, entre seus antepassados, um barão do Império prussiano, seu bisavô Ferdinando Von Steiger; pelo lado paterno, a escrava Carlota, sua avó e escrava de seu avô, senhor de engenho do Nordeste açucareiro. Clóvis, ainda criança, mudou-se com a família para Natal (RN), onde residiu de 1935 a 1941. Ali, a partir da Insurreição Comunista de 1935, passou a simpatizar com as idéias da esquerda. Iniciou seus estudos num colégio de padres maristas, o Colégio Santo Antônio. Ainda muito jovem fundou, à revelia dos irmãos maristas, o Grêmio Cívico-Literário "12 de Outubro", onde eram realizadas reuniões semanais para discussão de literatura e política. Segundo Moura, o grêmio cresceu e prosperou, chegando a possuir quarenta membros, participantes ativos, "cada um com seu patrono à maneira da Academia Brasileira de Letras". Comenta, ainda, que "o Grêmio contou com sócios honoráveis, como Luís da Câmara Cascudo, Elói de Souza, dentre outros autores regionais de renome". Possuiu também um jornal literário de nome O Potiguar, sob sua direção, no qual publicou o primeiro de muitos artigos sobre o Brasil, este versando sobre a Inconfidência Mineira.
Quando Clóvis Moura e seu irmão se mudaram para Salvador, em 1942, findou-se o Grêmio, muito conhecido pelos debates e publicações literárias. Na Bahia, Clóvis não chega a graduar-se em Humanidades naquele ano, e ingressou na carreira jornalística por meio do jornal O Momento, diário do Partido Comunista do Brasil - PCB.
SAIBA MAIS:
http://www.espacoacademico.com.br/032/32cruy.htm
http://www.geledes.org.br/historia/clovis-moura-5-anos-sem-o-qpensador-quilombolaq.html

domingo, 12 de junho de 2011

TEMPO DE NAMORO


VICENTE LEAL DE ARAÚJO
Advogado e Ministro Aposentado do STJ

A cultura de um povo tem nas suas tradições uma das suas maiores formas de expressão. São elas páginas vivas de sua história, transmitidas de geração em geração, com o colorido de cada época e de cada região. Nós, brasileiros, herdamos das gentes que constituíram a nossa maravilhosa raça mestiça – europeus, índios e africanos – uma fantástica mistura de hábitos e festejos que embelezam a nossa aquarela de tradições.
No calendário de festas que marcam a riqueza do nosso folclore, o mês de junho tem especial destaque, pois nele se celebram os dias dos santos de maior prestígio popular – Santo Antônio, São João e São Pedro. Comemora-se também outra data de grande fascínio nos corações apaixonados - o Dia dos Namorados. Na verdade, as festas de junho podem ser consideradas como as festividades magnas da juventude, porque todas expressam as atitudes de um tempo esplêndido que marca a iniciação nos divinos espaços do amor.
O Dia dos Namorados remonta aos tempos antigos e relembra o sacrifício de São Valentim (270 d.C.), defensor dos jovens enamorados. Diz a tradição que o imperador Claudius II, para fortalecer o exército romano, proibiu o casamento. O bispo Valentim celebrava às ocultas o matrimônio de casais apaixonados e, por isso, foi condenado à morte.
O namoro é essa relação de eterna magia, iniciada na fase encantada da vida em que somos surpreendidos pelo mais sublime dos sentimentos, aquele que nos transporta às estrelas: a busca da alma gêmea. Na minha juventude, nos anos 50/60, o namoro era precedido de um ritual de atos sucessivos: um olhar, um sorriso, um flerte, um encontro marcado, uma cantada e, finalmente, uma declaração formal de namoro, com ares de compromisso e juras de fidelidade. O namoro tem a marca do afeto, da ternura, da paixão e do encantamento. O primeiro beijo provoca o fenômeno misterioso de sinos invisíveis que tocam, o tremor de pernas, o pulsar descompassado do coração, o arrepio da pele. O namoro, infelizmente, encontra-se em decadência. A permissividade dos novos tempos retirou a beleza do afeto entre dois jovens, que no primeiro encontro avançam para o estágio de “ficar”, esvaecendo todo o mistério da relação. A deformação do namoro tem projetado reflexos negativos na solidez do casamento, em visível estado de crise.
O ponto alto das alegrias de junho são as festas juninas, de origem européia, que se incorporaram à tradição brasileira com um colorido místico e popular. Tendo como centro atrativo a devoção a Santo Antônio (dia 13 – patrono dos que desejam casar e dos procuram objetos perdidos), a São João (dia 24 – protetor dos casados e dos enfermos) e a São Pedro (dia 29 – padroeiro das viúvas e dos pescadores), esses eventos constituem fulgurante atração no nosso calendário festivo.
As festas juninas são compostas de grande diversidade de folguedos, tendo como principais a fogueira, a quadrilha e as brincadeiras de roda, tudo realizado em comunidades de amigos, parentes e vizinhos, que se banqueteiam com comidas típicas, originárias dos produtos da roça. E nesses festejos, o namoro tem forte presença. Nos meus tempos de juventude, os casais brincavam de saltar a fogueira, construída com lenha verde cujo braseiro refletia o calor dos corações apaixonados. À beira do fogo, sob a magia das chamas, faziam-se juras de amor eterno. Na “passagem do anel”, deixava-se a jóia na mão da pessoa desejada. Na composição da quadrilha, buscava-se fazer par com quem se queria namorar. E naquela brincadeira do “meu lado direito está desocupado”, cujos componentes eram identificados por números, procurava-se identificar o da pessoa querida. E assim, no calor da fogueira de São João e sob as bênçãos de Santo Antônio, nascia o namoro.

