domingo, 24 de junho de 2018

SOU POETA

Fonte: Google


SOU POETA

Elmar Carvalho

Também sou poeta,
Alcides Pinto,
sou poeta.
E estou de mal com a vida
que nos acena
com miragens
que jamais irá cumprir.
Sou poeta, Alcides Pinto,
nunca neguei, sou poeta.
Mas sou puto com a vida,
megera encarquilhada
que nos acorda dos sonhos
que sonhamos acordados
pelo prazer de ser ma’drasta.
Sou um poeta
da vida, das putas,
das lavadeiras, dos ladrões,
dos assassinos, dos botequins
de cachaça, das (in)confidências
mineiras, dos deserdados da sorte,
dos enteados da vida.
Sou um poeta
das putas
mas não sou pu(e)ta
dos políticos
que tanto mentem
pro povo
que tanto enganam
o povo.
Não sei de
            física.
Não sei de
            metafísica.
Sei de
            metabolismo basal
e sei que o povo
passa fome.
Sei que
algum dia o
te’ar’pão
virá tecido no (te)ar
pelo arpão do povo
e pão haverá.
Sei que
alguma coisa está errada
porque o povo era pra ser
tudo
e agora não é nada.
Sei que
existem pássaro e flor
e sei
que o amor existe:
mas pássaro é canto, é liberdade,
e  flor é vida, é alegria,
e o amor é tudo
mas tudo
está morto e triste
como uma catacumba
encravada
nas masmorras do inferno.
Quero
aproveitar a oportunidade
para comunicar a quem interessar
possa ou não, e deixar registrado
           – ad infinitum –
com certidão passada em cartório
que o sofrimento do povo me deixa
triste e me incomoda, e que
– saibam todos – no dia em que eu
disser o contráriooirártnoc
nesse dia – por medo – estarei
mentindo (e por favor não me
acreditem/creditem)
ou então
me terão feito
uma lavagem cerebral.
Sou poeta,
Alcides Pinto, sou poeta,
juro que sou poeta.    

quinta-feira, 21 de junho de 2018

ALGUNS FRAGMENTOS, MEUS E DE OUTROS

Fonte: Google


ALGUNS FRAGMENTOS, MEUS E DE OUTROS

Cunha e Silva Filho

          Há muito tempo,   numa conferência no Rio de Janeiro, perguntei a um poeta ( o conferencista) se a poesia  é um gênero para  as massas. Ele me respondeu que não. O que infiro será, então, para a elite (intelectual, entenda-se). Agora, eu me pergunto: por quê?

       A originalidade de um escritor existe mesmo? Ou não passa de uma   escrita intertextual, intratextual combinada com um fiapo de talento    do próprio labor do escritor? Estamos em tempos da morte do autor,  o que me leva a dizer: quem escreve  somos nós ou os outros?

     Je ne conçois q’une manière  de voyager plus agréable que d’aller à cheval: c’est d’aller à pied. (Jean Jacques Rousseau).

   Numa  palestra  de improviso proferida pelo  eminente  linguista americano, Robert Lado() no IBEU de Copacabana,  ele , entre outras lições  de ensino de língua  inglesa,   afirmou para  a assistência: “Variety is the spice of life.”     

 “ Les petits chanteurs à la croix de bois” , esta frase lida no início da adolescência  que se encontra num livrinho de Canto Orfeônico, tem muito a ver com um mundo de sensações agradáveis da minha  vida.

 De touts temps les hommes ont pratiqué  les sports. Rien n’est meilleur pour la santé que l’exercice physique pratiqué, chaque jour, d’une façon rationelle.(Marcel Debrot).

Pas un filet de fumé.” (Marcel Debrot).Esta frase tem muito de nostalgia, porque se prende a um   diálogo entre mim e meu pai sobre uma  forma   melhor de traduzir  a frase ao português.  Papai já confiava ao filho de catorze anos   em discussão desse  tipo na preparação de  alguma aula de francês. Ele até  me incumbia de, uma vez ou outra,   corrigir  provas  de alunos sob a sua orientação, é claro.
Il y a temps pour tout, pour le plaisir, pour le travail.(De um texto que aparece no curso por livro chamado  Assimil).

A thing of beauty is a joy for ever. (John Keats)

Quand deux ou trois fut rassemblé dans mon nom, je serai au milieu deux.( lido num trecho de um livro didático).

The evil that men do, lives after them.(Shakespeare, lido,pela primeira vez, numa antiga gramatica  inglesa de Fredrick Fitgerald).

Saudades, asas de dor do pensamento.(Da Costa e Silva, poeta  piauiense)

Amarguras da vida que me tornaram poeta aos 60 anos. (Cunha e Silva, meu pai, em carta a mim)
Life is but a walking shadow, a tale told by an idiot...(Shakespeare)

It is  the sincere hope of the author that anyone who studies this book carefully wil be ready to be understood by any native.(Pandiá Pându, notável poliglota que eu tive o prazer de conhecer).

I have nothing to declare but my genious.( Oscar Wilde, numa declaração na Alfândega dos Estados Unidos ao ser perguntado o que ele tinha para declarar ao órgão público).

Pietá per chi cade. Uma  título de um filme italiano que meu pai leu  para  aquele  menino que era eu e o acompanhava num  passeio pelo Centro de Teresina. Papai   conhecia   bem italiano. O  nome do filme estava num cartaz  do mural do cinema, na Sala de entrada do   Theatro  4 de Setembro, em Teresina, Piauí,   final dos anos 1950.

