terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cimério Ferreira no sarau da Oficina da Palavra

Foto extraída do blog Kenard Kaverna
Irmãos e irmãzinhas: iniciar o ano curtindo boa música e excelente poesia é, no mínimo, animador. Dia 19 (quinta-feira), [às 20 horas] faremos, na Oficina da Palavra, o primeiro sarau de 2012, homenageando dois líricos incorrígíveis: Climério Ferreira e Cid Teixeira de Abreu. Para dar maior brilho à noitada, Climério lançará o livro Poesia mínima & frases amenas. A música correrá por conta de Josué Costa e Rosinha Amorim. É pouco? O último a chegar lavará os copos!

Estive no sarau do violonista André, no final do ano no auditório da Oficina da Palavra, André, garoto que conheci garoto, que não via há mais de trinta anos, não me reconheceu depois de tanto tempo, e que amadureceu em sua arte e personalidade. Na ocasião Cineas me saudou dizendo que meu blog era um dos melhores que ele conhecia no Piauí e que me deixou mais convencido ainda (rs rs rs...Cineas é muito amigo do Netto...)

Zeferino Alves Neto

Texto surrupiado do Blog do Zan

UM POEMA DE WALTER LIMA


1119

Walter Lima

por mais pequeno
ou grande que seja
um príncipe ou plebeu
do longínquo país

não consigo imaginar
o esboço do arauto do Rei
derrotado pelo tempo dos anos

numa tumba de vidro
des-cansa das atrocidades tantas

por mais carpideiras
pinguem águas de crocodilos
em esquife lacrada
:
mais fácil rabiscar
desenho pequeno infante Saint-Exupéry
cobras lagartos elefantes jibóias

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Os doze trabalhos de Kenard Kruel

Capa 3a edição Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida
Kenard Kruel



Durvalino Couto Filho

Conheço o Kenard Kruel há mais de 30 anos, desde quando ele chegou de Parnaíba, em 1977, magrinho, franzino, logo escrevendo nos jornais de Teresina - O Estado, O Dia, Jornal do Piauí, Jornal da Manhã, Correio do Piauí, Jornal de Serviço e aqui fazendo o seu O Cobaia, mimeografado. Ele que já vinha de uma experiência nos jornais de lá - Folha do Litoral e Norte do Piauí, além do mimeografado Batalha do Estudante, que editava no Colégio Estadual Lima Rebelo, de onde foi expulso.
De lá para cá, foram muitas empreitadas, muitas jornadas, jornais, suplementos, revistas, livros, shows, manifestos, seminários, congressos, encontros, salões, debates, brigas e mil confusões que fazem de Kenard Kruel uma figura ímpar.
Eu sempre comento com os amigos que talvez a maior qualidade do Kenard Kruel seja o fato de ele ser um grande arregimentador, um incansável tarefeiro cultural. Já se tornou uma legenda a figura de Kenard Kruel sempre apressadíssimo, agora grandão, pesadão, com pastas e papéis debaixo do braço, entrando de rompante nos salões, terraços, redações, agências, palácios governamentais, sempre com uma nova empreitada por fazer. Pode demorar, mas dá conta do recado, porque não abandona nunca a ideia (fixa).
O Kenard Kruel é um louco.
O Albert Piauí, confessadamente o seu melhor amigo, já se intrigou com ele umas sessenta vezes, e perdi a conta dos fantásticos Salões de Humor que os dois organizaram, trazendo a Teresina figuras como Angeli, Ares (Cuba), Borjalo, Biratan Porto, Clériston, os irmãos Caruso (Paulo e Chico), Cláudio Oliveira, Cláudio Paiva, Edgar Vasques, Glauco, Jayme Leão, Jaguar, Jorge de Salles, Lailson, Laerte, Lapi, Lor, Mino, Millôr Fernandes, Mariano, Márcia Braga (Z), Nani, Otto, Reinaldo, Sinfrônio, Ziraldo, Zélio Alves Pinto e outros grandes humoristas do traço brasileiro. Sem falar de mil outras realizações, como a de criar, também, a Fundação Nacional do Humor, que Albert Piauí preside desde então.
Kenard Kruel é polêmico, intempestivo e carinhoso. Cuida com competência dos seus projetos e também arregaça as mangas para tocar os projetos dos outros. Nunca se omite. E é um dos mais entusiasmados, até parecendo que defende a própria cria. E nada quer em troca. Kenard Kruel é o sujeito mais solidário que conheço.
Agora tenho em mãos esta imensa pesquisa que ele fez sobre Torquato Neto. Confesso que discordei frontalmente dele quando começou a fazer este trabalho. Ele havia me mostrado um dos primeiros poemas de Torquato Neto, entusiasmado. Fui ver, era um poemeto de menino, que Torquato Neto havia escrito, num remoto dia das mães, para a Dona Salomé. Eu fiquei puto, falei que publicar aquilo era uma aberração, que Torquato Neto rasgaria a relíquia se vivo fosse, que Kenard Kruel esquecesse e tal. Mas hoje tenho em mãos um trabalho gigante, obstinado, bem documentado - e o que é melhor - cheio de inéditos de e sobre o anjo torto da Tropicália.
Kenard Kruel fez um levantamento minucioso da biografia de Torquato Neto desde os bisavós, os avós, os tios, os primos, colheu depoimentos de velhos amigos; resgatou inúmeros textos, como o que Torquato Neto escreveu, aos vinte anos, sobre Arte e Cultura, no jornal O Dia, em  fevereiro de 1964, e poemas inéditos, como você verá; desencavou documentos que, com certeza, irão encher os olhos dos milhares de torquateiros espalhados por esse Brasil-mundo afora.
Posso dizer mesmo que o trabalho de Kenard Kruel, tal como se apresenta , é fundamental para todos aqueles que querem aprofundar seus estudos e conhecimentos sobre a não-obra deste poeta inquieto, sempre marginal, de nosso país.
Por isso mesmo, não gostaria de tecer mais considerações sobre Torquato Neto. A diagramação é do próprio Kenard Kruel, um faz tudo, com capa do nosso Paulo Moura, artista gráfico de mão cheia. Um outro talento raro. Raríssimo, se me permitem!
O livro que você tem em mãos está cheio de preciosas novidades sobre sua vida e sua produção descontínua e abundante.
Nesta edição, a terceira, conta com revisão de Dodó Macedo, que eliminou erros de toda espécie, inclusive dando nomes aos ilustres até então desconhecidos. Foram acrescidos novos trabahos, novos poemas canções, novas fotos, e Kenard Kruel, ainda assim, me confessou que tem material para fazer um outro grande livro.
Dinâmico, já se prepara para nova edição deste seu / nosso Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida, com novo formato, mais fotos e textos inéditos. É um bom sinal, que corrobora o que disse Leminski sobre Torquato Neto: um homem sem obra, como Buda, Confúcio, Cristo. Obra desencavada pela obstinação da história e de pessoas como Waly Salomão, Ana Maria, Georde Mendes, Paulo José Cunha, Fifi Bezerra, Edwar Castelo Branco, Toninho Vaz e, notadamente, Kenard Kruel, para quem a voz do poeta não cala e não cessa. Olhos à obra.
Kenard Kruel, grande tarefeiro e velho amigo, é um prazer lhe dizer, com orgulho: missão cumprida.

