terça-feira, 14 de maio de 2019

Lançamento de Cem Poemas Escolhidos



O livro Cem Poemas Escolhidos, de Marcos Freitas, será lançado no próximo dia 29 de maio (quarta-feira), a partir das 19 horas, no Beirute Asa Sul.


Eis aqui, nestes 100 poemas que ascendem às correntes dos ares e percorrem o planeta como um gavião eletrônico, um poeta engenheiro das águas revoltas águas, nascido prá lá de lá da Serra das Confusões e que sonhou em meditação na gruta mágica de Ubajara e no parque das Sete Cidades. É lá, no mais agreste do mais agreste sertão que “no meio do nada, surgem tartarugas de pedra”, que caminham lentamente nas noites de lua cheia.

Prefácio: José Roberto da Silva


Neste poemário, Marcos Freitas mostra que a poesia é livre e pode ter muitas faces: há um poema que pode ser lido de cima para baixo ou vice-versa, da esquerda para a direita ou seguir como bem o leitor preferir. Faz-nos lembrar outro poeta, o boliviano-suíço Eugenio Gomringer, criador das Constelaciones verbales, que definiram a imagem do texto e o texto da imagem, além do grupo cujos líderes foram Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Refiro-me ao movimento que, nos anos 60, alcançou certa força e mostrou que a fonética, as artes plásticas e a semântica eram irmãs. Falo da poesia concreta que também encontramos, em menor escala, em Marcos Freitas.

Prólogo: Kori Bolívia

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Feliz Dia das Mães



Feliz Dia das Mães

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e contista

Se me falta competência para elaborar uma homenagem à altura a todas as mães, sobram-me lembranças felizes da minha que já não está mais entre nós. Lembranças como o primeiro presente de dia das mães que meu pai comprou para ofertarmos a ela: um bonito quadro emoldurado da Santa Ceia (Última Ceia). Cúmplice na tarefa de guardar bem a surpresa para ser entregue somente no dia comemorativo, a professora Valdé, de quem também guardo ternas lembranças, levou-me até a sua casa para me mostrar o belo presente. Durante muitos anos vi aquele presente exposto na parede da nossa casa, sinal de que a homenagem fora recebida com alegria e estima.

Cursava eu as primeiras letras. Fiquei deslumbrado com a homenagem, e então tomei conhecimento de que existia um dia dedicado exclusivamente para as nossas protetoras, as Mães. 

E foi assim que, à falta da aludida competência poética, conclamei um dos maiores poetas piauiense a me substituir na tarefa. E como ele se desincumbiu da missão!


MATER VENERANDA

Da Costa e Silva(*)

Por ti, que o ser me deste, eu vivo apenas;
Vivo junto de ti, mesmo sozinho,
Sem as carícias mansas e serenas,
E a ventura materna do teu ninho.

Em extremos de afeto e de carinho,
Com a essência de dor das minhas penas,
Vou regando a aridez do teu caminho,
Para que brotem lírios e açucenas...

Sabem do meu amor os que em ti pensam,
Mas não sabem que, na alma que me deste,
Nossas almas em uma se condensam.
...
Em horas de incerteza, de amargura,
Quando, sem fé, o espírito vacila,
Surge ante mim uma visão tranquila,
Num sonho de esperança e de ventura.

É a alma de minha mãe que, suave e pura,
Desprendida, talvez, da humana argila,
Me vem à ideia, em meu olhar cintila
E o meu aflito coração procura.

(*) Poeta piauiense da mais fina sensibilidade, nascido em Amarante.   

Fonte: Blog Folhas Avulsas  

domingo, 12 de maio de 2019

Seleta Piauiense - Jonas Fontenele da Silva

Fonte: Google

Triunfante

Jonas Fontenele da Silva (1880 – 1947)

Passa loira e gentil toda de branco,
Aos pés dois borzeguins de áureos lavores,
Borzeguins que são aves e são flores,
Laços de fitas palpitas o flanco.

Olhar azul, deslumbrado e franco,
Céus que entontecem rápidos condores
E de onde escorrem prantos de amargores,
Prantos que a beijos com fervor estanco,

Carne que sob o alvor da saia curta
Ondula e aroma em derredor lança
Qual um ramo florífero de murta.

Lábios das virgens cândidas de Rubens
Na apoteose de um arco de aliança
Sobre o cristal finíssimo das nuvens!

Fonte: A poesia parnaibana, 2001   

sexta-feira, 10 de maio de 2019

COMO É BOM FALAR SOBRE AS MÃES

Fonte: Google


COMO É BOM FALAR SOBRE AS MÃES

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com) um filho da mãe

            Ah! Como é bom falar sobre mãe! Só não é melhor do que abraçar, cheirar, beijar, apertar, chamegar, estreitá-la entre os braços, fazer-lhe carinho, deitar em seu colo, ouvi-la chamar-nos pelo nome ou apelido de toda a vida, por menos jovem que estejamos.

            Ninguém faz macarronada tão boa quanto a dela, nem beijuzinho de tapioca com queijo e coco parecido com o seu; o ovo estrelado mais bonito, com cara de sol, o feijãozinho com arroz e bife saborosos não têm comparação, nem o melhor e mais bem-conceituado restaurante faz igual: são de comer rezando e de lamber os “beiços” depois. O cafezinho coado que cheira a quilômetros de distância, acaso acham que tem igual? Afirmo-lhes: não há. Aliás, pode até existir pessoa melhor do que mamãe: a do outro e não a minha, para ele.

            Mãe gosta de quase tudo que fazemos, menos quando lhe dizemos que vamos sair de casa, morar só, longe dela. Não fica uma arara porque sabe que a gente passou muito tempo pensando nesse momento, e se ele chegou, deve ser para o nosso bem, e nosso bem é a coisa que ela mais preza, respeita e torce para que aconteça, sempre. Ver-nos mal é algo que a desola, entristece, fá-la sofrer muito. Se pudesse não deixaria, jamais, que ficássemos infelizes. Felicidade é o sentimento que ela mais deseja que se abata sobre nós.

            Ah! Como é prazeroso falar sobre as mães! É muito bom ouvirmos nossos amigos, colegas, aquelas pessoas de quem gostamos ou a quem respeitamos, rasgarem o verbo, derramarem-se em elogio, agradecimento e satisfação, quando dizem a quem quiser ou puder ouvir, que possuem a melhor mãe que alguém poderia ter. Quem somos nós para discutirmos verdade tão cristalina? Contestar, quem há de?

