domingo, 17 de dezembro de 2017

Ronald Trump no Muro das Lamentações

Fonte: Google

Ronald Trump no Muro das Lamentações

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Costumo chegar cedo ao templo. Concentro-me, leio o jornalzinho, antes do início da missa. Um trecho da carta do apóstolo Pedro grilou-me atenção por toda a semana: “O Senhor não tarda... um dia é como mil anos, e mil anos como um dia... O Senhor está usando de paciência... depois virá a desintegração do mundo!”

         O mês de dezembro acende a fé no Cristo que veio, estendeu sua tenda entre humanos, deixou o legado do amor e da esperança na sua volta “com grande poder e magestade”. Ninguém sabe o dia, nem anjos celestiais. No entanto, em momentos dramáticos por que passa o mundo, aparecem profetas de plantão a anunciar que a DESINTEGRAÇÃO” se aproxima, porque Deus já perdeu a PACIÊNCIA. A Igreja Católica evita, prudentemente, explorar a profecia de Cristo sobre o Final dos Tempos para não apavorar a esperança na PARUSIA e ARREBATAMENTO. O tema, porém, passa desapercebido pela mídia mercadológica, da comilança desenfreada, banquetes, presentes, cujo Deus é o estômago e o bolso, como nos tempos de Noé: mundo surdo e mudo, comilão e beberrão. E veio o dilúvio de surpresa.

         Presidente Donald Trump encontra-se no centro dos profetas de ocasião, por chafurdar, nos últimos dias, a combalida harmonia entre palestinos e judeus. Bilionário, prepotente, falastrão, sempre às turras com americanos e governos adversários mundo afora. Declarou todo apoio a Israel, ao retirar o direito sagrado dos palestinos a uma nesga parte de Jerusalém para o culto a Alá.

         Pastor da igreja evangélica, GIDEÕES MISSIONÁRIOS DA ÚLTIMA HORA, fundada em Santa Catarina, afirma ter recebido, em sonhos, que a última hora de paciência divina está próxima da desintegração. E exibe números cabalísticos e coincidências na figura do mais poderoso chefe do mundo, Trump.

         O pastor começa pelo nome, DONALD TRUMP: Donald significa senhor e juiz. Trump, trombeta. Segundo a profecia de Cristo, no final dos tempos, anjos trombeterão... Trump, para o gideão, é o ANTICRISTO anunciado por Jesus para o tempo da desintegração. O governo do anticristo estabelecer-se-á em Jerusalém. Trump elegeu-se, prometendo que “em judeu ninguém toca”. Em maio último, visitou a Cidade Santa, rezou, com quipá na cabeça, no Muro das Lamentações. Prometeu erguer o Templo, para alegria dos judeus. Segundo o profeta Daniel, o anticristo erguerá o Templo e o profanará. Em segunda carta aos tessalonicenses, apóstolo Paulo afirma que o anticristo se sentará no Templo e será adorado como Deus.

         As profecias bíblicas apontam o Monte Sião como centro e relógio do mundo. Agora, percebam os números cabalísticos: Trump assumiu o governo com sete décadas de vida e sete dias, no ano judaico 5777. Israel aguarda o real Messias das profecias bíblicas. Milhares de judeus já abandonaram nações onde residiam e foram morar em Israel. Atenções do mundo científico pressentem que a DESINTEGRAÇÃO se aproxima. E Cristo antecipou: “Vereis sinais no céu”. Parece que o pastor dos Gideões da Última Hora revive Noé. Acredito que, em plena badalação natalina, parece que o verdadeiro anticristo seja Papai Noel. Desencanta até o dono da festa, o aniversariante Jesus Cristo, com fantasias de um mundo onírico e gastador.       

Nelson Nery Costa é reeleito para presidência da Academia de Letras

Componentes da Comissão Eleitoral: Reginaldo Miranda, Dílson Lages e Des. Nildomar da Silveira Soares 

O advogado e escritor Nelson Nery Costa foi reeleito, neste sábado (16), presidente da Academia Piauiense de Letras. A nova diretoria vai administrar a instituição durante o biênio 2018/2019, dando continuidade ao trabalho que vem sendo desenvolvido no incentivo à produção literária piauiense.

A eleição contou com os votos de 28 membros. A nova diretoria é composta por Nelson Nery Costa, presidente; Zózimo Tavares, vice-presidente; Herculano Moraes, secretário geral; José Elmar Carvalho, primeiro secretário; Wilson Nunes Brandão, segundo secretário; e Humberto Guimarães, tesoureiro.

“A administração da Academia dará continuidade ao que vem desenvolvendo em termos de incentivo à produção tanto por parte dos acadêmicos quanto entre autores que vem despontando na literatura piauiense. Temos em voga duas coleções de livros, responsáveis por um boom na produção desta casa. Além disso, estamos em plena programação do aniversário de 100 anos da Academia. Isso vem motivando para que possamos pensar no futuro. Estamos realizando uma reforma na sede, a Casa de Lucídio Freitas, e instalando o Museu da Cultura Literária Piauiense, que conterá todo o acervo da academia”, avalia Nelson Nery Costa.

O centenário da instituição, comemorado no dia 30 de dezembro, será marcado ainda por uma missa em ação de graças, lançamento de obras e do Livro do Centenário da Academia e solenidade de entrega da Medalha do Centenário.

Fonte: CG Notícias

Seleta Piauiense - Nogueira Tapety

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Pesadelo atroz

Nogueira Tapety (1890 – 1918)

Mal sabe ela que todo este desregramento
é o véu sob o qual minha tortura oculto,
Pois quem vive como eu de tormento em tormento,
Necessita viver de tumulto em tumulto...

O que eu busco ao bordel, é a paz do esquecimento,
Mas na noite do vicio em as mágoas sepulto,
Como um ralo a luzir, de momento a momento,
Fere-me o pensamento o clarão do seu vulto.

Foi o vício o recurso extremo, o último apelo,
Que lancei, torturado, ao rumores do mundo,
Para me libertar deste amargo desvelo.

E quanto mais me excedo e em rumores me afundo,
Mais se arraiga em minhalma este atroz pesadelo,
Este afeto infeliz cada vez mais profundo.     

sábado, 16 de dezembro de 2017

MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (2)

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MODERNISMO BRASILEIRO: A DIMENSÃO QUE LHE FALTOU (2)

Cunha e Silva Filho


3. AS CONTRADIÇÕES: O NACIONAL E O ESTRANGEIRO.



      Nenhum movimento cultural é autônomo nas suas implicações e procedimentos. Portanto, quando reclamamos para o nosso caso uma literatura que reflita o nosso povo e a nossa nação, tal premissa se exime de ser absoluta em si. Não há essa ideia de pureza e de primitivismo quando delimitamos nossa definição de nacional. Exatamente porque no nacional está implícita a tradição literária por via da qual se transmitem as técnicas e formas literárias do exterior.
       É preciso estabelecer com critério o conceito de nacional sem o preconceito xenófobo. Lembre-se aqui a oportuna página de Machado de Assis contida no ensaio “Instinto de nacionalidade: O que de deve exigir do escritor antes de tudo é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.[3]    Sendo o Brasil um país de cultura transplantada e, depois, modificada a custo de variantes mesológicas, étnicas e culturais, a formação de nosso patrimônio literário esteve constantemente recebendo o influxo externo. Por conseguinte, o que aqui se formou foi acompanhado sempre do contributo de fora, primeiro pela influência portuguesa, depois, pela francesa e inglesa, sobretudo desta última ainda vigorante. Nosso primeiros homens ligados à cultura tiveram formação europeia e de lá nos trouxeram as modas literárias e as doutrinas filosóficas correntes.
        Quando pleiteamos uma literatura nacional não estamos somente nos referindo à temática local, mas também a fatores intrínsecos que nos enformaram literariamente, dos quais, entretanto, vamos pouco a pouco nos libertando por força de uma realidade nova.
     A escrita literária não se originou de um grau zero. Ela se insere no circuito de experiências e conquistas da tradição ocidental. Não fosse por isso, não teríamos nunca entre nós a contribuição de técnicas e descobertas no campo da poesia, da ficção e da teoria que já foram trabalhadas lá fora e, por via indireta, dos livros estrangeiros ou nacionais a que os autores locais tiveram acesso.
Recusar simplesmente a contribuição alienígena é praticar um ato de insensatez intelectual, sobretudo agora que temos à nossa volta a pressão do conhecimento globalizado via Internet.
     A grande incongruência que existe entre o nacional e o estrangeiro se coloca quando decorre no âmbito das instituições sociais e políticas, conforme se deu em nosso pais, onde o pensamento liberal de estofo europeu se chocava com o sistema escravocrata do Império ou com outros procedimentos de convivência social avançada apenas para inglês ver. Da mesma sorte, em outros setores da vida social, modas, hábitos, lazer, leituras etc.


