domingo, 18 de fevereiro de 2018

Seleta Piauiense - Martins Napoleão

Fonte: Google

Saudade

Martins Napoleão (1903 – 1981)

É toda de lágrimas esta elegia de amor,
porque somente de lágrimas alivia a dor.

É feita de lágrimas, toda embebida de pranto,
esta elegia que eu não sei se choro ou canto.

Lividamente, a noite cai por sobre a natureza,
como um rosto infeliz, curvo sobre a tristeza.

Distante, além das nuvens, longe, além da vida,
sinto que vive alguém. Sinto-lhe a alma querida

no infinito, vagando sozinha, à procura de alguém,
- à procura de alguém, sem procurar ninguém...

Pálida chama, ainda guardando a forma corporal,
tendo-lhe ainda o esplendor, sem já lhe ter o mal,

no meio da alegria lírica do Paraíso,
não lhe ilumina o rosto a aurora de um sorriso...

Ela sente, por certo, saudade da terra distante,
pois me quis muito mais do que Beatriz a Dante.

Porque ainda sou poeira, porque ainda não esplendo,
alma pura, alma livre, em êxtase ascendendo,

eu não posso fundir-me, como numa outra flama,
na unidade do Amor, com esta alma que me ama.

E é por isso de lágrimas esta elegia de amor,
porque somente a lágrima alivia a dor...   

Fonte: Cancioneiro Geral - EDUFPI (1999)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

D. Fr. Francisco de Lima, Bispo de Pernambuco

Fonte: Google


D. Fr. Francisco de Lima, Bispo de Pernambuco

Reginaldo Miranda

Sobre Dom Frei Francisco de Lima, já tivemos oportunidade de escrever e publicar em obra anterior, Piauí em foco, já em segunda edição. Todavia, não poderíamos deixar de incluí-lo neste volume em que nos reportamos às figuras notáveis que ajudaram na construção de nosso Estado, o Piauí, terra onde nascemos e à qual dedicamos a melhor parte de nossa atividade intelectual. Com esse propósito e para apenas não repetir o que publicamos na vez anterior, usando de outros recursos somente agora disponíveis, fazemos nova pesquisa sobre esse notável religioso que tão bem serviu à antiga Diocese de Pernambuco, à qual que estávamos vinculados por aqueles dias de pioneirismo.

Nasceu esse benemérito no ano de 1629, na cidade de Lisboa, filho de João de Lima e de sua esposa Maria das Neves.

Na cidade natal encetou seus estudos, mais tarde ingressando na carreira religiosa e recebendo o hábito carmelita em 19 de setembro de 1649, aos vinte anos de idade, no convento da ordem.

Em seguida, exerceu o emprego de lente de Teologia em Évora. Mais tarde, foi visitador e reformador do convento dos carmelitas existente no concelho da Horta, ilha do Faial, arquipélago de Açores, recentemente fundado(1649). Dali passou ao Brasil, onde foi vigário da província eclesiástica.

De retorno ao reino, em 8 de maio de 1683, foi eleito secretário da província dos carmelitas de Portugal. Em 1686, foi escolhido para prior do convento de Lisboa, posto que ocupava à data de sua ascensão ao episcopado. Percebe-se, pois, que desde a ordenação até a ascensão episcopal encetou uma carreira toda no âmbito de sua ordem religiosa.

Nomeado para Bispo do Maranhão, em dezembro de 1691, não chegou a tomar posse do cargo, onde deveria assumir como seu segundo titular. Entretanto, em 14 de maio de 1697, requere “o pagamento da côngrua que havia vencido com o bispado do Maranhão”, sendo autorizado por ato real de 26 de agosto do mesmo ano a receber por tal título um conto de reis.

Logo mais foi nomeado Bispo da Diocese de Pernambuco, assumindo como seu quarto titular, confirmado pela Bula do Papa Inocêncio XII, dirigida a D. Pedro II, de Portugal, em 22 de agosto de 1695. Aliás, desde a edição da bula Dum fidei constantiam, de 7 de Junho de 1514, concedeu o papa Leão X a D. Manuel I, de Portugal, e a seus sucessores o padroado de todas as igrejas fundadas e a fundar no ultramar. Assim, reconheceu de jure, entre outros aspectos, que competia aos reis de Portugal eleger os bispos naquelas regiões, que deveriam posteriormente serem confirmados pelo Sumo Pontífice, o que sempre sucedeu, com exceção do ocorrido entre a Restauração de 1640 e 1667, ensina José Pedro Paiva, da Universidade de Coimbra (Os bispos do Brasil e a formação da sociedade colonial – 1551 -  1706. Texto de história, v. 14, n. 1/2, 2006).

Desta forma, em 19 de setembro de 1695, D. Fr. Francisco de Lima pede ao rei D. Pedro II, ajuda de custo para encetar viagem para Pernambuco, como era costume e fora concedido a seu antecessor. Chegou a Olinda tomando posse do cargo em 22 de fevereiro do ano seguinte. Iniciou então um trabalho dos mais profícuos e elogiados no Bispado de Pernambuco, dedicando seu maior empenho na catequese dos índios, fundando várias missões e reorganizando outras (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1690).

Em 18 de maio de 1697, escreve ao rei sobre a falta de igrejas e párocos nos presídios dos Palmares e sertão de Rodelas, sobre os delitos cometidos na região e a dissolução em que vivia o mestre-de-campo do presídio das Alagoas, Domingos Jorge Velho. Para ele

“Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado; quando se avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia, mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir, como procede no mais; tendo sido a sua vida desde que teve uso da razão/ se é que a teve, porque se assim foi, de sorte a perdeu, que entendo a não achará com facilidade/ até o presente andar metido pelos matos à caça de índios e de índias, estas para o exercício das suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses” (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1732).

Na mesma correspondência reporta-se ao curato de Cabrobó, onde paroquiava o padre Miguel de Carvalho e ao sertão do Rodelas, em que então se incluía o Piauí nascente. Por ser interessante descrição de nosso sertão àquele tempo, feita com base no relatório do reverendo cura, segue a seguinte passagem:



“No sítio a que chamam Cabrubu, junto do rio de S. Francisco, está um curato, cuja igreja é de N. Sra. da Conceição, o último que este Bispado tem da banda do Sul, cujo distrito continuando-se pela margem acima do dito rio, que fica para a parte do norte, não tem limite, compreendendo tudo o que do dito sítio está da mesma parte, e todo o sertão a que chamam de Rodela, que pelas travessias de que é cursado contém mais de 400 léguas cortado de vários rios, uns menos e outros mais caudalosos, porém todos de boas águas, o clima é muito saudável, e não menos fértil a terra para a criação e sustento dos gados, dos quais importa só os dízimos passante de 4 mil cruzados, e por esta razão contém em si muitas povoações em grandes distâncias umas das outras, e todas elas sujeitas ao cura da dita igreja da Conceição, e para este os desobrigar não lhe basta todo o ano para correr uma só vez a paróquia, porque além de pouco devotos que são os moradores, as distâncias grandes em que vivem da igreja lhes dificulta e fazem quase impossível o ir a ela, e assim passa todo o ano sem missas e sacramentos, porque não há sacerdote, que lhes administre fora do cura nomeado; este se vale às vezes dos padres franceses barbados para acudir àquelas povoações mais próximas às aldeias em que eles assistem em o rio de S. Francisco, e as mais fica no desamparo referido; este ano mandei ao cura corresse o dito sertão, e gastando mais de seis meses, não pôde chegar a muitas povoações dele, e nas que entrou achou muitas pessoas, que havia dez anos não ouvia missa, nem se tinham confessado, nem visto sacerdote com quem o pudessem fazer; e assim vivem estes homens sem lembrança da outra vida, com tal soltura passam, como se não houvesse justiça, porque a de Deus não a temem, e a da terra não lhe chega. Do rol dos  mortos no decurso do ano passado que o cura me remeteu, por lho mandar pedir, consta faleceram 16 pessoas, das quais uma só morreu de enfermidade, que tão benigno como visto é o clima, porém, que tem este de bom, tanto tem de mau os habitadores, porque os 15 foram mortos a espingarda, com este estilo se trata, e com este risco se vive entre eles; e ainda se haveria pior, se não confinara com o gentio brabo, cujo temor os conserva de algum modo, para que na ocasião dos assaltos que lhe costuma dar, se veja uns dos outros socorridos” (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1732).