            Para nossas mães, ou melhor para toda mãe, fazer o máximo por seus filhos, certamente, é, a um só tempo, o menor trabalho e o maior prazer de suas vidas. Que ninguém tente assacar sobre a honra, a credibilidade, a inteligência, a beleza, a coragem e a honestidade que as mães veem em seus filhos. Que ninguém que não se sinta preparado para uma boa briga, tente criticar, insinuar, acusar de algum mal, acaso por ele cometido, um filho, na presença de sua mãe; por mais doçura e tranquilidade que ela possa deixar transparecer, normalmente em seu dia a dia, quando seu rebento querido é o atingido ou o alvo da chacota ou do achincalhe, a cidadã se transforma em uma fera.

            Os homens criaram e dedicaram um dia às mães. Que beleza! Tentando não ser um desmancha-prazeres, mas já o sendo, ousaria dizer que mais os filhos, que elas, valorizam-no: outras datas e outros dias são bem mais importantes que esse que separaram no calendário para homenageá-las: aqueles em que elas passam, o maior tempo possível, a nosso lado, acalentando-nos, sorrindo quando sentem que estamos felizes, rindo, gargalhando, se têm certeza disso. Ah! Um lembrete: nenhum filho consegue fingir para sua mãe um estado de espírito que não esteja vivendo ou sentindo. Ela nos vê por dentro, enxerga nossa alma. Pode até deixar para lá, relevar, se perceber que nos fará sofrer, caso revele, deixe transparecer ou nos questione, se, de fato, no mais íntimo do nosso ser, estamos mesmo como dizemos estar ou gostaríamos de que ela nos visse. As mães não se enganam; às vezes, deixam-se enganar, notadamente, se esse falso engano não nos vier trazer prejuízo, dissabores, sofrimentos.

            Ah! Como é salutar, gostoso, agradável, divertido e produtivo, falar sobre as mães, agradecer-lhes pelo bem que nos fazem; pedir-lhes desculpas, perdão, pelos males que lhes fizemos, ainda há pouco, e dos quais se já não os esqueceram, não mais deles lembram. Por mais filho da mãe que sejamos, jamais deixaremos de ser o filhinho de mamãe. Se fingimos que não gostamos quando ela nos trata de esse modo, ela se diverte, dá de ombros, nem aí, tampouco nós, que sabemos que, para elas, nunca deixaremos de ser assim. Ainda bem.

            Felicidade para você, minha mãe; para a senhora, mãe do meu amigo, do meu companheiro de estrada; e também para as mães daqueles que não conhecemos ou não privam da nossa amizade, nem nós da deles. Enfim, felizes sejam todas as mães, agora, hoje e sempre. Amém.           

JOSÉ DE LIMA COUTO




JOSÉ DE LIMA COUTO - Filho de Francisco José da Silva Couto e Joana Angélica de Lima Couto, nasceu em Brejo dos Anapurús em 3 de Fevereiro de 1907. Aos 22 anos formou-se em Técnicas Comerciais na Escola de Comércio Conselheiro Orlando em Aracaju. Chegou à Parnaíba em 1930 quando recebeu convite do professor de Inglês do Ginásio Parnaibano Ademar Neves para compor a banca examinadora da 1ª turma de concludentes. Casou-se em 22 de junho de 1938 em Brejo dos Anapurus com Dalva Athayde de Lima Couto, teve os seguintes filhos Régis (formado em Arquitetura), Érico (Ciências Econômicas e Políticas), Norma (Belas Artes), Vitor (Economia) e Paulo (Administração de Empresas e bancário). Foi proprietário da livraria "A Escolar" que funcionou na Rua Marechal Deodoro onde os livros eram vendidos por preços acessíveis para os estudantes. Foi professor de Inglês de várias pessoas ilustres de Parnaíba. Foi professor de Inglês, Filosofia da Educação, Organização e Técnica Comercial, Merceologia e Legislação Fiscal e Aduaneira nos seguintes estabelecimentos de ensino:

• Ginásio Parnaibano
• Escola Normal de Parnaíba
• Ginásio Nossa Senhora das Graças
• Escola Técnica de Comércio da União Caixeiral
• Ginásio São Luiz Gonzaga
• Ginásio Nossa Senhora de Lourdes

Eleito em 1937 vice-diretor do Ginásio Parnaibano por sua congregação e por unanimidade. Em 1949 foi eleito por unanimidade pela outra congregação do então Ginásio Parnaibano, diretor desse estabelecimento e da Escola Normal de Parnaíba, tendo sido reeleito por cinco vezes consecutivas e por unanimidade. Participou do Curso de Aperfeiçoamento para professor de Inglês da Fundação Getúlio Vargas no Colégio Nova Friburgo. Titulo de Tradutor Público e Interprete Comercial junto à Alfândega de Parnaíba concedido pela Junta Comercial do Estado do Piauí; em 1942 fez em Teresina o curso de Defesa Pacifica Antiaérea, obedecendo a dispositivo da Lei Federal já que o Brasil estava envolvido na 2ª Guerra Mundial, sendo nomeado Delegado Municipal do Serviço de Defesa Passiva Antiaérea em Parnaíba.

Principais realizações:

• 1950 – criou o curso de Aplicação da Escola Normal de Parnaíba, inclusive com Jardim de Infância.
• 1952 – elevou o Ginásio Parnaibano à categoria de Colégio, fundando o Curso Cientifico.
• 1959 – conseguiu junto ao Governo do Estado a oficialização dos dois educandários que passaram a denominar-se Colégio Estadual Lima Rebelo e Escola Normal Francisco Correia.
• 1960 – foi nomeado diretor do Colégio Estadual Lima Rebelo e Escola Normal Francisco Correia.
• 1961 – conseguiu a separação do Colégio Estadual Lima Rebelo e da Escola Normal Francisco Correia para dar-lhes autonomia plena, ficando o mesmo diretor da Escola Normal Francisco Correia.
• 1962 - Fundou o Ginásio Estadual da Escola Normal Francisco Correia; conseguiu junto ao governador a compra
de um terreno para ser construída a sede própria da Escola.
• 1964 – nomeado membro do Conselho Estadual de Educação (dois mandatos).
• 1966 – conseguiu junto ao governador a construção da sede da Escola Normal Francisco Correia.
• 1967 – transferiu a Escola Normal Francisco Correia e seus cursos integrantes para a sede própria. Como diretor da Escola Normal Francisco Correia entregou à cidade e ao Estado 38 turmas de Professoras Primárias.
• 1968 – coordenou e dirigiu o Curso de Análises Econômicas, iniciativa da Federação das Indústrias do Estado do Piauí, curso esse que motivou a implantação da futura Faculdade de Administração hoje integrada à Universidade Federal do Delta do Parnaíba. Sócio fundador da Fundação Educacional de Parnaíba que implantou a Faculdade de Administração de Empresas, hoje integrante da Universidade Federal do Delta do Parnaíba.
• 1972 – participou do Simpósio de Recursos Audiovisuais em Salvador.
• 1975 – foi eleito por unanimidade Cidadão Parnaibano pela augusta Câmara Municipal de Parnaíba, titulo de autoria do vereador Custódio Amorim.
• 1977 – foi eleito por unanimidade Cidadão Piauiense pela augusta Assembleia Legislativa Estadual, titulo de autoria do deputado estadual Ribeiro Magalhães.

