quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Noturno de Oeiras no Fórum da Velhacap

Flagrante da inauguração do CEJUSC/OEIRAS, vendo-se os magistrados Manoel Dourado e Socorro Cipriano. Fonte: site do TJ-PI

Fonte: Folha de Oeiras/Google


Noturno de Oeiras no Fórum da Velhacap

Elmar Carvalho

Anteontem, dia 24, recebi a auspiciosa notícia, através do colega e vizinho Antônio Oliveira, de que uma bela placa, na qual fora estampado o meu poema Noturno de Oeiras, com a finalidade de ser afixada em algum local do Fórum da nossa antiga capital, fora concluída. Antônio, dinâmico juiz auxiliar da presidência do Tribunal de Justiça do Piauí e jurista com livro publicado, fora o “padrinho” dessa placa, cuja autorização para sua confecção conseguiu junto ao presidente Des. Erivan Lopes. Com zelo e presteza, ele acompanhou o projeto, inclusive me tendo enviado, na época própria, o seu modelo para revisão e aprovação.

Recomendou-me fosse ao departamento de Engenharia, para, juntamente com seu diretor, escolher o melhor local, dentre os disponíveis e adequados, para a sua aposição. No dia seguinte cumpri a sua recomendação. Quando liguei para a diretora do Fórum, a juíza Socorro Cipriano, recebi a grata notícia de que esse suporte já fora entronizado no dia anterior, por ocasião dos trabalhos de instalação do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania – Cejusc de Oeiras. Enviou-me sua foto, pela qual constatei fora ela colocada em excelente local; exatamente no ponto que o engenheiro Otávio Nogueira e eu concordamos em sugerir.

Além desse fato em si mesmo, outro motivo adicional de meu contentamento é que encerrei minha carreira de magistrado (aos 39 anos de serviço público, 17 dos quais dedicados à judicatura, sem nenhum tipo de punição, nem mesmo advertência ou repreensão, conforme documento emitido pela Corregedoria), na qualidade de titular do Juizado Especial Cível e Criminal da Comarca de Oeiras, cidade que me fascina desde quando eu, ainda menino, nela ouvi falar, através de conversa e leitura em livro didático, salvo engano de título Meu Tesouro.


Fonte: Bené Carneiro

Depois, ainda em minha juventude, como fiscal da extinta Sunab – Delegacia do Piauí, estive nela algumas vezes, a serviço. Quando assumi, em 1988, a presidência da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, nela realizei um Encontro de Escritores, com literatos nativos e de vários outros municípios, inclusive da capital. Revia, com emoção sempre renovada e amplificada, seus vetustos prédios e antigos logradouros, alguns deles da primeira metade do século XVIII.

Por ocasião desse Encontro literário, tive a oportunidade de rever ou conhecer vários poetas e escritores da velhacap, entre os quais cito Possidônio Queiroz, José Expedito Rego, Rita Campos e o promotor de Justiça Carlos Rubem. Os três primeiros já se encontram numa das moradas da casa do Pai, enquanto o Carlos continua em plena atividade cultural, ele que sempre foi um defensor e promotor da Cultura e do patrimônio de sua terra.

Nessa minha ligação afetiva e sentimental com Oeiras, consegui vários galardões, que, conquanto recebidos com a humildade de quem sabe que não os mereceu, fica mesmo assim desvanecido por tê-los recebido, entre os quais a Medalha do Mérito Visconde da Parnaíba, o diploma de sócio correspondente do Instituto Histórico de Oeiras, e ter o meu livro Rosa dos Ventos Gerais sido objeto de estudo e análise por alunos do 3º ano do ensino médio do Instituto Barros de Ensino.

Esse educandário, em noite memorável, com apresentação de dança, música e jogral, alguns anos atrás, promoveu o lançamento de meu livro Noturno de Oeiras e outras evocações, apresentado pelo jurista e escritor Moisés Reis. Por último, eu que, por vocação e devoção, já me considerava um oeirense por conta própria, como diz um amigo meu, tive a satisfação de saber que me foi concedido o Título de Cidadão Honorário de Oeiras, por decisão unânime da Augusta Câmara Municipal, que ainda não me foi entregue.   

Eu estava feliz com a minha promoção para a vetusta urbe, que já havia cantado e louvado em verso e prosa, quando, poucos dias depois, recebi a impactante notícia, transmitida por minha mulher, de que os exames que eu fizera constataram que eu fora acometido por um novo CA. Apenas no último dia de minha atividade no juizado, reuni os servidores para lhes dar a informação sobre a minha saúde e sobre o tratamento que enfrentaria. De todos guardo boas recordações, e lhes sou grato pelo bom serviço prestado.

Tive de ir fazer radioterapia e acompanhamento médico em Teresina, razão pela qual não mais retornei a Oeiras na condição de magistrado ativo, posto que me aposentei no dia 20 de dezembro de 2014. Nessa curta temporada de minha serventia, doei ao Fórum de Oeiras um quadro com ilustração colorida, no qual se encontrava vazado o meu multicitado poema, do qual se tornou zeloso guardião o amigo Benedito (Bené) Carneiro, exemplar servidor público.

Por fim, só me resta agradecer, mais uma vez, aos ilustres magistrados Antônio Oliveira e Socorro Cipriano, bem como ao Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, pela confecção e aposição desta nova placa, em metal inoxidável, em local de destaque do belo e novo prédio da Comarca de Oeiras. Noturno de Oeiras, com essa linda placa, marca mais um tento, “um verdadeiro gol de placa”.   

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

SOB A ASA NEGRA DO INFORTÚNIO


Fundadores da APL. Da esquerda para a direita, de pé: Jônatas Batista, Celso Pinheiro, Lucídio Freitas, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas(Baurélio Mangabeira) e Édison Cunha. Sentados, e na mesma ordem: Fenelon Castelo Branco, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e João Pinheiro




SOB A ASA NEGRA DO INFORTÚNIO

Chico Acoram Araújo*

Na imensidão da selva amazônica um barco, rumo a Manaus, deslizava sobre as águas do imponente rio Purus. Um passageiro, deitado em sua rede, agonizava. O pobre coitado delirava por conta de altíssimas febres que contraíra na pequena e doentia cidade de Lábrea(AM), situada à margem direita do rio já citado e da foz do insalubre rio Ituxi. Naquela cidade, este exânime exercia o cargo de um modesto inspetor escolar. Por ser um rio muito sinuoso e com intermináveis voltas e contravoltas, serpenteante durante todo seu percurso, a viagem daquela cidade até Manaus demorava cerca de semana ou mais. O moribundo chamava-se Clodoaldo Severo Conrado de Freitas, conhecido no meio intelectual de Teresina apenas como Clodoaldo Freitas, nascido em Oeiras, antiga capital do Piauí, no dia 7 de setembro de 1855. Era neto de português e filho legítimo de Belizário da Silva Conrado, heroico voluntário na guerra do Paraguai, e de d. Antônia Dias de Freitas, dedicada mãe e muito religiosa.

Segundo Higino Cunha (em discurso proferido no Paço da Câmara Legislativa, onde em 29 de julho de 1924 a Academia Piauiense de Letras realizou uma sessão magna em homenagem à memória de Clodoaldo Freitas, falecido no dia 29 do mês anterior em sua residência), Clodoaldo viajava naquela embarcação entre a vida e a morte. E dado ao seu estado febril e de medonho delírio, alguns passageiros apiedados cercavam a rede daquele infeliz homem.

O ilustre orador disse ainda que Clodoaldo, depois de uma longa e penosíssima viagem, mais morto do que vivo, chegara finalmente a Teresina. Depois disto, viajou para o interior em tratamento. Piorou. Mudou-se para Campo Maior, depois voltou para Teresina, sem melhoras. Sempre doente, decidiu passar uma temporada na fazenda de um amigo, coronel Jeremias Pereira da Silva, no município de Valença, onde permaneceu por nove meses. Ali, Clodoaldo Freitas melhorou consideravelmente a sua saúde. Higino acrescenta que foi nesse lugar onde Clodoaldo teve o maior desgosto político de sua vida ao receber inusitada notícia da extinção do partido Democrata que tanto defendera, prestando “por longos anos, dia a dia, através de amarguras e de tantos sacrifícios, os mais abnegados serviços.

No início do mencionado discurso, Higino Cunha fala que, em 1871, o jovem Clodoaldo Freitas segue para São Luís do Maranhão, em companhia do seu parente Aristides Mendes de Carvalho, para cursar o Seminário das Mercês. Nessa instituição Clodoaldo estudou por três anos, onde escreveu versos, um romance e três dramas que nunca foram publicados. Depois, desistindo da carreira sacerdotal, transferiu-se para o Liceu Maranhense, onde fez alguns preparatórios, já determinado a cursar Direito. Em agosto de 1875, retornou para Teresina. Em fevereiro de 1876, concluiu seus estudos no Liceu Piauiense. Nesse mesmo ano segue para Recife, onde se matriculou na Faculdade de Direito, recebendo o grau de bacharel em Ciências jurídicas e Sociais, em 05 de novembro de 1880. Seus contemporâneos notáveis foram José Maria Martello, Álvaro de Assis Osório Mendes, Jayme Albuquerque Rosa, Miguel José de Britto Bastos, João Alfredo de Freitas, Joaquim Ignácio Amazonas de Almeida, Clóvis Bevilaqua e outros.

Em 21 de janeiro de 1881, Clodoaldo chega a Teresina, em plena situação liberal, estando na presidência da província do Piauí o seu parente Dr. Firmino de Sousa Martins. Por essa época, alguns parentes seus haviam falecidos: Deolindo Mendes da Silva Moura e Constantino Luiz da Silva Moura. Seu muito amigo, David Moreira Caldas, republicano, jornalista e poeta, também havia morrido havia dois anos. Destaca também o orador já citado, que Clodoaldo quando retornou para Teresina já tinha sido nomeado promotor público da Capital por Portaria datada de 11 de dezembro de 1880, iniciando o exercício do cargo em 22 de janeiro de 1881. Depois disto, torna-se juiz municipal de Valença por força do Decreto de 29 de novembro de 1881, só tomando posse do juizado em 16 de março de 1882.

Do supracitado discurso, extrai-se ainda que Clodoaldo Freitas casou-se a 22 de outubro de 1881, com Corina de Noronha Couto, filha de um modesto comerciante de nome Marcelino José Couto. Diz também que Clodoaldo casou-se com Corina por amor, tendo preterido outras duas moças ricas e formosas, por não devotar nenhum sentimento amoroso por elas. O casal teve oito filhos, dentre eles os poetas Lucídio e Alcides Freitas, sendo que apenas o caçula Marcelino Freitas sobreviveu ao pai.

Outro notável acadêmico que discorre sobre a vida e obra de Clodoaldo Freitas foi o teresinense Cristino Castelo Branco (1892 – 1983) - membro da Academia Piauiense de Letras, advogado, desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí, escritor e memorialista. Isso aconteceu a 10 de setembro de 1955 na Academia Piauiense de Letras, em discurso proferido em homenagem ao centenário de nascimento de Clodoaldo Freitas.

Dentre outros relevantes fatos narrados nessa belíssima oração, Cristino recorda que Clodoaldo Freitas, mesmo ocupando o cargo de promotor público, após seu retorno para Teresina, não se limitou ao desempenho das funções do cargo. “O espírito público, o patriotismo, a vocação de luta, herdados do pai, impelem-no para a imprensa, para a política, para o jornalismo de combate”.

Complementa o ilustre orador:

"Começa então a sua grande e notável atuação na vida piauiense, a qual se estende, em vários setores, por um largo período, até 29 de junho de 1924, quando falece repentinamente em sua residência, aos sessenta e nove anos de idade, como desembargador, que o fora nos últimos anos de vida, dos mais íntegros e dos mais ilustres que já passaram pelo Tribunal de Justiça do Estado."

No que diz respeito ao jornalismo de combate praticado por Clodoaldo Freitas, Monsenhor Chaves (no seu livro OBRA COMPLETA - capítulo Clodoaldo Severo Conrado de Freitas) assevera que na época o jornalismo era de baixo nível, de linguagem solta ou vulgar, onde as agressões pessoais eram comumente estampadas nas manchetes dos jornais, inclusive noticiando fatos ligados à vida privada dos adversários. Nesse tempo, nem a honra das senhoras escapava daquele jornalismo sujo. 

No seu mencionado livro, Monsenhor Chaves comenta:

"Clodoaldo, no ataque, argumentava, expendia conceitos, mas também revidava com diatribes às que lhe eram assacadas. Ele, tão amigo da verdade, no aceso da luta, deslembra-se dela, se tal lhe parecia necessário ferir o adversário. Então prevalecia o velho princípio de que a quem não tem rabo de palha, prega-se.

Atacando certa feita, o governador Coriolano de Carvalho, escreveu essa enormidade: 'Aqui não tinha família, a não ser dois pretinhos desacreditados que moram em Barras e algumas parentas velhas, tias aposentadas na prostituição'."   

Como se observa nos comentários acima, o jornalismo da época era ferrenho. A luta entre os contendores era implacável. Aos vencidos, o castigo, o desprezo e a intolerância. Não havia perdão.
E foi por isso que Clodoaldo Freitas, muitas vezes derrotado em suas lutas políticas, exilou-se para outros estados, vivendo do pão que o diabo amassou, como foi o caso de sua viagem para o Estado do Amazonas, o refúgio, segundo Higino Cunha, de todos os desprotegidos da fortuna.  É provável que o motivo desse infeliz degredo, em Lábrea, tenha sido em decorrência do entrevero que Clodoaldo teve com o governador Coriolano de Carvalho.

 Historicamente, Clodoaldo era um perdedor nato nas refregas políticas, e, por isso mesmo, teve que morar, várias vezes, em outros estados atrás de recursos financeiros para prover seu próprio sustento e o da família. E esquecer suas desilusões políticas longe da sua terra natal. Assim, andou pelos estados do Amazonas, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Pará e Maranhão, exercendo os mais diversos cargos públicos. Tornou-se professor, juiz municipal, juiz de direito, chefe de polícia, jornalista, diretor de imprensa oficial e colaborador de jornal.  Foi também Diretor da Imprensa Oficial em São Luís e colaborador da fundação da Academia Maranhense de Letras. No Pará foi eleito deputado estadual. No entanto, apesar de suas peregrinações pelo Brasil a fora, Clodoaldo amava sua terra natal. Não compreendia, e tampouco sabia viver longe do Piauí. Sua estada em outros estados do Brasil era efêmera; nunca se prolongava por muito tempo. Cristino Castelo Branco lembra que Clodoaldo, de repente, dava na telha de voltar para casa. Abandonava tudo, todos os interesses, todas as posições, todos os cargos, e voltava. Voltava sempre.

Quanto à vida cultural de Clodoaldo Freitas, Monsenhor Chaves afirma que Clodoaldo Freitas foi um importante intelectual da sua época e grande propulsor da vida cultural piauiense ao lado de Higino Cunha e Abdias Neves. A produção literária de Clodoaldo é vastíssima. Sem mencionar as diversas obras inéditas, podemos destacar alguns livros seus: História do Piauí, Vultos piauienses, Memória de um velho, O Piauí – canto sertanejo, Os fatores do coelhado, Em Roda dos fatos, O inferno de Dante, Os últimos dias de Pompeia, Contos a Teresa.

Quanto à República, proclamada em 1889, Clodoaldo teve uma profunda decepção com essa nova forma de governo implantado no Brasil, uma vez que combateu severamente as autoridades monárquicas da época. Sobre isso, Higino Cunha diz que, para Clodoaldo Freitas, a nascente República, “apenas era, no conceito de todos, o amplo horizonte, em que, naturalmente, se teria de espanejar, pois fora ele um republicano histórico e era impossível que os seus serviços fossem esquecidos”.

Em seguida, Clodoaldo interroga:

"Todos acreditavam que, afinal, lhe rompera o dia da separação e da justiça. Quem poderia preteri-lo nesta terra? Quem como ele se batera pela república, sacrificando os proventos de uma carreira fácil no partido?"

Sobre isso, o historiador e emérito professor Fonseca Neto, no livro TERESINA 160 ANOS, diz que Clodoaldo Freitas foi um “infeliz republicano no Piauí - um desenganado”. Clodoaldo acreditava que a República de 1889 traria a renovação e a esperança para o povo do Piauí e do Brasil. Ledo engano! A República tomou rumos diferentes. A oligarquia se fortaleceu, tanto em nível local, regional ou nacionalmente. No interior, os coronéis e as oligarquias tornaram-se fortes mandatários das decisões. Em nível nacional, adota-se uma política oligárquica voltada para atender os interesses do poder central, desconsiderando, portanto, as demais regiões do país. Ou seja, o povo não participava das decisões políticas a nível regional ou local, e tampouco a nível nacional. Daí a grande decepção de Clodoaldo Freitas com a tão sonhada república.

Clodoaldo, apesar das agruras que passou por todo esse tempo, recebeu a maior conquista da sua vida. Foi nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí por Miguel Rosa no apagar das luzes do seu governo. Essa nomeação foi uma verdadeira fortuna para Clodoaldo, uma vez que isso aconteceu inesperadamente, à última hora, já com mais de sessenta anos de idade.  
“Mas a asa negra do infortúnio acompanhou Clodoaldo Freitas até na última fase da sua vida, quando perdeu o seu extremoso filho, a sua mais fagueira esperança, o talentoso poeta e jurista Lucídio Freitas” - disse Higino Cunha com muito pesar.

O notável poeta e jurista, Lucídio Freitas, faleceu a 14 de maio de 1922, aos 28 anos de idade, em decorrência de uma tuberculose que contraíra anos atrás.  Um outro irmão, Alcides Freitas, médico e poeta, quatro anos mais novo, também faleceu dessa terrível doença, aos 22 anos de idade. Alcides publicou seu famoso e único livro, Alexandrinos (poesias), escrito em parceria com o irmão Lucídio.
No ano anterior, Clodoaldo Freitas vendo o sofrimento do seu querido filho, já vencido pela terrível doença, fez dois sonetos que traduzem os sentimentos de uma insuportável dor que um pai pode passar vendo seu filho, no leito, aguardando a hora da chegada da “indesejada das gentes”. Esses dois belíssimos sonetos foram lidos, com viva emoção, no já mencionado discurso de Cristino Castelo Branco, testemunha ocular da enorme aflição da família dos poetas trágicos. Eis algumas estrofes dos referidos sonetos:
                    
                    Dor de pai

Eu nunca me prostrei ante os altares
Nem jamais invoquei de Deus o nome;
Vendo entretanto o mal que te consome,
Ergo, contrito, ao céu tristes olhares!
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Na agonia mortal dessa certeza,
Contemplo a definhar, cheio de espanto,
Gênio, glória, beleza e mocidade!
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Sofresse o teu sofrer e eu pudesse
Transferir para mim tantos horrores,
Talvez menos horrores padecesse...
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Aqui, abro um parêntese para falar porque decidi escrever sobre Clodoaldo Freitas, um dos maiores intelectuais que o Piauí teve no final do século XIX e primeira quadra do século XX.

 Em 1961, minha família veio de Barras do Marataoan para Teresina, onde fomos morar numa pequena e humilde casa situada na Rua Tiradentes, do lado oeste do Estádio de Futebol Lindolfo Monteiro. Permanecemos ali não por muito tempo. Meu pai alugou outra casa nas imediações também daquele campo de futebol. O novo lar era uma das três casas de uma pequena vila, que ficava no final da rua, já chegando ao rio Parnaíba.  Essa casa tinha o número 46 da Rua Clodoaldo Freitas, conhecida também como Rua Palmeirinha. Em frente à vila tinha uma carnaubeira que presenteava às crianças que moravam na vizinhança, seus deliciosos frutos cor de jambo. Nas madrugadas, a competição pelas frutas era acirrada. Hoje, a vila e a generosa carnaubeira não existem mais; as crianças onde estão?

Na época, ainda muito criança, peguei-me, muitas vezes, matutando, a indagar quem seria Clodoaldo Freitas, nome dado a antiga Rua Palmeirinha. Deve ter sido uma pessoa muito importante, pensava eu. A outra rua em que residimos anteriormente tinha nome de Tiradentes. Esse nome me era bastante familiar, pois já tinha estudado no livro de História do Brasil que se tratava de Joaquim José da Silva Xavier, um herói nacional, o mártir da Independência do Brasil. Nesse didático, não vi o nome de Clodoaldo Freitas. E bem que o seu nome poderia estar lá, uma vez que ele foi um valoroso intelectual piauiense defensor da república no Brasil, ao lado de outros grandes heróis nacionais.

Clodoaldo Freitas foi, nas palavras de Cristino Castelo Branco, “um homem público, republicano histórico, lutou sempre por um regime político diferente daquele em que viveu, um regime sem hipocrisia e sem mentira, além de se tornar uma das figuras mais característica, mais impressionantes, mas representativas da sua terra e da sua gente, do modo de ser, da simplicidade, da pobreza honrada, das lutas políticas, das campanhas de imprensa, das letras e do patriotismo”.

Em 30 de dezembro de 1917, Clodoaldo Freitas, como grande e influente intelectual da época, ao lado do seu filho Lucídio Freitas, Higino Cunha, João Pinheiro, Édison Cunha, Jônatas Batista, Celso Pinheiro, Antônio Chaves, Benedito Aurélio de Freitas e Fenelon Castelo Branco, fundou a nossa gloriosa Academia Piauiense de Letras - APL. Clodoaldo deixou ao filho, Lucídio Freitas, o grande idealizador da Academia, a herança de ser o principal articulador e promotor das primeiras atividades da APL, o que não veio acontecer em razão do agravamento da doença e falecimento do jovem e auspicioso poeta, ocorrido a 14 de maio de 1922.

Clodoaldo Freitas foi o primeiro presidente da APL, ocupando a Cadeira nº 01, que tem como patrono José Manuel de Freitas (Desembargador Freitas). Atualmente a cadeira é ocupada pelo eminente historiador e professor Antônio Fonseca dos Santos Neto (Prof. Fonseca Neto).

(*) Chico Acoram Araújo é Contador, Funcionário Público Federal e cronista.  

Fonte: Blog Folhas Avulsas

terça-feira, 25 de setembro de 2018

A identidade de Barras-PI em seus 177 anos

Igreja antiga de Barras (demolida). Fonte: Barras Virtual
Fonte: Centro histórico de Barras. Fonte: Cidades do Mundo/Google



A identidade de Barras-PI em seus 177 anos

Dílson Lages Monteiro
Da Academia Piauiense de Letras

A cidade de Barras-PI, na confluência dos rios Marataoã e Longá, de território entre seis barras de rios e riachos, festejou, em 24 de setembro, 177 anos. Cidades são feitas de trabalho e conflitos. Também de sonhos e discursos, porque cidades se constituem como comunidades imaginadas, em narrativas contadas  e recontadas pela história oficial, pela memória oral, pela literatura, pela mídia, pela cultura popular.Que imagens definiriam com maior exatidão o sentimento coletivo de barrenses e não barrenses em relação a essa terra tão afetuosamente exaltada pelos piauienses?

Para muitos, Barras é os rios, a igreja, a vida rural (ou os resquícios dela). Os rios são, sem dúvidas, um dos elementos que bem identificam a cidade. Para quem, por exemplo, viveu em Barras nas décadas de 1970 e 1980, seria quase impossível buscar a cidade da memória e não se remeter a imagens de numerosos grupos em lazer no Marataoã e no Longá, à abundância de lavadeiras em todo o percurso, à margem daquele rio, na zona central; ao fervor com que se comemoravam os festejos de Nossa Senhora da Conceição, um fervor que se fortalece na preservação repetida da tradição; à força do extrativismo vegetal em seus últimos suspiros como atividade econômica forte na economia local, assim como à criação extensiva de gado. Os rios, a igreja, a vida rural... Também, historicamente, uma cidade com espaços sociais demarcados pela injustiça social, que força a migração em busca de oportunidades de emprego, educação e bem-estar.

Os rios, a igreja e a vida rural revelam-se as bases da fundação  de Barras do Marataoã. David Caldas reconstituiu em narrativa basilar a ocupação do lugarejo, publicada em O amigo do povo, em 1871, e retomada por inúmeros pesquisadores. Nela, reconstrói um percurso que se inicia em meados do século XVIII, ocasião em que já se principia a construção de capela, na fazenda Buritizinho, hoje núcleo central da cidade, então fazenda pertencente a Miguel Carvalho de Aguiar. Sucedem-no na posse e administração de Buritizinho e adjacências, em terras pertencentes, em partes, a Nossa Senhora da Conceição, Manuel da Cunha Carvalho, Manuel José da Cunha, Francisco Borges Leal Castello Branco e José Carvalho de Almeida, este, liderança de destaque de Barras Vila, responsável pelos trabalhos de edificação da Antiga Matriz de Barras, demolida pela comunidade em 1963.

Nas últimas décadas, o registro de David Caldas passou por várias leituras e novas  interpretações permitiram, a partir, principalmente, das contribuições da genealogia e da descoberta de fontes primárias inexploradas, entender com maior exatidão de que maneira ocorreram os assentamentos humanos nessa região. Graças, sobremodo,  aos estudos de Edgardo Pires Ferreira, Reginaldo Miranda, Afonso Ligório Pires de Carvalho, Gilberto Sodré Carvalho e Valdemir Miranda, esclareceu-se a movimentação intrafamiliar entre os núcleos Carvalho de Almeida e Castello Brancos, principalmente, na formação do patriarcado rural do Norte piauiense.  As novas leituras permitiram que se pudesse, hoje, enxergar com exatidão como Buritizinho ou a povoação das Barras vai, entre outros fatores, por meio de laços de parentesco, constituindo-se tanto no século XVIII, quanto no século XIX. Hoje, essas descobertas ganhariam fôlego com um estudo minucioso do rol de fazendas da antiga Barras.

O estabelecimento desses grupos familiares e de outros a eles relacionados encontra na atividade agropastoril, sobretudo na criação do gado, elemento determinante da atividade laboral. Diga-se de passagem  que a pecuária foi atividade econômica principal do Piauí do século 18 e ainda vigoraria como um dos principais aspectos identitários no século 19. A isso se relaciona o estabelecimento de membros da Companhia de Jesus, praticando pecuária, conforme ressalta Afonso Ligório Pires de Carvalho, em Terra do Gado.

A origem de Barras como assentamento humano é, pois,  o curral e a igreja, a que se agrega, de maneira fundamental para a permanência humana, a abundância de água em seus diversos veios, infelizmente, ao longo da história, ainda não alvo de políticas públicas eficazes. A importância, por exemplo, do Marataoã está expressa, formalmente em sua própria designação, por ocasião da elevação de Barras à categoria de cidade em 1889, com o nome de Barras do Marataoã.

Mais do que uma simples localização geográfica, as reminiscências do rio evocam, para quem, por exemplo, viveu em Barras nas décadas de 1970 e 1980, a figura de grandes invernos com as margens lambendo quintais de casas com violência; grandes piranhas, vermelhas e pretas, pescadas em abundância e toda sorte de peixes hoje raros em suas águas, alguns até definitivamente desaparecidos, como preconizara em carta, datada de 1974, o advogado barrense e político Durval de Carvalho e Silva, domiciliado em Pompeia-SP. Dirigindo-se aos familiares, por correspondência, profetizou:  “O Francisco ainda está pescando? Deve ele ser mais comedido, pois o nosso Marataoã é pequeno”, e sem dúvida, não tem condições de ‘armazenar’ tanto peixe.” Curiosamente, o Francisco referido é Francisco Luiz de Carvalho e Silva, que prefeito de Barras entre 1951 e 1955, construiria com recursos próprios uma das maiores obra de infraestrutura do século XX no município, a Barragem do Pesqueiro, responsável não apenas por reter e concentrar água em abundância no perímetro urbano, favorecendo o abastecimento de água,  mas também por garantir, por décadas, fartura de peixes.

Na memória, o rio, ou os rios, é, ainda, a figura quase escassa de um trabalhador, visto hoje quase exclusivamente em motocicleta em comunidades rurais, o vendedor de peixes de porta em porta. Sua presença era rotineira nos invernos: de cabo de madeira sobre o ombro, segurava firme o peso dos cambos de peixes nas duas extremidades e o inconfundível bordão cortando a atmosfera: “Olha o peixe! Olha o peixe! Mandi, piau, surubim!”.

O rio Marataoã sempre se apresentou como patrimônio de destaque não apenas aos nascidos no berço de João Pinheiro e Leônidas Melo, mas também aos que passam por esse chão. Recordando férias em Barras, desfrutadas na década de 1940, o professor da Universidade de São Paulo, piauiense Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, ressalta em seu livro de memórias sobre a Rua da Glória, em Teresina, o fascínio pelas águas calmas do rio. Relatando sua hospedagem em pensão situada na Praça da Matriz, comenta:

“A pensão de D. Sinhazinha ficava nessa praça, o coração da pequena cidade, pois nela estava a igreja matriz de N. S. da Conceição, padroeira da cidade. Esta era pequena e descalça, mas muito tranquila e limpa e tinha uma graça especial, como o rio Marathaoan, que serpenteava pela planície, alargando-se mais ou menos em frente à matriz e formando uma ilha muito pitoresca, onde os habitantes organizavam pequeniques e chamavam de Ilha dos Amores”.

Diz ainda prof. Carlos Augusto Monteiro:

“O Marataoã era, ao tempo de minhas férias, a principal atração. Todas as manhãs, entre o café e o almoço, a garotada em férias e mesmo os rapazes da cidade reuniam-se para o banho. (...) Os homens tinham o seu ‘porto’ mais a montante. Abaixo, a uma razoável distância de uma meia légua, já fora da cidade, ficava o porto das lavadeiras”.

Quem, entre os barrenses, naturais ou de afeto, não guarda no peito e no pensar uma lembrança amável desse rio?

Entre representações reconstruídas sobre a memória da cidade, imagem da qual se orgulham os barrenses, tanto crítica como alienadamente, está a de que Barras é “Terras de Governadores” . O que isso diz verdadeiramente sobre o chão em que nasceram os governadores Taumaturgo de Azevedo, Coriolano de Carvalho e Silva, Artur de Vasconcelos, Matias Olímpio de Melo, Leônidas Melo, Sigismundo Gonçalves, Fileto Pires Ferreira?

A história de Barras, a oficial, é contada e decantada, principalmente, a partir de seus filhos ausentes. É a história dos feitos deles, geralmente, em outras paragens. História de heroísmos, bravura, liderança e coragem. Essas representações, envoltas em romantismo, têm sua origem, talvez, na figura medieval do desbravador português, não na história das conquistas a ferro e fogo; na figura do vaqueiro destemido, não na do homem usurpado em sua condição humana; na figura dos coronéis empreendedores, não na do jogo de forças em que o poder era exercido pela extensão das terras e pelo número de agregados ou por quem mandava mais.

O heroísmo, a bravura, a liderança e a coragem propaladas como tão naturais dos barrenses, às vezes, é genuína; às vezes, imaginada para reforçar uma identidade calcada em valores ora  ilusórios, ora verdadeiramente sentidos: está no voluntariado da Guerra do Paraguai (nem tão voluntário assim...), na fundação de uma sociedade libertadora de escravos, adiante de seu tempo, referenciada por nomes como Odilon Nunes e Clóvis Moura, nas denúncias incontestes da injustiça social feitas por David Caldas, publicadas nos variados jornais em que esteve à frente, no poder exercido pela oligarquia Pires Ferreira entre os anos de 1889 e 1930, na vitoriosa carreira política de um dos mais ilustres barrenses de todos os tempos, Leônidas Melo.

Os rios, a igreja, as tradições do passado de glórias dos filhos ausentes se mantêm como motivos para que Barras se autodefina. Hoje, também o carnaval, a reforma agrária, o triste recorde de exportação de mão de obra escrava e semiescrava, para o Norte, Centro-Oeste e Sudeste do país, o empenho e a persistência de empreendedores da melancia e do caju, mas essa já é outra história... Em seus 177 anos, Barras do Marataoã continua, ainda que envolta em suas ilusões históricas, alimentando sonhos e esperanças, porque de sonho e esperança, especialmente, faz-se a vida.     

Fonte: Portal Entretextos 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

DEPOIMENTO : Revivendo agosto na Praça da Graça

Praça da Graça, com os tapumes que escondiam os seus escombros


DEPOIMENTO : Revivendo agosto na Praça da Graça

Reginaldo Costa

Nos tempos modernos, não houve manifestação semelhante aos protestos contra a destruição da Praça da Graça, cuja culminância, com a queima dos tapumes, há exatos 39 anos, completados no dia 31 de agosto de 2018, não poderia, jamais, se perpetuar no esquecimento.

Tapumes que deram origem a revolta popular. Foto: arquivo Inovação.
Em substituição a uma formação temporária da natureza, deu-se início à implantação do logradouro que ganharia importância política e social, ao longo da História. Acompanhando os acontecimentos de cada época, e em algumas recebendo diferentes denominações, a Lagoa da Onça, em nome do desenvolvimento, cederia o espaço das águas ao que seria, definitivamente, a Praça da Graça. A princípio, duas áreas distintas, elegantemente separadas pela Rua do Passeio, consolidadas em nome do Catolicismo: Jardim do Rosário e Largo da Matriz.

Detalhes Marcantes

Não havia programa melhor do que frequentar a Praça da Graça, nos fins de semana, lugar ideal para rever amigos, conhecer alguém interessante, usufruindo as delícias dos ventos marítimos em agradável sinfonia. De modo especial, durante o mês de agosto, o represente comercial Jonas da Costa Santos, com residência em Teresina, vinha todos os anos a Parnaíba, atraído pelas condições climáticas. Ouvia o parente querido comentar com meus pais, que fumar um cigarro n’algum banco da praça, onde permanecia por longas horas, era uma terapia, aliviando as dores do rolo compressor da luta pela sobrevivência.

Circulando pela praça eu percebia as pessoas se comunicarem alegremente, com brilho nos olhos e doçura nas palavras, sem contaminar o primeiro contato pela irracionalidade da ostentação. Longe da correria dos dias atuais, a prevalecer os contatos online, compartilhava dos acessos protegidos por árvores frondosas, outros por palmeiras imperiais, a ornamentarem os tapetes verdes de grama que dividiam as passarelas perpendicularmente às tangentes, possibilitando o ir e vir sem conflitar vontades. No decorrer de alguma conversa em grupo, os passantes cumprimentavam uns aos outros, e alguns até se permitiam ficar por um tempinho. Sem demora, as conversas, agradabilíssimas, na verdade desconectadas do mundo, facilitavam o congraçamento. O cenário, de equilíbrio entre as pessoas e de afeição ao logradouro, certamente encontraria nas artes plásticas, a dimensão da poesia nas cenas de amor e reverência à vida, com vasta concentração de energia humana a vibrar na sintonia da cordialidade. Inebriados pelo espetáculo dos movimentos nessa direção, não havia o otário nem o espertalhão.

Do Coreto, ouvia-se a Charanga executar as marchinhas que nem se ouve mais. Conservando os padrões da arquitetura admirável dos tempos em que a cidade se tornou conhecida no Brasil e no exterior, pelo dinamismo de sua gente, além da Catedral e igreja do Rosário, templos historicamente catalogados, havia, no entorno, os prédios dos Correios, Banco do Brasil e Cine Éden. Contrastando com a hegemonia de edificações que correram o mundo estampadas em cartões postais, a AABB, clube simples mais acolhedor, em que minha geração viveu noites sedutoras, consolidou a preferência, abrindo as portas para repercutir na memória, o bem mais significativo: a oportunidade do encontro.

A poucos metros, a Discolândia, do lendário Jairo Medeiros, fazia parte da dinâmica do dia a dia da, tanto pelos decibéis da caixa de som exposta na calçada, acima daquilo que a lei permite quanto pelo estilo de comunicação do proprietário. Quantos não foram os meses de agosto, em que no dia 12 meu pai adentrou ao recinto para comprar o presente de aniversário predileto da única mulher que amou na vida? Debaixo do braço ele conduzia os convidados especiais para a festa em família: Agnaldo Timóteo, Nelson Gonçalves, Miguel ngelo, Núbia Lafayette e tantos outros, na forma de LPs, compactos, ou “discos de cera”, aqueles que giravam na vitrola na rotação 78.

Jairo Medeiros foi das figuras envolventes que conheci. Na noite do acidente que lhe ceifou a vida, ouvi o não irretorquível, quando perguntei, da calçada do Lions Clube de Luiz Correia, se poderia oferecer carona. Já no carro com a esposa, respondeu brincando: – Não, meu bem, ainda vou dar uma voltinha! Sorri e mandei beijinho. Na manhã seguinte, fiquei sabendo que a “voltinha” teria sido a última de sua existência.

Dos locais continuamente frequentados, a Pérgula, atraía os olhares de contemplação pela beleza das pedras ornamentais, o corpo d’água, moradia dos quelônios que se mantinham submergidos, mas vinham à tona, bailando mansamente, a encantar, acima de tudo, o público infantil, despertando para a ligação do homem com os seres de outras espécies, e o verde das trepadeiras que se acomodavam de uma maneira elegante ao Caramanchão. Em meio a essa atmosfera que impregnava o ambiente de romantismo compatível à ocasião, os casais de namorados se abraçavam, em demonstração amorosa espontânea, sem a necessidade de artificializar relacionamentos para exibir em selfs. O que não havia àquela época.

Pérgula: inevitável nostalgia. Foto: acervo de Hélder Fontenele
Ainda nas décadas de 60 e 70, sob os mais diversos aspectos, a charmosa Praça da Graça, serviu como ponto de referência às gerações que viveram momentos apaixonantes de períodos históricos distintos, convivendo em harmonia com a paisagem, na leveza de um espaço público rico em detalhes marcantes da vida de um povo. Certamente não vivíamos um conto de fadas. Tudo aquilo era real, perceptível em imagens definidas com clareza!

A influência do Jornal Inovação

Na época em que aconteceu a demolição do logradouro predileto da população parnaibana, circulava um jornal sem fronteiras no que diz respeito à defesa dos interesses do povo e da cidade. De linguagem contundente, assumidamente contrário às falas mansas da crônica social, o Inovação se manteve coerente com o outro lado da História, questionando as elites, o poder político, e as causas dos entraves que impediam o desenvolvimento econômico e social.

Sem se perder nos clichês da imprensa tradicional, durante os dez anos de existência, foi tribuna dos excluídos, e no pleno exercício da rebeldia saudável da imprensa alternativa, colocou em prática o jornalismo com a exata percepção da dinâmica do sistema que ampliava, em números astronômicos, a distância entre pobres e ricos.

Por algum tempo, a redação do nanico considerado por pesquisadores o mais importante do estado do Piauí, esteve de portas abertas no cruzamento das ruas Riachuelo com Francisco Correia, ocupando o pequeno espaço que se metamorfoseava em gigantesco ponto de encontro para onde afluíam jovens sonhadores; sindicalistas renovados; adeptos de tendências religiosas; poetas, contistas e cronistas abertos a várias correntes de pensamento; líderes de movimentos de reivindicação; estudantes rebeldes; artesãos assistidos pela alta espiritualidade a dimensionar em obra de arte a grandeza da existência; agitadores culturais, em momento de vasta produção dispersa pela indiferença das classes política e empresarial; intelectuais, ostensivamente favoráveis à abolição de preconceitos; idosos, amantes da vida; ilustradores e cartunistas, sobressaindo-se como profissionais de alto nível, nas páginas de Inovação, o primeiro jornal parnaibano em impressão offset; músicos com os pés no chão, superando invencionices e modismos; visitantes de várias partes do Brasil e também do exterior, encantados com a coragem que aquela gente enfrentava os problemas e os poderosos: de peito aberto e a imaginação nas ações afirmativas.

Inovação não era somente o jornal. Havia um grupo de gente inteligente e esclarecida de várias gerações, representantes de diversos segmentos, militantes com atuação relevante nos movimentos estudantil (secundarista e universitário); nas associações de moradores; sindicatos; nos núcleos de base da igreja Católica que através da corrente teológica cristã progressista, pregava a opção preferencial pelos pobres, junto aos quais desenvolvia atividades, conscientizando para a plenitude da vida, tendo por base documentos do Concílio Vaticano II e conceitos extraídos das ciências humanas e sociais a endossar a caminhada do que se tornaria popularmente conhecida por Teologia da Libertação.

A partir dessas conexões, que não eram institucionais, o jornal, com poder de articulação, penetrava nos ninhos do movimento social, cada dia mais atuante, favorecendo alianças em torno de bandeiras de defesa das causas indígenas; da ecologia e do meio ambiente; da mulher; do negro; pela democratização da imprensa; por Diretas Já; por uma Constituinte livre e soberana; pelos Direitos da Criança; por Reforma Agrária Já!; por uma Lei dos Estrangeiros, enfim, por saúde, educação e trabalho. Nesse contexto, munido de palavra favorável às lutas por justiça social e disposição de lutar, influenciava com abordagens de conteúdo oposicionista, envolvendo pelo imenso desejo de mudar o mundo, desconstruir mitos, ligando teoria à prática, repercutindo o grito de uma geração de idealistas, tendo em vista as “rupturas de uma sociedade cristalizada em normas antigas”.

As questões de âmbito municipal ocuparam algumas páginas. Reportagens, artigos, pesquisas, entrevistas, crônicas, abrangiam os mais diversos setores da sociedade, com conteúdos que correspondiam às exigências dos leitores, despertando atenção especial, o Movimento Pró-Teatro e a reconstrução da Praça da Graça, que desde as primeiras horas da destruição até a publicação de nota no jornal “O Comércio”, do Rio de Janeiro, sob o título “No Piauí a praça é do povo”, que dimensionaria nacionalmente a ocorrência, o aguerrido Inovação estimulou a consciência popular.

Embora as diferenças façam parte da história da humanidade, naquela noite, no exercício do pleno direito a manifestação, gente de todas as procedências e concepções antagônicas do bem e do mal, mais que se sentiam vítimas e cumplices dos mesmos sentimentos, se confraternizou com euforia, aos gritos, abraços e brindes a lavar a alma, e em cada olhar, a expressão de paz interior. O entusiasmo de dias e noites felizes na praça símbolo de uma época de progresso e amor à cidade, houvera se transformado em cinzas!

Polícia protege as cinzas que restaram dos tapumes. Foto: arquivo Inovação


Primeiro plano: Elmar Carvalho, Gláucio Resende, Bernardo Silva e Yure Gomes. Foto: arquivo Inovação


Reginaldo Costa acenando para manifestantes eufóricos. Foto: arquivo Inovação

Para registrar a ocorrência nos anais da História, o Jornal Inovação (Nº 22, setembro/1979), ainda na fase do mimeógrafo, vai às bancas em edição especial com tiragem de 1.200 exemplares, tendo como carro-chefe o Editorial intitulado “31 de Agosto − Do Povo Parnaibano ao Povo Parnaibano”, escrito pelo professor Benedicto Jonas Correia, intelectual de mente iluminada, plenamente identificado com as causas de interesse da cidade e sua gente. Credenciado para aquela tarefa, extravasou o sentimento de amor à terra natal. Na mesma edição, transcrito de editorial do jornal “O Dia” (02/setembro/1979), sob o titulo “Parnaíba e sua praça”; “Da praça à gasolina ou a inoperância dos nossos políticos aqui e em Brasília”, de Depaula; “Carta aberta ao B. Silva”, de Bernardo Silva; “Balada da Praça da Graça”, com assinatura de “O Povo”. Robustecendo a edição, o renomado jurista Celso Barros Coelho, colaborou com o artigo “O que se espera dos moços”.

Jornal Inovação e Revista Repaginando: publicações comprometidas com a História
Reiterando o que escrevi para a primeira edição de Repaginado, editada em Goiânia, em 2014, sob o titulo “Praça da Graça: do romantismo ao muro da vergonha”, no dia 31 de agosto de 1979, o povo parnaibano sentiu a desventura de encarar o fim de uma época. A derrubada e queima dos tapumes desnudou uma crueldade sem precedentes, sustentada por argumento mentiroso, sabendo-se de que não havia projeto muito menos recurso disponível. Pena que àquela época, o IPHAN não era identificado pela austeridade na observância de seus princípios como nos dias atuais.

Embora o mês de agosto seja considerado de maus presságios, entre tantos em que se comemora o Dia da Parnaíba, alguns historiados pela pompa das celebrações religiosas, cívicas e políticas, o de 1979, diferenciando-se dos demais, teve o sabor da liberdade, do exercício da democracia e passaria para a História como marco da consciência popular na luta por direitos e respeito ao patrimônio cultural imaterial.

Acessível em depoimentos, artigos jornalísticos e fotografias, a manifestação popular se mantem preservada na lembrança de todos que vivenciaram a epopeia. Portanto, oportuno dispensar o sentimento de negação dos acontecimentos, escondendo a verdade atrás de bandeiras, crenças ou vontades. Afinal, fato é fato.    

Fonte: Blog do B. Silva

domingo, 23 de setembro de 2018

Seleta Piauiense - Menezes y Morais

Fonte: Google/Natureza Bela


A PAIXÃO DO TEXTO

Menezes y Morais (1951)

libre solinverso
prá lá do cá prá cá do si
do ré fá sol lá se
esperança do texto jogos de palavras jogos de poder
é preciso olhar no olho do futuro
símbolos d'ódio - vamos destruir os muros?
atemporalidade do ser
ser ainda é desafio
doidadobviedades capoeira erva cidreira e canapuns
ainda e sempre
o bicho homem
a saga de uma certa espécie
que pode ser varrida
da face do mistério

Fonte: site Antonio Miranda   

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

S O L I D Ã O

Fonte: Google


S O L I D Ã O

Alcenor Candeira Filho

solidão em pequeno quarto quase vazio
com cama ar-condicionado estante banheiro
desolada solidão entre quatro paredes
silenciosamente caladas o tempo inteiro

solidão com Jesus Cristo em moldura dourada
com mãos e com pés cravados em pesada cruz
a olhar,  para quem O olha, co’ olhar de piedade...
solidão de quem só escuta no abrigo santo

voz de vento lá fora e voz de livro em estante
como numa prece: Ave, Maria, gratia plena,
Dominus tecum benedicta tu in mulieribus...

quarto pleno de tudo no vazio do nada
- cômodo que mais parece aposento de monge
mas verdadeiramente cômodo de poeta.   

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Coronel Jesuíno Sousa da Piracuruca

Cel. Jesuíno e sua família. Fonte: Folhas Avulsas


Coronel Jesuíno Sousa da Piracuruca

José Pedro Araújo
Cronista, contista, historiador e romancista

Coronel Jesuíno Sousa era um dos grandes fazendeiros de Piracuruca, dono de vastas fazendas situadas naquele município e em Batalha, chegando seus limites a se entender até o município de Barras. Homem inteligente e de visão apurada, não aprendeu a ler nem a escrever, mas possuía uma capacidade excepcional para fazer contas de cabeça e, acima de tudo, de visualizar o futuro. Nenhum cálculo mal feito lhe escapava à percepção quanto pedia aos filhos que procedesse a alguma soma ou subtração. A falta de aprendizagem nos bancos escolares, foi prontamente compensada com a experiência de vida, a observação detida e o fino faro para os bons negócios. Negócios honestos, lícitos, pois como sempre dizia ao final de uma transação, a coisa só termina bem quando os dois lados ficam satisfeitos.

Esse homem sábio, nascido em um lar pobre e de família numerosa, nunca se dobrou à sina comum aos que vem ao mundo com esse viés hereditário, e logo se rebelou contra o estado de pobreza que açambarcava a sua família: desde a sua infância dedicou-se com afinco ao trabalho e aos negócios. Para exemplificar isto, vou contar um fato que ouvi uma ocasião sobre a determinação deste homem de compleição física pequena, mas sabedoria enorme. Certa vez, ainda muito jovem, ao atravessar a Fazenda Lagoa do Saco, uma das grandes fazendas da região, tocando uma pequena tropa de burros de um determinado cidadão a quem prestava seus serviços, prometeu que ainda seria dono daquelas terras que tanto admirava. E de fato, muitos anos depois, conseguiu comprá-la dos herdeiros do antigo proprietário. E não somente esta, mas outras duas grandes propriedades que faziam limite com ela: Cajazeiras e Santa Maria. As três somavam uma área contínua de mais de dois mil e duzentos hectares de ótimas terras com pastagem natural abundante, várias nascentes e extensos carnaubais. Nelas o coronel criava um numeroso rebanho de gado vacum e uma grande quantidade de ovinos e caprinos, além de explorar seus carnaubais. 

Mas o início da sua história começou na pequena Fazenda Cocal, situada no município de Batalha, lugar em que estabeleceu a sua morada e criou a numerosa prole. Naqueles anos, a Carnaúba embasava a economia do estado, e Piracuruca situava-se no centro do maior polo produtor de cera, principal produto extraído desta palmácea. A Fazenda Cocal, apesar de contar com terras boas para a agricultura (fruticultura em especial, pois de lá retirava muitas carradas de laranja e banana para serem comercializadas) e pecuária, não possuía um carnaubal rentável. E o coronel acreditava que as grandes fortunas da região estavam baseadas na criação extensiva de bovinos e na exploração de seus carnaubais. Fora disto, não havia grandes oportunidades de enriquecimento, pois o comércio ainda era muito incipiente e o que provinha da agricultura mal dava para o sustento das famílias. Munido de grande determinação, o jovem Jesuíno instalou um pequeno comércio na própria fazenda, e começou a trabalhar incansavelmente para contornar o problema relacionado ao seu pequeno carnaubal: resolveu plantar carnaubeiras por toda a extensão da sua propriedade. Era um trabalho pesado e com resultados em longo prazo, visto que a árvore da carnaúba leva vários anos até chegar ao ponto de permitir a extração das suas folhas. Estima-se em dez anos esse tempo necessário, quando as palhas já podem ser retiradas para a extração do pó que se transformará em cera.

Precisava ser um homem muito determinado para acreditar que, através do plantio da palmácea, iria conseguir superar a pobreza das suas terras em relação a este vegetal. Mas ele foi em frente. Como até então ninguém havia feito isto, poucos acreditavam que ele teria sucesso na sua empreitada. Com exceção dele, é claro. E foi assim que, usando apenas a sua intuição, vez que não existia ainda uma técnica desenvolvida para o plantio desta espécie cerífera, coube a ele fazer uma seleção das plantas mais produtivas para povoar a sua fazenda. Depois foi só esperar para colher os primeiros resultados. E eles foram dadivosos, animadores, ao ponto de atiçar-lhe o ânimo para ampliar a quantidade de árvores adotando o mesmo método.

E foi assim que ele - para encurtar a história – com trabalho e muito empenho, começou a utilizar a renda extra que obtinha com as suas atividades corriqueiras, para adquirir novas propriedades. Como uma única exigência: teriam que possuir extensos carnaubais. E assim, produzindo e vendendo cera de carnaúba, deu cumprimento a sua promessa e adquiriu a Fazenda Lagoa do Saco. E depois muitas outras.

Seus rebanhos também foram aumentando à medida que novas terras foram sendo adquiridas. Naqueles tempos, é importante que se diga, criava-se extensivamente nas vastas áreas de pastagem nativa existentes na região, sem a necessidade de grandes investimentos com pastos, cercas ou aguadas. Isso, até que o arame farpado veio interromper esse tipo de exploração pecuária. Naquela época também, os rebanhos se dispersavam por toda a região e, muitas vezes, ultrapassavam os limites do próprio município. E por conta disto, em épocas previamente definidas, como nos momentos de vacinação, ou mesmo de escolha de amimais para a vendagem, os vaqueiros saíam para campear por toda a região, trabalho que demorava semanas, até mesmo meses.

Vaqueiro, nesse tempo, era uma profissão respeitada e isso fazia com que muitos jovens se dedicassem a esse tipo de trabalho. Um bom cavalo de sela, arreios vistosos e uma boa vestimenta de couro (gibão, perneira, peitoral, luvas e chapéu de couro), transformava o homem em uma figura quase mitológica, um herói das plagas nordestinas. E isso encantava muitos jovens.

Certo dia, já avançado na idade e residindo em Piracuruca, Coronel Jesuíno recebeu a notícia, por um de seus filhos, de que um determinado novilho estava causando um verdadeiro alvoroço na região de Batalha, onde o fazendeiro possuía várias propriedades. Isso começou quando os vaqueiros saíram a campo para juntar a boiada que se achava no ponto de venda para o abate. O gado, criado daquela maneira, às vezes oferece alguma dificuldade na hora de juntá-los, nada, contudo, que atrapalhe o ofício daqueles homens acostumado à sua corriqueira lide. Mas dessa vez havia aparecido um boizinho que estava fazendo história: ninguém conseguia pôr as mãos nele, apesar das inúmeras tentativas. Soube ainda que essa história já havia corrido o mundo e transformara o boi em uma verdadeira entidade. Alguns diziam até mesmo que ele tinha pauta com o demônio, era encantado. Tudo porque, em várias ocasiões, tinha conseguido se evadir mesmo estando cercado por numeroso grupo de vaqueiros em um capão de mato. E quando eles penetravam na vegetação, não mais o encontravam lá. Havia sumido.

O fato é que a cada tentativa de lançarem mão no boi, o arredio animal dava sempre um jeito de escapar aos seus perseguidores e sumir no mato. Apesar de não ser um animal muito grande, o que causou espanto à populaça foi que o Marruá fora criado junto à comunidade Caraíbas, povoação próxima a Batalha, e era sempre visto no pátio de uma determinada casa, onde habituou-se a passar a noite. Todavia, mal o dia clareava, sumia sem que o seu paradeiro fosse conhecido.

Quando chegou a sua vez de ser aprisionado para ser conduzido ao açougue, o boizinho se revelou e ninguém conseguia pôr as mãos nele. Foi então que a história se espalhou na região e chamou a atenção de inúmeros vaqueiros ansiosos por ganhar fama. E cada vez mais homens vinham em busca do arisco animal, mas ninguém lograva êxito. Nem mesmo os vaqueiros mais afamados da região. Ao tomar conhecimento da história, e da verdadeira festa que estavam organizando para o final da semana seguinte, um dos filhos do Coronel, munido de uma câmera para filmagem, desceu para o local do acontecimento que estava chamando tanto a atenção de todos.

Lá chegando, já encontrou uma multidão que ultrapassava a três centenas de pessoas, mas de cem deles afamados vaqueiros determinados a capturar o boi fujão. A empolgação já era grande naquele instante porque a noticia de que o animal fora visto em determinado local se espalhara como um rastilho de pólvora. Naquele instante, os vaqueiros já se dirigiam ao local indicado, cada um deles na expectativa de aprisionar o animal fujão e ganhar o laurel de maior vaqueiro da região. O pessoal que acompanhava atentamente o movimento postou-se em um beco, entre duas cercas, e ficou à espera que, finalmente, o boizinho aparecesse conduzido por algum dos inúmeros vaqueiros que seguiram em seu encalço.

Daí a alguns minutos, alguém gritou para avisar que o boi vinha vindo. Causou o maior frisson quando bicho surgiu na entrada do beco, em disparada, livre e com um grande grupo de vaqueiros em seu encalço. O descendente do coronel, que havia levado um filho pequeno, além da câmera para a filmagem do grande momento, quando viu que os populares corriam assustados e procuravam a saída do beco, tentou proteger o menino e também partiu em desabalada carreira. Seu propósito era se abrigar no seu carro que ficara estacionado à sombra de uma árvore. Mal teve tempo de se servir da proteção do tronco de outra árvore que encontrou pelo caminho. Safou-se por pouco de ser atropelado pelo novilho. A câmera deixou registrada a cena da sua fuga, e não o boi fugitivo.

Depois disto, o boi sumiu em meio à vegetação e não mais foi encontrado. Decepção geral. Horas depois do acontecimento, a vaqueirama já se mostrava derrotada mais uma vez, trazia o semblante decaído e um enorme sentimento de frustração invadia a alma de cada um deles. Foi quando se destacou do grupo um homenzinho, a pé, descalço, pés largos e acostumados a palmilhar o solo quente da região e enfrentar os espinhos que infestam o carrascal, seguiu sozinho no rastro do animal. Levava com ele apenas uma velha corda de laçar atada ao ombro. Quem o visse naquela pisada ligeira, jamais apostaria no sucesso da sua procura, uma vez que os vaqueiros mais experimentados que havia por ali haviam falhado bisonhamente.

Outro filho do Coronel Jesuíno, responsável pela operação de captura do boi, já se preparava para ir embora, quando lhe chegou a notícia de que o boi havia sido encontrado pelo homenzinho descalço, e provavelmente capturado. Surpresa geral. Quem já estava indo embora, voltou atrás e ficou à espera do tal boi fujão. Não demorou muito e lá vinha o boi mansamente conduzido pelo homem do laço. A pé, vinha seguido por grande séquito, homens vestidos de couro e montados em seus cavalos de campo. Ninguém acreditava que aquilo estivesse acontecendo. O animal escorregadio e que todos acreditavam ser uma entidade espiritual, que há dias vinha fugindo dos melhores e mais renomados vaqueiros, vinha agora manso e cordato pela estrada, conduzido por aquele pequeno homem sem cavalo e sem fama de grande vaqueiro.

Em Piracuruca, quando o Coronel Jesuíno Sousa tomou conhecimento que o boi havia sido, finalmente, capturado, enviou ordem expressa para que ninguém tocasse naquele animal. Justo, como sempre fora, afirmou que o boizinho havia lutado bravamente, e por isso, ganhara a sua liberdade definitiva. Mas a ordem, para seu desgosto, chegou tarde. Com receio de que aquele animal fujão escapasse novamente, seu filho havia determinado a sua execução e a carne fora encaminhada ao açougue para ser comercializada. Triste fim para o boizinho que havia prendido a atenção do povo de toda uma região por muitos dias, com a sua fama de aparição.

Esta é apenas uma das histórias que cercam a vida do Coronel da Piracuruca, Jesuíno Sousa. Homem correto e despido de luxos que criou numerosa família que hoje se acha espalhada por este vasto país.
Se vivo estivesse, hoje estaria festejando o seu 127º aniversário de nascimento!   

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O maçom e barbeiro Chagas Vieira

Chagas Vieira, mestre da tesoura e da sublime Arte Real. Foto tirada por mim, em abril de 2010


O maçom e barbeiro Chagas Vieira

Elmar Carvalho

Indo ao centro de Teresina, nesta segunda-feira, para tratar de um assunto na prefeitura, resolvi seguir pela rua Lisandro Nogueira até dobrar à esquerda na rua Rui Barbosa, para cortar meus cabelos numa barbearia, que fica perto do prédio do antigo supermercado São Gonçalo, que hoje é ocupado por uma das filiais da Igreja Universal do Reino de Deus (ou pelo menos foi, até bem pouco tempo). Hoje pouco vou ao centro comercial e histórico, que muitos consideram estar se transformando numa espécie de cidade-fantasma. Aos domingos a situação piora, e o centro toma ares de verdadeiro campo santo, cuja expressão uso como eufemismo.

Chegando ao salão, onde cortei meus cabelos tantas vezes, em tempos idos, quanto trabalhei na famigerada e extinta Sunab... Por falar em Sunab, quando ingressei nessa repartição, lotado em sua Delegacia no Estado do Piauí, em 10 de agosto de 1982, eu era, aos 26 anos de idade, o seu mais jovem funcionário. Pois bem, passados todos esses anos, com exceção de dois ou três (e de uns poucos que entraram depois), lamento constatar que esses servidores, como nos elegíacos versos de Bandeira, estão todos dormindo, dormindo profundamente.

Mas, retomando o fio do que dizia, ao chegar ao salão olhei para todas as pessoas que ali se encontravam, à procura do irmão maçônico Chagas Vieira. Não o localizando, dirigi-me a uma pessoa que fazia as vezes de recepcionista, por se encontrar perto da entrada, para perguntar por ele. Temi pelo que iria ouvir, posto que já vinha com certa premonição aziaga. De fato, o rapaz me informou que ele havia falecido. Respondi-lhe apenas:

            – Não sabia... Ele está num outro lugar melhor do que este.

Eu pensava nas palavras de Cristo, e nas outras dimensões de que nos fala a física. Na casa do Pai há várias moradas, disse Jesus.

Em homenagem ao irmão Chagas Vieira, que foi um homem bom, republico a seguir uma crônica, incluída em meu Diário Incontínuo, que um dia transformarei em livro impresso, datada de 30 de abril de 2010:

A MORTE E A CEGUEIRA DE KETY 


Fui cortar as minhas cada vez mais ralas e raras madeixas com o irmão maçônico Chagas Vieira. Desde 1971, ele exerce sua atividade em Teresina. Conheço-o desde a segunda metade da década de 1980, quando eu trabalhava na extinta SUNAB. Ele trabalhava no Salão Piauí, pertencente ao senhor Felinto Lima, já falecido. Em 1998, fundou seu próprio estabelecimento, o Salão do Povo, situado na rua Rui Barbosa, 441, perto do antigo supermercado São Gonçalo, onde hoje funciona um templo da Igreja Universal.

Durante alguns anos, ausentei meus cabelos de sua tesoura e navalha, por mudanças de hábito e circunstâncias. Há alguns anos, voltei a integrar sua clientela. Antes de adotar posição estática, para ele melhor exercitar as suas habilidades de escultor capilar, pedi-lhe que me repetisse a história de sua cadelinha. Chamava-se Kety e era uma pequinês, pequenina, peluda e de brancura imaculada.

Quando Chagas saía para o trabalho, ela o acompanhava até a porta da rua. Ficava triste, aguardando o seu retorno, quando ia esperá-lo à porta, e ficava se achegando a ele, até ser colocada no colo. Tinha muito amor a seu dono, e a recíproca era verdadeira, na mesma intensidade. A cadelinha chegava ao ponto de comer no mesmo prato dele, com a sua cúmplice permissão complacente.

Teve longa vida, para os padrões caninos. Aos dezessete anos cegou, primeiro de um olho e logo em seguida do outro. Com a cegueira, a cachorrinha, por alguma espécie intuitiva de pudor, ou por receio de incomodar seus donos ou por simples higiene, passou a se esgueirar pelas paredes, como tateando, em busca de alguma saída para fazer suas necessidades fora da casa.

Numa dessas buscas, saiu para a rua, quando foi tragicamente colhida pelas rodas de um carro, que lhe esmagou a pequenina cabeça. O irmão Chagas providenciou-lhe o enterro, no quintal da residência. Mas pela casa ainda vaga a lembrança e a saudade de Kety, que se mantém viva na retentiva amorosa de seus donos.