Surrupiado sub-repticiamente do blog Kenard Kaverna

domingo, 15 de janeiro de 2012

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



A VINGANÇA DA CASCAVEL

Elmar Carvalho

Eram cinco horas da tarde quando Expedito Malaquias, ao retornar para sua casa, após árdua jornada de trabalho em sua roça, na chapada Malhada de Areia, avistou acerca de oito metros uma cobra atravessar a vereda. Ele poderia ter seguido seguido seu caminho, uma vez que o réptil não lhe ofereceu nenhuma ameaça ou perigo. Mas o caboclo tinha uma raiva antiga e inexplicável contra esse tipo de ser rastejante, e preferiu persegui-lo, para tentar matá-lo.

Quando o viu novamente, ele já estava entrando em sua toca, no meio dos pedregulhos. Expedito, que já vinha de facão em punho, desferiu-lhe um golpe rápido. Contudo, conseguiu apenas decepar-lhe a parte final do corpo, onde ficava o chocalho. Essa modalidade de serpente costuma sacolejar esse apêndice, quando se sente acoada, mormente pelo cancão-de-fogo, que a enfrenta destemidamente, azucrinando-lhe a paciência, com certeiras e dolorosas bicadas, na solidão da chapada. A insolente ave consegue enfurecê-la tanto, que a cobra termina morrendo de tanto ira que lhe envenena o corpo.

Expedito apanhou o chocalho da cascavel e o levou para casa, onde o guardaria, como um troféu. Pegou a cabaça d'água, que deixara no caminho, para ter maior mobilidade na perseguição que empreendeu, e seguiu para casa satisfeito, com o mimo que levava, mas um tanto chateado por não ter conseguido matar o animal peçonhento. De instantes a instantes, como se fosse um menino encantado com o brinquedo que acaba de ganhar, sacudia e contemplava o guizo. O barulho lhe soava como refinada melodia. Pela quantidade de “enrugas” do maracá, tratava-se de cascavel refeita, em plena maturidade, no apogeu de sua força e agilidade. Certamente, uma picada sua era mortal, pois o seu veneno é poderoso e de rápido efeito. Amarrou o guizo numa embira de tucum, em local onde o vento podia sacudi-lo. No silêncio da noite, o chocalhar lhe soava como música de anjo.

No sábado seguinte, ao contar o fato a uns amigos, num botequim de cachaça, localizado no terreiro de uma latada onde acontecia um forró, foi prevenido por um deles para que tomasse cuidado, pois cascavel não perdoava; era animal rancoroso, vingativo, e um dia poderia surpreendê-lo, e lhe armar um bote mortal. Expedito Malaquias não levou a sério a advertência, achando que era apenas uma superstição matuta, como tantas outras, e seguiu sua rotina de lavrador sem nenhuma preocupação, a não ser a de sustentar a mulher e os filhos.

Certo dia, ao se aproximar de sua casa, sentiu uma dor na batata da perna. Imediatamente se lembrou do que dissera o amigo, e logo viu a serpente a seus pés. Num ato instintivo, sacou o facão, que trazia na bainha, e decepou a cabeça da cobra. Desta feita teve a certeza de que ela não mais picaria ninguém, mas, por via das dúvidas, após verificar que ela não tinha a parte final da cauda, que lhe decepara da vez anterior, cortou o seu corpo em várias pedaços, e ainda lhe esmagou o crânio com uma pedra jacaré, encontrada na beira da vereda. Arrancou uma corda que trazia no cofo de palha de carnaúba, e amarrou fortemente a perna esquerda na altura da virilha, em apertado torniquete. Seguiu para casa em passos rápidos.

A mulher conseguiu levá-lo a Barras, a cidade mais próxima, no carro de um vizinho mais próspero. Aplicaram-lhe o antiofídico próprio. Mas o veneno e a falta de circulação provocaram-lhe a temida gangrena, de modo que os médicos acharam por bem amputar-lhe a perna ofendida, que era a esquerda, à altura, quase, da virilha. Diante desse fato, Expedito Malaquias terminou conseguindo aposentar-se por invalidez, passando a receber benefício do INSS. Nunca se queixou da sorte. Ao contrário, dizia mesmo que fora melhor assim. Alardeava que a aposentadoria fora um prêmio, e passou a considerar o guizo pendurado na embira como o seu amuleto da sorte. Sendo preto retinto e gostando de pitar cachimbo, terminou mimoseado com o apelido de Saci, do qual tinha orgulho.

sábado, 14 de janeiro de 2012

ANTOLOGIA DO NETTO

Texto e charge: João de Deus Netto

ASSIS BRASIS

Francisco de ASSIS Almeida BRASIL nasceu no dia 18 de fevereiro de 1932 em Parnaíba, Piauí, cidade onde existe uma fundação cultural com o seu nome. É romancista, cronista, crítico literário e jornalista. Como crítico literário, atuou intensamente na imprensa brasileira, especialmente no Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Correio da Manhã e O Globo e na revista O Cruzeiro, Enciclopédia Bloch e Revista do Livro. Ele é o membro número 36 da Academia Parnaibana de Letras. Embora ainda não faça parte da Academia Brasileira de Letras, existe uma forte movimentação neste sentido.

