quinta-feira, 19 de julho de 2018

Capitão Roberto Ramos da Silva, Roberto da Cachoeira.

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Capitão Roberto Ramos da Silva, Roberto da Cachoeira

Reginaldo Miranda *

A conquista do Piauí data do terceiro quartel do século XVII, cento e cinquenta anos depois dos Grandes Descobrimentos, quando já estava relativamente explorada a faixa litorânea norte-sul. Foi no verão de 1661, que os paulistas capitaneados por Domingos Jorge Velho e Francisco Dias de Siqueira adentraram esse território fundando arraial e vivendo da captura de índios que vendiam como escravos para a lavoura açucareira do referido litoral. Dez anos depois os irmãos lusitanos Domingos Afonso Sertão e Julião Afonso Serra, penetram pelas bacias dos rios Piauí e Canindé fundando fazendas de gado bovino, no que são seguidos pelos também irmãos Francisco Dias d’Ávila e Bernardo Pereira Gago, seus sócios, que devassam a bacia do Gurgueia. Estava, assim, iniciada a colonização do Piauí cujos currais aumentam vertiginosamente à medida que chegam outros colonizadores que aqui iam se estabelecendo.

Essas fazendas eram estabelecidas nas sesmarias excessivamente concedidas àqueles primeiros conquistadores, que, posteriormente, eram arrendadas por dez mil reis anuais aos posseiros que, de fato, as desbravavam e as colonizavam com gente e gado. Foi assim ocupado o território piauiense e outras vastas áreas dos sertões de dentro. É desse tempo que datam as famílias pioneiras da colonização.

No entanto, embora a historiografia nacional não tenha se interessado em indagar sobre a possibilidade de terem ficado em nosso meio representantes da família Afonso, descendentes ou colaterais daqueles primeiros conquistadores, gostaríamos de discutir o assunto nessas notas que seguem. Esta família é natural da freguesia de São Domingos da Fanga da Fé, pertencente ao concelho de Mafra, depois passando ao de Torres Vedras, mais tarde retornando ao de Mafra, ambos no arcebispado de Lisboa. Foi patriarca dessa geração o casal Julião Afonso, o velho, e Jerônima Francisca, ambos falecidos na mesma freguesia, onde cultivavam uma vinha na ribeira do Barril. Dois de seus filhos foram pioneiros na conquista do Piauí, os referidos Domingos Afonso e Julião Afonso, o moço, que, aqui, em face das mesmas conquistas receberam os epítetos de Sertão e Serra, respectivamente. Ambos conquistaram imenso patrimônio, constituído por muitas sesmarias que lhes foram concedidas como recompensa pela conquista. Parece que em Mafra, na companhia dos genitores, ficaria um terceiro filho, de nome Jorge Afonso, ou João Jorge Afonso, o que se depreende pelo nome de seus descendentes, que, mais tarde viriam para o Piauí.

No que se refere ao sertanista Domingos Afonso Sertão, este faleceu solteiro deixando seu imenso latifúndio aos Regulares da Companhia de Jesus. Porém, deixou três filhos havidos com índias: André Afonso Sertão, Vidal Afonso Sertão e uma moça casada com João Coelho de São Pedro. Depois destes descendentes muito lutarem para reaverem o patrimônio de seu pai, apoiados pela justiça da terra, foram derrotados nos tribunais superiores, acabando por se fixarem com fazendas no médio curso e cabeceiras do rio Piauí, onde deixaram numerosa descendência, alguns deles entrelaçando-se às famílias Paes Landim, Dias e Miranda, entre outras.

No entanto, Julião Afonso, o moço, aqui chamado Julião Afonso Serra, trouxe um sobrinho e, possivelmente, afilhado a quem institui como seu herdeiro universal, herdando este todo o seu patrimônio. Era Domingos Jorge Afonso, também natural de Mafra, que muito lutou pela manutenção de suas propriedades, delas usufruindo, vendendo algumas e perdendo outras. Fora casado com dona Antônia Florência de Jesus, que lhe sucedeu na administração dos bens remanescentes, juntamente com o filho João Jorge Afonso. Essa gente vivia entre a Bahia e o Piauí.

Comprovadamente, fixou-se no Piauí outro sobrinho daqueles conquistadores, Ignácio Gomes Afonso, irmão do referido Domingos Jorge Afonso, mas que não herdou bens do indicado tio, Julião Afonso. Veio a chamado do irmão mais velho, que lhe doou a fazenda Poções, situada no riacho de mesmo nome, afluente do rio Piauí, com quatro léguas de comprimento e meia de largura, cujo título de posse faz expressa referência ao parentesco. Fora este casado com dona Domingas Rodrigues Flores, que lhe sobreviveu, permanecendo nesta fazenda, onde também faleceu. Em 1765, ali residia com os filhos Diogo, Miguel, Manoel, Helena, Eugênia, Joana, Victória e a sobrinha Theodózia, além de cinco escravos, duas escravas e dois forros. Outros filhos casados, e que não esclarece o documento, já residiam em outras fazendas.

Aliás, nesse mesmo período também residia na fazenda Brejo, situada nas cabeceiras do riacho dos Pilões, afluente do Canindé, com uma légua em quadra, por ele povoada, o fazendeiro João Jorge Afonso. Nela residia com a esposa Maria da Silva de Jesus, além de um escravo e uma escrava. Pensamos que este não é o filho do capitão Domingos Jorge Afonso, mas um primo homônimo. Seria filho primogênito do mencionado Ignácio Gomes Afonso e de sua esposa Domingas Rodrigues das Flores. Foi filho daquele casal o capitão Roberto Ramos da Silva, fundador da fazenda Cachoeira do Roberto, no atual Município de Afrânio, em Pernambuco, onde deixou numerosa descendência. Como indício do parentesco, esse último fazendeiro assina o termo de seu casamento com o nome de Roberto Ramos das Flores, possivelmente em homenagem à avó paterna. Portanto, a família Afonso deixou descendência no Piauí (AHU. ACL. CU. 018. Cx. 8. D. 513).