O mundo mudou e mudei  porque  vivi, porque viver  é mudar. (Tristão de Athayde, pseudônimo do crítico literário e pensador católico Alceu Amoroso Lima)   

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Panegírico de Herculano Moraes


ATÉ BREVE, HERCULANO

Fonte: Google/Portal O Dia

ATÉ BREVE, HERCULANO

Paulo Chaves
Escritor e jornalista

Quinta-feira agora (17.05.2018), em nova imposição da sua impiedade, perdi para a morte mais um amigo. Herculano Moraes da Silva Filho. Jornalista, poeta, escritor, acadêmico, homem culto.

Não era uma amizade comum, dessas que a gente recolhe nas mesas dos bares, nas caminhadas pelas ruas ensolaradas de uma Teresina quente e fervente, ou nas antessalas dos escritórios diversos. Era amizade entabulada na minha infância, ele então um jovem companheiro do meu pai na redação imortal do nosso imortal Jornal do Piauí.

Herculano sempre será inesquecível, e de um modo todo especial para mim e meu irmão Zé Luis. Aniversariamos no mesmo mês de janeiro. Eu no dia 5, meu irmão no dia 12. Tradicionalmente, meus pais faziam uma festinha para comemorar as datas, e por sábia economia ou justa racionalidade, a festa em geral acontecia no dia 12. Acho que naquela ocasião eu completava uns seis, sete anos, no entorno ali de 1970, não lembro exatamente. No ensejo da comemoração, à tardinha, Herculano, que era redator do nosso jornal, chegou com um presente. Era um só presente para os dois aniversariantes. Um livro – MEU PÉ DE LARANJA LIMA. O primeiro de Literatura que ganhei e li. Mas houve algo a mais: as palavras da entrega. Herculano nos disse o seguinte, frase que ainda hoje, quase 50 anos depois, ecoa nas minhas lembranças:
- Como o pai de vocês me paga muito mal, só pude comprar um único presente para os dois. Daí vocês partem ao meio – um lê do começo para a metade, e o outro do meio para o fim. Depois vocês invertem, para concluir a leitura.

Deste meu primeiro livro literário, que certamente foi decisivo para a apuração do sangue do jornalista e escritor em que viria me transformar mais à frente, sempre estive muito próximo do Índio, apelido que os mais íntimos usavam no trato com o Herculano. Além da convivência no jornal, vem deste amigo agora morto uma outra amizade para mim sobejamente especial, que foi seu irmão Paulo de Tarso, jornalista também, que teve marcante atuação nas páginas do insuperável Jornal da Manhã, mas que a porra da morte tirou do nosso convívio com uma brevidade pavorosa. Foi o único PT que admirei, com seu carisma ímpar, sua grandeza e sua integridade. Morreu cedo demais, talvez porque fosse bom!

Invulgar na sua trajetória, Herculano foi um cara ímpar. Poeta e estudioso exemplar. Jornalista inteligente. Andou abrindo academias aqui e alhures. Envolvendo as pessoas nesse universo da Cultura, que mais do que tudo foi seu estigma.

Nosso último encontro se deu em março passado. Estávamos aguardando para falar com o Dr. Valdeci Cavalcante, no seu escritório ali perto do Sesc, onde o Índio cuidava das ações culturais. Ele, eu e meu irmão caçula, Wilson, que assessora o presidente do Sistema Fecomércio. Naquele dia Herculano me convidou a frequentar mais a nossa estimada Academia Piauiense de Letras. Queria me enturmar para em breve me tornar acadêmico como ele. Ri, desconcertado, e questionei meus méritos. Herculano abaixou a cabeça por alguns segundos e, olhando sério nos meus olhos, recriminou minha modéstia. Marcou para a manhã do sábado seguinte o encontro ao qual não fui. Quem sou eu?

Depois daquela reunião com o Dr. Valdeci, deixamos o escritório debaixo de chuva forte. Pegamos carona com o Wilson, deixando Herculano no Tribunal de Justiça. No caminho queixou-se de uma gripe incômoda. Tossia levemente. Poucos dias depois recorreu ao Dr. Itamar Abreu para exames apurados, e esteve internado. Dois dias antes da triste notícia que agora nos enluta, meu irmão me falou da gravidade do quadro, me dando ciência de que talvez o Índio não saísse daquela... Sofri em silêncio, sem poder compartilhar aquele desconforto, que no entardecer da quinta-feira se confirmou. Foda!

Herculano amava a Academia. Acho que nesse ponto ele superava até mesmo Lucídio Freitas, o fundador. Tanto que, como disse, fundou diversas e deu assistência a todas. Creio eu que ele era o mais popular dos imortais. Não por força, mas por simpatia, simplicidade, humildade, presença. Seu humor era demais... como atesta o diálogo que travamos certa vez, quando precisei lhe enviar alguns textos:
- Rapaz, me diz ai teu email.
- herlano@hotmail.com.
- Como? Herlano.
- Isso. Tira o “cu” do meio.

Tenho para mim que aquele sujeito discreto, observador e arguto, vai fazer uma falta medonha. Seja no sagrado seio da sua família, seja no ambiente acadêmico, seja no universo inestimável dos seus amigos sinceros, todos se ressentindo da sua presença destacada, com sua cabeleira alva, o sorriso de sempre, a invulgar capacidade de sonhar, planejar atividades de duvidável concretização, prometer com suavidade o impossível, animar projetos e possibilidades, enfim, de ser um visionário incorrigível.