Essa parte que refere o Bispo, que distava do rio São Francisco, onde havia morador que há dez anos não assistia ao sacrifício da missa e nem recebia sacramento, era o Piauí, daí a importância do relato para se compreender a situação de nossos pioneiros ancestrais na época referida. Sobre o assunto e na mesma ocasião, também se reportou o governador de Pernambuco, Caetano de Melo e Castro, em carta do mesmo dia 16 de maio:

“Para os dilatadíssimos sertões do Rodelas mandou o Bispo quatro clérigos, determinando terra para dois curatos, e para o Assu e Jaguaribe foram sacerdotes; bom será que uns e outros obrem de modo que acreditem a escolha que neles se fez” (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1732).

Essas duas correspondências, do Bispo e do governador de Pernambuco, são seguidas de parecer favorável do Conselho Ultramarino, datado de 29 de outubro de 1697. Também, denota um conceito que vai se repetir mais tarde na correspondência dos primeiros ouvidores, da rudeza do habitante do sertão, de pouca fala, difícil compreensão e pouco temor às leis e a religião. Segundo esses primeiros relatos, infere-se que o nosso sertanejo vivia livre, isolado, sem muitas convenções sociais e empenhado na luta diária de implantação de fazendas e do criatório bovino.

Logo mais, em carta ao secretário Roque Monteiro Paim, comunica o Reverendo Bispo, sobre a fundação da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, no sertão do Piaguí. Como desdobramento, em decreto de 6 de novembro de 1697, o rei D. Pedro II, de Portugal, fala do compromisso dos moradores para a manutenção do novo curato e diz ao Conselho Ultramarino:



“Há de louvar o zelo com que este prelado procura o bem de suas ovelhas, que desgarradas por aqueles desertos, apenas ouvem os silvos de seu pastor; porém, é de considerar se este novo que lhe dá, pode aproveitar a todos, vivendo em tão largas distâncias (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 17. D. 1733).

Em 16 de novembro de 1699, o Conselho Ultramarino consulta ao rei D. Pedro II, sobre as cartas do Bispo de Pernambuco, D. Fr. Francisco de Lima ao secretário Roque Monteiro Paim, acerca das visitas nas missões do sertão; demarcações das terras de Piaguí; das queixas contra o capitão da aldeia de Santo Amaro dos Caboclos; dos delitos cometidos na vila de Porto Calvo; da falta de ministros de letras e ouvidor para as Alagoas e São Francisco; do aldeamento dos índios da nação Corema e eleição de capitão-mor para governá-los; do excesso cometido por soldados, ferindo um padre missionário que não permitiu o rapto das índias e, por fim, pedindo um coadjutor para o ajudar em suas obrigações, dada a sua avançada idade (AHU. ACL. CU. 015. Cx. 18. D. 1794).

Resumindo o estudo da vida e a análise da ação episcopal de D. Fr. Francisco de Lima, no Bispado de Pernambuco, pode-se dizer que em seu governo diocesano fundara curatos e freguesias, envidara esforços na evangelização das missões indígenas e preocupara-se com a falta de critérios na concessão de sesmarias, assim como assumiu intransigentemente a defesa dos posseiros do Piauí em contraposição à exploração que lhes faziam os sesmeiros, cujas sesmarias lhes foram concedidas em demasia e extensões escandalosas.

Aliás, esse foi o ponto marcante de sua missão evangelizadora, assim assegurando a criação e manutenção da freguesia de Nossa Senhora da Vitória contra o ataque dos sesmeiros; inclusive, condenando o desacato praticado contra o vigário Tomé de Carvalho, por Domingos Afonso Serra, sobrinho de Julião Afonso Serra, em cujas terras estava sendo edificada a nova matriz. Denuncia esses desmandos em carta a Roque Monteiro Paim, secretário de Estado. Como consequência o Conselho Ultramarino recomenda ao governador de Pernambuco que interviesse na questão para apaziguá-la, que enviasse um ouvidor à localidade para apurar os fatos e procedesse contra os culpados e, enfim, que fossem declaradas devolutas as sesmarias cujos sesmeiros não as cultivassem por si, seus feitores, colonos ou constituintes e dadas a quem as denunciasse.

Ainda como consequência dessa luta foi editada a carta régia de 3 de março de 1700, que transferia o contrato dos dízimos do Piauí, da alçada de Pernambuco para a do Maranhão.

Novamente, formulando nova denúncia em 29 de junho de 1700, consegue do rei que ordenasse D. João de Lencastre, governador-geral, a enviar o ouvidor-geral de Sergipe, Diogo Pacheco de Carvalho, para apurar os tais delitos. Nesse contexto ainda surge a carta régia de 3 de março de 1702, obrigando os sesmeiros a demarcarem suas terras no prazo máximo de dois anos, sob pena de ficarem as mesmas devolutas.

Foi, portanto, figura de suma importância em nossa história. E consta que veio ao Piauí, em visita pastoral, no ano de 1699, embora esse fato seja bastante controverso. Segundo o frei André Prat, esse Bispo “na idade de 70 anos, com as maiores privações e incômodos percorreu toda a sua diocese até o sertão”. O historiador Pereira da Costa, dar como certa essa visita do Bispo ao Piauí, que teria sido comunicada por carta de 8 de outubro de 1699. No entanto, Odilon Nunes não tem muita convicção nessa sua vinda ao Piauí, “apesar de ser anunciada sua visita pastoral”. Infelizmente, não encontramos nada de concreto sobre o assunto, porém não é duvidoso que tenha vindo pois existe farta referência à desobriga em toda a diocese, sendo o Piauí muito grande para ficar de fora. Todavia, independentemente dessa visita pastoral, com sua ação enérgica ao lado dos posseiros e criação da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, transformou-se em destacado vulto de nossa história.

Por fim, faleceu esse notável Bispo na cidade de Olinda, em 23 de abril de 1704, sendo sepultado, a pedido, na igreja dos carmelitas daquela cidade. Segundo Franklin Távora, autor de O cabeleira, faleceu ele em estado “tão pobre que unicamente se lhe encontraram de seu quarenta réis em dinheiro”. Acrescenta que “ele havia despendido todas as rendas da mitra na sustentação das trinta missões de índios que reunira e visitara no seio de inóspitos sertões, sendo-lhe preciso, para cumprimento deste apostólico dever, transpor mais de trezentas léguas na avançada idade de setenta anos”. Para o mesmo autor, foi um prelado que ilustrou a cadeira episcopal de Olinda por conspícuas e beneméritas virtudes que não foram até hoje igualadas.

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* A imagem é da igreja do Carmo, em Olinda, onde foi sepultado o corpo de D. Fr. Francisco de Lima.

**REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br

*** O presente ensaio biográfico foi elaborado para o livro Piauienses notáveis, que será publicado no corrente ano de 2018, pela Academia Piauinse de Letras, abordando tanto aqueles que nasceram no Piauí quanto os que ajudaram a construir sua história.   

APAL trata de convênio com a Fecomércio e lançamento de livro

Valdeci, José Luís e Gallas
O presidente da Academia Parnaibana de Letras, José Luiz de Carvalho, acompanhado do secretário-geral Antonio Gallas Pimentel, esteve na tarde desta sexta-feira dia 16 na Federação do Comércio do Piauí tratando com o presidente Valdeci Cavalcante sobre assuntos relevantes para a entidade.



