sexta-feira, 9 de agosto de 2024

COMENTÁRIOS A “BARRAS DO MARATAOÃ E DA SAUDADE”

Ataíde, Elmar, Ananias e Ramon


 

COMENTÁRIOS A “BARRAS DO MARATAOÃ E DA SAUDADE”

 

Elmar Carvalho

 

Na quarta-feira, dia 7, às 6 horas, fui a Barras, em companhia da Fátima, do José Ataíde, irmão maçônico, e de minha irmã Maria José. Fui cedo porque tinha pressa e dirijo devagar, e dirijo devagar porque tenho pressa. Iria participar da solenidade de exibição do documentário “Barras do Marataoã e da Saudade”, produzido por mim e pelo professor e escritor Claucio Ciarlini. O evento foi promovido e organizado pela Secretaria da Educação do Município de Barras. O primo Domingos Furtado Magalhães, de maneira atenciosa e prestativa, fez os contatos iniciais, para que o evento pudesse ter o sucesso e acolhimento que teve.

Ao chegarmos fomos acolhidos por Hanna Gabriela Furtado de Carvalho, minha parenta, que nos levou ao gabinete do secretário Ramon Vieira de Carvalho, professor e historiador, grande conhecedor da História de Barras, onde degustamos um farto e delicioso café. Conversamos um pouco, até a hora do evento, que ocorreria no Auditório Monsenhor Uchoa, muito próximo, que recentemente, em sua parte interna, passara por uma excelente reforma.

Quando chegamos o auditório, com capacidade para duzentas pessoas sentadas, estava lotado. O secretário Ramon fez a abertura, com informações sobre o conteúdo do vídeo e sobre a minha pessoa. No vídeo, a pretexto de ir desfiando umas lembranças barrenses de minha infância e adolescência, falo um pouco de certos aspectos da História de Barras, de suas ruas, praças, prédios, figuras históricas, paisagens e casos interessantes, alguns anedóticos etc.

Em seguida foi feita a projeção do documentário. Após, fiz uma explanação sobre a sua concepção e objetivo. Referi-me a outros vídeos, realizados por mim em parceria com o Claucio Ciarlini, mormente os referentes a Parnaíba, José de Freitas, Amarante e Campo Maior (este em fase final de edição). Estavam presentes alunos da Universidade Estadual do Piauí e de escolas do ensino médio. Os presentes se mantiveram atentos e respeitosos, e aplaudiram com intensidade o filme.

No final, muitas pessoas pediram para tirar fotografias comigo, o que me foi um motivo adicional de satisfação. Algumas me perguntaram sobre meus parentes em Barras; outras me revelaram que se emocionaram com o vídeo e algumas outras me disseram que chegaram a chorar ou marejar os olhos, em certas passagens do filme.

Por WhatsApp recebi alguns comentários sobre o vídeo, que transcrevo abaixo:

Através do escritor e cardiologista Itamar Abreu Costa, recebi o seguinte comentário do médico Wildson Gonçalves:

“Obrigado pelo envio desse belo vídeo sobre nossa querida Barras do Marataoan. Revivi com muita saudade minha infância e adolescência vendo a ilha dos amores, o rio, onde inúmeras vezes tomava banho ou fazia pescarias. A chamada RUA GRANDE, era assim conhecida a Rua Taumaturgo de Azevedo, a rua onde eu e todos os meus irmãos nascemos. Sempre me deixa emocionado falar sobre barras. E é um enorme prazer ter vc como conterrâneo, como cidadão barrense!

Essa bela casa que aparece no vídeo era a casa do meu avô Dico Gonçalves. Foi nela que meu pai nasceu e onde passávamos as férias todos os anos. Foi tombada por sua arrojada arquitetura de quase um século, e hoje é sede da prefeitura, denominada agora de CASA ROSADA!”

Foi postada no grupo dos amigos do site Entretextos esta emocionante mensagem do radialista e cronista Chagas Botelho, barrense:

“Parabéns pelo lindo documentário, meu caro Elmar Carvalho.

Fiquei muito emocionado, pois, me vi em vários locais mostrados.

Nasci em Barras, me criei em Barras, meus pais e irmãos ainda moram lá, eu não mais, mas Barras nunca saiu de mim. E nunca sairá.

A Ilha dos Amores, meu Deus, quantas vezes a nado, lá eu cheguei.

A ponte do Pesqueiro, quantos pulos, inclusive mortal de costas, de lá tirei.

O interior das Ameixas, quantas vezes, os meninos da Rua Fenelon Castelo Branco, em partida de futebol, enfrentavam os meninos daquela localidade.

Na Rua Taumaturgo, a Rua Grande, passei dias alegres e amargos. Eu e família, por conta das enchentes, nos abrigamos naquele pedaço de chão por conta da bondade do patrão de minha mãe.

Passou um filme na minha cabeça, me lembrei de minha primeira escola, a Honorina Tito, do estádio Juca Fortes, da Rodoviária, do Clube de Ouro, do balão do São Cristóvão e tantos outros lugares em que passei toda a minha infância.

Muito obrigado Elmar Carvalho, por tão lindo documentário. Se você me permitir vou compartilhar com os meus irmãos que ainda moram lá. E que como eu, amam o lugar onde nascemos.”

O parente e amigo Dílson Lages, notável escritor e poeta, me enviou as seguintes palavras, com conteúdo genealógico e histórico:

“Parabéns, Elmar, por mais um retrato lírico-afetivo do Piauí. Agora sobre a amada Barras de vosso pai, seu Miguel, primo de minha bisavó Adalgisa de Carvalho e Silva (Castello Branco). Muita gente até hoje acha que o Carvalho dela é exclusivamente o do avô, de ancestralidade oeirense. Cito o último nome, que também o é de seu DNA, por conta de identificação de minha bisavó com ele, suprimido, da mãe depois do casamento por questões políticas. O velho coronel Trasíbulo, pai de Dazinha, figura polêmica, foi a pedra no sapato das velhas oligarquias de Barras, como prefeito, como deputado, como rábula de sucesso por toda a vida. Como me habituei a ouvir: não abria mãos de suas ideias nem para um trem carregado de ferro. E foi as vias de fato à bala, como registram jornais da época, quando para garantir que flagelados de uma seca famintos tivessem acesso a sacas de farinha em Porto dos Marruás. Morreu em idade avançada e viu a glória dos filhos na política em São Paulo. Tudo adormecido na poeira do esquecimento.”