Meu amigo/irmão José Olímpio Castro, que recentemente deixou a presidência do Sindicato dos Jornalistas, editava comigo o jornal da entidade, o Retranca, e na página cinco, central, da última edição, saída com a data de Janeiro/2018, fez publicar entrevista atual do nosso confrade Herculano, sob o título HERCULANO MORAES – O OPERÁRIO DA CULTURA PIAUIENSE. Nas fotos que ilustram a matéria Herculano exibe uma superada cabeleira negra, dos tempos da sua produtiva juventude - como jornalista, na redação dos jornais por onde passou; e como secretário de Comunicação, no Governo Lucídio Portela. Mais um Lucídio no seu caminho (o outro, o fundador da APL).

Na entrevista de HM se faz o relato da sua trajetória como líder estudantil (foi presidente do Grêmio Nilo Peçanha, na então Escola Industrial, hoje denominada de IFPI), vereador (elegeu-se na época do governo militar, no início dos anos 70, pelo MDB), jornalista (começou n’A Voz do Piauí, passou pelo O Dia, Jornal do Piauí, Rádio Clube e O Estado), escritor, poeta e intelectual (escreveu pelo menos 12 livros, entre poesia, ensaio, romance).

No fechamento da entrevista citada, perguntado se acreditava no fim da mídia impressa, Herculano respondeu:
“Enquanto houver ideias, sonhos e desejos na humanidade, e fantasia de dizer e ler no papel, o ideal permanecerá. Quem acredita no fim do ciclo do papel, não conhece o homem e seu desejo de permanência. Não creio que terei tempo de assistir ao enterro dessas fantasias. A história humana está perpetuada nas lápides, nas inscrições rupestres, nos pergaminhos do tempo, nas páginas dos jornais, nos livros que as traças do tempo não devoram”.

Nascido em São Raimundo Nonato, no emblemático ano de 1945, o Índio viveu 73 anos. Amou e foi amado. E nessa condição legou poesias belas, tocantes e surpreendentes, como esta GRAVURA, inserida no livro OFERENDAS, de 1996:

“Não escreverei teu nome na areia.
O vento varre as palavras
E elas nunca se perpetuarão.

Escrever teu nome no tronco
De uma árvore?
Eis o enigma
Desta vã filosofia.
Até que a morte nos separe
Pelo assassínio da ecologia.

Escrever teu nome nos granitos,
No cimento, nas nuvens, nos muros rabiscados,
Talvez não seja a forma exata
De te imortalizar.

Escreverei, teu nome sim
Na folha indecifrável da memória,
Pois só assim este amor
Sem preconceitos e limites
Ficará para a história”.

Que Deus o tenha e guarde, Herculano.

Até um dia, amigo!

19.05.2018   

terça-feira, 19 de junho de 2018

DOM PEDRO E SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA


 
Fonte: Google

DOM PEDRO E SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA

Elmar Carvalho

            Retornando a Teresina, levo na bagagem vários livros, que o meu cunhado Beré trouxe de São Félix do Araguaia, enviados por Lozinha e Nilva, irmã e sobrinha de minha mulher respectivamente. A segunda é a atual vice-prefeita do município. Os livros são Cartas Marcadas, de D. Pedro Casaldáliga, Sertão de Fogo, de Adauta Luz Batista, e Meu Araguaia Querido, de Erotildes da Silva Milhomem.

            Dom Pedro era admirado pelos componentes do grupo do jornal Inovação, de que fiz parte, pelas suas posições, por seus questionamentos políticos, por sua luta por uma sociedade mais justa e mais fraterna, e pela opção preferencial pelos pobres. Nasceu na Espanha e é bispo da diocese de São Félix desde 1971. É ainda poeta e escritor. De Cartas Marcadas disse Dom Demétrio Valentini, na apresentação: “Apresentam-se como 'cartas marcadas', pois decorrem de um claro compromisso de pastor, que extravasa em sua linguagem de poeta sua lúcida visão da realidade e sua decidida opção pela causa do povo”. 

            Esses jovens do Inovação sonhavam com a vinda para a diocese de Parnaíba de um bispo engajado nas lutas sociais e que promovesse o avanço das comunidades eclesiais de base, o que terminou não acontecendo durante o tempo em que o jornal circulou. Por isso mesmo, o jornal fez uma entrevista com um padre que aparentava ter ideias avançadas, e o religioso se mostrou firme e contundente na entrevista. Contudo, quando esta foi publicada, parece que o clérigo recebeu uma reprimenda do bispo parnaibano, porque tentou desdizer algumas frases da entrevista, quando na verdade tudo estava documentado na fita magnética, sem que tenha havido erro na transcrição. Dom Hélder Câmara era outro bispo que admirávamos, tanto por sua posição política, como por sua coerência e modo de vida.

            É considerado um dos primeiros habitantes e um dos fundadores de São Félix do Araguaia Severiano Neves, irmão do pai de Fátima, minha mulher. Quando a cidade não existia, ele montou sua residência na localidade, e depois empreendeu uma viagem ao Piauí à procura de novos habitantes, dando início ao povoamento do lugar.

            Colho na internet, na Wikipédia, a seguinte informação: “Em 23 de maio de 1941, desembarcava no rio Araguaia, em território mato-grossense, a família de Severiano Neves, acompanhada de outras famílias provenientes do estado do Pará, em busca de um futuro melhor. Iniciando-se assim um novo povoado, próximo a santa Izabel do Morro, antiga morada dos índios Carajás, habitantes milenares do rio Araguaia e da Ilha do Bananal. A denominação de São Félix foi dada pelo Bispo D. Sebastião Thomaz Câmara no dia 20 de novembro de 1942.”

