terça-feira, 25 de junho de 2019

UM NOVO FICCIONISTA PIAUIENSE: JOSÉ DE RIBAMAR NUNES




UM NOVO FICCIONISTA PIAUIENSE: JOSÉ DE RIBAMAR NUNES

Cunha e Silva Filho

           Professor formado em Letras (UFPI), com especialização  em Teoria do Texto e  em  Literatura de Língua Portuguesa, além de  ser advogado e ex-funcionário do Banco do Brasil,  José  de Ribamar Nunes,  já maduro,   lança um  livro   de ficção, uma novela   para ser mais específico, cujo  titulo  logo   espicaça a curiosidade do leitor  pelo seu nome pitoresco  e sugestivo, caracterizando,   de início,  uma  narrativa  definidora  de um  determinado  espaço social e cultural  de Teresina, capital  Estado  do Piauí: Morro do Querosene, Prefácio de Celso Barros Coelho (Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2019. 206 p. Coleção Século XXI, nº 24. Capa e Revisão de Adriano Lobão Aragão.

     Por coincidência,    conheço  o autor  e sei  que é uma pessoa  muito   dedicada e  envolvida  com  a vida literária e cultural   piauiense e, por  essas razões, seria de se esperar que,  a qualquer  tempo,   viesse  a  publicar   uma obra  de estreia  que,  por suas  qualidades   de texto fluente  limpo, correto,  revela um  novo  ficcionista    com domínio  da história a ser contada,  com   perfeita harmonia  no desenvolvimento  de seus capítulos,  de resto,   muito bem  divididos e ainda mais agradáveis à leitura  por serem   curtos na maioria, o mais extenso  não ultrapassando  umas três páginas.

      Ora, uma estratégia  dessas  adotada pelo autor não é fácil de   contentar o leitor   a menos que  o capítulo  concentre em si  bem relatadas  células narrativas,   nos dando a sensação  da unidade  de cada    peripécia e nos impelindo  a ler com prazer os  relatos seguintes do livro.

   Nesse diapasão  de expor  seus vivíssimos, dinâmicos    e saborosos   relatos, perfazendo ao todo  cinquenta e um capítulos,  o narrador nos instiga a conhecer  a vida de bairros pobres teresinenses, alguns meus  velhos conhecidos do  tempo de menino  em Teresina,   como  o Porenquanto a Vermelha, a Piçarra quando partia  com amiguinhos da minha infância e  começo da adolescência em direção  aos banhos do rio Poti,  ou  quando passava  pelos  trilhos  da velha Estação  Ferroviária, ou pelo  velhusco  25 BC.        

     O enredo do Morro do Querosene  se desenvolve  em torno  da vida de aperturas  financeiras da família  de dona Joana que, primeiro, morava  no bairro  pobre do Porenquanto,  depois, sendo obrigada,   por não poder pagar o aluguel,  a fazer mudança para um novo   bairro,  a Piçarra.

     Dona   Joana, mãe dedicada  aos filhos, empregada  doméstica,   ainda  se virava em outras atividades   a fim  de prover  o sustento da família  e ainda mais porque  o marido  a deixara   sozinha à procura    de trabalho em outra terra.   Dos filhos pequenos, em número de quatro,  um deles, o João Luís, vai  desempenhar papel  decisivo na  história,  peça humana de menino a fazer girar a história  e a mostrar o quanto   a memória infantil-juvenil   é capaz de guardar  o bom  e o ruim  da existência humana e, se possível,  tentar  superar  as vicissitudes.   O movimento dos capítulos é acelerado, não havendo nem tempo  para   o leitor  se sentir  entediado, já que  a narrativa  o empurra para a frente  e satisfaz  o leitor  curioso  de conhecer novos e  palpitantes episódios  da novela.   
  
    Pode-se afirmar que  o personagem João Luís,  tão bem elaborado pelo autor, está fadado a ser uma  criação literária   que seguramente    comporá  a galeria de figuras  infanto-juvenis  da história da ficção piauiense (como aconteceu com Pedrinho,  em Ternura (1993),  romance de Francisco Miguel de  Moura). Sem tal grandeza de  personagem, a narrativa  não teria o bom resultado  que, a meu ver, teve em termos  de composição   ficcional. João Luís é  um personagem  que  salta do texto à vida  pelo convencimento de atributos  humanos   que o autor nele infunde com naturalidade,  sem artifícios  nem jogos de marionetes. Outros  na narrativa até podem  ser  rotulados  como apenas  figurações  sem  suporte   ficcional.

