sexta-feira, 19 de março de 2021

Salve Jorge Poeta de Carvalho – 17/03/2021

 






Salve Jorge Poeta de Carvalho – 17/03/2021


Danilo de Melo Souza

 

O poeta no mundo

É um mundo de poesia interior

Sem fronteiras

Sem os marcos geodésicos

 

No fino equilíbrio

Na ponta da sapatilha do balé

De Maiakovski, Malinovsky e Bukowski

 

Escrevinhando a torto e a Direito em Recife ou Igaraçu

O poeta trata de revolução, de vanguarda e beleza 

Na frágil escultura de Brigitte Bardot

O poeta cospe fogo

Um dragão e um Jorge

Na mesma dimensão

Diapasão, dia paz e imensidão

De sol, de solário e solidão

 

Navi (agem) louca de Torquato

A sua última turnê nordestina

Deixando saudade

Deixando poema

Deixando eternidade

Ricas alegorias e estripulias

Desenho & Design

Protesto e irreverência

Na invicta Praça de Santo Antônio

 

Saindo da vida para entrar na história

Na prosa Getuliana

Na luta pelo petróleo

O nosso petróleo

Em prece libertária e nacionalista

 

Deus te ouvirá

Pelos versos que pudeste derramar

Pela métrica metódica de calcular

Pela prosa que haverá de estrear

No plano de além do mar e do céu misterioso

 

Para onde foi o poeta

Para um tal lugar que não se sabe

Imagina-se

Onde estava o poeta

Em um lugar

Em Xangri-Lá

Em Pindorama

Em Parná

 

Jorge poemágico mudou

Jorge poemaritimo se encantou

Jorge protestou seu último grito

Na Rua Grande da vida   

quinta-feira, 18 de março de 2021

AS INCERTEZAS SOBRE O DIA DO PIAUÍ

 

Fonte: Google/Piauí Hoje

AS INCERTEZAS SOBRE O DIA DO PIAUÍ


Valério Chaves – Des. Inativo do TJPI

 

No Brasil, ao longo de sua história republicana, os feriados e as datas comemorativas, variam de acordo com a cultura política, a vontade dos governantes e as atitudes coletivas, fato que, por vezes, gera confusão na mente de muitas pessoas desinformadas sobre a data correta do feriado ou das comemorações alusivas.

                O dia 19 de outubro, por exemplo, transcorridos 196 anos da Independência do Brasil em 1822, permanece até hoje em processo polêmico sem se saber verdadeiramente a quem pertence a prioridade desse fato histórico para efeito de se fixar, com exatidão, a data em que deve ser comemorado o dia da Independência do Piauí.

                A propósito, neste ano de 2021, por força de decreto estadual e ainda por conta da pandemia da corona vírus, o feriado alusivo à data  foi antecipado de 19 de outubro para 18 de março. Tais alterações, se por um lado são necessárias dado as circunstâncias sanitárias em que vivemos, por outro, subtraem fidelidades aos rituais cívicos de outrora no que diz respeito a datas, personagens ou símbolos nacionais fazendo com que o civismo e o patriotismo caiam no esquecimento dos cidadãos brasileiros.

                Atualmente, com exceção das Forças Armadas e as corporações militares, poucas escolas e categorias de funcionários públicos homenageiam os símbolos republicanos ou acontecimentos marcantes de nossa história.

                Aliás, diante das deficientes informações, narrativas e interpretações legadas por muitos pesquisadores, historiadores e tantos nomes ilustres das letras piauienses do passado e do presente, até hoje não se pode afirmar, de modo convincente, sobre a verdadeira data em que se deve comemorar o Dia do Piauí – 19 de outubro,  24 de janeiro ou 13 de março.

                A polêmica maior se acende entre Parnaíba e Oeiras, cada qual reenvidando para si a primazia da Independência do Piauí, ambas apresentando como justificativa os acontecimentos revolucionários contra as ordens portuguesas ocorridos em 19 de outubro de 1822 e 24 de janeiro de 1823, respectivamente.

                Nos bastidores dessa polêmica há ainda aqueles que defendem a tese de que a verdadeira independência do Piauí foi proclamada no dia 13 de março de 1823, em Campo Maior, com a  deflagração da sangrenta Batalha do Jenipapo onde brasileiros e portugueses lutaram, em campo aberto, em defesa da causa nacional do Brasil – fato ignorado por muitos brasileiros de outras regiões do Brasil.

                Dentro desse contexto, vale destacar o que disse em homenagem ao tema, o saudoso professor, jornalista e pesquisador piauiense Arimathéa Tito Filho, durante entrevista radiofônica concedida ao programa noticioso “Rádio Fatos” comandado pelo então repórter Valério Chaves, da Rádio Difusora de Teresina, em 1979:

                “Na verdade, houve duas proclamações da Independência do Piauí. A primeira foi feita no dia 19 de outubro de 1822, em Parnaíba, quando o Major Manuel Clementino de Sousa Martins, liderando um movimento insurgente, rapidamente sufocado, derribou os portugueses liderados pelo Major João José da Cunha Fidié; e a segunda foi feita em Oeiras em 24 de janeiro de 1823, pelo Visconde da Parnaíba, que naquele tempo não era Visconde, era apenas o cidadão Manuel Clementino de Sousa Martins (sobrinho e genro do Barão da Parnaíba) o qual à frente de uma conspiração em favor da sucessão de D. Pedro I como Imperador do Brasil, proclamou a Independência do Piauí”.

                Como se pode ver, o assunto é polêmico, naturalmente gerando nos parnaibanos e nos oeirenses um certo aborrecimento toda vez que se cogita em revisar a história do Piauí para se acabar com a dúvida ou com a inverdade sobre em qual data se deve comemorar o Dia do Piauí – 19 de outubro, 24 de janeiro ou 13 de março.

                O que não se pode esconder, contudo, é que os parnaibanos foram heróis cívicos e imbuídos de grande patriotismo quando combateram as forças portuguesas através de um movimento liderado pelo juiz de fora João Cândido de Deus e Silva e pelo coronel Simplício de Sousa Dias.

                Os oeirenses também foram heróis e patriotas. Tudo é uma questão de interpretação histórica, cabendo aos historiadores e aos intelectuais do nosso tempo proclamarem a verdade.  

Minhas lembranças do poeta Jorge Carvalho

Jorge Carvalho, em foto recente, enviada por Jonas Guimarães
Casa onde morava o poeta

Jorge, em foto do Poemágico


Elmar, em foto do Poemágico

Retrato do poeta quando jovem

DIÁRIO

[Minhas lembranças do poeta Jorge Carvalho]

Elmar Carvalho 

17/03/21

Nos textos Geração 70 ou do Mimeógrafo e A Morte de Josélia, publicados recentemente em meu blog, e que se encontram em registros acima neste Diário, falei no meu amigo e poeta Jorge Carvalho (26/04/1951 - 17/03/2021), cujo nome completo é Jorge Antônio Costa Carvalho. Por isso mesmo, cedo da manhã, evoquei as lembranças que guardo dele.

Mas logo em seguida, ao ver as mensagens do WhatsApp,  constatei que o médico Luiz Ayrton, notável poeta, recém-eleito para a Academia Piauiense de Letras, seu primo, me dava a infausta notícia de seu falecimento. Ato contínuo, ao verificar um áudio, enviado pelo escritor e jornalista Antonio Gallas, tive confirmada a lamentável informação, com mais detalhes, sobre a sua trágica morte.

Passei a conhecer o poeta Jorge Carvalho em 1977 ou 1978, quando eu trabalhava nos Correios (ECT) e cursava Administração de Empresas no Campus Ministro Reis Velloso – UFPI. Ele, salvo engano, ainda era estudante da Faculdade de Direito do Recife, já no final do curso. Creio conhecesse alguns dos meus poemas, através de Folha do Litoral e do jornal Inovação. Em suas visitas, de maneira simpática e amável, me presenteava com várias revistas de poesia, muitas ligadas à vanguarda poética, como a Gandaia, se não estou laborando em equívoco. Conversávamos sobre assuntos de Parnaíba, da cultura em geral e, sobretudo, claro, sobre literatura.

Convidado por ele, um dia fui conhecer a sua biblioteca, instalada no enorme solar onde moravam seus pais, o senhor João Carvalho, amigo de meu pai, e dona Maria da Graça Costa Carvalho. Era um imponente casarão de esquina, situado na Avenida Presidente Vargas, ornado por um belo e amplo jardim. Na sua biblioteca constatei que ele tinha muitos livros e revistas, mormente volumes de poetas modernistas. Com toda solicitude, me emprestou algumas obras desses bardos, sendo uma delas de autoria do grande Cassiano Ricardo, cuja inventividade e recursos formais sempre admirei.

Devo confessar que nessa época Parnaíba não tinha livraria propriamente dita, mas papelarias, que vendiam materiais e livros didáticos, nas quais podiam ser encontrados dois ou três livros literários. Já eu, desde 1975, começava a formar minha biblioteca, através de bancas de revistas e principalmente através do sistema de reembolso postal, hoje extinto.

Em agosto de 1982, fui morar em Teresina, quando passei a exercer o cargo de fiscal da extinta SUNAB, e ele trabalhava na sede da secretaria de Educação do Piauí. Algumas vezes nos encontramos na capital, para conversarmos, e algumas vezes viajamos no mesmo ônibus da velha empresa Marimbá. Certa vez, lutamos, em vão, para acordar um colega seu, que caíra em sepulcral sono. Talvez, no terminal rodoviário, o condutor tenha conseguido esse desiderato.

Era Jorge Carvalho muito inteligente e detentor de uma capacidade de argumentação muito elevada. Defendia suas ideias com entusiasmo e convicção. Não bastasse ter uma aguçada inteligência, possuía uma memória prodigiosa. Quando estava colhendo material para o meu livro O pé e a Bola, conversei com ele sobre César Rebelo, craque em múltiplas modalidades esportivas, tendo ele me contado de memória fatos importantes da carreira desse atleta, inclusive citando datas, nomes de torneios e craques, bem como episódios mais relevantes de campeonatos.

Sabia muito sobre a história social recente de Parnaíba. Conhecia a sua genealogia de  forma admirável, de modo que citava nomes, grau de parentesco e outros dados de forma precisa. Sugeri escrevesse crônicas memorialísticas sobre fatos interessantes, pitorescos, anedóticos e folclóricos de Parnaíba, sobre os quais ele discorria em conversa, mas nunca o fez. Da mesma forma, eu e o poeta Alcenor Candeira Filho insistíamos para que ele reunisse seus excelentes poemas numa obra individual, porém ele parecia desdenhar a nossa sugestão, talvez por modéstia, talvez porque não desse muita importância a sua produção poética. 

No ano de 1985, eu e ele envidamos esforços para publicar o livro Poemágico – a nova alquimia, que eu havia idealizado. Mantivemos contato com a secretaria da Cultura para sua publicação. Foi no governo Hugo Napoleão, na gestão do secretário Jesualdo Cavalcanti Barros, que mais tarde se tornou escritor, memorialista e historiador.

Essa obra era prefaciada pelo grande escritor Assis Brasil, parnaibano, que na época morava no Rio de Janeiro, e não mais voltara ao Piauí, de onde saíra ainda em sua adolescência ou juventude. Foi aprovada pelo Conselho Editorial do Projeto Petrônio Portella, criado na gestão de Jesualdo, constituído por Benjamim do Rego Monteiro Neto, Carlos Evandro Martins Eulálio, Clidenor de Freitas Santos, José Camillo da Silveira Filho e Maria Figueiredo dos Reis.

No prefácio a que me referi, dele disse Assis Brasil: “Jorge Carvalho acompanha seus companheiros de geração nesse périplo literário, entre o tempo nostálgico do passado e o tempo presente da atuação engajada. Seus poemas são construídos, inventivamente, a partir de montagens sintáticas, de forte sentido visual. Embora seja um poeta que procura por novas formas de dizer a poesia, não se revela artificial ou cerebral. É o poeta, desta antologia, de tantas qualidades, que mais experimenta a forma e a linguagem, que mais foge da norma comum do código linguístico. E também um poeta que não traiu o seu tempo e o compromisso social com a sua geração.”

Na importante antologia A Poesia Piauiense no Século XX, publicada em parceria da Imago com a Fundação Cultural Monsenhor Chaves, em 1995, que teve organização, introdução e notas de Assis Brasil, da qual ele era participante, mereceu o seguinte comentário elogioso do antologista: “um experimentador da linguagem literária, um renovador da forma, entre a nostalgia da terra (Parnaybanzo) e o compromisso social imediato (A prostituta). Quando opta pela forma fixa do soneto, mostra toda a sua versatilidade (O fogo).”

Em minha juventude, encontrei, em algumas ocasiões, o Jorge Carvalho em alguns bares da cidade. Ele não bebia, talvez por ser espírita, e tampouco comia carne. Mas ficava comigo e com meus amigos, saudáveis boêmios e literatos, até altas horas da noite. Conversávamos sobre poemas e poetas. No entusiasmo de minha ardorosa juventude, eu recitava poetas de diferentes épocas e escolas literárias, entre os quais Da Costa e Silva, Mário Faustino, Camões, Neruda, Ferreira Gullar, Bandeira, fora outros monstros sagrados e consagrados da literatura brasileira e universal.

Sempre lhe admirei a inventividade. Era um mestre do malabarismo com as palavras, dos jogos florais rítmicos e das sonoridades, com as rimas, as aliterações e as coliterações. Mestre era também dos arcabouços formais, pois sabia extrair as lições do velho carmen figuratum; conhecia e bem os recursos do verbi-voco-visual do concretismo, de modo que seus poemas eram também visuais, de admiráveis plasticidades. Contudo, não era um simples formalista, a praticar meros jogos de rimas e trocadilhos. Seus poemas primavam pela forma e pelo conteúdo. Aliás, poderia dizer que ele ajustava com perfeição suas criativas formas ao fundo de seus poemas.

