segunda-feira, 5 de novembro de 2018

COINCIDÊNCIAS E INCOINCIDÊNCIAS ENTRE OS CAPITÃES



COINCIDÊNCIAS E INCOINCIDÊNCIAS ENTRE OS CAPITÃES

Antônio de Pádua Ribeiro dos Santos
Escritor, poeta e cronista

Não resta dúvida o gosto de ambos pelas armas. O primeiro, o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, recebeu o apelido de Lampião exatamente porque sua capacidade de disparar consecutivamente era impressionante, chegando a iluminar as noites escuras da caatinga; o segundo, nosso Presidente eleito, em seu primeiro pronunciamento depois da eleição, reforçou um dos seus propósitos de campanha que consiste na liberalização das armas de fogo, principalmente aos homens do campo que delas muito necessitam em suas propriedades para defesa contra os sem-terra (aqueles que invadem propriedades alheias, como satisfação dos seus interesses mesquinhos, e nada fazem de proveitoso à nação, cuidam apenas em desmatar sem critérios a nossa terra dadivosa para depois abandoná-la), classe que, segundo afirma com acerto, deve ser tratada como terrorista.

            Em segundo lugar, nosso chefe maior a partir de janeiro do próximo ano, tem o título de Capitão que lhe fora outorgado, de forma regular, pelo brioso Exército Brasileiro patroneado pelo herói Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias; o outro, o erroneamente chamado de Robin Hood do Nordeste, não sendo das fileiras militares, mas tendo incomensurável anseio ao posto, recebeu, por sua sagacidade e ousadia sem limites, o mesmo honroso título por concessão de Cícero Romão Batista, o padre Cícero, respeitado religioso brasileiro, em 12 de março de 1926, no Juazeiro do Norte – Ceará, em memorável festa onde fora ovacionado ao lado da família, fotografado e entrevistado, depois de condecorado, recebendo na ocasião grande quantidade de munição para combater a Coluna Prestes, liderada pelo propalado Cavaleiro da Esperança. Combate que jamais aconteceu e que não se exaure numa simples crônica, merecendo um bem pensado livro.

            A despeito destas coincidências que a história nos permite observar, vêm também duas incoincidências. A primeira é que o capitão do Cangaço atuou com sucesso no Nordeste Brasileiro, com exceção do Piauí e do Maranhão, não aparecendo nas outras regiões do país; o capitão vencedor das nossas eleições, a despeito de retumbante vitória, não teve maioria em nenhum estado do Nordeste, ali perdendo para o Bolsa Família e outras estripulias.

            A segunda é que o cangaceiro-capitão patenteado teve como companheira uma Maria que somente tinha de bonita o nome. Como ele, pegava em arma, não tinha qualquer religião, embora temida e respeitada por sua bravura ante o inimigo; o nosso capitão Presidente tem como companheira uma que não é Maria, não provoca pavor nos outros, não pega em armas, mas é religiosa e mesmo não tendo o “bonita” no nome, não se pode ignorar: tratar-se realmente de uma mulher bonita.   

domingo, 4 de novembro de 2018

Francisco Miguel e os poemas de Alice



SENSUAL ALICE

Francisco Miguel de Moura

Foi na queda da minha meninice,

desaguando na minha juventude,

que me veio à cabeça esta virtude

de te gravar no coração, Alice.

 

Tu brincavas na praia, ondas salgadas

vinham quebrar-se nos teus pés, sem pejo.

Aproveitar meu prematuro ensejo

seria um céu. Perdi nossas pegadas.

 

Sonho as curvas da praia, as curvas tuas,

como o seio nascente que guardavas.

De tanta coisa, desejei só duas.

 

Na noite, as mãos levíssimas de sondas...

E entre séria e risonha te afastavas,

levada docemente pelas ondas.                  

                                            Dez. 1966

RESPOSTA DE ALICE

Francisco Miguel de Moura

Altas ondas do mar... Tu me encantaste

Mirando o verde-azul dos sonhos teus.

E eu que pensei ser ordem de meu Deus,

Me deixei ser a flor presa a tua haste.

 

Mas foi triste a ilusão! Eu, noutro plano,

Jamais despertaria os sonhos teus.

Se nos amamos tanto em tal engano,

Continuaste, enfim, sem meu adeus.

 

E assim, no longe e perto, e separados,

Não sou flor, nem o fruto que sonhamos:

Sou a linda sereia destas águas.

Nossos rastos são rastos apagados
Pelo tempo e a forma do que amamos:
Nossas saudades não se tornem mágoas

                                    Teresina, junho/2018

sábado, 3 de novembro de 2018

DIA DE FINADOS: UMA SIMPLES HOMENAGEM


Cemitério campestre, em tabuleiro da região de Corredores, em Campo Maior - PI. Fotos da autoria de Elmar Carvalho

DIA DE FINADOS: UMA SIMPLES HOMENAGEM

Cunha e Silva Filho

       Neste Dia de Finados não almejo ser nada, mas apenas ser um amigo, um simples amigo com uma palavra amiga, uma palavra amiga, algo tristonha e elegíaca contra a minha vontade. Por que tristonha? Porque a data no Calendário do Ano leva à relembrança, não de mortos, mas de vivos, de vivos dentro do nosso maravilhoso mundo interior, no qual guardamos, livre da hipocrisia e das refregas terrenas, o nosso lado mais afetuosamente rememorativo.

Salve 2 de Novembro! Salve! Não porque desejássemos este Dia, mas porque nele estamos em geral imbuídos dos nossos mais caros e entranhados sentimentos de Homenagem a todos aqueles que nos deixaram um dia a fim de se eternizarem.

Manuel Bandeira (1886-1968), esse vate lírico da humildade dos sentimentos e das emoções líricas, chamava ao Dia dessa Passagem de "a indesejada das gentes." Sim, porque para nós ocidentais, a ausência, o passamento de um ente querido torna-se doloroso, insuportável, porém, com o fluir dos dias e anos, vai-se transformando num consolo suportável malgrado carregado das marcas das lágrimas que, de quando em quando, despontam no recôndito de nosso universo interior.