     A ficção de autores piauienses tem  tido razoável fortuna  crítica  em  romances  ou novelas   vivenciados  na cidade de Teresina. De autores do Piauí, posso bem lembrar aqui, no passado mais remoto ou menos remoto, ou mesmo atual, O Manicaca (1909), de Abdias Neve (1876-1928),  narrativa  ambientada na Teresina dos derradeiros anos do século XIX, ou menos remoto,  parte de Ulisses entre o amor e a morte (Teresina, Meridiano,1986),  de  O.G. Rego de Carvalho, Rio Subterrâneo (Teresina: Meridiano, 8ª edição,1888 ),  parte em Teresina, também de O. G. Rego de Carvalho, ou mais atual, Entardecer (2007),  de José Ribamar Garcia,  Meia-vida (1999),  enfocando  principalmente a área do troca-troca de Teresina, de Oton Lustosa, o excelente romance Vozes da  Ribanceira, no qual o cenário principal é o Poti (2003), também de  Oton  Lustosa,   Sabor de vingança (2015),  centrado no espaço da crescente  violência urbana  teresinense de Milton Borges.

    O narrador do  Morro do Querosene, em terceira pessoa,    apresenta um traço  singular:  dando voz ao  pensamento  da  perspectiva   de um personagem,  emprega, aqui e ali,  o discurso indireto livre,  o que  reforça uma forma  multifocal de  narrativa.  Mesmo quando  falando  de João Luís,   a voz do narrador  se orienta  pela perspectiva  ou  ângulo de visão  do pequeno   João Luís. Sendo assim, é    através sobretudo das aventuras infanto-juvenis desse personagem encantador   que a novela  propicia  uma visão por dentro  e por fora  da  realidade social e cultural  daquele  entorno   da Piçarra chamado Morro do Querosene – lugar tão  badalado nas suas    peculiaridades   de ser  o espaço da  prostituição e ao mesmo tempo  de residências  populares  das ruas  circunvizinhas.

      Duas observações  farei ao autor a seguir. Uma, de ordem de construção  textual do primeiro parágrafo   da narrativa, na qual separaria com um  ponto final a frase “Era um dia de domingo” e começaria com  maiúscula  a frase seguinte: “Pela manhã, de um mês de junho amenizava o calor  abrasador de Teresina que só atingiria  o ponto mais alto dali a dois ou três meses.”  A segunda observação  seria    de ordem técnico-narrativa e  se refere ao próprio narrador que se trai e se transforma, por um segundo de tempo de leitura,  em autor, através do uso de um dêitico, na expressão adverbial de lugar “aqui no Piauí” (p. 170). Desse modo,  ele sai da condição de  narrador (elemento interno do enunciado ) e passa à condição de autor (elemento  externo à narrativa )  no fluxo narrativo  em terceira pessoa. Bastaria para contornar   isso,  eliminar  o dêitico e a contração  “no.”

    O Morro seria um espécie de  centro nevrálgico da narrativa  -  uma espécie de personagem   inanimado   dos acontecimentos,   das alegrias, das tristezas, das tragédias,  dores, das desventuras, dos  incidentes  hilariantes    daquela  população  pobre  que ali residia. Para trás, ficara  definitivamente   o bairro Porenquanto, ao qual, malgrado a pobreza,  já estavam  habituados. Deixaram   um travo   de saudades de amizades e  brincadeiras  infantis.

     Por ouro lado,  o novo bairro da Piçarra começava a despertar no  pequeno João, porque  oferecia mais espaço aberto,  a antevisão  do principal  divertimento  da  sua fase da infância e adolescência   - o futebol  - símbolo de outros meninos  de várias gerações  de brasileirinhos   apaixonados por esse esporte, esse  “grande catalizador” assim definido pelo pensador e crítico literário  Tristão de Athayde ( Alceu Amoroso Lima, 1893-1983).

       A novela é igualmente uma  história  que, se não fosse exemplo de  honestidade   e de dignidade  de alguns de seus personagens despossuídos,  caso houvesse descambado  para  uma dimensão de personagens  desprovidas  de dignidade,  bem poderia ser um  prato cheio para uma novela  neopicaresca   tendo como  protagonista  as aventuras  do menino  João Luís. Entretanto,  o autor  perfilou  um personagem   da envergadura moral   desse menino  que, pelo comportamento   reto,  bem poderia   se enquadrar  numa novela de formação (Bildungsroman) se a continuidade do tempo  dos  episódios atingisse a maturidade  do herói.