O amigo Francisco Carlos Araújo, o cacique Chico Acoram, autor do importante livro “O menino, o rio e a cidade”, me mandou uma pequena crônica, que publicarei na íntegra, oportunamente, mas da qual não resisto em extrair o seguinte trecho:

“’Barras do Marataoã e da Saudade’, assim começou a exibição do vídeo na voz bela e compassada do autor do documentário, o ilustre escritor, romancista e poeta Elmar Carvalho. Ressalte-se que Elmar não é barrense de nascimento, mas nas suas veias corre o sangue de barrense. Seu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, nasceu em Barras, assim como seus ancestrais. Por essa razão, Elmar Carvalho embora tenha nascido em Campo Maior é, como ele próprio se declara, um barrense de coração. Agora, Elmar, um barrense de coração, vem presentear aos filhos de Barras do Marataoã com esse importante e valioso documentário. Aliás, um verdadeiro tesouro em forma de imagens, melodias, palavras e poesias, com muitas emoções.”

Assim, foram tantas as emoções, que julgo melhor encerrar por aqui.

terça-feira, 6 de agosto de 2024

DOCUMENTÁRIO "BARRAS DO MARATAOÃ E DA SAUDADE"

 


A pretexto de ir desfiando umas lembranças barrenses de minha adolescência, falo um pouco de certos aspectos da História de Barras, de suas ruas, praças, prédios, figuras históricas, paisagem e casos interessantes etc.

domingo, 4 de agosto de 2024

3 POSTAIS DE PARNAÍBA - Postal I

 

Fonte: Google

3 POSTAIS DE PARNAÍBA


Elmar Carvalho

 

           POSTAL I

 

As águas podres

da vala da Quarenta

tomam banho nas águas puras do Igaraçu,

nas imediações da Munguba,

onde bêbados pobres de dentes podres

dizem coisas doces por entre

o bafo azedo de vômito e de cachaça.

Um bolero, o tilintar de copos, os ruídos

da noite e os gemidos de camas e casais

completam as cenas e o cenário.

domingo, 28 de julho de 2024

FAZENDA TOMBADOR

 

Fonte: Google

FAZENDA TOMBADOR


Elmar Carvalho

 

Em vez de tombamento

a protegê-la da usura,

sem limites e sem pudor,

e das mordidas vorazes

do tempo e do vento,

literalmente tombaram

a Fazenda Tombador.

 

Lançaram ao desabrigo,

em eterno e impiedoso castigo,

os históricos fantasmas

do tempo da Batalha,

que ficaram ao relento,

expostos à chuva e ao vento,

sem vestes e sem mortalha.

 

Quando literalmente tombaram

a Fazenda Tombador,

nenhuma voz se levantou,

nem mesmo a voz de alguém,

que clamasse no deserto, clamou.

E a Fazenda Tombador

literalmente tombou.

 

Pela ânsia bruta da ganância,

da Fazenda Tombador, rediviva,

em nossa repetível retentiva,

restou apenas o retrato da saudade

numa redoma de dor.

                  Te. 13.04.97

sexta-feira, 26 de julho de 2024

AINDA JOSÉLIA


                                    

AINDA JOSÉLIA


Elmar Carvalho

 

Ontem, quando vinha a Parnaíba, com a missão de fazer a apresentação de Manuel Domingos Neto e de seu livro “O que os netos dos vaqueiros me contaram”, resolvi passar pela casa de meus pais em Campo Maior, sobretudo com o objetivo de lhes entregar cópia da crônica que publiquei neste Diário, datada do dia 17, sob o título “A morte de Josélia”, uma vez que eles não são navegantes da internet, na qual fora publicada.

 

Talvez nisso tenha havido certa dose de recôndito e dissimulado sadismo sentimental e vaidade artística, que nem Freud saberia explicar. É que meu pai é muito emotivo e eu sabia que derramaria lágrimas. Enquanto esperava a refeição num restaurante de Piracuruca, liguei para minha mãe. Ela me informou que papai chorara copiosamente, e lhe lera, com voz embargada e entre lágrimas e soluços, a crônica elegíaca sobre a morte de minha irmã.

 

Posteriormente, já em Parnaíba, após ter cumprido minha missão literária no SALIPA, verifiquei que no meu blog havia um comentário de minha filha Elmara sobre esse texto, em que ela se declarou emocionada, sobretudo na parte em que narrei o sofrimento de meus pais.

 

Havia outro, da lavra do escritor e professor Cunha e Silva Filho, do qual, algo cabotinamente, pinço o seguinte trecho: “A sua querida Josélia teve o destino dos que se vão cedo e têm sua biografia brutalmente interrompida. (…) A poesia, ou a crônica poetizada, como esta que lhe dedicou de corpo e alma, tem suficiente poder de tornar sua irmãzinha sempre viva e doce, e bela e alegre junto de você e de sua família.”

 

Com efeito, ela não é apenas uma fotografia na parede, como no poema de Drummond. Continua muito viva na memória e na saudade de nossos pais e de todos aqueles que a conheceram e lhe tinham estima e amizade.

21 de agosto de 2010

domingo, 21 de julho de 2024

EL PACIFICADOR

 

Autor: Gervásio Castro

EL PACIFICADOR


Elmar Carvalho

 

Não tanto herói das Conquistas

                muito menos El Matador

                muito mais El Pacificador.

Bernardo de Carvalho e Aguiar

seu nome honrado

ainda vibra no ar,

nas cidades, nos currais

e nas igrejas que semeou.

Os dedos longos dos campanários ainda

apontam as etéreas campinas celestiais.