4. O POVO COMO OBJETVO DE PESQUISA, MAS NÃO COMO SUJEITO PARTICIPATIVO


      Se o Modernismo brasileiro pretendia aproximar a realidade da literatura, não se compreende como, na primeira fase, a iconoclasta, ele tenha se constituído do ponto de vista de recepção do leitor, em movimento visceralmente elitista, principalmente no tratamento da linguagem poética ou ficcional. Neste sentido, o Modernismo deu as costas para o povo, que não leu e ainda não lê a sua produção. Estamos pensando em obras seminais à compreensão desse movimento, como Pauliceia desvairada (1922), Macunaíma (1928), Pau-Brasil (1929), Memórias sentimentais de Joao Miramar (1924).
      É bem provável que essas obras como outras apenas tenham despertado certa curiosidade no povo, porém não a iniciativa de efetivamente realizarem sua leituras, com exceção, nos parece, dos autores da ficção de 30, donos de uma literatura em geral sem hermetismos formais e, por isso, mais acessíveis à média da população. Haja vista a obra de Jorge Amado (1912-2001).
     Se o movimento procurou a todo custo fazer um balanço das potencialidades do homem brasileiro, no sentido até documental, nada indica que ele tenha se afastado de suas vinculações com a burguesia de então, pelo menos nos seus primeiros momentos. Quem iria dar efetiva contribuição, pelo menos como propósito de transformar o povo em matéria ficcional e, além do mais, como voz narrativa seria um contista, surgido na década de 1960 - João Antônio.[4]
     Na sua ficção deu ele voz a seus personagens, a maioria do submundo do eixo Rio-São Paulo. Porém, tanto os modernistas quanto João Antônio, e bem assim os ficcionistas da geração de 30, que inauguram o ciclo do de romances do Nordeste, iriam se defrontar com um impasse inescapável à condição do intelectual que se vê enredado no dilema de difícil superação: como lidar com uma literatura que fixa e movimenta uma galeria de despossuídos que jamais lerão seus livros e não têm o nível suficiente de escolaridade e de leitura para se verem retratados nessa ficção marginal?
    Na época do surgimento do romance brasileiro, a partir do Romantismo, o público leitor pertencia em geral à classe burguesa. Por outro lado, não se poderia também recriminar um ficcionista à altura dos anos 1960, 1970 e 1980 – caso de João Antônio e de outros autores da sua época - por fazer uma literatura centrada primordialmente nas camadas desfavorecidas da população brasileira, assim como nos temas em torno da vida de malandros (figuras que fizeram do contista um dos seus mais hábeis intérpretes na literatura brasileira moderna), marginais, prostitutas, traficantes, não obstante ser a ficção joãontoniana de alta qualidade literária.
     Assim como não poderíamos reprovar o fato de que ele se beneficiaria comercialmente dessa temática populista, uma vez que a obra ficcional produzida pelo mercado transforma-se em produto de consumo e, por vezes, faz de seu criador, se este provém de classe menos favorecida (exemplo também de João Antônio) um instrumento do jogo capitalista, gerador de lucro. Da parte da função de escritor, a meu juízo, não houve apelação ou expediente espúrio de explorar temas que lhe granjeassem ascensão social ou sucesso econômico.

     O escritor como intelectual é caudatário do sistema que ele próprio repudia. Jorge Amado, por exemplo, foi um escritor que, em determinada fase de sua produção literária, foi duramente criticado por alguns críticos por fazer algumas obras para deleite do turismo e não por sua qualidade literária. Contudo, essa crítica, sob pena de se tornar injusta, não poderia estender seu julgamento à obra geral dele. No exemplo de João Antônio, guardadas as diferenças com Jorge Amado, o nível estético de sua ficção não sofreu nenhuma queda.
    O contista não se sustentou tão-somente com a temática dos despossuídos, já que ainda com boa qualidade literária passou a explorar temas da classe média, da qual era um crítico feroz e demolidor, ainda que, aparentemente uma contradição, a sua nova condição social o colocasse na classe média. Esse, na verdade, é o dilema de qualquer escritor que tenha vindo dos estratos mais modestos da pirâmide social. Não importa, burguês ou não burguês, o escritor será um porta-voz, seja das classes mais altas, seja das médias e das humildes, Uma coisa têm os escritores em comum no seu ofício: sua arma é a linguagem, não a baioneta.(Continua)


[3] ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In: Obra Completa. p. 804. V. III.

[4] O autor deste ensaio defendeu, em 2002, uma Tese de Doutorado sobre João Antônio abordando primacialmente a figura do malandro no contista paulista. Título da Tese: O conto de João Antônio: na raia da malandragem. Faculdade de Letras, Rio de Janeiro: UFRJ, 2002, 349 p. Tese de Doutorado em Literatura Brasileira.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Meu pai e a sua Ítaca encantada

Miguel e seus filhos, na missa gratulatória de seus 90 anos de idade, celebrada em Parnaíba
Rosália, Miguel e Fátima, por ocasião do aniversário de meio século e um lustro de Elmar



Meu pai e a sua Ítaca encantada

Elmar Carvalho

Na tarde de domingo, dia 5 de novembro, após um breve cochilo, senti um forte, porém agradável cheiro de flores*, perto da rede em que eu repousava. Sabia que era um sinal. Entretanto, por cautela, perguntei a Fátima, minha mulher, e a minha filha Elmara se haviam usado algum tipo de perfume, sabonete ou desodorante. Ante a resposta negativa, não tive dúvida; meu pai, que se encontrava na UTI da Unimed, havia falecido. De fato, um pouco depois, meu celular tocou, e nesse telefonema meu irmão Antônio José me comunicou o falecimento de papai – Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

            Esse fenômeno, o cheiro de flores, sobre o qual não desejo emitir nenhuma explicação ou justificativa, me ocorreu pela primeira vez em junho de 2013, de madrugada, na cidade de Regeneração, alguns dias após o falecimento de minha mãe. Digo apenas que o entendo como um sinal de que existe algo mais do que apenas esta efêmera vida terrena, com os seus percalços e vicissitudes, em diferentes etapas de nossa trajetória existencial. Creio que ele é dado para vivificar a nossa Fé e para aumentar a nossa coragem e Esperança, bem como outras virtudes.

            Se fosse projetado o filme da vida de meu pai, com certeza a tela não teria apenas uma luminosidade vazia, destituída de imagens, como a daquele ermitão, que se limitou a não fazer o mal em sua gruta solitária, mas que também não praticou boas ações no convívio com outras pessoas, talvez no egoísmo de alcançar o céu a qualquer preço. Papai teve, como todos nós, as suas alegrias e tristezas, as suas conquistas e decepções, sobre as quais não irei aqui discorrer.

Aos 14 anos de idade, quando era aluno do Colégio Diocesano de Teresina, perdeu o pai, meu avô João de Deus, tendo que retornar a Barras, sua terra natal. Na maturidade, sofreu a perda de sua filha Josélia, quando ela tinha apenas 15 anos de vida. Em sua velhice, no final de abril de 2013, amargou a morte de sua amada esposa, minha mãe, que cuidou dele e dos oito filhos com exemplar e inexcedível dedicação. Faleceu em 5 de novembro de 2017, no dia em completava (exatamente) 91 anos e 10 meses de existência.  

Gostava de ler, sobretudo romances, contos e poemas, mas também livros religiosos. Tinha uma pequena biblioteca, que li em minha infância. Tomava emprestados livros de biblioteca públicas e particulares para que eu os lesse em casa. Gostava de música, principalmente as da velha guarda, que ouvia em programas radiofônicos, como o Gramofone da Vovó, apresentado pelo locutor Jaime Farell, através da Rádio Sociedade da Bahia, se não estou equivocado. Recitava de cor alguns desses poemas e cantarolava várias dessas músicas, cujas letras eram na verdade belos poemas. Durante algum tempo foi colaborador do jornal A Luta, de Campo Maior, com artigos ou crônicas, que escrevia em linguagem elegante e escorreita, mas sem nunca ter alimentado veleidade literária.