      A novela  faz um recorte  temporal  que, grosso modo,  a situaria entre  os meados dos anos 1950 à primeira  metade dos anos 1960, numa Teresina ainda não  tomada  pelos anos  de modernização  mais  intensa  e de formação de novos bairros  com vida urbana    frenética    acossada pela violência. É nessa  Teresina  que  a vida de João Luís se vai consolidando  pelas diversas experiências  e mudanças  físicas, psicológicas, sociais e      culturais, em especial a passagem delicada de criança a rapazinho,  a descoberta do sexo, o onanismo,   as motivações,  ainda que  pueris,  amorosas,   o aprendizado do  sexo com marafonas e outras experiências  com  vícios  incentivados por más companhias.

       Da mesma forma, a visão social cedo despertada   pela frequência do protagonista na fase de crescimento  a outros ambientes sociais  mais   elevados  vai-se alargando  na consciência do João Luís, mas sem que a narrativa  entre no limiar da problematização  das relações de classe.

      Não há esse intenção  pelo menos abertamente declarada. No entanto,    o que  a narrativa  exibir são realidades estratificadas,  a dos despossuídos, dos remediados,  dos ricos. Duas saídas se vislumbram  para a mobilidade social:  a) por inciativa própria  e grande determinação  que possa  elevar   alguém a uma posição socialmente melhor. Poderia ser aqui  o caso de João Luís;  b) pela via de um casamento melhor (Maria Antônia, irmã de João Luís)  para um filha de pais  humildes.

      A importância da obra Morro do Querosene se reveste nas descrições  e narrações   precisas  e documentais  de uma ficção de costumes   de um bairro  periférico   de Teresina, de  situações  da realidade  vivida e presenciada  pela população  que ali  vivia  à sombra  protetora ou não do Morro. O quotidiano desse enclave social  radiografa, com mão de  mestre,   o pequeno mundo de seus habitantes  sujeito  às intempéries do dinamismo   social avassalador. . A família da  laboriosa  e honesta  dona Joana é apenas  uma   amostra do que seja  um fiel  retrato social  de uma dada fase passada   da vida teresinense.

    Julgo que, com essa obra inicial,   José  de Ribamar Nunes   se insere  de fato e de direito,   sem alardes nem   apadrinhamentos,   na história da ficção  atual do Piauí.       

domingo, 23 de junho de 2019

BARRAS DAS SETE BARRAS


Fonte: Acesse Piauí/Glogle

BARRAS DAS SETE BARRAS

Elmar Carvalho

                                   Ao historiador e amigo
                                   Dr. Wilson Carvalho Gonçalves

Barras ...
Barras do Marataoan ...
Dos cânticos de pássaros
e cântaros e címbalos de águas
em cantatas e cascatas
no rocio róseo-violáceo da manhã.
Barras das sete barras
– candelabro de sete braços de prata
líquida a escorregar macia
no dorso duro das pedras.
Barras do Longá alongando-se
e se estilhaçando em rondas de lãs
                                em rendas de espumas
nos bilros das pedras tecelãs.
Terra dos Governadores,
            do desgoverno das dores
das ciliciadas paixões
deliciadas na Ilha dos Amores.
Terra de uns olhos fluidos,
feitos de mágoas, magia e garrice,
embebidos na ciganice das águas.
Terra dos milagres da Alda,
a que morreu virgem,
na vertigem de um sonho
que num átimo se fez e desfez.
Barras da barragem
– miragem verdoenga
de minha origem/aragem avoenga.
Barras de risos e de ais
             de sempre e de jamais.
Barras das sete barras
Barras dos sete punhais
 de rios que se tecem pavios
e desvarios de réquiens
e exaltações, lembranças
e exalações ... 

sexta-feira, 21 de junho de 2019

No bar do Zé Lira

Foto antiga da sede da extinta Fazenda Estrela. Fonte: Luselene Macedo/Blog Super Campo Maior

No bar do Zé Lira

Elmar Carvalho

Estive ontem, no que eu chamo de “rápida circulação etílico-cultural periférica”, no bar do Zé Lira. Gosto de ir para lá porque fica perto da linha férrea, onde outrora passaram trens e locomotivas diversas, inclusive velha, negra e enfumaçada maria-fumaça, que passava bufando, resfolegando, enfeitada com o seu penacho de fuligem, a apitar saudosamente, como a dizer adeus a um tempo que não perduraria muito, e nas proximidades da casa grande da Fazenda Estrela, que ainda está de pé, embora quase em ruínas.

