domingo, 21 de agosto de 2016

UM POEMA DE AMOR


UM POEMA DE AMOR

Elmar Carvalho

            Eu me entrego todo
            a teu corpo de doação
aberto como
corola e cálice
aberto para a
recepção de meu corpo
que também se entrega.
            Percorro
           – minhas mãos –
    percorro teu
    corpo em ânsia
    em busca de seus
    recantos secretos
de suas grutas escondidas
de suas fendas perdidas
de suas chagas naturais.
            Eu me te entrego
            que te me entregas
como uma dádiva
que te dou e que me dás.
            Nos instantes
            de nossos afetos
percorro os relevos e as vertentes
de teu corpo como
quem penteia
cabelos de nuvens
            e altera
            a posição
            das estrelas.
            E desejaria,
            nessas horas
de lúcidas loucuras
que um brutal espasmorgasmo
nos consumisse
nos braços um do outro.
            E que uma
            longa vertigem
nos transportasse
            ao paraíso
dos sonhos das quimeras
            e dos loucos.

           Parnaíba, 79 

sábado, 20 de agosto de 2016

Não voto em caricatura


Não voto em caricatura

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Começou o período de campanha eleitoral. Para início de conversa, perpassa-me, como na maioria dos brasileiros, a sensação de náusea à classe política, em geral. Assiste-se a desenfreada e faminta tara por um mandato eletivo, como rapinas atrás da presa, embora estigmatizados de fichas sujas. Sem falar na desavergonhada corporação do que “vou receber, se virar a casaca”.

         Bote de lado qualquer ranço ideológico ao nobre povo cubano, exemplo de cidadania e patriotismo, apesar do implacável cerco americano à sua tentativa de prosperidade. Repare o depoimento do médico cubano, Orlando Leskay, do programa “Mais Médicos”, de Porto Alegre. Acompanhado de colegas de profissão, durante coletiva com a imprensa, Leskay lascou, em defesa de seu povo: “Para nós o mais importante é o sentimento de ajudar as pessoas. Sabermos que temos garantia de segurança. A família cheia de saúde, possibilidade de atendimento médico. Recebo o meu salário, e, no meu país, nenhum de nós está contando quanto nós ganhamos. Isso não é importante para nós. Quando nossa turma se reúne, é para falar do trabalho no posto de saúde. Ninguém fala de dinheiro, do que vou fazer com esse dinheiro. Falamos de quantos pacientes com tuberculose atendemos e estão bem. Ou de um diabético descompensado, agora recompensado. Nós respondemos a um sistema social, enquanto, em outros lugares, as pessoas pensam em dependência do sistema social. No Brasil, um doutor não nos entende, porque responde a outro sistema social. Nós, desde a infância, somos educados com um sentimento diferente, coletivo. É preciso que vocês entendam isso. Nós não vamos mudar. Nós não vamos morrer, tal como éramos no período da colonização e exploração capitalista”.

         Filtrando-se certo exagero da utopia cubana, passada e vigiada pela repressão da ditadura, observa-se, entretanto, testemunho patriótico do médico Orlando Leskay. Provoca inveja na consciência de brasileiros, mais ávidos de direitos pessoais do que deveres de cidadão. Na defesa do prato do que da pátria (só nos esportes).

         Quando se observa o campo político no Brasil, espanta-se com a retórica histérica, populista, apaixonada, ideológica. Por trás da verborreia, só planos pessoais. Apela-se de tudo, até para o nome de Deus, na fúria esbaforida e ofegante pelo voto. Nem precisa citar conhecidas figuras dos escândalos, palavrões, tabefes e garrafadas em público. Servem apenas de caricaturas na missão tão nobre da política, como a inglesa. Na campanha eleitoral para presidente americano, destaca-se uma dessas caricaturas, Trump.


         Candidatos caricaturescos berram, ofendem adversários, prometem o impossível, testemunham a própria mediocridade com palhaçada para seduzir, especialmente, a plebe sofrida, desinformada de consciência cívica, responsável, coletiva, em vez das merrecas prometidas para vender seu voto. Falta um Orlando Leskay nessa história.   

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XVII


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XVII

Prostituição e tragédia familiar

Elmar Carvalho

Com a finalidade de colher informações para o jornal mimeografado O Liberal e para futuros trabalhos no campo da história social recente e da  sociologia eborense, Marcos fez várias entrevistas com idosas e jovens prostitutas, e também com antigos frequentadores de lupanares. Ele tinha ciência própria de certos fatos, histórias e costumes, porque esporadicamente fazia as suas incursões e “vistorias”, tanto na alta como na baixa zona meretrícia, bem como sabia de fatos que lhe foram repassados pelos seus colegas e amigos. Dizia estar fazendo laboratório literário.

Em decorrência desse seu trabalho jornalístico e intelectual ficou sabendo que muitas mulheres caíram na difícil “vida fácil” após terem se entregado, em confiança, a seu noivo, que lhes prometia casamento; algumas por gosto, e outras por certa irresponsabilidade juvenil. Quando os pais tomavam conhecimento, por causa de gravidez ou não, de que a filha não era mais virgem, as expulsavam de casa. Muitos chegavam a dizer que a filha “desonrada” era um “dedo cortado fora”. Não servia para nada.

Sem estudo e sem aptidão para o trabalho doméstico, que não tinha as garantias trabalhistas atuais, muitas iam exercer o meretrício, que, ao menos enquanto eram jovens, era muito mais bem remunerado. Mas Marcos suspeitava que muitas iam em busca da chamada vida fácil, do trabalho menos estafante e mais bem pago, e algumas desejavam mesmo o hedonismo do sexo, da dança, da música e da bebida. Sentiam prazer no exercício da profissão e do gozo cotidiano e repetido com diferentes parceiros, como se isso fosse uma constante ventura e aventura.