Na penúltima vez que o vi, em evento literário em Parnaíba, ele me falou que encontrara entre os guardados de sua mãe uma lembrança impressa da missa de sétimo dia da morte de minha irmã Josélia. Prometeu me enviar cópia por e-mail, e o fez, fato que muito me sensibilizou.

Na última, dois anos atrás, me presenteou com dois livros, que comprara numa de suas viagens ao Sul do país: um era sobre a vida e a poesia de Oswald de Andrade, e o outro se denomina 30 anos com Sousândrade, da autoria de Carlos Torres-Marchal.

Isso comprova que ele ainda era uma admirador da tradição da vanguarda brasileira, e o mesmo bom amigo e grande poeta, que sempre fora, e me presenteara com revistas de poemas, quando a minha alma juvenil ainda se alcandorava para a amplidão luminosa da poesia.

Que mais dizer? Não sei o que mais dizer, exceto orar, e pedir que Deus, em sua infinita bondade, conhecendo as vicissitudes e fraquezas de todos nós, receba o meu amigo Jorge Carvalho, no regaço de sua Glória eterna.

(*) Na realidade, segundo informação contida em Poemágico (p. 81), ele se formou na Faculdade de Direito do Recife, em 1974.


quarta-feira, 17 de março de 2021

Em memória de Josélia

Josélia, em tela de Rogério Albino

Miguel e Rosália, em pintura de Rogério Albino



DIÁRIO

[Em memória de Josélia] 

Elmar Carvalho

17/03/21

De vez em quando, publico em meu blog um poema de minha autoria, seguindo a ordem em que eles aparecem em meu livro Rosa dos Ventos Gerais. No domingo passado, dia 14, foi a vez de Josélia, poema elegíaco, que escrevi sob o impacto do falecimento de minha irmã, quando ela mal completara 15 anos de vida, vítima de acidente automobilístico, que causou enorme sofrimento à família, sobretudo a meus pais. Mamãe (Rosália), mulher de espírito forte, de imensa inteligência emocional, de fé inabalável em Deus, ficou prostrada por vários dias em sua alcova. Morávamos então no apartamento dos Correios, na Praça da Graça, em Parnaíba.

No dia 08/01/2016, quando era celebrada, pelo Pe. Jurandir da Silva Rodrigues, a missa  memorativa dos 90 anos de meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho (*05/01/1926 - +05/11/2017), a que compareceram muitos de nossos amigos e vários antigos servidores da ECT em Parnaíba, do tempo em que ele servira nessa empresa, numa noite em que uma demorada chuva fina, fria e serena caía sobre toda Parnaíba, uma desconhecida apareceu nesse culto. Ficou à distância, sozinha, e não compareceu, no final da missa, ao local em que as pessoas foram cumprimentar papai. Indaguei a alguns dos circunstantes sobre quem ela seria, mas não souberam informar.

Aparentava ter a idade que Josélia teria nessa ocasião, e a sua aparência, bem poderia ser a de minha falecida irmã. Depois, não mais a vi. Fiquei com a impressão, que jamais poderei comprovar, de que aquele vulto de mulher, madura e bonita, de sóbria elegância, bem poderia ser a minha saudosa irmã, que viera de uma das várias moradas do Pai. Se foi como chegara, discreta, sozinha, à francesa, quase evanescente.

Por WhatsApp, mandei o link da publicação do poema para vários amigos, parentes e conhecidos. Alguns me responderam, e me pediram mais informações sobre a morte de Josélia. Em resposta, lhes enviei uma crônica escrita em 17/08/2010, e que faz parte de meu Diário Incontínuo, disponível, no formato e-book, na Amazon. Minha irmã faleceu no dia 02/07/1978 e foi sepultada no Cemitério da Igualdade, em Parnaíba. Era bela, meiga, e tinha contagiante alegria e carisma. Sua morte precoce comoveu a cidade. Uma rua, em bairro perto do aeroporto, tem o seu nome.

Como uma homenagem a ela, que nestes tempos de covid-19, já em sua assustadora segunda onda, completaria 58 anos de idade, transcrevo a crônica, a que me referi, e que tanto comoveu meus saudosos pais, na época de sua publicação, fazendo chorar meu pai, quando a leu, com a voz embargada, para minha mãe:   

 

A MORTE DE JOSÉLIA

No domingo, Dia dos Pais, fui a Campo Maior. Na casa paterna encontrei a minha irmã Maria José, que passou a minhas mãos um envelope contendo vários recortes de jornais, que ela cuidadosamente colara num papel de boa qualidade, de modo que esses recortes estavam em perfeito estado de conservação. Eram pequenas notas tipográficas, do final da década de 1970, dos jornais Folha do Litoral, Norte do Piauí e O Estado.

A maioria continha poemas de minha autoria, do final de minha adolescência. Alguns desses textos, embora não os renegue, não os recolherei em livro. Havia breves notas sobre o lançamento do livro Galopando, primeira obra a agasalhar meus versos, e que mais me causou emoção, por isso mesmo. Também faziam parte do opúsculo os poetas Paulo de Athayde Couto, Josemar Neres, Paulo Couto Machado e Rubervam Du Nascimento.

E havia, no meio dessa relíquia de celulose, duas notas sobre o trágico acidente automobilístico em que faleceu minha irmã Josélia, no apogeu de sua beleza e na plenitude de suas quinze primaveras. Ali estava uma elegia que escrevi sob o impacto de sua morte, e que se encontra estampada no meu livro Rosa dos Ventos Gerais. No meio desses velhos papéis, havia um texto manuscrito, de que já não tinha a menor lembrança, vazado em nervosa prosa poética, em que eu extravasava as minhas emoções ao ferir essa tragédia familiar.

Josélia faleceu no dia 2 de julho de 1978, e mal completara quinze anos de vida. Era bela. Era alegre. Era cheia de vida. Sua alegria era verdadeiramente contagiante. Exercia feliz e natural liderança sobre suas amigas. Soubemos que no último dia de aula, quando viriam as férias de julho, ela abraçou todos os seus colegas de classe, um a um, meninos e meninas, e lhes disse que fazia aquilo porque lhes desejava umas férias tão alegres como as que ela teria.

Também escreveu num caderno uma breve crônica em que pedia que, quando morresse, fosse posto um ramo verde sobre seu túmulo. Parecia ter a premonição de que morreria no verdor dos anos. E um ramo verde apareceu no local em que ela foi sepultada. E – quem sabe? - talvez as suas férias, em outros infinitos páramos de Deus, tenham se convertido numa eterna festa de paz e beatitude.