sábado, 11 de junho de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXXVI

Na natureza morta de Dalí
a morte ganhou vida
na rosa ceifada que levitava.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

POSSE DO DES. JOSÉ JAMES E DO JUIZ LIRTON NA AMALPI




DINAVAN FERNANDES

O Des. José James Gomes Pereira e o Juiz Lirton Nogueira Santos foram empossados na Academia de Letras da Maçonaria Piauiense (Grande Loja e Grande Oriente). Ambos receberam a titulação perpétua das cátedras 13 e 33, da   A solenidade de posse foi realizada no último dia 01 de junho deste ano.
Em seu discurso de posse o Des. José Gomes Pereira  reverenciou os nome dos dois grandes homens que ocuparam as cadeiras acadêmicas que ora estão sendo assumidas: José Francisco Dutra e Mathias Olímpio de Melo. 
O patrono da cadeira 33, ocupado por Lirton Nogueira Santos, fora integrante da “Fraternidade Florianense”, tendo assumido o primeiro malhete daquela venerável loja, em 24 de junho de 1933, quando instituiu um “livro de ouro”, objetivando angariar donativos para a construção do Templo, inaugurado em 11 de janeiro de 1935.
Mathias Olímpio de Melo, patrono da cadeira nº 13, assumida pelo Des. José James, nasceu na Vila de Nossa Senhora da Conceição, atualmente Barras do Maratoã, em 1882 e falecido em Teresina em 1967. Bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Recife em 1904. Terminado o curso de direito, regressou a sua terra natal, sendo nomeado Promotor Público de Teresina; Secretário de Governo em três administrações no Piauí; Governador do Estado, eleito sob a legenda do Partido Republicano, a partir de 1º de julho de 1924, para mandato de quatro anos.
Mathias Olímpio combateu o banditismo com firmeza e resolução, restabelecendo a ordem pública. O Piauí teve ainda, no seu Governo a invasão do seu território pela famosa coluna Prestes, chefiado por Luiz Carlos Prestes, Juarez Távora, Cordeiro Farias, Siqueira Campos, João Alberto e outros revolucionários. Teresina ficara em estado de sobressalto, cheia de medo e insegurança.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CONFERÊNCIA "RESPONSABILIDADE JURÍDICA DO JORNALISTA"


Juiz Roberto Veloso

Na próxima sexta-feira, às 9h, no auditório da Justiça Federal, o Juiz Federal Roberto Carvalho Veloso, Presidente da Associação dos Juízes Federais da 1ª Região, ministrará conferência sobre a "Responsabilidade Jurídica do Jornalista".
O encontro encerra o curso "Judiciário, Mídia e Democracia", realizado pelo Judiciário no Estado do Piauí, por meio da Rede de Solidariedade CenaJus, em parceria com a Universidade Federal do Piauí e instituições da Mídia.
A programação dos painéis contemplou especialistas nas áreas de Direito e Jornalismo, tendo sido discutido temas atinentes ao Sistema Judiciário e Mídia, com painéis apresentados pelo Juiz Federal Diretor do Foro Carlos Brandão e pelos professores Mike Stricklin – Doutor em Comunicação pela Universidade de Iowa e Gustavo Said – Doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos.
Inscrição gratuita para a conferência de sexta.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Carlos Cardoso e Elmar