No mês de junho alguns cabarés costumavam fazer os arraiais dos folguedos de São João e São Pedro. As quadrilhas eram animadas e tinham muitos participantes. Algumas eram bem simples, enquanto outras tinham certo requinte. Os sanfoneiros afamados eram convocados, e traziam seus parceiros, tocadores de pandeiro, triângulo, chocalho e zabumba. O carnaval também era comemorado, com bailes alegres e cheios de enfeites. Muitas raparigas ostentavam belas fantasias e enigmáticas máscaras. Os instrumentos de sopro imperavam, com repertório de esfuziantes marchinhas e saracoteantes frevos.  

Mas a prostituição tinha os seus riscos e mazelas, que seguem sinteticamente enumerados: gravidez indesejada, doenças venéreas, sífilis, abusos de homens grosseiros ou embriagados, logro na hora do pagamento dos honorários e brigas com outras raparigas e homens por causa de ciúmes e outras rixas, às vezes antigas, que afloravam durante as bebedeiras. Muitas mulheres, quando não recebiam o pagamento combinado, puxavam uma lâmina de barbear, uma faca ou um canivete para compelir o parceiro a cumprir a avença verbal. Se mesmo assim o homem não efetuava o pagamento, algumas chegavam a lhes provocar lesões, havendo mesmo alguns casos de morte. Por causa de indesejada gravidez, alguns abortos eram executados pelas “fazedoras de anjos”, mediante perigosas beberagens e curetagens.

Algumas dessas mulheres, as mais belas, mais jovens e mais afortunadas, eram aceitas no alto meretrício, onde tinham quarto e cama mais confortáveis, mais higiênicos, e onde a comida era de melhor qualidade. Outras, as mais feias ou mais velhas, só conseguiam alugar um quartinho, guarnecido apenas por uma tosca e estreita cama, de colchão de palha, e uma rústica mesinha, sobre a qual eram colocados um espelho pequeno, uma bacia de alumínio, um litro com água, um sabonete, quase sempre da marca Gessy, e um pote de talco Cinta Azul. Muitas colocavam na parede um enorme pôster de seu ídolo favorito, cantor ou ator de fotonovela, que vinha encartado em revista feminina da época.

Quando a prestação de serviço terminava, o homem segurava a bacia com as duas mãos e a mulher lhe fazia as abluções na genitália, com a garrafa d’água e o sabonete. Isso não era considerado uma humilhação da meretriz. Era aceito como o complemento indispensável e natural do seu trabalho.

Alguns homens, os mais delicados ou sensíveis, dispensavam essa higiene, e eles mesmos se asseavam como podiam. Os quartinhos mais humildes sequer dispunham de luz elétrica e tudo isso era feito à luz mortiça de uma lamparina a querosene. Muitas dessas mulheres tinham na pele marcas de doenças, como sarampo ou varíola, e cicatrizes de facas, dentadas ou unhadas, resultantes de brigas com clientes ou colegas.

Gracinha, além de filha de uma viúva que veio a exercer o meretrício, como já dito, era neta materna de Marlene, afamada prostituta de Évora, nos áureos tempos da carnaúba e de outros produtos do extrativismo. Nos seus anos de juventude e beleza fora a de mais extensa e seleta freguesia. Além de bela, era perita em sua arte, e se esmerava em bem tratar os homens que a procuravam, dando-lhes carinho e palavras amorosas e de delicado estímulo. Tinha ou fingia êxtases que deixavam os homens com o ego lá em cima, como se fossem o maior amante do mundo. Se se sentiam enganados, jamais reclamavam de tão reconfortante logro.

Contudo, não foi Marlene perfeita em sua profissão, porque veio a se apaixonar por um de seus amantes, o que ainda hoje é tido como erro grave. Deu-lhe tudo, tudo, até mesmo dinheiro; perdeu dinheiro, ao afastar-se dos amantes mais lucrativos, para se dedicar ao gigolô que tanto amava. Um dia ele, sem medir e sem adoçar as palavras, lhe disse de chofre:
– Depois de amanhã vou me casar. Nunca mais virei aqui. Não me procure mais e não me mande recado.

Nada mais disse, nem procurou ouvir. Virou as costas e se foi, sem aceno e sem palavras convencionais de despedida e desculpas, e sem se voltar uma única vez.


No dia do casamento, à boca da noite, Marlene foi até uma mercearia e bar, que havia perto. Sorrindo, cumprimentou uns homens que tomavam cerveja. Pediu um litro de querosene. Os homens a olharam com admiração, pois apesar de seus 37 anos de idade, ainda era uma formosa, simpática e atraente mulher. Um pouco depois chegou a notícia: uma rapariga se matara, incendiando as próprias vestes e lençóis, embebidos de querosene.  

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Teresina – 164 anos


Teresina – 164 anos

José Itamar Abreu Costa
Cidadão Teresinense, cardiologista e escritor

A primeira vez que estive em Teresina foi em 1956.

Estava doentinho e mamãe trouxe-me ao Pediatra : Dr Epaminondas Soares.

Ficamos hospedados na Rua Primeiro de Maio 543 sul.

A segunda vez que estive aqui foi em 1958, fiquei hospedado à avenida Miguel Rosa -Norte

Como enxerguei Teresina nas primeiras visitas?

Em 1956, estava residindo com meus pais em Alto Longá, cidade pequena, bem arborizada, Teresina me pareceu também assim. Muitas árvores, as ruas eram bem traçadas, sem calçamento ou pouco calçamento, as praças João Luis Ferreira, Pedro II. Saraiva e Rio Branco, algumas com Fontes Luminosas. A avenida Frei Serafim bem iluminada e arborizada.

Vim estudar em Teresina em 1959:

Inicialmente morei em uma casa situada à Avenida Frei Serafim esquina com Anisio de Abreu X com o Samdu. Fui matriculado na Escola Municipal Abdias Neves(Avenida Antonino Freire).

Depois fomos morar a rua São Pedro esquina com a Rua Coelho de Resende, permaneci estudando no Abdias Neves e frequentando a escola de reforço da Professora Manoca ( Rua Félix Pacheco).