Assim, tudo se vai ajustando: a dor aguda da perda e o tempo que a vai amenizando até chegar a uma lembrança inteiramente situada num recanto de nossa memória mais enternecida e mais acalentadora, um silêncio amoroso, acalentado e eloquente a um só tempo porque a finitude se cruza com a eternidade numa linha do horizonte de um Grande Encontro algum dia do futuro.
Para concluir essas reflexões de tributo aos nossos entes queridos que já se libertaram da matéria da vida, quero invocar esse linha de verso do maior poeta do Piauí:

EU VIM AO MUNDO PARA TER SAUDADE."
DA COSTA E SILVA (1885-1950).   

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

JOSÉ CARVALHO DE ALMEIDA E A FORMAÇÃO HISTÓRICA DE BARRAS DO MARATAOÃ

Antiga igreja de Barras (demolida)



JOSÉ CARVALHO DE ALMEIDA E A FORMAÇÃO HISTÓRICA DE BARRAS DO MARATAOÃ

Gilberto de Abreu Sodré Carvalho (*)

José Carvalho de Almeida nasceu, em 1770, no então vastíssimo município do Campo Maior do Surubim, chão que seria tempos depois do município de Barras do Marataoã. Barras era um povoado. José morreu em 16 de julho de 1869, com noventa e nove anos.

O pai de José chamava-se Antônio Carvalho de Almeida; sua mãe, Ana Maria da Conceição Rodrigues de Carvalho. Teve um irmão inteiro, Francisco Carvalho de Almeida. Antônio, pai de José, era filho de Antônio Carvalho de Almeida, o velho, e de Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco. Antônio, esse último, foi dos grandes proprietários e homens de poder, no final do século XVII e início do XVIII, na região que passaria a ser a capitania do Piauí, em especial na bacia do rio Longá.

A importância dos Carvalho de Almeida, no começo do século XVIII, foi maior que a de qualquer outro grupo familiar. Ocorreu de, à direita do rio Parnaíba, cinco irmãos ambiciosos, sobrinhos do famoso Bernardo Carvalho de Aguiar, se terem ajudado intensamente, sob a orientação, suponho, do referido tio Bernardo.

Eles foram, como militares: Manuel Carvalho de Almeida, lugar-tenente de Bernardo, capitão da Conquista da terra dos indígenas e grande proprietário; e Antônio Carvalho de Almeida, o velho, avô de José, acima já referido, capitão-mor e também senhor de terras e currais em abundância. A esses dois irmãos militares do rei, somavam-se três sacerdotes católicos, todos, em simultâneo, vigários, ou seja, condutores espirituais e temporais de vastas circunscrições de terras e de gente. Eram eles: o festejado padre Miguel de Carvalho, cronista primeiro do Piauí; o padre Tomé de Carvalho e Silva e o padre Inocêncio Carvalho de Almeida.

Os cinco eram filhos de Belchior Gomes da Cunha e de Isabel Rodrigues. O apelido Carvalho parece lhes ter vindo do tio Bernardo, ao menos é o que me faz sentido, até onde pude pesquisar e fazer hipótese. O apelido Cunha (de Belchior Gomes) parece ligar-se aos Castelo Branco, desde Portugal. Assim, os casamentos dos Carvalho de Almeida (Manuel e Antônio) com moças de apelido Castelo Branco resultam de afinidade por parentesco já existente em Portugal.

José é meu quarto-avô em linha masculina contínua. Tinha sobrenome duplo, Carvalho e Almeida. O primeiro é a referência mais forte. Almeida reportava-se a cidade desse nome, em Portugal, tratando-se de uma indicação de origem, mas não de um apelido familiar. O mesmo se aplica a Bernardo Carvalho de Aguiar, em que de Aguiar é referência a uma vila de origem, no norte de Portugal.

José, aos 23 anos, alistou-se na Infantaria de Milícias. Era ainda o tempo da colônia, ano de 1793. Esteve em ação de campo por várias vezes, na consolidação da dominação colonial portuguesa. Em 1815, foi feito oficial e, em 1824, capitão. Por muitos anos, foi coronel da Guarda Nacional, no tempo do Império do Brasil. Foi ainda deputado provincial e presidente da Câmara Municipal de Campo Maior. Como homem de posses do seu tempo, foi, é o que parece, protetor dos costumes e da submissão à Igreja e a seus preceitos.

Era primo do notável Leonardo da Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, uma vez que os dois foram netos, pelo lado masculino, de Antônio Carvalho de Almeida, o velho.

Cabe cuidar da formação histórica do município de Barras do Maratoã. Importa fazê-lo para mostrar como José Carvalho de Almeida tem a ver com o assunto.

Em meados do século XVIII, o coronel Miguel Carvalho de Aguiar, filho de famoso Bernardo, e assim parente do nosso José, começou a construir uma capela em louvor de Nossa Senhora da Conceição, nas terras da sua fazenda Buritizinho, em meio à povoação nascente chamada “das Barras”.

Em 1759, sendo então terminada a capela em louvor de Nossa Senhora da Conceição, a fazenda Buritizinho passa a ser propriedade de Manuel da Cunha Carvalho, que se casara com sua prima residente no Piauí, de nome Isabel da Cunha e Silva Castelo Branco, filha de Manuel Carvalho de Almeida, referido acima, e de Clara da Cunha e Silva Castelo Branco. É provável que Manuel da Cunha Carvalho tenha sido titular da fazenda Buritizinho por conta de sua mulher e prima Isabel, a ter recebido de seu pai Manuel Carvalho de Almeida. É o que faz sentido, em vista de a região ter sido, de primeiro, ocupada por Manuel Carvalho de Almeida.

Quando da morte de Manuel da Cunha Carvalho e de sua esposa Isabel da Cunha e Silva Castelo Branco, no mesmo ano de 1776, sem filhos, a fazenda Buritizinho e mais terras passaram ao sobrinho de Manuel, de nome Manuel José da Cunha.

Para mais emaranhar a estória, esse Manuel José casou-se com uma prima, Inácia Teresa Pereira Castelo Branco, filha de Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco (filho de Manuel Carvalho de Almeida) e de Ana Rosa Pereira Teresa do Lago (filha de Antônio Carvalho de Almeida, o velho). Ou seja, Inácia era filha de pai e mãe que eram primos primeiros, e prima do nosso José, esse também neto de Antônio Carvalho de Almeida, o velho.

Manuel José e Inácia não tiveram filhos. Inácia morreu em 1802 e Manuel José, em 1804. Por testamento e atos paralelos, estando doente, logo antes de sua morte, Manuel José nomeou procurador e administrador de seus bens ao seu parente Francisco Borges Leal Castelo Branco, marido e primo de Teresa Rosa do Lago Castelo Branco, irmã inteira de sua mulher Inácia.

Não está claro, mais é de se entender, que a fazenda Buritizinho, que circundava a povoação de Barras, foi passada a Teresa Rosa, irmã inteira de Inácia, ficando seu marido Francisco como procurador e administrador enquanto Manuel José vivesse. Outra sucessora de Manuel José e Inácia foi, assumo, a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, a qual foi a mantenedora da igreja, sob a orientação de Francisco Borges Leal Castelo Branco.   

Fato é que, Francisco Borges Leal Castelo Branco e Teresa Rosa do Lago Castelo Branco têm uma filha, a quem chamam Francisca, que vai assumir, em documentos, o nome inteiro Francisca Castelo Branco. Ela se casa com o nosso José Carvalho de Almeida.

Como era de se esperar, José Carvalho de Almeida, por efeito de ser casado com Francisca se torna dono da fazenda Buritizinho e responsável, autoassumido, pela vila e pela igreja de Nossa Senhora da Conceição, pelo fato de suas terras as circundarem. Pelo que se sabe, apega-se à igreja, como devoto. Isso tudo ocorre por volta de 1819.

Em 1831, José inicia a construção de uma nova igreja para ser a matriz de Barras, em lugar da igreja de Nossa Senhora da Conceição. O novo templo é chamado do Santíssimo Sacramento.

José morre em 1869. Embora tivesse deixado instruções para ser sepultado no interior da igreja do Santíssimo Sacramento, a qual construiu, uma nova legislação proíbe que igrejas servissem como cemitérios. Assim, o corpo de José Carvalho de Almeida é enterrado no cemitério municipal até que, por interpretação feita de que José já tinha direitos adquiridos antes da nova lei, os seus restos são levados para a igreja do Santíssimo Sacramento e postos sob uma lápide com as inscrições devidas.

A velha igreja do Santíssimo Sacramento é demolida, noventa e quatro anos depois da morte de José. É substituída por uma nova construção consagrada. Quando da demolição, no entanto, os restos de José e a lápide não foram devidamente recolhidos. Perderam-se, de algum modo e para sempre. 

Em 1941, por ocasião do centenário do município de Barras do Maratoã, a Câmara Municipal proclamou José Carvalho de Almeida “Patrono da Cidade”.  

(*) Gilberto de Abreu Sodré Carvalho é historiador, romancista e advogado, nascido no Rio de Janeiro e apaixonado pelo Piauí, terra de parte de suas raízes familiares.

Fonte do texto e da fotografia: Portal Entretexto   

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Depoimento sobre Alcenor Candeira Filho


Alcenor na arte de Fernando di Castro


Depoimento sobre Alcenor Candeira Filho

Elmar Carvalho


1

Quando fui deixar vários exemplares da obra Novas Páginas Parnaibanas, enviados pelo seu autor, para serem distribuídos aos acadêmicos e visitantes da Academia Piauiense de Letras, o seu presidente, o jurista e escritor Nelson Nery Costa, consultou-me sobre a conveniência de lançá-los em evento de nosso sodalício, o que teve a minha pronta concordância e aplauso.

Assim, neste sábado, véspera do segundo turno da eleição presidencial, o livro foi lançado em nosso auditório, juntamente com os seguintes: O cantinho do poeta, de Jonas Piauí, por mim apresentado e prefaciado, Ermelinda, de Lili Castelo Branco, que teve a excelente apresentação do seu filho (e sucessor na APL) Heitor Castelo Branco Filho, e Teoria e realidade da desobediência civil, apresentado de forma elucidativa por seu autor, Nelson Nery Costa. Ao apresentar Novas páginas parnaibanas, disse que iria fazer uma espécie de depoimento e crônica memorialística sobre Alcenor Candeira Filho, porquanto nossa amizade perfaz quatro décadas. Tentarei, a seguir, recompor o meu discurso, baseado no roteiro mnemônico, a que me ative.

Tendo meu pai assumido a chefia da Empresa de Correios e Telégrafos em Parnaíba, fomos residir nessa cidade em junho de 1975, quando eu tinha 19 anos de idade. Em setembro desse ano fui morar em Teresina, para ingressar na ECT, mas no começo de 1977 retornei, em virtude de aprovação em vestibular, para fazer Administração de Empresas na Universidade Federal do Piauí, cujo curso era ministrado exclusivamente no Campus Ministro Reis Velloso, em Parnaíba.

Nessa época, quando o poeta Alcenor Candeira Filho foi aos Correios, para postar ou receber correspondência, um carteiro, sabedor de minha condição de literato, me chamou para conhecê-lo. Mas eu, um tanto retraído, algo tímido nos contatos iniciais, preferi vê-lo à distância, sem me dar a conhecer. Muitos anos depois, soube que ele lia os poemas de feição modernista que eu publicava nos jornais Folha do Litoral e Norte do Piauí, e um pouco mais tarde no alternativo Inovação.

O postalista, cujo nome não consigo recordar, disse-me, com postura algo confidencial, como se revelasse um segredo ou mistério, que Alcenor se formara em Direito para tentar reabrir o processo criminal sobre a morte trágica de seu pai, para dessa forma conseguir a condenação dos responsáveis pelo fato delituoso. Contudo, em livro que posteriormente escreveu sobre o assunto, o poeta afirmou jamais ter alimentado esse objetivo.

Ainda cheguei a ver um opúsculo, que alguém dera a meu pai, o qual continha a tese de defesa do brilhante causídico, jurista e escritor Celso Barros Coelho, que apesar disso se tornou amigo do poeta, tendo ambos sido colegas como procuradores federais (lotados no INSS), no magistério superior (UFPI) e como membros da Academia Piauiense de Letras (APL). O pequeno livro, em virtude de mudanças residenciais, terminou sendo extraviado, o que muito lamento, pois hoje poderia ser uma relíquia de minha biblioteca, pela raridade, e por ser um documento referente a um fato rumoroso do Piauí, e que abalou Parnaíba, no último trimestre do ano de 1959.

No começo de 1977 fiz amizade com Paulo de Athayde Couto, meu colega do curso de Administração de Empresas, filho do professor Lima Couto, poeta e erudito, que, para gáudio meu, admirava meus poemas, e com quem conversei tantas vezes, sobre poesia e outros assuntos culturais, debaixo do caramanchão do jardim de seu sobrado. Lima Couto admirava os poetas Abgar Renault, Longfellow e Tagore, dos quais recitava de memória alguns versos.

Paulo Couto, também poeta, começou por essa época a publicar crônicas no jornal Folha do Litoral. Em sua companhia, fui algumas vezes à casa do Alcenor, datando daí a nossa amizade, que se mantém inalterável e sólida, através do respeito e da admiração recíprocos, regada a muita conversa e eventuais goles de cerveja. O Paulo e eu participamos dos seguintes livros: Salada Seleta (prefaciado por Alcenor), Galopando, Em três tempos e Poesia do Campus (editado em minha gestão no Diretório Acadêmico 3 de Março).

2

Nas vezes em que estive na casa de Alcenor, via na parede o retrato em preto e branco de seu pai, cuja essência biográfica e morte trágica já conhecia, mas nunca lhe indaguei a respeito, como se isso fosse um tabu ou assunto interdito, ao menos para mim. Porém, como no poema drummondiano, sabia que não se tratava apenas de uma fotografia na parede, mas de um símbolo do amor e da saudade, que certamente lhe pungiam a alma de poeta e de filho, como bem se pode constatar na leitura do poema elegíaco Passando em revista, cuja estrofe inicial transcrevo:

Passando em revista
o tempo da noite
vejo que meu pai
Alcenor Rodrigues Candeira
(trucidado em 59
pela família Cavalcante)
continua na parede
sem cabelos brancos
como eu não queria.

Tampouco tratei desse assunto com Canindé Correia, meu compadre e amigo há quarenta anos, casado com Tânia, sua irmã caçula, cuja mão o velho Alcenor segurava, na hora fatídica, no momento em que os sinos dobravam, não a finados, mas assinalando o instante final para a saída da procissão de Nossa Senhora das Graças, a padroeira da cidade; dobrava ele, no dia 11 de outubro de 1959, às cinco horas da tarde, a última esquina em direção à catedral e a curva fatal de seu destino. Muitos anos depois, o meu parente Geraldinho (Geraldo Majella Nunes de Carvalho) contou-me que seu pai, o magistrado Geraldo Majella de Carvalho, meu professor no curso de Direito, de forma algo enigmática o levou a ver a lápide do túmulo de Alcenor, em que ele leu o epitáfio: “Exemplo de honestidade, coragem e lealdade. ‘... E porque vivo ninguém o venceria covardemente o mataram.’”

Nunca seu pai lhe explicou a razão dessa visita inesperada e um tanto misteriosa em seu objetivo ao Cemitério da Igualdade. Nesse velho campo santo, no qual talvez tenha se inspirado H. Dobal, para fazer um poema homônimo, integrante de A Serra das Confusões, foi sepultada a minha prima Verônica Melo, falecida no auge de sua beleza e juventude, em virtude de um acidente com um fogareiro a álcool, cujo túmulo descobri por acaso, se é que existe o que chamamos acaso; a poetisa Luíza Amélia de Queiroz, de cujo mausoléu rebentou magnífica e copada gameleira, que partiu e retorceu a lápide, como para lhe atender o pedido expresso em versos, de que desejava repousar à sombra dessa árvore; o professor Amstein, engenheiro suíço, alto, de barba e cabelos ruivos, de muita verve e imaginação, quase um mitômano, que, no dizer de Renato Castelo Branco, era “barulhento, inconsequente e brincalhão”, e que já chegara a Parnaíba “montado em uma meia-verdade”; minha irmã Josélia, morta quando mal completara 15 anos, no apogeu de sua beleza e contagiante simpatia, em cujo jazigo meu pai fez afixar uma placa com os versos imortais de Da Costa e Silva: “Saudade – asa de dor do pensamento!”

Mas a Igualdade do nome é um tanto desmentida porque ao lado de sepulcros singelos estão os suntuosos mausoléus de (outrora) poderosos industriais, políticos e empresários.

3

Transposta a digressão do parágrafo acima, reponho a locomotiva e o leitmotiv desta crônica memorialística e depoimento nos trilhos. Ao longo desses quarenta anos de amizade, eu e o Alcenor Candeira Filho participamos de muitos projetos literários em comum. À guisa de exemplo, sem consulta a livros e documentos, fomos partícipes de várias coletâneas e antologias, entre as quais cito: Poemágico – a nova alquimia, Poemarít(i)mos, A Poesia Piauiense no Século XX (org. Assis Brasil), Baião de Todos (org. Cineas Santos) e Antologia dos Poetas Piauienses (org. Wilson Carvalho Gonçalves). Fomos coautores de A Poesia Parnaibana e Parnárias – poemas sobre Parnaíba, dos quais também foram coautores Adrião José Neto (do primeiro) e Inácio Marinheiro (do segundo). Fomos ambos colaboradores dos jornais alternativos Inovação, Querela e Abertura, que circularam a partir da segunda metade da década de 1970.

Na seara da poesia e da prosa, arrolo os seguintes livros de sua autoria: Sombras entre ruínas, Rosas e pedras, A insônia da cidade, Antologia poética, Teoria do texto e outros poemas, Parnaíba: meu universo, Das formas de influência na criação poética, Aspectos da Literatura Piauiense, Literatura Piauiense no Vestibular, Memorial da cidade amiga e O crime da Praça da Graça. Nestes livros estão estampados belos poemas da literatura piauienses e fulgurantes textos da melhor prosa. Muitos analisam e elucidam aspectos da mais alta relevância de nossa arte literária.

O certo é que, em resumo, sua prosa límpida, objetiva, concisa, de bem delineada temática e redação, foi sempre admirável. E sempre lhe aplaudi os poemas, de diferentes matizes, assuntos e época, seja o mais singelo ou o mais criativo, o mais discursivo ou o de maior plasticidade, seja o repassado de telurismo, a cantar a beleza arquitetônica ou natural de Parnaíba, seja o que retrata figuras populares, dramáticas ou jocosas, ou ainda os que denunciam as mazelas sociais e da política. Para não falar de suas intertextualidades inventivas e de seus instigantes metapoemas.

4

Não tive a honra de ser seu aluno. Contudo, ouvi vários depoimentos sobre sua performance como professor, sobretudo de literatura, no ensino médio. Fátima, minha mulher, foi sua aluna, e sempre teceu entusiasmados elogios às suas aulas, ao modo como ele sabia prender a atenção do discípulo. Sem dúvida pode ele ser considerado um dos melhores mestres dessa disciplina, tanto por ser um cultor das letras, como por ser um leitor voraz de obras literárias e de teoria do texto e da literatura. Posso, assim, afirmar que muitas de suas aulas eram verdadeiras conferências, ele que é um esmerado conferencista e tribuno, tanto pelo conteúdo, quanto pelo timbre, dicção e cadência vocal. Sem medo de errar, posso dizer que ele foi magistral no magistério, que sempre desempenhou com zelo, vocação e entusiasmo.

Já tive ocasião de reconhecer que ele foi pioneiro na imprensa alternativa piauiense, sobretudo na que utilizava o mimeógrafo, na qualidade de colaborador e de um dos idealizadores do jornal O Linguinha, cujo número inaugural foi lançado na noite que marcou a passagem de 1971 para 1972. Também afirmei o seu pioneirismo na publicação de livros mimeografados, no formato “apostila”, ao publicar os livros Sombras entre ruínas (1975) e Rosas e pedras (1976), com belos poemas elegíacos, em que se percebia certo pessimismo e algum timbre ou ressonância do simbolismo, sem embargo de sua modernidade e de denúncias socais e políticas, que atacavam as mazelas de então e de sempre. Publiquei essas afirmativas em sítios internéticos e nunca recebi contestação, razão pela qual as reitero agora.

Por oportuno e para não ficar me repetindo ou chovendo no molhado, acho melhor trazer à colação o que já disse alhures:

Durante quase todo o século XX, até meados da década de 70, a poesia feita no Piauí era um amálgama do simbolismo, do parnasianismo e, principalmente, do romantismo, com a predominância de temáticas elegíacas e, sobretudo, líricas, povoadas de amadas intocáveis, inatingíveis, com os poetas chorando essas paixões interditas. Posso afirmar, sem medo de erro, que o modernismo chegou muito tardiamente ao nosso Estado, mais precisamente na segunda metade da década de setenta (ao menos enquanto sistema literário), com a chamada geração mimeógrafo, geração 70 ou ainda geração pós-69, não importa que nome se lhe queira dar. Chegou para ficar, revisitando todos os ismos e todos os modernismos de 1922 até a contemporaneidade. Tanto isso é verdade, que já tive oportunidade de afirmar no meu opúsculo Aspectos da Literatura Parnaibana:

“É preciso que se diga e agora vou dizer, sem vaidade, mas também sem falsa modéstia: antes de Alcenor Candeira Filho, com seus dois livros (“Sombra entre Ruínas” e “Rosas e Pedras”), impressos em mimeógrafo, pioneiros, inclusive em termos de Piauí, da utilização desse equipamento na confecção de livros, que passou a designar uma geração literária, deste escriba e do poeta V. de Araújo, ambos com poemas publicados, ainda nos idos de 1977/1978, nas páginas de “Folha do Litoral”, o que se via em Parnaíba eram poemas obsoletos e formalmente ultrapassados, sobretudo sonetos de cunho parnasiano, escola já destroçada em 1922, pelo movimento dos modernistas, mas cujos influxos ainda não haviam chegado a Parnaíba, ao menos publicamente, através de livros e jornais.”

5

Na qualidade de homem e de crítico literário sempre procurou ser franco e veraz, e nunca gostou de fazer concessões espúrias e nem elogios imerecidos. Por isso mesmo não faz promessas que não queira ou possa cumprir. Tanto isso é verdade (e conto isso apenas para ilustrar o seu caráter), que o confrade Homero Castelo Branco, com seu jeito bonachão, relata, com muita verve e graça, uma anedota verídica a seu respeito. Numa disputa eleitoral da Academia Piauiense, ele pediu, por telefone, o voto do poeta Alcenor. Este, com bons modos, mas com a sua reconhecida franqueza, respondeu-lhe que já estava comprometido comigo. Homero, de plano, lhe retrucou, com seu notável senso de humor e presença de espírito: “Pois faz muito bem! Se eu também fosse acadêmico, votaria era no Elmar”. Na eleição seguinte, o Alcenor e eu tivemos a satisfação e honra de lhe sufragar o nome vitorioso.

Como servidor público foi exemplar, ao cumprir os seus deveres com competência e responsabilidade, tanto nos cargos efetivos, como nos de confiança. Procurador federal, foi agente do INSS em Parnaíba por vários anos, sem que se ouvisse o menor ruído que pudesse desabonar sua conduta; antes, pelo contrário. Foi secretário da Educação e de Gestão do município de Parnaíba por doze anos, tendo exercido esses dois cargos com probidade e correção administrativa.

Fora da literatura, consolidamos nossa amizade e admiração recíprocas, que já remontam a quatro décadas, através de uma boa conversa e de uns bons goles de cerveja, em saudáveis libações etílicas, como diria o saudoso “confrade” Pereira, ou melhor, o imortal Pacamão, do livro de Assis Brasil e de meus PoeMitos da Parnaíba. E ainda por cima, pertencemos à nação rubro-negra, tendo os amigos Gervásio Castro e Fernando di Castro, irmãos e flamenguistas, nos feito belas charges, em que envergamos a camisa e o glorioso escudo do Flamengo.

Fomos motociclistas por muitos anos, de forma que não posso esquecer os meus verdes anos parnaibanos, em que os meus vastos e bastos cabelos ondulados farfalhavam ao vento, a percorrer em minha moto uivante as ruas noturnas de Parnaíba, como um jovem lobisomem que então eu era. Ó tempos! Ó saudades imortais de um tempo extinto, mas sempre ressuscitado na cornucópia incessante da memória.

Ao fazer esta espécie de crônica memorialística e depoimento sobre Alcenor Candeira Filho, tive o desiderato de prestar uma homenagem e um reconhecimento a um notável intelectual, professor, poeta e escritor que, com honestidade, sem ciúmes e sem inveja, sempre reconheceu, louvou e exaltou os verdadeiros valores da literatura parnaibana e piauiense, tanto na tribuna de uma sala de aula e dos auditórios, como através de seus livros e escritos avulsos, publicados em periódicos e na internet.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A Beleza e seu Labirinto (*)



A Beleza e seu Labirinto (*)

Elmar Carvalho

Não quero mais a alegria postiça
das bonecas de porcelana.
Tampouco me apraz a beleza fugidia
das lourinhas de farmácia.
Fujo agora dos peitos abundantes
redundantes das bombas de silicone.
Não me comove a simpatia
das meninas amestradas.
Tampouco almejo a presença
das damas ou moças de companhia.
Persigo tuas negras pupilas escondidas
detrás de azuladas lentes de contato.
Já não admiro a beleza
morena da cosmética.
Driblo as armadilhas da sedução
programada das moças de programa.
Descreio da perfeição e juventude
fornecidas por bisturis e botox.
Descarto o sexo sem nexo
solitário das bonecas infláveis.
Me acautelo contra as roupas suntuosas
e joias cintilantes das bonequinhas de luxo.
Não me agradam as cicatrizes florais
de exageradas tatuagens panfletárias.

É que me tornei o anjo da destruição
de todas as lojas de horrores.

Mas, contraditório e viniciano, admito:
a beleza é sempre fundamental.
Ainda quando aperfeiçoando
e amplificando a beleza natural.

(*) Poema inédito, que publico agora a pedido do amigo Cunha e Silva Filho. Após vários anos sem produzir nenhum texto poético, elaborei este poema no dia 05/10/2018, no ensejo da entrevista que concederia ao programa “Justiça às suas ordens”, exibido pela TV Assembleia, no dia 16, cujo vídeo pode ser acessado pelo You Tube ou neste blog.   

domingo, 28 de outubro de 2018

Elmar Carvalho fala sobre literatura e ambientalismo


Julguei oportuno transcrever o comentário abaixo sobre o vídeo supra, da lavra do escritor e  professor universitário Cunha e Silva Filho, mestre, doutor e pós-doutor em Literatura Brasileira:

Meu estimado Elmar Carvalho, amigo de longa data, que vem daquele marco inaugural de amizade vivida a partir de 1990, em Amarante, quando o conheci moço na casa dos trinta, muito motivado a percorrer um caminho trilhado de braços dados com a Poesia, tanto a proveniente das leituras inúmeras de autores e obras que tem feito ao longo da vida quanto da que foi escrita pelo seu talento.

Essa entrevista, que ouvi com interesse, confirma a origem de sua formação intelectual, a qual combina o amor aos estudos, notadamente no campo poético, e o seu pertinaz desvelo pela Natureza, o que não é senão o cuidado com que tem sempre demonstrado não somente nos poemas tematizando o meio ambiente do interior, a flora e a fauna, o seu conhecido amor aos animais tanto quanto vemos em outros autores brasileiros que se distinguiram igualmente pelo amor a todos os seres que compõem o que nós podemos chamar de paisagem vegetal e animal(estou pensando, entre outros, no grande ficcionista Guimarães Rosa, tendo à frente aquela estória extremamente humana do "burrinho pedrês"), aí incluindo os homens de boa vontade, a beleza de tudo o que simboliza a Vida.

A entrevista, considerando essas questões, é mais um passo de um escritor que dá testemunho de sua real preocupação com o meio-ambiente tanto o construído pela poesia e ficção quanto o que provém de seu pensamento sobre questões dessa ordem.

Meus parabéns e meu abraço fraternal.

Cunha e Silva Filho    

Seleta Piauiense - Durvalino Couto Filho



O rei estava ensimesmado

Durvalino Couto Filho (1953 - )

O rei estava ensimesmado,
De sua boca nada se ouvia
– nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia se calado
e o país inteiro adormecia.

O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os boias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.

Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia.
Adeus, véus de Alexandria!

Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
“Nada mudou no Brasil.”

Fonte: A poesia Piauiense no Século XX, org. Assis Brasil   

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

FLAGRANTES DE BELÉM


FLAGRANTES DE BELÉM

Elmar Carvalho

              (Reconstituição minimal
               de um poema perdido.)

No lusco-fusco da chuva
intermitente de Belém
um guarda impaciente
envolto na capa e na solidão
aguarda um outro
guarda que não vem
para o ato de rendição.

Um impudente
fauno de pedra de pé mijava.
Uma imprudente
ninfa de cócoras
o cântaro emborcava:
água na água
chuva chovendo no molhado.   

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Cemitério campestre




Cemitério campestre, perto da cidade de Angical do Piauí. Fotos de minha autoria.

Cemitério campestre

Elmar Carvalho

Nesta segunda-feira, de manhã cedo, quando eu vinha de Teresina para Regeneração, resolvi, mais uma vez, dar uma olhada no cemitério campestre, que fica na beira da rodovia, um pouco antes da cidade de Angical. Três ou mais galpões, cobertos de telha, protegem os mortos desse bucólico cemitério.

Dá a impressão de que parentes e amigos, zelosos, cuidadosos, desejavam proteger seus mortos da chuva e do sol. No adro de um desses telheiros, o cruzeiro estendia seus braços bem abertos, como se quisesse abraçá-los. Recordei-me de que, muitos anos atrás, quando eu estava na flor de minha adolescência emotiva e sentimental, fiz esse mesmo percurso, em ônibus da empresa Jurandi, que parava em quase todas as cidades do itinerário, em companhia de meu amigo Otaviano Furtado do Vale, que morara em Regeneração.

Íamos, ali, passar um final de semana.  Fomos antecedidos por uma carta dele, comunicando nossa viagem, e naturalmente solicitando hospedagem aos anfitriões. A missiva tinha uma propaganda enganosa a meu respeito, pois dizia, para a destinatária, filha dos donos da casa, que eu era parecido com famoso galã das telenovelas de então.

De qualquer modo, cumprimos a nossa missão, pois tomamos umas boas talagadas de calibrina, dançamos no clube da cidade, onde hoje está instalada a Câmara Municipal, e terminei conseguindo uma namorada, que a névoa do tempo já esfumaça em minha memória. Nessa viagem, chamou-me a atenção um outro campo santo campesino, com túmulos em ruínas, cruzes decepadas, anjos de asas partidas...

Ao retornar, fiz um poema que falava de um agre e agressivo agreste, de um cemitério abandonado, e da paisagem dos cerrados da Chapada Grande, de beleza ímpar, mas tão diferente dos planos tabuleiros de minha terra natal, respingados de corcovas de cupins e pontilhados de carnaubeiras, sobretudo no inverno, em que a terra se estende como um tapete de gramíneas e babugens.   

23 de fevereiro de 2010   

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

DESVIRTUANDO A DEMOCRÁTICA OBRIGAÇÃO ELEITORAL



DESVIRTUANDO A DEMOCRÁTICA OBRIGAÇÃO ELEITORAL   

Antônio Francisco Sousa -  Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)
 
            Mais recorrentemente, durante o último radical, irascível e violento processo eleitoral, em que, apesar da grande votação conseguida nas urnas, os dois candidatos remanescentes na disputa pela presidência da república também foram os que obtiveram os piores índices de rejeição, pensadores, estudiosos e outros iniciados passaram a emitir opiniões, dar seus pontos de vista a respeito do que consideram ou definem como obrigação eleitoral. Para eles, mais que o dever de nos apresentarmos à Justiça eleitoral nas datas estabelecidas para as eleições, nós que vivemos em um país em que normas legais nos coagem, compulsoriamente, a fazer isso, escolher alguém que se coloca à disposição dos eleitores para representá-los nos governos e parlamentos, por pior que seja a figura ou por pior que ela possa ser, constitui-se no cumprimento final e integral daquela obrigação. Para ditos iluminados, anular o voto ou votar em branco seria crime de lesa-pátria. Ou seja, na visão daquela turma, não serve de justificativa aventar a possibilidade de que os postulantes possam parecer desinteressantes ou indignos de receber nosso voto consciente; se eles estão lá, isso basta: só por esse motivo já merecem recebê-lo.  

            A propósito, duvidaria que muitos dos pleiteantes a uma cadeira no parlamento ou no governo, notadamente, os menos preparados, os mais antipáticos, preguiçosos e incompetentes, antes de decidirem postular um cargo eletivo, hajam feito uma espécie de consulta, ao menos entre amigos e familiares, a fim de saberem se poderiam aventurar-se em uma batalha insana e cruel como é o processo eleitoral. Nem sempre é por ideologia que alguns se lançam, mas por vaidade, pretensão tola e descabida, senão, sub-reptícias e escusas intenções; uma vez que, para não poucos, nem no mais remoto de seus sonhos, esperariam chegar lá pelos próprios meios, ou seja, por conta dos votos obtidos.

            É fato que somente nas democracias votar é um direito; todavia, parece mais exigência ditatorial do que democrática, uma espécie de obrigação eleitoral que, não bastasse ser, compulsoriamente, estabelecida pela constituição e por um conjunto de normas específicas, pretendesse induzir o cidadão a, mais que comparecer às urnas, votar, ainda que contra sua vontade, em pessoas das quais discorde ideológica, moral ou eticamente, apenas porque se lançarem na disputa.

Conceitualmente, entendo que há divergências entre o direito ao voto nas democracias tradicionais e no Brasil. Que direito é esse que não usufruído converte-se em obrigação? Mesmo sendo um dever, como, de fato, o é, seu cumprimento se consuma quando, nas datas próprias, vai-se a um posto ou local de votação e ali age conforme determina sua consciência. Votar em branco ou anular o voto, não seria descumprimento do dever, mas, sim, manifestação do direito de questionar ou de não contribuir com a eleição de quem não tenha condição nem capacidade para representá-lo dignamente.

            Independentemente do que possam pensar iluminados que, entendo, tentam desvirtuar o sentido democrático da obrigação eleitoral, considero cumprida a minha quando, após comparecer aos locais de votação, diante dos nomes disponibilizados como postulantes, em não encontrando nenhum que me interesse, anulo meu voto ou voto em branco.  

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lançamento de livros na APL

Fonte: Google


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para a solenidade de lançamento das obras da Coleção Centenário: Ermelinda,  de Lili Castelo Branco, nº 80;  e Teoria e Realidade da Desobediência Civil, de Nelson Nery Costa, nº 100, bem como Novas Páginas Parnaibanas, de Alcenor Candeira Filho, e, O Cantinho do Poeta, de Jonas Piauí.

                                   
Nelson Nery Costa
Presidente      

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

PARABÉNS PIAUÍ!

Fonte: Google

PARABÉNS PIAUÍ!

Carlos Henriques Araújo
Escritor e poeta

Não somos melhores nem piores do que ninguém. Somos nós, simplesmente, à nossa maneira, com nossas limitações, nossas riquezas, nosso potencial e, principalmente com nossa força de vontade.

Os piauienses resistem a todas as dificuldades que lhes são peculiares, e a outras, que lhes foram impostas no decorrer de várias décadas por razões as mais diversas: históricas, políticas, geográficas, sociais e econômicas.

O Piauí existe sim, apesar da crítica destrutiva, da ignorância de uns e da gozação de outros, com o seu nome e com o seu povo. E resiste a todas as dificuldades que lhes são peculiares, e a outras, que lhes foram impostas no decorrer de várias décadas por políticos inescrupulosos, desonestos e incompetentes.

O Piauí não é mais lembrado como o lugar onde o vento faz a curva ou onde Judas perdeu as botas. O Piauí é um estado rico em potencialidades e em oportunidades.

É o estado que tem a menor faixa litorânea, mas, assim como nos pequenos frascos é que estão os melhores perfumes, no seu litoral estão as praias mais bonitas do Brasil, de águas claras e morna, de areias brancas, sem poluição e recheados de belezas naturais, com ventos adequados para prática de esportes náuticos e geração de energia eólica.

Nele desemboca o rio Parnaíba, o maior delta em mar aberto das Américas e o segundo maior do mundo com 85 ilhas de praias paradisíacas.

No Piauí, o sol do equador brilha mais forte e seu calor proporciona um clima tropical saudável, propenso ao cultivo de frutas tropicais para exportação, e à produção de mel de abelha, com floradas o ano inteiro.

Seu solo é ótimo para o plantio de mamona matéria prima utilizada na produção do biodiesel. Foi o primeiro estado do Brasil a desenvolver esta tecnologia. Seu subsolo foi aquinhoado com os lençóis freático maiores do país, quiçá do mundo.

O Piauí tem o maior rio genuinamente nordestino, inúmeras barragens, lagoas propícias para projetos agrícolas de irrigação, piscicultura, carcinocultura e lazer.

É recordista na produção de grãos e o maior produtor de cera de carnaúba do mundo. É o segundo maior produtor nacional de mel de abelha e tem um dos maiores e melhores rebanhos de caprinos do Brasil.

Na medicina, é uma referência para o Norte e Nordeste. Na cultura, é o berço do homem americano, tem a melhor escola do ensino médio do país e um polo de ensino superior com uma excelente estrutura. Recebe estudantes de todo o Norte e Nordeste que sobressaem nos concursos públicos pelo Brasil afora.

A geografia do estado é privilegiada, tem de tudo: rios, cerrados, agreste, serra, praia, cachoeiras, lagoas mangue, banhado, reservas arqueológicas e formações rochosas.
Na região norte, repousa tranquila e acariciada pelas águas do rio Igaraçú, a cidade de Parnaíba, com um potencial turístico e de geração de energia eólica nos seus 24 km de litoral e principal braço do delta.

A cidade já teve seus tempos áureos, foi a fortaleza da economia piauiense. Hoje, seus monumentos históricos são testemunhos daquela época. Seu conjunto arquitetônico é um espaço cultural de inestimável valor.

Na região do agreste encontramos gente humilde e simples, mas hospitaleira. Na região serrana, o frio acolhedor se mistura com as riquezas das minas de opalas e a habilidade dos artesãos. O Parque Nacional da Sete Cidade é um mergulho no imaginário, com suas formações rochosas de formas espetaculares e inscrições rupestres que nos levam a viajar na história da humanidade.

Na região sul, os aficionados, pesquisadores e paleontólogos poderão se aprofundar nesse mergulho cultural visitando o Museu do Homem Americano, na serra da Capivara, em São Raimundo Nonato.
Na região do Gurguéia, o azul do céu parece tocar o verde das plantações de soja, que enchem os bolsos dos agricultores e fazem a alegria dos trabalhadores com a produção e exportação de grãos e óleo de soja, tornando-se o mais importante polo industrial do estado.

E Teresina, sua capital, é a Mesopotanea do Brasil. Situada entre dois rios: o Parnaíba, que nasce na Serra das Mangabeiras, na fronteira com o Estado de Tocantins, é o segundo maior rio do Nordeste, depois do São Francisco: e o Poti, nascendo na Serra da Joaninha, no Ceará, formado por um pequeno filete d’água que vai tomando corpo, atravessando chapadas e cânions, até se encontrar com o Parnaíba no bairro Poti Velho, no fenomenal Encontro das Águas.

Teresina nasceu urbanisticamente moderna. Foi uma das primeiras cidades do Brasil em que o projeto chegou antes da ocupação do espaço urbano.  A Chapada do Corisco, como ficou conhecida.
Teresina hoje não é lembrada apenas pelo seu calor, mas como um polo turístico de eventos, uma referência em saúde e educação e atende pessoas vindas de cidades dos estados do Tocantins, Pará, Maranhão e Ceará.

O Piauí é uma terra de artistas: músicos, intelectuais, artesãos, humoristas, escritores, poetas, jornalistas e pintores de renome nacional como Carlos Castelo Branco, mestre Dezinho, Evandro de Lins e Silva, Da Costa e Silva, H. Dobal, Mario Faustino, Torquato Neto, João Cláudio Moreno, Clodô, Climério, Luís Paiva, Lina do Carmo e muitos outros.

Por isso é que se diz: “É feliz quem mora aqui”.