Roberto Ramos nasceu cerca de 1767, na referida fazenda Brejo, filho de João Jorge Afonso e Maria da Silva de Jesus, que também aparece Maria da Silva da Conceição. Foi batizado em 26 de setembro de 1770, pelo padre João Espanha, na igreja matriz de Nossa Senhora da Vitória, na cidade de Oeiras, então capital do Piauí, em cujo termo se situava a mencionada fazenda.

Interessante é que pouco antes, em 3 de março de 1769, na mesma igreja matriz, foi batizado o menino Mathias, filho de Antônio Jorge Afonso e de Ana Maria da Silva. Evidentemente, trata-se de um primo daquele. Par nós, este último João Jorge Afonso seria irmão de Antônio Jorge Afonso, ambos filhos de Ignácio Gomes Afonso e Domingas Rodrigues Flores.

Foi na fazenda paterna que viveu a infância, juventude e maturidade, estudando com os genitores e depois com padres na cidade de Oeiras. Perdendo o pai ainda na juventude, desde cedo Roberto Ramos teve de assumir a administração da fazenda e as responsabilidades com a mãe e uma irmã mais moça.

Conforme consta nos arquivos eclesiásticos da velha matriz de Nossa Senhora da Vitória da cidade de Oeiras, Roberto Ramos das Flores, assim está escrito, filho de João Jorge Afonso, já defunto, e de Maria da Silva, convolou núpcias em 11 de janeiro de 1787, com Delfina Rodrigues Seabra, filha do cabo-de-esquadra João Rodrigues Seabra, ex-diretor do aldeamento indígena de São João de Sende(entre 10 de outubro e 16 de novembro de 1780), e de Antônia Baptista, ambos já defuntos, sendo os nubentes naturais e residentes na mencionada freguesia. Era a nubente irmã de José Joaquim Rodrigues Seabra, que fora nomeado Tabelião Público de Oeiras, em 18 de fevereiro dem1809 (Liv. de Cas. N.º 1, fl. 181; Arquivo Público do Piauí. Códice. 151.  P. 92, 111/111v, 114/114v e 115; Códice. 159. P. 89v).

Essa informação de que na data de seu casamento, o genitor já estava falecido, desmente uma nota fantasiosa publicada em abril de 1998, por um jornalista de Petrolina, José Teles, no jornal O Caboclo, de que Roberto Ramos mudara para Pernambuco para proteger a mãe infiel da ira do esposo traído. É esta uma versão infundada, sem base documental, refutada pela documentação eclesiástica de Oeiras. Aliás, as informações ali contidas são recheadas de equívocos, baseadas em lendas deixadas por um homem de ação que marcou época no sertão onde viveu. Também, confunde o nome dos genitores. Sua mãe, velha matriarca da têmpera nordestina viveu uma viuvez honrada até seus últimos dias de vida, permanecendo sempre em companhia desse distinto filho, a cuidar dos netos que nasciam a cada ano em número de dezessete.

Ao mesmo tempo em que via a família aumentar, Roberto Ramos prosperava no criatório de gado, aumentando o rebanho e instalando novas fazendas. Também, ingressando na carreira militar, alcançou o posto de capitão de ordenanças da guarnição de Oeiras.

Nos livros de registros eclesiásticos de Oeiras, existem registros de batizados de diversos de seus filhos, entre esses: Francisco, batizado em 2 de janeiro de 1790, recebendo por padrinhos Thomé  do Rego Monteiro e sua mãe Florência do Rego Monteiro; Mamédio, batizado em 28 de maio de 1792, pelo padre Aniceto Ribeiro, recebendo por padrinhos José Teobaldo Coelho e Aldonça Micaela; Pedro, batizado em 6 de setembro de 1796; Cipriano, batizado em 4 de julho de 1798, recebendo por padrinho João Ribeiro Antunes e Maria da Silva.

Em 1806, o capitão Roberto Ramos da Silva adquiriu por compra a Estêvão Coelho Rodrigues, ao que se diz, a data de sesmaria Cachoeira, ainda inculta, pelo preço de cinco contos de reis. Então, ali fundou promissora fazenda, ampliando-a com a aquisição de novas terras e aumento do rebanho, tornando-se, assim, um dos grandes latifundiários e criadores da região fronteiriça entre o Piauí, Pernambuco e Bahia. Porém, com seu rebanho já em número avantajado passou a enfrentar dificuldades com a escassez de água e pastagens em face das constantes estiagens que ainda hoje afligem aquela região do semiárido nordestino. Consta que era católico fervoroso e, segundo a documentação histórica, em pagamento de promessa pela mantença de seu rebanho, em 1817 construiu em frente à sua residência uma capela sob a invocação de Nossa Senhora das Dores, santa de sua devoção. Também, deu início à tradicional festa do Divino Espírito Santo.  Para o primeiro empreendimento contou com o concurso de Fr. Ângelo Maurício de Niza, missionário capuchinho italiano, que desde 1803 catequizava em missões pelo alto sertão, terminando os seus dias em 1824, no aldeamento da Baixa Verde, hoje cidade de Triunfo, em Pernambuco, conforme anotou o festejado historiador F. A. Pereira da Costa em seus Anais Pernambucanos (vol. 5, p. 568/569). Desde então, o padre em desobriga passou a celebrar a missa e desenvolver as atividades católicas no novo templo que, inclusive, serviu de sede paroquial entre os anos de 1867 e 1870. E o lugar ficou conhecido por “Cachoeira do Roberto”, em homenagem ao seu proprietário e fundador.