Da fazenda Bitorocara,

plantada nas margens do Surubim,

rebentou a cidade encantada

dos planos campos maiores,

dos carnaubais vastamente dilatados.

Valoroso na guerra,

amante e pacífico na paz,

seu braço guerreiro

curava e amparava

no final dos combates.

Por isto

sua bondade e justiça

os índios por justiça respeitavam.

 

                           Te. 02.09.95

sábado, 20 de julho de 2024

A ÁRVORE

Fonte: Google
Genial charge que acabo de receber, da autoria de Gervásio Castro



A ÁRVORE 


Elmar Carvalho

 

Era por volta de sete e meia da manhã. Tudo bem claro, mas nada de excesso de luminosidade. A temperatura estava agradável; nada de calor, nem de frio. Contudo, eu não estava feliz naquele momento. Estava um pouco preocupado, por causa de coisas que não dependiam de minha vontade. Coisas que dependiam dos outros e das circunstâncias para serem resolvidas ou melhoradas.

 

De repente, atentei para a beleza daquela árvore. Todo dia passava por ela, mas nunca havia reparado em sua nobre beleza. Embora não se destacasse por ser de grande porte, era altiva e copada. Seu verde era incomum, peculiar; tinha tonalidades ímpares. Suas folhas eram lustrosas, e pareciam ser de uma textura levemente esmaltada. Conforme as folhas estivessem contra ou a favor da luz solar, atingiam diferentes gradações esmeraldinas. Às vezes pareciam foscas, outras vezes, translúcidas.

 

Algumas pareciam espelhos verdes, a refletir a luz do sol; daí a intensidade com que brilhavam. A folhagem da copa era densa, fechada, e se recortava contra o límpido azul do céu daquele dia, em que apenas alguns fiapos de nuvens se esgarçavam tênue e esparsamente. Pela primeira vez percebi suas flores. Eram grandes e belas. Algumas mal começavam a desabrochar. Outras estavam no apogeu de sua beleza madura e completa.

 

Algumas ainda não eram; eram apenas botões, que ainda haveriam de se desabotoar em pura magia, no esplendor de sua glória. As pétalas róseas formavam uma espécie de coroa em torno de uma bolota, que certamente era o embrião do fruto que viria. As pétalas centrais pareciam ter uma franja dourada, arremate de pura e caprichosa ourivesaria. Aquelas gradações de verde e de brilho eram como que o símbolo da esperança, que nos deve alimentar a cada dia.

 

Os diferentes estágios das flores, de broto a botão, de botão a flor, de flor a fruto, me fazem lembrar as etapas de nossa própria vida. Mesmo as flores que se não convertem em frutos são frutos; frutos de beleza e graça. Naquela árvore abençoada colhi o fruto da esperança, e segui confiante e já restituído a mim mesmo em minha integralidade.

 

Rilke, na primeira das Elegias de Duíno, falava de uma árvore sobre a colina, que a cada dia poderíamos rever. Desejo que essa árvore possa sempre ser vista e revista, e se mantenha distante dos golpes brutais de um machado.

21 de agosto 2010

domingo, 14 de julho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - VII

Fazenda Abelheiras   Fonte: Gloogle


CROMOS DE CAMPO MAIOR


Elmar Carvalho


           VII

 

Na casa grande da fazenda

o brasão é uma grande

caveira de boi erado

de chifres enormes

às vezes descrevendo

curvas

como obra de arte.

O vaqueiro e o cavalo

se fundem e se confundem na desabalada

                                                          alada

carreira quase voo

campeando gado pelos campos

                                 de Campo Maior.

A perneira e o gibão

dependurados na parede

como se vestissem invisível corpo

são a lembrança palpável do vaqueiro

morto na desobriga.

O vaqueiro em seu terno de couro

– segunda pele áspera de seu corpo –

solta seu canto de guerra

e paz: o aboio – eeeeei! boooooi!

O eco é o aboio de

outro vaqueiro: – eeeei! boooooi!

quinta-feira, 11 de julho de 2024

A MORTE DE JOSÉLIA


Miguel e Rosália
Retrato de meus pais, quando jovens


                                   

A MORTE DE JOSÉLIA    


Elmar Carvalho

 

No domingo, Dia dos Pais, fui a Campo Maior. Na casa paterna encontrei a minha irmã Maria José, que passou a minhas mãos um envelope contendo vários recortes de jornais, que ela cuidadosamente colara num papel de boa qualidade, de modo que esses recortes estavam em perfeito estado de conservação. Eram pequenas notas tipográficas, do final da década de 1970, dos jornais Folha do Litoral, Norte do Piauí e O Estado.

 

A maioria continha poemas de minha autoria, do final de minha adolescência. Alguns desses textos, embora não os renegue, não os recolherei em livro. Havia breves notas sobre o lançamento do livro Galopando, primeira obra a agasalhar meus versos, e que mais me causou emoção, por isso mesmo. Também faziam parte do opúsculo os poetas Paulo de Athayde Couto, Josemar Neres, Paulo Couto Machado e Rubervam Du Nascimento.

 

E havia, no meio dessa relíquia de celulose, duas notas sobre o trágico acidente automobilístico em que faleceu minha irmã Josélia, no apogeu de sua beleza e na plenitude de suas quinze primaveras. Ali estava uma elegia que escrevi sob o impacto de sua morte, e que se encontra estampada no meu livro Rosa dos Ventos Gerais. No meio desses velhos papéis, havia um texto manuscrito, de que já não tinha a menor lembrança, vazado em nervosa prosa poética, em que eu extravasava as minhas emoções ao ferir essa tragédia familiar.

 

Josélia faleceu no dia 2 de julho de 1978, e mal completara quinze anos de vida. Era bela. Era alegre. Era cheia de vida. Sua alegria era verdadeiramente contagiante. Exercia feliz e natural liderança sobre suas amigas. Soubemos que no último dia de aula, quando viriam as férias de julho, ela abraçou todos os seus colegas de classe, um a um, meninos e meninas, e lhes disse que fazia aquilo porque lhes desejava umas férias tão alegres como as que ela teria.