Recordo muito bem. Eu estava sob uma das traves do estádio de futebol de Buriti dos Lopes, em minha posição de goleiro, quando vi umas moças virem em minha direção. Reconheci que eram umas amigas de minha família e de minhas irmãs. Logo, salvo engano, a Clotildes Duarte me disse que minhas três irmãs haviam sofrido um acidente, mas que estavam bem.

Quando percebeu que eu havia assimilado o golpe, acrescentou que não iria me enganar; que a Josélia havia morrido, e que seus parentes iriam me levar a Parnaíba, para eu ficar ao lado de meus pais. Soube, depois, que meu pai, homem extremamente emotivo e sentimental, ao saber da notícia estendeu-se no solo, prostrado, arrasado. Um de meus irmãos teve a presença de espírito e inteligência emocional para cantar uma música religiosa da predileção dele, que dizia para a pessoa segurar na mão de Deus e ir em frente.

Imediatamente, o velho se levantou e criou forças para fugir do desespero. Minha mãe, que sob certos aspectos sempre fora mais forte e mais contida que meu pai, ficou arrasada, e ficou prostrada por vários dias. No dia seguinte, o meu amigo Antônio Gallas escreveu uma de suas Crônicas da Cidade, dedicada a Josélia, que era sua aluna. O texto foi lido por Gilvan Barbosa, de bela e vibrante voz.

Dessa época, o poeta Jorge Carvalho encontrou entre os pertences e pequenas lembranças de sua mãe um pequeno impresso, em sua memória, que me repassou de forma muito atenciosa através de e-mail. O diretor dispensou os alunos do Colégio Comercial, onde minhas irmãs estudavam, e eles encheram a catedral, de onde saiu o cortejo fúnebre em direção ao Cemitério da Igualdade, de nome tão sugestivo quanto apropriado.

Tentei ajudar a levar o caixão. Mas como o senti pesado, embora minha irmã fosse tão leve em sua beleza esbelta, em sua espiritualidade alegre. Acho que ele me pesou na alma, porque eu sabia que aquela era uma viagem de onde não se regressa jamais. A não ser na saudade dos que nos amam, dos que sentem a nossa falta.

Certamente por isso, meu pai mandou gravar numa placa, que contém a imagem de seu rosto eternamente jovem, os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do pensamento!”  

terça-feira, 16 de março de 2021

Gerações Literárias Contemporâneas de Parnaíba

 





DIÁRIO

[Gerações Literárias Contemporâneas de Parnaíba]

Elmar Carvalho

17/03/2021

Participei, no sábado, a partir das 16 horas, da live denominada Gerações Literárias Contemporâneas de Parnaíba, idealizada pelo Claucio Ciarlini e por mim, e realizada pelo Portal Entretextos e pelo jornal O Piaguí, com apresentação e mediação do professor, escritor e poeta Dílson Lages Monteiro, membro da Academia Piauiense de Letras.

Ainda no sábado, após o término do evento virtual, por WhatsApp, o Claucio me consultou sobre a possibilidade e conveniência de eu, ele e o Jailson Júnior escrevermos uma síntese do conteúdo da live, cada um, claro, se responsabilizando pela parte referente a sua geração literária. Concordei, e trocamos mais algumas ideias e sugestões. O resultado segue nos três textos abaixo:  

 


Geração 70 ou do Mimeógrafo em Parnaíba (*)

 

Elmar Carvalho

 

Sempre digo que nasci pela segunda vez em junho de 1975, quando eu e minha família fomos morar na cidade de Parnaíba. Em 15 de setembro desse ano fui assumir meu emprego na ECT (Correios e Telégrafos) em Teresina, onde permaneci até começo de março de 77, época em que retornei a Parnaíba, para cursar Administração de Empresas na UFPI (Campus Ministro Reis Velloso). A partir desse ano iniciei minha colaboração no jornal Folha do Litoral, dirigido por Batista Leão, no qual trabalhavam os jornalista B. Silva, Antonio Gallas e Rubem Freitas. Nele publicávamos poemas modernistas eu (**) e o então tenente V. de Araújo, hoje coronel da reserva, que pouco depois publicaria seu livro Murmúrio das Flores (1977).

Alcenor Candeira Filho já participara do jornal mimeografado O Linguinha, de vida efêmera, cujo número inaugural apareceu em janeiro de 1972. Em 1975 Alcenor publicou seu primeiro livro intitulado Sombras entre Ruínas, e no ano seguinte editou Rosas e Pedras, ambos mimeografados, no formato apostila (papel A4). O jornal Inovação, fundado por Reginaldo Costa e Franzé Ribeiro, em dezembro de 1977 lançava a sua primeira edição. No ano seguinte eu passava a ser colaborador desse jornal. Também eventualmente fui colaborador do Norte do Piauí, ainda em atividade, cujo diretor é o jornalista Mário Meireles.

Nessa época os poemas publicados em Parnaíba eram geralmente sonetos ou outros poemas rimados e metrificados, numa espécie de sincretismo literário em que eram mesclados resquícios do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo. Por todas essas razões, vários anos depois, escrevi no ensaio Jornal Inovação – um Depoimento, publicado em vários livros e periódicos, inclusive na internet, nunca contestado, o seguinte comentário:

“É preciso que se diga e agora vou dizer, sem vaidade, mas também sem falsa modéstia: antes de Alcenor Candeira Filho, com seus dois livros (“Sombras entre Ruínas” e “Rosas e Pedras”), impressos em mimeógrafo, pioneiros, inclusive em termos de Piauí, da utilização desse equipamento na confecção de livros, que passou a designar uma geração literária, deste escriba e do poeta V. de Araújo, ambos com poemas publicados, ainda nos idos de 1977/1978, nas páginas de “Folha do Litoral”, o que se via em Parnaíba eram poemas obsoletos e formalmente ultrapassados, sobretudo sonetos de cunho parnasiano, escola já destroçada em 1922, pelo movimento dos modernistas, mas cujos influxos ainda não haviam chegado a Parnaíba, ao menos publicamente, através de livros e jornais. Não mencionei o nome de Renato Castelo Branco em virtude de este notável escritor e poeta ter-se radicado em São Paulo há muitos anos e não haver publicado seus poemas modernistas em Parnaíba. Com o surgimento do Inovação, que provocou uma verdadeira revolução cultural e literária em Parnaíba, houve o ambiente literário propício para o aparecimento de novos nomes, que se somaram aos já referidos.”

Sem nenhum medo de estar cometendo erros, equívocos ou injustiça, posso dizer que não só em Parnaíba, mas em todo o Piauí, como um sistema literário, com vários livros publicados, debates, seminários, crítica literária, publicação de poemas em jornais e revistas, lançamentos de livros, o modernismo foi efetivamente implantado e consolidado pela Geração Mimeógrafo ou Geração 70, conforme já tive oportunidade de dizer, em texto amplamente divulgado, inclusive nos mares internéticos, de que extraio o trecho abaixo:

“Durante quase todo o século XX, até meados da década de 70, a poesia feita no Piauí era um amálgama do simbolismo, do parnasianismo e, principalmente, do romantismo, com a predominância de temáticas elegíacas e, sobretudo, líricas, povoadas de amadas intocáveis, inatingíveis, com os poetas chorando essas paixões interditas. Posso afirmar, sem medo de erro, que o modernismo chegou muito tardiamente ao nosso Estado, mais precisamente na segunda metade da década de setenta (ao menos enquanto sistema literário), com a chamada geração mimeógrafo, geração 70 ou ainda geração pós-69, não importa que nome se lhe queira dar. Chegou para ficar, revisitando todos os ismos e todos os modernismos de 1922 até a contemporaneidade.”

Houve casos isolados, em que alguns poetas piauienses cometeram versos de feição modernista, entre os quais cito: Da Costa e Silva, que fez sua carreira fora do Piauí, e cedo entrou em seu cone de sombra e silêncio, exilado de si mesmo; José Newton de Freitas, falecido em 1940, com menos de 20 anos; Martins Napoleão, que, em carta a Herculano Moraes, negou ser modernista, esclarecendo que seus poemas eram românticos no fundo e clássicos na forma, ao tempo em que se considerava o último heleno; Renato Castelo Branco, que muito moço deixou o Piauí, não tendo mais voltado a morar em nosso estado; e H. Dobal, que fez sua carreira profissional fora do território piauiense, para cá retornando somente após os anos 1970, quando o nosso modernismo já se encontrava absolutamente consolidado.

O surgimento do jornal Inovação terminou incentivando a criação de vários periódicos alternativos, entre os quais cito: Abertura (dirigido por Olavo Rebelo, Paulo Couto e Elmar Carvalho), Querela (fundado por Fernando Ferraz) e Batalha do Estudante (sob a direção de Kenard Kruel, que pouco depois passaria a morar em Teresina). Fui colaborador de todos eles.

Em 1978/1979 fui eleito presidente do Diretório Acadêmico “3 de Março”, do Campus Ministro Reis Velloso – UFPI. Promovi a realização de palestras, debates, excursão turística, jornada universitária, torneio futebolístico, festival de música, publicação do livro coletivo titulado Poesia do Campus e de um cartaz poético. Da coletânea, participaram José Luiz de Carvalho, Adrião Neto, Antônio de Albuquerque Monteiro, Paulo de Athayde Couto, e talvez outros que não estou recordando agora. Muitos fizeram sua estreia literária nessa pequena obra.

Por essa época, final dos anos 70, surgiram várias coletâneas de poemas, todas ou quase todas com miolo impresso em mimeógrafo, dentre as quais enumero: Galopando, Em três tempos, Salada Seleta (1979), Poesia do Campus (1979) e Nuvem. Participei de todas, exceto da última. Galopando foi o primeiro livro de que participei, e por isso mesmo o que mais me causou alegria e emoção. Em algumas dessas obras coletivas havia participação de poetas teresinenses e parnaibanos. Nesse período houve uma forte interação literária entre Parnaíba e Teresina, de sorte que vários literatos parnaibanos participaram de eventos na capital e vice-versa.

Em virtude do regime militar implantado em março de 1964, muitos dos poemas dessa geração tinham conteúdo utilitarista, e sentavam a pua na falta de liberdade, nas eleições indiretas para vários cargos, inclusive a criação dos senadores biônicos, bem como criticavam os problemas econômicos e as mazelas sociais e da política. Mas também havia os versos líricos e telúricos, que cantavam a beleza do amor, das mulheres e da paisagem, além dos que abordavam outras temáticas. Cada poeta com o seu estilo e os seus assuntos, conforme o talento de cada um.

Nos anos 1980, duas importantes obras coletivas abrigaram poetas parnaibanos da Geração Mimeógrafo. A antologia Poemágico – a nova alquimia (1985), de que participaram os poetas   Paulo Veras (falecido), Alcenor Candeira Filho, V. de Araújo, Jorge Carvalho e Elmar Carvalho. Foi prefaciada (cujo prefácio foi recolhido no livro Teoria e Prática da Crítica Literária)  pelo escritor Assis Brasil, parnaibano, que dela disse:

“Quando recebi esta antologia de poetas piauienses, Poemágico, para prefaciar, temi pelo que ia encontrar: autores alienados, comprometidos ainda com sonetos parnasianos e românticos, e cantando a amada como se estivessem no tempo de Romeu e Julieta. (...) Mas eu estava enganado, pelo menos neste caso, o que me abriu uma forte perspectiva de esperança. Encontrei nesta antologia cinco grandes poetas, cinco vozes atuantes e atualizadas em relação ao processo cultural e literário. Todos eles falam a linguagem do seu tempo e dominam a estética de sua época, através de alguns dos melhores poemas da nossa modernidade. Você está assustado? Eu também. Como crítico literário nunca sou dado a exageros.”

A outra coletânea dos anos 80 foi Poemarít(i)mos, publicada em 1988, que enfeixava poemas dos cinco autores de Poemágico, excetuando-se Paulo Véras, e mais os dos seguintes poetas: José Pinheiro de Carvalho Filho, Danilo de Melo Souza, Pádua Santos, Adrião Neto, Carlos Marinho, Fernando Ferraz, Ednólia Fontenele, Fernando Almeida, Flávio Neri, José do Egito, Paulo Henrique, Cristina Melo, Edson Rocha, Pedro Silva, Wilton Porto, Socorro Meireles e Antônia Alves de Souza. Alguns desses poetas continuaram produzindo, levantando carreira solo, enquanto outros eram apenas diletantes, que não alçaram voo. Era uma obra bastante heterogênea, sem quase nenhuma unidade, onde se encontram poemas de alto nível, ao lado de outros bem precários, como reconheceu o seu prefaciador, o escritor e poeta parnaibano Renato Castelo Branco.

No ano de 1995, quando eu era o presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, contribuí para a publicação da notável antologia A Poesia Piauiense no Século XX (FCMC/IMAGO), com organização, introdução e notas do escritor e crítico literário Assis Brasil. Dela participaram os seguintes poetas parnaibanos da Geração 70: Alcenor Candeira Filho, V. de Araújo, Jorge Carvalho, Paulo Véras, Israel Correia, Elmar Carvalho, Ednólia Fontenele e Danilo Melo.

A mais importante antologia poética parnaibana foi publicada no ano de 2001, pela FUNDEC/COMEPI, no governo de Francisco de Assis Moraes Souza, o Mão Santa, graças ao apoio de Eliseu Fernandes Monteiro (Tourinho). Dela participaram 14 poetas da Geração 70. Denominada A Poesia Parnaibana, coligia poetas desde Ovídio Saraiva de Carvalho a Danilo Melo, o mais novo. Foi organizada por Adrião Neto, Alcenor Candeira Filho e Elmar Carvalho.

Graças ao incentivo do Dr. Valdeci Cavalcante, presidente da Federação do Comércio do Estado do Piauí e diretor do SESC/PI, foi publicado em 2017 o magnífico livro/álbum Parnárias – poemas sobre Parnaíba, organizado por Alcenor Candeira Filho, Elmar Carvalho e pelo fotógrafo Inácio Marinheiro. Em capa dura, papel couchê e com inúmeras e belas fotografias coloridas, a obra contempla diversos poetas parnaibanos, de Ovídio Saraiva a Diego Mendes Sousa. Marcam presença doze poetas da Geração Mimeógrafo.

Finalizando este apertado resumo, devo dizer que em tempos recentes, um velho jornalista, cujo nome não recordo, disse que a Geração 70 só teria (hoje) uns mumificados. Enquanto Danilo Melo, em respeito aos mais velhos, disse em belo poema que muitos poetas dessa geração eram “santificados”, o outro, em pretenso menoscabo, tentou nos transformar em múmias. Talvez até o sejamos, no sentido de que respeitamos e conservamos os bons ensinamentos e as realizações da melhor tradição literária. Contudo, muitos de nós prestamos relevantes serviços públicos e culturais, e ainda nos encontramos em plena atividade profissional e/ou literária, através de blogs, sites, lives e redes sociais.

Muitos dessa geração literária participaram das principais antologias piauienses, entre as quais refiro Antologia dos Poetas Piauienses, A Poesia Piauiense no Século XX e Baião de Todos. Isso para não citar os livros individuais, alguns de notável qualidade. Ainda há poucos dias, Paulo Couto fundou o Clube dos Poetas Mortais. Vários de nós participamos das coletâneas Contos entre Gerações e Poemas entre Gerações, organizadas por Claucio Ciarlini. E a nossa geração se fez presente e forte entre essas novas gerações.

(*) Fiz este texto com o auxílio de minha memória, de meu livro Aspectos da Literatura Parnaibana (edição virtual – 2020) e da obra Aspectos da Literatura Piauiense (1993), da autoria de Alcenor Candeira Filho. Consultei também as antologias e coletâneas que possuo.

(**) Em toda citação de nomes, sempre alguém poderá dizer que houve inclusão ou exclusão indevida ou injusta. Neste texto não tive a pretensão de fazer uma lista de nomes exaustiva. Citei apenas os poetas que mais apareceram nos periódicos e nas coletâneas a que tive acesso, critério absolutamente objetivo. Por outra parte, não me preocupei com valores e qualidades literárias, que isso deixarei aos críticos literários. Também, é óbvio, não tive e nem tenho conhecimento de todos os livros publicados no período. Dei apenas uma modesta contribuição ao estudo da Literatura Parnaibana. Deixo que outros possam fazer mais e melhor, como mais ou menos disse Antônio Feliciano de Castilho. 


A Geração Fantasma

 

Claucio Ciarlini

 

A década de 70 viu surgir uma geração de jovens escritores que encontraram no mimeógrafo uma chance de se manifestarem de forma mais abrangente, tendo como forte exemplo o movimento Inovação, principalmente no que condiz ao funcionamento de seu criativo e contundente periódico (1977-1992), gerador de grande visibilidade a diversos poetas, cronistas e contistas que figuram, muitos, ainda hoje, publicando e sendo referência para estudiosos e amantes da escrita, nomes como: Elmar Carvalho, Alcenor Candeira Filho, Wilton Porto, dentre outros.

Contudo, chegada a década de 90, a cidade passou a vivenciar um período mais discreto no que diz respeito a grupos literários. Irão surgir alguns exemplos, mas geralmente isolados. Não houve, por assim dizer, uma geração. O que se deu foi a continuidade da atuação daqueles escritores oriundos da década de 70, que obtiveram sua consolidação nos anos 80, com a abertura da Academia Parnaibana de Letras, fundada por boa parte dos próprios, no que adentraram os anos 90, continuando a atuar em jornais e no Almanaque da Parnaíba, quando não em suas obras individuais.

E falando em Almanaque da Parnaíba, é preciso ressaltar o belo trabalho que a Academia Parnaibana de Letras segue desenvolvendo desde 1994 quando passou a organizar este que é um dos mais importantes e certamente o mais longevo periódico da cidade. Fundado há quase 100 anos pelo empreendedor gráfico Benedito dos Santos Lima, que foi seu primeiro editor, no que depois passou para as mãos de Ranulpho Torres Raposo e Manoel Domingos Neto, o Almanaque da Parnaíba foi editado anualmente até o início o ano de 1985, ficando sem ser lançado por nove anos. Contudo, mesmo que o Almanaque da Parnaíba (*) tenha retornado e tido uma periodicidade regular até o fim da década de 90 (no que seguiu publicando até 2006, sem tamanha regularidade) era um espaço em que, salvo exceções, apenas os escritores de gerações anteriores, em especial a mimeógrafo, tinham vez.

Agora, quantos nomes não deixaram de ser revelados ou incentivados durante esse período obscuro (1992 – 2007), onde, repito, houve sim algumas manifestações, porém esporádicas e em sua esmagadora maioria de forma solitária. Essa geração “fantasma”, que inclusive, foi de onde despontei, respirou um período mais democrático em termos políticos, se comparado à geração anterior, que havia batido de frente com a ditadura, ou seja, tínhamos mais liberdade, porém nos faltou união, ou quem sabe alguém ou algo que pudesse nos incitar? Uma junção de ambos? Uma questão a ser possivelmente elucidada numa pesquisa bem mais extensa aprimorada, onde pretendo não só tentar responder a esses questionamentos, como também descobrir e catalogar esses escritores que na ausência de um espaço mais aberto e democrático, acabaram muitos, por não prosseguir ou se esconder no anonimato, escrevendo em blogs com pseudônimos, por exemplo (**).

Porém é importante registrar algumas obras que foram publicadas por jovens desta geração que surgiu no limbo entre o fim do Inovação e o início de O Piaguí (***). São estas: Linhas Impensadas e Pedido de Autorização para Pensar, ambas de minha autoria e respectivamente nos anos de 2004 e 2005; Divagações, de Diego Mendes Sousa (2006); Poemas e Poesias, de Paulo Sousa de Oliveira (2007). Estes livros, em minha humilde opinião, por mais qualidade que possuam, e o mesmo falo de seus autores, poderiam muito bem ter sido engolidos por essa grande névoa que se abateu sobre Parnaíba durante 15 anos (****) e que se não fosse o surgimento das redes sociais e uma maior popularização da internet, além da criação de O Piaguí (impresso e site), e esse sombrio período tivesse perdurado por mais tempo, muitos outros talentos não teriam sido revelados e dessa forma a juventude literária parnaibana não estaria vivendo, desde 2007, uma Nova Era que poderia muito bem, e modéstia à parte, ser chamada de Geração O Piaguí!

(*) Desde 2017, o Almanaque da Parnaíba passou novamente a ter maior regularidade, sendo lançado a cada ano e tendo o empresário e também acadêmico Valdeci Cavalcante, como seu apoiador financeiro. Atualmente, tenho a honra de ser um dos organizadores do Almanaque, ao lado dos confrades Antônio Gallas, Maria Dilma Ponte de Brito, Alcenor Candeira e o atual presidente José Luiz de Carvalho.

(**) Por enquanto já tenho poucos nomes de uma lista que pretendo encontrar muito mais. Citarei alguns que fazem parte desta Geração Fantasma, independente de hoje já terem seus nomes reconhecidos: Frederico Osanam Amorim Lima, Israel Galeno Machado, Juliano Lima, Dante Ponte de Brito, Francisco Dourado, Sousa Filho, George da Silva e Diego Mendes de Sousa, além deste poeta que aqui vos fala.

(***) Impresso de minha idealização e criação em 2007, junto a dois sócios, e que sempre teve, dentre os seus ideais, o de conceder espaço aos jovens da escrita. Jovens como Jailson Júnior, Morgana Sales, Marciano Gualberto, Joyce Cleide, Alexandre César, Luana Silva, Carvalho Filho, Lívia Pessoa, Marcello Silva, Daltro Paiva, Zilmar Junior, dentre muitos outros.

(****) Em termos literários e falando especificamente de jovens autores, pois os mais experientes continuaram publicando e quando falamos em outros setores, como o Teatro, a Música e a Dança, tivemos fortes manifestações durante a década de 90 e o começo de 2000. Agora no que condiz a impressos culturais e literários, não se conseguiu formar nenhum espaço até 2007 que fosse democrático, regular e duradouro para que estes jovens pudessem atuar, como ocorreu, conforme citei, na época da Geração Inovação ou como tem ocorrido nesta nova, que intitulei de Geração O Piaguí.




Geração Piaguí (2007 - presente)

 

Jailson Júnior

 

Desde o fim da Geração 70 em 1992, imortalizada pelo Jornal Inovação, até a Geração Virtual começar a um novo momento à partir de 2007, foram 15 anos em que, salvo movimentos esparsos, a literatura parnaibana da geração seguinte permaneceu em período letárgico, o que não quer dizer que não houve uma produção igualmente importante.

Quando o historiador Claucio Ciarlini nomeia esse período compreendido entre 1992 e 2007 em Parnaíba de Geração Fantasma, o que ocorreu foi a carência de plataformas que congregassem essas vozes e fossem, ao mesmo tempo, uma referência para o desenvolvimento de uma identidade literária que representasse o período. O frenesi experimentado com o Jornal Inovação (1977 - 1992) e muito depois com O Piaguí (2007 - presente) acabou não ocorrendo com os literatos desse intervalo de tempo, vivendo unicamente a solidão de suas produções, o que, como já mencionado, não deixou de render vigorosos frutos.

O dia 05 de novembro de 2007 representou um marco intermediário para alguns e o sopro de oxigênio nas narinas dos que vinham engatinhando logo atrás dos fantasmas. Diretamente afetados pela carência de um denominador comum, os jovens Claucio Ciarlini e Daniel Ciarlini decidem dar um novo e significativo passo para a cultura de Parnaíba e região, criando O Piaguí, talvez não por acaso no Dia Nacional da Cultura Brasileira.

Ao mesmo tempo e no mesmo sentido futurístico para onde apontava o progresso que representava, naquele momento, O Piaguí, iniciava-se, no Brasil, um processo de popularização da internet, com a febre dos Cyber Cafés e das Lan Houses. Os computadores ficaram mais acessíveis, e com eles, a possibilidade de jovens escritores divulgarem ao mundo o seu trabalho, havendo agora uma tábua de salvação de nível global.

Na internet, entre muitos movimentos que se dedicaram também à literatura, destacam-se o Recanto das Letras (2004), local até hoje muito valorizado e que se consolidou no tempo como um santuário das publicações literárias, e o Orkut (2006), uma das redes sociais mais famosa de todos os tempos, onde principalmente os mais jovens ditavam moda, interligavam-se com o restante do mundo e também divulgaram seus versos, suas vestes e seus sentimentos.

O Piaguí surge justamente com a filosofia de ser a vitrine local desses escritores igualmente locais. Vem para promover a juventude, fortalecer os vínculos entre os artistas, revelar jovens talentos e devolver à Parnaíba um movimento artístico e cultural da qual há muito tempo estava carente a Princesa do Litoral. E não só. Também vem para aqueles que mesmo já experientes, não tiveram o suporte devido e que também queriam acrescer positivamente, e na arte, assim como na vida, antes tarde do que jamais.

Os anos se passaram, o periódico se consolidou como o repositório dos artistas por excelência, divulgando, revelando e promovendo. Se há gerúndios que definem bem a missão do jornal, cito esses, havendo além vários outros.

Um sonho antigo do editor Claucio em reunir nomes revelados pelo O Piaguí em uma coletânea ganhava cada dia mais corpo, sempre postergado pelas circunstâncias do tempo. E se há um tema do qual os poetas dominam e compreendem (ou pelo menos tentam) é justamente ele, o tempo, o senhor dos destinos.

Até que em 2017, Claucio conseguiu juntar vinte e dois poetas em um projeto ousado e que bebia diretamente de outros de igual teor. Financiamento próprio, igual quantidade de páginas para todos. Depois de reunidas as pessoas em um grupo de WhatsApp, foi feita a deliberação e ali ocorreu a nidação de Versania, coletânea de poesias organizada e pronta entre Fevereiro e Agosto, sendo lançada no Sesc Avenida no dia 05 de Setembro do mesmo ano.

A consolidação do projeto veio no ano seguinte, 2018, quando houve a segunda edição, de nova capa, totalmente revisada, lançada exatamente na data de um ano do triunfo da primeira edição. Foi a certeza de que não foi somente um projeto pontual, mas sim algo duradouro e que, depois de já passados 4 anos, mostrou-se tão somente uma semente, um impulso para outras movimentações igualmente importantes. Nesse mesmo dia, como uma cereja no bolo, é reativado o site oficial do jornal, que há tempos havia deixado de ser movimentado.

Vários versanianos lançaram trabalhos depois disso, ou mesmo se utilizaram do movimento como ponto de partida ou como uma quarta marcha na carreira literária. Tivemos Homo Cactus (2018), do chavalense Marcello Silva, Grãos de Areia (2019), de Zilmar Júnior, Experimentos Poéticos (2020), organizada por Daltro Paiva, resultado do laboratório poético ministrado por ele ainda no ano de 2018 no Sesc Caixeiral, e Nguzu que Rompe Grilhões (2021), de Marciano Gualberto. Tivemos também a obra Catarse (2018), da escritora Lívia Pessoa, que não participou de Versania, mas que se lançou ao mundo muito cedo através do O Piaguí e que já em seus brolhosos 17 anos publicou seu primeiro trabalho solo.

O espírito congregador do O Piaguí não parou por aí. Desde 2019, ocorre em Parnaíba um movimento jamais visto em toda a charmosa história da cidade. Jovens e veteranos na escrita estão se reunindo sobre o mesmo assunto para falar de literatura. A Academia Parnaibana de Letras (APAL), presidida atualmente pelo acadêmico José Luiz de Carvalho, lidera o projeto Academia Viva, tirando a academia das quatro paredes e a levando para os eventos, as escolas, renovando as cátedras desocupadas e abrindo espaço para que o público a conheça, sobretudo a nova geração de escritores, e o jornal é parceiro fiel dessa empreitada, representando a nova geração.

No mesmo 2019, foi publicada a primeira obra da coleção Entre Gerações, fruto material dessa ligação, contemplando o gênero Conto, que já tem a versão em Poema, e que em 2021 terá a Crônica como foco (Contos Entre Gerações, Poemas Entre Gerações e Crônicas Entre Gerações, respectivamente). Jovens e veteranos confluindo no mesmo lugar, derrubando, pouco a pouco, as barreiras que existiam entre os tempos. Além disso, o 72° Almanaque da Parnaíba (2019/2020), revista oficial da Academia, foi o que teve mais participações de jovens escritores entre todas as edições publicadas até hoje.

E há mais um aspecto, não menos importante por ser citado a posteriori. Desde maio de 2015, o Sesc Piauí instalou no prédio da antiga escola União Caixeiral, no centro de Parnaíba, um moderno prédio em Art Nouveau, que possui ares de templo local das artes. Aulas de música, pintura, biblioteca confortável e espaço café que já foi palco de vários eventos artísticos em nossa região. Não raro visitantes se impressionam com a imponência e elegância do prédio, que tem sido um importante baluarte para a produção artística local.

O mesmo Sesc promove todo ano o Correio Literário, publicação anual onde também já saíram muitos de nossos colaboradores. Também promove o Corredor Literário, uma noite onde ocorrem recriações, lançamentos de livros, visita de escritores de fora, entre muitos outros eventos que ocorrem ao longo do ano.

É importante citar também o jornal O Bembém, criado em fevereiro de 2008 por Benjamim Santos, Diego Mendes Sousa e Tarciso Prado, que surge logo após O Piaguí e também foi um acontecimento igualmente importante nesse movimento de resgate da literatura parnaibana, trazendo uma produção robusta, não menos comprometido em ser também um guia naquele momento.

A Geração O Piaguí ainda está em andamento. Mesmo sendo difícil falar sobre algo ainda em construção, não resta dúvidas de que ela já mostra sua importância sem precedentes na história de Parnaíba. O foco nos novos literatos, a reunião destes com a geração veterana e a comunhão em um denominador comum destes personagens são, sem dúvidas, as maiores heranças que ela pode deixar para a posteridade.

As gerações nunca terminam. No máximo, agregam outras, que agregarão também outras, cada uma tendo seu merecido momento de protagonismo. Mais do que individualismos, essa fase deixará um legado pedagógico para os próximos anos, para o futuro, uma lição de que, se separados podemos ser também proativos, juntos, arrastamos uma legião de ideias, chegamos bem mais longe, cria-se muito mais. É o que posso desejar, como membro dessa geração, para os dias que virão.    

segunda-feira, 15 de março de 2021

É o mar (*)

Fonte: Google/Elo7


É o mar


Cícero Veras 


Dos vastos Campos

Maiores são seus legados

Entre vertentes dos jenipapos

Os sonhos poesísticos de menino

Embalados pelos ventos

Das canções matinais 

Das aves nos carnaubais.

 

Das águas doces

Do velho monge a correr

Explode-lhe uma mente fértil

As letras fáceis do coração gentil

A nos contar histórias

Em notas musicais

Naqueles velhos festivais.


Cachoeiras e canções

Velhos amigos corações. 

Dar Graças ver o entardecer

A marejar nos olhos do cantador

Ouvindo badalar insistente

Dos tempos adversos

Nos anima ouvir teus versos!


O tema hoje será outro

Uma mesa posta, a decisão

O martelo, a caneta sempre à mão

Uma cadeira no velho panteão, fardão

Não se escuta o parnaibar 

Ele sempre a poemar 

Dos vastos campos, é o mar!

(*) Fico muito grato ao poeta e pastor Cícero Veras por essa bela homenagem, que muito me comoveu. Em meu discurso de posse na Academia Parnaibana de Letras, eu disse que, com o nome que tenho, não me contive em apenas amar o mar, mas era o próprio mar - El mar. 

domingo, 14 de março de 2021

Josélia

 


JOSÉLIA


Elmar Carvalho

 

(Em lembrança de minha irmã falecida aos

 15 anos de idade, em 02 de julho de 1978.)

 

Fui pisado

pela terra.

Fui pisado

pela terra,

eu que sempre

procurei pisar

nas nuvens e

no céu.

 

                             Sem dormir sonhei,

                             mas o sonho acabou

                             antes de haver começado.

                             (Ainda bem, porque

                             o sonho era mau.)

 

Sonhei que minha

irmã morrera,

mas ela não morreu.

Era tão cheia de vida

que continua viva

na lembrança dos

que ficaram.

Ela continua viva

porque houve apenas

uma metamorfose

existencial.

 

                             Seu sorriso

                             seu (e)terno sorriso

                             sem precisar da

                             matéria para

                             ser desfraldado

                             continua estampado

                             em seu rosto

                             imaterial.

 

Josélia tinha a pureza dos inocentes

a inocente malícia dos felizes

e a beleza dos que não são

deste mundo cão.

Por isso foi

para o céu de

onde (vi)era.   

sábado, 13 de março de 2021

Berço de heróis

Monumento aos Heróis do Jenipapo  Fonte: Google/WordPress.com


Berço de heróis


José Luiz de Carvalho

Presidente da Academia Parnaibana de Letras


A terra natal do sociólogo Fernando Gomes e dos escritores João Alves Filho e Elmar Carvalho, Campo Maior, é sem dúvidas uma das mais importantes no cenário das lutas pela independência do Brasil.  A Batalha do Riacho Jenipapo, ocorrida no dia 13 de março de 1823, entre brasileiros e portugueses é um marco indelével, forjado com o sangue dos nossos conterrâneos misturados ao dos maranhenses e cearenses que participaram daquele momento.

Relembrar aquele episódio e o mínimo que podemos fazer para agradecer o esforço daqueles heróis. Homens e mulheres comuns, moradores daquela cidade que atendendo ao chamado dos seus líderes, tiveram a coragem de sair do aconchego dos seus lares para ingressarem em um movimento popular pela garantia da integridade do território nacional.

Sem querer contar a história dos fatos antecedentes e nem os posteriores daquela verdadeira chacina. Queremos aqui tão somente, fazer com que os nossos fiéis leitores façam uma reflexão sobre a saga daquela gente. Assim, destacamos que muitos que lutaram e os que morreram ali, nem sabiam os verdadeiros motivos daquela luta.

Vale apenas lembrar que Campo Maior é um berço de heróis!