            Quando a localidade passou a município, foi Severiano Neves o seu primeiro prefeito. Segundo informação de minha mulher, ele nasceu em Buriti dos Lopes – PI, no povoado Várzea do Simão, filho de Simão Pedro e Firmina.


17 de fevereiro de 2010        

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Profº R. N. Monteiro de Santana

Fonte: Google/site Entretextos


Profº R. N. Monteiro de Santana

Reginaldo Miranda *

                        O Piauí perdeu na manhã da última sexta-feira, 15 de junho, um de seus filhos mais ilustres, o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana. Foi ele um pensador irrequieto, um incentivador de grandes iniciativas, um realizador notável, enfim, um intelectual com larga folha de serviços prestados à sua terra e ao seu povo. Nesse aspecto deixa uma lacuna irreparável no meio intelectual piauiense.

Raimundo Nonato Monteiro de Santana, nasceu na aprazível cidade de Campo Maior, vale do Longá, em 27 de fevereiro de 1926.

A infância viveu na terra natal, no aconchego do lar paterno, entre a frequência à escola primária e as brincadeiras, nas horas vagas, pelos lagos e igarapés que entre os vastos campos e carnaubais verdejantes circundam aquele burgo sertanejo. A adolescência foi em Teresina, para onde veio continuar os seus estudos, matriculando-se no Colégio Diocesano “São Francisco de Sales”. Ali, no curso ginasial dirigido pelo rígido monsenhor Cícero Portella Nunes, foi colega de turma e fez amizades que perduraram pela vida toda, com colegas de geração, entre os quais M. Paulo Nunes, Afrânio Nunes, Lucídio e Petrônio Portela, Sebastião e Raimundo Leal, entre tantos outros.

Mais tarde, segue para Fortaleza, matriculando-se no curso jurídico da Faculdade de Direito do Ceará. Aluno ativo e inteligente, fez política estudantil, chegando a eleger-se secretário-geral da União Nacional dos Estudantes(UNE). Recebeu o pergaminho de bacharel em 1949, com 24 anos incompletos.

Retornou, então, a Campo Maior com um discurso inovador que foi bem recebido pela juventude, comerciantes e setores urbanos e independentes da cidade. Não tardou para aquele jovem advogado ser lançado pelo povo para concorrer nas eleições que se travariam em outubro de 1950, para a prefeitura da cidade, contra o forte esquema do senador Sigefredo Pacheco, então chefe político local. Movimentou-se a cidade numa batalha memorável, de que saiu vitorioso aquele jovem, para sensação de todo o Estado, que recebeu com surpresa o veredicto das urnas. Prefeito de uma das mais importantes cidades do Piauí, nascia assim uma nova e promissora liderança política. A pouca idade e inexperiência administrativa não o impediu de realizar profícuo governo, de que ainda hoje, tantos anos decorridos, guarda memória a cidade. Porém, a pedido da jovem esposa, dona Magnólia Paranaguá, por ele carinhosamente chamada Magui, que não se adaptou aos entreveros da luta partidária, abandonou a promissora carreira política ainda em seu alvorecer, com o fim do mandato, em 31 de dezembro de 1955.

Foi quando fixou residência em Teresina, iniciando magistério no Liceu Piauiense. Em seguida, depois de lograr êxito em brilhante concurso de provas e títulos, ingressou no quadro docente da Faculdade de Direito do Piauí, onde assumiu a cátedra de Economia. Mais tarde, foi um dos fundadores da Universidade Federal do Piauí, que encampou a Faculdade de Direito, onde prosseguiu no magistério superior.

Paralelamente a essa atividade no magistério, fazia estudos profundos e incentivava a atividade cultural no Estado. Para isto fundou em 1957, o Centro de Estudos Piauienses e em 1960, o Movimento de Renovação Cultural do Piauí. Foi um tempo de efervescência cultural, fazendo editar a revista Econômica Piauiense, para divulgar as ideias e estudos que realizava. Foi ele o grande incentivador e editor das primeiras obras de Odilon Nunes, partícipe ativo daquele grupo, que tanta novidade trouxe à nossa historiografia. Mais recentemente, criou a Fundação de Apoio Cultural do Piauí(FUNDAPI).

Em seu curriculum consta ainda ter-se diplomado em Economia Política e Sociologia, no ano de 1959, pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros(ISEB), criado em 1955, no Rio de Janeiro, com o objetivo de estudar, ensinar e divulgar as ciências sociais.

Por algum tempo lecionou também na Universidade de Brasília e na Escola Superior de Guerra.

Dada a sua capacidade intelectual e dinâmica de suas atividades culturais, foi chamado a exercer diversos cargos no Estado, entre os quais: vice-diretor do escritório regional da SUDENE e diretor da Comissão de Desenvolvimento do Estado (CODESE), embrião da futura Secretaria Estadual de Planejamento, onde desenvolveu notável trabalho.

Batalhador incansável pelo desenvolvimento econômico e cultural do Piauí, em 1967, com a ampliação do quadro efetivo, foi chamado a ocupar a cadeira 32, da Academia Piauiense de Letras, de que tomou posse em 18 de dezembro daquele ano. Era o justo reconhecimento de sua militância no desenvolvimento do Estado. No biênio 2000-2001, presidiu esse Sodalício, ali realizando uma das mais profícuas administrações. Por fruto de convênio com o Banco do Nordeste, promoveu ciclos de debates e palestras sobre assuntos diversos, inclusive sobre desenvolvimento econômico, editou a revista literária e uma coleção de dez obras, além de quinze fascículos de figuras notáveis do Piauí, este último em parceria com o Sistema Meio Norte de Comunicação.