Recuando a carreira artística, Assis Brasil começou com teatrinho organizado por sua mãe em Parnaíba. Era uma espécie de vaudeville musicado e falado. A representação ficava a cargo de alguns garotos da cidade, revertendo o valor das entradas em benefício da igreja local. A mãe tocava piano e declamava, e ASSIS BRASIL, num trio fazendo o papel de engraxate, cantava e dançava, aos dez anos de idade...
SAIBA MAIShttp://assisbrasil.org/almeida.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

As águas contra as terras


CUNHA E SILVA FILHO

A mesma cantilena de sempre, sobretudo da parte das autoridades municipais, estaduais e federais. Chega o período das chuvas torrenciais, morrem as pessoas e só depois surgem algumas providências.Porem, isso não basta. É obvio que toda ajuda é bem-vinda, quer dos governos, quer da iniciativa voluntária, das pessoas generosas que muito dão de si em prol do bem comum.
A tragédia brasileira das chuvas fortes do verão implica outras causas, outros motivos, os quais não são vislumbrados com antecedência. Esta é a maior parcela de culpa que atribuo ao governo federal, ao Ministério competente. Nenhuma ação eficaz e séria se toma. As verbas existem mas só vêm em cima da hora, quando a tragédia já aconteceu.O Brasil é um país que tem o péssimo vício do improviso.
No ano passado e em outros anos, a tragédia sempre tem sido um acidente anunciado. Não há pois, planejamentos de alta envergadura para essas chuvas, essas inundações que transformam as pequenas, médias e grandes cidades em autênticas Venezas brasileiras, só que inundadas e com correntezas que alargam os rios e invadem as cidades sem clemência, derrubando o que encontra pela frente, causando mortes e transtornos às populações, que perdem seus bens móveis e imóveis e, o que é mais grave, passam a engrossar a fileira enorme de sem-teto. A televisão, nas reportagens in loco, dia a dia, mostram os estragos incalculáveis da fúria das águas. Só há desespero, choros, tristezas.. “O que fazer?”, dizem as as pessoas afetadas, sem esperança alguma, sem saber o que fazer.
Sua desesperança tem o sofrimento atroz da fatalidade que a natureza, indiferente, imprime, principalmente aos deserdados da sorte.A população perde tudo o que acumulou em anos de trabalho árduo, de dinheiro pingado, de sacrifícios mil que, de repente, mais do que de repente, se esvai como uma bolha de sabão.Sofrem o Rio de Janeiro, principalmente no interior e na região serrana, Belo horizonte, o interior de Minas Gerais, sofrem outras cidades brasileiras no Centro-Oeste, no Nordeste. Deslizamentos de terras vindo dos morros.Casas construídas quase nas ribanceiras são as primeiras a viraram pó e lama. O luto se agiganta. Bombeiros, a Defesa Civil, os sobreviventes, todos juntos, arregaçam aas mangas e vão à luta para salvar vidas e bens na medida das possibilidades. As águas não param, os rios sobem, saem das margens, invadem as cidades. Pessoas, em geral mais humildes, sãos as vítimas que mais padecem. Ficam soterradas. O único recurso agora é encontrar os corpos . Um trabalho hercúleo dos bombeiros e de voluntários amigos.
Não é só a visita de governadores ao lugar das tragédias que irá melhorar esta angústia coletiva. Lamentar tudo o que ocorreu é muito pouco e inócuo. O que vale mesmo é procurar estratégias que resolvam grande parte desses males, a começar do planejamento urbano, da fiscalização rígida dos espaços que não podem ser construídos. No entanto, as prefeituras não fiscalizam devidamente as ocupações do solo urbano ou interiorano. E as construções, em geral perto do perigo, lá se vão a todo o vapor. Uma atrás da outra, em cima, embaixo, na encosta, no morro, perto da ribanceira, em solo instável e inadequado. Campeia a improvisação, das famílias ávidas de ter uma moradia própria ainda que sob a mira do perigo, das intempéries. E o resultado ano a ano: as tragédias. A ponto de um ministro, que mora certamente em casa confortável e luxuosa, ou apartamento, não sei, afirmar : “Todos os anos vão morrer pessoas em inundações.” “Meu Deus, quanta fatalidade no pensamento do ministro! Sabemos que a engenharia moderna pode reverter grande parte dos males das inundações e das chuvas torrenciais.
Os governos podem fazer muito neste sentido desde que tenham o sentimento de solidariedade para com as populações mais pobres, embora saibamos que a raiz dos problemas vem de dois lados. Primeiro, da falta de planejamento, como já acentuei, da fiscalização das construções, proibindo essas realizações em lugares de risco. Segundo, o problema vem mais de longe, visto que está intimamente ligado às condições alteradas do clima na Terra.Com o aquecimento do planeta, com a evaporação mais e mais intensa e constante, com o aumento de poluidores em escala global, emissão gigantesca e criminosa de CO2 , notadamente pelos países ricos, alguns dos quais não aceitam a diminuição dos agentes poluidores, piorando gradativamente o efeito estufa, não é de se espantar que o nosso planeta desequilibre suas condições climáticas. Antigamente, se falava muito do período das secas no Nordeste, causadora também de outro mal, a indústria da seca, ação predatória de políticos que lucravam eleitoralmente com a manutenção desse estado de coisas, agente realimentador da miséria oficializada do flagelo das secas, tão bem retratado por alguns escritores, à frente Graciliano Ramos (1892-1953), com a obra-prima Vidas Secas (1938). Hoje, já se tornou comum no Sul do país surgir as altas temperaturas, dias de seca e perda consequente da lavoura. As periódicas reuniões de cúpula de países ricos, com suas discussões sobre a questões climáticas, ao que me consta, não têm feito muita coisa para resolver os gravíssimos problemas da poluição mundial. Inclusive, países como os Estados Unidos nunca se dispõem a aprovarem as recomendações dos signatários nestas reuniões. As advertências, contudo, dos especialistas não têm sensibilizado algumas nações poluidoras.
O planeta Terra, através das reações da natureza, estará cada vez mais arriscando as possibilidades de sobrevivências das gerações futuras. Mexer com as geleiras é brincar com fogo. A conclusão que se tem é que as condições meteorológicas perderam seu rumo e o resultado está aí: inundações pelo planeta todo, destruição de populações, perda de bens materiais, desolação e choro em toda a parte, prejuízos enormes para a economia. Tenhamos pena de nosso planeta antes que seja tarde demais e aprendamos a ouvir a linguagem da Natureza e os sinais do tempo. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO




12 de janeiro

ALMAS, BITUPITÁ OU PANCADA DE VENTO

Elmar Carvalho

Nesse meu passeio a Jericoacoara, como dito no registro anterior, passei pelo antigo povoado de Barroquinha, que não é mais nenhuma “barroquinha”, se é que já o foi. Ao contrário, é atualmente uma progressista cidade, com bela igreja, florescente comércio, e é cabeça de Comarca. Mais de três décadas atrás, passei por ela, em demanda de Camocim. Era uma pequena povoação. Mais ou menos na mesma época, passei no seu entorno, quando fui a um passeio no povoado Bitupitá, também chamado de Almas, que é um reduto de pescadores. Fomos eu, o Vicente de Paula (Potência) e o Volta Redonda, no Corcel II deste, um dos mais festejados automóveis da época.