Mas vou, principalmente, porque de lá tenho uma bela visão da pequenina Serra Grande, na verdade morros isolados de Santo Antônio do Surubim, além de que, na ida e na volta, contemplo o pequeno, porém grande em beleza, Açude Grande. Ali perto, existiu um campo de futebol, chamado de rabo-da-gata, onde eu me transformava em verdadeiro gato, a fazer belas, elásticas e acrobáticas defesas, segundo dizem alguns amigos “pebolistas”.

Zé Lira é um cidadão sério e trabalhador, e que imprime respeito ao ambiente. Ontem, admirado com a qualidade das músicas que estavam sendo tocadas em seu aparelho de som, perguntei sobre quem as pedira. Com um sorriso traquina, respondeu-me que fora ele mesmo que as pedira. Tornou a repetir que gostava de pescarias e caçadas. Acredito que a afirmativa não é história de caçador e nem de pescador porque ele teve a humildade de dizer que era caçador de mocós, preás e outros pequenos animais, e não de onça.

Falou que é natural do município de Barras, de uma localidade situada entre Cabeceiras e a sede daquele município, porém depois foi residir num local perto do cruzamento da estrada que vai para Boqueirão com a BR.

Quando estava já quase de saída, em companhia do Zé Francisco Marques, chegaram o Sílvio Andrade e o Leni, meus velhos conhecidos. Sílvio é irmão de meu saudoso cunhado Zé Henrique, filho de dona Conceição e senhor Antônio Almeida, ambos falecidos. Fomos vizinhos na adolescência, quando nossos pais moraram perto, em casas que ficavam na rua do Estádio, a Capitão Félix.

Quando morei nessa rua, costumava jogar bola no campinho que ficava na beira do açude, numa praia de alvas e finas areias, em que perpetrei algumas “pontes” ornamentais, verdadeiras pontes estaiadas, na posição de goleiro. Esse campo ficava detrás da casa do tenente Jaime da Paz, ex-prefeito de Campo Maior, em cujo quintal verdejavam e se requebravam vários coqueiros, que me lembravam o mar que eu ainda não conhecia, a não ser por fotografias e pelos filmes exibidos no inesquecível Cine Nazareth.

Esse campo depois foi soterrado pela avenida de contorno da laguna, mas teima em existir na minha saudade. Nesse tempo ditoso, o açude praticamente não era poluído, e após o jogo tomávamos gostoso banho nas suas águas tépidas e de pequeninas ondas.

Depois, passei a jogar no campo do Grupo Escolar Leopoldo Pacheco, que era ingrato, áspero e intratável, como o cacto do poeta Bandeira, por causa da piçarra do terreno, que era uma verdadeira lixa a esfolar a pele dos atletas, principalmente goleiro, como era o meu caso. O imperador da época e do pedaço era o Otaviano, que até tem mesmo nome de imperador romano; era o dono da bola e do time.

Como não poderia deixar de ser, falamos do Zé Henrique, que, além de irmão do Sílvio, era amigo de nós três. Lembramos que, algumas vezes, quando tocado de leve pelo álcool, ele chegava a dar a própria camisa, quando se comovia com a pobreza de algum pedinte que o abordava. Foi bom rever esses amigos, e com eles ter confraternizado e conversado.   

15 de março de 2010  

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Areia suja de sangue na frente da igreja

Fonte: site da APAL


Areia suja de sangue na frente da igreja

Pádua Marques
Jornalista e escritor

Veio dos lados da cozinha um barulho de louça caindo. Dona Isabel já estava recolhida à camarinha e Simplício ainda sentado com os pés fora dos chinelos quando foi alertado de que alguém estanho estava dentro de casa. Correu a mão na vela e chamou Florindo que dormia nos fundos da casa. Antes, pegou o punhal em cima da mesa e apurou o ouvido.

Simplício era gago quando tomado por uma situação de perigo. Ao ver Florindo entrando pelo corredor mal iluminado, ficou ainda mais gago. Os dois homens foram caminhando na ponta dos pés no rumo da cozinha enquanto dona Isabel e as filhas ficaram na porta dos aposentos esperando saber do que se tratava. Não era coisa de rato mexendo nos trens da cozinha e na carne salgada. Era coisa de gente. E essa gente, se é que se podia dizer ser gente, era um escravo.