Não tinha pretensão artística porque sua meta primordial era sustentar sua família, composta por minha mãe e oito filhos. Seu esforço maior foi sempre cumprir suas funções, para conservar seu emprego, embora tivesse estabilidade em seu cargo efetivo, já que era servidor público federal, até se tornar celetista, quando o antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos foi transformado em empresa pública.

Tenho lembrança de ter ido com ele, em minha infância, assistir exibição de filmes no velho Cine Nazaré, espetáculos de circos que aportavam em Campo Maior, bem como fui com ele ao Estádio Deusdete Melo, para presenciarmos acirradas disputas futebolísticas, mormente entre os arquirrivais Comercial e Caiçara. Com ele fui, algumas vezes, participar de missas na igreja de Santo Antônio do Surubim, e até mesmo a desobrigas efetuadas pelos saudosos vigários Mateus Cortez Rufino e Isaac Vilarinho.

Prezando sobretudo a qualidade, teve seletos amigos ao longo de sua vida, cuja amizade cultivou e preservou, e dos quais recebeu idêntica e reciproca consideração. Tendo chefiado a ECT – Empresa de Correios e Telégrafos – em Parnaíba, por muitos anos, angariou a estima e a consideração de seus servidores, sendo que quase todos tinham idade de ser seus filhos, já que a maioria dos antigos servidores não optou em pertencer ao regime da CLT, adotado pela empresa criada a partir do antigo Departamento. Não lhes chamava a atenção em público, mas os orientava reservadamente, na sala da chefia. Teve a percepção antecipada de que o alcoolismo era uma espécie de doença, de modo que nunca propôs a demissão e punição de ninguém, em raros casos isolados que surgiram, para os quais encontrou solução menos drástica.

Dele recebemos bons conselhos e bons exemplos, que não desejo especificar, exceto um: numa época em que não havia cartão de crédito nem de débito, quando recebia algum dinheiro a mais, em troco ou em saque bancário, ato contínuo retornava para devolver a importância excedente que lhe fora indevidamente entregue.

No dia do seu sepultamento em Campo Maior, houve missa** de corpo presente na igreja de N. S. das Mercês. O padre Expedito Melo, em perfeita celebração, proferiu belas e confortadoras palavras sobre meu pai, que nos comoveram. Logo após a missa, em momento de muita inspiração, o grande tribuno João Alves Filho pronunciou lapidar necrológio, em que ressaltou as boas qualidades de um homem simples e bom, que se chamou Miguel Arcângelo de Deus Carvalho.

A caminho do cemitério em que papai foi sepultado, dentro de meu carro, a Maria Francisca, que foi nossa vizinha na primeira metade dos anos 1970, nos prestou comovente depoimento, cujo teor desconhecíamos. Ela disse que, algumas vezes, o papai lhe dava pequena ajuda, para que ela comprasse cadernos e outros materiais escolares, e que, muitas vezes, lhe advertiu para que nunca desistisse de seus estudos, esclarecendo-lhe que esse era o único meio de uma pessoa pobre melhorar de vida. Respondi-lhe que nessa época ele atravessava situação financeira difícil, pois ainda não ascendera a novo cargo em seu emprego, e sua família era grande. Ela respondeu, com a voz embargada pela emoção, que sabia disso.

Com a morte de mamãe, com quem viveu em admirável e longa união, em amizade e respeito recíprocos, meu pai começou a declinar em sua energia vital. Contudo, mesmo faltando apenas dois meses para completar 92 anos, se manteve lúcido e se locomovendo com suas próprias pernas, com exceção dos momentos em que esteve na UTI, onde faleceu.

Com Fé, Esperança e coragem alicerçada em fervorosas orações, enfrentou as vicissitudes momentâneas de sua longa vida. Combateu o bom combate dos homens de bem, dos homens que acreditam em Deus e na vida eterna.

Parafraseando o notável poema de Konstantinos Kaváfis, direi que a vida de papai foi uma bela viagem, com pequenas turbulências e bonanças, mas com o descortino de deslumbrantes paisagens, e que, em coroamento, ele encontrou Ítaca, a sua ilha encantada.   

* Vê a crônica Cheiro de Flores, que se encontra publicada na internet.


** As missas de corpo presente e de sétimo dia contaram com o apoio logístico do amigo professor José Francisco Marques e com a boa vontade e compreensão do celebrante, Pe. Expedito Melo. Tiveram a presença de familiares e amigos da família, aos quais somos gratos.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Estão matando gente que nem se mata cachorro no Oriente Médio


Estão matando gente que nem se mata cachorro no Oriente Médio

Pádua Marques
Jornalista, cronista e romancista

Dia desses, há pouco mais de um mês, um rapaz de seus dezessete anos, ladrão de pequenos objetos e guardador de carros nas horas vagas, quase, por uma peinha de nada não acaba sendo linchado no centro de Parnaíba por uma multidão de gente enfezada, feito assim do tipo, comerciantes, clientes, desocupados e a sempre pronta milícia dos mototaxistas das esquinas e da praça da Graça.

Pelo que se sabe o jovem é morador de rua, natural de Fortaleza e já tendo na ficha técnica e no curriculum vitae uma acusação de ter matado uma pessoa. Segundo testemunhas, acabara de roubar uma caixa de som numa loja. Está naquele chamado, curso de graduação, depois vem a pós e, coisa rápida, assim num esfregar de olho, algumas passagens pela Central de Flagrantes deve tentar um voo mais alto, um mestrado no mundo do crime.

O certo é que o rapaz de iniciais J.A.C apanhou mais que galinha pra largar o choco. Foi taca pra todo lado e em tudo que era parte do corpo. Cabeça, tronco, membros, os inferiores e os superiores, entre as pernas, no solado dos pés. Pelo que fiquei sabendo uma milícia de mototaxistas foi a que bateu mais e só não matou porque a uma altura daquelas alguém havia chamado a polícia. Essa, chegando tratou apenas de apreender o rapaz.

Mas pelo que se soube deixou sem qualquer punição as pessoas que por pouco não cometeram um homicídio. Sem querer ser advogado de defesa de um marginal, fico aqui pensando a quantas anda a falta de segurança em todo o Brasil e na Parnaíba a ponto de mais de trinta pessoas pegarem um aprendiz de ladrão, desarmado, magro, faminto, usuário de drogas e, baterem na base do chute, golpes de pau e murros. Mais um pouco e era capaz de terem capado ele.

Baterem nele mais que cozinheira bate em bife. E este não foi o primeiro e certamente não será o último caso de tentativa de linchamento de pessoas cometendo crimes aqui em Parnaíba. E a gente que era acostumado a ver apenas nos filmes policiais ou nos noticiários da televisão, agora nem precisa mais esperar por Hollywood. Todo dia os portais e a televisão mostram. Desde as seis da manhã até às seis da tarde na televisão.

A violência está solta. Roubo e furto de celular a toda e qualquer hora do dia e da noite. Aliás, ladrão, de terceira linha não e nem procura mais dinheiro entre as vítimas. Procura o celular. Virou a primeira moeda, aquela de maior poder de troca no mundo da criminalidade. E por causa de celular estão matando gente aqui que nem cachorro nesses países muçulmanos.

Deus mesmo é que há de livrar os cachorros daqui caírem na besteira de pender praquele lado. Diabo é quem quer ser cachorro naquele fim de mundo. Por uma besteira de nada a pessoa pode perder a vida. Ninguém tem mais segurança nem sentado na calçada pra falar mal de quem passa. Ninguém se admira mais de ver gente morta, assassinada, ensanguentada, desfigurada. E a gente da minha geração achando que a Segunda Guerra havia terminado...   

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Carta/resenha de Histórias de Évora (*)


Meu caro mestre Elmar,

Foi quase de uma sentada só, de um único folego que li seu livro Histórias de Évora.  Acredito que seu primeiro romance, visto que de sua lavra conheço ensaios, contos e poesias. Foi sem dúvida uma bela estreia, merecendo todas as congratulações pela iniciativa e mais ainda pela criatividade.

Como você mesmo confessa a obra contém certas histórias vividas pelo autor, por amigos e outras concebidas pela imaginação criadora, todas elas adaptadas ao contexto pretendido.

Confesso que Histórias de Évora me levaram à juventude vivida em minha Floriano, nada diferente da sua cidade fictícia, iguais às nossas do interior. Recordei várias passagens vividas por mim e amigos daquela época, alguns dos quais perdi o contato ao longo da vida, mas que agora vieram à mente com o gosto da saudade.