8 de junho

CAMPOS DE FUTEBOL

Elmar Carvalho

Logo ao chegar ao patronato, procedente de Teresina, seguindo em direção à casa de meus pais, situada na rua do Estádio, naquelas imediações, notei a novidade. O terreno baldio, ao lado do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco, apresentava seis postes com refletores, três em cada lateral. Joguei bola, quase diariamente, nesse terreno, no início de minha adolescência. Alguns anos depois, quem o comprou o murou, mas nunca ergueu nenhuma edificação em seu interior. Sem uso, sequer por algum tipo de esporte, matapasto, matagal e ervas daninhas tomaram de conta do imóvel. Ao ver esse local, onde tantas vezes joguei futebol, abandonado, fechado ao esporte, sendo pasto de cobras, lagartixas, carambolos, camaleões e outros bichos miúdos, não pude deixar de me recordar do soneto Saudade, de Raimundo Correia, cujo verso inaugural diz: “Aqui outrora retumbaram hinos”. Sentia-me o próprio Jeremias desse poema, a espraiar os olhos tristonhos “sobre a Jerusalém de tantos sonhos”... Tudo passou, como diz o texto poético.

Num país em que o poder público pouco investe em equipamentos de esporte e de cultura para a ocupação e entretenimento dos jovens, tirando-os do ócio, que muitas vezes é mau conselheiro, o chamado futebol de várzea (ou dos terrenos baldios) é que permitiam a prática futebolística, integrando as comunidades, consolidando o companheirismo e a amizade. No meu livro O Pé e a Bola, em que tratei da história do futebol em Campo Maior e Parnaíba, tive a oportunidade de dizer: “Nos campinhos de várzea ou nos encravados em terrenos baldios, havia memoráveis partidas de treinamento ou até mesmo torneios e campeonatos amadores. Essa prática saudável do futebol certamente contribuía para afastar a meninada do ócio, que muitas vezes é mau conselheiro, e concorria para afastar esses menores das traquinagens e vandalismos, e principalmente do cometimento de atos infracionais de mais graves consequências, hoje tão comuns nas grandes e desumanas cidades. A “pelada” suburbana servia para provocar a interação entre os garotos, eliminando as discriminações raciais, sociais, religiosas e econômicas, através da sociabilidade desse esporte coletivo. Infelizmente, em decorrência do êxodo rural, do crescimento desordenado das cidades e da especulação imobiliária, entre outros fatores, esses campos de futebol vão sendo sufocados e desaparecendo”.

Quando morei na rua Capitão Félix (rua do Estádio), em minha adolescência, joguei futebol sobretudo no campinho do Colégio Estadual, que hoje leva o nome do professor Raimundinho Andrade, e nos campos situados perto do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco e da casa do tenente Jaime da Paz, numa prainha de alvíssima areia, à margem do Açude Grande, que na época não era muito poluído. No início, eu preferia este último, na orla arenosa do açude, pois me permitia arquitetar “pontes” e ensaiar saltos ornamentais, verdadeiras pulutricas e aéreas acrobacias, cujas quedas eram amortecidas por sua areia, além de que tinha a vantagem adicional de nos proporcionar um saboroso banho após o o jogo.

Depois, em virtude de minha amizade com o Otaviano Furtado do Vale (irmão do grande craque Augusto César), que era meu colega de classe no Colégio Estadual, passei a jogar com mais assiduidade no campo ao lado do Leopoldo Pacheco, onde ele era o cacique e dono da bola. Contudo, ele não precisava ser o proprietário da pelota para ter o seu lugar assegurado, pois além de atleta habilidoso, era aguerrido, lutador, e um verdadeiro líder futebolístico. O Otaviano, conforme disse no referido livro, era “jogador rápido, hábil e vigoroso, que transitava pela defesa e pelo ataque, funcionando como um coringa e líbero, com atuação predominantemente pela lateral esquerda; era uma espécie de capitão dos dois times, mas tinha o defeito de não gostar de perder, por mais amistosa que fosse a partida”. Nas derrotas, ele não era nada amistoso.