Papai comprou a casa do Tio Santo Almendra, situada na rua Primeiro de Maio com Taumaturgo de Azevedo.Papai, Mamãe, Simão, Ismar João de Deus, Francyslene, Dedé, Mazinha e Maria das Graças, esta era a nossa família em Teresina em 1961.

Fui matriculado no Majestoso Grupo Escolar "Domingos Jorge Velho" situado na Avenida Miguel Rosa, tendo concluindo o Curso primário em 1962.

Iniciei o Curso Ginasial em março de 1962, no Colégio Desembargador "Antonio Costa"terminando-o em 1966. Fiz prova para  cursar o científico no Colégio Estadual "Zacarias de Góis" sendo aprovado e ali iniciei o curso em 1967, fui reprovado no primeiro ano científico e terminei o curso em 1970.

Estou escrevendo sobre uma Teresina de 60 anos atrás-1956.

Como descrevo Teresina nos meus primeiros 12 anos

Uma cidade em franco desenvolvimento:

Mercado da Piçarra, Igreja de São Raimundo Nonato, o famoso campinho do lado da Igreja, onde jogávamos as nossa "peladas". Mercado Velho, Mercado do Mafuá.

Igreja de São Benedito "Majestosa". Seminário (onde os seminaristas nos deixavam jogar bola aos sábados a tarde).

Quartel do 25 BC. Sempre que era  permitido íamos assistir  o futebol dos bairros.

Quadra de Futebol de salão no Quartel da Policia Militar e Segundo BEC, onde haviam as disputas dos campeonatos.

Os banhos e o futebol nas "CROAS" do POTI E PARNAÍBA. Frequentávamos mais o Poti. O famoso "POÇO DA PALMEIRA" onde garotos corajosos pulavam.

O Estádio Lindolfo Monteiro, sempre futebol às quartas e aos domingos. O famoso Rivengo de 1964 /65.

A cidade era praticamente só do lado de cá entre os rios. Começando a se expandir no sentido da ININGA. CATARINA, AEROPORTO, PARQUE PIAUÍ
As emissoras de Rádio: Pioneira, Difusora e Clube. Ary Sherlock, Rocky Moreira,Almanaquim no Ar(Francisco Figueiredo), Carlos Augusto e Deoclécio Dantas. Rodrigues Filho, AL Lebre, Garrincha, Carlos Said, Fernando Mendes.

TV só em 1970. Bons Jornais
Deixei minha Teresina em Julho de 1971 em busca de um Curso Universitário em Belém do Pará. Durante o curso, estive aqui poucas vezes, pois a reforma Universitária fez com que tivéssemos aulas em períodos de férias(julho e Janeiro e fevereiro).
Fui fazer Residência em Cardiologia em São Paulo e retornei em julho de 1980.

Descrição de Teresina nos últimos 36 anos:

Tudo mudou Teresina passou a ter ares de Metrópole, Cultura, esportes Lazer, incremento na saúde como surgimento de novos hospitais e clínicas, chegada de tecnologia de ponta:

Hemodinâmica, Cirurgia Cardíaca, e Transplante de Coração (1991)

Tratamento avançado de CA.

Grandes concessionárias de Veículos.

A Expansão do Comércio e Indústria,  capitaneado por João Claudino Fernandes e sua "SARA LEE"

Shopping Center,Rede de Rádio, Jornais e Televisão

Universidades*

Expansão ordenada e desordenadas da Cidade em todos os sentidos: Vilas, Conjuntos residenciais; alguns estruturados outros não. Volência urbana gerada por desemprego, prostituição e consumo de drogas.


Parabéns Teresina, cidade que me tornei cidadão honorário por projeto do Vereador Miguel da Costa e Silva(in memoriam),e na qual o casal Edilane Itamar, constituíram uma família maravilhosa: Filhas: Patricia Lorenna, Ilanne, Lhoanna, genros: Leandro, Williams. Neto(a)s: Lana, Lorenza e José Itamar Abreu Costa Neto. Cidade onde ainda vive, lúcida, saudavel minha mãe Francisca Rodrigues Abreu Costa, seus filho(a)s: Francyslene, Ismar, João de Deus e seus descendentes.   

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Homenagem a Parnaíba pelos seus 172 anos


HOMENAGEM À PARNAIBA
PARNAIBA: 172 ANOS!

Antonio Gallas
Professor, jornalista e poeta

  
A convite do jornalista Rubem Freitas, de saudosa memória, cheguei para ficar em Parnaíba no dia 31 de outubro de 1971. Além dos parentes que aqui residiam, entre os quais  minha tia Noemi Cerveira, que tinha um bar atrás da AABB (hoje prédio da Caixa Econômica), meu primo Demétrio Leonardo Cerveira, funcionário aposentado da Estrada de Ferro( REFFESA), conhecia também outras pessoas como João Neves, funcionário da antiga Comissão e colega de trabalho da minha mãe. O João Neves era pai do craque de futebol Batistinha, do Sargento Antônio João (da Marinha do Brasil), do Valter,  do Véi( esqueci seu nome próprio acho que é Francisco José), do João Neves Filho, da Maria Luiza e da Fátima e do Sebastião (falecido prematuramente vítima de afogamento na Barra do Longá).

A partir daquela data criei o amor e a estima por esta cidade e pelo seu povo cuja característica principal é a boa acolhida a todos aqueles oriundos de outras plagas que aqui chegam,como foi o meu caso.

Tornei-me cidadão parnaibano, não por força de título de cidadania, sim por opção própria, porque escolhi esta cidade para residir, constituir família... e assim foi feito. Aqui nasceram meus filhos.

Comecei no magistério como educador. Lecionando inglês que até então era uma disciplina não muito simpática para os alunos. Com a ajuda do Batista Leão,  do Mário Campos e do Rubem Freitas ingressei no Rádio ( Rádio Educadora de Parnaíba) e no Jornal (Jornal Folha do Litoral), mais tarde no Jornal Norte do Piauí do jornalista  Mário Meireles. Nunca abandonei esta cidade que tão bem me acolheu. Ausentei-me por alguns anos quando ingressei na carreira administrativa do Banco do Brasil, mas sempre nas minhas férias vinha para rever e abraçar os amigos que aqui residiam e ainda residem. Ao aposentar-me do BB voltei para residir definitivamente em Parnaíba,e continuo exercendo minhas funções de professor, jornalista, e agora blogueiro. Fui  muito bem recebido pelo povo parnaibano e sou respeitado por todos.