Relembrei a retreta dominical na praça Sebastião Martins, sempre sob a batuta do Mestre Eugênio. As salas de aulas do Educandário Santa Joana D’Arc e do Ginásio Santa Teresinha e assim muitos professores a quem devo os primeiros passos de minha formação. Foi fácil voltar à memória o Bar São Pedro, a Sertã, o Flutuante, que ainda sobrevive. Seu livro também me fez recordar o Bumba meu Boi que Né Preto comandava no mês de julho e terminava sempre nas margens do rio Parnaíba, onde o boi ia beber água. Foi ótimo relembrar os carnavais com os blocos Os Piratas, Os Malandros, o Bota pra Quebrar, Os Pilantras, onde todos se divertiam sadiamente visitando casas familiares previamente selecionadas para ali cantar, tocar, comer e beber por conta da gentileza dos anfitriões. Foi muito bom voltar à memória a nossa “Zona Planetária” onde pontuavam o Maracangalha, a Eva, a Pretinha, todos fazendo parte do complexo Pau num Cessa. 

Creia-me meu caro poeta, Histórias de Évora foi uma leitura gostosa em muitos sentidos, mas confesso o saudosismo, aquele que nos traz de volta a vivências agradáveis, foi o sentido maior. 

Parabéns, meu caro mestre. Estou ansioso pela próxima obra que com certeza já está na forma.

Seu sempre admirador

Cristóvão Augusto de Araújo Costa 

(*) Carta internética (e-mail) enviada pelo autor, após a leitura de Histórias de Évora, romance de Elmar Carvalho. Cristóvão Augusto é servidor público federal aposentado e é um dos editores da Coleção Florianenses, importante periódico publicado pela Fundação Floriano Clube.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Seleta Piauiense - Alcides Freitas

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Um soneto do noturno

Alcides Freitas (1890 – 1913)

Andam chorando as chuvas nos telhados,
lágrimas frias de compridas águas,
como se, nesses prantos derramados,
chorassem olhos de perpétuas mágoas...

Gemem, profundamente, desalmados,
como o furor das ondas pelas fráguas,
os peitos largos dos trovões pesados,
na hidropisia das primeiras águas...

Eu fui assim também... E a natureza
lembrava-me doridas privações
de almas chorosas, roxas e viúvas...

Hoje... pouco me pesa essa tristeza!
Podem rachar os peitos dos trovões,
correr sem fim as lágrimas das chuvas...

(Antologia da Academia Piauiense de Letras, org. Wilson Carvalho Gonçalves)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Capitão Domingos Dias da Silva

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Capitão Domingos Dias da Silva

Reginaldo Miranda
  
Um dos principais homens de negócio do Estado Colonial do Maranhão-Piauí, no último quartel do século XVIII, foi o português Domingos Dias da Silva, estabelecido na vila de São João da Parnaíba. Natural da freguesia de Padornelos, concelho de Montalegre, no norte de Portugal, era filho de João Dias da Silva, vereador e juiz ordinário na referida freguesia de Padornelos, e de sua esposa Maria Gonçalves; e avós paternos Manuel da Silva e Ana de Oliveira, todos naturais e moradores no referido lugar.

Em sua terra natal, Domingos Dias da Silva viveu a infância e juventude, alternando o tempo entre os estudos regulares, as brincadeiras típicas da época e o trabalho junto ao genitor.

No entanto, mal completa a maioridade realiza o sonho que há muito acalentava de fazer fortuna na colônia, como muitos de seus conterrâneos, cujas histórias de vida, ouvidas nas rodadas de boca-da-noite, embalaram seus pensamentos juvenis. Tão logo atingiu aquela idade necessária ao amadurecimento intelectual reuniu alguma economia, recebeu a bênção dos genitores, embarcou em um navio no porto e rumou para os pampas do Rio Grande do Sul, onde, certamente tinha alguma referência. Ali chegando não perdeu tempo, madrugando para o trabalho: arrendou terras, criou e comercializou gado, entre os mais diversos gêneros e fazendas, iniciando uma atividade que, mais tarde, iria desenvolver com experiência no Piauí. Em pouco tempo fez fortuna. Quem assim testemunha é um seu contraparente, em 1877, o coronel José Francisco de Miranda Osório, casado com uma sua sobrinha-neta, dizendo que ouvira de seu tio-afim e sogro Manuel Antônio da Silva Henriques, antigo caixeiro, sobrinho e testamenteiro daquele. Portanto, quem lhe passou as informações foi uma pessoa muita próxima dos dois, que convivera com o biografado. Segundo a informação, quando Domingos Dias da Silva veio para o Piauí, em 1768, trazia não pequena fortuna, traduzida em moedas, obras de ouro e prata, além de outras em barras fundidas.

Entretanto, como se trata de memória oral, fundada na tradição familiar, pode merecer reparos sendo necessário o cotejamento com a documentação histórica. O historiador Odilon Nunes, bem analisou esses fatos chegando à conclusão, com argumentação sólida, de que em 1770, Domingos Dias da Silva ainda não estava no Piauí, caso contrário, “teria concorrido no fornecimento de carne ao Pará” (NUNES, Odilon. Economia e finanças: Piauí Colonial. In: Estudos de História do Piauí. 2ª Ed. Coleção Centenário 8. Teresina: APL, 2014).

Para aquele dedicado estudioso de nossa história, Domingos Dias da Silva, mui provavelmente “chegou a Parnaíba em 28 de março de 1772”. Baseou sua presunção numa missiva que o governador Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, enviou ao juiz ordinário de Parnaíba, em resposta às notícias anteriormente recebidas:

“Entre as novidades que me refere no Diário de V. Mcê, do mês de março, veio dizer-me que no dia 28 do dito mês chegava a essa vila João Paulo Diniz no seu barco vindo do Maranhão com toda a sua família, e que no mesmo também viera um homem, cujo nome ignorava, com mulher e filhos para na dita vila se estabelecer” (CABACap. Livro 5, 132 a 132v. Carta de 21.4.1772. In: NUNES, Odilon. Economia e finanças: Piauí Colonial. In: Estudos de História do Piauí. 2ª Ed. Coleção Centenário 8. Teresina: APL, 2014).

Entretanto, ao contrário do que presumiu Odilon Nunes, aquele mencionado passageiro que despertara a atenção do governador não poderia ser Domingos Dias da Silva, porque este veio solteiro e seus dois herdeiros, havidos com mulheres também solteiras, já nasceram no Piauí. Também, sobre não haver concorrido no abastecimento de carne ao Pará em 1770, temos uma explicação. Poderia perfeitamente já morar na Parnaíba, porém, tendo chegado dois anos antes ainda estava se organizando, não tendo, assim, condições de ter enfrentado aquele empreendimento. Ainda, ao contrário do que afirma o ilustrado parente, e foi lembrado pelo diligente Odilon Nunes, naquele tempo ainda não havia sido implantada a indústria de charque no Rio Grande do Sul. Logo, não foi ali que se iniciou nesse comércio nosso biografado, nem foi pioneiro no Piauí. Para nós, Domingos Dias da Silva pode ter chegado a Parnaíba mesmo em 1768, a convite de João Paulo Diniz, com ele tendo se iniciado no comércio de charque a partir de 1773, quando implantou suas fazendas, feitorias e adquiriu as primeiras embarcações, logo mais suplantando o preceptor.

Portanto, se João Paulo Diniz foi o introdutor da indústria de charque no Piauí, Domingos Dias da Silva foi seu consolidador e maior expressão desse comércio, praticamente dominando-o. Também, foi o pioneiro da navegação em alto-mar, do comércio direto entre a vila de Parnaíba e a metrópole de Lisboa, iniciado em 1779. Vejamos o depoimento do coronel José Francisco de Miranda Osório em carta dirigida ao desembargador Cândido Gil Castelo Branco, então no Rio de Janeiro(1877):

“Teve aqui grossa riqueza, tornando-se rico fazendeiro, lavrador com grande número de escravos e negociante de grosso trato, em cujo manejo custeava 5 navios, ocupando 3 na exportação das carnes e 2 que navegavam diretamente para Lisboa e Porto, a conduzir fazendas e gêneros daquele país, que vinham ao Maranhão despachar na alfândega, e dali para aqui. Tornou-se quase que exclusivamente o arrematante dos dízimos desta capitania, desde a Parnaíba até Parnaguá, no que era sempre preferido, porque os pagava à vista. Dos seus gados – os bois eram para o charque, as fêmeas para situar fazendas.