O Volta Redonda era um funcionário aposentado do Banco do Brasil, que fez sua carreira profissional no Rio de Janeiro, mais precisamente na cidade de Volta Redonda, de onde lhe adveio a alcunha com a qual se tornou conhecido em Parnaíba. Era ele já um sessentão, simpático, bem-humorado, que parecia haver adquirido uma espécie de espírito carioca, que é uma maneira de ser e de ver a vida. Como é sabido, muitas pessoas, ao começarem o processo inexorável de envelhecimento, sentem uma nostalgia de sua infância e juventude, e por isso, em muitos casos, retornam ao seu pago natal. São como certos animais, que, ao pressentirem que a morte se aproxima, retornam ao seu local de nascimento. Volta Redonda talvez tivesse a premonição de que o termo de seus dias já estivesse próximo. Com efeito, três ou quatro anos após sua chegada a Parnaíba, veio a falecer, quando já morava em uma chácara no bairro Rosápolis.

Logo que ele retornou a Parnaíba, sua terra natal, fez amizade com o Canindé Correia, e através deste, comigo e com o Vicente de Paula. Ele combinou a viagem a Bitupitá com o nosso bravo Potência, que tinha vários parentes no povoado, inclusive o Borracha, já falecido, que era próspero comerciante do ramo de pesca. A estrada era de piçarra, mas o Volta Redonda tinha o pé de ferro, de forma que imprimiu boa velocidade ao veículo. O certo é que chegamos ao nosso destino sem maiores problemas, já ao entardecer.

Tomamos umas cervejas, tendo por tiragosto ova de peixe, e fomos a uma festa que estava havendo. O Volta Redonda era um boa praça, de alegria contagiante, e logo fez amizade com umas moças, e, não sendo mão fechada, antes um bonachão, lhes pagou a entrada no clube; o velho Volta era realmente um sujeito “indo e voltando”. Um pouco depois fui embora, para dormir, de modo que não sei se ele arranjou alguma namorada. No dia seguinte, à tarde, fomos convidados a “despescar” uns currais de pesca, que ficavam a aproximadamente um quilômetro e meio da praia.

Os pescadores, em seus barcos a vela, iam cantando ou fazendo algazarra, felizes, pegando parelha ou apostando corrida, por simples diversão. Gritavam, a incentivar os companheiros. Pilheriavam, quando um veleiro ultrapassava o outro. Para darem mais consistência às velas, de modo a que melhor aproveitassem a força do vento, jogavam água do mar nas velas; molhadas, elas recebiam com mais impacto o impulso da ventania, e assim obtinham maior velocidade. Quando chegaram aos currais, desativaram as velas e começaram o trabalho de recolher os peixes, presos entre as cercas labirínticas da armadilha. As águas eram verdes e transparentes, de uma beleza ímpar.

Comecei a olhar para as águas, cujas ondas passavam a sacudir o barco em que eu estava. Estando o veleiro parado, mas agitado pelas ondas, senti uma sensação estranha, uma forte tontura, como se o mundo estivesse girando. Eu havia sido advertido, antes da saída, de que poderia enjoar. O fato é que, sem nenhuma experiência em navegação pelo mar, tive ânsia de vômito, e não pude resistir a devolver o alimento, como diria o célebre conselheiro Acácio, criatura imortal da pena de Eça de Queiroz.

Já em terra firme e já recuperado do enjoo, considerando que não havia visto nenhuma alma – penada, depenada ou não – perguntei ao De Paula qual o motivo para o povoado se chamar Alma, e qual era o significado da palavra Bitupitá, que me era estranha. O Vicente, quando não sabe inventa, contudo não deixa ninguém sem resposta. Sobre a origem da denominação Alma já não me recordo de sua explicação, mas me parece que era um tanto fantasiosa.

Quanto à tradução de Bitupitá, palavra indígena, respondeu-me ele, sem titubeios, com o seu conhecido senso de humor:
- Olha, poeta, significa pancada de vento; mas eu senti mesmo foi pancada de cachaça!
É vero que esvaziamos algumas garrafas de cerveja, embora não tanto assim. De fato, deu para sentir na pele as agradáveis pancadas de fortes sopros marítimos. Felizmente, não vi nenhuma alma, nem mesmo o rastro, mas fui fustigado por “bitupitá”, que me açoitava a pele e os cabelos, então vastos, bastos e encaracolados. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

QUATRO POETAS DO PIAUÍ



O HOMEM QUE VOLTA

Da Costa e Silva

Quando fui, com o meu sonho ingênuo e lindo,
Pelas estradas amplas, luminosas,
Vinham as Graças desfolhando rosas.

Ergui os olhos para os céus, sorrindo,
A beleza da vida pressentindo...

Quando vim, com o meu tédio miserando,
Pelos estreitos e áridos caminhos,
Iam as Parcas espalhando espinhos...

Baixei os olhos para o chão, chorando,
E fiquei para sempre meditando.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO




Elmar, Elmara e Canindé

10 de janeiro

PASSEIO A JERICOACOARA

Elmar Carvalho

Cedo da manhã deste domingo, segui com destino a Jericoacoara, no Ceará, em companhia de minha filha Elmara e do amigo Canindé Correia. Trinta anos atrás, pilotando uma motocicleta, fiz parte desse percurso; mais precisamente, o fiz até a cidade de Barroquinha, que hoje é uma cidade em franco desenvolvimento, quando na época era um acanhado povoado. A estrada era, então, de piçarra, cheia de catabilos, também chamados de costelas de vaca, que provocavam incômoda trepidação no veículo. Da outra vez, meu destino era Camocim. Desta feita, em Barroquinha, seguimos para Granja, para desta cidade buscarmos a estrada que se destina a Jijoca de Jericoacoara.

Na velha cidade de Granja, paramos numa lanchonete de um posto de combustível, onde tivemos oportunidade de jogar conversa fora. O dono do estabelecimento, como todo bom cearense, tem ufanismo de sua terra, razão pela qual disse que Granja era uma cidade grande, quando perguntamos onde ficava o seu centro comercial. Ante tal afirmativa, pensei com os meus botões: “sendo assim, já não faz jus a seu nome, posto que se desenvolveu”. Expliquei ao comerciante, que essa cidade tinha ligações históricas com o Piauí.