Por tudo isso, atropelado por essas emoções, após ter degustado uma gostosa traíra no boteco do Cacheado, localizado no outro lado da cidade, após o bairro Flores, à margem da estrada que vai para Barras, fui em companhia de meu irmão Antônio José e do meu amigo Carlos Cardoso, verificar as “torres” de iluminação do campo do Leopoldo Pacheco, que chamo, brincando, de Estádio Otaviano Furtado do Vale. Foram colocadas traves metálicas e uma camada de areia, além de haver sido feita a sua demarcação lateral. Fiquei com certa nostalgia, por causa desses melhoramentos, sobretudo da colocação de areia.

É que, no meu tempo, esse campo era terrível para um goleiro, pois seu terreno era de piçarra, que funcionava como uma verdadeira lixa, a arranhar e mesmo arrancar a pele dos atletas, além de o solo ser duro, o que não favorecia o amortecimento em caso de quedas, acidentais ou voluntárias. Nos três campos referidos, com maior ou menor frequência, jogavam bola, no início da década de 1970, os atletas Otaviano, Carlos Cardoso, Antônio Francisco Sousa, Hugo Reis, Valdinar Cardoso, Nena, Xixá, Cajuí, Assis Capucho, Dragão e Losa, entre outros. Todos ou quase todos foram embora de Campo Maior ou já foram convocados pela “indesejada das gentes”, no dizer de Manuel Bandeira, e partiram para a eternidade, onde jogam futebol em algum campinho de várzea, encravado nas imensas campinas do infinito.



SAUDADE


Raimundo Correia

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...

terça-feira, 7 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO





Vespasiano Ramos


7 de junho

O PANTHEON DE CAXIAS

Elmar Carvalho

No domingo, dia 29 de maio, estive em Caxias – MA, aonde fui levar meu filho João Miguel para fazer concurso do TRE. Já estivera nessa cidade uns treze anos atrás, em viagem de lazer. Mais uma vez fui ao balneário Veneza, que na verdade é a vertente em que nasce o Itapecuruzinho, afluente do Itapecuru, um dos rios emblemáticos do Maranhão, cantado pelos seus poetas. Apesar do longo tempo decorrido, o poder público nada fez para embelezar e urbanizar essa nascente e local de lazer, exceto o início da construção de bares e restaurantes mais adequados ao turismo.

Além da forte ligação comercial que Caxias sempre teve com o Piauí, desde o período provincial, dois fatos históricos a ligam ao nosso estado. Segundo o insigne historiador padre Cláudio Melo, o seu idealizador é o marechal de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador de São Miguel do Tapuio e Campo Maior, no Piauí, e de São Bernardo, no Maranhão, onde encerrou os seus dias; seu filho Miguel de Carvalho e Aguiar é um dos fundadores de Barras – PI. Após o término da Batalha do Jenipapo, em Campo Maior, em que teve uma vitória de Pirro, inclusive tendo grande parte de sua bagagem bélica sido apreendida pelos heróis nacionalistas, João José da Cunha Fidié resolveu seguir para Caxias, onde se refugiou e tentou resistir, tendo fixado seu quartel no Morro do Alecrim. Todavia, terminou sendo sitiado e vencido pelos combatentes do Piauí, Ceará e Maranhão, que não lhe deram trégua. Nesse local existe o Memorial da Balaiada; não sei se existem peças e documentos sobre a luta contra Fidié.

Andando pela cidade, flagrei o poeta Gonçalves Dias a declamar seus versos, lavrados numa folha de papel que segurava, para uma praça deserta, encarapitado no topo do pedestal de sua estátua. Apenas eu, em meu íntimo, aplaudi o poeta. Ali perto, na praça de uma igreja centenária, vi uma estátua de N. Senhora, protegida por uma redoma de vidro. É que os pássaros e os vândalos não respeitam as esculturas e as obras de arte; os primeiros através de suas necessidades fisiológicas, e os segundos, mediante o uso de sprays ou de instrumentos que lhes danificam e mutilam. Há mesmo poetas que não querem essas homenagem, para que as aves não lhes sujem a cabeça esculpida.

Logo ali perto, no centro histórico, vi um casarão fechado, já um tanto em ruínas. No beiral, que outrora deveria ter sido belo, equilibravam-se árvores e trepadeiras, estas no bom e literal sentido do vocábulo. Sem dúvida, eram sinais ostensivos de abandono. Vi outros sobrados que também apresentavam fissuras, desbotamento de tinta e deterioração do reboco, que são as chagas, os achaques e reumatismo dos velhos prédios, abandonados pelos donos ou pelos responsáveis pelo espólio, no caso de complicados, turbulentos e infindáveis inventários. Nota-se que já foram belos, sobranceiros, quase soberbos em sua época de fastígio, quando os capitães da indústria e do comércio ditavam suas ordens e promoviam suas festas faustosas.