 Como gratidão a esta cidade e ao seu povo que tão bem me acolheram fiz uma paródia  para ser cantada na melodia da música "Luar do Sertão" do poeta maranhense Catulo da Paixão Cearense.
Ei-la:    

 EXALTAÇÃO À PARNAIBA

Paródia de autoria do professor Antonio Gallas para ser cantada na melodiada música Luar do Sertão de autoria de Catulo da Paixão Cearense

Refrão: Não há melhor lugar pra se morar que meu lugar
Não há melhor lugar pra se morar que meu lugar

Minha cidade, minha bela Parnaíba
Oh minha terra querida, hoje eu quero te exaltar
Tuas ruas largas, belas praças e avenidas
Exaltam tua beleza, e também tua riqueza
 Porto das Barcas, Beira Rio, Catedral
Praia da Pedra do Sal, um belo cartão postal
És conhecida no Brasil de Norte a Sul
Tens um porte de nobreza, princesa do Igaraçu

 Refrão:
Não há lugar melhor pra se morar que o meu lugar
Não há lugar melhor pra se morar que o meu lugar
 No céu azul, tão azul da cor de anil,
A tardinha o sol se põe, trazendo encantos mil
Quando a noitinha a lua no céu desponta
Oh meu Deus quanta beleza, que tamanho esplendor
Tu és orgulho de teus filhos, é o amor
És a bela Parnaíba, a nossa terra querida,
É pra você esta canção de amor
Que dedico com carinho, com orgulho e com fervor
Refrão: Nãohá melhor lugar pra se morar que o meu lugar
 Não há melhor lugar pra se morar... que Parnaíba...

Antonio Gallas 

domingo, 14 de agosto de 2016

Flagrantes de Teresina

Flagrantes de Teresina

Elmar Carvalho
     
           I

Fonte: Google/Portal do Governo do Estado do Piauí


À meia-noite
percorria a praça.
A noite era silente e fria
e nenhuma estrela luzia ...
O manto escuro tudo
envolvia e ninguém existia.
Apenas o olhar cego
do Conselheiro, ao longe,
indiferente, me via.

           II



Em criança
a carranca do Barão
em seu assombro me fascinava.
Seu bigode recurvo espetava o ar
a ceifar a brisa como às nuvens
e ao céu o alfanje lunar.
Um besouro inoportuno
bolinou o bigode do Barão
e o bigode de bronze
imperceptivelmente se moveu.


           III



Na praça Saraiva
uma flor fez-se borboleta
e desferiu um voo rasante
sobre a cabeça do Conselheiro
que permaneceu
impassivo e contemplativo
em sua dura
postura de escultura:
hierático e estático.   

sábado, 13 de agosto de 2016

Um Morro Chamado... Pé-do-Morro


Um Morro Chamado... Pé-do-Morro

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

As montanhas(serras), assim como o mar, possuem um fascínio especial quando pensamos em construir aquela casinha simples, caiada de branco, com uma varandinha na frente e um pequeno jardim com flores multicoloridas que se abram o ano inteiro, para o descanso nos finais de semana. Mais que isso: em volta dessa casinha, gostaríamos de plantar algumas fruteiras da nossa predileção e, se o sujeito for um pouco mais exigente, criar algumas poucas vaquinhas de leite e alguns ovinos para abastecer-nos de leite e de carne, especialmente por ocasião dos churrascos.

Depois é só deitar-se em uma rede com varandas bem vistosas e apreciar a paisagem que se descortina gratuita à nossa frente, observando-se lá no fundo algumas serras azuis que se perdem no horizonte. Pronto, está armado o ambiente sonhado por dez entre dez brasileiros. Não é preciso lembrar que as regiões serranas são muito famosas pelo seu clima ameno, chegando mesmo a fazer frio em determinada época do ano. Como exemplo podemos citar a serra Gaúcha (Canela e Gramado), no Rio Grande do Sul; da Ibiapaba e da Meruoca, no Ceará, ou mesmo a Serra dos Matões, na região de Pedro II, no Piauí, como pontos de atração turística que veem aumentar a cada ano o fluxo de pessoas que procuram essas regiões no período equivalente ao nosso inverno tropical. Quem já esteve nessas localidades sabe que é de tirar o fôlego a paisagem que costuma se formar nesses locais.  

Comecei essa crônica falando das grandes elevações existentes em outros estados, para dizer que, no que pese não nos situarmos em uma região montanhosa, temos também as nossas serras, como a do Criolí, a serra dos Poços e a da Boa Vista,  que são muito pouco exploradas por nós. Nesses lugares, posso afirmar com absoluta certeza, o clima é bem mais apetecível do que o temos na cidade, e chega a fazer um friozinho gostoso nos meses que vão de maio a agosto. Mas eu quero me referir aqui é a respeito de um pequeno morro, uma elevaçãozinha simples mesmo, que tinha um poder de sedução muito grande quando eu era criança: o Pé-do-Morro. 

O chamado Pé-do-morro, que a maioria dos moradores do meu Curador conhece, é um pequeno monte que se situa ao norte da cidade, logo depois de outra elevação chamada de Alto-da-Balança. Quando criança, eu costumava observar da calçada de minha casa aquela elevação pontuda qual um seio debutante, apontando resoluto para o céu, coberto por uma vegetação luxuriantemente verde. Era sair na porta de casa, olhar para a esquerda e lá estava o meu monte Kilimanjaro, eterno, sem neve no topo, é bem verdade, mas desafiante, a uma distância que me parecia quase ao alcance das minhas mãos. Demorei muitos anos para conhecer de perto aquele ícone que me atraia tanto.