Os seus padres faziam desobrigas missionárias ao litoral, que hoje pertence ao nosso estado, e algumas lideranças do movimento parnaibano de 19 de outubro de 1822 se retiraram estrategicamente para seu território, quando João José da Cunha Fidié, chefe militar português, adentrou Parnaíba. Ele, então, lembrou que fora feita uma permuta entre o Ceará e o Piauí, ficando o primeiro com o município de Crateús, que na época se chamava Príncipe Imperial, e o segundo, com o seu atual território litorâneo. Isso, acrescento agora, para que o nosso Estado pudesse ter o seu porto marítimo, o que até hoje não aconteceu. O nosso porto parece ser interminável como o manto de Penépole, embora por outras razões. Após a rápida prosa, e paga a despesa, marchamos para o nosso desiderato turístico.

Logo ao chegarmos à cidade de Jijoca de Jericoacoara, fomos abordado por um membro da Associação de Guias Turísticos, que se propôs a nos orientar na viagem à praia e vila de Jericoacoara. Após acertarmos o preço, seguimos pelo centro do Parque Nacional, que tem algumas variantes de trilhas. O guia disse chamar-se Luzivan dos Santos. Falou-nos que naquele roteiro, pelo meio do parque, o turista poderia perder-se, ou mesmo atolar-se na areia. Em alguns trechos, recomendou-me tracionar o carro. Em alguns momentos a picape sacolejou mais do que as cadeiras das rebundolantes dançarinas dessas bandas/bundas musicais de hoje, em ritmo frenético e inesperado. O certo é que o carro passou por um verdadeiro rebundoleicho ou reboleicho, que nos chacoalhou a valer.

Senti-me o próprio Indiana Jones das caatingas nordestinas. Em certo ponto de grosso lençol de areia, me distraí e terminei atolando o carro. O Luzivan, com a sua experiência de guia e de motorista, que disse ser, recomendou-me engatar uma reduzida, e recuar um pouco, em marcha à ré, o que fiz com eficiência e presteza. Depois, segui alguns metros em reduzida, até voltar novamente a usar apenas a tração nas quadro rodas. Em alguns trechos não precisei tracionar o veículo.

O guia nos explicou que ele e alguns outros guias da Associação (e não os que ele designava de clandestinos), conseguiam conduzir um automóvel desprovido de tração nas quatro rodas pelo roteiro do areal, graças a um curso que a entidade lhes proporcionara, o qual lhes dera alguns “macetes”, entre os quais diminuir a calibragem dos pneus, bem como fazer uso da marcha e da aceleração adequadas ao terreno. Aproximadamente, meia hora depois chegamos sãos e salvos ao nosso destino final. Contratamos para que ele nos guiasse na volta, desta feita pelo Mangue Seco.

Fomos conhecer a praia e o povoado de Jericoacoara. Para que ficasse preservada uma ideia de praia “selvagem” não existem postes de rede elétrica, sendo a fiação subterrânea. Entretanto, a maior parte das construções na parte central e praiana da localidade não tem nada de rústico ou primitivo. Algumas edificações são até confortáveis e sofisticadas. Nessa parte da vila, quase todos os prédios são comerciais, sejam lojas de artesanato, supermercados, mercearias, bares, restaurantes, pousadas, lanchonetes, etc. Soubemos que as casas mais simples, dos nativos, foram edificadas na Rua das Dunas.

Vimos a beleza da praça, da vegetação, da praia, das dunas, ao longe, e as embarcações ancoradas na areia. Pelo tipo físico e pela fala, notamos que muitos turistas eram estrangeiros. Pudemos constatar que o preço elevado de vários produtos sofre a influência direta do turismo, sem dúvida. Uma atendente, com a sua fala forçadamente enrolada num portunhol esquisito, denotava ser ela uma espanhola paraguaia, ou seja, uma “gringa” do Brasil, provavelmente de Mangue Seco. Como queríamos voltar logo, para conhecermos a lagoa de Jijoca, seria uma “furada” irmos visitar Pedra Furada, o que nos tomaria, de charrete ou a pé, cerca de uma hora e vinte minutos.

Com o nosso guia, retornamos à cidade de Jijoca, de onde iríamos conhecer a lagoa. Fomos através da trilha de Mangue Seco. Esse percurso, em boa parte, é feito pela orla marinha, sem atoleiros lamacentos e sem fofos e traiçoeiros bancos ou lençois de areia. Tudo transcorria muito bem, até deixarmos o trecho praiano, quando tivemos que enfrentar uma comprida e velha ponte de madeira, quase uma pinguela. O Luzivan logo notou que parte da proteção lateral esquerda da ponte havia caído. Pediu-me para estacionar o carro, enquanto iria verificar o que ocorrera.

Lá, ele inspecionou um pedaço da cobertura do piso esquerdo, que também havia sido arrancado. Fez-me sinal para que conduzisse o veículo para a ponte. Com certo sobrosso, venci a parte que havia sofrido o dano. Novamente no carro, o guia nos informou que um carro havia caído da ponte, no trecho danificado. Senti-me como se houvesse saltado uma fogueira, e não somente atravessado uma velha e estreita ponte de madeira. Repousando à sombra de uma árvore, avistei uma antiga jardineira ou ônibus gaiola, com seus bancos inteiriços, que no Piauí recebia o nome de “horário”, que cheguei a usar em viagem a Barras, quando, em minha infância, ia passar férias escolares nessa cidade de meus avoengos e parentes.

Para finalizarmos o passeio, nos dirigimos à lagoa do Paraíso, que fica apenas a dois ou três quilômetros da cidade de Jijoca, no povoado Córrego do Urubu. Não vi o córrego, entretanto tive a oportunidade de assistir a uma magnífica coreografia aérea de urubus, em que a sua plumagem negra se recortava contra a empanada azul do céu. Um deles, destacando-se dos demais, fez uma soberba planação, em que deslizou lateralmente, como se estivesse brincando ou se exibindo artisticamente.

Ficamos no restaurante Chez Loran, cujas mesas ficam colocadas na praia da laguna. São armadas algumas redes de fios de náilon, com parte dentro da água. A lagoa do Paraíso é, com efeito, uma paradisíaca e grande lagoa, de beleza irretocável. A margem em que ficamos é toda constituída de alva, fofa e delicada areia, que proporciona indizível prazer ao toque dos pés. As carnaubeiras, de talhe esbelto e flexível, com suas farfalhantes palmas, davam um toque sutil de exotismo ao ambiente.