Pegaram o negro. Alto, de canela fina, nu da cintura pra cima, catinga de aguardente e cara bexiguenta. Uns trinta anos, se pouco. Os olhos vermelhos que nem postas de sangue. As palmas das mãos amarelas. Florindo mandou que cantasse o nome e de onde estava fugindo. O negro calado estava, calado ficou. Simplício estava mais atrás, segurando a vela na altura dos olhos. Outros criados chegaram e amarraram o negro.

Arrastaram pelos fundos da casa e lá no terreiro, Simplício desferiu uns dois golpes na cabeça com o cabo do relho. Não queria mancha de sangue dentro de sua casa. O mel desceu. Ferido, o negro disse que estava fugindo do Maranhão, onde era procurado porque matou um tio. Veio à procura de comida, um pouco de sal e farinha. Era conseguir a comida e ganhar o rumo do porto pra comer com os embarcadiços que subiriam pra Tutoia e depois São Luiz.

Foi retirada a faca que o negro trazia no cós da calça e entregue a Simplício. Pego com a mão no que era alheio, dentro da casa, agora iria arrenegar da hora que nasceu e de onde havia vindo. Mandou amarrar o negro num tronco ainda naquele início de madrugada. Voltou pra camarinha e tratou de acalmar a mulher e as filhas. No outro dia era mandar saber nas redondezas sobre um cativo assim e assim, como quem não quer nada. Ainda estava escuro quando Florindo e mais dois negros da casa grande começaram a surrar o fugitivo ladrão.

A ordem de Simplício era de que fosse antes do sair do sol. Pra não dar motivo que ninguém se acordasse. Surrou, fosse levado pra bem longe. Nada de compaixão com o diabo daquele negro! E sendo ladrão, pior ainda! Se não aguentasse e morresse, que jogassem o corpo bem longe pra os urubus comerem. Carne desgraçada! Nem valiam a fortuna que custavam no cais de Recife e de Salvador. Custavam mais que o gado pra tirar carne e leite.

Simplício, que não falava com negros cativos, não dormiu o resto da madrugada. Não que tivesse remorso pelo que Florindo estava fazendo com o escravo ladrão. Lembrou o irmão Raimundo, assassinado há vários anos pelos inimigos da sua família, na biqueira da casa. Aquela morte tão cruel e que até agora vinha acabando com sua saúde. E agora aquilo, ver sua casa invadida e todo o risco de perder o sossego com dona Isabel, a fortuna e as filhas naquela terra ingrata. Um negro dentro de casa. Um negro entrando pelos fundos da casa e já de posse de uns pratos! Pois que se morresse, que fosse enterrado com o produto do roubo! Servisse de lição! Lá pelas tantas ouviu de longe umas vozes no meio do largo. Eram de certo Florindo e os outros que haviam terminado o serviço.

O negro morreu de tanto levar punhaladas. Foi por isso que não se ouviram gritos naquela madrugada. Depois de darem muita aguardente foram matando aos poucos.  Seu corpo foi enterrado no meio do campo, um pouco afastado da igreja com os objetos roubados da cozinha de dona Maria Isabel Thomásia de Seixas e Silva. Pratos, talheres, um pouco de sal e de farinha dentro de um paneiro. Uma miséria. Até hoje, no lugar onde está enterrado existe um formigueiro.   

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A data correta da construção da Igreja de Frecheiras

Fonte: Jornal da Parnaíba/Walter Fontenele/Google


A data correta da construção da Igreja de Frecheiras

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Frecheiras da Lama, no município de Cocal (PI), teria sido construída na segunda década do século XVII ou no terceiro quartel do século XVIII?

O e-book “História e Fé na Conquista do Sertão do Norte: A CAPELA DAS FRECHEIRAS”, da autoria do pesquisador e historiador Vicente Miranda, publicado pela Editora da Universidade Federal do Piauí, demonstra, através de documentação, de argumentação contextual lógica e da interpretação apropriada e harmônica dos algarismos e das letras (iniciais) das duas cruzes vistas em seu frontispício, qual a data correta de sua construção.

O livro virtual pode ser lido através do link:  http://www.ufpi.br/e-book-edufpi.  

terça-feira, 18 de junho de 2019

A existência de Deus e os seus planos


 
Fonte: Google
A existência de Deus e os seus planos

Elmar Carvalho

Releio, pela enésima vez, este texto de Epicuro: “Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?”