Mas, certo dia, em companhia de um amigo, resolvemos ir caçar Nambu no Pé-do-morro. Saímos de casa logo depois do almoço. Tempo quente, sol queimando e fazendo com que as árvores perdessem a maioria das suas folhas, mas era o período ideal para caçar as nossas Nambuzinhas.

Com uma espingarda Bate-Bucha e uma capanga com muita munição à tira-colo, botamos o pé-na-estrada com muita disposição.  Caminhamos muito para chegar até o sopé do nosso morro, aonde chegamos ai por volta das três horas da tarde. Nunca imaginei que aquele morro que parecia tão perto da minha casa, ficasse, na realidade, tão distante. Mas a visão daquela elevação tão perto de mim valeu com sobras o sacrifício de chegar até ali. Fiquei absolutamente encantado com o porte elevado das árvores que se distribuíam morro acima. E fiquei ali parado, observando aquele acidente natural que sempre me pareceu tão desafiante, a ponto de perder o contato com o meu colega de caçada, e quase me perder. 

Noviço na profissão de caçador, não cheguei a disparar um único tiro nas Nambus, que, ao ouvirem o barulho que eu fazia na folhagem seca, levantavam vôo antes que eu pudesse me aproximar delas. Analisando hoje o ocorrido, com a consciência que possuo em relação à preservação da nossa fauna e flora, voltei da caçada com um lucro enorme: não consegui abater nenhum daqueles pássaros, mas conheci um dos lugares mais bonitos que eu já vira até então. O que não entendo é o porquê de não merecer de nós um nome próprio, continuando a ser conhecido como Pé-do-morro, simplesmente.

Há algum tempo atrás, em companhia de um irmão, fomos de carro até a sede de uma fazenda que fica no sopé daquele morro. E, para desgosto meu, vi que toda aquela vegetação majestosa foi derrubada e em seu lugar plantaram-se capim. Que desperdício! Remover aquelas árvores tão belas, os ipês, os cedros, os angicos, os jatobás e as sapucaias, ainda por cima para plantar capim em seu lugar! Foi uma péssima troca, sem se falar que naquele momento cometeu-se um crime ambiental capitulado em lei, por se tratar aquele local de uma área de PRESERVAÇÃO PERMANENTE.


A gravura que ilustra o texto é um trabalho da saudosa Rute Barros, uma das nossas maiores e mais talentosas artista plástica. Já falecida. Nesse trabalho, ela representou uma bucólica comunidade rural. O quadro hoje me pertence e embeleza a minha sala de visitas.         

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XVI

Foto meramente ilustrativa

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XVI

Gracinha

Elmar Carvalho

Após a partida de Madalena, Marcos mergulhou em profunda tristeza, que tentava disfarçar o mais que podia. Não chegava a ser uma depressão, mesmo porque na época não se ouvia falar nessa palavra, a não ser no sentido de profundidade física. Refugiou-se em suas leituras literárias e nos estudos colegiais. Quando perguntado por sua mãe ou por algum amigo mais chegado sobre porque estava um tanto circunspecto, respondia com evasivas ou alegava preocupações com as provas, que já se avizinhavam.

Por outra parte, tornou-se mais assíduo na prática do futebol, para com essa atividade física fugir da saudade que lhe remoía o espírito. Foi nessa época que, tanto por idealismo como para fugir de sua melancolia, reuniu Mário Cunha, Fabrício Moreira, Cazuza e outros amigos para criarem um jornal alternativo, mimeografado, cujo nome seria O Liberal. Seria informativo, opinativo e teria um espaço literário, para publicação de crônicas, contos, poemas e artigos. Nele Mário Cunha e outros artistas poderiam divulgar seus desenhos e caricaturas, com a utilização de estêncil adequado.

Não seria vinculado a nenhum partido ou grupo político. Contudo, buscariam algum recurso financeiro através da propaganda de algumas firmas comerciais ou mesmo de alguma pessoa física simpatizante dessa iniciativa. Seria impresso no mimeógrafo da escola da mãe de Fabrício, que terminaria por arcar com a maioria das despesas.

Todavia esse apoio deveria ser mantido em sigilo, para não prejudicar o seu pai em eventuais transações mercantis, mormente com o poder público. Seria publicado mensalmente, e faria críticas às três esferas de governo – federal, estadual e municipal – bem como aos três Poderes, mas sempre apontando soluções e sugestões. Teria até coluna social, para atrair os leitores mais ligados em fofocas e na vida alheia.

Foi nessa época que Marcos soube que havia sido instalado um cabaré a três quarteirões de sua casa, numa antiga chácara, denominada Montevidéu, que pertencera a um ricaço da cidade. O casarão ficava no meio de um grande terreno, de aproximadamente 120 por 150 metros. Alguns rapazes da vizinhança já estiveram lá algumas vezes, à noite, por simples curiosidade, ou para tomarem três a cinco garrafas de cerveja, que a magra mesada lhes permitia.

Ficou sabendo que a velha e desativada chácara fora alugada por Gracinha, que ali instalara o seu prostíbulo. Apenas ela, a mãe e um irmão residiam na casa. Entretanto, a partir das sete horas da noite várias raparigas novas ali faziam ponto, algumas de domingo a domingo. Segundo os boatos, Gracinha, ainda bem nova, tivera um namoro muito apimentado com um rapaz da sociedade eborense, filho de um fazendeiro abastado.

Notando sua mãe que Gracinha, mais cedo ou mais tarde, provavelmente mais cedo, terminaria por “dar com os burros n’água”, tratou logo de “vender” a sua virgindade em flor a um alto comerciante, frequentador assíduo dos principais cabarés eborenses. Para isso utilizou os serviços e a lábia de Pachola, seu filho, boêmio e um tanto malandro, que gostava da boa vida e de serviços maneiros, conquanto não descambasse para o furto, mas apenas para a “esperteza” e os expedientes de praxe do famigerado “jeitinho brasileiro”.

A velha, de nome Lurdinha, tinha notável experiência nessa seara. Ao ficar viúva, ainda nova e com dois filhos, e sendo assediada por vários comerciantes e altos funcionários da cidade, não tardou a ceder seus encantos a esses pretendentes, em troca de uma boa remuneração. Durante cerca de três anos foi “teúda e manteúda” de um rico coronel da carnaúba, que lhe deu casa, comida e dinheiro, em troca de rigorosa fidelidade.

A fidelidade, que jamais fora rigorosa, logo foi quebrada, seja porque ela fosse fogosa, e o velho tivesse pouco apetite, seja porque ela desejasse ainda alguma pecúnia a mais. O ricaço a deixou e ela continuou a ter encontros com um e com outro, em sua própria casa. Com o avançar da idade, esses encontros rendosos foram escasseando, de modo que Lurdinha passou a fazer ponto num dos cabarés de Évora.

Quando até esse meio de vida se tornou pouco rentável (como um artilheiro que passasse a reserva e depois a massagista), passou a fazer serviços de lavar e engomar roupa para as colegas do ramo, além de botar botequim de bebidas quentes e tira-gosto de tripa em festas na periferia da cidade ou mesmo em povoados perto da urbe. Embora contasse, vez ou outra, com a ajuda de Pachola e de Gracinha nesses labores, começou a se sentir alquebrada e cansada desses serviços. Foi então que lhe adveio a ideia de negociar a quebra da virgindade de Gracinha.

Tranquilizou a consciência ao admitir que isso, sem dúvida, iria acontecer a qualquer momento, sobretudo quando flagrou a filha em calientes amassos e pinos, com muitos beijos e esfregações escandalosas, nos escondidos das esquinas e das praças, perto de canteiros ou no encosto de uma árvore. E foi assim que Pachola, em conluio com a mãe, contratou o defloramento de Gracinha.

Não foi difícil à mãe vencer a frágil relutância da moça, convencendo-a de que a virgindade era apenas uma película de nada, e que só era perdida uma única vez e para todo sempre. Ela, ansiosa em conhecer novos prazeres, e tendo tido ao longo da vida o exemplo e o magistério da mãe, e vendo nisso uma fácil e agradável maneira de auferir lucro, acabou por aceitar de bom grado o que lhe era proposto.


E foi assim que a graciosa Gracinha começou a navegar mares nunca dantes navegados; mas sempre desejados e imaginados em sua ainda incipiente navegação de exígua cabotagem.    

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Lançamento de Bernardo de Carvalho no Senac Antônio Augusto da Paz

Entre outros, estavam presentes familiares de Elmar Carvalho, os acadêmicos Moacir Ximenes, Avelina Rosa e Jesus Araújo, e o professor e musicista José Francisco Marques e sua esposa Rosinha

Girlene Martinez - Gerente CEP Antônio Augusto da Paz e Elmar Carvalho

Gabriel Meneses Ferreira e Elmar Carvalho

Foi com imensa alegria que na noite do dia 5 de agosto de 2016, a Biblioteca João Alves Filho do Centro de Educação Profissional Antônio Augusto da Paz recebeu o magistrado e escrito, Elmar Carvalho, para o Lançamento e noite de autógrafos na Terra dos Heróis do Jenipapo da edição revisada de sua obra: Bernardo de Carvalho: o fundador de Bitorocara.



Estiveram presentes ao Evento Imortais da Academia de Artes e Letras de Campo Maior  - ACALE, Professores renomados do município, Comando do Tiro de Guerra de Campo Maior, Acadêmicos e comunidade em geral.

Na oportunidade o escritor falou sobre a “ quase mítica fazenda” que deu origem ao povoamento da hoje cidade de Campo Maior, além de mostrar um outro lado deste  intrépido empreendedor Bernardo de Carvalho e Aguiar.



O escritor, foi mais longe ainda, por discorrer sobre a riqueza e beleza arquitetônica e natural de Campo Maior e as potencialidades que esse patrimônio oferece a Terra dos Carnaubais.


Lembrou ainda que Campo Maior, seguindo a tradição de seus Pais Fundadores, é uma terra de homens honestos e de conduta ilibada, citando como exemplo os Ex Prefeitos Prof. Raimundinho Andrade, Tenente Jaime da Paz e Doutor Dácio Bona, reconhecidos por todos como homens que marcaram seus nomes indeléveis na história de Campo Maior.   


CAMPO MAIOR - 254 ANOS (8/8/1762 - 8/8/2016)



CAMPO MAIOR - 254 ANOS (8/8/1762 - 8/8/2016)

José Miranda Filho
Compositor, jornalista e escritor

Seu princípio vem da Fazenda Bitorocara, do conquistador Bernardo de Carvalho Aguiar, instalada ainda nos idos do Brasil colonial.

"Tem Sol mais brilhante" (*). Mais abrasador. A luz intensa amorena a tez. Provoca ebulição no sangue e escalda o coração. Atiça o ânimo. Conquanto, às vezes, possa dar sinais de esmorecimento, pachorra, vontade de deitar-se preguiçosamente. É o calor forte. Clima caloroso. Almas fraternas no relacionamento entre os conterrâneos e que acolhem os que chegam - "hospitaleira" (*). A abóbada celeste, escancarada, permite ver o predomínio do anil, com a despedida das chuvas para outras paragens, longínquas. Então, mostram sua força os ventos gerais. As pipas (papagaios) sobrevoam os telhados amarelecidos, colorindo a imensurável meia-lua cósmica.

"Tem campos, tem gado" (*). O plaino ainda verde, apinhado de bois, vacas, carneiros, bodes e outros, que, tranquilamente, saboreiam o capim-mimoso. Exibindo variadas cores e maviosos cantos, propiciam maior encanto à paisagem canários, chicos-pretos, corrupiões, juritis, cabeças-de-bode, garças, marrecas, sabiás, anuns, nambus... O sopro dos ares produzem o assobio das palmeiras. Verdadeiras florestas de carnaúba e tucum, alternando com as campinas e os capões, nos quais prepondera a unha-de-gato, cujos espinhos arranham os gibões, as perneiras, o couro dos animais, nas labutas dos vaqueiros com o gado. Com certeza, "parece um jardim" (*). Natural, que não careceu de cuidados humanos, mas bastaram-lhe as mãos generosas do próprio Artífice Supremo. "Foi aqui que Deus fez o prodígio mais brilhante" (Moisés Eulálio).