Foi também sócio fundador do Sindicato dos jornalistas, membro da Academia Parnaibana de Letras que tem como patrono José Euclides de Miranda.

Em reconhecimento por seu trabalho e dedicação integral à educação de milhares de jovens existe uma escola municipal com seu nome, a biblioteca do Centro de Estudos Supletivos Jonas Correia e após 10 anos de sua morte (12 de setembro de 1992) o prefeito Paulo Eudes inaugurou o Centro de Ciências e Línguas Professor José de Lima Couto.

Seu nome também esta fixado em uma das pirâmides do Centro Cívico e no Jardim Vitória existe uma rua em sua homenagem.

Texto escrito por José de Lima Couto e editado por Paulo Couto e Helder Fontenele.  

Fonte da foto e do texto: Blog Kenard Kaverna

quinta-feira, 9 de maio de 2019

ALFREDO NUNES: CBF, TCE E OUTROS SIGNOS E INSÍGNIAS


 
Fonte: Google

ALFREDO NUNES: CBF, TCE E OUTRAS SIGLAS E INSÍGNIAS

Elmar Carvalho

Esteve no fórum, tratando de assunto processual, o Dr. Alfredo Nunes, ex-prefeito de Regeneração, ex-deputado estadual, em várias legislaturas, e procurador de Justiça em inatividade. É o atual venerável da A.: R.: Loja Maçônica Tabelião Manoel Isaac Teixeira. Seu pai, Gonçalo Nunes, empresário, também foi prefeito e deputado à Assembleia Estadual. É casado com a professora Teresinha Nunes, que foi reitora da Universidade Federal do Piauí, há 57 anos.

Segundo me foi revelado, em outra ocasião, recusou-se a ficar recebendo proventos, como parlamentar aposentado, o que é um fato raro em nosso meio. Também ouvi falar que, em sua época, teria sido o único prefeito a receber honraria do Tribunal de Contas do Estado, em virtude de haver tido todas as suas contas aprovadas. Não tive tempo de conferir essas informações. Deixo que o leitor diligente o faça.

Foi dirigente esportivo no Piauí durante vários anos. Quando era prefeito de sua terra natal, foi convidado pelo ministro da pasta do Esporte a ir a Brasília, com a finalidade de assumir, interinamente, a presidência da Confederação Brasileira de Futebol, no impedimento do titular, Ricardo Teixeira, que estava de licença médica. Disse não ter interesse, em virtude de seu cargo de chefe do Poder Executivo local.

O ministro insistiu, e disse tratar-se de um pedido pessoal do presidente da República, que estava preocupado com a classificação da Seleção Brasileira na etapa eliminatória da Copa do Mundo. Conversou com Fernando Henrique Cardoso e terminou aceitando a missão. Por recomendação pessoal sua ao técnico, um jogador renomado, mas que não estava atuando bem, não foi escalado, e o certo é que em sua gestão o Brasil terminou obtendo a classificação.

Quando ele me brindou com um distintivo da CBF, que muitas vezes tenho usado na lapela do terno, disse-me que me ofertava o mimo em virtude de eu haver sido um bom goleiro do futebol amador. Como não sou cabotino, não direi se concordo com o que ele disse.

Em 1957/1958, estando residindo no então povoado de Papagaio, hoje Francinópolis, em virtude de nomeação para cargo do antigo Departamento de Correios e Telégrafos, com raríssimo meio de transporte para Teresina na época, meu pai “pegou” uma carona no jipe do Dr. Alfredo, que era deputado estadual, até a localidade Estaca Zero, onde era mais fácil conseguir transporte rodoviário para a capital.

Meu pai, que na época, início de sua carreira, era guarda-fio, sozinho, no lombo de um cavalo, percorreu, várias vezes, a solidão formidável da Chapada Grande, de Papagaio ao Alto Sério, já no município de Regeneração, a contemplar os soberbos pequizeiros, vergados de frutos, e as floradas luminosas dos paus-d'arco, a balouçarem à brisa, como lustres dourados de imponentes catedrais.


24 de fevereiro de 2010           

terça-feira, 7 de maio de 2019

FAZENDA TOMBADOR

Fonte: Google/Blog Bitorocara


FAZENDA TOMBADOR

Elmar Carvalho

Em vez de tombamento
a protegê-la da usura,
sem limites e sem pudor,
e das mordidas vorazes
do tempo e do vento,
literalmente tombaram
a Fazenda Tombador.

Lançaram ao desabrigo,
em eterno e impiedoso castigo,
os históricos fantasmas
do tempo da Batalha,
que ficaram ao relento,
expostos à chuva e ao vento,
sem vestes e sem mortalha.

Quando literalmente tombaram
a Fazenda Tombador,
nenhuma voz se levantou,
nem mesmo a voz de alguém,
que clamasse no deserto, clamou.
E a Fazenda Tombador
literalmente tombou.

Pela ânsia bruta da ganância,
da Fazenda Tombador, rediviva,
em nossa repetível retentiva,
restou apenas o retrato da saudade
numa redoma de dor.

           Te. 13.04.97   

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Capitão Severino José Teixeira

Caxias (MA) Fonte: Google


Capitão Severino José Teixeira

Reginaldo Miranda

Segundo anotou o senhor José Orsano Brandão, no ensaio sobre Colinas, que publicou no XV volume da Enciclopédia Brasileira dos Municípios (Rio: IBGE, 1959), a influente família Teixeira que ali fincou raízes ainda nos primórdios de fundação daquela cidade, é oriunda de Caxias, descendente do comendador Antônio José Teixeira.

Porém, nada encontramos sobre esse genearca daquela geração, embora tenhamos encontrado dados sobre outros mais antigos, inclusive o comendador Caetano José Teixeira, que vindo da cidade do Porto, em Portugal, na década de 1780, se estabeleceu comercialmente na litorânea vila de Alcântara, de onde seus descendentes adquiriram sesmarias no vale do rio Mearim. Comerciantes de grosso trato que eram esses de Alcântara, possivelmente mais tarde alguns estabeleceram suas casas comerciais na próspera vila de Aldeias Altas, depois cidade de Caxias, no centro-leste maranhense, inclusive o comendador Antônio José Teixeira, genitor dos cofundadores de Colinas.