Depois de seu óbito, o capitão Roberto Ramos da Silva foi sucedido na administração e conservação do templo, bem como na organização da festa do Divino, por sua filha Ana Maria, que, juntamente com o esposo, José Santana, tomaram para si essa responsabilidade, tornando-se benfeitores do lugar. A esposa Delfina Rodrigues Seabra, mulher de fibra, longeva, grande matriarca do sertão, ao lado de Fr. Henrique, capuchinho italiano, construiu o cemitério de Cachoeira do Roberto, sendo, porém, sepultada no altar-mor da referida capela de Nossa Senhora das Dores, por volta de 1873, quando faleceu com 105 anos de idade. Sobre ela, em 1868, publicou interessante nota o Jornal do Recife, depois transcrita no jornal Correio Paulistano, o que demonstra a curiosidade que despertava o seu estilo de vida e a numerosa descendência. Suspeitamos que essa matéria seja de autoria do citado Pereira da Costa:
  

“Prole numerosa – Da comarca da Boa-Vista(Pernambuco) escreveram ao Jornal do Recife:

‘Delfina Rodrigues Seabra, viúva, maior de cem anos, moradora na fazenda de criar, Cachoeira do Roberto, freguezia do Senhor Bom Jesus da Igreja Nova, termo e comarca da Boa-Vista, teve de seu consórcio com Roberto Ramos da Silva, 17 filhos e destes conta mais de cem netos, mais de trezentos bisnetos e para mais de cem terceiros netos, alguns dos quais já têm filhos.

‘Com essa senhora, compõe-se a sua família de cerca de seiscentas pessoas.

‘Delfina ainda vai à igreja, onde assiste ajoelhada ao santo sacrifício da missa, não podendo, porém, fazer o trajecto por seus próprios pés, vae carregada em uma cadeira; sendo que tem o goso de suas faculdades intelectuais, dando disso provas repetidas.

‘A Cachoeira, lugar de sua residência, é conhecida pelo primeiro nome de seu finado marido.

‘A maior parte da descendência dessa senhora reside nos termos das províncias da Bahia e Piauhy, que confina com esta comarca” (Correio Paulistano, São Paulo, Quinta-feira, 24.12.1868, edição n.º 3764, pág. 2).
  

Roberto da Cachoeira, como ficou conhecido, fez-se grande latifundiário construindo invejável patrimônio que, posteriormente, foi dividido entre seus 17 filhos.

A povoação que originou da fazenda, possuía localização privilegiada, situando-se entre os rios Pontal e S. Francisco, à margem da antiga estrada real, onde demandavam os viandantes, vaqueiros, tropeiros e boiadas no percurso entre os sertões do Piauí, Pernambuco e Bahia. Por essa razão, “era muito frequentada pelos viandantes, que estacionavam na localidade, pelos recursos que proporcionava, vindo daí o seu desenvolvimento e sua importância”, anotou o citado F. A. Pereira da Costa, primeiro escritor a narrar a fundação e desenvolvimento do lugar. Acrescenta o mesmo autor: “Muito habitada, de vida própria e animada pelo seu movimento comercial, com uma boa feira semanal, de um clima ameno e agradável, e  proporcionando excelente e abundante água potável, com a sua capelinha curada e um cemitério em conveniente situação, já teve a povoação o predicamento de paróquia com a remoção da sede da do Senhor Bom Jesus da Igreja Nova, ou Boa Vista, em virtude da Lei Provincial n.º 758 de 5 de julho de 1867 e servindo de igreja matriz a sua capela de N. S. das Dores; e depois, da de Santa Maria Rainha dos Anjos de Petrolina, até que foi transferida para a sua própria sede pela Lei Provincial n.º 921 de 18 de maio de 1870” (op. cit).

Em face dessa vantajosa posição, em 1854 a sede de fazenda já se tornara um povoado próspero e prometedor, progredindo ao ponto de, em 1868, contar com cerca de 80 casas, informa F. A. Pereira da Costa (Anais Pernambucanos. vol. 5, p. 568/569). Pertencia originalmente ao Distrito de Santa Maria da Boa Vista, depois cidade e município de mesmo nome. Todavia, pela Lei Provincial n.º 530, de 7 de junho de 1862, que criou o município de Petrolina, passou a este, retornando para o município original pela Lei n.º 601, de 13 de maio de 1864, que extinguiu este último. Por fim, já como sede distrital retornou a Petrolina pela Lei Provincial n.º 921, de 18 de maio de 1870, que restabeleceu sua autonomia administrativa. No entanto, conforme se disse, em face de seu desenvolvimento foi elevado a sede distrital e paroquial pela Lei Provincial n.º 758, de 5 de julho de 1867, permanecendo integrando o Município de Petrolina e, como tal, permaneceu por largos anos.

Todavia, o progresso da povoação estacionaria a partir de 1926, como efeito da construção da inconclusa Estrada de Ferro Petrolina/Teresina que, ao invés de passar pela tradicional vila de Cachoeira do Roberto, em novo traçado passou pela vizinha fazenda “Inveja”, sucessivamente de Francisco Rodrigues da Silva e Sebastião Rodrigues Coelho (1844 – 17.08.1904). Então, esse novo lugar que, a partir de 1928 recebeu o nome de São João de Afrânio, em homenagem ao Engenheiro Afrânio de Melo Franco, um dos responsáveis pela obra, prosperou em prejuízo de Cachoeira do Roberto. Por fim, essa decadência econômica se completaria com a edição do decreto-lei estadual n.º 235, de 9 de dezembro de 1938, que extingue o distrito de Cachoeira do Roberto, sendo seu território repartido entre os distritos de Afrânio (ex-São João de Afrânio), Rajada e Poço da Anta.

E permanece a povoação de Cachoeira do Roberto nessa situação decadente até a criação do novo município de Afrânio, pela lei estadual n.º 4.983, de 20 de dezembro de 1963, com instalação oficial em 31 de maio do ano seguinte. Então, nesse interregno, pela lei municipal nº 28 de 23 de dezembro de 1963, é restabelecido o distrito de Cachoeira do Roberto, não sendo, porém, instalado, o que só ocorre depois de ser recriado pela Lei Municipal n.º 13-A, de 20 de outubro de 1967, agora com novos limites territoriais e pertencente ao novo município, em cuja situação permanece até à atualidade. Aos poucos a povoação retoma os caminhos do progresso. Atualmente possui 90 domicílios e 300 habitantes (IBGE – Censo, 2011) e possui um cartório de registro civil das pessoas naturais.

 Segundo informações que temos, a festa do Divino Espírito Santo é muito tradicional em Cachoeira do Roberto, reunindo grande número de fiéis no novenário que encerra-se no dia de “Pentencostes”, com festas e quermesses.