Foi também membro do Conselho Estadual de Cultura e do Instituto Histórico e Geográfico piauiense.

De sua bibliografia constam obras cujos títulos dizem de suas ideias efervescentes em favor do desenvolvimento de sua terra: O desenvolvimento econômico nacional na teoria econômica geral, tese (1959); Aspectos de uma ideologia para o desenvolvimento; Introdução à problemática da economia piauiense (1957); A história da obra de José de Alencar; A evolução histórica da economia do Piauí (1964); Vale do Longá e perspectiva histórica do Piauí (1965); e, Piauí: formação, desenvolvimento, perspectivas (1995).

O Professor Santana, como carinhosamente lhe chamávamos, era uma figura extraordinária. Entre nós existia amizade recíproca. Foi ele a primeira pessoa que convidou-me para ingressar na Academia Piauiense de Letras. Mais tarde, liderou um grupo de amigos que lançou-me à presidência da Casa, de que colocou seu nome à disposição para a vice-presidência. Administramos juntos a Academia. Certa feita, em sua residência, a convite seu, depois de longa conversa sobre temas culturais, me chamou à sua biblioteca e mostrou diversos livros, entes os quais toda a minha obra devidamente encadernada, o que demonstra o apreço que à mesma dedicava. Fiquei lisonjeado.

No entanto, infelizmente desde alguns anos esse nosso amigo se afastara das nossas conversas e reuniões semanais na Academia, vítima do mal de Alzheimer. Fez falta. E como faz! A sua palavra segura era um norte para todos nós, que tanto lamentamos a sua perda. Na sessão de sábado, seu amigo de geração, M. Paulo Nunes, teceu-lhe o perfil e relembrou a memória em preito de saudade e admiração. Você partiu para o outro lado da existência, velho amigo, mas sua obra ficará para sempre como testemunho de seu trabalho incansável e de seu amor ao Piauí. Seu nome permanecerá imperecível nos seus livros, na sua descendência e em nossos corações. Fique bem. Que Deus o acompanhe!
___________________

* REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br   

domingo, 17 de junho de 2018

Seleta Piauiense - Hardi Filho

Fonte: Google


ESTRANHEZA

 Hardi Filho (1934 – 2015)

Estranha, essa distância que separa
a mente que está viva da que é morta;
estranha, essa aparência pouco clara
de quem passou sem que se abrisse porta.

Estranha, grave, felizmente rara,
essa visão dual que desconforta;
estranha, também, a esperança cara
que mal gerada em nosso peito aborta!

Estranha, essa emoção de eternidade
inteligente; e quanto ao fato bruto;
estranho, esse comum que persuade.
  
Estranha a calma estranha a cor de um luto
e estranha muito estranha, esta saudade
amarga em nós — antecipado fruto.

Fonte: site Antonio Miranda   

sábado, 16 de junho de 2018

Cambota e Fogoió, os dois meninos

Fonte: Google/oglobo


Cambota e Fogoió, os dois meninos

Pádua Marques
Escritor e jornalista

Eles foram o terror do bairro onde moravam quando crianças e já engrossando o talo da pinta continuaram dando trabalho a todo mundo e vergonha aos pais. Nessa época de São João, naquele tempo, eles se danavam a correr numa venda pra comprar toda sorte de fogos, desde os inocentes peidos de velha às terríveis e poderosas bombas de quinhentos, capazes de levantar por mais de vinte metros uma lata de querosene.

Cambota foi criado cheio de vontades pelo pai porque nem a mãe aguentou as peraltices dele. Filho único de um quitandeiro, se esteve algum dia à escola foi somente pra bater nos outros e no segundo dia de aula ser expulso. O pai achava de dizer que ninguém precisava estudar pra ganhar dinheiro. Ele mesmo tinha tudo e nunca passou um dia sequer sentado em banco de escola. Tinha dinheiro na burra e muitos burros lhe obedecendo.

O menino se criou sozinho feito bicho bruto, batendo e apanhando na rua e quando era contrariado se armava de um caco de vidro e corria a rua pra tomar satisfações com o desafeto. Nesse período de festas juninas ia ele direto na gaveta da quitanda, tirava o apurado e ia até a esquina comprar traques e bombas. Negócio dele era bomba, daquelas mais potentes e que incomodavam a vizinhança. Noite toda.

Era um menino feio, baixo, gordo, cambota, cabelo raspado, calção imundo, fedendo a pena de galinha molhada. Mesmo tendo todos esses defeitos não era desrespeitoso com os mais velhos. Algum adulto ralhasse com ele, metia o rabo entre as pernas e procurava o caminho de casa.

Agora Fogoió não. Fogoió Azedo como outros e muitos o chamavam pelas costas. Também foi um menino criado por uma mãe e um pai que faziam tudo aquilo que ele queria. Os vizinhos, quando ele era ainda criança, passaram poucas e boas com as travessuras dele. Assim como Cambota, nessa época de São João, transformava a vida do bairro onde morava num inferno.

Toda a cidade temia pelo que poderia acontecer quando aqueles dois maus elementos um dia se encontrassem. Aí o diabo iria sair da garrafa por cima ou por baixo. E este dia aconteceu num dia de junho. Colocaram o mundo de cabeça pra baixo e tocaram fogo. Amarraram traques em rabo de cachorros, soltaram bombas debaixo de latas e dentro de garrafas e explodiram até o muro da igreja. Coisa pouca pra eles.