‘Este homem faleceu em 1793, deixando em movimento o grande estabelecimento de charque, e colossal fortuna, ...

‘Com o estabelecimento de charque de Domingos Dias, outros homens daqui estabeleceram-se também, alguns coadjuvados por Domingos Dias, e todos vendiam a este suas carnes, de forma que o único exportador delas era o mesmo Domingos Dias. Há história antiga que sei em grande parte por tradição, e informações que obtive do meu falecido sogro, o coronel Manuel Antônio da Silva Henriques, que era sobrinho e foi caixeiro e testamenteiro do tio o dito Domingos Dias da Silva”.

O ilustre piauiense ainda tece valiosas informações sobre a forma como eram preparadas as carnes para exportação:

“Preparava-se a carne de duas formas – de tassalho e de posta. Depois de seca em tabuleiros recolhia-se ao armazém. Por ocasião da exportação era empilhada no porão do navio em sua quase totalidade, indo algum em garajau. Tinha grande alcance comercial, pelo que matavam-se anualmente alguns milhares de bois. Exportava-se a carne para a Bahia, Pernambuco, Maranhão e Pará e uma ou outra vez foi até o Rio de Janeiro” (In: COSTA, F. A. Pereira da. Cronologia Histórica do Estado do Piauí. Vol. 1. 3.ª Ed.. Coleção Centenário 17. Teresina: APL, 2015).

Esse é o testemunho guardado na memória familiar e na tradição secular da Parnaíba. Porém, o trecho aqui transcrito encontra respaldo na documentação histórica. É bem verdade que Domingos Dias da Silva não foi o pioneiro da indústria de charque no Piauí. Porém, depois de cinco anos na Parnaíba, a partir de 1773 assume a liderança dessa indústria e, por vinte anos, foi o maior exportador desse produto em todo o Estado Colonial do Maranhão-Piauí. Ao chegar a Parnaíba no ano de 1768, como quer a memória da família, trazendo não pequena fortuna angariada no Rio Grande do Sul, abre casas comerciais, instala fazendas, feitorias, compra e/ou constrói sumacas e, por fim, depois de cinco anos se lança na indústria do charque em sucessão a João Paulo Diniz. Com o tempo, lança-se na arrematação dos dízimos reais desde a Parnaíba até os confins de Parnaguá, tornando-se o preferido nas arrematações trienais, em face de pagar à vista. Parnaíba passa a atrair embarcações de praticamente todos os demais portos do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Pará, que trazendo mercadorias da Europa as trocam pelo charque e o couro. Aquelas são vendidas aos fazendeiros do sertão, enriquecendo os comerciantes, sobretudo a Domingos Dias da Silva, que assume o monopólio desse comércio. Depois de pouco tempo nesse labor angariou monumental fortuna e tornou-se o homem mais rico do norte do Brasil, com invejável patrimônio.

E porque a navegação costeira já não era suficiente para atender às suas necessidades, vencendo todas as adversidades burocráticas, em 1779 inaugura a navegação de alto mar, iniciando o comércio direto com a metrópole. Aliás, esse assunto foi objeto de atenção do historiador Odilon Nunes, que assim se reportou:

“O comércio direto com a Metrópole parece que foi feito também por Domingos Dias da Silva. Conhecemos alguns documentos em torno da licença que lhe foi concedida e a cassação dessa licença, porque Parnaíba não tinha alfândega em que se despachassem as mercadorias que saíam prejudicando assim a Fazenda Real (CABACap. Carta de 29 de janeiro de 1779, de Joaquim de Melo Póvoa à Junta Governativa do Piauí. Livro 2. 2ª Parte. P. 129v/130. Carta de 29 de abril de 1778, da Junta Governativa a Domingos Dias da Silva. Livro 33. P. 37. Carta de 18 de abril de 1779, da Junta Governativa ao Juiz e Oficias da Câmara de Parnaíba. Livro 33. P. 72v. Carta de 5 de junho de 1779, da Junta Governativa ao General do Estado. Livro 23. P. 71v).

‘Admitamos a possibilidade de que seus barcos tenham viajado posteriormente para a Europa, em viagem direta, sem o obrigatório trânsito pelas capitanias que tinham alfândega, porque Simplício Dias, em 1803, quando pede, com outros, a criação da alfândega de Parnaíba, dissera ‘que não pudera obter êxito do Exmo. Sr. General que se continuasse com a navegação da sua sumaca em direitura deste porto para o de Lisboa, como fora concedido a seu falecido pai... (CABACap. Ofício de 19 de julho de 1803, de Pedro José César de Menezes a Simplício Dias da Silva. Livro 45. P. 1v/2. Ofício de 25 de julho de 1804, de Pedro José César de Menezes a Simplício Dias da Silva. Livro 45. P. 13. Provisão de 23 de setembro de 1803, do Conselho Ultramarino. Livro 46. P. 8/9. Antonino Freire. Limites entre o Piauí e o Maranhão. 1907. P. 81/88).

‘Não é duvidoso que haja documentos que elucidem o fato.

‘A criação da alfândega só mais tarde seria conseguida após a Independência do Brasil” (NUNES, Odilon. Economia e finanças: Piauí Colonial. In: Estudos de História do Piauí. 2ª Ed. Coleção Centenário 8. Teresina: APL, 2014).

De fato, como previu Odilon Nunes, existe sim documentação que comprova ter o megaempresário Domingos Dias da Silva inaugurado a navegação direta do Porto das Barcas, em Parnaíba, para o reino, em 1779, época da correspondência vista pelo referido historiador. Para isso conseguiu o passaporte diretamente com o governo interino do Piauí. Porém, muitos foram os entraves burocráticos, enfrentando percalços no retorno por ter sido a licença cassada pelo governador do Maranhão, Joaquim de Mello e Póvoas. Dessa forma, em 1779, foi direto de Parnaíba para Lisboa, mas no retorno foi obrigado a vir pelo porto de São Luís, submetendo-se à alfândega local. E na nova expedição que fizera no ano seguinte, na ida e volta foi obrigado a passar pelo porto de São Luís do Maranhão, onde tinha alfândega. Nessa navegação persistiu com dois navios de sua propriedade, alargando, assim, as possibilidades econômicas de Parnaíba e do Piauí.

Nessas circunstâncias, em face da cassação da licença pleiteia o Senado da Câmara de Parnaíba, em 29 de dezembro de 1779, que na ausência de alfândega, lhes seja autorizada e concedida a franquia daquele porto para o livre comércio com o reino, e o mesmo Senado autorizado a cobrar os direitos da Real Fazenda. Justificam o pleito “porque pondo-se este porto franco com liberdade de comércio, e saírem dele as embarcações em direitura ao reino, e dele virem da mesma forma em direitura a este porto, resulta grande aumento ao País, e muita conveniência à Fazenda Real, e aos moradores não só da capitania do Piauhi, mas também a grande parte dos da capitania do Maranham, que vivem pelo sertão dentro, e padecem o mesmo discômodo dos do Piauhi, porque ainda que queiram tratar da agricultura das terras, também não podem dar saída às suas drogas, por as não poderem levar ao Maranham pela dificuldade dos caminhos, o que lhe fica muito favorável a este porto, pela liberdade que lhe franqueia este rio da Parnahiba, que é navegável de todo o ano com canoas, e divide esta capitania da do Maranham, correndo por entre elas mais de duzentas léguas, e por ele podem descer todos os efeitos da agricultura dos sertões com muita facilidade, e tirarem-se muitas madeiras para fazerem as embarcações, de que abundam as matas da beirada do dito rio” (AHU-ACL-CU 016-Cx 13, D. 773).

Evidentemente, que esse pleito do Senado da Câmara da vila de São João da Parnaíba, foi formulado por influência de Domingos Dias da Silva, não sendo, porém, atendido pelas autoridades. Por essa razão, depois de duas expedições de suas embarcações para a corte, sendo uma direta e outra passando pela alfândega do Maranhão, em 1781, pede ele à rainha licença e passaporte aos proprietários das embarcações da vila de São João da Parnaíba, para navegarem daquele porto direto para a Corte, na forma que com ele já se havia praticado. Pede também a criação de uma alfândega na Parnaíba.