O certo é que em meados do século XIX eram atuantes no Alto-Itapecuru, os irmãos Rodrigo José Teixeira, comerciante, capitão da guarda nacional e membro de uma sociedade abolicionista; Joaquim José Teixeira e Severino José Teixeira, aquele bacharel pela Faculdade do Recife (turma de 1862), magistrado e deputado provincial, este um rábula muito inteligente e perspicaz, tudo indicando que também ali estudara e por algum motivo não concluíra o curso (Publicador Maranhense, 9.1.1875).

Era o capitão Severino José Teixeira, sócio-instalador da Sociedade Beneficente Caxiense, instalada em 20 de setembro de 1863 e dissolvida em 24 de março de 1878 (O Paiz, 6.6.1878).

Foi um advogado provisionado de largo conceito e muito atuante nos fóruns maranhenses. Lemos no jornal Cruzeiro, de São Luiz do Maranhão, a seguinte nota sobre a defesa que fez aos acusados de rumoroso caso de assassinato que abalou a cidade de Mirador, no centro-leste maranhense:

“No encerramento da formação da culpa, o advogado dos pretendidos cúmplices, capitão Severino José Teixeira, alegou com suas razões bem fundamentadas a necessidade de prazo para produzir e instruir a defesa de seus constituintes, porém o juiz apenas concedeu dous dias” (Cruzeiro, 5.7.1884).

Muitos outros registros de sua atuação nos fóruns maranhenses, sobretudo no Alto-Itapecuru, consta em diversos órgãos da imprensa (Pacotilha, 29.1.1886; 6.7.1887; O Paiz, 6.9.1884; 31.7.1885; 3.12.1885; 6.5.1886).

Com a criação do município e vila de Picos, hoje Colinas, pela lei provincial n.º 879, de 4 de janeiro de 1870, foi ele nomeado para o cargo de subdelegado de polícia (4º distrito).

Ingressando na política filou-se ao Partido Liberal e foi eleito vereador da câmara municipal de Picos, para o quatriênio 1873-1877. Desavindo-se naquela agremiação partidária, candidatou-se a deputado provincial no pleito travado em 1879, pela legenda do Partido Conservador, não logrando, porém, êxito. Com a Proclamação da República, filiou-se ao Partido Federalista e depois ao Partido Republicano, este último liderado por Benedito Leite(Publicador Maranhense, 18.11.1879; O Paiz, 23.7.1880; Diário do Maranhão, 24.9.1879; 18.11.1879; 22.2.1896).

Na Guarda Nacional alcançou o posto de capitão

Em julho de 1875, foi nomeado para o cargo de promotor público da comarca de Pastos Bons (Diário do Maranhão, 7.7.1875; 26.1.1876).

Mais tarde, em outubro de 1885, foi nomeado para o cargo de promotor público da comarca de Loreto, onde permaneceu até princípio do ano de 1889, quando foi removido para a de Carolina, de onde foi exonerado em julho de 1889. Em 2 de maio de 1890, foi novamente nomeado para a promotoria pública da comarca de Loreto, tomando posse em 25 de agosto. Em 5 de fevereiro de 1892, Severino José Teixeira foi nomeado promotor público da comarca do Alto-Itapecuru, assumindo as funções em 26 de fevereiro do mesmo ano. Por algum motivo exonerado, foi novamente nomeado para o mesmo cargo em 17 de abril de 1893 (Pacotilha, 19.7.1889; O Paiz, 19.10.1885; Diário do Maranhão, 28.12.1888; 3.12.1890; 31.5.1893).

Homem de formação acima da média, com elogiada atuação jurídica, foi ativo intelectualmente em sua região, onde fundou dois órgãos de imprensa, sendo o jornal O Republicano em 1896 e Epocha, em 1898:

“Cidade de Picos – Apareceu um novo órgão de publicidade – O Republicano – redigido pelo capitão Severino José Teixeira, o qual será órgão do partido de que tirou o nome” (Diário do Maranhão, 29.10.1896).

“Chegou-nos às mãos o n. 2 da ‘Epocha’, órgão do Partido Republicano no Alto Itapecuru, e de que são redactores os capitães Severino José Teixeira e João Cândido F. Lima. É do dia 19 passado o número citado. Publica-se três vezes por mez” (Diário do Maranhão, 15.7.1898).

O capitão Severino José Teixeira, foi casado com d. Francisca do Vale Porto Teixeira, falecida em 17 de abril de 1882, na cidade de Picos, hoje Colinas, filha de Zacharias do Vale Porto, de cujo consórcio deixou alguns filhos, entre esses: Antônio José Teixeira, afilhado de João da Matta de Moraes Rego (Diário do Maranhão, 21.4.1882; Pacotilha, 24.5.1991); e d. Florinda Teixeira Nunes, que fora casado com o agricultor Deolindo José Nunes, e mudou seu domicílio para a localidade Salinas, no termo de Oeiras e, depois de 1900, fixou-se na vila hoje cidade de Regeneração, ambas no Piauí, onde deixou ilustrada descendência.

Não encontramos a data de óbito do capitão Severino José Teixeira, mas deixamos essas notas para a reconstituição de sua biografia.

__________________

*REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Atual presidente da Associação de Advogados Previdenciaristas do Piauí Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br     

domingo, 5 de maio de 2019

Seleta Piauiense - Félix Pacheco

Fonte: Google


ZÉFIRO

Félix Pacheco (1879 – 1935)

 Dorme quieta e feliz, e, no seu sono,
Tudo que flui é delicado e leve.
A devassar-lhe o plácido abandono
Nem mesmo a luz, que é sua irmã, se atreve.

Ouço de longe arfar-lhe, cor de neve,
O seio virginal, camélia e trono.
Perpassa-lhe fugindo um sonho breve,
E eu de vê-la sorrir mais me apaixono.

Mas o quadrinho esfuma-se impreciso,
E esvai-se a sombra da divina face.
Aperto o olhar, e nada mais diviso.

Foi como se algum zéfiro passasse,
Na calma angelical do paraíso,
Brando, e gentil, e rápido, e fugace... 

Fonte: Portal Antonio Miranda. Entretanto, fiz a atualização ortográfica.  

sábado, 4 de maio de 2019

UM CEMITÉRIO – CAMPESTRE E COM TELHADO



UM CEMITÉRIO – CAMPESTRE E COM TELHADO

Elmar Carvalho

Nesta segunda-feira, de manhã cedo, quando eu vinha de Teresina para Regeneração, resolvi, mais uma vez, dar uma olhada no cemitério campestre, que fica na beira da rodovia, um pouco antes da cidade de Angical. Três ou mais galpões, cobertos de telha, protegem os mortos desse bucólico cemitério.