Segundo o presidente José Luiz de Carvalho foi marcada a data de lançamento do livro Eixo do Tempo, de Alarico da Cunha, às 19h, no dia 23 de março no SESC Avenida e cuja renda será revertida para a Academia Parnaibana de Letras.

Também foi tratado o convênio entre a APAL e o SESC. Valdeci Cavalcante, empresário, advogado e escritor, toma posse na cadeira 39, que tem como patrono seu pai, o comerciante e ex-vereador Gerardo Ponte Cavalcante, no dia 13 de abril no Espaço de Eventos, bairro de Fátima. 

Fonte: APAL. Fotos: APAL/SESC. Edição: APM Notícias.   

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Sucesso literário



Sucesso literário

Daniel C. B. Ciarlini



Ao falar do escritor escocês Walter Scott, e mais detidamente do flamengo Hendrock Conscience, Otto Maria Carpeaux, num dos raros momentos de posição em sua História da literatura ocidental, deixou entrever o seguinte juízo: “Não existe relação entre os valores literários e os efeitos sociais: o sucesso não é prova de valor; a mediocridade não exclui consequências benéficas” 1. Esse pensamento depõe contra o senso comum que acredita o sucesso literário edificar um nome no disputado mundo das letras.

Mais do que isso, a fala de Carpeaux esconde algumas verdades que rondam as letras pelo menos desde Voltaire, que num arroubo de autoafirmação costumava escrever nos jornais sobre si e as suas próprias obras ou fazia com que os outros escrevessem, elogiando-o (as), numa espécie de marketing pessoal que ainda perdura – hoje avolumado por “campanhas” que se espalham em redes sociais motivadas por noviços escritores, marqueteiros em sua essência.

Em “Conselho aos jovens escritores”, Baudelaire infere que “o sucesso é, numa proporção aritmética ou geométrica, a consequência da força do escritor, o resultado dos sucessos anteriores, frequentemente invisíveis a olho nu” 2. Essa força e esses esforços de que fala o grande nome da poesia francesa não se relacionam a campanhas em nome próprio, mas ao brio estético com que o verdadeiro escritor se depara ao longo da vida.

À dedicação diuturna pela forma ideal, que o obriga muitas vezes a vencer as limitações receptivas de um tempo, rompendo com as expectativas de um público afeito e viciado a modelos pré-definidos; eis aqui o grande esforço: ser propositor ao invés de reprodutor. Se esses sucessos são invisíveis a olho nu é porque nem sempre eles virão em tempo hodierno, mas depois que, vencidas as limitações de leitura, uma dada geração ser capaz de absorver o bem simbólico produzido.

Obra medíocre, portanto, é aquela que se furta em exigir de outrem uma meditação ou, no mínimo, uma leitura mais profunda, antes cumpre apenas o papel de apreensão imediata, da ordem do dia, dando ao público exatamente as imagens superficiais que ele se identifica – como o é a maior parte dos best-sellers, que não excluem “consequências benéficas” aos seus criadores. Esse valor de mercado, como indica Bourdieu, é inversamente proporcional ao valor literário, traduzido por Flaubert como aquele que quanto mais consciência se põe no trabalho menos proveito pecuniário se tira dele.

Isso porque novos códigos exigem novos leitores, que só se formam a médio e a longo prazos, daí porque os lucros que dele se tiram são os mais duradouros e mais alicerçados na história das letras, já que não flutuantes e nunca efêmeros como a moda do dia. Não por acaso se atribui ao tempo o grande juízo dos fatos. O que é bom permanece, o que é ruim é esquecido.

A história nos indica que pouquíssimos foram os escritores que alcançaram o sucesso em vida, e mesmo esses, quando o conquistaram, já estavam nas últimas primaveras de vida, como os recentes casos de Gabriel García Márquez e José Saramago, que agradavam tanto ao público comum como aos leitores mais competentes.

Ainda não vivi o tempo necessário para dizer que acumulei experiência produtiva de vida, todavia, no abreviado tempo que já passou, vi sujeitos começarem nas letras muito bem, conquistarem algum espaço e depois, convencidos de sua pretensa “genialidade”, tropeçarem no próprio orgulho, no exibicionismo precoce e na prepotência – características que foram inevitavelmente transplantadas à produção, que muito perdeu em riqueza e polissemia.

Esses mesmos sujeitos são aqueles que formaram em torno de si capelinhas de elogio, e porque se puseram a crer em julgamentos de amizade, perderam o senso crítico real sobre os próprios trabalhos e, no que tange aos ganhos artísticos (que são diferentes desse capital social pernicioso), o que um dia estava em ascensão repousa na mais infame horizontalidade.

Medir a projeção de uma obra não é sondar e ter na ponta do lápis todos aqueles que a celebram e a leem, porque esses são os amiguinhos de plantão que a contemplam não pelo objeto, mas pela inescapável cordialidade de todos os dias. O verdadeiro ganho de um autor contraditoriamente dilui-se pelos dedos, constituído por um público discreto que aprecia mudo e sequer o conhece, senão através do escrito. Os livros quando produzidos e distribuídos não nascem para serem sondados, mas para os espaços jamais imagináveis e as prateleiras dos mais exigentes leitores.

Teresina, 2 de novembro de 2017.   

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O TALENTO ESCULTÓRICO DE BRAGA TEPI

Fonte: Google

O TALENTO ESCULTÓRICO DE BRAGA TEPI

Elmar Carvalho

Hoje à tarde fui acordado de um cochilo por um recado de meu irmão César Carvalho, que me mandava entregar um álbum com fotografias coloridas de esculturas de Braga Tepi, que foi convidado a expor suas obras na H. Rocha Galeria de Arte, no Rio de Janeiro. A exposição será aberta no próximo dia 04 de março e se estenderá até o dia 23 do mês seguinte.

Confesso que ainda não ouvira falar nesse artista, e, portanto, não conhecia seus trabalhos. Por isso mesmo, olhei o fólio lentamente, com muita atenção. Surpreendi-me com a qualidade das peças. São obras construídas com sucatas de ferro. Mas nota-se que o artista teve muito cuidado na escolha das peças e no modo como as interligou, como as encaixou e dispôs, dando harmonia ao conjunto.

Mesmo nas esculturas grandes e pesadas, pode ser visto, em certas partes da composição, um toque detalhista, uma minúcia de obra minimalista, como se fora um trabalho de delicada ourivesaria, fazendo como que um contraste com as partes maiores e mais compactas. Apenas pelo título de algumas obras, que remete à cultura humanística e clássica, percebe-se que Braga Tepi não é um artesão ingênuo, e muito menos primitivista.

Dentro do que é possível nesse tipo de escultura, concebida com a montagem das mais diferentes peças de sucatas de ferro, que não permite uma moldagem total, pode-se afirmar que ele é um figurativista de alta linhagem, mas sem ser um copiador servil e fotográfico da natureza, porque sabe distorcê-la artisticamente, adicionando elementos colhidos na imaginação, na mitologia, nos sonhos, podendo-se tirar a conclusão de que ele agrega a algumas de suas esculturas, com muito refinamento e graça, elementos extraídos do surrealismo.

Sem dúvida, pelo que pude perceber das peças constantes do álbum, é um dos maiores escultores do Piauí, e inegavelmente é um dos grandes artistas brasileiros. Por isso, não me chateei de ter o meu cochilo sido interrompido abruptamente. Até porque mergulhei num sonho maior e melhor, que é a arte mágica, supra e surreal de Braga Tepi.   

12 de fevereiro de 2010   

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

As Minhas Copas do Mundo de Futebol (4)



As Minhas Copas do Mundo de Futebol (4)

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

Fomos à França em 1998 defender o nosso título, ganho nos estados unidos em 1994. Não precisamos jogar as eliminatórias, uma vez que o campeão do mundo já está automaticamente classificado para a copa seguinte, ele e o país anfitrião, e isso nunca é bom porque a seleção se prepara para o duro embate apenas jogando amistosos. Portanto, não sabíamos como chegaríamos às disputas por pontos no curto torneio que é uma copa do mundo. Sem o nosso talismã da copa anterior, Romário, cortado quando a seleção já se encontrava na França para a disputa, depositamos as nossas fichas num jovem atacante que tinha ido à copa dos EUA apenas como coadjuvante: Ronaldo, o fenômeno. E ele fez bonito na sua primeira competição mundial como ídolo de uma nação louca por futebol. Isso, apesar de contarmos com um camisa dez de respeito, Rivaldo, o craque de pernas tortas, quase tão envergadas como a de Garrincha, e também com o nosso camisa sete da copa anterior, Bebeto.

Ganhamos os dois primeiros jogos contra Escócia e Marrocos, e perdemos o terceiro para a Noruega. Classificamo-nos em primeiro do grupo, mas ficamos com aquela dúvida se o time teria forças suficientes para chegar a mais um título. Fomos para as oitavas-de-final e despachamos o Chile com uma goleada por 4x1 e seguimos em frente. E nas quartas-de-final foi a vez da Dinamarca pegar o voo de volta para casa, 3x2. Melhoramos bastante durante a competição e o melhor do mundo, Ronaldo, vinha fazendo o seu papel muito bem. Na semifinal encaramos a Holanda, adversária que estava ficando comum em todas as copas do mundo. E foi o que se viu: um jogo difícil, amarrado e perigoso, decidido somente nos pênaltis. 1x1 no tempo normal, 4x2 nos pênaltis, estávamos na final mais uma vez.

Assistíamos aos jogos no sítio que tínhamos em sociedade com a minha irmã, e a festa que começara com poucas pessoas, ia engrossando a plateia jogo a jogo até chegarmos a grande final, quando a torcida já era enorme.  A comemoração terminava sempre do mesmo jeito: dentro da piscina. Estávamos no melhor dos mundos. Tomávamos todas ao ponto de a borda da piscina ficar cheia de copos e garrafas de cerveja, serviço extra para o caseiro. Enquanto isto, no seu entorno, amarradas em árvores, bandeiras e faixas alusivas ao Brasil tremulavam e davam um aspecto festivo ao ambiente.

Duas tevês haviam sido instaladas, uma na sala e outra no alpendre, para que todos pudessem assistir aos jogos sem atropelos. Muito diferente dos tempos em que ouvíamos o locutor se esgoelar pelo rádio, ou víamos os jogos em aparelhos que só nos mostrava a bola de tempos em tempos, tal era a qualidade ruim da imagem ofertada.

Mas ai veio a final, e, quando já nos encontrávamos à postos e bem acomodados para assistirmos mais uma final da nossa seleção, veio a notícia arrasadora: o nosso principal jogador, Ronaldo, havia sofrido uma convulsão no dia do jogo e, provavelmente não jogaria. Foi uma ducha de água fria. Enquanto isso, do lado do nosso adversário na final, a dona da casa, a França, uma franco-argelino, Zinedine Zidane, vinha assombrando com um futebol de altíssimo nível.

Já estávamos certos de que o Brasil jogaria sem o seu principal jogador, quando eis que Ronaldo aparece no gramado. Cabisbaixo, sem demonstrar aquela força e agilidade que o caracterizava, veio para o jogo meia-bomba, como dizem no jargão futebolista. As mulheres, pouco afeitas ao metiê, até se assanharam quando o careca entrou em campo. Mas nós, um pouco mais entendidos das coisas do futebol, ficamos em suspense o jogo inteiro. Não deu outra: perdemos a final para os donos da casa por largos 3x0. A tristeza foi geral. Já estávamos acostumados às grandes comemorações, e fomos chorar dentro da piscina, onde as nossas lágrimas não poderiam ser vistas por se confundirem com a azul e límpida, uma vez que era trocada a cada jogo.

Dava pena ver a criançada em total desespero, afinal, o futebol passou a ser um alento para as nossas mazelas, e derrotas em outros campos da vida, há muito tempo. E o nosso país, tão cheio de fraquezas e notícias diárias ruins, tem no seu futebol uma válvula de escape para os nossos tormentos, as nossas fraquezas.

Quatro anos depois estávamos novamente com o bloco na rua. Com Ronaldo Fenômeno no auge da sua forma, após passar por um grave problema em um dos joelhos, partimos para o Japão/Coréia do Sul, com uma seleção muito desacreditada, depois de jogar as eliminatórias de forma muito defensiva, e se classificar em terceiro lugar, atrás de Argentina( que ficou a anos luz da gente), e Equador. Mas, enfim, estávamos lá, e isso aqui no país é motivo para muita festa, apesar de os jogos terem sido disputados em horários impróprios, sempre de madrugada. Passarmos bem pela primeira fase, em primeiro lugar do grupo, após passar fácil por Costa Rica, China e Turquia. E nas oitavas batemos a Bélgica com certa facilidade e pegamos a Inglaterra nas quartas-de-final. Este sim, foi um jogo duríssimo contra os inventores do futebol. Ganhamos por 2x1, com um gol de Ronaldinho Gaúcho no melhor estilo espírita. Não deu para saber até hoje se ele teve a intenção de cruzar a bola na área ou se bateu mesmo para o gol.

As comemorações, confesso, eram meio frias, sem aquele estilo carnavalesco das outras copas. Tudo porque os jogos eram realizados nas madrugadas, como já falei, e íamos dormir para acordar próximo à hora do jogo. A torcida também era muito reduzida, pois a insegurança quer já começava a assombrar o país nos mantinha em casa. Foi a copa do mundo em que a cerveja sobrou na geladeira por falta de consumidor. Por outro lado, ainda assistíamos aos jogos na velha TV Sharp adquirida duas copas antes. Imagem, contudo, perfeita, para os padrões de então. Na semifinal ganhamos pelo magro placar de 1x0 de uma seleção pouco assídua em copas do mundo até então, a Turquia. Jogo chato, difícil para um time que se acostumou a depender do trio Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e, principalmente, Ronaldo Fenômeno. E nesse jogo estávamos sem o nosso poderoso camisa dez, expulso na partida anterior contra a Inglaterra.

Enervado e com a pressão nas alturas, fomos para mais uma final, contra a temível seleção da Alemanha. Nesse dia precisei mais do que nunca do amparo da cerveja para controlar os nervos. Não dormi a noite inteira, antes fiquei assistindo a tudo o que era programa esportivo até a hora da grande final. Foi pior. Deveria ter ido dormir, pois os nervos estavam à flor da pele quando o jogo começou. Completo outra vez, o time brasileiro emparedou a Alemanha e fez um jogo memorável. Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, e o Fenômeno estavam demais da conta e o Brasil venceu a forte retranca adversária com dois gols de Ronaldo. Estávamos nos acostumando a ganhar copas do mundo outra vez. Em três disputadas, ganhamos duas e fomos finalistas na terceira. Nada mal. E a ainda vimos a Argentina ficar logo na primeira fase. O que poderíamos querer de melhor? Quanto aos meus nervos, até que estavam no lugar, tal o futebol que jogamos contra os nossos temíveis adversários.   

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CARNAVAL



CARNAVAL

Pádua Marques

...negra, estroboscópica, psicodélica, rítmica, submarina...

Uma portaria assinada pelo juiz da Vara de Menores da Comarca de Parnaíba, José de Anchieta Mendes de Oliveira naquele dia 15 de fevereiro de 1976 ordenava que, entre outras, fossem observadas algumas determinações que aos olhos atuais podem ser consideradas ingênuas. Parnaíba ainda tinha boa parte das ruas sem calçamento, estava no meio de um grande inverno com mais de doze mil casas danificadas, segundo o relatório da CAVI, a Comissão de Amparo às Vítimas das Inundações, criada por entidades da igreja e dos clubes de serviços.

A portaria do Juízo de Direito da Vara de Menores dizia claramente que nenhum festival carnavalesco poderia se realizar com a presença de menores sem o competente alvará judicial era proibido a permanência ou participação de menores de 16 anos em salões públicos ou outros logradouros, bem como em qualquer local onde se realizassem bailes noturnos com entrada livre.

Nas vesperais infantis, que teriam início depois das três horas da tarde e deveriam se encerrar por volta das seis, somente participando os menores com idade superior a três anos desde que acompanhados de seus pais ou responsáveis. Em relação às matinais, deveriam se iniciar às nove da manhã e encerrar ao meio-dia obedecendo a uma separação entre estes menores até 13 e de 14 aos 18 anos. Haveria um intervalo de dez minutos de hora em hora para descanso sendo proibida a participação dos adultos nos folguedos, mas liberando suas entradas como acompanhantes.

O que mais chama a atenção, passados mais de quarenta anos, é a determinação sobre as matinais e vesperais infanto-juvenis e nos bailes noturnos frequentados por menores de dezoito anos. Deveria ser mantida a iluminação comum nos salões ou dependências sendo proibido o uso de “luz negra, estroboscópica, psicodélica rítmica, submarina e outras semelhantes”.

Outra determinação da legislação eleitoral dizia que estavam proibidas referências elogiosas ou não através dos corsos carnavalescos a políticos e autoridades brasileiras. Qualquer bloco que fizesse menção a nomes de pessoas, tanto no carnaval de rua ou nos clubes, estaria sujeito a sofrer a repressão por força de lei. Às comissões julgadoras seria determinado que o bloco fosse eliminado da competição.  

Fonte: IHGGP. Fotos: web. Edição: APM Notícias.  

INFLAÇÃO




INFLAÇÃO


Elmar Carvalho

A inflação está
tão alta que
papel-moeda
virou papel higiênico.

E papel higiênico
virou artigo de luxo.   

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O JUIZ RAIMUNDO CAMPOS



O JUIZ RAIMUNDO CAMPOS

Elmar Carvalho

         Em virtude da reforma que será feita no prédio do Fórum Dr. Raimundo Campos, desta Comarca de Regeneração, foi feita a mudança da repartição para uma casa antiga, situada no centro histórico da cidade, mais perto da matriz de São Gonçalo, santo de origem portuguesa, em cuja honra existiam as antigas rodas e cantigas que levavam seu nome, hoje quase extintas, sem ninguém que as dance, sem ninguém que as cante.

         Há quem diga que São Gonçalo do Amarante, tradicionalmente conhecido como alegre, festeiro e violeiro, não chegou a ser canonizado, mas teria chegado apenas ao posto de beato nos procedimentos católicos. De qualquer forma, o povo o canonizou e ele se tornou santo de fato, e como tal é reverenciado por clérigos e profanos.

         O Dr. Raimundo Campos foi juiz de Regeneração e Amarante por vários anos. Homem sem jaça, de reputação ilibada. Nasceu em Oeiras, em 10 de agosto de 1881, descendente de importante estirpe da velha capital. Era pai do grande teatrólogo e professor piauiense José Gomes Campos, cuja obra prima é o Auto do Lampião no Além.

     Para que se tenha uma pálida ideia desse magistrado, basta que se diga que ele recusou a governança do Estado do Piauí e, posteriormente, o cargo de desembargador. Numa época de muita ganância, muito egoísmo e ânsia por cargos, uma atitude como essa causa admiração, senão mesmo perplexidade.

      Era ele um homem austero, talvez um tanto circunspecto, mas tratava todos com cordialidade e fazia suas obras filantrópicas, sendo certo que tinha o respeito e a consideração dos seus jurisdicionados. Contou-me Nileide Soares, que seu pai fora amigo do juiz e falava muito bem dele, considerando-o um homem correto e digno.

          Dele ficou a memória de um caso anedótico, em que teria dado uma decisão contra um homem por causa de um delito de pequeno potencial ofensivo, como se diz hoje. O infrator o abordou, insistindo para que ele desse um “jeitinho”. Pelo visto o chamado jeitinho brasileiro já deveria existir naquele tempo. O Dr. Raimundo Campos, com inegável senso de humor, respondeu-lhe que era formado em Direito e era juiz de Direito, e, portanto, não poderia ser torto, e indeferiu a súplica verbal de forma liminar e peremptória.

10 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

As minhas Copas do Mundo de Futebol (3)

Fonte: Google


As minhas Copas do Mundo de Futebol (3)

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

A Copa do Mundo de 1986 deveria ter sido realizada na Colômbia. No entanto, as dificuldades econômicas sofridas pelo país à época, somada às exigências das marcas comerciais aliada às da própria FIFA que solicitava, além de grandes estádios, inúmeras regalias para os dirigentes da entidade, levaram o país sul-americano a renunciar à escolha da sede. Assim, houve uma disputa entre México, Estados Unidos e Canadá para definir o novo anfitrião do Mundial. Como o torneio havia sido realizado dezesseis anos antes no país latino com enorme sucesso, os mexicanos venceram de maneira unânime o pleito realizado em 1983, tornando-se os primeiros a abrigar duas Copas diferentes.

Nessa copa do mundo já estava residindo na minha própria casa, onde moro até hoje, e me preparei para ela comprando uma televisão maior que a da copa anterior, de 20 polegadas, o maior tamanho encontrado no mercado naqueles distantes tempos. Era uma Sharp com controle remoto, e com uma imagem de tirar o fôlego. E o melhor: além da mulher, tinha agora três filhos para animar a festa. Mas, apesar disso, e do mundial ser disputado no México, país em que ganhamos a nossa última copa, não estávamos tão confiantes assim, pois a seleção brasileira havia se classificado sem brilho nas eliminatórias, enquanto a Argentina havia passado voando baixo pelo seu grupo. E ainda contava com Maradona, o melhor do mundo na época. Aquela copa haveria de ser deles, por tudo que o Pibe fez. Apesar de contarmos com alguns craques da copa anterior, o time estava muito mudado, e já não apresentava a mesma qualidade da anterior.

Até que fomos bem na primeira fase: vencemos as três partidas jogadas. Sem muito brilho, é bem verdade, mas mesmo assim, vencemos. 1x0 na Espanha, 1x0 na Argélia e 3x0 na Irlanda do Norte. Parecia que melhorávamos jogo após jogo. Fui me empolgando, e os preparativos para os jogos foram melhorando também em minha casa: bandeiras, camisas, a música que antecedia aos jogos, e um grupo de amigos que aumentava jogo a jogo. O campeonato agora tinha uma nova distribuição de fases. Assim, passamos para as oitavas de final em jogo eliminatório, quem perdesse voltava para casa, como acontece hoje em dia. Ganhamos de forma incontestável da Polônia por 4x0, classificando-nos para a fase seguinte, as quartas-de-final. E isso nos animou bastante. Fomos para o jogo contra a França de Michel Platini com a maior confiança possível. A seleção estava engrenando dentro do torneio, crescendo jogo a jogo, e a adversária, apesar de não ser uma carne-frita, não era uma ganhadora de copas.

Foi um jogo nervoso e que terminou empatado em 1x1. E como era eliminatório, fomos para os pênaltis e, para grande desgosto, eliminados. Voltamos mais cedo para casa mais uma vez. As festas acabaram aqui em casa. Os amigos não apareceram mais para ver os jogos solidariamente. E ainda vimos os nossos piores adversários, a Argentina de Maradona, ganharem a copa com uma vitória sobre a Alemanha. Decepção total!

A Copa do Mundo de 1990 foi disputada na Itália, e não estávamos tão confiantes com o time que mandamos para lá, a começar pelo treinador, um tal Sebastião Lazaroni. Apesar de tudo, em casa preparamos tudo mais uma vez para festejarmos o evento com o maior carinho. A nossa TV ainda era a mesma que fora adquirida para a copa anterior, pois não havia necessidade de uma nova. A chamada seleção do Dunga não nos empolgou na primeira fase, apesar de termos ganho todas as três partidas. O placar apertado nos jogos sobre adversários fracos, ia nos preparando o espírito para o pior. E isso aconteceu da pior forma possível: contra o nosso adversário mais intragável, a Argentina. Até jogamos melhor, mas perdemos o jogo por 1x0. A copa do mundo passou a ter a qualidade de uma festinha do tipo tertúlia, com o mesmo sabor de quando temos que dançar com uma irmã.