Então, sobre esse pleito, a pedido do Conselho Ultramarino(Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios de Ultramar, Martinho de Melo e Castro), emite parecer o governador do Maranhão, D. Antônio de Sales e Noronha, relembrando duas ocasiões anteriores em que o mesmo Domingos Dias da Silva navegara para a Corte:

“Que requerendo o suplicante Domingos Dias da Silva ao governo interino do Piauí, licença e passaporte, para do porto da Parnaíba expedir em direitura para o dessa Corte a sua sumaca, aquele governo lhe facilitou a sua pretensão, ordenando à Câmara lhe tomasse os manifestos, e concedesse passaporte; em virtude do que fez ele a primeira expedição no ano de 1779; mas constando ao meu antecessor do modo porque ela se fez, em a certeza de não haver naquele porto Alfândega nem Ministros competentes para lhe dar os despachos do estilo, e arrecadar o direito do subsídio estabelecido nos couros em cabelo, e curtidos que saem destas Capitanias, passou as ordens necessárias a impedir a dita navegação em direitura; do que sendo eu ciente, voltando a sumaca dessa Corte a este porto, lhe fiz pagar todos os direitos que devia, e ao mesmo tempo ratificando a ordem do dito meu antecessor; de que resultou, que intentando o dito suplicante fazer segunda expedição, mandar a sumaca a este porto, onde recebeu os despachos para seguir como seguiu a sua viagem. É porém certo, que a obrigação de fazerem esta escala as embarcações que se destinarem da Parnaíba para esse reino, é de incômodo e também pode ser de prejuízo pelo perigo da entrada e saída desta barra, e pela maior despesa que sem dúvida hão de fazer na demora que aqui tiverem. Mas também é certo, que não havendo ali alfândega, podem ter descaminhos os direitos reais; pois ainda que presentemente o contrato dos subsídios estar por arrematação, e o contratador tem naquela vila administrador que cuide na sua arrecadação, pode bem suceder, que não havendo quem remate este contrato venha a Real Fazenda a experimentar decadência” (AHU-ACL-CU 016-Cx 13 – Doc. 787).

Em continuidade ao seu parecer, acrescenta o governador do Maranhão, em sintonia com o que dissera dois anos antes os vereadores do Senado da Câmara da Parnaíba:

“Esta vila de S. João da Parnaíba vai em aumento por o seu porto ser mui frequentado de embarcações de todos os mais portos do Brasil: nele dão saída a muitas fazendas da Europa, que vendem a troco de bois, que fazendo-os em carnes secas as transportam com os couros para os mesmos portos, e também para esse reino, como tem feito o suplicante, e o virão a fazer outros, quando se lhe franqueie este comércio; porque então se aplicarão também aqueles moradores à cultura do algodão e do arroz, na certeza de que ali acharão logo quem lhes compre, ou embarcações para os navegarem por sua conta” (AHU-ACL-CU 016-Cx 13 – Doc. 787).

Por fim, conclui D. Antônio de Sales e Noronha, seu parecer opinando da seguinte forma:

“Quando criar-se na dita vila alfândega, parece-me, que é o meio mais útil para evitar qualquer descaminho dos Direitos Reais, que devem pagar os gêneros de exportação, como os de importação, concedendo-lhe a navegação em direitura desse reino; porque ainda que ao princípio seja de pouca importância, em breves anos virá a ser de um considerável rendimento, e por consequência a mesma vila uma interessante colônia.

‘Não se criando nela alfândega, não descubro outro meio para a arrecadação dos direitos, que o de nomear-se um Provedor Comissário, com oficiais competentes, que deem os despachos necessários, e ponham em arrecadação os mesmos direitos, com obrigação de dar conta a esta Junta da Real Fazenda, pela qual se devem nomear os tais comissários com os ordenados proporcionados ao trabalho que ali podem ter.

‘Isto é o que me parece, e o que S. Maj., determinar há de ser sempre o mais conveniente. Deus guarde a V. Ex.a. Maranhão, 14 de novembro de 1781. D. Antonio de Sales e Noronha” (AHU-ACL-CU 016-Cx 13, D. 787).

De fato, nem foi criada a alfândega tão pleiteada pelos comerciantes e políticos da Parnaíba, nem foi autorizado o Senado da Câmara a administrar o comércio e cobrar os impostos reais. Porém, foi acatado esse parecer e criado o cargo de Provedor Comissário para despachar e pôr em arrecadação os direitos reais, submetido à Junta da Real Fazenda, sendo nomeado para ocupá-lo o criador e militar, João Paulo Diniz. De toda sorte, até o fim de sua vida foi o capitão Domingos Dias da Silva, incansável em sua luta pela criação da alfândega de Parnaíba, o que teria aberto novas possibilidades comerciais para a localidade.

Persistindo nesse comércio com a metrópole, em 21 de junho de 1785, o capitão Domingos Dias da Silva volta a enfrentar problemas com o Real Fisco de São Luiz do Maranhão. No momento em que sua sumaca por nome Nossa Senhora da Conceição Santo Antônio e Almas, ancorava no Porto das Barcas, vinda de Lisboa, teve toda a sua mercadoria apreendida pelo juiz da Real Junta de Arrecadação do Maranhão. Debalde foi sua argumentação de que as referidas mercadorias haviam sido despachadas pela alfândega de Pernambuco, quando o navio ali aportara antes de se dirigir a Parnaíba. Então, seguiu em sua sumaca até São Luís, acompanhando a mercadoria ia transportada em outra sumaca com o juiz e ali fazendo diversos pleitos para conseguir a sua liberação. A história de sua vida é, pois, a de um homem de visão e capacidade empreendedora que enfrentou toda sorte de adversidade para fundar indústrias e fazer comércio na colônia. Em petição à Junta de Arrecadação da Real Fazenda, justificou o pioneiro de nosso comércio marítimo:

“Diz o capitão Domingos Dias da Silva, assistente na vila de São João da Parnaíba, que mandando para Lisboa a sua sumaca da invocação de Nossa Senhora da Conceição Santo Antônio e Almas, mandou logo recomendar ao seu correspondente Policarpo José Machado, que lhe não mandasse nela fazenda alguma, e tão somente com carga de sal para as oficinas que tem o suplicante naquela vila, em que manda fazer carnes secas; recomendando outrossim ao dito seu correspondente que lhe mandasse uma receita de fazendas em navios que viessem ao porto desta cidade [de São Luís do Maranhão]; o que tudo executou o correspondente do suplicante inteiramente, mandou-lhe a sumaca sem outra carga tal que a do sal pedido, como foi averiguado a requerimento do suplicante, estando a dita sumaca em franquia na barra daquela vila, e tudo consta nos documentos número primeiro, segundo, terceiro e quarto. Vendo o correspondente do suplicante que não haviam navios para o porto desta cidade com a brevidade que lhe era recomendada a remessa das fazendas, enviou estas pelo navio São José Macapá, capitão José Ferreira Loires, e pelo navio Mãe de Deus e Santa Ana, capitão Ignácio José Baptista, para a cidade de Pernambuco a entregar a Domingos Pires Ferreira, como consta das carregações, e cartas número quinto, sexto, sétimo e oitavo, o qual tomando conta delas as fez despachar naquela alfândega, que por se achar sumaca do suplicante naquele porto a demorou para trazer as ditas fazendas mandando ao suplicante a cópia, e conta das despesas que fez com os despachos das mesmas, conta com os documentos números nono, décimo, undécimo, duodécimo, décimo terceiro, décimo quarto e décimo quinto” (AHU-ACL-CU 015-Cx 155, D. 11159).