Dá a impressão de que parentes e amigos, zelosos, cuidadosos, desejavam proteger seus mortos da chuva e do sol. No adro de um desses telheiros, o cruzeiro estendia seus braços bem abertos, como se quisesse abraçá-los. Recordei-me de que, muitos anos atrás, quando eu estava na flor de minha adolescência emotiva e sentimental, fiz esse mesmo percurso, em ônibus da empresa Jurandi, que parava em quase todas as cidades do itinerário, em companhia de meu amigo Otaviano Furtado do Vale, que morara em Regeneração.

Íamos, ali, passar um final de semana.  Fomos antecedidos por uma carta dele, comunicando nossa viagem, e naturalmente solicitando hospedagem aos anfitriões. A missiva tinha uma propaganda enganosa a meu respeito, pois dizia, para a destinatária, filha dos donos da casa, que eu era parecido com famoso galã das telenovelas de então.

De qualquer modo, cumprimos a nossa missão, pois tomamos umas boas talagadas de calibrina, dançamos no clube da cidade, onde hoje está instalada a Câmara Municipal, e terminei conseguindo uma namorada, que a névoa do tempo já esfumaça em minha memória. Nessa viagem, chamou-me a atenção um outro campo santo campesino, com túmulos em ruínas, cruzes decepadas, anjos de asas partidas...

No retorno, fiz um poema que falava de um agre e agressivo agreste, de um cemitério abandonado, e da paisagem dos cerrados da Chapada Grande, de beleza ímpar, mas tão diferente dos planos tabuleiros de minha terra natal, respingados de corcovas de cupins e pontilhados de carnaubeiras, sobretudo no inverno, em que a terra se estende como um tapete de gramíneas e babugens.

23 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 3 de maio de 2019

SEIS NOVOS LIVROS SOBRE PARNAÍBA




SEIS NOVOS LIVROS SOBRE PARNAÍBA

Alcenor Candeira Filho

Em 2016 publiquei com apoio da Gráfica e Editora Sieart o opúsculo LIVROS SOBRE  PARNAÍBA, onde são comentados em forma de resenha e em ordem cronológica cinquenta e nove livros que se referem a Parnaíba em todas as suas páginas ou na maioria delas.

     De 2017 até agora (maio/2019) foram publicados seis livros sobre a cidade amada, abaixo relacionados e comentados. Esses livros, como outros que surgirem no futuro, certamente constarão de eventual 2ª edição do mencionado opúsculo.

     Eis os livros:

     - DIOCESE DE PARNAÍBA: 70 ANOS EM MISSÃO (1945-2015) [Inácio Marinheiro de Oliveira, 274 p.]: livro-álbum que contém ensaio histórico sobre a criação da Diocese de Parnaíba, com perfis biográficos de papas, bispos, padres e inúmeras fotografias de templos e eventos religiosos, constituindo-se num excelente documentário sobre essa importante unidade geográfica da organização territorial da Igreja, instituída em 16.12.1944 pela  Bula Ad Dominici Gregis Bonum, do Papa Pio XII. [Edição do autor/Gráfica do Povo, Teresina, 2016].

     - LIVRO DO CENTENÁRIO DA ACP  [Benjamim Santos, 123 p.]: é o terceiro livro sobre a Associação Comercial de Parnaíba. Anteriores: ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE PARNAÍBA: LUTAS E CONQUISTAS (Iweltman Mendes) e ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE PARNAÍBA: A CHEGADA DO SÉCULO XXI (Israel Correia).

     Trata-se de um registro geral dos cem anos de fundação dessa importante entidade representativa dos empresários parnaibanos, “revelando trechos da trilha seguida pela ACP, dos tempos passados, e pela  ACP dos dias atuais.” [SIEART, Parnaíba, 2017].

     - MERGULHO NAS LEMBRANÇAS DA MINHA PARNAIBINHA: ANOS 40/60 [Raimundo Nonato Caldas – Cavour, 278 p.]: livro-álbum que contém textos sobre vários aspectos da Parnaíba.

     A obra é ilustrada com fotografias de prédios residenciais, comerciais, igrejas, colégios, praças, bem como de parnaibanos, com respectivas sínteses biográficas, que se destacaram na vida social, educacional, artística, política, religiosa, esportiva e empresarial no período de 1940 a 1960 [Gráfica e Editora SIEART, Parnaíba, 2017].

     -  PARNÁRIAS: POEMAS SOBRE PARNAÍBA [Alcenor Candeira Filho, Elmar Carvalho e Inácio Marinheiro, 96 p.]: livro álbum em papel cuchê, contendo fotos coloridas e 64 poemas de autoria de 30 poetas que escreveram versos sobre a cidade, a partir do início do século XIX.

     Apresentados em ordem cronológica,  são os seguintes os poetas que  figuram na coletânea: Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, Luíza Amélia de Queiroz Brandão, Lívio Ferreira Castelo Branco, Jonas Fontenele da Silva, Alarico José da Cunha, Francisco Ayres, Edison da Paz Cunha, R. Petit, Jesus Martins de  Carvalho, Carlos Ferreira de Oliveira Neto, Jeanete de Moraes Souza, José Fernando Ponte, Renato Pires Castelo Branco, Raimundo Fonseca Mendes, Antônio  de Pádua Franco Ramos, Doralice Craveiro de  Carvalho, Alcenor Rodrigues Candeira Filho, José Ribamar Vieira de Araújo, Jorge Antônio Costa Carvalho, Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos, José Wilton de Magalhães Porto, Paulo Trindade Veras, Israel José Nunes Correia, José Elmar de Melo Carvalho, Paulo de Athayde Couto, Fernando Basto Ferraz, Ednólia  Fontenele, José Pinheiro de Carvalho Filho, Danilo de Melo Sousa,  e Diego Mendes Sousa[ Gráfica e Editora SIEART, Parnaíba, 2017].

     -  NOVAS PÁGINAS PARNAIBANAS [Alcenor Candeira Filho, 87 p.]:  quarto livro publicado do autor que cuida de assuntos parnaibanos. Os textos reunidos no livro, publicados em 2017 e 2018 no Portal Costa Norte e no blogue do  poeta Elmar Carvalho, são páginas de saudade e de  depoimentos sobre pessoas e entidades de Parnaíba. [Gráfica e Editora SIEART, Parnaíba, 2018].