Com essas notas resgatamos a memória de mais um dos fazendeiros fundadores da sociedade rural sertaneja. Um piauiense do vale do rio Canindé, que depois mudou-se para a região fronteiriça pernambucana, onde deixou história de trabalho e numerosa descendência.

______________________________________

* REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Atual presidente da Associação de Advogados Previdenciaristas do Piauí Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br    

terça-feira, 17 de julho de 2018

O que é plágio

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O    Q U E    É    P L Á G I O

Alcenor Candeira Filho

     Plágio é cópia conforme está dito nos seguintes versos:

                              no rude
                              reino da hipocrisia
                              onde nada se cria
                              e tudo se copia
                              - não reina a poesia.
  
       Do grego “plágios”, pelo latim “plagium”, significando em princípio o que rouba os escravos alheios ou o que compra e vende como escravo uma pessoa livre  -  plágio é a imitação servil, consistindo em fazer um autor passar por sua, obra que, na realidade, é de outro. O plagiador esmiúça sempre um estilo alheio, desmonta-o, penetra em seus segredos e peculiaridades, esforçando-se para assimilar (para em seguida utilizar) todas  as sutilezas de técnica de estilo empregadas pelo escritor-modelo.
     O plagiato é crime, porque não passa de uma tradução nada judiciosa com que alguém procura impor-se na vida literária às custas do talento alheio. O plagiador constrói sempre obras banais, vulgares, imprestáveis.
     Todo autor tem o direito de ter a obra como sua, sem modificação ou deturpação. Trata-se de direito perpétuo e inalienável, vinculado à própria personalidade do autor e amparado pela lei civil e pela lei penal. E tal proteção legal não abrange apenas o estilo em si. A criação literária decorre de dois elementos: a ideia e a palavra, razão pela qual a lei não permite que alguém se aproveite das ideias ou do estilo do autor. Ensina Carvalho Santos, em CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO INTERPRETADO, vol. VIII, que  “para os efeitos legais,  o atentado representa a mesma gravidade, numa ou noutra hipótese, porque o todo em si, e cada parte desse corpo, merece por igual a proteção da lei. Assim como não permite a lei que se mate alguém e que também se faça ferimento em qualquer parte do corpo do homem,, assim também não permite a lei que se copie servilmente a obra alheia ou dela se aproprie alguém da ideia, da concepção, da sua alma, na qual muitas vezes está o seu encanto, o seu valor.”
     Abordando o assunto sob prisma jurídico-penal, Nélson Hungria, em COMENTÁRIOS AO CÓDIGO PENAL, vol. VII, diz “que só é criminoso o plágio quando alguém usurpa, pelo menos, trechos importantes da obra alheia ou essenciais de sua estrutura psicológica”, como ocorre nos versos do poema “Democracia no Brasil”, do poeta piauiense Chico Castro:

          “fraqueza geral
          falta de apetite
          vômitos
          diarreia.
          tosse, tosse, tosse.
          Infecção intestinal
          genital
          piócitos na urina
          nematoide
          cestoide:
          tosse, tosse, tosse.
          crânio explodido.
         
          fazer um exame de consciência e vergonha.”
    
     É fácil perceber que tudo não passa de decalque grosseiro do célebre poema “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira:

          “Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
          A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
          Tosse, tosse, tosse.

          Mandou chamar o médico: 
                    (...)
          - O senhor tem uma escavação  no pulmão esquerdo
                                                    e o pulmão direito infiltrado.                     
          - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
          - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

     O plágio  é evidente: os quatro primeiros versos de Chico Castro representam uma enumeração de quatro deficiências orgânicas, com pequenas alterações terminológicas do primeiro verso de Bandeira. Do verso deste  -  “tosse, tosse, tosse”  - apropriou-se na íntegra o poeta piauiense, que, no desenvolvimento de sua (?) composição, faz como que um diagnóstico médico (“infecção intestinal/genital/piócitos na uruna/nematoide/cestoide”), fundamentado nos elementos sintomáticos do início do poema, - lembrando o diagnóstco do médico no poema de Manuel Bandeira: “O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.” “Pneumotórax” termina com a sugestão de que “a única coisa a fazer é tocar um tango argentino”, enquanto em “Democracia no Brasil” ocorre, igualmente,  uma recomendação no sentido de “fazer um exame de consciência e vergonha”. 
     Na seleção de poesias  -  “Árias Sonorosas”  -  , Oliveira Neto, em nota alusiva ao soneto “O Parnaíba”, queixa-se de que o referido poema foi plagiado e publicado na revista “Mafrense”, de 25.09.1969, lembrando ainda que o jornal teresinense “O Dia”, de 28 do mesmo mês, fez amplo comentário sobre o plágio. Ter sido vítima de plágio marcou tanto o autor de “Ícaro”, que acabou escrevendo o seguinte  soneto:

          “O plágio é um crime degradante.
          Avilta e deprime o delinquente.
          Não é um simples furto de assaltante,
          De um ladrão de algibeira, ou de um doente.

          Alguém o vê por prisma fascinante
          (Embora isso não seja mui fluente).
          É ato de escritor, de gente amante
          Das letras, da poesia rica e candente.

          Fui vítima de um plágio, e não gostei.
          Tive n’alma um desgosto tão profundo,
          Que até cismando por aí andei...

         Não serei dos poetas consagrados.
         Mesmo assim, mesmo morto, no outro mundo,
         Não quero ter meus versos plagiados.”

     Não se deve confundir plágio com  as formas lícitas de re-criação poética, como a paródia, a paráfrase, a alusão, a tradução, o centão, a imitação.                        