Nunca me inquietei com essas indagações, e sempre tive resposta para elas. Apenas nunca externei o que sempre esteve em minhas convicções e fé. Enfrentarei a problematização da primeira parte da citação e tentarei encontrar uma resposta. Em momento algum Epicuro negou a existência de Deus. Portanto, a admitiu. Aliás, todas as perguntas partem do pressuposto de que Deus existe. Faz tempo venho adiando escrever uma crônica, que forceja em meu cérebro, louca para ser dada à luz da publicidade. Escrevê-la-ei agora, e com ela tentarei responder aos questionamentos epicurianos.

Quando fiz minhas primeiras viagens aéreas, tinha muito medo, e sequer olhava para as belezas que poderia ver da janela, fosse uma bela e verdejante colina ou uma caprichosa enseada marinha, ou fosse o celestial alumbramento das nuvens, nas quais gostaria de deitar e rolar. Entendi que esse medo de nada adiantava, já que eu era forçado a enfrentar a viagem. E se houvesse algum acidente, de nada me valeria essa inquietação. Portanto, era inútil, e apenas me incomodaria durante o voo.

Além do mais, considerando que avião é o meio de transporte mais seguro, exceto elevador, eu apenas sofreria por algo que dificilmente iria acontecer. Por outra parte, raciocinei que o avião fora construído por quem sabia o que estava fazendo, por quem tinha conhecimento, ciência, experiência, e a mais avançada tecnologia e os mais adequados e sofisticados materiais.

Também pensei com os meus botões: quem o pilotava sabia o que estava fazendo, estudara, tinha um plano de voo e igualmente seria vítima de eventual erro que cometesse, pelo agiria sempre com responsabilidade e prudência. Assim, decidi confiar, mesmo porque não poderia fazer outra coisa, uma vez que resolvi entrar na aeronave.

Da mesma forma, para responder às indagações do filósofo, direi que Deus, cuja existência ele admite no enunciado de seu silogismo, tinha e tem pleno conhecimento de sua obra e, certamente, tem um plano maravilhoso e perfeito, como só podem ser as obras divinas. O que sucede é que nossa inteligência e nossos conhecimentos são diminutos, para que possamos entender a mente e a inteligência infinita de Deus, como igualmente não conhecemos os pormenores de seu plano.

Ora, quanto mais o homem tenta perscrutar os umbrais do infinito, do infinitamente grande, mais novas grandezas ele descobre no espaço sideral. E, quanto mais se volta para o infinitamente pequeno das partículas e da mecânica quântica, mais se surpreende com subpartículas cada vez menores e cada vez mais sutis.

Até já disse, num de meus poemas, que atingi o infinito ao ficar infinitamente pequeno. Dessa forma, entendo que não devemos nos preocupar com as indagações do velho Epicuro. Confiemos no criador da aeronave, que é Deus, e confiemos no plano de voo do piloto, que também é Deus. Talvez Ele, que é perfeito, não tenha desejado criar uma obra pronta e acabada, mas uma em construção, em permanente marcha para a perfeição, apesar dos momentâneos e aparentes retrocessos.

E, no final dessa odisseia, que é a própria existência, chegaremos ao porto final, sãos e salvos, puros e redimidos, recolhidos ao corpo místico de Deus, como pequeninos agasalhados em colo aconchegante e protetor.

Para finalizar, considerando que Epicuro fez várias perguntas, seguindo as pegadas e as lições de Lavoisier, quero fazer apenas uma: será se algo ou alguém que obteve a existência poderia algum dia perdê-la, ou haverá apenas uma transformação existencial, uma nova dimensão do existir, do ser? Sem ansiedades, confiemos e esperemos. Em Deus.

10 de março de 2010

segunda-feira, 17 de junho de 2019

A negra que abanou os queixos de Simpilição

Fonte: Blog do Professor Gallas


A negra que abanou os queixos de Simpilição

Pádua Marques
Jornalista e escritor

Negra Gonçala procurou relho pros couros e palmatória pras solas das mãos. Naquele domingo da entrada de junho achou de trazer pra o largo da matriz uma penca de filhos e netos, pronta que estava pra batizar um deles. Achou que, sendo antiga criada da casa de Domingos Dias da Silva, alforriada e tendo passado parte de sua vida com a barriga encostada no fogão daquela casa, tinha direito a ser tratada, ela e os seus, como gente do palácio.