 

Também escreveu num caderno uma breve crônica em que pedia que, quando morresse, fosse posto um ramo verde sobre seu túmulo. Parecia ter a premonição de que morreria no verdor dos anos. E um ramo verde apareceu no local em que ela foi sepultada. E – quem sabe? - talvez as suas férias, em outros infinitos páramos de Deus, tenham se convertido numa eterna festa de paz e beatitude.

 

Recordo muito bem. Eu estava sob uma das traves do estádio de futebol de Buriti dos Lopes, em minha posição de goleiro, quando vi umas moças virem em minha direção. Reconheci que eram umas amigas de minha família e de minhas irmãs. Logo, salvo engano, a Clotildes Duarte me disse que minhas três irmãs haviam sofrido um acidente, mas que estavam bem.

 

Quando percebeu que eu havia assimilado o golpe, acrescentou que não iria me enganar; que a Josélia havia morrido, e que seus parentes iriam me levar a Parnaíba, para eu ficar ao lado de meus pais. Soube, depois, que meu pai, homem extremamente emotivo e sentimental, ao saber da notícia estendeu-se no solo, prostrado, arrasado. Um de meus irmãos teve a presença de espírito e inteligência emocional para cantar uma música religiosa da predileção dele, que dizia para a pessoa segurar na mão de Deus e ir em frente.

 

Imediatamente, o velho se levantou e criou forças para fugir do desespero. Minha mãe, que sob certos aspectos sempre fora mais forte e mais contida que meu pai, ficou arrasada, e ficou prostrada por vários dias. No dia seguinte, o meu amigo Antônio Gallas escreveu uma de suas Crônicas da Cidade, dedicada a Josélia, que era sua aluna. O texto foi lido por Gilvan Barbosa, de bela e vibrante voz.

 

Dessa época, o poeta Jorge Carvalho encontrou entre os pertences e pequenas lembranças de sua mãe um pequeno impresso, em sua memória, que me repassou de forma muito atenciosa através de e-mail. O diretor dispensou os alunos do Colégio Comercial, onde minhas irmãs estudavam, e eles encheram a catedral, de onde saiu o cortejo fúnebre em direção ao Cemitério da Igualdade, de nome tão sugestivo quanto apropriado.

 

Tentei ajudar a levar o caixão. Mas como o senti pesado, embora minha irmã fosse tão leve em sua beleza esbelta, em sua espiritualidade alegre. Acho que ele me pesou na alma, porque eu sabia que aquela era uma viagem de onde não se regressa jamais. A não ser na saudade dos que nos amam, dos que sentem a nossa falta.

 

Certamente por isso, meu pai mandou gravar numa placa, que contém a imagem de seu rosto eternamente jovem, os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do pensamento!”  

17 de agosto de2010

domingo, 7 de julho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - VI

Fonte: Google


CROMOS DE CAMPO MAIOR


Elmar Carvalho


           VI

 

Festejo de

Santo Antônio do Surubim:

sob as estrelas do céu

sob as estrelas de lágrimas da pirotécnica

foguetes estilhaçam ruídos e silêncios

enquanto a bandinha do Antônio Músico

ataca com o (dobrado) Capitão Caçula

a fil(h)armônica do Antônio Músico

toca a valsa Coração Magoado

da autoria de seu pai

– Major Honório Bona Neto.

A bandinha do Antônio Músico

deflagra lentas valsas

                lânguidos boleros

                lépidas marchas

sob a batuta batuta

do seu filho Antônio Francisco

– maestro excepcional –

em sua cadei(a)ra de rodas.    

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A CADELA, A ELEFANTA E O BURRO

 

Fonte: Google

A CADELA, A ELEFANTA E O BURRO


Elmar Carvalho

 

Nesta sexta-feira, 13, deste corrente mês, cujo dia seria dupla ou triplamente aziago, por ser sexta-feira, por ser dia 13, e por ser agosto, que os supersticiosos consideram mês agourento, enquanto esperava ser atendido pelo barbeiro e irmão maçônico Chagas Vieira, fiquei folheando um jornal de uma denominação religiosa.

 

Nele, li uma matéria sobre prótese em animais. Um dos casos se referia a uma cadela que, por causa de uma hérnia de disco, acabou perdendo o movimento das patas traseiras. Sua dona não a abandonou e não aceitou sacrificá-la. Envidou esforços, com considerável gasto de dinheiro e tempo, em tratamentos, que não surtiram o desejado efeito. Mas a guardiã da cadela conseguiu fosse feito um engenhoso aparato que lhe dava sustentação, e permitia que ela, com as patas dianteiras, se locomovesse, e até mesmo corresse, nos momentos em que se encontrava mais alegre e eufórica.

 

O outro caso abordado era o de uma elefanta, que tivera uma das patas dianteiras mutilada, por causa da explosão de uma mina terrestre, espalhadas por causa dessas guerras fratricidas e completamente insanas, como são todas ou quase todas as guerras. Cientistas conseguiram desenvolver uma prótese, semelhante às usadas pelos seres humanos, que lhe permitiram voltar a andar. O caso aconteceu quando a elefanta tinha apenas sete meses.

 

O fato é que os animais vêm sofrendo muito por causa das ações humanas, como desmatamentos, queimadas, caçadas, acidentes provocados pelo trânsito nas estradas, etc. Felizmente, além dos insensíveis, egoístas e perversos, que cometem verdadeiras atrocidades contra os nossos irmãos menores, existem os que são legítimos anjos da guarda dos animais, e lhes dispensam todo cuidado, carinho e amor, às vezes até com sacrifício pessoal.

 

Ao sair da barbearia, fui fazer minha caminhada. Quando retornava, vi um homem fazendo o burro que puxava sua carroça correr, ao girar o chicote. Suponho que o animal temia ser açoitado, e por isso seguia a galopar. Ora, depois de um dia inteiro de trabalho, em prol do sustento do carroceiro e de sua família, evidentemente já cansado das cargas que deve ter conduzido, ainda tinha que fazer um esforço enorme com a corrida, para que o seu dono se desse ao luxo de voltar mais rapidamente para casa.  