Este Fogoió Azedo, nunca foi cria de gente. Criado sim à imagem e semelhança do cão. Quando adulto se transformou num grande negociante, cheio de enrolada, venda de tudo em quanto achasse pela frente. Vendia e trocava de tudo, desde geladeira velha, bateria de carros, pneus, móveis antigos, moedas, terrenos, material de construção, vergalhão, madeira e se bestasse, até arma de fogo, tudo. Esta semana passada eu vi dois sujeitos parecidos se cumprimentando na televisão, Trump e Kin-Jong Um. Meteu medo.   

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Fera

Fonte: Google


Fera

Geraldo Almeida Borges

Dentro do meu ser  ruge uma fera
Que tem patas de seda e olhar arisco
Às vezes fica de tocaia e me espera
E invade os meus carneiros no aprisco

E uma fera doméstica e suburbana
Que só quer chamar a minha atenção
Dorme e se espreguiça e é humana
E lambe o sangue  do meu coração

Tem diálogos comigo de verdade
E  adora comer os meus carneiros
E assim alimenta a sua ferocidade

Minha fera é felina e fêmea ativa
E pelos meus  tempos derradeiros
Tenho medo de lhe manter cativa   

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Marcos Antônio de Macedo

Fonte: Google


Marcos Antônio de Macedo

Reginaldo Miranda *

A antiga freguesia de N. Sra. das Mercês, hoje cidade de Jaicós, naquele tempo pertencente ao termo de Oeiras, é o berço de Marcos Antônio de Macedo, notável magistrado, político e escritor brasileiro. Ele nasceu em 18 de junho de 1808, filho de Antônio de Macedo Pimentel e de sua esposa, ao que se diz uma indígena.

Desde cedo, porém, mudou para a vizinha fazenda da Boa Esperança, sendo criado como filho pelo padre Marcos de Araújo Costa, afamado pároco e educador nordestino, que o educou e muito bem o encaminhou na vida profissional. Mais tarde, segue para Pernambuco, e depois de frequentar o curso jurídico, recebeu o grau de bacharel em Direito pela Faculdade de Olinda.

Depois de formado, fixa residência no Ceará, onde inicia carreira na magistratura, como juiz municipal e de órfãos. Todavia, culto, inteligente, comunicativo, com noções de outros idiomas hauridas nas aulas de Boa Esperança e no Recife, ao tempo da primeira administração de José Martiniano de Alencar na presidência da província foi designado para arregimentar colonos artífices na Europa. Foi e se houve muito bem em sua missão. No entanto, sempre ávido de conhecimento, permaneceu por algum tempo em Paris, dedicando-se aos estudos de ciências naturais, sobretudo Química. De regresso ao Ceará em janeiro de 1838, trouxe consigo 16 artífices franceses que foram entregues ao governo provincial.

Retomou a carreira na magistratura, assumindo o cargo de juiz municipal e de órfãos da vila de São João do Príncipe, hoje Tauá, nos Inhamuns. Em seguida, o de juiz de direito da comarca de Crato, onde se demorou por largos anos, em face de ser vizinha à região onde nascera, no Piauí. No mês de agosto de 1853, ainda se encontrava na titularidade dessa comarca, logo mais deixando-a, quando correspondeu-se com o diretor do Museu Nacional, Frederico Burlamaqui, sobre a descoberta de peixes fósseis naquele distrito.

Exercendo forte influência na região do Cariri, elegeu-se deputado provincial em algumas legislaturas. Em 1846 é eleito por seus pares 2.º secretário da mesa diretora da Assembleia Legislativa Provincial.

No período de 7 de setembro de 1846 a 14 de março de 1848, presidiu a província do Piauí, onde realizou importante gestão administrativa. Nesse tempo, promulgou a Resolução n.º 220, de 20 de setembro de 1847, que criou na capital uma escola para formação de alunos artífices, voltada para a educação de crianças pobres.

Ao fim dessa gestão retorna ao Ceará, realizando estudos técnicos de cujo resultado apresenta projeto de transposição das águas do rio São Francisco para o Jaguaribe através da abertura de um canal.

Ainda seria eleito deputado geral pelo Piauí.

Depois de aposentado na magistratura e afastado da vida pública, dedica-se aos seus estudos e investigações científicas, mudando para o velho continente e fixando residência em Stuttgart, então capital de Württemberg, na Alemanha. De lá, em 1867 envia alguns exemplares de suas obras ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E faz excursões científicas, sobretudo de caráter etnológico, por diversos países da Europa, descendo o Danúbio até o mar Negro; penetra no Oriente Médio, inclusive Síria e Turquia, e passando à África, sobe o Nilo desde o Egito até a Núbia,

Como resultado desses estudos e investigações científicas, publicou as seguintes obras: Mapa topográfico da comarca do Crato, província do Ceará, indicando a possibilidade de um canal tirado do rio São Francisco, no lugar Boa Vista, para comunicar com o rio Jaguaribe, pelo riacho dos Porcos e rio Salgado(1848); Descrição dos terrenos carboníferos da comarca do Crato (1855); Pelerinage aux Lieux-saints, suivi d’une excursion dans Le Basse Egypte, em Syrie et á Constantinople (1867); Notice sur le palmier carnahube (1867); O enigma comercial do café de Moka patenteado na exposição de Paris de 1867 (1868); Observações sobre as secas do Ceará e meios de aumentar o volume das águas nas correntes do Cariri (1871).  E dado o reconhecimento e notoriedade que adquiriu em face de seus estudos, foi convidado a colaborar, e assim o fez, na Grand dictionari universel du XIX secle, de Lorousse.