Eram mais de quinze negros entre homens mulheres e crianças, todos vestidos com suas melhores roupas de domingo e que desceram do Testa Branca pra assistirem missa e batizarem o menino. Negros que davam uma guerra. A missa daquele domingo foi a de costume. O velho Domingos, a mulher e os filhos e alguns poucos convidados. Nada de cativos e agregados dentro da igreja. Se quisessem, que assistissem do lado de fora!

Mas a negra Gonçala estava na moita e esperando uma brecha pra convencer o padre a batizar o neto. Seria motivo de orgulho mostrar a afeição que os donos lhe deviam pelos serviços prestados na cozinha. Conhecia a família Dias da Silva como a palma da mão grossa de retirar panela de ferro de cima das trempes. Conhecia o velho Domingos, a mulher e os dois filhos, Simplício e Raimundo. Trocou cueiros, deu banho e passou talco neles. Achava que tinha direito a ser igual a eles.

O padre estava já guardando os paramentos, cálices e se preparando pra deixar o altar quando negra Gonçala chegou perto e disse que havia saído do Testa Branca  de madrugada com a família pra, se merecesse e fosse do agrado dele, batizar o neto, que dentro de mais alguns anos iria servir de escravo aos seus donos. Domingos Dias da Silva ainda cochilava quando ouviu aquela proposta mais fora de hora. Acordou feito um cão saindo da fornalha.

Não se enxergava não? Onde já se viu negro dentro da igreja?! Que diabo é que quer negro dentro de igreja? E mais ainda batizar filho ou neto! Quem desobedeceu sua ordem pra permitir uma ousadia daquelas? Os convidados vendo aquele destempero do dono da freguesia da Parnaíba foram tratando de escapulir pelas portas dos lados, ali pros lados da Câmara Municipal. Negra Gonçala estava com as petecas dos olhos quase saltando em cima do velho português e de seus filhos.

Disse que nunca passou pela sua cabeça desrespeitar ordens, mas achava merecimento seu batizar o neto naquela igreja. Domingos estava furioso. Disse pra quem quisesse ouvir que naquela igreja negro não haveria nem de passar na porta, que não se enxergavam e que olhando bem, não eram e nunca foram gente. A coisa foi esquentando e negra Gonçala aguentando toda aquela descompostura. Começou a jogar praga e a espumar pelos cantos da boca.

Simplício, o filho querido de Domingos Dias da Silva, achou de botar mais lenha na fogueira. Disse que aquele lugar não era pra espetáculos daquela natureza e que Gonçala e os seus se retirassem senão o bolo de palmatória e o relho iriam cantar. Nem haveria de respeitar o domingo e quanto mais o padre. A velha escrava saiu xingando os donos enquanto os filhos, noras e netos se distanciavam. Simplício não se conformando com o que disse veio pra o largo da matriz e desacatou um dos negros. Chamou de filho dessa e daquela. Um deles correu a mão na faca que trazia na cintura e mandou que corresse dentro. Foi um rebuliço dos diabos na frente da igreja. Teve gente correndo e espalhada até pelo Armazém Paraíba e o Bar do Farias.

Raimundo, metido a valente, correu na cerca do cemitério do burro e arrancou uma estaca. Alguém disse que iria chamar o juiz porque a coisa estava ficando sem controle e poderia ocorrer até morte. Negra Gonçala estava agora sentada e se abanando embaixo de um pé de manga ao lado da matriz. O SAMU já estava de prontidão e tudo. A família, que se preparou toda pra o batizado descendo do Testa Branca naquela manhã de domingo, agora estava mais distante e mais acalmada porque chegou a Guarda Patrimonial.

De repente Simplício saiu de dentro de casa e veio negociar. Negociar porque Gonçala prometeu que só arredava o pé da frente da igreja se o padre batizasse o menino. O futuro dono da casa grande vendo que não tinha saída pedia penico. Foi chegando e chegando até que ficou frente a frente com negra Gonçala. Chegou e mandou que se levantasse. Que conversa era aquela de querer batizar negro dentro da igreja? Quem foi que inventou aquela história?