     -  CASA INGLESA: UM INGLÊS UMA FAMÍLIA UMA HISTÓRIA [José Bruno de Araújo, 169 p.]: o autor José Bruno de Araújo, graduado em Licenciatura Plena em História, conta neste livro a trajetória da família Clark a partir de James Frederick Clark, que com 14 anos de idade deixou a terra natal Kesvick na Inglaterra para morar em Parnaíba, em 1869. Em pouco tempo sucedeu a Paul Singlehurst na direção da Casa Inglesa (Estabelecimentos James Frederick Clark) que se tornou uma das maiores empresas de exportação e importação do Piauí no período do apogeu econômico de Parnaíba, com filiais em Niterói-RJ, ão Luís-MA, Fortaleza-CE e nas cidades piauienses de Teresina, Floriano e Campo Maior. (Gráfica e Editora SIEART, Parnaíba, 2019].   

quinta-feira, 2 de maio de 2019

A Agonia do Rio Parnaíba e os Lavadores de Automóvel



A Agonia do Rio Parnaíba e os Lavadores de Automóvel

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

No passado não muito distante, os trabalhadores que viviam do rio Parnaíba, além dos pescadores, eram barqueiros, timoneiros, vareiros, balseiros (navegantes de balsas de buriti que trafegavam em sentido jusante no rio posto que suas rudimentares embarcações não possuíam motor propulsor). E quando a nobre atividade dos embarcadiços se extinguiu, ficaram as lavadeiras de roupas, figuras cantadas em prosa e verso na literatura piauiense, instaladas em pontos determinados, utilizando-se do cais para quarar as roupas lavadas nas águas do Velho Monge. Sobraram, daquela época de grande atividade na exploração comercial do rio, as prostitutas que vivam pelo cais em busca de clientes, uma vez que as lavadeiras quase não são vistas mais. Hoje, superlotam a margem do Parnaíba, especialmente em Teresina, os lavadores de carro a assombrar ecologistas de todos os naipes e cores. Esses cidadãos se torcem de raiva sempre que trafegam em seus automóveis pela margem direita do velho e querido rio e dão de cara com esses pobres trabalhadores em atividade.

Várias pessoas, sobretudo homens, vivem dessa nova profissão, uma espécie de subemprego, desde que os embarcadiços sumiram ante o aparecimento das estradas e dos veículos a motor. Normalmente trabalhadores à margem do mercado formal, que buscam o sustento das famílias promovendo a limpeza dos veículos de outras de melhor sorte, veículos que, contraditoriamente, são responsáveis pelo sumiço da atividade de navegante do rio. Entre o Iate Clube de Teresina e a Ponte da Tabuleta, existem mais de mil lavadores trabalhando nessa atividade que começou em fins dos anos oitenta. Se naquela época utilizavam latas para transportar a água do rio, hoje instalaram bombas centrifugas para captá-la de forma mais eficiente e rápida. Entretanto, desde o começo da atividade, têm sido perseguidos. No princípio foram expulsos das imediações do Troca-troca e deslocados para as proximidades do Iate Clube. Agora, padecem de constantes ameaças de definitiva expulsão em razão da acirrada campanha que movem contra eles.

Em um ponto de lavagem normalmente trabalham três pessoas, o seu proprietário, e mais dois ajudantes. A propósito, alguns desses pontos são terceirizados (talvez a maioria), pertencem a outros que os sublocam. Existem até quem possua vários desses pontos de lavagem, e mensalmente recebem o valor acertado do seu aluguel. Alguns destes proprietários são também agiotas que cobram juros inacreditáveis pelos empréstimos realizados, semanal ou mensalmente.

Muita gente acorre até ali. Já foram mais numerosos, alguns deixaram de ir depois de deflagrada insidiosa campanha contra eles através dos meios de comunicação. Aproveitando a presença de muita gente, clientes e trabalhadores do local, lá também se instalaram as vendedoras de comida, de bebida, e de produtos eletrônicos contrabandeados (CD’s de música e filmes, pen drives, cabos e outros periféricos), mas também os vendedores de drogas ilícitas e as prostitutas em busca de clientela rara também apareceram.

Esses trabalhadores encontraram inimigos poderosos que fazem força para retirá-los de lá: os chamados defensores do rio. Esses ditos ecologistas alegam, com certa razão, que a atividade é poluidora, e que os lavadores devem ser removidos pelo poder público. E por conta do clamor que se levantou muitos clientes até deixaram de frequentar o lugar, como já falamos acima. O assunto tem sido tratado com certa assiduidade na imprensa, e sempre de forma negativa.

De minha parte, apesar de achar que o rio pode estar sendo prejudicado com a ação desses lavores de automóvel, faço uma análise diferente do caso. Em uma cidade em que o emprego é uma coisa raríssima, sobretudo para as classes menos preparadas para o mercado de trabalho, retirar esses pais de família dali sem lhes oferecer alternativa, significa empurrá-los para a criminalidade. Está implícito que trabalham ali porque não encontram serviço em outro lugar, e em outra atividade. Depois, se tiverem o cuidado de realizar uma visita ao rio nesse mesmo trecho já descrito, vão encontrar uma quantidade enorme de bocas de esgoto despejando seus efluentes diretamente nas águas do rio sem nenhum tratamento prévio. Esgoto até mesmo de procedência altamente contaminadora, como os derivados de hospitais. Deste modo, antes que o poder público retire esses homens e mulheres que encontraram na atividade o sustento de suas famílias, façam primeiro o dever de casa: promovam a captação das águas servidas e realizem o seu tratamento antes que elas caiam no rio e o emporcalhe.

Não restam dúvidas que algo precisa ser feito. O rio, tão importante para todos nós, consumidores diários de suas águas (é dele que vem a água que bebemos, tomamos banho ou cozemos os nossos alimentos, por exemplo), está a padecer horrores com a nova matriz econômica em execução. O velho rio grande dos Tapuias se apresenta quase morto, está há muito a reclamar de todos nós uma ação positiva para a sua defesa.

Se nos debruçarmos sobre o que já foi escrito sobre ele, veremos que essa atividade destruidora vem de longe. O engenheiro, geógrafo e etnógrafo Gustavo Dodt, por exemplo, contratado pelo governo em 1872 para realizar estudos sobre o rio, navegou por ele desde a sua nascente até o litoral, onde se encontra a sua foz.  Naquele tempo, já denunciou que o Parnaíba sofria um profundo processo de assoreamento devido ao crescente desmatamento de suas margens. De lá para cá pouca coisa foi feita para que isso fosse interrompido. Contrariando as ideias apresentadas pelo estudioso, e devido a crescente exploração dos cerrados nos últimos anos, próximo a sua nascente, acentuou-se drasticamente o problema. Centenas de riachos, lagoas e nascentes que alimentavam o rio e engrossavam o seu volume, foram soterrados  e já não correm em direção ao Velho Monge. Assim, me parece que esse é o problema primordial que deve ser atacado, enfrentado. Sem esquecer, é claro, a problemática do despejo de esgoto sem tratamento no seu leito. Depois disto, aí sim, devem-se resolver a questão daqueles pais de família que buscam o seu sustento através da lavagem de veículos automotores no local.   