No meu périplo caxiense, encontrei o prédio de extinta fábrica têxtil, que outrora fora símbolo de poder e de orgulho, com os seus operários e administradores na azáfama do dia a dia. Como os engenhos do romance de José Lins do Rego, o seu fogo de há muito já era morto. Todavia, um penacho de nuvem por detrás da alta e soberba chaminé, que, como uma torre de Babel, parecia querer desafiar o céu, provocou-me uma ilusão de ótica, dando-me a impressão de que ainda soltava as suas últimas baforadas de fumaça, e eu tive a ilusão de que os operários ainda teciam as peças de pano, e que os teares ainda se movimentavam com seus dedos de fiadeiras mecânicas. Contudo, as plantas que nasciam na boca da chaminé me trouxeram de volta à triste realidade, e eu tive a nítida certeza de que o facho de vida da fábrica já estava morto e emborcado. Também em Caxias existiu famosa indústria de óleo de coco babaçu, já inativa há longos anos. Não pude deixar de me lembrar da fábrica têxtil de Teresina, onde hoje funciona uma loja do Armazém Paraíba, e das grandes indústrias de óleo do Piauí, como a Moraes S. A., a Livramento e a Gecosa, que foram sendo devoradas pelas indústrias mais modernas, e que usavam outros insumos e matérias primas mais rentáveis.

Por fim, cheguei à Praça do Pantheon, de belo, justo e adequado nome. Ao longo de seu quadrilátero, vi os bustos dos filhos ilustres de Caxias. Lá estava Gonçalves Dias, a que já me referi, um dos maiores poetas do Brasil, um verdadeiro homem de ciência, que se orgulhava de ser o amálgama de três raças: a indígena, a negra e a branca. Amargou o amor interdito por Ana Amélia, mas que lhe rendeu excepcionais versos líricos, que ainda hoje nos encantam. Lá estava o poeta Vespasiano Ramos, que concebeu famosos sonetos, que eram decorados e recitados nos saraus e nas conversas, seja de intelectuais, seja de botequim, dentre os quais o celebérrimo Samaritana. No Pantheon, mudo em seu pedestal, contemplei a imagem de Coelho Neto, hoje quase esquecido pelos historiadores da literatura brasileira, talvez por causa dos ataques ferrenhos de próceres do modernismo, que o crucificaram sem dó nem piedade. Segundo Josué Montello, o grande escritor preferiu recolher-se ao silêncio, sem revidar às bordoadas que lhe foram atiradas. No entanto, no seu auge, era um dos mais ativos e mais famosos escritores. Ficou com a pecha de ser um parnasiano da prosa, de ter um estilo excessivamente rebuscado. Entretanto, talvez volte a ser reabilitado, pois não há dúvida de que escreveu belos textos, e muitos de seus contos e romances hão de ficar, com o seu estilo rigoroso e castiço.



Não conhecia o outro grande vulto do Pantheon, o Dias Carneiro. Pesquisei na grande rede, mas nada pesquei que me desse segurança. Fiquei na dúvida sobre se seria o prefeito e industrial João Paulo Dias Carneiro, ou se seria o governador Antônio José Dias Carneiro, que era um bom homem, partidário da abolição gradual da escravatura, ou se seria o poeta e industrial Francisco Dias Carneiro. Ao que tudo indica, todos mereceriam figurar no Pantheon, mas um busto é individual, e não tricéfalo, de modo a poder representar os três. Portanto, para dirimir essa dúvida, recorri, através de e-mail, ao jornalista Lima Coelho, de quem recebi a honra de ter contos de minha autoria publicados em seu importante portal, e ao historiador Renato Meneses, que me informou que “trata-se do industrial e poeta Francisco Dias Carneiro o busto exposto na Praça do Pantheon. Fundador da Sociedade Industrial Caxiense, constituída em 1884 e fundada em 1888”. Vi apenas um poema desse último vate e capitão de indústria, mas considero que ele cantou belamente os rumores e as ramagens do Itapecuru, em versos sonoros, melodiosos, refertos de imagens e sentimentos.