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Elmar Carvalho e seu ‘Histórias de Évora’ (*)

Fonte: Google
Fonte: Google/Jornal da Parnaíba


Elmar Carvalho e seu ‘Histórias de Évora’ (*)

Dagoberto Carvalho Jr.
Da Academia Piauiense de Letras

Comigo, na memória e sobre a mesa, o curioso livro do poeta e confrade de Academia Piauiense de Letras, Elmar Carvalho, de título ‘Histórias de Évora’ (Edição da APL, Coleção Século XXI, nº 15, 2017), em que exercita – o campo-maiorense ilustre – sua vocação, também, de romancista. Esperava a leitura e o registro, que o tempo do coração, (físico, mesmo, no meu caso) somente agora permite; posto que a primeira lembrança levara-me, de volta e de imediato, à portuguesa cidade alentejana, do nome, onde eu fora fruir – há décadas – ricas e belas lições de Arte Sacra, aproveitadas à minha dissertação (‘A Talha de Retábulos no Piauí’), do Mestrado em História pela Universidade Federal de Pernambucano, depois editada em livro, já em segunda edição.

 O autor, já conhecia como bom poeta e como tal chegou a nossa Academia. Fora Juiz de Direito da primeira capital do Piauí, cidade a cuja memória literária e sentimental incorporou o poema ‘Noturno de Oeiras’, de extraordinária inspiração; como que ‘traduzindo’ em versos do melhor telurismo meu ‘Passeio a Oeiras’, para cuja sexta edição escreveu – de lembranças – belo prefácio. Seu ‘Noturno’ vai ficar na memória e na saudade dos oeirenses que já o temos como um dos nossos. Elmar nunca deixou de aparecer por lá. Lembro de passagem sua por festa literária do Instituto Barros de Ensino.

Hoje, homenageamos o autor do romance que esta página resenha. Estórias, quase memórias, posto que, quando não necessariamente suas, o são (em parte ou no todo), dos adolescentes e jovens rapazes de seu tempo e de seu meio. Recordações da infância, como as da própria Évora reinventada, a servir de palco para as suas – e ou do personagem principal – iniciações amorosas. Estórias bem contadas. Descrições com riqueza de detalhes. Perfis humanos bem traçados. Belas mulheres eroticamente esculturadas. Descrições exímias.

Atenção especial – além, naturalmente do romance em si – merece o notável estudo de apresentação do autor e de sua obra (‘Histórias de Évora’ uma ficção do erotismo, amor e saudade), de autoria do crítico literário piauiense, radicado no Rio de Janeiro, Cunha e Silva Filho, de reconhecido prestígio na área e cujo nome transportou-me, de imediato à memória de seu pai que, ainda, conheci, em Teresina e na Academia.

Vale a ficção novelesca de Elmar Carvalho.

                             16 de julho de 2018

(*) Histórias de Évora se encontra à venda nas melhores livrarias de Teresina e na Banca do Louro, em Parnaíba.

Marítima

Fonte: Google


MARÍTIMA 

Elmar Carvalho

Do mar eu trouxe
o vento que dança
em torno de meus cabelos.
Trouxe este meu cheiro
de sal, mariscos e maresia.
Vaqueiro fui e fazendeiro
de estrelas-do-mar que
subiram ao céu para formar
constelações e galáxias.
Nas pontas agudas de meus dedos
cintilam fogos-de-santelmo.
Meus olhos têm o brilho
que roubei das ardentias.
Os relâmpagos das procelas
pousaram nas minhas mãos
e nelas se aninharam.
Do ritmo do mar eu trouxe
os meus gestos e o meu jeito de falar.
Num lance de búzios
joguei minha cartada final
em que fui anjo terminal.
Do mar eu trouxe a cantiga
do vento na voz dos búzios.
Sobre o dorso de alados cavalos-marinhos
pesquei sereias malévolas que me
encantaram e depois fugiram.
No vai-e-vem das ondas
busquei o meu gesto de
posse e devolução.
Trouxe o meu beijo temperado
no salamargo de suas águas.
Trouxe tesouros sepultos
nas covas do coração.
Com o mar aprendi meu modo
de caravela: meus dedos
são filamentos que machucam
sem querer, que ferem
sem ter por quê.
Trouxe caracóis que se (con)fundiram
com os caminhos labirínticos que trilhei.
Louros, nunca os tive,
exceto algas em meus cabelos.
Arrebatado por navios fantasmas
conheci várias e inefáveis dimensões.
Nadei contra as correntes marinhas,
mas a elas cansado me entreguei,
despojado da púrpura e do cetro
com que havia lutado.
Trouxe do mar as conchas ilusórias
     – multiformes e multicores –
com que minha vida enfeitei.
Mas sobretudo trouxe a vida
na alegria das chegadas
e na tristeza das despedidas.   

domingo, 15 de julho de 2018

Seleta Piauiense - Torquato Neto

Fonte: Google


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 Torquato Neto (1944 – 1972)

Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi
Só quero saber do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder  

Fonte: site Antonio Miranda   

sábado, 14 de julho de 2018

Crispim, rios de desesperança


Da esquerda à direita, Nelson Nery Costa, presidente da APL, acadêmico Manoel Paulo Nunes, escritor Pádua Carvalho e o acadêmico Dílson Lages Monteiro.

Crispim, rios de desesperança


(*) Dílson Lages Monteiro

Escrevendo sobre particularidades vitais da Teoria Literária, ao discorrer sobre a trama no romance, anotaram os mestres mineiros Audemaro Goulart e Oscar Vieira:

“Ler um romance consiste em filtrar significados outros que não aquele óbvio que as palavras na sua limitação significativa estão a sugerir. É necessário que o leitor rompa a barra que separa significante e significado e se projete em outros domínios, descobrindo novos eventos, às vezes latentes, às vezes matreiramente escamoteados pelo romancista. Assim procedendo, ele, o leitor, estará enxergando os personagens sob novos prismas e perspectivas, estará, enfim, vendo gente viva, onde, supostamente estariam simples bonecos (...) Grave-se isto: a trama de um romance jamais deve ser o simples contar de uma história. Existe uma ambiguidade que cumpre ao leitor decifrar” (1994:103).

Crispim, rios de desesperança, romance com o qual Antônio de Pádua Vieira de Carvalho estreia na seara da literatura, é uma narrativa, em sua composição temático-formal, concentrada, sobretudo, em uma trama: interessa ao narrador, principalmente, os vínculos causais da estória e a alegoria subjacente a eles, construídos a partir dos desdobramentos em torno do destino trágico do filho de um pescador. Recuperando uma lenda que, historicamente, simboliza a identidade de Teresina, a lenda do Cabeça de Cuia, o autor resignifica  o sentido usualmente atribuído a ela, que, na versão de Pádua, vira romance, a fim de dar a essa lenda uma dimensão até então pouco explorada, embora muitas versões para a estória, em prosa e verso, tenham brotado das mãos de experientes literatos locais.

A clássica lenda do Cabeça de Cuia, vivida e revivida pelos teresinenses, conta popularmente a história de um garoto muito pobre, Crispim, estabelecido nas margens do rio Parnaíba. Certo dia, a mãe o serviu para o almoço uma sopa com ossos, porque, em sua casa, faltava carne. Revoltado com a situação, atirou o osso contra a mãe, atingindo-a na cabeça em golpe mortal. Antes de morrer, a mãe o amaldiçoou: ele, com a cabeça enorme no formato de uma cuia, um monstro, vagaria dia e noite pelo rio, somente se libertando da maldição após devorar sete virgens de nome Maria. Enlouquecido, Crispim se atirou ao Parnaíba, onde se afogou. O corpo dele nunca foi localizado e até hoje sua figura lendária desperta temor nos banhistas, nos pescadores e nas moçoilas.

Narrativas populares, nascidas da tradição oral, revelaram-se em seu nascedouro como instrumento de explicação para comportamentos ou ações que fogem à racionalidade ou contrariam as convenções sociais, a cultura ou as leis. Às vezes, sob forte influência das crenças religiosas. É o se observa também nos contos de fadas, de natureza próxima às lendas e ao conto popular, por exemplo, de acordo com o que diz Bruno Bettelheim:

“(...) Abundam em motivos religiosos; muitas histórias bíblicas são de natureza idêntica ao conto de fadas. As associações conscientes e inconscientes que estes evocam na mente do ouvinte dependem de seu sistema geral de coordenadas e de suas preocupações pessoais. Daí que as pessoas religiosas encontrarão neles muitas coisas de importância(...).

A maioria dos contos de fadas se originou em períodos em que a religião era uma parte muito importante da vida, assim eles lidam, diretamente ou por inferência, com temas religiosos “ (2007:22).

Seguindo esse viés, a matriz da lenda Cabeça de Cuia pode ser explicada pela necessidade de obediência diante das adversidades da vida: evitar o rio e seus perigos, manter a castidade, livrar-se dos riscos de afogamento nas águas turbulentas do rio, aprender a perdoar etc.

Em ensaio esclarecedor sobre a lenda do Cabeça de Cuia, Maria do Socorro Rios Magalhães, crítica literária e distinta integrante da Academia Piauiense de Letras, associou a criação do mito Crispim à fundação de Teresina. Citando diversas versões da lenda, ao analisar sua estrutura narrativa fundamentada em André Jolles, além de considerar contribuições de Lévi-Strauss, diz a pesquisadora:

“O Cabeça-de-Cuia é uma lenda muito associada a Teresina, à origem da cidade, remetendo ao lugar onde surgiu uma pequena povoação, denominada “Vila do Poti”, porque se situava junto à barra do rio Poti, ali onde aquele rio joga suas águas no Parnaíba, formando um cenário de extraordinária beleza, hoje transformado em atração turística. Esse local teria sido a primeira opção de José Antônio Saraiva para construção da nova capital que substituiria Oeiras, a antiga sede da província do Piauí. No entanto, as frequentes cheias que assolavam a região o fizeram desistir da ideia, levando-o a decidir-se pelo lugar conhecido como Chapada do Corisco, para onde foram transferidos, embora a contragosto de alguns, os moradores da Vila do Poti. A “Vila Nova do Poti”, como passou a ser chamado o povoado erguido na Chapada do Corisco, deu origem a Teresina, a nova capital, inaugurada em 1852 pelo presidente José Antônio Saraiva. Contudo, a antiga povoação da barra do Poti resistiu, teimando com as enchentes do rio Poti, e passou a ser conhecida como “Vila Velha do Poti”, até se tornar o bairro “Poti Velho”, o mais antigo da cidade” (págs.151-152)

Partindo do pressuposto de que mito e lenda remetem a um tempo das origens e de que “a narrativa mítica é a transformação de uma estrutura lógica subjacente”, citando Levi Straus, esclarece Rios Magalhães:

“(...) para captar o sentido de uma narrativa mítica, é necessário levar em conta, além das sequências narrativas, ou seja, os acontecimentos na sua ordem cronológica, que dão o sentido aparente do mito, aquilo que chama de “esquemas”, que são oposições e equivalências, que se encontram num plano de profundidade superior ao plano horizontal das sequências” (p.156).

Nessa linha de raciocínio, entre as várias conclusões que se associam à origem de Teresina, para fundamentar suas especulações, conclui a pesquisadora:

“A narrativa inicia com um homem tentando pegar um peixe nas águas dos rios e termina com um homem que, vivendo como peixe nessas mesmas águas, passa a afugentar aqueles que tentam ali pescar” (p.157).

Em Crispim, Rios de Desesperança, o significado da lenda adquire novos contornos. Ela é explorada para que o leitor alcance uma instância de enunciação compromissada com a dimensão social da literatura. Crispim deixa de ser o mostro que apenas causa pavor aos banhistas, canoeiros e mocinhas, para se transformar em vítima das injustiças sociais. Tal qual na lenda, o Crispim de Pádua Carvalho também matou a mãe e a avó e desapareceu nas águas do rio; entretanto por circunstâncias mais diretamente ligadas ao determinismo da imobilidade social gerada pela miséria.

A Teresina de Crispim, Rios de Desesperança é a da periferia; a da periferia teresinense das décadas de 1940 e 1950. A da família de pescadores residente na Catarina, nas imediações da Piçarra e do Morro do Querosene, detalhadamente personificada em hábitos e valores. A da construção da igreja de São Raimundo. A da fé incondicional em rituais religiosos. A dos incêndios criminosos em casas de palha. A da arbitrariedade do aparelho policial reprimindo e criminalizando a pobreza. A da violência galopante nos prostíbulos, formados de jovens perdidas na ilusão do amor frustrado. A da infância de brincadeiras genuinamente infantis, ainda que a maldade e o bullying, como denuncia o autor, estivessem desde sempre estranhados como traço humano ou parte integrante de cultura machista. Seus personagens tem o cheiro da terra: pescadores, lavadeiras de roupa, verdureiras, trabalhadores braçais variados, para quem, como reforça o narrador, pobreza não aniquila a honra nem a dignidade. A Teresina de Crispim tem a marca da injustiça social, mas reserva lugar ao amor e à bondade.

O Crispim de Pádua Carvalho é um rapazote disposto ao trabalho e a ajudar o pai Juvenal e a avó Dona Esperança, atormentado pela orfandade da mãe que habitava sua curiosidade e afeto. Embora se consumem núcleos dramáticos repletos de tristeza e sofrimento, a ternura e a comoção fazem o leitor se identificar com a narrativa. Identificação advinda também do humor sutil que perpassa o texto. Crispim ganha, por exemplo, a designação de Cabeça de Cuia, na verdade, pela natureza do trabalho que exerce (vendedor de cuias e esponjas)  na feira do bairro Piçarra, onde, permanentemente é caçoado por colegas que tentam inferiorizá-lo.

Em Crispim, Rios de Desesperança, há o publicitário que é o autor. E publicidade se chama ideia: responde ao nome de sonho. Há, neste romance, portanto, a imaginação viva de quem se habituou a transformar sonhos em necessidades, ou a verter carências em ideais. Permite, pois, sua obra recuperar o que escreveu o escritor russo Máximo Gorki, ao explicar como aprendeu a escrever:

“Na luta da existência, o instinto de conservação desenvolveu no homem duas poderosas forças criadoras. Essas forças são o conhecimento e a imaginação. A primeira é a capacidade de observar, comparar e elucidar os fenômenos naturais e os fenômenos da vida social; em outras palavras, o conhecimento é a capacidade de pensar. Em essência, a imaginação também é pensamento acerca do mundo. Porém, é fundamentalmente, pensamento em imagens, pensamento em forma artística” (1998:12).

Para aquilatar a dimensão de que o leitor estará diante de escritor senhor da palavra, o qual resignificou em romance a lenda mais característica do Piauí, em linguagem que valoriza a oralidade, sem perder a fluência nem empobrecer o texto, reproduzem-se aqui as linhas iniciais de Crispim, Rios de desesperança, na voz de um narrador distante que a contempla como se apalpasse a memória, para, mesmo em descrição da paisagem, conotar traço identitário de Teresina. Nestas linhas, o céu de Teresina, visto do bairro Picarra:

“O sol ia alto no céu destas paragens de Teresina, uma cidade nova que há pouco tempo acabara de completar seus primeiros cem anos de vida. Estava límpido aquele céu, o mesmo que em noites de chuva era rasgado por coriscos e se fazia estremecer com o estrondar dos trovões, obrigando os mais supersticiosos a ficarem em suas casas, as portas e janelas fechadas, presos às crendices de cobrir os espelhos com panos, como forma de se protegerem. Ainda havia, na gente simples, muito da ignorância cultivada anos a fio pela pobreza, o isolamento e a falta de acesso ao conhecimento, talvez certa ingenuidade que, aos poucos, cedia lugar para uma nova realidade.

Este é o mesmo céu que, de dia, estende a luminosidade cegando as vistas, faz do astro-rei um braseiro que esturrica o chão das ruas de Piçarra, brilhando e queimando a pele dos filhos deste rincão de maneira menos branda que os de outros lugares. Mas, ainda assim, o verde das árvores predomina na paisagem, meio urbana e meio rural, e recompensa, com sua sombra, a enormidade do desconforto trazido pelo calor escaldante” (p.15).

Referências

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

CARVALHO, Antônio de Pádua Vieira de. Crispim, rios de desesperança. Teresina: Livraria Nova Aliança Editora, 2017.

GORKI, Maximo. Como aprendi a escrever. Porto Alegre: Mercado de Letras, 1998.

GOULART, Audemaro Taranto & SILVA, Oscar Vieira da. Introdução ao Estudo da Literatura. Belo Horizonte-MG: Editora Lê, 1994.

MAGALHÃES, Maria do Socorro Rios. A lenda do Cabeça de Cuia: estrutura narrativa e formação do sentido. Disponível em: http://seer.upf.br/index.php/rd/article/view/1920/1216

(*)Dílson Lages Monteiro é poeta e ficcionista. Editor de Entretextos e professor, ocupa a cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Lula e a Seleção ainda vão ficar um bom tempo na caverna

Fonte: Google/iG Esporte


Lula e a Seleção ainda vão ficar um bom tempo na caverna 

Pádua Marques
Escritor e jornalista

Agora que aqueles meninos lá da Tailândia estão sãos e salvos num hospital melhor que o Dirceu Arcoverde e a Copa da Rússia mandou pra casa com o rabinho entre as pernas a Seleção Brasileira, que bem poderia ser chamada de Vira-latas de Tite, a gente fica imaginando que tem acontecido é coisa neste mundo nessa semana, que dá vontade às vezes de rir e de chorar. Porque de repente o mundo ficou feito morcego dentro de caverna, tudo de cabeça pra baixo.

Todo mundo se emocionou com a história dos doze meninos do Javalis Selvagens, que levados pela peraltice entraram de caverna a dentro e, quando arregalaram os olhos estavam sem poder voltar e com água no meio das canelas. Ali não dava pra chamar mamãe e nem os bombeiros do major Rivelino. Era esperar pra morrer e ninguém podia, como acontece entre meninos quando fazem coisas erradas, uns mangarem dos outros.

A Seleção Brasileira de Futebol saiu daqui cuspindo pra cima e arrotando alto. E pra ela a caverna tem sido é longa e escura depois da fragorosa derrota pra Bélgica. Ainda tem gente que não meteu a cara pra fora com medo das vaias dos vizinhos, sem poder andar pela praça da Graça, passar pela Banca do Louro, pagar o Credishop no Paraíba ou tirar foto à noite na Praça do Amor, ali no Mirante. 

Mas a situação da caverna do Lula foi engraçada e de morrer de pena. Lula está naquela caverna lá em Curitiba porque se meteu à frente de uma excursão que tinha o objetivo de fazer uma montanha de coisas erradas por muitos e muitos anos. Foi fazendo e deixando fazer. E o grupo foi entrando de chão adentro e achando graça de tudo quanto era safadeza. Tudo era brincadeira e motivo de achar bonito. Uma asneira atrás da outra.

E olhe que a militância tem é trabalhado pra tirar Lula da caverna. Querem porque querem tirar Lula de qualquer jeito. A última, um desembargador muito do malandro achou de achar que todo mundo é burro. Fez igual a muitos agentes penitenciários e soldados, que por pela gorjeta gorda dos parentes do preso, relaxam na guarda e deixam o cadeado aberto pra o preso escapulir na calada da noite. Depois colocam a culpa na parede da cela.

O desembargador, que agora se sabe ser vértebra da espinha dorsal do Partido dos Trabalhadores, se aproveitando do plantão, acatou dos advogados e de amigos do Lula um pedido de habeas corpus que, se cumprido, deixaria Lula livrinho da silva, a ponto de ainda pegar o metrô, passar na padaria pra tomar uma e assistir ao jogo pela televisão. Não tem uma só pessoa, e não precisa ser especialista em Direito, que não tenha percebido a esperteza do desembargador. Pra os dois casos, ainda não foi desta vez.   

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí



Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí 

Elmar Carvalho

Foi publicada e lançada a Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, nº 7, Ano XCIX, referente ao ano de 2017. Pelo número em algarismo romano se depreende que o periódico, assim como a entidade que o edita, é quase secular, posto que no corrente ano o será. Seu presidente, o professor e historiador Antonio Fonseca dos Santos Neto, já começa a envidar esforços para a comemoração de seu centenário, com palestras, publicações de obras e outras realizações.

Foi organizada pelo escritor e historiador Reginaldo Miranda, presidente do seu Conselho Editorial, que não poupou esforços para trazê-la à praça. Foi muito bem editada, com capa e miolo em papel de alta qualidade, sem se falar em sua excelente programação visual, inclusive com a inserção de fotografias raras, verdadeiros documentos históricos.

A coletânea enfeixa ótimos textos, de variadas temáticas, abordando aspectos da história, do folclore, da política, da genealogia e da literatura do Piauí e do Brasil, da autoria de Wilson Nunes Brandão, Fonseca Neto, Lirton Nogueira Santos, M. Paulo Nunes, Pedro Vilarinho Castelo Branco, Olavo Pereira da Silva Filho, Francisco de Assis Veloso Filho, Ana Joaquina da Cruz Oliveira, Maria do Amparo Alves de Carvalho e Marcelo de Sousa Neto.

Reginaldo Miranda, o editor da Revista, comparece com três importantes estudos: duas notáveis biografias sobre os piauienses Costa Alvarenga, que ele cognominou “o patriarca da insuficiência aórtica”, e Frederico Burlamaqui, considerado o pioneiro da paleontologia no Brasil, e o seu discurso de posse no Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, como sócio efetivo, proferido no dia 24 de agosto de 2017.

Nesta peça retórica, ele inserta breve estudo genealógico, com ênfase nos primórdios do povoamento piauiense, ao qual acrescentou, como se fora um anexo, um importante documento por ele descoberto nos mares internéticos, que será de grande valia a novos estudos nessa seara.

Nesta época de Copa do Mundo, podemos dizer que a publicação dessa Revista, sobretudo pelas importantes matérias que ela encerra, foi um “verdadeiro gol de placa”.    

terça-feira, 10 de julho de 2018

Bernardo Silva é o novo presidente da Associação dos Comunicadores de Parnaíba

Fonte: Blog do Gallas


Bernardo Silva é o novo presidente da Associação dos Comunicadores de Parnaíba

Pádua Marques

O jornalista Bernardo Silva foi eleito e tomou posse no final da tarde desse sábado (7) na Fundação Raul Bacellar como o novo presidente da Associação dos Comunicadores de Parnaíba para um mandato de dois anos. Ele sucede a José Luiz de Carvalho, que agora passa a ser primeiro vice-presidente.

A Associação dos Comunicadores, que agora passa a ter também o nome de seu criador, é a entidade que planeja, organiza e realiza a Semana da Imprensa, há mais de cinquenta anos pelo radialista Rubem Freitas com o objetivo de congregar os profissionais de jornais, rádio, portais e blogs e televisão.

Bernardo Silva lembrou sua proximidade com Rubem Freitas e pediu à categoria que dê mais responsabilidade moral na imprensa de Parnaíba. Acrescentou que necessita da colaboração de todos, principalmente da nova geração, para que seja realizado um trabalho produtivo.

José Luiz de Carvalho salientou que a ASCOMPAR vai tratar agora de ter personalidade jurídica e cadastrar seus associados com a expedição de carteira. Na composição da diretoria se acrescentam dois nomes da chamada nova geração da imprensa, o radialista e repórter Tiago Mendes e o repórter Kairo Amaral, correspondente da TV Clube em Parnaíba.   

domingo, 8 de julho de 2018

Seleta Piauiense - Cid Teixeira de Abreu



Exercício tempo-coisa
À memória de Maiakovsky

Cid Teixeira de Abreu (1937 – 2004)

                                                         sal
vo o remorso em mim, se me resol
vo desfazer-me do tempo, vereda e al
vo a gastar-me a memoria, antigo pol
vo a mutilar os gestos; mas ressal
vo

                                                      :tra
to de desvendar neste meu gri
to a ira não colhida, e me maltra
to sob as esporas de um novo mi
to, recriado em postura de retra
to

                                                   ... ten
so o arco a vibrar, e em seu regres
so recolho a rosa azul num céu suspen
so

                                                        tra
po por fim serei, mas partici
po da palavra não dada, e a um só tem
po na ternura sonhada me anteci
po

Fonte: A poesia piauiense no século XX, de Assis Brasil