Fonte do texto e da foto: Blog Folhas Avulsas

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Procissão do Fogaréu em Campo Maior

Foto meramente ilustrativa. Fonte: Google/Mais Oeiras
Foto meramente ilustrativa. Fonte: Google/flor de passo



Procissão do Fogaréu em Campo Maior

Elmar Carvalho


Em recente conversa com o professor e multi-instrumentista José Francisco Marques, lhe informei que pedi ao médico Domingos José de Carvalho, meu parente e amigo, para que apresentasse ao bispo da Diocese de Campo Maior uma minha sugestão, qual seja, instituir a Procissão do Fogaréu.

A velha cidade, depois de Oeiras, creio, é a mais antiga freguesia ou curato do Piauí, que teve seus primórdios na antiga igreja de Santo Antônio do Surubim, construída pelo último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão, a pedido de seu parente e amigo padre Tomé de Carvalho, primeiro vigário de Oeiras, e que bem pode ser considerado o fundador ou, pelo menos, um dos fundadores daquela velha urbe, primeira capital de nosso estado.


Quando eu tinha finalizado a versão que eu considerava definitiva deste texto, encontrei na sala a revista Cidade Verde, edição 213, de 21/04/2019, que traz uma matéria do Fonseca Neto, na qual consta um documento recentemente vindo a público. Trata-se da Resolução expedida da Mesa da Consciência e Ordens, datada de 20 de maio de 1740, assinada pelo bispo Dom Manuel da Cruz, que criava as freguesias da Caatinguinha (Valença do Piauí) e a do Gurgueia (Jerumenha) e elevava à categoria de freguesia os curatos de Piracuruca, do Surubim (Campo Maior), Parnaguá e Poti (depois, Marvão, e hoje Castelo do Piauí). Por via de consequência o curato de Campo Maior, cuja primeira igreja data de 1712, só passou a freguesia em 20/05/1740.

Julgo importante dizer que a Festa do Divino é realizada em Amarante (PI) há mais de 110 anos, mas depois, de certa forma, caiu no esquecimento. Faz cerca de uma década, suponho, foi reativada com toda pompa e circunstância, como se costuma dizer para realçar um fato, por Marcelino Leal Barroso de Carvalho, que foi meu professor no curso de Direito (UFPI). Portanto, uma tradição pode ser retomada ou criada.

Marcelino, que foi diretor geral do Instituto Camillo Filho e auditor-fiscal do Estado do Piauí, a suas expensas comprou um vetusto casarão na Avenida Des. Amaral, e nele instalou o Museu do Divino. Os fiéis carregam um lindo estandarte e envergam uma bela veste talar, uma espécie de opa ou túnica.

Também promove eventos culturais na época da festa, uma espécie de serenata pelas ruas da bucólica e mimosa Amarante, inclusive com a participação do instrumentista professor Melquíades, seu irmão. Eu mesmo, mais de década atrás, tive meu livro Lira dos Cinquentanos lançado por ele, em um solar da Des. Amaral, pertencente a familiares dos irmãos Álvaro e Raimundo Luiz Cutrim Costa. Posteriormente, ele me prefaciou o livro Amar Amarante, que tem uma bela capa de sua filha Ana Cândida Nunes Carvalho. Este opúsculo foi lançado no dia 6 de dezembro de 2013, na solenidade em que recebi o título de Cidadão Amarantino. Seu exemplo teve seguidor, porquanto, em Oeiras, novamente Oeiras, viva Oeiras, Olavo Braz Barbosa Nunes Filho fundou o Museu do Divino, no qual, além das várias peças sacras, há placas com vários poemas de oeirenses ou que falam na velhacap, inclusive o meu Noturno de Oeiras.

Voltando à minha sugestão da criação do Fogaréu, quero dizer que essa procissão é mais do que centenária em várias cidades mineiras e em Oeiras, que tem uma das mais belas Semanas Santas do Brasil, já que a sua procissão de Bom Jesus dos Passos é comovente, sobretudo por causa da multidão que aglutina e do canto melancólico e doloroso de Maria Beú, que nos rasga a alma e nos parte o coração, mormente no momento da lancinante passagem, que parece nos ecoar como um estribilho de miserere, que dilacera e fere:

“Caminheiros, que passais por este caminho, parai um pouquinho, e olhai, por favor, se neste mundo existe uma dor assim tão grande, como a dor de minha dor”.

Contudo, enfatizo que toda tradição começa com a sua primeira vez, com o seu primeiro passo. E a nossa episcopal Campo Maior mostra seu fervor católico no Festejo de Santo Antônio do Surubim, que, no gênero, é a maior festa religiosa do Piauí, pelo menos sob a invocação desse santo, que além das trezenas, tem ainda a solenidade de condução e levantamento do mastro, com o seu folclore e crendice.

Ainda me recordo da procissão de Bom Jesus dos Passos. Quando Nossa Senhora se encontrava com Jesus a carregar o pesado lenho, monsenhor Mateus nos comovia com um vibrante sermão, que falava nas dores de Cristo e no acerbo sofrimento de Maria. Essa cerimônia religiosa me fez escrever estes versos, que fazem parte de meu poema Vida in Vitro, apresentado pelo poeta e ator José Teixeira Pacheco como um monólogo, em mais de uma ocasião:

sentes ainda o cheiro dolorido e pisado dos alecrins
da paixão do senhor morto, do horto das agonias,
das chagas vermelhas, maceradas, da túnica
roxa, brilhante, da coroa de espinhos, dos cravos,
não os de cheiro, mas os de ferro, que ferem...
eras infante, então, e como sofreste
e como fizeste sofrer tua mãe, madona,
mater dolorosa e pietá sofrida e consoladora
de teus sofrimentos de então e de sempre.

Na minha sugestão, além de estandarte, de vestes talares, como opas ou túnicas, a que não poderia faltar a imprescindível lamparina ou tocha, poderiam ser incorporados ou não máscaras e elmos, se for o caso. As vestes e as lamparinas poderiam ser vendidas por uma loja do bispado, tanto para financiar as despesas do evento, como as obras sociais diocesanas, ou cada participante faria a sua própria roupa e tocha, conforme modelo padrão elaborado pela Diocese. E, sem dúvida, ainda haveria o benefício econômico do turismo.