Então, anexou à justificação diversas cópias de documentos, inclusive guias e certidões emitidas pelo juiz e oficiais da mesma alfândega de Pernambuco, provando a legalidade do transporte de sua mercadoria. Sobre o assunto acrescentou:

“Chegou enfim a dita sumaca ao porto da vila de São João da Parnaíba em tempo que nela se achava o doutor juiz da alfândega desta cidade, Antônio Pereira dos Santos, e sem mais averiguação da certeza do referido, que se prova pelos documentos indicados, pegou na dita fazenda, e a mandou passar para a sumaca, em que a transportou para esta cidade sem atender nem aos muitos protestos que lhe fez o suplicante, nem aos oferecimentos que fez de dar as mais abonadas fianças a toda e qualquer determinação, que pela Real Junta da Fazenda desta cidade ultimamente fosse deliberado, e nem ao risco, que correm as fazendas na perigosa viagem daquele para este porto, e deste para aquele. Com este procedimento não só se sente o suplicante muito prejudicado, mas a mesma Real Fazenda de Sua Majestade, porque é notório, e ninguém duvida, que o suplicante é um dos vassalos mais úteis que tem Sua Majestade neste Estado, pois utiliza não só a Real Fazenda dele, mas a de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, e a todos os povos desses quatro Estados. A Fazenda Real deste Estado, porque o suplicante tem arrematado os subsídios e dízimos da capitania do Piauhi por preços avultados, e em ocasião que não há lançadores. A Fazenda Real de Pernambuco, porque paga de cada arroba de carne que para lá manda cento e sessenta reis de subsídio, e no Rio de Janeiro por cada arroba quarenta reis de direitos na alfândega, de cada coiro sessenta reis, e de cada vaqueta quarenta reis, sendo o menos que manda para aquelas cidades todos os anos quinze mil bois salgados com o seu sebo, coiro e vaquetas correspondentes; de cujos direitos privou o dito Ministro àquelas alfândegas este ano, e àqueles e este povo da utilidade, que desta remessa de carne lhes resulta, com o procedimento de trazer a fazenda do suplicante para esta cidade, e ao suplicante em sua companhia. Todos sabem que nos meses de julho, agosto e setembro, se fazem as matanças dos gados para os reduzir a carnes secas. Nestes mesmos meses é quando se compram as boiadas naquela vila. Neles arrecada o suplicante as suas dívidas, cobra os subsídios da coirama e vaquetas que se embarcam, cobra os dízimos dos gados que se lhe devem para fazer os pagamentos anuais da Real Fazenda, e é quando carrega as suas sumacas para as despedir em outubro para aqueles portos do sul, o que nada pode fazer este ano pelo procedimento que com ele tem praticado o dito Ministro, em que lhe vem a dar de prejuízo o melhor de sessenta mil cruzados, o que de sorte alguma será do  agrado de Sua Majestade quando chegue à sua real presença os justos clamores do suplicante. Também é bem certo, que em todo este Estado não tem Sua Majestade vassalo, que em utilidade do público, e da Real Fazenda maneie  maior comércio que o suplicante, tendo por isso as melhores correspondências e de homens mais verdadeiros que se dão nas cidades do Brasil, e na Corte de Lisboa, e com este procedimento do dito Ministro fica o suplicante desacreditado, e na opinião do vulgo por contrabandista, e raptor dos direitos de Sua Majestade, quando sempre foi conhecida a honra com que tem vivido, assistindo para as guerras do Rio Grande, e Santa Catharina com três embarcações que lhe ficaram destroncadas, e desmastreadas das balas inimigas, e com doze mil cruzados com carnes para os Armazéns e Armadas Reais, que até o presente lhe não pagaram, nem o suplicante tem pedido, não merecendo por nada disto o cabeo que de presente lhe quer impor o dito Ministro, dando ocasião que se lhe macule a honra por tão pouco” (AHU-ACL-CU 015-Cx 155, D. 11159).

Para justificar esse ato de violência alegou o juiz da Real Junta de Arrecadação do Maranhão, que não haviam sido pagos os direitos dos despachos da alfândega de Pernambuco. Porém, Domingos Dias da Silva argumentou que era costume ali se pagar os direitos em três quarteis de três em três meses. Ainda assim juntou prova de que seu correspondente em Pernambuco, Domingos Pires Ferreira lhe havia remetido cópias de tais pagamentos. Enquanto isso sua sumaca permanecia ancorada no porto de São Luís do Maranhão, à espera da liberação da mercadoria pela qual tanto lutava. Era capitão dessa sumaca, Ignácio Francisco Roza.  Esse pleito está recheado de documentos anexos e informações relevantes, inclusive com passaporte de retorno emitido no dia 18 de abril de 1785, em Lisboa. Existe farta prova de que no momento em que sua sumaca chegou à Parnaíba e se achando em franquia fora da barra, comunicou ele ao juiz ordinário Thomaz da Silva Carvalho e ao mestre de campo João Paulo Diniz, Provedor Comissário da Real Fazenda, para que mandassem pôr nas praias e a bordo as devidas guardas, como era o costume. Trazia esta, despachada em Lisboa, 277 molhos de sal com destino a Parnaíba, de que dera fiança em 23 de abril e obrigara-se a apresentar certidão da descarga no tempo de um ano e à falta dela pagar os direitos na forma do Regimento. No que se refere à mercadoria apreendida, o seu despacho e posterior apreensão trazem a sua interessante relação, o que pode ser motivo de outros estudos para se conhecer dos usos e costumes daquele tempo e do que interessava ao comércio local. Finalmente, todos esses fatos mostram as dificuldades enfrentadas por esse pioneiro para promover essa navegação em direitura a Lisboa e à cidade do Porto(AHU-ACL-CU 015-Cx 155, D. 11159).

Contudo, apesar de todos esses percalços Domingos Dias da Silva dominou o comércio e a indústria de charque em seu tempo, cujo monopólio crescente trouxe preocupação ao governo do Maranhão. Em 21 de agosto de 1793, D. Fernando Antônio de Noronha, general do Estado(1792 – 1798), partilha com o Ministro e Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, suas preocupações com esse assunto, recebendo em 30 de janeiro do ano seguinte, a seguinte resposta, inclusive censurando o empresário:

“Não posso porém passar em silêncio o seu ofício de 21 de agosto sobre o contrato das carnes e a acertada providência que V. Sª., deu para evitar o monopólio com que este importante artigo se regra pelo abastado comerciante Domingos Dias, da Parnaíba; e mais que tudo o insolente atrevimento com que ele procurou captar o ânimo de V. Sª., por meios tão infelizmente maus, na prática como horrorosos a todo homem de bem” (AHU-ACL-CU 009-Cx 84, D. 7037).

Foi, assim, no fastígio do poder e da glória que faleceu o nosso biografado em 17 de dezembro de 1793, deixando uma fortuna que até então não se pensara ser possível construir diante de tanta adversidade. Foi, porém, um homem de visão que soube explorar ao máximo as potencialidades do território piauiense, sobretudo a estratégica posição comercial de Parnaíba. Deu, assim, uma nova dimensão ao lugar, alargando suas possibilidades econômicas.

Domingos Dias da Silva não casou, deixando apenas dois filhos pardos, ilegítimos, que foram por ele reconhecidos, ambos havidos com mestiças solteiras, sendo o primeiro, coronel Simplício Dias da Silva,  com Claudina Josefa; e o segundo, alferes Raimundo Dias da Silva, com Maria Dias, este último legitimado por escritura pouco antes do óbito do pai, em 21 de outubro daquele ano (AHU-ACL-CU 016-Cx 19-D. 995).

Por fim, concluímos essas notas lembrando que o capitão Domingos Dias da Silva muito fez por Parnaíba, pelo Piauí, pelo Brasil e por Portugal. A ele muito devem esses povos, sobretudo pela indústria e comércio que movimentou, pelos empregos que gerou e pelas oportunidades que criou. Não se pode olvidar jamais a sua homérica luta pela criação da alfândega de Parnaíba, no que foi sucedido pelos filhos, afinal coroada de êxito somente depois da Independência do Brasil. Ali fora concretizado o seu sonho e coroada de êxito a sua luta. Portanto, enquanto soar o nome de Parnaíba e do Piauí, há de soar também o nome desse capitão de indústria e pioneiro de nosso comércio com os principais portos do Brasil e de Portugal. A ele nossas homenagens.

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* REGINALDO MIRANDA é membro titular da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O CENTENÁRIO DE CLÁUDIO PACHECO

Fonte: Kenard Kaverna
O CENTENÁRIO DE CLÁUDIO PACHECO

Elmar Carvalho

Foi hoje a primeira sessão da Academia Piauiense presidida pelo historiador Reginaldo Miranda. Os acadêmicos manifestaram suas felicitações e lhe desejaram uma profícua administração. O presidente, talvez para mostrar o seu intuito de que deseja trabalhar vigorosamente em prol da instituição, já apresentou um número do boletim Notícias Acadêmicas, cuja regularidade prometeu retomar, assim como prometeu “zerar” as edições atrasadas da Revista da Academia.

Na continuação dos trabalhos, em que vários assuntos importantes foram abordados, o acadêmico Celso Barros Coelho assinalou que o centenário de acadêmico deve ser comemorado por sua academia, uma vez que a sua imortalidade é a sua presença espiritual, é a lembrança e o estudo de sua obra, e que a Academia não se lembrou de comemorar o centenário de nascimento de Cláudio Pacheco, sobre o qual teceu comentários elogiosos, informando que a Justiça Federal, Seção do Piauí,  comemorou a efeméride, tendo ele proferido uma conferência no auditório de sua sede.