Vê-se, na margem oposta, a vegetação típica do lugar, as poucas casas, e, ao longe, a brancura e encantamento das dunas. A água toma tons que variam do verde ao azulado, dependendo do local para onde olhemos. Sua temperatura é agradável, nem fria nem quente. Límpida, vê-se, sem dificuldade, o seu fundo, todo formado pela mesma macia areia de sua orla. Preferimos almoçar ao ar livre, desfrutando a beleza do ambiente natural, ainda bem preservado, ao salão climatizado. Fizemos o retorno sem necessidade do guia, que já fora liberado.

A viagem de volta foi contínua, sem necessidade de nenhuma parada. Senti-me já quase com um pé dentro do Piauí, quando avistei as enormes e características pedras da cidade de Chaval, já perto da divisa. Ao longe, contra a luz solar, as rochas pareciam formar figuras estranhas ou esculturas surreais, oníricas, recortando-se contra o céu, que já começava a adquirir cores cambiantes, sob o influxo do início do crepúsculo. À saída da urbe, vi de perto uma dessas gigantescas pedras. Parecia ter a pele áspera e escura de um paquiderme, inerme, enorme, espojado na aridez da caatinga. Uns mandacarus, intratáveis e ásperos, como o cacto do poeta Manuel Bandeira, pareciam sentinelas, a resistir na sequidão adusta da pedra, que lhes servia de guarita.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ELAS NÃO ENTRAVAM NOS CLUBES


JOSÉ MARIA VASCONCELOS
JOSEMARIA001@HOTMAIL.COM

No esplender dos rojões iluminando a passagem de ano, entre beijos e abraços, me dou conta de que, mais e mais, me aproximo da parada final, na corrida de São Silvestre do tempo. Mergulho na saudade e recordações, vislumbro, extasiado, as fronteiras do que me sobra para frente. Então, agarro-me ao Senhor da vida, esqueço um pouco os rojões, beijos e abraços, e me lanço ao reboque de Deus, agradecendo-lhe o passaporte da viagem existencial, e Ele, através de seu Filho, no evangelho, alertando-me: "Sem mim, nada podeis fazer!"
Entre lucubrações do passado, me vêm os reveillons. Passagem de ano era nos clubes, chiquíssimos e ornamentados, mesas caras e disputadas, colorido das vestes finas, terno obrigatório, exibicionismo das damas. Há algumas décadas, teresinense divertia-se nos badalados clubes da capital, especialmente Diários, Jóquei e filtradíssimo Iate, tocados por conjuntos e tertúlias, iê-iê-iê (estilo Beatles e Jovem Guarda), seguindo padrões nacionais. Presidente de clube até se elegia prefeito ou deputado - tamanho o prestígio.
A partir das 9 ou 10 horas, iniciava-se o baile(tertúlia), animado por conjunto(banda), ao ritmo iê-iê-iê(estilo Beatles e Jovem Guarda). À meia-noite, sem rojões, todos em pé, o presidente do clube anunciava o novo ano. Confraternizavam-se, e a banda mudava de ritmo com "grito de carnaval". Ternos eram retirados, rostinhos e corpos colados soltavam-se na descontração do "salto carnavalesco", músicas inéditas, veiculadas nas rádios, de dezembro a março, faziam enorme sucesso. Gal Costa, Caetano Veloso, Zé Keti...
Entrada em "clube social", considerado decente, exigia conduta "politicamente correta": moças pudorosas, sem vestígios de aventuras sexuais alheias à hipocrisia social dominante, não adentravam. Nem empregada acompanhava a família. A filtragem começava na roleta da entrada do clube. Marcelino, porteiro do Diários, mulato implacável, conhecia as impuras e mandava-as de volta, ou as retirava do salão, se descobertas pelos fuxiqueiros. Coronel Jofre Castelo Branco, presidente do Jóquei, provocava bate-bocas homéricos em defesa do pudor, constrangendo publicamente mulheres de "vida livre" que se afoitassem penetrar no clube. Maridões, arrotando virtudes da esposa e filhas, esbaldavam-se em cabarés chiques, que recolhiam adolescentes expurgadas pelas famílias. Casamento, só com virgem. Sem esta virtude, dificilmente a jovem circulava no meio familiar e social, diferente do que o Mestre pregou. Homossexuais sofriam da mesma estagnação moral.
Para se comprar uma ação de clube social, averiguava-se a biografia do pretendente, inclusive das filhas. O Iate exigia a representação e cuidados de um sócio antigo. Mesmo assim, aconteceram tabefes e lutas corporais por ciumeiras e flertes entre marmanjos da "alta sociedade".
Rojões da passagem de ano deixam a gente inebriada de encantamento, um porre meio inconsequente, se não lhes tirar alguma lição existencial. Aprendi um pouco, ligando as duas pontas do passado e do porvir. No meio, o Senhor do tempo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Uma doença chamada paixão


ROBERTO VELOSO (*)