Sei que Dom Francisco, simpático e dinâmico, que por sinal me foi apresentado pelo Dr. Domingos José, haverá de apreciar a nossa sugestão com cuidado e zelo, sem dúvida levando em conta a tradição e a antiguidade da Igreja Católica Apostólica Romana em Campo Maior, onde fica sua cátedra pontifical.  

domingo, 28 de abril de 2019

EL PACIFICADOR

Charge de Gervásio Castro


EL PACIFICADOR (*)

Elmar Carvalho

Não tanto herói das Conquistas
                muito menos El Matador
                muito mais El Pacificador.
Bernardo de Carvalho e Aguiar
seu nome honrado
ainda vibra no ar,
nas cidades, nos currais
e nas igrejas que semeou.
Os dedos longos dos campanários ainda
apontam as etéreas campinas celestiais.
Da fazenda Bitorocara,
plantada nas margens do Surubim,
rebentou a cidade encantada
dos planos campos maiores,
dos carnaubais vastamente dilatados.
Valoroso na guerra,
amante e pacífico na paz,
seu braço guerreiro
curava e amparava
no final dos combates.
Por isto
sua bondade e justiça
os índios por justiça respeitavam.

(*) Bernardo de Carvalho e Aguiar, o último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão, fundou a Fazenda Bitorocara na região onde hoje se estende a cidade de Campo Maior (PI) e construiu a primeira igreja de Santo Antônio do Surubim, a pedido do padre Tomé de Carvalho, seu parente e amigo. A fazenda e a igreja são consideradas a origem mais remota da velha urbe. Sobre ele, leiam-se os livros Bernardo de Carvalho, do Pe. Cláudio Melo, e Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara (2ª edição, UFPI/ACALE, 2012), de nossa autoria, bem como o artigo da autoria de Reginaldo Miranda https://poetaelmar.blogspot.com/2018/01/arraial-velho.html

sábado, 27 de abril de 2019

Cunha e Silva Filho e Enéas Athanázio




Cunha e Silva Filho e Enéas Athanázio

Elmar Carvalho

No sábado, 30 de março, recebi, na secretaria da Academia Piauiense de Letras, o livro “Paisagem, vida e linguagem em Enéas Athanázio: Uma leitura de ‘O campo no coração’”, que me fora enviado por seu autor, meu amigo Cunha e Silva Filho. Um pouco depois, na condição de 1º secretário da entidade, o apresentei em nossa Assembleia Ordinária, juntamente com outras correspondências, conforme consta na ata do dia acima referido.

O livro analisa em profundida e com argúcia todos os aspectos relevantes da obra citada em seu título – O campo no coração . Assim, lhe devassa o conteúdo, discorrendo sobre a linguagem dos contos e crônicas que ele enfeixa, com riqueza de detalhes, esmiuçando-lhe as qualidades e recursos estilísticos.

Cunha é um velho amigo meu, posto que o conheci em 1990, como ele próprio o declara no prefácio a meu livro Rosa dos Ventos Gerais (3ª edição, Coleção Centenário, APL, 2016), na linda e bucólica Amarante, terra natal sua e de seu pai. Participamos de um evento cultural que lá estava sendo realizado. Se não estou enganado, traído pela memória e pelos longes do tempo, ele fora visitar a sepultura de seu pai, falecido nesse ano, como verifico agora, compulsando o Livro do Centenário da Academia Piauiense de Letras, posto que o velho professor Cunha e Silva ocupara a sua cadeira nº 8.
Francisco da Cunha e Silva Filho é o seu nome completo. Exerceu o magistério superior e de segundo grau até bem pouco tempo. Leitor voraz e erudito. Voltou-se sobretudo para a crítica e para a teoria literária. No exercício da crítica, embora observando as lições da melhor crítica impressionista, no nível da praticada por um Álvaro Lins, cultivou a nova crítica, a que analisa, sobretudo, os aspectos intrínsecos da obra.

Escreveu “Da Costa e Silva: uma leitura da saudade” (Edufpi/APL, 1996), um dos melhores livros sobre a poesia de Da Costa e Silva, poeta de sua admiração, um dos melhores do Brasil, seu conterrâneo amarantino. Mas também escreveu sobre vários poetas e escritores do Piauí. Esses textos foram publicados de forma avulsa na imprensa piauiense. Boa parte deles foram coligidos na obra “As ideias no tempo” (APL/Senado Federal, 2010). Tendo prestado um inestimável serviço à literatura, tanto na cátedra como na qualidade de escritor, publicou “Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica, 2016), em cujas páginas perpassam a sua vivência, experiência de vida e de magistério, as suas dificuldades e conquistas, a sua dedicação profissional e literária, e a nostalgia do Piauí.

Tive a desvanecedora honra de ter recebido amáveis comentários de sua esmerada crítica, tanto pela linguagem escorreita e elegante, como pelo apurado conteúdo de quem realmente entende do que fala. Meus livros Rosa dos Ventos Gerais (poesia), Confissões de um juiz (memórias) e Histórias de Évora (romance) lhe mereceram aprofundados estudos, diria mesmo verdadeiras críticas ensaísticas, se é que posso usar essa denominação, para dar uma exatidão ao que quero dizer.

Além de seus dotes naturais, aperfeiçoados no esforço pessoal de muitas leituras, ele quis a instrução formal de altos estudos, e por isso fez mestrado, doutorado e pós-doutorado, todos no campo da literatura.

Todo esse esforço, com certeza, foi canalizado para o magistério e para a crítica e teoria literária, uma vez que ele continua a escrever importantes textos nessa seara, que se encontram publicados na internet, tanto em seu blog (http://asideiasnotempo.blogspot.com/), como no Portal Entretextos(http://www.portalentretextos.com.br/), como em meu blog (http://poetaelmar.blogspot.com/).

Quanto ao escritor Enéas Athanázio, é um amigo do Piauí e de sua literatura e escritores. Tanto que já lhe foi outorgado o merecido título de Cidadão Piauiense, pela Assembleia Legislativa, ocasião em que esteve em nosso estado. Muitos escritores e poetas piauienses mereceram trabalhos de sua autoria, inclusive eu próprio. Homem cordial, no melhor sentido que se possa dar a essa palavra, um dia, em que eu estava um tanto apreensivo, por estar mourejando em longínqua Comarca, no início de minha carreira, ele, que foi membro do Ministério Público de Santa Catarina, disse-me, incutindo-me coragem e consolo, para que eu não me angustiasse, que dias viriam em que eu sentiria saudade dessa situação e dessas plagas remotas.

E isso de fato aconteceu. Hoje sinto certa nostalgia, como se sentisse saudade da própria saudade que eu sentia então.

Com estas acanhadas palavras, louvo o livro, louvo o autor (Enéas Athanázio) e a obra a que ele se refere, e exalto o amigo e notável escritor Cunha e Silva Filho.