Faleceu esse notável piauiense em 15 de setembro de 1872, em Stuttgart, na Alemanha, aos 64 anos de idade, quando estava no auge de seus estudos científicos e muito ainda poderia contribuir com a sociedade. Coligimos essas notas para a reconstituição de sua biografia num preito de justa gratidão a quem dedicou a mais substanciosa parte de sua vida a serviço do bem-estar da humanidade, assim enchendo de orgulho à terra piauiense.

___________

* REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br(Meio Norte, 08.05.2015)

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A MULHER NO JUDICIÁRIO, NA POLÍTICA E NA LITERATURA

Fonte: Google


A MULHER NO JUDICIÁRIO, NA POLÍTICA E NA  LITERATURA

Valério Chaves

Des. inativo e membro da Academia Piauiense de Letras Jurídicas
 

         Apesar das conquistas alcançadas com suscetíveis mudanças dentro da configuração social e no tempo histórico, as mulheres continuam encontrando barreiras de acesso aos cargos de poder nas instituições brasileiras, principalmente nas carreiras jurídicas, na literatura e na política.

         Na hierarquia do Judiciário, em todos os ramos da justiça, inclusive na militar e tribunais superiores, não obstante a máscara do discurso de igualdade, nota-se, ainda, a supremacia de um paradigma masculino ocupando cargos de poder, especialmente naqueles de direção, em detrimento de “um personagem muito familiar, estrutural e imobilizado”, como esclarece Janet Halley, professora da Universidade de Havard.
        Segundo dados do Censo do Poder Judiciário realizado pelo CNJ em 2014, apesar de nas últimas três décadas ter havido um aumento de 10%, o percentual de juízas não chega a 40% do total de magistrados.
         No biênio 2015-2016, apenas 28,33% dos cargos de direção dos tribunais brasileiros (presidência, vice-presidência e corregedoria) foram ocupados por mulheres.

         A carioca Ellen Gracie Northfleet foi a primeira mulher a compor e a presidir o Supremo Tribunal Federal. No Piauí, a desembargadora Eulália Maria Ribeiro do Nascimento Pinheiro foi a primeira mulher a ingressar na magistratura e a presidir o Tribunal de Justiça do Estado.

         No diz respeito à participação feminina na política, a desigualdade de gênero é ainda maior.

         Uma pesquisa encomendada pela Organização das Nações Unidas  (ONU) em 2015 para saber o índice de participação da mulher nos Parlamentos, revelou que o Brasil ocupa uma das últimas posições na lista de 188 países pesquisados, só estando mais bem colocado que Haiti, Belize e São Cristóvão nas Américas e no Caribe.

         A despeito disso, com a criação das chamadas “cotas de gênero” o número de mulheres candidatas aumentou bastante na disputa por cargos no executivo e legislativo.

         Para as próximas eleições o Tribunal Superior Eleitoral decidiu recentemente que os partidos políticos devem reservar um mínimo de 30% do Fundo Eleitoral e do tempo de TV e rádio para as candidatas do sexo feminino.

          Em relação aos últimos pleitos é possível observar que há um considerável aumento do número de eleitoras, representando hoje mais de 52% dos 144.088.912 eleitores cadastrados para as eleições de 2018.

         Depois do Código Eleitoral de 1932 as mulheres, ao longo da história recente do país, adquiriram plenas condições de exercer a cidadania popular como um valor igual para todos, podendo votar e se candidatar para qualquer cargo eletivo.

         Não só na política, mas em todos os outros setores da sociedade, principalmente no campo artístico e cultural, a mulher  tem tido papel fundamental.

         No Brasil, segundo o site Brasil Escola (adoropapel. com.br/2015/03), Nísia Floresta Brasileira foi a primeira mulher a romper o espaço particular ocupado pelos homens na literatura ao publicar textos em jornais do Rio Grande Norte sobre direitos das mulheres e injustiça dos homens.

          No século XX outras escritoras tiveram destaque na literatura brasileira como: Raquel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, Cora Coralina, Cecília Meirelles, Lygia Fagundes, Hilda Hilst, Ana Eunice Eufrosina Barandas, Clarice Lispector e Nélida Pinon, primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, além de algumas piauienses notáveis como Amélia Carolina de Freitas Beviláqua, primeira mulher a integrar a Academia Piauiense de Letras, Raisa de Caldas Castelo Branco e Nerina Castelo Branco.   

domingo, 10 de junho de 2018

PALAVRAS DA LIBERDADE

Fonte: Google

PALAVRAS DA LIBERDADE

Elmar Carvalho

Eu sou um animal
            selvagem
correndo até cair de
            cansado.
Eu sou um pássaro
            louco
voando até topar nas
            nuvens e
            no céu.
Eu sou um arroto
            em explosão
na mesa de um banquete
            dos clubes sociais.
Eu sou o grito de
            revolta
de uma dor impotente.
            Sou a
força da água arrombando
            diques
e inundando campos e
            cidades.
            Sou a
força que arrebenta
            correntes
e abre cadeados e prisões.
            Sou a
prisão de ventre vencida
            o ventre
se abrindo em parto
            o parto
sendo liberdade e a
            liberdade
de todos – de todos em
            liberdade.
            Mas
sou mais do que isto:
            sou
a consciência coletiva
            comandando
o destino de cada um.
            Sou
o povo fazendo a sua própria
            história.