Aqui, contemplam-se as constelações com nitidez, ante a frouxidão das luzes artificiais, fazendo-se o lugar sobremaneira propicio, porquanto desprovido da intensidade que caracteriza a iluminação nas cidades grandes. O céu noturno coruscando - numerosos e minúsculos pontos - sobre olhares descansados. Uma vez ou outra, estrelas cadentes tracejam dali para acolá, aflorando, assim, a admiração singela nos rostinhos das crianças. Comporta aludir também à visão do semblante do amado ou da amada junto à Lua. Cadeiras convencionais nas calçadas, tamboretes nos terreiros, cidade e zona rural, num só tempo, os olhos alongados na mesma direção do infinito. "Tem céu (mais) estrelado" (*), pois não!?

São alguns veios d'água. Antes, os três maiores - para dizer que também fluem córregos, riachos - deslizam serenamente, serpeando na imensidão da planura, por entre flora vária. Lá adiante, ao norte, tocam-se, interligam-se: largo abraço. Daí para a frente, apenas um - Longá -, transportando as águas dos dois outros, segue o curso para o encontro com o maior deles - Parnaíba.

Cortando a cidade, o Surubim, farto habitat do peixe que, sugestivamente, dá-lhe o nome. "Surubim, onde os pe(s)cadores pe(s)cam peixes e sereias de coxas grossas e sem escamas na água de suas margens, na maciez de suas moitas mornas" (Elmar Carvalho). Saltos "mortais" da garotada corajosa do alto da ponte, nos anos de bons e alegres invernos. Nestes, correntezas impetuosas invadem quintas de caju, transpõem o paredão de barragem, que já engoliu nadadores afoitos. Mais ali, água rasa, nivelando-se com as beiras adornadas de maiôs e biquinis discretos, em manhãs ora ensolaradas, ora cheias de nuvens cinzentas.

Ladeando - entrincheirando - a urbe, o Longá, irrompendo carnaubais e mufumbais, encharcando as "Pintadas" dos criolis, guabirabas, muricis e maçãs de rio, das divertidas colheitas pela meninada, por gente das redondezas, enfrentando sucuris. "Preso à teia do enlevo, suponho dentro d'alma ouvir o langoroso e doce murmurar das águas do Longá" (Mário da Costa Araújo).

"A treze de março, lá no Jenipapo, comprou com seu sangue nossa independência" (*). É o mais distante dos rios, légua e meia a leste do centro urbano. O de maior notoriedade, o mais enaltecido. Transbordante nos copiosos invernos, reduzia-se a um filete espelhado, imóvel, no meio do álveo - apenas um regato -, em 1823. Milhares de homens valentes puderam fazer sua travessia sem dificuldade. Sobre o barro endurecido do leito, sobre o mato rasteiro, ressequido pela estiagem, das suas margens, "sangue piauiense correu em ondas" (Abdias Neves) - pavorosa hecatombe na qual tombaram feridos ou mortos centenas de conterrâneos. Sangue vertido pela liberdade, num combate sem igual. "Ali, ao lado do norte, ouviu-se um brado de morte, foram bravos que caíram! foram homens destemidos que lá tombaram feridos às balas de Fidié" (Moisés Eulálio). Por isso, "Sinto orgulho de ser um seu filho" (*). Gleba de heróis - do passado, do presente e de sempre -, ressaltando o vaqueiro e o lavrador, que fizeram surgir este Estado.

"Cartão de visita do meu Piauí" (*). Velhos casarões de antigas histórias, na cidade e no campo. O bucolismo inspirado nas fazendas de gado, "onde outrora havia banhos de leite" (H. Dobal). O Açude Granonde, o "lago" (conforme a expressão do arrebatado cronista Octacílio Eulálio) urbano, o que é incomum em terras brasileiras. Recanto do multicolorido - indescritível! - pôr do sol. Reflexos da graciosa natureza sobre a água serena do Açude, ao mesmo tempo cenário e testemunha de contemplativos espíritos e de enamoradas confissões e jutas de amor.

No horizonte, a sudeste, onde as pinceladas do Criador foram mais vivas, ergue-se a Serra Azul de Santo Antônio - a "urna" (Octacílio Eulálio) que encerra infinidades de mistérios até hoje insondáveis. "Dizem que nela vagam fantasmas de uns padres que em suas entranhas enterraram ouro" (Elmar Carvalho).

"Hospitaleira, majestosa, altaneira" (*). "Ei-lo de flores cercado... Não sei onde outro mais belo... Mimosa flor do sertão... Tudo tem graça e beleza" (Moisés Eulálio). Berço de gente simples, como também de vultos que o engrandeceram (no passado) e engrandecem-no (no presente) e, peculiarmente, simpática, acolhedora, solidária, crente em Deus e - em sua maioria - devota do Antônio, padroeiro do festivo mês de junho, que reúne todos na catedral e na praça das barracas, para o afável e sincero gesto de fraternidade, como única família. Dileta terra, consoante se extrai da declaração: "Ah, como gosto de ti, se é verdade que existe vida após a morte, então quero de novo nascer aqui" (Prof. Assis Lima). Majestosa e altaneira na gloriosa história de seu povo, que, neste agosto, celebra o 254º aniversário de fundação da Vila - uma das sete primeiras do Piauí -, exaltando sua irrefutável tradição.

Salve 8 de Agosto! Brademos viva Campo Maior com o "orgulho dos filhos seus!" (*).


(*) Versos do Hino Municipal (Profª Valmira Napoleão).