E enquanto para nós transcorria tudo na maior desanimação, íamos vendo a Argentina de Maradona crescer dentro da competição, ultrapassando adversários poderosos até chegar a final contra a Alemanha. Para nós, aquela copa ia ficando cada vez mais intragável, sem graça. Preparamos uma festinha chocha, sem muito emoção, para vermos a final, todos torcendo contra a nossa vizinha de América do Sul. Menos mal que a Alemanha venceu e nos deu um pouco de alento ao bater a Argentina na final. Ficou aquele gostinho aético de nos alegrarmos com a derrota dos outros. Mas gostamos do resultado mesmo assim.

Em fim, chegamos à Copa do Mundo de 1994 a ser disputada nos EUA, país sem nenhuma tradição no futebol. Filhos já crescidos, foram eles que conduziram a animação, pois eu mesmo não comecei muito empolgado aquela copa. E para demonstrar isso, basta dizer que fiz reserva de hotel em São Luís para passar alguns dias de férias com a família exatamente no período coincidente com as semifinais do torneio. Não acreditava que o Brasil chegasse até lá. Mas, mesmo assim, comprei uma televisão nova de 29 polegadas, tela plana. Queria me utilizar das novidades que teríamos nas transmissões, situação propagandeada pela Globo diariamente.

Passamos bem pela primeira fase, com vitórias sobre a Rússia, Camarões, e empate com a Suécia. Apesar de tudo, o Brasil jogava um futebol de pouco brilho, levado pela genialidade de um certo baixinho letal, Romário, coadjuvado por outro azougue, Bebeto. Passamos para as oitavas-de-final com certo louvor, em primeiro lugar do grupo. Encaramos os donos da casa, os Estados Unidos, e passamos com um apertado 1x0. Enquanto isso, os Argentinos foram eliminados pela Romênia: dupla vitória nossa.

Nas quartas-de-final enfrentamos um adversário que se tornaria frequente em copas do mundo: a Holanda. Dessa vez vencemos por 3x2. Estava começando a me animar com aquela copa do mundo, e a torcida só crescia em casa. A decoração para as festas também.  Mas, como já afirmei, tive que assistir às partidas semifinais em um apartamento de hotel em São Luís do Maranhão. Assisti aos jogos dessa fase sem festa e quase sozinho, pois os meninos preferiam aproveitar a piscina do hotel. Passamos outra vez pela Suécia em jogo muito difícil, adversário da primeira fase com quem havíamos empatado em 1x1. Ganhamos o jogo com um gol de Romário. Sempre ele.

Animei-me para assistir à final em um lugar mais alegre e festivo, e viajei para o meu torrão natal, Presidente Dutra, a convite do meu irmão que praticamente inaugurava a sua casa nova. Lá a festa estava armada. Na área da piscina estava toda a família, além de alguns amigos queridos. Se a churrasqueira não parava de funcionar, o freezer não fazia feio também e vomitava cervejas estupidamente geladas. Quanto à partida contra a Itália, já faz parte da história: empatamos no tempo normal e na prorrogação, e fomos ajudados pelo craque deles, Roberto Baggio, que chutou o último pênalti para fora. Foi de Baggio o mote para o “gran finale”: fomos todos comemorar dentro da piscina. Como coube tanta gente, não sei explicar. Foi a única partida de Copa do Mundo que assisti pela TV na minha terra natal até hoje. E foi inesquecível a comemoração do Tetra Campeonato buscado pelo Brasil desde aquela festa monumental no México, 24 anos passados.  

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Vou rebolar minha bunda, hoje


Fonte: Google

Vou rebolar minha bunda, hoje

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Antes, desculpe o vulgar título. Afinal, vou pisar em cloaca fétida da música popular. Primeiramente, repare curiosa informação publicada no Portal Natal, ao comparar dois momentos da cultura musical no Brasil. Um quadro da seleção dos melhores artistas musicais, no ano de 1987, e a outra, de 2017:

1987: Primeiro Lugar: Roberto Carlos; 2-Djavan; 3-Marisa Monte; 4- Caetano Veloso; 5- Legião Urbana; 6- Gal Costa; 7- Gilberto Gil; 8- Marina Silva; 9- Renato Teixeira  e Almir Sater; 10- Zé Ramalho.

2017: Primeiro Lugar: Pablo Vitar; 2- Luan Santana; 3- Anitta; 4- Marília Mendonça; 5- Ludmila; 6- Nego do Borel; 7- Simone e  Simara; 8- Maiara e Maraísa; 9- MC Kevinho; 10- Thiaguinho.

         As duas relações, claramente incompletas, porquanto ficaram fora, na primeira, nomes consagrados, como Tom Jobim, João Gilberto, Tim Maia, Elis Regina, Mílton Nascimento, Luís Gonzaga, Rita Lee, Raul Seixas e dezenas de outros de notável criação artística, presentes nas paradas das rádios e tevês. Jovens se encantavam, pediam bis, entendiam e interpretavam os versos bem elaborados, porque estudavam português e literatura sem os temperos da mediocridade.

         A segunda relação, 2017, avança em ordem cavalar. Pouca gente se liga nos artistas, digamos, tragáveis, como Ivete Sangalo e algumas exceções sertanejas. O símbolo sexual da geração atual está marcada pela Anitta, rainha da favela funk e da bundície.  Extenuante exposição erótica nos shows e programas de tevê, além de outras mais. Milionárias, afinal o produto comercial é de fácil digestão, apesar dos efeitos colaterais. Observe só um trecho de VAI, MALANDRA:  Vai malandra an, na/E tá louca, tu brincando com o bumbum/ An, an tutudum an, na/Tá pedindo, an, na/Se prepara, vou dançar presta atenção/An, an tutudum an, na/Cê aguenta an, na/Se eu te olhar/Descer, quicar até o chão/Desce, rebola gostoso/Empina me olhando/Te pego de jeito.

         Em recente artigo no jornal O Globo, o jornalista Marco Antônio Villa denominou a atual geração dos apaixonados por Anitta e similares antidepressivos, REPÚBLICA DOS RASTAQUERAS, termo arcaico de origem francesa que significa rude, ignorante, vampiro, cara de rico. Segundo o jornalista, crítico ferino da atual conjuntura esquerdista, “o Brasil tinha, há algum tempo, uma presença no mundo ocidental, dialogava, trocava ideias, projetava grandes artistas, como Chico Buarque, Caetano, João Gilberto...  Hoje, somos um país fragmentado... O Brasil vive uma crise de identidade cultural... A ignorância se transformou em política oficial... Nesta conjuntura, é possível compreender como algumas figuras caricatas tomaram conta do cenário cultural. A cantora Anitta é o melhor exemplo. É elogiada como um verdadeiro símbolo do Brasil contemporâneo. Uma representante do país para o mundo. A música “Vai malandra” já foi chamada de novo hino nacional... No réveillon, na Praia de Copacabana, foi considerada a grande estrela. Brindou o público com frase de rara profundidade filosófica, como uma Hanna Arendt dos trópicos: “Vocês acharam que eu não ia rebolar a minha bunda hoje?” No país da Anitta, é indispensável dizer sim, sempre dizer sim. Há o medo manifesto de ser hostilizado por defender uma outra visão de mundo”. Perdoem-me, mais uma vez, mas que país é este onde até uma sessentona Grecten ainda posa de bumbum surrado para entrevistas e festivais?! PUM pra vocês da cloaca cult!     

OS MISTÉRIOS DA LAGOA DA VELHA

Fonte: Google


OS MISTÉRIOS DA LAGOA DA VELHA

Des. Valério Chaves

Da ALMAPI


             Dizem que o mundo ficou sem mistérios.
           Lugares míticos como a floresta de Brocelianda – palco das aventuras dos cavaleiros da Távora Redonda – não existem mais. Só na imaginação.
            Nada disso.
            No Piauí, por exemplo, além das lendas do “Cabeça de Cuia”, e  “Não se Pode” em Teresina, das “Sete Cidades” e “Serra da Capivara” – que intrigam arqueólogos com seus vestígios com mais de 3 mil anos – existem vários outros acidentes geográficos naturais que resistem a ação predatória do homem, com seus segredos, mistérios e lendas.
            Poderíamos citar, como exemplo, a “Lagoa da Velha”, de aproximadamente um quilômetro de extensão, localizada no povoado Caiçara no município de Landri Sales, região centro-sul do Piauí (300 km de Teresina), que guarda segredos, lendas e mistérios até hoje não desvendados.
            O que se sabe, através de estórias contadas por pescadores da redondeza, é que no meio das águas dessa lagoa, existe (ou existiu) uma ilha de terra firme medindo aproximadamente 200 metros quadrados que durante a noite se movimenta, ou seja, anoitece  (cia) numa margem amanhece (cia) na outra, misteriosamente. Por essa razão, chamam-na de “ilha encantada”, sem qualquer comprovação segura, claro. Segundo a lenda, sempre à meia-noite, ouvem-se vozes misteriosas vindas da ilha, parecendo chamar as pessoas para o meio das águas.
            - Talvez seja a voz de um monstro ou de uma princesa encantada pedindo socorro– diziam os mais assustados.
            Mas a Lagoa da Velha não ficou conhecida só por causa dessas estórias de lendas e causos contados alhures sem nenhuma prova concreta ou compromisso com a verdade.
            Lá, existe ou existiu, também, um fenômeno que por sua magnitude, mereceu no passado não muito distante, uma reportagem (não publicada) de um grande veículo de comunicação do sul do país.
            Trata-se de uma espécie de óleo inflamável, de cor preta, que com  frequência descia do alto das encostas da lagoa, como gotas petrificadas, até alcançar as águas, e era capaz de pegar fogo quando algum curioso mais afoito jogava palitos de fósforo acessos. Acreditava-se ser sinais de vulcão ou petróleo.
           
            A verdade é que, hoje, talvez pela ação predatória no local, não existe nenhum sinal desses eventos, nem tampouco as belezas naturais da Lagoa da Velha com suas águas cheias de encantos e magias, que apesar de perdidas nas brumas do tempo, certamente não deixam de encantar aqueles que um dia (como este vil escrevinhador) tiveram o privilégio de pescar e contemplar, in loco, seus inspiradores mistérios.
            Um dia, quem sabe, teremos a oportunidade de conhecer a verdade e  saber que eventos sobre mistérios e lendas sem nenhuma evidência científica concreta, não passam de mera invenção de contadores de estórias perdidos nas areias do tempo.
            Afinal, como afirmam os estudiosos do assunto, os mitos e as lendas existem apenas como forma do homem compreender e dar sentido aos fatos e eventos da vida e do mundo.    

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Valdeci Cavalcante vai tomar posse na Academia de Letras de Parnaíba



Em reunião realizada no Hotel Cívico, região central de Parnaíba, o presidente da Academia Parnaibana de Letras, José Luiz de Carvalho tratou dos detalhes da posse do advogado, empresário, presidente da Federação do Comércio do Piauí e escritor Valdeci Cavalcante naquela entidade, tendo como patrono seu pai, o comerciante e ex-vereador Gerardo Ponte Cavalcante.


O presidente José Luiz de Carvalho estava na ocasião acompanhado do secretário-geral da APAL, Antonio Gallas Pimentel, da escritora Maria Dilma Ponte de Brito. O futuro acadêmico é presidente da Federação do Comércio do Piauí.. Ficou acertado o dia 13 de abril às 19h no Espaço de Eventos, antigo Castelo do Thor, no bairro de Fátima.

Valdeci Cavalcante será recepcionado pelo escritor e acadêmico Elmar Carvalho e lança o livro Oriente Médio, História, Religião, Cultura e Desenvolvimento. Segundo o presidente José Luiz de Carvalho, na reunião da semana passada, foi tratado o convênio da academia com o SESC acentuando o projeto Academia Viva. 

Fonte: APAL. Fotos: APAL/ web. Edição: APM Notícias.   

Ouves?

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Ouves?


Rosal Benvindo

''Fecho os olhos
E encosto a concha do búzio
Na concha de minha orelha''
No sono antes infringido
Dormi um instante o ouvido
Aos búzios de Elmar Carvalho
E que dizem os búzios?
Invisíveis moluscos deste litoral
Veladas areias de Fortaleza
Eu estivera fosco ao que dizem
Tosco ao sonoro
Ás auréolas imemoriais dos búzios
E tão pouco os escutei
Fragmentos de signos antigos
Celulares micro búzios do esquecimento
Acordei sobressaltado
Ao sol da cidade
E não havia búzios que falam
Aos ouvidos de homens surdos
Que disseram teus búzios
poeta Elmar Carvalho?
Que mais diriam
Se eu os escutasse plenamente?
Arranho rastros no sopro das dunas
E no vapor da ausência
Evanesce o som que perscruto
Que disseram teus búzios?
Que diz o gris
Das espumas de Iracema?
Que diz o concreto da elegância
Nos edifícios do Meireles?
Que disseram teus búzios?
Que diz o emaranhado de pelos
Nos braços vermelhos de meu pai
Em que cada enrolar-se
É senão um verso?
Que diz o cheiro adocicado
De cebola e almoço
Nas mãos de Mundica às 11 horas?
Questiono ao mundo
Que disseram os búzios?
Que dizem os coisificados
E as coisas simples
Na placidez de suas iconografias?
Que dizem as moças
Que transitam esquisitas
E seus olhos de esfinge
Por serem moças ainda?
E em sua esfinge superior
Que diz a mulher madura?
Que diz a balzaquiana?
O acadêmico absoluto
Suas referências frígidas
Entretanto intocáveis
De paráfrase e citações
Que diz sua voz?
Sabe ainda o acadêmico
Que tem voz?
O olhar materno
Para o velho retrato
Do filho perdido
Em termos confusos
Que diz o silêncio
De um morto
À sua mãe?
O feto do mar abissal
Que um escafandrista gerou
Sozinho e em sonho
Nada diz?
A quem sussurrara
O primeiro isolar-se
Na claustrofobia das tintas
Dos depósitos e salas e cozinhas
E organizadíssimas camas
Das casas brancas de família?
Que dizem os fantasmas
Nos tetos destas casas?
Que dizem os analistas
Dos testes psicométricos
De concursos públicos e colégios?
Aos que praticam Cooper
E às marcas dos sadomasoquistas
Que dizem as passarelas de asfalto
Os instrumentos fálicos
Chicotes e tênis gastos?
Que diz o couro e o látex
Nos preservativos e bustos?
Questiono ao mundo
E o mundo diz o mínimo:
Tampouco sei
Poeta Elmar Carvalho
Que disseram os búzios?
A lâmpada queimada de instante
no quarto imensamente noturno
Do menino que é o único
E da septuagenária viúva
Que diz o escuro ao escuro?
E que diz o escuro do útero
Ao íntimo óvulo?
Finda a guerra
Que diz o nascituro
Ao gêmeo natimorto
No escuro do útero?
Que diz a fibra grotesca
Dos nervos encrespados
Do gato que nunca morre
O gato que permanece gerúndio
Morrendo infinitamente
Na mais fina ironia dos posfácios?
Que diz a insistência
Do mal poeta noviço?
E o gênio que nada escreve
Quanto diz seu vazio?
Habitariam o não dito
Os poemas serenizados
Na perfeição da semântica
Submersa a toda linguagem?
Calariam a falha inescusável
Das palavras de Heidegger
Os poemas não escritos?
Que disse Rimbaud
Aos anos não escritos?
Porquanto observo
Todo luxo obscuro
Me é dado ouvir
Os ruídos mínimos
Do tampouco do mundo
Me é dado o nunca olvido
Ao muito intangível
O predestino de ser capaz
Do amor oblíquo
Como a Vinícius
Fora dado o predestino
E a prerrogativa de ofício
De ouvir o que diz
Aquilo que nada diz
E o que diz o silêncio
Dos poemas não escritos
Dormentes nos búzios 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A PROPÓSITO DE DOIS PEQUENOS POEMAS


Fonte: Google

A PROPÓSITO DE DOIS PEQUENOS POEMAS  

Alcenor Candeira Filho

     Há tempos publiquei um artigo relacionado com o poema “Carga”, que apresenta vinculações com elementos da vida cotidiana e que vem se destacando no conjunto da minha obra poética, a ponto de merecer referências e transcrições em livros, jornais, revistas, comentários em salas de aula, cartões postais, exposições em varais de poesia e declamações em recitais. Eis o poema:

               “Carrego uma carteira  de identidade
               e mais outra de motorista
               um título de eleitor
               um certificado de reservista
               um cartão de CPF
               uma certidão de nascimento
               e outra de casamento
               um diploma de bacharel
               um seguro de vida
               (em todos eles ALCENOR RODRIGUES CANDEIRA FILHO)
               carrego uma calça
              (uns trocados no bolso)
              uma camisa
              uma cueca
              um sapato
              muitas chaves
              um automóvel
              e um relógio
              - e mais o peso abstrato da existência.”

     Escrito em 1975,  o poeminha se fez espontaneamente, sem grande esforço. Aliás, os motivos prosaicos da vida, tão presentes em “Carga”, me inspiraram no mesmo dia o poema “Este Esta”, onde igualmente objetos de uso cotidiano são enumerados:

               “este sapato me aperta
               este relógio me espreme
               esta gravata me sufoca
               este paletó me abafa
               esta calça me atormenta
               esta cueca me enche o saco

              - vontade de ser nu!”

     Em 1976 o jornal teresinense O ESTADO publicou três poemas de minha autoria, todos curtos e motivados em fatos e/ou personagens do dia  a dia: “Carga”, “Registro” e “Aquele Menino”. Essa transcrição seria o marco inicial de várias outras, que fazem de “Carga” o mais divulgado de meus poemas.
     Em 1978, “Carga” figurou em AVISO PRÉVIO, antologia poética editada em Teresina pela Livraria e Editora Corisco e Grupo Andreas de Ensino, reunindo poemas de Paulo Machado, Afonso Lima, Ral, Cineas Santos, João de Lima, Meneses & Moraes, Alcenor Candeira Filho e Rubervam du Nascimento.
     O jornal paulista SAGA, por indicação de Fontes Ibiapina, também publicou o poema, na edição nº 04.
     O pequeno poema  foi transcrito em 1985 no livro POEMÁGICO: A NOVA ALQUIMIA, antologia que contém poemas de Paulo Veras, Alcenor Candeira Filho. V. de Araújo, Jorge Carvalho e Elmar Carvalho, editada pelo Projeto Petrônio Portella/Secretaria da Cultura, Desportos e Turismo.             Comentando essa obra,  o escritor Renato Castelo Branco destaca “Carga” como um dos melhores momentos de minha participação na coletânea, onde se encontra, segundo  ele, “depois do hermetismo das chamadas escolas  de vanguarda (...) uma retomada da verdadeira poesia, um reencontro  com a beleza, sem artificialismo, vigorosa, meridiana, sensível, humana.”
     No natal de 1979, o Sistema Integrado de Comunicação O DIA distribuiu entre clientes e assinantes belíssimo cartão de natal e ano novo em que, além de fotografias coloridas de uma peça de artesanato do mestre Dezinho e de uma tela de Dora Parente, figuram poemas de autores piauienses, inclusive “Carga”.
     Através do jornal O DIA (1990), em matéria denominada “Esses Imortais Provincianos”, o jornalista Abdias Silva, piauiense que morou em Brasília.  refere-se a alguns intelectuais do Piauí (H. Dobal,  Wilson Brandão, A. Tito Filho), incluindo no artigo a minha pessoa, lembrada exatamente pela transcrição do poema “Carga”, a propósito do qual declara: “Pouca gente consegue extrair de elementos prosaicos como seus documentos e suas roupas uma expressão tão poética para a carga da existência.”
     O jornal parnaibano A LIBERTAÇÃO também publicou o poema em 1990.
     No livro  ANOS 70: POR QUE ESSA LÂMINA NAS PALAVRAS?, de José Pereira Bezerra, editado em 1993 pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, foram transcritos  oito dos dezenove versos  que compõem o poema, com o seguinte comentário: “Em CARGA, de Alcenor Candeira Filho, essa inquietação e ansiedade chegam ao paroxismo de um mal estar existencial (...) em que os aparatos identificadores de um cidadão de classe média representa um peso amorfo, que se soma ao peso do vazio da própria existência, revelando um sentido crítico diante do mundo.”
     Em 1995, “Carga” chama a atenção mais uma vez, abrindo a série de composições de minha autoria na mais importante antologia poética piauiense  -  A POESIA PIAUIENSE NO SÉCULO XX  -, organizada por Assis Brasil e publicada pela Imago Editora Ltda, em convênio com a Fundação Cultural Monsenhor Chaves.
     Não sei a que atribuir o pequeno sucesso do minúsculo poema. Através da enumeração de simples objetos impostos pelo mundo do consumo e da burocracia em que vive sufocado o homem moderno, o poeminha encerra forte carga emocional ao tangenciar uma temática complexa de natureza transcendental. É sem dúvida um poema interessante, simples, despojado, comunicativo, conciso. Já  escrevi poemas mais extensos e qualitativamente superiores. Mas nenhum tem sido mais mencionado do que “Carga”.
     Agora falarei de outro pequeno poema de minha autoria  -  “Sonetilho”  -  que também vem merecendo especial atenção de artistas e professores.
     “Sonetilho” foi escrito em  2013 e figura na catracapa de meu livro PARNAÍBA: MEU UNIVERSO, cuja capa foi criada pelo grande artista parnaibano Fernando Castro, bem como no livro-álbum PARNÁRIAS: POEMAS SOBRE PARNAÍBA, organizado em 2017 pelos poetas Alcenor Candeira Filho, Elmar Carvalho e pelo fotógrafo e escritor Inácio Marinheiro.
     Em caricatura feita por Fernando Castro em que sou retratado com camisa do Flamengo sentado em banco da praça da Graça ao lado do Monumento da Independência, o primeiro quarteto de “Sonetilho” foi evidenciado.
     O poeminha foi traduzido para o inglês pelo professor Augusto Santos e apresentado em 2017 em evento internacional promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
     Segue o poema na versão original e na tradução:

              SONETILHO

               “a cidade
               é o cimento
               que concreta
               a vida.

               berço-cama-mesa
               universo
               e verso
               reais

               beira rio
               beira vida
               -  Parnaíba

               minha vida
               concreta
               e completa.”


                TRADUÇÃO

               “the city
               is the cement
               that concretes
               life.

               crib-bed-table
               real
               universe
               and verse

               border river
                border life
                -  Parnaíba

               my life
               concrete
               and complete.”    
                       
     Recentemente “Sonetilho” foi musicado pelo maestro Beetholven Cunha, pernambucano radicado em Parnaíba. O trabalho do maestro será brevemente apresentado ao público pelo Coral da Cidade/Projeto Corais do Mar.
     Assisti no SESC/Caixeiral a um dos ensaios do coral comandado pelo grande maestro e fiquei bastante emocionado com o que vi e ouvi.