           Parnaíba, 25.12.79

sábado, 9 de junho de 2018

Parnárias - poemas sobre Parnaíba

Fonte: Google

Recebi da amiga Sílvia Melo (escritora, historiadora e professora da UFPI) o seguinte comentário, através de e-mail, sobre o livro/álbum Parnárias (com poemas e fotografias sobre Parnaíba), organizado por Alcenor Candeira Filho, Elmar Carvalho e Inácio Marinheiro, editado pelo SESC-PI:

"Sentir Parnaíba, o pulsar do seu velho coração através de três nomes que organizaram esta obra apoteótica. É a emoção de participar de uma excelente aula ou um curso de História.

Parnaíba nestes versos (de imortais) e fotos de Inácio Marinheiro (genial talento fotográfico) mostra sem cortes sua beleza e grandeza. Sua importância no cenário piauiense, seu legado literário e socioeconômico. Sua arte, seus talentos.

Comecei a leitura, usufruindo do prestigio que tenho com um dos autores... Tudo tão primorosamente organizado, como numa orquestra, a maestria...Ah meu Deus! Onde estão os poemas do Elmar? Estão na Balada da Praça... Na ponte...No búzio... Quem escreveria melhor sobre este pequeno castelo? Quem tem uma caneta conectada ao coração para poeticamente revelar ou des-velar Parnaíba? Como faz o poeta Elmar? Falar de Parnaíba autenticamente de sua alma feminina e marítima, suas paisagens, seus postais, sua inesquecível “lagoa do portinho”? Nestes 14 poemas somados aos 50 que nos trazem Parnaíba por inteiro: passado e presente, o registro de Luiza Amélia primeira mulher a publicar livro no Piauí. Sua face de sol e a de sombra, mas sempre Parnaíba tão bela e esplendorosa, mesmo quando Danilo a chama de “careta”, sua natureza contraditória, como tudo no contexto humano. Parabéns caro Elmar por esta obra perfeita!

Passado o festejo vou ler com maior capricho. Todo esforço para ter um pouco do alto alcance desta obra magnífica. Só tenho a lhe agradecer a oportunidade de ler, de conhecer.

Grande abraço extensivo a Fátima.

Sílvia Melo" 

Vida de cão

Fonte: Pádua Marques

Vida de cão

* Pádua Marques.

Nessa semana que está acabando houve uma operação policial em dois bairros de Parnaíba. Operação pesada da Polícia Federal e da militar para desarticular bocas de fumo. Estes dois bairros tem histórico de violentos e de acoitar entre os bons moradores alguns traficantes de drogas, ladrões de celular, motocicletas, supermercados, velhinhos aposentados e outras coisas mais.

Acompanhei pelos blogs e portais o desdobramento da operação. Me chamou a atenção nas fotos ilustrativas, no meio daquele furdunço todo e correria pra tudo quanto era lado, a figura de um cachorro negro. Nas duas fotos ele está ali deitado, na dele, perto de uma viatura assim como quem não tem nada a ver com a história e está ali apenas pra depois entre os vizinhos assustados ficar abanando o rabo e ouvindo conversa.

Agora imagine a vida dessas pessoas, trabalhadores, donas de casa, crianças e velhos convivendo todo dia, semana após semana, meses e anos com esta escalada de violência em que se transformou viver na periferia. O cão estava ali quieto perto da viatura sem a menor vontade de latir ou de se admirar com a operação que já se tornou rotina entre aquela gente.

Talvez fosse ele até um olheiro dos traficantes, um cão de guarda que, ao menor sinal de perigo pra seus patrões, agora estivesse silencioso pra não levantar suspeitas das atividades de seus donos. Certamente deve ser um cão fiel, assim como são outros cães de porta de rua e de fundo de quintal. Desses que apenas e ao menor sinal de perigo se danam a latir e alarmar com a presença de estranhos.
Estava ali na dele, deitado na areia fofa da rua sem calçamento, longe de tudo o que é movimento mais urbano. Certamente que, pela condição de guarda de alguma boca de fumo ganha, quando muito, algum osso carnudo, um resto de comida da mesa ou na pior das hipóteses, quando cria confusão com seus pariceiros, leva uma pedrada certeira de alguém incomodado com sua insolência.

Vida de cão de boca de fumo não deve ser nada fácil. Vive sob a constante inquietação. Ao menor sinal da sirene de uma viatura ou mesmo de um carro estranho cheio de policiais armados até os dentes, se põe a latir feito doido. É o momento dos patrões fugirem pela porta dos fundos e, saltando os quintais com o produto do roubo ou do tráfico de drogas vão se esconder mais lá na frente.

Agora a gente se põe a imaginar o que seja a vida de milhares de pessoas convivendo com vizinhos tão importantes pra polícia. Qual a expectativa de sociedade, de paz e de trabalho honesto dessas pessoas? Vivem sob uma constante inquietação, um inferno. Não deve ser nada tranquilo viver num bairro desses. Não é apenas aqui na Parnaíba não. É em tudo em quanto é cidade grande.

Aquele cão negro nunca vai levantar suspeitas pra policia. Nunca vai sair da rua algemado e dentro de um camburão pra depor e ser preso na Central de Flagrantes, julgado e condenado dormir fazendo companhia a seus patrões na penitenciária. Aquele cão nunca vai ser incomodado. Sua fidelidade está comprovada e tão logo aquela confusão toda acabe, volta pro canto da cerca e vai tirar um sono, que ele não é besta.

* Pádua Marques, jornalista e escritor, membro da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba.