domingo, 10 de novembro de 2019

Seleta Piauiense - Adail Coelho Maia

Fonte: Google


Em Minha Vida

Adail Coelho Maia (1907 (*) – 1962)

Procurei reunir uma por uma
As parcelas de toda a minha vida.
Por fim a operação foi dividida,
Não dando em resultado coisa alguma!...

Novamente reuni: fiz tudo em suma,
A conta certa e a prova conferida;
E toda a minha história assim perdida
Num lago extinto sem sinais de espuma...

Abri depois o livro do passado,
velho volume de tristeza e pranto,
Na poeira do tempo desprezado...

Numa folha esquecida e amarrotada
Encontro a soma num escrito a um canto
Como parcela mínima do nada. 

Fonte: Blog Revista Cirandinha

(*) Na Revista Cirandinha (acesso em 10/11/19), o escritor Gilvanni Amorim, conterrâneo do poeta, registra o ano de 1909 como sendo o de seu nascimento. Contudo, em várias antologias, encontrei sempre o ano de 1907. 

sábado, 9 de novembro de 2019

PIOR NÃO PODERIA FICAR?

Fonte: Google


PIOR NÃO PODERIA FICAR?
                
Antônio Francisco Sousa
Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                 Sobre dois assuntos que vieram à tona nos últimos dias, pretendo, nas próximas linhas, tecer considerações, manifestar meu ponto de vista e, claro, fazer as críticas que considerar oportunas.

                O Ministro da Fazenda fez incluir na Proposta de Emenda Constitucional (PEC), a do tal “pacto federativo”, sugestão de extinguir ou incorporar aos maiores, municípios brasileiros com menos de cinco mil habitantes e arrecadação própria inferior a dez por cento de sua receita total, a partir do ano dois mil e vinte seis. Como era de se esperar, a chiadeira foi grande, notadamente, a oriunda de órgãos e autoridades municipalistas beneficiárias deste atual e camarada esfacelamento redistributivo entre entes estatais sem condição real e efetiva de se autossustentarem administra, econômica e/ou financeiramente.

Partindo do pressuposto de que mil duzentos e cinquenta e quatro municípios poderiam ser extintos ou fundidos, de acordo com a proposta, mesmo número de prefeitos, pelo menos, onze mil e duzentos vereadores – qualquer município deve ter, no mínimo, nove edis -, cerca de nove mil secretários – é de se esperar que, mesmo no município mais chinfrim, haja secretaria de educação, saúde, planejamento, finanças ou fazenda, administração, obras e de agricultura -, perderiam seus empregos; logo, como ficarem satisfeitos com a sugestão ministerial?

                Vozes municipalistas e mesmo parlamentares vieram a público tentando mudar o conceito de receita própria - que, obviamente, é a decorrente da arrecadação de tributos e outros recursos cobrados e lançados, originalmente, pelo ente municipal -, para nele poder incluir ou abarcar as redistribuições ou transferências provenientes da União ou de Estados, que, claro, deixariam de entrar, por via direta, nos cofres dos municípios extintos. Como tendo partido do povo que, com ou sem a adoção da medida proposta, continuaria recolhendo os tributos municipais – ISS, ITBI, mesmo o ITR, se pretendesse fiscalizar e lançar -, não se teve notícia de qualquer choramingo ou beicinho, por conta das notícias veiculadas.

                Quanto a mim, sou favorável à aprovação da proposta de extinção/fusão de municípios sem autonomia econômico-financeira. Menos prefeitos, vereadores, secretários, aspones e agregados, menos salários diretos e indiretos, mais recursos à disposição do governante municipal para cuidar de todos, dos governantes, vereadores, secretários e que tais, alijados das folhas de pagamento dos municípios fundidos, aos demais munícipes. Índices e/ou montantes de recursos redistribuídos pela União e Estados, na forma de transferências e fundos constitucionais, na pior das hipóteses, seriam incrementados com essa economia, nos municípios remanescentes. A propósito, para todos os expurgados/desempregados, não, mas alguns, os que se julgassem em condições de disputar novas eleições para o governo ou parlamento do município que os acolheu, poderiam tentar, quem sabe lograssem êxito, elegendo-se e, consequentemente, voltando ao velho status quo?

                Também por esses dias, ouvi e li, de representantes de sindicato dos bancários do estado, manifestação de insatisfação com decisão de bancos transferirem servidores, principalmente, com muito tempo de serviço, à beira da aposentadoria, e contra sua vontade, para locais distantes de onde estariam residindo. A mim, pareceu-me tal fato mera sequência do que já seria o esperado. Como não? Não é de agora, que determinadas instituições financeiras vêm atribuindo a seus funcionários funções e encargos que não estariam previstos em seus contratos originais de trabalho, ademais, estabelecendo metas relativas a essas novas e extraordinárias atividades. Nem havia, como não há, necessidade de ser funcionário bancário para perceber, não somente gerentes, mas atendentes, subgerentes, até mesmo caixas, não raro, em complemento às “atividades normais”, tentando vender seguros, consórcios, cotas de previdência privada e assemelhados. Infelizmente, com receio ou temerosos de perderem o emprego, muitos culminaram por perder espaço, tornando-se dispensáveis. Quem nunca viu, por exemplo, diante de agências de bancos oficiais, ou mesmo dentro delas, pessoal terceirizado disputando espaço com servidores e oferecendo produtos e serviços negociados ou disponibilizados pelas instituições financeiras?  

                Enfim, quanto à proposta de extinção/incorporação de municípios, interesses políticos e corporativos maiores tornam inexequível essa pretensão. Não seria estranho, porém, se, a despeito da luta – tardia ou não? – do sindicato dos bancários para reverter a situação, servidores que não quiserem, em podendo fazer isso, optar pela inatividade/aposentadoria, ou quem não aceitar transferência para localidade diferente da de seu domicílio, perderem seu emprego. Ou seja, pior do que está, a coisa pode ficar, sim, para muitos servidores bancários; mas, certamente, não para os municípios ameaçados pelo “pacto federativo”.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

CAPAS & DEDICATÓRIAS: Vicente Miranda





Recebi, na sede da Academia Piauiense de Letras, a obra O Arraial de Paris, devidamente autografada por seu autor, Vicente Miranda, meu amigo e conhecido há duas décadas.

Já lhe havia lido o volumoso livro Três Séculos de Caminhada, que é um misto muito bem feito e muito bem arrumado de sociologia, antropologia, história, geografia e genealogia da Serra da Ibiapaba e de parte do Piauí; ou seja, do território por onde se espalhou grande parte dos entrelaçamentos familiares do autor. Sobre ele escrevi uma espécie de crônica ensaística que se encontra publicada na internet.

Arraial de Paris foi o nome dado ao local onde se amontoavam homens, mulheres, velhos, adolescentes e crianças, os chamados retirantes, na verdade fugitivos da seca de 1877/1879, que grassou na caatinga cearense e em boa parte da Ibiapaba. Segundo Vicente Miranda, o nome Arraial de Paris para designar essa espécie de primeiro campo de concentração foi posto por um erudito da Vila Viçosa Real. Suponho que o “erudito” fosse na verdade um sarcasta ou ironista, para com essa denominação, que remete a uma urbe elegante e refinada, batizar um gueto de sofrimento e humilhação. E Miranda lhe pôs esse rótulo também por simples ironia.

Vicente Miranda em estilo elegante, fluido, contudo sempre revestido de clareza, objetividade e concisão, desnuda os sofrimentos e mazelas que permeavam essa concentração humana, onde, quase sempre, imperavam a fome, o alcoolismo e mesmo a prostituição, esta como forma de a mulher amealhar algum dinheiro para se sustentar, bem como a seus familiares – pais, irmãos, filhos e, às vezes, o próprio marido.

O Arraial foi a forma encontrada para que esse cortejo de miseráveis não ficassem incomodando as famílias tradicionais e mais bem aquinhoadas da bela Viçosa, seja através da mendicância ou mesmo de eventuais furtos. Como a Comissão de Socorro Público da vila não tinha condição de suprir com eficácia as necessidades dos flagelados da seca, os homens passaram a derrubar as palmeiras da cercania, em busca sobretudo do palmito e das amêndoas, para mitigar a fome da família.
Sobre o notável livro de Vicente, disse Sarah Miranda:

“O Arraial de Paris não é mais um livro sobre seca no Nordeste. É uma reflexão endógena e documental sobre o comportamento humano, suas potencialidades e suas fraquezas, seus limites e crueldades, até se desnudar por inteiro e descobrir de que matéria é feito, de como é possível sofrer e cantar ao mesmo tempo no sertão.

Nessa obra comprometida com a verdade real, retira-se o véu da ilusão sobre o papel estatal nas Comissões de Socorros Públicos nos tempos de ‘seca social’ e ‘Justiça’ diante de conflitos em tempos em que o retirante, se não morre de fome, encontra a morte na intolerância entre as famílias rivais.”

Para escrever esse livro, o autor, sempre comprometido com a verdade, que deve ser o desiderato maior de qualquer historiador, além de ter entrevistado parentes idosos, que conheciam a crônica oral e familiar dessa terrível seca, tendo tido acesso a alguns apontamentos escritos, consultou inúmeros documentos, fazendo, sem dúvida, o necessário cotejo e contextualização, inclusive com o que se encontra nos livros e jornais da época.

Fez um verdadeiro painel ou mural dessa tragédia climática, que ciclicamente ainda castiga o sertão do Ceará, embora hoje haja novas maneiras de se conviver ou de se mitigar o problema, através de novos manejos de solo, de equipamentos e insumos modernos, com a construção de açudes, barragens e aguadas, e também com a engenharia genética, na tentativa de se produzir plantas mais adequadas às caatingas e chapadões. Não se podendo mudar o clima, tenta-se transformar a convivência e a cultura, mediante o emprego de novos conhecimentos e tecnologias.

Para tornar mais atraente e melhor condimentada a saga e a via crúcis dos míseros retirantes, que pretendiam ter em Viçosa apenas o ponto de apoio para o descanso e a recuperação de suas forças para a continuação de seu percurso ao destino final, que era o Maranhão ou uma das cidades piauienses à beira do Parnaíba, entre elas União, Miranda relatou as vicissitudes de uma adoção e a chamada Tragédia da Tabatinga.

Sem almejar fazer um spoiler, traço uma apertada síntese da adoção. Uma família, depois de sofrer todas as misérias que a fome pode acarretar, até mesmo a prostituição, cedeu um menino para ser criado por uma família próspera, até que tivesse condição financeira para vir buscá-lo. Na luta de uma das irmãs para reaver o garoto “adotado” pelo fazendeiro Albino da Costa Portella, o autor do livro constatou a correção do juiz do feito, ajuizado em Barras. O magistrado se chamava Estêvão Lopes Castelo Branco, que já naquela época, quando a necessidade de fundamentação não era muito observada e exigida, pelo menos com o devido rigor, justificava bem as suas decisões.

Pela coincidência de nome, pelas datas e pelo tipo e local da função exercida, eu o identifico como sendo Estêvão Lopes Castelo Branco Sobrinho, nascido na célebre Fazenda Ininga, em José de Freitas, formado em Direito no Recife, e irmão do patriota e benemérito Pacífico Castelo Branco, herói da Guerra do Paraguai e comandante por três anos dos Voluntários da Pátria oriundos do Piauí. Estêvão foi um dos fundadores e primeiro presidente da Sociedade Abolicionista e Libertadora Barrense, que teve o primeiro hino composto em terras piauienses.

Também o livro, como anunciado acima, narra a Tragédia da Tabatinga, com muito colorido, movimento e detalhes, quase como se fora um romance, mas baseado em documentos e na verdade histórica, que a tradição não esqueceu, conquanto lhe possa ter dado algumas pinceladas de quase lenda. Busca os antecedentes e a causa da inimizade antiga entre o major Inácio José Correia, o Macaxeira, e o índio/mameluco Francisco Gonçalves da Costa, o Juriti.

Com a sua reconhecida imparcialidade e rigor histórico, Vicente Miranda compulsou com vagar e atenção todo o processo investigativo e judicial em que os fatos foram apurados e levados a julgamento. O certo é que, em resumo, Juriti e seus familiares indígenas trucidaram quase toda a família do major Inácio e seus apaniguados, muitos dos quais lhe formavam uma espécie de força armada particular. O episódio, pela sanguinolência e dimensão que teve, bem se prestaria a um roteiro de filme de  “faroeste” ou bangue-bangue nordestino, cuja luta, com incêndios, explosões de líquidos inflamáveis, tiros, bordoadas e facadas, teve como cenário o espinhaço da Ibiapaba, nas proximidades da então Vila de Viçosa Real.

A obra, um legítimo estudo sociológico e histórico do flagelo da seca de 1877/1879, que registra o esforço do governo imperial e provincial em atenuar a miséria que assolava o sertão cearense, sobretudo com o repasse de alimentos e a construção de edifícios e ferrovias, também se reveste de beleza literária ao narrar as tragédias particulares e a miséria moral de alguns homens públicos, que tiravam proveito da chamada “seca social”, seja desviando recursos e produtos alimentícios ou satisfazendo a libido.

Desnecessário dizer que o esforço governamental ficou longe de solucionar as necessidades mínimas dos ditos esmolambados, que sofriam no confinamento do Arraial de Paris e nas ermas veredas das calcinadas caatingas e chapadões, onde apenas se viam as cores sépia e cinza, com exceção do raro verde das frondes dos juazeiros e dos espinhentos xiquexiques e macambiras, que lhes acenavam, talvez, um pouco de esperança.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

REMINISCÊNCIAS GOLEIRÍSTICAS E OUTRAS

Elmar em charge de Gervásio Castro


O velho goleiro

Zé Francisco em Francinópolis, onde morei, quando tinha um ano de idade


REMINISCÊNCIAS GOLEIRÍSTICAS E OUTRAS

Elmar Carvalho

No sábado passado foi comemorado o aniversário natalício do amigo Zé Francisco Marques. Ele é filho do senhor Gerson, amigo de meu pai, e que foi seu colega no velho DCT – Departamento de Correios e Telégrafos. De forte inclinação musical, toca violão e teclado eletrônico, além de cantar. Seu repertório é sofisticado, porém eclético, sem preconceitos elitistas. É ainda radialista e professor de inglês.

Não pude comparecer a sua comemoração natalícia, em razão do lançamento de meu livro PoeMitos da Parnaíba, ocorrido nessa cidade do litoral piauiense, onde morei por muitos anos. Vi depois a notícia na internet, e sei que foi concorrida, com a presença de vários amigos. Houve forte libação e farto churrasco. De já advirto, não posso perder a próxima.

No início de minha adolescência, fui goleiro de um time do qual faziam parte ele, seu primo João Bartolomeu e o nosso amigo comum Assis Capucho, hoje médico de nomeada em São Paulo, com direito a proferir conferências na área de neurologia pelo Brasil afora. Com a minha ida para Parnaíba, em junho de 1975, não mais nos vimos por mais de duas décadas.

Voltamos a nos rever em 1996 ou 1997, na chácara Alto da Olaria, no bairro Flores, de belo, florido e cheiroso nome. Esse local aprazível, cheio de velhas e frondosas árvores, de onde se tem uma bela e panorâmica vista da velha Bitorocara, pertence ao amigo João Alves Filho, fundador e animador de várias associações, inclusive da Academia Campomaiorense de Artes e Letras. No Alto da Olaria, disse certa vez (e se não disse deveria ter dito), parafraseando Napoleão, a contemplar a torre da catedral de Santo Antônio do Surubim: Velha Bitorocara, do alto desta colina quase três séculos te contemplam!

Conversamos e logo nos identificamos, e restabelecemos fraterna amizade. Na época, meus pais haviam retornado a Campo Maior, enquanto quase todos os meus amigos tinham ido embora da cidade. Disse-lhe que quem me dava assistência e me fazia companhia quando eu vinha a passeio era o Zé Henrique, de quem minha irmã Maria José ficou viúva três anos atrás. Contei-lhe que o Henrique me havia dito que quem fosse seu amigo não mais o procurasse, pois pretendia entrar na lei seca, tornando-se radical abstêmio.

O Zé Francisco, com providencial presença de espírito, respondeu-me que me pediria exatamente o contrário, e que eu não o deixasse de procurar quando viesse a Campo Maior. Retomamos a amizade a partir de então. Claro está que o saudoso Zé Henrique não cumpriu a promessa por muito tempo, e muitas vezes estivemos juntos com o Zé Francisco. Sempre que vou a minha cidade natal o procuro, e o faço quase mensalmente.

Numa dessas vezes, Zé Francisco contou-me um fato que eu já esquecera completamente. Narrou-me que, numa das vezes em que eu havia prometido defender a meta de seu time, eu fora a uma festa na noite anterior, de modo que quando ele e o Assis Capucho chegaram à residência de meus pais eu estava dormindo.

Acordado de um sono profundo misturado com ressaca, que me puxava para a rede de dormir, e não para a das traves de um campo de futebol, que sequer as tinha, honrei a palavra empenhada e fui cumprir a minha sina de goleiro. Disse-me ele que eu era um bom goleiro. Creio que se eu não tivesse algum valor ele e o Assis não me procurariam, pois ambos moravam, na época, distante de minha casa.

Cultivo a sua amizade porque é ele um cidadão de forte interesse cultural; mantém-se atualizado com o que acontece na chamada aldeia global, cada vez mais aldeia e mais global; gosta de arte, sendo ele próprio um artista musical; tem interesse literário, e além de bom de papo é bom de copo, ou vice-versa, sendo certo que é um boêmio no bom sentido da palavra, porquanto bebe com sabedoria socrática, é bom pai, bom marido, bom amigo e é ferrenho cumpridor de seus devedores magisteriais, pelo que tem o respeito de sua comunidade e de seus amigos.


2 de abril de 2010

terça-feira, 5 de novembro de 2019

CAPAS & DEDICATÓRIAS: Homero Castelo Branco






No sábado, dia 26/10/2019, às 10 horas, tive a satisfação de apresentar os livros Castello Branco – ontem e hoje e Fenelon Ferreira Castello Branco, da autoria de Homero Castelo Branco, membro valoroso da Academia Piauiense de Letras. Foi publicado pela Nova Aliança, que, através de seu proprietário Leonardo Dias, presta relevante serviço às historiografia e literatura piauienses. Dílson Lages Monteiro foi o outro apresentador, tendo feito um trabalho erudito e de crítica, de caráter técnico, que leu na oportunidade. O meu discurso foi de improviso, um tanto lírico e recheado de histórias e estórias de nossa História. O auditório estava lotado, o que despertou o meu entusiasmo. Segue abaixo o meu prefácio às duas obras:

PREFÁCIO

HOMERO E A SAGA DOS CASTELO BRANCO

Elmar Carvalho

1

            Como é fácil de se ver, este livro é um autêntico dois em um, inclusive com duas capas. O leitor poderá começar a leitura por qualquer uma delas; quando chegar ao fim do livro escolhido, é só fechar o volume, e virá-lo de ponta-cabeça, mantendo a lombada sempre à esquerda, e iniciar a leitura do outro. Seus títulos são: Fenelon Ferreira Castello Branco e Castello Branco – Ontem e Hoje.

            Falarei um pouco de seu autor, imprimindo a este texto preambular um certo caráter de crônica, escrita ao “correr da pena”, melhor diria, da digitação. Homero é um sábio bem-humorado; e é bem-humorado exatamente porque é um sábio. Um sábio sem empáfia, discreto como convém, que disfarça a sua sabedoria nas anedotas que conta, quase as travestindo em parábolas de admoestação e exemplo.

Como o seu famoso xará grego, é um homérico contador de histórias e estórias, muitas delas verdadeiras anedotas verídicas. De algumas ele participou, senão como protagonista, ao menos como coadjuvante. Por isso mesmo, tenho insistido para que ele escreva um livro de memórias, as suas próprias, e as suas memórias dos outros. Ele sorri, mas negaceia, talvez por receio de magoar algumas pessoas de sua amizade.

Num dos livros conta a saga de Fenelon. Suas conquistas e perdas. Suas crises e alegrias. Narra a profunda tristeza em que ele mergulhou, após a morte da primeira esposa (Ana Fortes Castelo Branco), cujo consórcio durou apenas três meses, em virtude do prematuro falecimento de Nicota, seu apelido familiar e afetivo, pelo qual era mais conhecida. Por causa desse infortúnio, e da depressão que em consequência lhe adveio, escreveu 35 sonetos elegíacos, integrantes do livro Ano de Luto. Sobre essa obra, no livro “Academia Piauiense de Letras – Os fundadores”, disse o acadêmico Wilson Carvalho Gonçalves:

“Por ocasião do primeiro aniversário da morte de sua mulher, Ana Fortes Castelo Branco, ocorrido em 1902, o poeta publicou “Ano de Luto”, magoada elegia em que pranteou sua morte, em que lamentou “a mágoa sem remédio de perder-te”, como nos versos imortais do imensurável vate lusitano.”

O nosso poeta maior Da Costa e Silva também passou por semelhante calvário, ao perder a primeira esposa, Alice Salles Salomon, no quinquagésimo ano do casamento. Escreveu os versos elegíacos do livro Verônica sob o impacto desse infausto acontecimento. Fagundes Varela compôs uma das mais belas elegias da língua portuguesa – Cântico do Calvário – inspirado na morte de seu filho Emiliano, com apenas três meses de vida. Dessa forma, podemos dizer que esses três poetas contrariam os versos aforísticos de Fernando Pessoa, que afirmam: “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.” Eles realmente sentiram as dores que, em versos, afirmaram sentir. Mas isso apenas confirma a regra de que toda regra tem exceção.

Contudo, na narração da vida de Fenelon, Homero não foi um simples biógrafo, o que já seria muito, mas traquejado em narrativas verídicas e fictícias, soube lhe imprimir certo tom de romance, ao contar determinadas nuanças, ao descrever a ambientação de alguns fatos, bem como ao lhe perquirir os estados da alma. Procurou encontrar a motivação psicológica para algumas tomadas de decisões na vida e para os vários textos de Fenelon que transcreve, e que ilustram, ornamentam e esclarecem a biografia. Portanto, nesse livro perpassa o ideário, o pensamento e a personalidade complexa do biografado.

No livro, além de o autor ter feito constar o manuscrito de um poema do biografado, dirigido a sua mãe, também fez a transcrição fac-similada de uma genealogia feita por ele, de seu próprio punho, que abarca várias gerações da família Castelo Branco no Piauí, desde o patriarca Dom Francisco da Cunha Castelo Branco, mostrando as suas ramificações em diferentes municípios, bem como os vários entrelaçamentos familiares, através de casamentos, com velhas e tradicionais estirpes piauienses.

Esse documento tem servido de base às mais importantes genealogias referentes ao nosso estado, vez que é bastante preciso, ao referir vários casais e respectivos filhos dessa linhagem. Dada a sua alta importância genealógica e histórica, Homero teve o cuidado de mandar digitá-lo e o transcreveu na íntegra, o que facilita a sua leitura, por qualquer consulente, genealogista ou historiador.

2

No livro Castello Branco – Ontem e Hoje, dividido em várias partes, podemos constatar que Homero dá uma grande contribuição para a história e a genealogia piauienses, sendo o seu livro um repositório de dados e informações, que se encontravam dispersos, ou mesmo ainda sem a luz da publicidade.

Na primeira dessas partes, foi transcrito o Apontamento feito por Homero Ferreira Castelo Branco (1889 – 1946), o primeiro desse nome, filho de Manuel Thomaz Ferreira (1826 – 1907), o segundo do nome, que revela a origem desse apelido familiar, em que ele com muita verve e bom-humor diz que a “genealogia sempre esbarra, via de regra, na cozinha, no mato ou na sacristia”.

No Piauí mesmo temos vários casos de padres ilustres e abnegados, mas que também foram grandes reprodutores. Quanto ao mato e à cozinha, todos sabemos que o Brasil é um país de ampla miscigenação, por sinal bem estudada na Casa-Grande e Senzala do mestre Gilberto Freyre e nos livros de outros sociólogos, a qual tem dado à pátria belas mulatas e lindas caboclas, que pululam em nossos principais romances.

Por falar em romance, o velho Homero, avô de nosso genealogista, parece ser um cultor da melhor literatura, e poderia ter escrito belas páginas se o desejasse, conforme se pode inferir dessa pequena amostra em comento. No breve trecho que a seguir transcrevo, referto de belas imagens e metáforas, bem como de elegante e irônica verve, a par de notável habilidade descritiva, podemos observar o seu talento para uma prosa fluida, rítmica e mesmo poética:

“Manuel Thomaz Ferreira, meu pai, tinha um irmão que temperou seu sangue com uma negra nascida em Benin, um país estreito entre Tongo e Nigéria, na África. Coração do mundo, seios fartos, comoventes, o dorso formava uma imperecível topografia. O tio tremia com as carícias que desenvolvia. Ergueu seu membro viril ao encontro do sexo, placidamente acertou entre as coxas, venceu a superfície vã do desejo, conhecendo o prazer que habitava no fundo de seus corpos.”

Com certeza o enxerto acima trai o talentoso poeta e exímio prosador que ele poderia ter sido. E foi, não obstante as poucas laudas que produziu. Poderia ter escrito um belo livro de memórias, ou mesmo um grande romance, ou ainda fulgurantes poemas. O velho Homero poderia ser a prefiguração do outro Homero, neto que viria, o nosso estimado Homero, mestre de uma boa prosa sem prosápias e de não menos boas histórias e vasto repertório de anedotas, que bem dariam um magnífico livro.

Sem embargo de seu diletantismo e do que poderia ter alcançado nas letras, se a estas tivesse se dedicado com afinco, produziu no Apontamento de sua autoria três importantes biografias de seus ilustres ancestrais: Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco (1778 – 1844), campomaiorense, magistrado, deputado da Corte Constituinte de Lisboa, o primeiro piauiense a se formar na Universidade de Coimbra; Lívio Lopes Castelo Branco (1813 – 1869), seu avô, que ele descreve como sendo um rebelde, de temperamento impulsivo e de espírito acentuadamente liberal, pelo que lhe repugnava “toda injustiça, principalmente se cometida contra  os mais desfavorecidos da sociedade”; Lívio aderiu à revolta dos Balaios, na qual gastou vastos cabedais e Manuel Thomaz Ferreira (1826 – 1907), segundo do nome, seu pai, que teve 21 filhos (11 do primeiro casamento e 10 do segundo), dos quais descendem boa parte dos Castelo Branco piauienses.

Em seguida (parte II), vem o Apontamento feito por Herbert Marathaoan Castelo Branco (1916 – 2006), no período de 1950 a 2006. Herbert é neto de Manuel Thomaz Ferreira (2º do nome) e pai do nosso bravo Homero Ferreira Castelo Branco Neto, que nasceu na aprazível, bela e bucólica Amarante, quando seu pai ali exercia o cargo de promotor de Justiça. Depois, foi ser magistrado no Ceará, onde se aposentou no cargo de desembargador do Tribunal cearense.

Herbert, após reconhecer, que “nos aproximamos de nossos ancestrais quando vamos obtendo informações sobre cada um deles”, e que eles gostam disso, afirma que esse “elo com os antepassados representa a perpetuidade desses parentes”, passa a escrever, em linguagem elegante e escorreita, um misto de crônicas memorialísticas e biográficas de seu pai, de si mesmo e de seus irmãos, além de alguns textos sobre acontecimentos importantes ou curiosos do seu tempo.

Na parte III, nos deparamos com o Apontamento de Moysés Ferreira Castelo Branco Filho (1905 – 1980), neto de Manuel Thomaz Ferreira, segundo do nome. O autor desse apontamento foi general de Exército, professor de História, engenheiro e geógrafo militar. Autêntica vocação para a historiografia, escreveu notáveis livros sobre a História do Piauí, conforme pode ser conferido na nota de pé de página. Nessa divisão, foi acolhido importante texto de sua lavra sobre a Balaiada (1838 – 1840), cujo estopim foi o campomaiorense Raimundo Gomes Vieira Jutaí, um de seus principais líderes, assim como Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, alcunhado o Balaio. Como já disse acima, também participou dessa revolta Lívio Lopes Castelo Branco e Silva, fazendeiro e político de Campo Maior, sobretudo com o objetivo, segundo Moysés, “de afastar do poder o brigadeiro Manuel de Sousa Martins, havia 15 anos na governança do Piauí”.

Moysés, apesar de sua formação militar, tendo chegado ao posto de general de Exército, e de ter falecido em 1980, quando a ditadura militar ainda estava a pleno vapor, não teve uma visão retrógrada, conservadora dos Balaios, pois no texto coligido observa que “a Balaiada não deve ser vista como rebeldia de um bando de assaltadores e facínoras, assim julgada na época”, e assinala que seus chefes populares “não eram bandidos afeitos ao crime”, aduzindo que Raimundo Gomes era um boiadeiro de confiança do padre Inácio Mendes de Morais e Silva, e Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, o Balaio, era um “caboclo pacífico e chefe de família”, que vivia do trabalho honesto de confeccionar e vender balaios de guarimã.

Afinal chegamos à IV e última parte, a mais volumosa, um verdadeiro livro dentro do monumental livro, também denominada Apontamento, todo da autoria de Homero Ferreira Castelo Branco Neto (1943), bisneto de Manuel Thomaz Ferreira (1826 – 1907), o segundo desse nome. Não tomei o vocábulo monumental em vão, nem tampouco de forma meramente laudatória, mas porque este livro, em seu todo, é realmente monumental, tanto por ser volumoso em laudas, como pela sua notável contribuição à historiografia e à genealogia de nosso estado.

No Apontamento, ora comentado, o autor, em suas páginas vestibulares, discorre sobre sua afetividade familiar, sobre suas preocupações existenciais e perquire os grandes segredos e as recorrentes dúvidas metafísicas, a respeito das quais, creio, nunca teremos certeza nesta etapa existencial, nesta atual dimensão de nossa vida. E seguindo o mandamento socrático, dialoga consigo mesmo, procurando conhecer-se um pouco mais, na tentativa de decifrar os seus próprios enigmas e mistérios, que todos os temos.

O autor traça a descendência de Manuel Thomaz Ferreira (1º do nome), a partir de Joaquim José do Rego (n. 1792, em Portugal, e f. na Fazenda Peixão, atual cidade de Nossa Senhora dos Remédios) até dias recentes. Com relação a alguns dos patriarcas e figuras mais proeminentes elabora breves biografias, contudo recheadas de fatos notáveis ou curiosos, sendo alguns revestidos de certo caráter jocoso e mesmo anedótico. Com referência a Manuel Thomaz Ferreira, o segundo do nome, anota que numa lápide do cemitério velho de José de Freitas (antiga Livramento) está escrito: “Aqui repousam os restos mortais de Manuel Thomaz Ferreira, pai de uma legião de filhos; dedicou sua vida de trabalho e canseiras à família”. Aos 14 anos de idade, quando residi nessa cidade por um pouco mais de um ano, joguei bola quase todo dia ao lado desse antigo campo-santo, chamado de cemitério dos ricos, no qual entrei muitas vezes, para “pesquisar” nas lápides de alguns mausoléus.

Perlongando seu Apontamento, verificamos que Homero discorre sobre as vetustas casas-grandes das fazendas agropecuárias piauienses, sobre os casarões, as casas solarengas e sobrados de nossas mais antigas cidades, situando-as, descrevendo-as, pelo que ficamos conhecendo os seus alpendres, os seus pátios, as suas capelas, os seus oratórios e mobílias. Com essas leituras, nos lembramos de velhas porcelanas, guardadas em antiquíssimas cristaleiras, de velhos potes e bilhas, sobre maciças bilheiras, de que ninguém mais ouve falar. Fala ainda de velhos costumes, festas e folguedos. Refere alguns dos principais sobrados, casarões e solares pertencentes a membros da família Castelo Branco, situados em diferentes rincões piauienses.

Ao fazer breve estudo sociológico de nossa genealogia e dos entrelaçamentos familiares, produz um conciso relato histórico dos Dias da Silva, das emblemáticas e patriarcais figuras de Domingos e Simplício. Fala da importância histórica deste, de sua influência política, da orquestra de escravos, que ele custeou, ele que foi um potentado, de vida nababesca, faustosa. Narra episódios pouco conhecidos de sua saga cheia de aventuras, venturas e desventuras. Com efeito, sua vida foi mesmo romanesca.
São apresentadas no Apontamento de Homero as biografias de inúmeros membros da família Castelo Branco que se destacaram nos mais diferentes campos das atividades humanas, mormente nos da política, do empreendedorismo, das artes, do jornalismo, do magistério, da historiografia e da literatura.

Deu realce a Antônio Sant’ Anna Castelo Branco (18.08.1879 – 1953), barrense, mais conhecido como Dondon. Jornalista de pena desabrida e ousada, bastando que se diga que o seu jornal tinha o nome de O Denunciante. E ele denunciava sem temor as mazelas da sociedade e da política, vergastando sem pena os maus governantes. Por causa de seu destemor em suas catilinárias e verrinas, seus desafetos jogaram a impressora de seu jornal nas águas barrentas do Parnaíba.

Dondon, que era ao mesmo tempo o seu proprietário, redator, repórter, e “compositor” tipográfico, teve ainda que ser um pescador, para retirar seu equipamento das águas turvas do Velho Monge. Conta-se que ele, por simples irreverência, ou talvez para agredir a empáfia de alguns familiares, pedia no Karnak, então uma espécie de chácara de ricos parentes, o seu almoço, mas exigia que ele fosse posto numa lata de doce vazia, que apresentava. Veraz e imparcial, escreveu sobre sua postura jornalística: “Tenho um veículo de comunicação com posicionamento necessário diante dos problemas sociais, políticos e econômicos. Não existe apenas um lado de um fato. O Denunciante não dissemina informação inverídica que só atende o interesse dos patrocinadores. Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique.”  

Propagandista e figura emblemática das Lutas pela Independência do Brasil em plagas piauienses foi Leonardo de Carvalho Castelo Branco, que inclusive, por isso mesmo, chegou a amargar prisão. Dedicou parte de sua vida a tentar inventar o chamado moto contínuo, conquanto sem sucesso. Escreveu importantes livros de poemas; alguns, a exemplo dos de Sousândrade, maranhense, pareciam se destinar a um tempo futuro, que melhor lhes compreendesse o fundo e a forma. Adotou, depois, o nome de Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco.

Vários Castelo Branco participaram da Guerra do Paraguai, entre os quais cito: Pacífico da Silva Castelo Branco, dono de vastas glebas de terra e inúmeras fazendas de gado, que por três anos comandou o Batalhão de Voluntários do Piauí; Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco, cognominado o “poeta caçador”, por gostar de caçadas e haver escrito a Harpa do Caçador; e Hermínio de Carvalho Castelo Branco, autor de Lira Sertaneja, que contém belos poemas de sabor popular. Todos nasceram em território que, então, pertencia a Barras. Também foram combatentes da Guerra do Paraguai: Eudoro Emiliano de Carvalho Castelo Branco, que depois, no início da República, se rebelou contra Floriano Peixoto, seu amigo, e foi por este mandado fuzilar (a contraordem chegou tardiamente); e os irmãos Antônio Lopes Castelo Branco (1º do nome) e Pórcio Lopes Castelo Branco, mortos em combate. Brilharam nas batalhas de Tuiuti e Lomas Valentinas.

Pacífico da Silva Castelo Branco, apesar de possuir vastas fazendas e escravos, tinha o costume de libertar alguns escravos, por ocasião de seu aniversário. Ao retornar da Guerra do Paraguai, emancipou todos eles. Homero nos informa que ele foi “fundador e militante da Sociedade Abolicionista Libertadora Barrense, presidida por seu irmão, Estêvão Lopes Castelo Branco Júnior, n. 18.07.1836, na Fazenda Ininga, advogado formado no Recife – PE”. Essa sociedade foi fundada em 01.06.1884, e na oportunidade foram entregues 37 cartas de alforria, 12 das quais conferidas pelo presidente dessa entidade libertadora. Na solenidade de sua criação, foi cantado o Hino à Libertadora Barrense, composto por Leovigildo Belmonte de Carvalho, que se tornou um grande defensor da causa abolicionista. O seu estatuto foi aprovado pelo presidente da província, Dr. Raimundo Teodoro de Castro e Silva, em 08.11.1884. Este livro contém a partitura do hino dessa sociedade libertadora.

Pacífico, por problemas de saúde, passou a morar em Parnaíba, no edifício onde hoje fica a Santa Casa de Misericórdia.

No discurso com que recebeu o autor na Academia Piauiense de Letras, disse o acadêmico e notável historiador Reginaldo Miranda, na noite memoranda do dia 20 de junho de 2013:

“Meu caro Homero, esta Casa é sua, seus familiares ajudaram a construí-la. A família Castelo Branco tem profunda ligação com a assim cognominada Casa de Lucídio Freitas, ele próprio aparentado aos Castelo Branco. Sua família deu uma enorme contribuição à literatura piauiense.”

Carlos Castelo Branco, escritor e jornalista, titular da famosa Coluna do Castelo, no Jornal do Brasil, membro da Academia Brasileira de Letras, quando tomou posse em nossa Academia Piauiense, em 26 de setembro de 1984, reconheceu a forte presença de sua família nessa agremiação literária:

“A identificação da Academia com minha família salta aos olhos de qualquer um que conheça sua história e sua composição, mesmo a atual. Seis Castelo Branco figuram entre os patronos: Hermínio, o poeta de Lira Sertaneja, o padre Joaquim Sampaio, Teodoro, que lutou na guerra do Paraguai, onde morreram 11 membros da família. Antônio Borges Leal, Miguel de Sousa Borges Leal, meu tetravô e o primeiro piauiense a formar-se em Direito na Faculdade de Coimbra e Heitor. Entre os titulares serei a partir de hoje o oitavo. Os outros chamam-se Fenelon, Cristino, Arimathéa Tito, pai e filho, que amputaram o sobrenome por desavença familiar de seus avós, Maria Nerina, Emília e Emília Leite Castelo Branco, filha e mãe.”

Por conseguinte, Homero houve por bem estampar a biografia de todos os patronos e acadêmicos da Academia Piauiense de Letras oriundos dessa velha estirpe, tenham ou não o sobrenome Castelo Branco incorporado ao seu nome completo.

Com essa notável obra genealógica, memorialística, biográfica e historiográfica, Homero Ferreira Castelo Branco Neto passa a se ombrear com os maiores genealogistas do nosso Piauí, quais sejam, Edgardo Pires Ferreira, Abimael Ferreira de Carvalho, Reginaldo Miranda, Vicente Miranda e Valdemir Miranda.

É uma obra homérica, no melhor sentido da palavra, feita por um Homero e digna de um Homero, seja grego ou não.  

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

A Zona Planetária - Urano

Fonte: You Tube/Google


URANO

Elmar Carvalho

Poema épico moderno, inspirado no meretrício Zona Planetária, de Campo Maior, em que procurei mesclar a mitologia greco-romana, a astronomia e a sociologia dos cabarés. Na Zona Planetária cada um dos lupanares ostentava na fachada o nome e a imagem de seu planeta correspondente, entre os quais Saturno e seus anéis. Irei, no blog, publicando cada uma das dez unidades desse relativamente longo poema. 

Filho do Caos, Urano, o firmamento,
com seu longo manto de
estrelas, jóias falsas e ilusão
uniu-se a Gaia, a Terra, também
concebida pela gênese do Caos,
de cuja união nasceram os filhos
que Urano prendia novamente
no quente ventre da Terra.
Mutilado por Saturno
a brandir a harpe
ceifadora da lascívia
pendurou as chuteiras
nas tetas caídas das Harpias.
A velhice também é harpe
nos velhinhos de libido carcomida.
Urano, pai dos Titãs,
dos desejos tão temidos, tão terríveis,
dos Ciclopes cegos das paixões,
dos ciclones dos desvarios.
Pela atmosfera azulada de Urano,
das neblinas opacas, opalas pálidas,
das inclinações perigosas
do eixo das paixões,
as cortesãs desencaminham
os castos hierofantes do passado.
Desvendar as Esfinges
de luzes frígidas e de
sombras cálidas somente
nos labirintos das circunvoluções
dos cérebros dos amantes
ou compartimentos secretos
dos corações desenganados
                               desengrenados            
pelas paixões desgovernadas.
Suas pequenas luas pastoras
     – entrelaçando –
com as suas as órbitas
dos anéis, fazem amor em
suas rondas – rotas de
diligente trottoir
de cortesãs se(x)quiosas
de cortesãs do sexo ciosas.
Por um buraco negro a
esquisita Miranda espia Umbriel,
escuro satélite – mundo morto
espremido em menage troir entre
as frenéticas Titânia e Ariel.
Nas alcovas de luzes negras
o amor é um mistério de sexos
que se amam e se querem devorar.   

domingo, 3 de novembro de 2019

Seleta Piauiense - Oliveira Neto


Fonte: Google


O Parnaíba

Oliveira Neto (19057– 1983)

Águas turvas, imenso, vagaroso,
O Parnaíba desce para o mar. 
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!

Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...

Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!

És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...


Fonte: Jornal de Poesia

sábado, 2 de novembro de 2019

POEMA DE FINADOS




POEMA DE FINADOS

Manuel Bandeira

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai.
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
Em verdade estou morto ali.   

ONDE ESTÃO OS QUE SE FORAM?



ONDE ESTÃO OS QUE SE FORAM?

Cunha e Silva Filho

          É esta a pergunta que me faço. Porém, mesmo eu, que enfrento  esse novo texto,    não sei ao certo responder plena e satisfatoriamente   a esta pergunta. Foram-se  para sempre de nós? Foram-se porque não mais  a nossa  pessoa  os interessasse? Tampouco saberei  com segurança   responder a esta outra indagação.   Não saberei jamais  porque se foram e  nos  deixaram no meio do caminho onde nem havia a célebre “pedra “  do famoso  verso drummondiano. Simplesmente se  foram e talvez não mais  voltarão.

       Esse é o busílis da história.  O nó cego, que, aliás,  é um título de um romance de Geraldo França de Lima (1914-2003))  aquele ficcionista  de Serras Azuis (1961),  cujo  exemplar me foi  ofertado  pelo  autor   quando me lecionou  literatura brasileira  na Faculdade de Letras  UFRJ.,  nos anos 70 do século passado.

      Foram-se outros  por razões as mais diversas e as mais  intrigantes já que não houve nenhuma rixa  ou  arranhão  na esfera  da amizade      para que partissem   do meu convívio. Foram-se os que  já me vieram   com a alegria   bem-vinda de suas chegadas. Outro também se foram  porque  mudaram de endereço ou por   morarem  longe, sem omitir o fato de que   a grande cidade,  em vez de unir,   separa.

      Resta indagar  um coisa: foram–se por minha causa  ou  porque, como  uma mulher  que  depositava confiança  no homem amado, se decepcionou   com ele e,  segundo a palavra que gosta de usar,  se desencantou  e o desencanto de uma mulher  é coisa séria,  pois vem  acompanhado  de decepção,  certa raiva,  humilhação sofrida   e indiferença, esquecendo tudo  o que havia   dito ao  amado   durante os momentos mais   encantadores  do convívio com  ele. A mulher desencantada  dificilmente voltará, visto que,   ao se desencantar,  tudo que era belo e bom  foi apagado  da parte mais  sensível  dela: o sentimento amoroso. 

      Foram-se  aqueles  que  para eles nos tornamos inúteis,  sem interesse, esquecendo  tudo que havíamos feito  de bom. Feriram-nos por serem  ingratos  conosco. O que foi  feito por bondade e amizade desinteressada  foi também por água abaixo. Ao passarmos por eles, nos viram a cara ou  fingem que nunca tivemos  um  contato  amigável e promissor.

   Mas existem  os que se foram  contra a nossa vontade  e nos deixaram  só lembranças  queridas  e indeléveis. Não podemos culpá-los por nos deixarem,  uma vez  que  nos deixaram  para  viverem numa outra dimensão e jamais  nos voltarão ao convívio  agradável  de uma amizade  perene  ainda que na brevidade  da vida.  Ah, com  sinto por esse grupo  que me deixou  a contragosto um vazio  de mistura  contraditoriamente com a alegria do tempo em que  estavam  comigo em diversos  lugares da mesma atividade!

     Sei que alguns ainda  estão entre nós, mas será difícil encontrá-los na imensidão da metrópole, pois  cada uma tomou seu rumo   e os contatos  foram-se, pouco a pouco, se diluindo  até se perderam na multidão.

    Há ainda os que se foram,  mas ao mesmo tempo   permanecem. Sabemos onde estão.  Contudo, o diálogo  se vai rareando por vários motivos. Saúde,  distância,    falta  de  motivação,   a idade avançada, entre outros fatores  dissuasivos.  Por outro lado,  a amizade  se mantém  intacta. Bataria acionar   um pouco de nossa inciativa  para  novamente vir à tona  com cansaço, claro, mas com  uma alegria que  ainda  restou  para sempre  nos nossos corações saudosos.

   Não há  como  retroagir a fases  passadas  na travessia   avassaladora no tempo e no espaço  da vida de cada um de nós. Onde estão os que se foram?