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O LADO DESCONHECIDO DA BIOGRAFIA DE R. PETIT

O psiquiatra José Ribeiro Chagas e o poeta Alcenor Candeira Filho

João Câncio Rodrigues Neto, José Ribeiro Chagas, Alcenor e Cosme Sousa 

R. Petit participa desta coletânea
Antologia da qual fazem parte Alcenor e R. Petit


O LADO DESCONHECIDO DA BIOGRAFIA DE R. PETIT

Alcenor Candeira Filho
Membro da APL. 
Poeta, cronista e crítico literário


          R. PETIT, pseudônimo de Raimundo Araújo Chagas, nasceu em Belém do Pará em 1891 e faleceu em Sorocaba (São Paulo), em 1969.

          Ainda criança  veio  residir em Parnaíba, onde permaneceu por cerca de quarenta anos.

          Publicou as seguintes obras poéticas: ANTE OS ABISMOS DA VIDA (1924), LIVRO DE MISS PIAUÍ (1929) e NORTADAS (1937), edição ilustrada com desenhos de Nestablo Ramos. Deixou livros de poesia inéditos, dentre os quais TABERNA DOS SENTIMENTOS.

          O seu poema mais famoso é o seguinte soneto, inserido em NORTADAS (Rio de Janeiro, Pongetti, 1937, p. 15/16):



                               PAPAGAIOS DE PAPEL

                                              Aos  vaidosos.



            Quando eu era pequeno, venturoso,

            Meus lindos papagaios empinando,

            Dizia:  - Não há nada  mais pomposo

            Que um papagaio de papel voando.



            Cresci...

                              Hoje, tristonho, pesaroso,

            Esses brinquedos de papel, olhando,

            Logo descubro o vulto carunchoso

            Dos que sobem a tudo se apegando.



            Tipos que sobem de alma feita em trapos,

            Mostrando ao mundo, despreocupados,

            Uma cauda nojenta de farrapos...



            Tipos de nulidade tão cruel

            Que só sabem subir encabrestados

            Como esses papagaios de papel.



          Embora grande poeta, R. PETIT imortalizou-se sobretudo como autor da letra do HINO DA PARNAÍBA, com música de Ademar Neves, oficializado através da Lei Municipal  Nº 255, de 07.09.1963, sancionada pelo Prefeito Lauro Andrade Correia. Antes da lei, a famosa obra era conhecida como Hino do Parnahyba Sport Club. Eis os versos iniciais:



             Ó Parnaíba,

            Teu nome exprime

            Em nosso peito

            Ardor sublime

            Que nos inspira a repetir a doce escala

            Da voz do rio que te envolve e que te embala.



          O HINO DA PARNAíBA é uma das mais belas composições cívicas do Brasil. Nessa peça poética de exaltação à cidade de Parnaíba, identifica-se verdadeiramente um hino patriótico, isto é, um canto de louvor ou de veneração a uma cidade e a seu povo, com características marciais ou solenes, traduzidas na retumbância de sons de clangor.  Por isso mesmo os  parnaibanos conhecemos bem a composição, que cantamos com entusiasmo em festas cívicas e em solenidades.

          Já ouvi alguns hinos de cidades, inclusive piauienses, que não entusiasmam as pessoas, nem pela letra nem pela melodia, exatamente pela ausência de recursos sonoros essenciais em obras dessa natureza. Não citarei exemplos para  não ferir suscetibilidades.

          Recentemente fui visitado pelo médico psiquiatra José Ribeiro Chagas, neto de R. Petit, cearense residente em São Paulo. Ele estava acompanhado do amigo Cosme Sousa. Com 67 anos de idade, o dr. José Chagas nunca tinha vindo a Parnaíba. Agora resolveu conhecer a cidade amada e homenageada pelo avô. Visitou o ex-prefeito Lauro Andrade Correia e o atual Florentino Alves Veras Neto.

          Através do ilustre visitante, com quem conversei por mais de uma hora, fiquei sabendo que R,PETIT foi compelido por autoridade local a sair de Parnaíba e ir para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo, contra a própria vontade e a de familiares, poque havia contraído lepra, infecção crônica e contagiosa ,  que provoca lesões na pele, mucosas e nervos periféricos, sem cura na época. A “expulsão” ocorreu numa madrugada de 1944, coincidentemente ano das  comemorações de 1º Centenário de elevação da Vila de São João da Parnahyba à dignidade de cidade.

          Em conversa por telefone, o poeta Elmar Carvalho me recomendou a leitura do capítulo  -  “O Preconceito da Lepra no Piauí”  -  , constante do livro GENU MORAES  -  A MULHER E O TEMPO. Nas páginas 283 a 287, Genu Aguiar de Moraes Correia presta corajoso depoimento sobre como a lepra  ou a simples suspeita da doença tornou pessoas e famílias vítimas de preconceitos.  GENU se refere a várias pessoas que na primeira metade do século XX foram hostilizadas no Piauí em razão de fofocas ou de comentários maldosos de que eram leprosas. Dentre as vítimas, ela cita o desembargador  e escritor Cristino Castelo Branco. Inventaram que uma de suas filhas estava com lepra. O magistrado, contrariado com as fofocas, que não correspondiam à realidade, aposentou-se como desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí aos 55 anos de idade, indo morar no Rio de Janeiro.

          Durante a conversa com o dr. José Chagas, eis que repentinamente entra na sala o vereador Neto – João Câncio Rodrigues Neto -  com uns  papéis que eu deveria assinar. Tomando conhecimento da revelação do médico, exclamou:

          - Puxa! Só agora entendo por que, na minha infância, quando meu pai (Olavo Pinho) quis comprar a casa da av. Capitão Claro, onde o poeta morou e que ainda hoje pertence à minha família, ouvia conselhos de que não deveria fazer a aquisição por se tratar de casa  mal-assombrada.

          R. PETIT é patrono da Cadeira Nº 09 da Academia Parnaibana de Letras – APAL, cujo primeiro ocupante é Alberto Tavares Silva.


                               Parnaíba, 09.08.2016.