Paulo Nunes, em aparte, informou que o Conselho Estadual de Cultura se lembrou dessa centúria, inclusive tendo sido publicado na revista Presença, editada por essa entidade, um artigo de Celso Barros sobre ele, como  constitucionalista. Cláudio Pacheco foi deputado estadual, suplente de senador, consultor jurídico do Banco do Brasil, advogado, professor, jornalista, escritor e poeta. Nasceu em Campo Maior, em 11.05.1909, e faleceu em Teresina, em 14.03.1993, poucos meses após a morte de sua mulher. Suas principais obras são: História do Banco do Brasil, Tratado das Constituições Brasileiras (14 volumes), Luzes e Água na Planície (poesia), As Pedras Ficaram Magras (romance) e Roda Viva (romance).

As obras meramente doutrinárias sobre determinada Constituição, quando esta é substituída por outra, inevitavelmente terminam por perder a importância, mormente no que tiver de mais específico. Entretanto, o Tratado das Constituições Brasileiras, de Cláudio Pacheco, sempre atrairá o interesse dos juristas e doutrinadores, uma vez que analisa crítica e historicamente as Cartas Magnas do Brasil, mostrando os seus defeitos e virtudes, as suas evoluções e eventuais involuções, à luz da doutrina, sobretudo a francesa, e de possíveis estudos comparativos.

6 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

AH!, ESSAS PESSOAS SIMPÁTICAS DO TELEMARKETING.

Fonte: Google

AH!, ESSAS PESSOAS SIMPÁTICAS DO TELEMARKETING.

José Pedro Araújo
Romancista, historiador e cronista

        Que o individualismo hoje é inerente a todos nós, isso ninguém discorda. Nem discorda também que até mesmo os vizinhos, os parentes, os amigos, afinal, raramente nos procuram para aquele bate papo gostoso, aquela troca de confidências, e até mesmo inconfidências, aceitável entre amigos de longas datas. Houve um afastamento doloso entre as pessoas, ao ponto de passarmos anos sem ver um amigo residente na própria cidade em que moramos. Tudo, devo dizer, depois do aparecimento das novas tecnologias que tanto tem contribuído para a nossa separação das pessoas que gostamos tanto de ter à nossa volta. Existem já pesquisadores, estudiosos trabalhando para descobrir o verdadeiro estrago que esse afastamento causa às pessoas. A cada dia que passa tomamos conhecimento de algum trabalho dedicado ao assunto. Quer a ciência descobrir como o isolamento pode afetar a vida de cada um de nós.
        Em um passado não muito distante, costumavam acusar a vida corrida atrás do próprio sustento como a principal vilã a trabalhar incansavelmente para a causa. Nos dias de hoje malsinam pelo malefício a internet, os aplicativos dedicados ao contato pessoal - que começou com os e-mails, depois o twitter e seus 140 caracteres, e hoje o whatsapp, ou os demais aplicativos de conversa à distância. Os novos tempos realmente trazem preocupação aos psicólogos ou analistas da personalidade humana, pois tem produzido pessoas cada vez mais arredias ao contato pessoal, ao caloroso abraço ou a um simples aperto de mão.
        Até mesmo o nosso velho telefone dito fixo – é isso mesmo, hoje temos o telefone móvel, o Skype... – através do qual poderíamos ouvir uma voz amiga do outro lado da cidade, do estado ou do país, esse permanece calado o dia todo, quase não toca. E quando toca, é sempre algum desconhecido quem se encontra do outro lado da linha. Bom, menos mal que esse tipo de telefone não comporta o envio de mensagens escritas, ainda podemos ouvir a voz das pessoas que estão nos chamando. Pelo menos isso. Quando Graham Bell inventou essa tecnologia tinha como propósito aproximar as pessoas, e não afastá-las do convívio umas das outras, como ocorre nos dias de hoje.
        Felizmente temos os jovens do telemarketing a nos ligar vinte vezes ao dia. E começo dizendo que essas pessoas que ligam para a sua casa para oferecer algo à venda, talvez sejam as únicas de fora da sua casa a falar com você em semanas. E são elas também quem nos propiciam momentos de puro êxtase, pois nos oferecem ótimos produtos de consumo, como os cartões de crédito, por exemplo, sem que precisemos sair de casa, e somente através de uma chamada telefônica. E nesses momentos você pode perguntar a ela pela família, como os filhos estão se saindo na escola, caso os tenha, essas coisas que costumamos indagar aos parentes e amigos mais próximo, uma vez que esses estão cada vez mais distanciados da gente.
        Outra coisa: se alguma dessas pessoas ligarem para a sua casa em uma hora imprópria, assim como logo após o almoço, horário que você costuma reservar para uma gostosa e demorada sesta, não se aborreça, ela pode ser portadora de boas notícias. Como, por exemplo, oferecer-te um cartão de crédito sem limite predeterminado. Ou mesmo um empréstimo consignado a ser reembolsado em longos e apetitosos setenta e dois meses.
        Pode ocorrer também de alguém te ligar para oferecer um plano funerário como, por exemplo, da simpática “Funerária Santa Luzia – Sua morte, nossa alegria”. Ai já será tirar a sorte grande. Afinal, algum dia todos nós iremos morrer mesmo!
        Não se aborreça, portanto, se o telefone lá da sala de visitas começar a tocar no meio da noite, quando você tiver conseguido, enfim, conciliar no sono, após duas ou três horas de tentativas infrutíferas. Pode ser alguém te oferecendo a sorte grande.
      Outro dia recebi uma ligação de uma simpática moça que estava começando a trabalhar em uma dessas empresas de telemarketing. Era o seu primeiro emprego, e também o seu primeiro dia de trabalho. Não, não era a sua primeira ligação naquele dia! Ela já havia ligado para noventa e nove pessoas e não havia ainda conseguido vendar nada. Era eu o centésimo. Mas, eu contribui para que o seu primeiro dia de serviço fosse proveitoso: ela aprendeu a se livrar de um cliente que a fez perder muito tempo, tempo que poderia ser utilizado para oferecer, e talvez conseguir algum sucesso, com, pelo menos dez outras pessoas.
        Deste modo, quando o telefone tocou lá na sala eu havia acabado de entrar no Box do banheiro para tomar banho. Já havia até ligado o chuveiro e os primeiros jatos de água começavam a encharcar os poucos fios de cabelo que ainda me restam. Fechei a torneira, ao ouvir o trinado da campainha, e sai correndo enquanto me enrolava na toalha de banho.  Talvez fosse algum parente ou amigo que estivesse querendo conversar um pouco, depois de meses de mudez, e eu não poderia perder a oportunidade que me era dada.  Não era. Era a mocinha simpática de quem falei algumas linhas atrás. Eu, ofegante ainda, respondi que era eu mesmo quem estava falando com ela. E ela então me deu a notícia feliz: eu havia sido escolhido entre milhares de outras pessoas da cidade de Teresina para receber os cartões do banco tal, que ela representava. É lógico que fiquei feliz. Não é todo o dia que te escolhem para receber um brinde desses.
        Disse-me mais que o limite do meu cartão seria de R$ 25.000,00 reais, dinheiro que eu poderia utilizar em compras, ou simplesmente sacar na boca do caixa, em cash. Aí fui à loucura. Agradeci penhoradamente pela minha escolha e, empolgado com a minha sorte, comecei a lhe perguntar como estava a família, os filhos – ela me respondeu que não tinha filhos. Nem casada era ainda – e se não tinha interesse em conhecer o nordeste, essas coisas que dizemos quando queremos parecer simpático a outras pessoas. 
         Mas a minha alegria não durou muito. No auge da minha empolgação, falei para ela que aquela ligação ia ficar marcada para sempre na minha vida como o dia em que a minha estrela veio até mim através dos fios da telefônica. E que, pródigo como sou, adoro usar os meus cartões em compras de produtos que, na maioria das vezes, nem preciso. E ainda mais. E então cometi uma imprudência. disse-lhe que, como não havia conseguido pagar as faturas dos meus dezessete cartões, tive todos eles bloqueados, até o último. Que o novo cartão que ela me oferecia, portanto, seria a minha salvação, me levaria de volta aos shoppings. E com voz embargada arrematei: se estivéssemos falando pessoalmente, afirmei com lágrimas nos olhos, com certeza lhe daria um abraço bem apertado. Acho que essa parte final da nossa conversa ela não ouviu, pois desligou o telefone rapidamente.

        O tempora, o mores!