13 de agosto de 2010

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Encontrando Leonardo

Fonte: Google

 

Encontrando Leonardo

 

Paulo Silva (*)

 

      Para Diderot Marvignier   

 

   Antigamente, quando as férias escolares de fim de ano, no meu tempo de menino, aconteciam nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, passei todas elas na casa do velho Paraizo, para onde meu bisavô paterno se mudou em 1864. Já morando em Fortaleza, para onde minha família tinha se mudado, passei lá todas as minhas férias, a partir dos seis anos de idade. Viajava no ônibus da Viação Horizonte acompanhado de algum adulto que me deixava e voltava no dia seguinte.

   Tinha chegado no meu Paraiso terreno. Aquela casa de tantas gerações e tantas estórias era um universo de informações e aconchego. Naquele tempo, começo da década de sessenta, era habitada apenas por quatro mulheres de idade muito avançada.

   Adelina tinha origem africana e hábitos também. Pude observá-la com mais atenção nessa minha primeira e emocionante temporada sozinho com elas. Todos da família adoravam a temporada de julho na Pedra do Sal, praia. Dezembro era quando começavam as chuvas na Ilha. Surgiam os insetos que atraíam rãs e sapos, que atraíam cobras. Era preciso conhecer e saber com   o que estava se lidando. Foi lá o aprendizado pragmático que carreguei pelo resto da vida, até aqui.

   Ela tinha 101 anos. Usava tamancos de madeira que revelavam com som alto seu caminhar firme, mas arrastado. Fumava cachimbo com fumo de rolo que picava com uma faquinha que amolava sempre em uma pedra do pátio. Usava um grande bastão de bambu, maior do que ela, para se equilibrar, mas era também uma arma contra cachorros e vacas paridas. Cantava coisas que eu não entendia, pois não era português. Perguntei à nossa querida cozinheira Maria Area se ela estava caducando, que me respondeu que era porque falava a língua dos índios. Talvez não quisesse me dizer que era a língua dos escravos 

   Nessa época do ano, a partir de cinco da tarde, as nuvens de muriçocas saíam das moitas de jiquirí da beira do rio em direção à varanda da casa, que ficava insuportável. Todos os dias, um pouco antes, Adelina ia sozinha com um grande chifre cheio de bosta seca de boi e ficava fazendo fumaça com aquilo. A única maneira de se livrar das picadas. Contra as cobras, espalhava pedaços de couro de guaxinim na calçada da varanda.

   Viveu até os 108 anos. Em um desses anos que ia de férias para lá, apareceu uma impinge na minha barriga. Ela pediu para alguém pegar umas folhas de fedegoso. Macerou e passou na minha barriga. Uma semana depois, nenhum resquício do fungo.

   Fui aguçando minha curiosidade para aprender de tudo e me libertar de preconceitos.

   Maria Area era a mais nova das quatro, devia ter 78 anos, a cozinheira da casa. Minha queridíssima dona Maria. Adorava todas as comidas que fazia, principalmente porque montava o cardápio do dia baseado no que eu queria comer. O que me encantava nela era a generosidade dela com meus amigos, parceiros dos banhos de rio, das guerras de baladeira, de torear vacas paridas. Quando convocado para o almoço às onze em ponto, não queria deixar meus amigos sem ter o que comer voltando para suas casas. Ela já havia triplicado a comida e tudo que se comia dentro de casa eles comiam também. Criança, não tinha cacife para ir comer com eles. Aprendi com ela algumas receitas que repito até hoje.

   Inácia tinha 82 anos. Nossa querida Dadá. Era a governanta da casa. Dentre as várias funções que exercia, a mais importante era a de ter dado continuidade ao Terço diário às 18 horas na sala principal da casa, o que lhe conferia autoridade sobre todos os membros da família. Esse gesto religioso tinha sido iniciado por Evangelina Rosa durante a Segunda Guerra Mundial, pedindo proteção para os dois netos ingleses em situação de perigo na África e na Índia. Continuou acontecendo até que a última moradora da casa antiga   tivesse morrido. Ela própria.

   Era o único momento do dia que eu perdia a alegria. O lusco-fusco da hora já criava um clima melancólico. Vários adultos com terço na mão repetindo a oração como uma cantilena triste em busca de salvação de suas almas e de perdão dos seus pecados. Os retratos dos antepassados já falecidos na parede daquela sala sobre os quais eu ouvira relatos de como havia sido suas vidas. Para completar, era exatamente nessa hora que uma fanhosa "radiadora", levantada no outro lado do rio no bairro da Coroa, começava outra cantilena. Poste de madeira e alto-falante pequeno para o volume que colocavam, distorcendo o som sempre com a mesma abertura: "Mulher tu deixaste a moradia pra viver de boemia, foi viver num cabaré. E eu pra não morrer de tristeza..." Era tétrico.

   Maria Clara tinha 86 anos e era a dona da casa, posto que era filha do Capitão Claro. Era a única de toda a família a chamar a Dadá de Inácia, mas em nenhum momento tirava a autoridade dela na gestão da casa. Dadá a tratava por dona Iaiá.

   A vida da casa começava cedo. Às quatro da manhã, a bezerrada mugindo anunciava a movimentação dos funcionários da cocheira para a primeira tirada do leite. A cocheira para duzentas vacas de leite ficava a cerca de trinta metros da cozinha antiga. Era como se estivesse dentro de casa. Pulava da rede, colocava minha primeira calça comprida jeans e botas, o que me fazia sentir um cowboy do cinema. Com minha caneca saborizada de açúcar e canela, tomava o morno leite direto da vaca para a caneca.

   Com o dia amanhecendo, a melhor parte. Acompanhar um dos cocheiros conduzindo as vacas para o ótimo pasto da Sorocaba e na volta o galope livre disparado no meu pequeno rosilho, que corria de volta à cocheira. Daí pra frente, futebol, banho de rio, pescaria, guerra de baladeira e tudo que era possível inventar até as 10 horas. O almoço era religiosamente servido às 11 horas.