Nos últimos dias temos assistido a fatos supostamente envolvendo a paixão. Sejam eles crimes ou suicídios. Pessoas desesperadas pela ausência de reciprocidade de sentimentos cometem agressões físicas, algumas chegando ao homicídio, ou então ceifam a própria vida.
Do ponto de vista penal, quando alguém movido pela paixão comete crime, não há nenhuma isenção de pena, ao contrário, o crime pode ser entendido como praticado por motivo egoístico, ou seja, se a pessoa não pode ficar com o agressor, então não poderia ficar com ninguém.
Partindo dessa premissa, neste artigo tratarei sobre a paixão enquanto doença e na próxima semana tratarei sobre os remédios. A paixão como doença tem como fundamento a impossibilidade. Segundo a psicologia, a principal característica é a carência de afeto, colocando o apaixonado num estado permanente de eminência de rejeição, de ansiedade, de preocupação quanto à perda.
O caso exemplar da paixão é relatado pela mitologia grega. Segundo a lenda, Apolo era o deus mais belo, senhor das artes, da música e da medicina. Após derrotar Píton, vangloriando-se de seu enorme feito, fez pouco de Cupido, o deus do amor, dizendo-lhe que suas flechas eram muito mais poderosas do que as do pequeno deus.
Cupido respondeu que as flechas de Apolo eram poderosas porque podiam ferir a todos, mas as dele, Cupido, podiam ferir ao próprio Apolo. Cupido, então, lançou uma flecha de ouro na ponta, no coração de Apolo, provocando neste uma paixão desenfreada por Dafne, uma bonita Ninfa, filha do rio-deus Peneu. Em Dafne, Cupido lançou uma flecha com chumbo na ponta, suscitando uma repulsa por Apolo.
Apolo passou a perseguir a amada, enquanto essa fugia dele em um profundo sentimento de rejeição. Dafne, não suportando a perseguição e a repulsa que sentia por Apolo, pede a seu pai que a mude de forma, no que é atendida e é então transformada em uma árvore, um loureiro. A partir desse momento, Apolo passou a usar uma coroa de louros como símbolo de sua paixão não correspondida.
A ciência, por sua vez, ao estudar a reação do corpo humano ao sentimento da paixão, aponta que há a produção de substâncias químicas que alteram o humor e o comportamento.
De acordo com estudos, o cérebro do indivíduo que está apaixonado produz altas taxas de feniletilamina. Essa substância estimula a produção de dopamina e norepinefrina, que são estimulantes cerebrais e estão relacionadas também à sensação de bem-estar e à perda da capacidade de análise comportamental do parceiro. É a mesma sensação de quem ingere anfetaminas.
Está associada também às sensações da paixão a produção de uma alta taxa de serotonina, substância química encontrada em grande quantidade em abacaxis e chocolates.
É certo que há a produção de adrenalina pelo cérebro e pela glândula adrenal, sendo um inibidor natural do apetite e do sono. Tal estado de excitação causa danos na memória e na concentração, provocando prejuízos no trabalho e nos estudos. Para o neurocientista Renato Sabbatini, tudo isso não faz mal se for por um período curto de tempo. Começa a virar uma doença se durar mais de três meses.
Para o cientista, a paixão é uma emoção positiva e sendo assim, uma pessoa apaixonada não consegue cometer um crime, portanto, seria errado se falar em crime passional. O que causa a prática de crime é a combinação irresistível de ciúme, sentimento de perda e raiva, os quais ativam a produção de outras substâncias químicas, em especial o cortisol, que é o hormônio do estresse.
É fácil assim concluir que esse sentimento que pode causar tantos danos não é amor, porque o amor tudo enobrece. Conforme a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 13: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

(*) Roberto Veloso é presidente da Associação dos Juízes Federais da 1ª Região

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO


6 de janeiro

RELEITURAS E RELEITURAS

Elmar Carvalho

Em registro do dia 4 de setembro de 1928, leio, no Diário Secreto de Humberto de Campos, publicado pelo Instituto Geia em 2010, que um dos grandes desejos do grande poeta Gonçalves Dias, quando criança, era possuir um exemplar do livro História do Imperador Carlos Magno e dos doze pares de França. Seu pai, o comerciante João Manuel, português, atendeu-lhe esse anseio. O imenso encantamento do futuro poeta era pensar que todas as narrativas da obra fossem verdadeiras. Acrescenta o diarista que foi um dia de grande tristeza para o menino “aquele em que o pai lhe arrancou essa ilusão”.

Humberto de Campos revela que leu essa obra quando tinha dez ou onze anos, na cidade de Parnaíba. Diz que ela exerceu sobre a sua imaginação infantil ingênua influência. Faz-lhe uma síntese dos relatos mais importantes. De minha parte, afirmo que li essa História, aproximadamente, quando tinha a mesma idade de HC, porém como nunca mais o reli ou mesmo o folheei, já que o exemplar foi logo devolvido, uma vez que não era propriedade de meu pai, pouco recordo de seus episódios, lutas e conquistas.

Entretanto, com relação ao Mártir do Gólgota, de Perez Escrich, que li mais ou menos nessa faixa etária, guardei muitas de suas várias narrativas, exatamente porque reli as suas páginas que eu maltratara, quando tinha de dois para três anos, sob o olhar indulgente de minha avó paterna. Ficava um tanto frustrado quando não podia acompanhar o desfecho do episódio narrado, por causa das folhas perdidas, mas mesmo assim essa vida romanceada de Jesus acendeu a minha imaginação em meus dias de menino.

Mais adiante, Humberto de Campos confessa que, aos trinta anos de idade, tentou reler novamente a História do Imperador Carlos Magno, mas que não chegou à quinta página, porque, segundo seu entendimento, a beleza do poema de cavalaria não estava, “evidentemente, nos seus capítulos, mas na minha imaginação infantil”. Encerra melancolicamente a nota afirmando que é um livro que não irá reler, porquanto, ao fechar suas páginas, teria saudades de si mesmo. Conforme já tive oportunidade de contar, a partir de meus vinte e poucos anos tentei reler O Mártir do Gólgota, que já fora completamente extraviado nas mudanças residenciais de minha família, inclusive com a ajuda de meu pai, que apelou para amigos seus, à procura de antigo exemplar desse romance histórico, que há várias décadas não mais foi editado no Brasil, inclusive para o monsenhor Antônio Monteiro de Sampaio, que fora meu professor na UFPI – Campus Ministro Reis Velloso. Essa busca foi inútil.

Quando eu já me aproximava dos 40 anos de vida, consegui adquirir um velho exemplar de O Mártir do Gólgota, em negócio que me saiu um tanto caro, pois ainda não havia os sebos internéticos. Após relê-lo, emprestei-o a meu pai, que também desejava reapreciá-lo. Felizmente, não tive a decepção experimentada por Humberto de Campos em relação à História do Imperador Carlos Magno, porquanto o reli com prazer e vívido interesse. É verdade que não senti o mesmo encantamento de quando era garoto, em que as personagens pareciam ganhar vida em minha imaginação, em que eu parecia ver as cenas narradas saltarem das páginas do velho livro para uma tela de cinema, como se fora um filme épico, arte que sempre admirei, desde os meus tempos de criança.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO

Canindé, Elmar e Jonas, na área da "Diretoria" da Maison Fonteneles, vendo-se ao fundo o "salgado"



5 de janeiro

EM BARRA GRANDE, NA “MAISON FONTENELES”

Elmar Carvalho

Combinamos, eu e o Canindé Correia, visitar o Jonas Filho Fontenele de Carvalho, que se encontra de férias em sua casa, em Barra Grande. Logo cedo, encontramos o Vicente de Paula (Potência), irmão da Dulce, mulher do nosso anfitrião, que se encontrava a conversar com o seu irmão Jorge. Convidamos o Vicente a ir conosco, mas ele disse que iria em outro carro, com a sua mulher, sua filha, seu genro e o neto. Após um caldo reforçado, resolvemos seguir pela estrada que passa pelo povoado Camurupim, onde fizemos uma rápida parada logística.