   Por ser o único entre as quatro, tive o privilégio de ter acesso ao escritório do meu avô onde ficava sua biblioteca. Maria Clara, irmã dele, me confiava a chave mediante promessa de não estragar nada. Costumava pegar quatro a cinco livros e ir me deitar na varanda da frente lendo até as 16 horas. Ganhava o mundo e as estrelas através dos livros. Foi quando tomei conhecimento do genial Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco.

   Durante os vários anos que continuei indo até a adolescência, pude ler muitas coisas. As que não gostava, mas lia. As que gostava e separava para ler de novo no ano seguinte. E as que não entendia, como os sermões de Antônio Vieira, mas lia.

   Certa vez me interessei pela escrivaninha dele onde havia coisas pessoais como sentenças, crônicas que não publicou, o rascunho da primeira liga de futebol organizada e com regras do país, a Liga Parnaibana de Futebol, criada por ele. Também dois envelopes grandes, um deles endereçado ao primo e cunhado Antônio Tavares, de São Luis do Maranhão. Dentro tinha uma das obras escritas por nome Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, A Criação Universal. Ao abri-lo, encontrei um manuscrito em letras esculturais feito em caneta tinteiro pelo meu avô. Tratava-se do termo de proclamação da independência do Piauí, datado de 24 de janeiro de 1823, quando Leonardo retomou a cidade de Piracuruca da tropa deixada por Fidié. Vasado nesses termos:

"Queridos irmãos brasileiros que habitais a rica Província do Maranhão e especialmente os moradores das fronteiras desta até agora infeliz Província do Piauí, acho que malignas e espessas nuvens ofuscam as luzes do vosso entendimento. Pois vós sois brasileiros e recusais a obedecer ao Sr. D. Pedro, Imperador Constitucional do Brasil e seu Perpétuo Defensor?

   Não sois europeus e seguis o seu partido com perigo evidente da vossa vida e com perda de vossa honra. Ah! Onde está o brio, o patriotismo brasileiro! Onde a honra e onde o dever? O meu coração se vê dilacerado pelo pungente punhal da mais intensa dor... Irmãos, irmãos! Quereis ter o desonre de que a força exija de vós e por violência obtenha o que dever, a Honra e o patriotismo em vão, até agora, vos têm tão instante cordial e docemente requerido e rogado! Que lástima! Que afronta! Que vergonha! Persuadido! A dor me embarga as vozes do sentimento, apenas respiro, quereis que a vossa adesão à nossa santa e comum causa seja obra da força! Sereis satisfeitos. Ei-la: ela se apresenta. Um pé de exército de quatro a seis mil homens já deve ter feito em Oeiras o que cedo vereis em vós. Outro de dois a três mil vai fazer o mesmo em Campo Maior. Um corpo de observação de quinhentos a setecentos homens se acha na Barra da Amarração para conter o inimigo, a quem inquieta com contínuas correrias pela costa. Todos estes trazem todos os petrechos de guerra e várias peças de campanha, que tornam formidáveis as suas forças. Além desses corpos, um batalhão ligeiro de índios e brancos de mais de seiscentas praças, destinado a cortar as relações do inimigo com o sul da província, a impedir a reunião de novas tropas, já se fez senhor de Piracuruca, e do seu grosso Presídio apavorando-se do seu numerosíssimo avante ali plantou o seu quartel comandante pela voluntária reunião dos povos circunvizinhos no curto espaço de três dias tem visto crescer ao duplo dos seus soldados. Obtida a possível reunião dessas forças mencionadas, seguros da vitória, marchamos alegres a desalojar o nosso tirano déspota do seu último e mal seguro asilo.

   Ele não ignora a sua fraqueza; a deserção atual de suas tropas aumenta o temor. Consequente a esse conhecimento, o seu pesar se patenteia em três cartas escritas aos seus amigos de Campo Maior e Oeiras e com um ofício dirigido às autoridades de Caxias, pedindo socorro: todos esses papéis nos vieram às mãos por terem nossos soldados tomado ao correio. Concluída essa expedição, o que esperamos em brevíssimos dias, a não termos mais o que fazer, exultando de gosto, por sermos os instrumentos de liberdade de nossos irmãos, cantando alegres hinos ao Senhor dos Exércitos, entre os vivas e aclamações, ufanos entraríamos em nosso país natal, cheios de uma nobre e generosa vaidade. Esses são os nossos desejos; mas se os nossos fascinados irmãos do Maranhão, persistirem teimosos em fazer a facção política do grande Império Brasilico, rebeldes aos decretos do nosso Augusto e Amado Imperador, acaso devemos consenti-lo? Não e mil vezes não, primeiro derramaremos a última gota do nosso sangue. Ah! Queridos e enganados irmãos, que é o que temeis? E o que é o que esperais? Temeis as forças do miserável Portugal, esgotadas com as contínuas levas de soldados pelo sul do Brasil, onde todos têm sido sacrificados à Deusa da Liberdade Brasiliense, esmagando suas cabeças com a mesma vara de ferro com que pretendiam subjugarmos. Este magnânimo e liberal exemplo nos tem dado aqueles nossos intrépidos irmãos de dezesseis províncias, desde além Prata até os limites ocidentais do Ceará, proclamam a liberdade e prestam gostosa obediência a D. Pedro. Não temeis essas forças muito superiores às vossas e existentes no vosso próprio continente e, confiantes, temeis as de Portugal tão remotas e apoucadas? Que estranha mania! Passando em silêncio os poderosos socorros que nos prestam várias nações do continente europeu e americano, vamos analisar o que é que esperais: oferece-vos, grandes vantagens à dependência servil de Portugal, com tudo e por tudo; e não encontrareis nenhuma no comércio franco e liberal com todas as Nações? Torno a dizer: que estranha mania! Irmãos! Com que os exarais um procedimento tão alheio do senso comum e honra brasileira? Porventura vos decides sobre a vossa futura felicidade pelo que ledes nas lodosas páginas do “Conciliador”? Ignorais que o seu redator é europeu e, por isso, nos oculta o conhecimento dos fatos que fazem o nosso bem e aprovam o direito inalienável e decidida razão com que proclamamos a nossa independência? Ele nos chama de facciosos, perjuros, incendiários. Ele nos faz estólidos e iludidos agentes do velho despotismo. Ele afirma que o partido europeu é atualmente no Brasil quase universal. Que mentira! Que blasfêmia política! Proclamamos a constituição a par da independência; elegemos Deputados das Cortes Brasileiras e estes se estão reunindo, o nosso Imperador aclamou-se constitucional. Continuamos a conservar e eleger governos provisórios: todas as questões se decidem pela maioria de votos: Eis aqui o nosso provável será disso, que o padre Tesinho chama despotismo? A que pois chamará ele Constituição? Quanto aos exemplos de consciência que este senhor conta que tais e outros iguais nos metem, não é mais que um pretexto próprio só para enganar gentes rudes que ignoram qualquer contrato que contém condições ou são expressas ou ocultas, faltando esta, não tem valor aquele. Isto vemos no mesmo que a respeito de Adão, e vê-se nos casamentos e outros contratos de qualquer natureza que sejam.

   Que vos falta, pois, queridos irmãos? Que vos impede os passos? Que vos prende a língua? Ah! Gritai, gritai comigo:

 Viva a nossa santa religião!

 Viva a futura Constituição Brasileira!

 Viva o Sr. D. Pedro I, Imperador Constitucional do Brasil e seu Perpétuo Defensor!

 Viva a nossa santa Independência!

Vivam todos os brasileiros honrados, briosos e intrépidos!

Do vosso patrício Secretário e Ajudante da expedição de Piracuruca, no quartel da mesma a 24 de janeiro de 1823. Leonardo de Carvalho Castelo Branco

   Por tudo que está escrito nesse manifesto, é possível entender porque a Coroa Portuguesa o considerava uma perigosa ameaça. O homem mais “perigoso” agindo em território do Piauí, sendo decretada sua imediata prisão. Só não havia como. Leonardo, à frente de sua tropa do outro lado do rio, jamais se deixaria prender.

   Esse manifesto complexo e abrangente traz à baila muitas revelações. A de que a situação era crítica e perigosa para os que ousavam desafiar a Coroa Portuguesa, tanto que foi preso e condenado à forca. Demonstra a confiança de poder enfrentar a artilharia pesada de Fidié, pois a retirada estratégica para comprar armas e munição no Ceará permitiria equilibrar as forças   para derrotar as tropas do Governador das Armas, com a missão de garantir a Província do Maranhão e a do Grão Pará para a Coroa Portuguesa. O Piauí iria junto, pois era parte do Maranhão, desde o decreto do Marques de Pombal em 1772.

   Leonardo era um gênio na expressão máxima da palavra. Um líder nato e formidável estrategista, guerreiro por excelência e instinto. O manifesto revela ainda sua paixão pela causa da independência e fidelidade absoluta a D. Pedro I, o que sugere que ele não tinha conhecimento do que foi, de fato, o movimento na câmara de vereadores de Parnaíba. O 19 de outubro ia muito além do apoio à causa da independência.

   Grande conhecedor de mecânica, física, astronomia, atento observador dos fenômenos naturais, Leonardo tinha a intuição e curiosidade espacial e a lógica empírica dos gênios como Nikola Tesla, Newton, Santos Dumont ou Alexandre de Gusmão. Foi o primeiro cientista brasileiro a descrever as abelhas nativas sem ferrão. Desenvolveu e construiu vários inventos úteis para o cotidiano da época, como um grande pilão com reduções até a manivela para triturar grande quantidade de milho ou descascar arroz. Construiu uma canoa de madeira com palhetas na popa movida a pedal, que atingia grande velocidade. E entre vários outros inventos, o mundialmente tentado moto contínuo, jamais conseguido até hoje pela impossibilidade termodinâmica. Mas acreditava poder resolver esse desafio, que seria a maior revolução tecnológica do planeta. Reclamava de perseguição política por nunca ter podido experimentar com equipamentos necessários para as tentativas nos diversos modelos, embora tivesse tido algum apoio de Dom Pedro II. À luz da tecnologia atual, o máximo que se conseguiu foram as baterias de longa vida à base de lítio carregadas por energia solar.

    Leonardo Castelo Branco era um visionário cem anos à frente de seu tempo, cuja mente carregava uma usina de ideias e o coração um combatente revolucionário, destemido, carismático, entusiasmado e comprometido.

   Garantida a integridade do território brasileiro pelos acontecimentos no Piauí e rendição de Fidié no cerco ao Morro do Alecrim, no Maranhão, o Imperador Dom Pedro I indicou Simplício Dias como primeiro presidente da província do Piauí, considerando a importância de seu domínio do comércio e navegação com a Europa. No entanto, ele declinou, escondendo o verdadeiro motivo de sua recusa.

    Por influência de parentes importantes no Maranhão, foi indicado então Manuel de Souza Martins.

 Grato, manteve-se fiel à causa da Independência e a Dom Pedro.

   Somente em agosto de 1824, o brado do 19 de outubro em Parnaíba se revela na totalidade. A luta intestina da Maçonaria na construção do Estado Nacional.

    João Cândido de Deus e Silva e Simplício Dias anunciam adesão à Confederação do Equador e deixam evidente a luta entre monarquistas e republicanos.

   Luta de vida e morte, onde muitos foram julgados e fuzilados. Só então a mente privilegiada de Leonardo foi informada da motivação da causa e imediatamente já fez pulsar o coração do carismático líder guerreiro, declarando-se defensor da República.

   Conhecedor de sua capacidade de liderança, Manuel de Sousa Martins decreta sua imediata prisão.

  Levado para a cadeia em Oeiras, sofreu várias humilhações durante um ano, até ser mandado para julgamento em São Luís e, quem sabe, ter o mesmo destino dos líderes de Pernambuco e Ceará, fuzilados em praça pública.

   A interferência do Dr. João Cândido de Deus e Silva e a confraria de Coimbra, funcionando como universidade desde 1290, e os contemporâneos de Gonçalves Ledo, denominado na Maçonaria como "Diderot", o livraria da condenação, da cadeia e do possível fuzilamento.

O esfacelamento do movimento em Pernambuco e no Ceará, levou ao arrefecimento de   Leonardo, que se recolheu com a   família em sua fazenda, ate morrer algum tempo depois. Encerraria ali a   luta da maior personalidade de toda a história do Piauí.

   Estava em construção um livro que jamais foi escrito por nenhum historiador e lhe dava o reconhecimento na dimensão que um gênio com tantas habilidades e criações deveria ter. O grande historiador Diderot Marvignier o escrevia há anos. Tinha método, organização cuidadosa e preocupação em chegar às fontes primárias e aos documentos. Nessa empreitada, ajudei-o no que pude. No que encontrei em sebos de Fortaleza, Brasília, Lisboa e Porto, além de opiniões e comentários de historiadores portugueses meus amigos.

   Pelo que conhecia de Diderot por mais de cinquenta anos, dali sairia uma obra-prima. Séria, consistente, verdadeira. Ele sentia ojeriza aos que assacavam ofensas aos heróis da Pátria, se auto-intitulando historiadores, cuja preguiça e limitações intelectuais não lhes permitiam ir além do que escrever sandices ao sabor de suas frustrações pessoais e trejeitos patológicos. E desprezo pelos que queriam mudar as verdades históricas para atender a caprichos e vaidades regionais, sem provar com documentos e fontes primárias.

   Entre todos os hinos oficiais, é o da independência o que mais gosto. Quando ouço o trecho “Ou Ficar a Pátria livre, ou Morrer pelo Brasil,” é de Leonardo que me lembro. E todas as vezes que ler ou ouvir o nome Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, será do meu querido amigo Diderot Marvignier de quem me lembrarei eternamente.

(*) Constituinte de 1988.

domingo, 30 de junho de 2024

CROMOS DE CAMPO MAIOR - V

Fonte: Google


CROMOS DE CAMPO MAIOR


Elmar Carvalho


           V

 

O Monumento aos Heróis da Batalha do Jenipapo

recorte de concreto contra a seda azul do céu

em pleno e plano tabuleiro dos grandes campos

                                                           de Campo Maior

não obstante bonito é apenas um símbolo da

coragem dos filhos da Terra dos Carnaubais

            e de outras terras

porque ela já fora indelevelmente

(de)marcada a ferro e fogo

em nossa memória e na

p’alma de leque das carnaubeiras e na

p’alma de nossa mão e de nossa alma.

sábado, 29 de junho de 2024

AMAR AMARANTE SEMPRE

Elmar visto por Gervásio Castro

 


sexta-feira, 28 de junho de 2024

Sonhos de um Velho Escritor Abandonado

Fonte: Google



Sonhos de um Velho Escritor Abandonado

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Ao entrar na grande sala do abrigo, um raio de sol tocava os corpos franzinos ao meu redor, como que lutando para trazer vitalidade. Senti os aromas baralhados de remédios, alfazema comum, xixi, vômito, detergentes caseiros e mingau, que dominavam o ar – num pacto de cheiros como os roncos, lapsos, sussurros, gemidos e gritos abafados.

Não foi nada fácil parar e ouvir com a pressa dos jovens de hoje. Sempre no ritmo do Instagram, e sendo o dono do único smartphone de última geração no local. Senti-me uma criatura superior e desfocada pela rapidez das telas. “Ah, uma “evolução darwinista” tão perfeita”.

Para mim, os anseios dos velhinhos pareciam quase banais: levantar e andar sem sentir dores; saborear mesmo a insossa comida; receber uma visita. Um aperto de mãos. Um abraço. Respirar sem resmungar...

Notei um de trajes simples pisar sem pressa, os lábios em movimento, como quem discursa consigo. “Devia estar delirando ou falando com algum morto, como todos fazem”, refleti como um jovenzinho da nova geração.

No início, julguei-os egoístas, teimosos e ranzinzas. Mas, ao voltar à razão, percebi que o peso era da repulsa familiar, das vidas quebradas pelas decisões alheias, consumidas em (des) enganos.

Prometi a mim mesmo não seguir com os julgamentos, mas a tentativa foi como remar ao lado de Caronte, entre o sentir sincero e o fingimento vulgar. Meu desprezo por um deles, Seu Hermínio, intenso, transparecia enquanto ele, aos seus noventa e sete anos, enrugado e pacato, recitava sem parar o bendito Salmo Vinte e Três em cada conversa ... Com o tempo, passei a não gostar dele.

Olhei para ele novamente e vi uma luz regando seu ombro e seu pomo- de-adão; no fundo, havia calma e vitalidade. Seu Hermínio apertou meu braço. Eu alarguei as passadas e ele, acelerando, riu. De repente, disse: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam! ”

Esse salmo, sua prece e norte irritava meu peito. “Será o Seu Hermínio um realista esperançoso? “ – Me perguntei, ao me confrontar com a agonia de ter alguém tão dócil perto da ideia do Vale da Sombra da Morte.

Que tolice a minha repreender alguém que apenas exercia sua forte fé! Afinal, conviver ao lado de alguém que dorme e acorda no Vale pode ser perturbador, até para o mais crente na eternidade.

E então, acordei. Outro sonho bizarro se foi. Recebi minha medicação diária e, ao voltar a mim, notei as cadeiras cobertas com fitas azuis, vermelhas e amarelas. Uma vez mais, senti o cheiro dos avós abandonados.

Sorri bastante sozinho – o riso ainda vive neste velho, um sinal da evolução da espécie – ao lembrar do meu delírio juvenil enquanto visitava meus colegas de abrigo. Anotei mais esse no meu caderno amarelado e retomei minha rotina de velho escritor abandonado.

Ah, esses moços com seus julgamentos evoluídos...

(*) contista e cronista.