Observamos que havia um circo no povoado. Não era pobre, pois a lona e a empanada estavam em bom estado, assim como tinham bom aspecto as cadeiras e as arquibancadas, além de que havia veículos de propriedade dos circenses. Comentei que antigamente apenas os pequenos circos, chamados mambembes, de lona toda remendada, esburacada ou até mesmo sem lona, com somente uma orla de pano circular, se apresentavam em pequenas cidades e povoados. Alguns deles não tinham nem mesmo assento, tendo cada espectador de levar a sua cadeira ou tamborete.

As cidades grandes, cheias de atrações mundanas e de divertimentos, talvez já não ofereçam público para a arte dos picadeiros, com seus palhaços, equilibristas, malabaristas, trapezistas e mágicos. Muitas vezes não têm sequer espaço destinado aos circos, senão, talvez, na parte mais periférica da zona urbana, exceto para os circos poderosos e afamados, que podem alugar espaço privado e promover propaganda na televisão. Ao que parece os circos pequenos e de médio porte foram escorraçados das cidades maiores, que já não lhes oferecem nem lugar nem público, e agora buscam as pequenas urbes e povoados, como Camurupim. Canindé, que é economista, concordou com a minha “tese” econômica e sociológica, ou pelo menos não teve elementos para discordar frontalmente.

Sem muita pressa, deixamos a estrada principal, que segue para o Ceará, e percorremos a que vai para Barra Grande. Cerca de vinte quilômetros adiante, entramos no povoado, que já toma ares de cidade, com algumas ruas calçadas, e mesmo algumas que já tomam forma de pequenas avenidas. Após um pequeno equívoco do Canindé, que recebera o endereço do Vicente de Paula, localizamos a casa do amigo Jonas Fontenele de Carvalho, filho. Na placa de madeira do portão principal, estava escrito “Maison Fonteneles”, que já revela o espírito brincalhão e bem-humorado do seu proprietário.

Fomos recebido por João, o caseiro, que embora tenha dito que o Jonas não estava, nos convidou a entrar. A seguir veio a Dulce, que nos noticiou que o marido fora assistir a uma regata, mas que logo voltaria. Ficamos na palhoça, destinada à Diretoria, conforme assinalavam as placas ao redor dela. Por sinal, irei pleitear um cargo nela, nem que seja de bedel ou de aspone, ou mesmo de suplente do conselho consultivo. Não demorou muito, chegou o Jonas, que manifestou sua alegria em nos receber.

Estavam com ele o seu cunhado Crisóstomo e o seu sobrinho Arílton, de modo que a festa ficou completa, um pouco depois, com a chegada do De Paula e seus acompanhantes, já referidos. Estávamos presentes, portanto, quatro colaboradores (Canindé, Vicente de Paula, Jonas e eu) do jornal Inovação, sobre o qual, ao longo de mais de 20 anos, já me reportei em vários textos, avulsos, e aqui mesmo, neste diário, quase todos publicados na internet. O abrigo fica no quintal, de fofa, alva e macia areia, onde se vislumbram uns coqueiros e alguns pés de murici, além da paisagem plana e desértica do “salgado”, que somente a cada quinze dias recebe as águas da maré grande.

Expliquei que conheci Barra Grande mais de três décadas atrás, quando lá estivera em companhia do próprio Jonas e do Reginaldo Costa. Nessa época o povoado ainda era bem pequeno, mais se assemelhando a uma colônia de pescadores. O areal, que se estendia por todas as ruas, ainda não bem delineadas, davam-lhe um aspecto ainda mais bucólico. Nesse tempo, em qualquer boteco aonde fôssemos, a única música que se ouvia era a da “americana”.

O cantor (não sei se o Alípio Martins ou outro) repetia, quase à exaustão, que amava uma americana; que estava gamado nela e ia se casar com ela; que ela era linda para chuchu, e ainda lhe dava “tutu”. Em face dessa riqueza e da ênfase dada ao adjetivo pátrio, supus tratar-se de uma louríssima norte-americana, mas, para minha surpresa, não digo decepção, a musa do compositor era da América do Sul, não esclarecendo ele se se tratava de uma patrícia, aqui mesmo do Brasil.

Quando falei na música da americana, o João, que não bebe, mas não é bobo, ficou entusiasmado e foi buscar um violão, para tocá-la. Deu conta do recado, de modo que o acompanhamos a cantar, embora em coro desafinado e com frases às vezes truncadas. Fiquei sabendo que João é um “faz-tudo”; que é, literalmente, um homem de sete instrumentos, pois, além de fazer pequenos consertos hidráulicos, elétricos e de pedreiro, ainda é um violonista de talento. Ou, pelo menos, quebra o galho, e não o instrumento. Restou-me a dúvida, que não quis dirimir, se ele não seria um boêmio desviado ou em recesso.

No decorrer da conversa, em que o Jonas nos brindou com várias anedotas picantes da impagável e desbocada dona Tita, fiquei sabendo que ele está praticando kitesurf, canoagem, tênis e outras acrobacias e exercícios, o que me fez lembrar as peripécias e fanfarronices colloridas. Contou-me ele que, certo dia, ao levar seu equipamento de kitesurf para a praia, foi abordado por um garoto que, após chamá-lo de “tio”, de forma irreverente, indagou-lhe se estava indo alugar a tralha. Apesar de ser ele já um cinquentão ou pelo menos um cinquentinha, não gostou muito do questionamento do jovem, e deu-lhe uma resposta meio grunhida e não muito simpática, dizendo-se kitesurfista.

Mas, o que mais me causou admiração, foi quando ele nos revelou que já está pilotando avião, e que em breves dias estará pousando um teco-teco quase no quintal de sua residência em Barra Grande. Ao fundo da casa, existe um grande terreno, sem construções e sem árvores, que os nativos chamam de salgado. Esse deserto salitroso, apenas a cada quinze dias, na maré grande, por influência da gravidade lunar, quando o satélite atinge seu ponto de maior aproximação do oceano, torna-se inundado pelas águas marinhas. É nesse tabuleiro que ele pretende pousar o seu pavão misterioso. Quando o Jonas me exibiu uma gravação de celular, mostrando sua performance de aeronauta, ao lado do seu primo Paulo, piloto de alto curso e longo percurso, só em me imaginar ao seu lado, no avião, fiz o sinal da cruz, e murmurei para mim mesmo:
- Vade retro... retrocesso.