Gonçala deixou Simplício Dias da Silva falar suas verdades. Ele disse que negros não eram gente, que se colocassem nos seus lugares. Voltassem pro Testa Banca porque era capaz de mandar queimar as suas casas e aí nem o mel, nem a cabaça e nem o batizado. Gonçala perdeu a paciência que havia guardado. Chegou bem perto de Simplício Dias da Silva, abanou os queixos dele e disse que ele não era nem besta. Ela sabia de tudo e mais um pouco de tudo da família.

Quem prestava e quem não prestava. Era sair e espalhar no Bar Carnaúba, no largo dos pipoqueiros, fila da Caixa, Banco do Brasil, Secretaria de Fazenda e na frente da Banca do Louro. Queria ver ele e a família dele proibirem batizar seu neto na matriz de Nossa Senhora da Graça! Mas se não era possível, tudo bem. Iria levantar dinheiro pra construir a igreja do Rosário. Foi o que fez.   

domingo, 16 de junho de 2019

Seleta Piauiense - Zito Batista

Fonte: Google


Exortação

Zito Batista (1887 – 1926)

Aos homens todos, o teu sofrimento,
Cuja origem, decerto, não conheces,
Malgrado as tuas fervorosas preces,
Inspira apenas aborrecimento...

Sufoca o teu soluço, o teu lamento!
– Vê bem que há muitos séculos padeces,
E ninguém, sem mesquinhos interesses,
Quedou a olhar-te o vulto macilento.

Sofre calado todas as torturas!
Sofre sozinho, que entre os homens todos
Não acharás o amparo que procuras...

Das tuas próprias forças te socorre,
Do contrário ouvirás, por entre apodos,
Outro conselho mais terrível: Morre!   

sábado, 15 de junho de 2019

O PRIMEIRO SINAL E OUTROS SINAIS

Fonte: Google/O Globo


O PRIMEIRO SINAL E OUTROS SINAIS
                                                                       
         É o homem  que faz a   sua idade.
         Alceu Amoroso Lima, Idade,  sexo e tempo
                                                                                                     
Cunha e Silva Filho

            Pensando em escrever essa crônica,  me deu vontade de reler o magnífico   livro, Idade, sexo e tempo (1938), do notável pensador católico  brasileiro, crítico literário, teórico da literatura  e polígrafo  Alceu Amoroso Lima (1893-1983), mais conhecido  pelo famoso  pseudônimo  que  começou a usar,  se não me engano,  a partir de sua estreia, em 1919, como crítico de O Jornal, substituindo  o  mais mordaz crítico literário  brasileiro, Agripino Grieco (1888-1973).

         O mais  curioso é que publicou  aquela  obra quando  tinha só quarenta e cinco   anos, o que não quer  que dizer   que só podemos escrever  ou  refletir  sobre um assunto quando  o vivenciamos. Isso me leva também  a considerar, por exemplo,   a afirmação  de um  padre a quem  se  perguntou  por que ele se arvorava em  discutir sobre o  casamento  se ele nem mesmo  era casado  e,  por   imposição  dos votos de castidade,   nem poderia  tampouco casar-se.

       Ora, uma coisa não leva forçosamente a outra   e, se estendermos  o mesmo raciocínio,   seria o caso de se perguntar  se um ficcionista não poderia   criar  um  romance,  um conto, uma novela ou uma peça teatral  enfocando  determinado tema  se ele, o autor,  não teve experiência sobre  o que tencionava escrever. José de Alencar (1829-1897) escreveu  o romance O gaúcho (1870) sem nunca ter  vivido ou  passado  na terra dos pampas.

      Vou parar de borboletear em outras direções  temáticas e volto ao  eixo temático desta crônica, que  é o de lhe  falar sobre  sinais da velhice,  me cingindo  ao meu  exemplo. Lá por volta  dos vinte e nove anos,  pela primeira  vez -  presumo -,  senti   um levíssimo sinal de que o tempo  havia  se lembrado de mim  e me havia feito pensar, por uns minutos apenas,  na questão   pra mim  tormentosa,  que  é o  fluir do tempo.

         Eu me encontrava  em Teresina, em julho  1974,  aonde fui   pra  matar a saudade de onze anos de ausência familiar naquela  viagem de reencontros e ressignificações   em muitas  coisas: meus pais,    meus irmãos, meus amigos,  a minha  Teresina,  o Piaui.  Viagem  em que tudo  era saudade e transformação: valores familiares,   a vida,  o futuro,  os ganhos e perdas até então, enfim, as transformações  que iam sendo   sentidas  e  compreendidas já sob  ângulos diferentes e inescapáveis ao meu  mundo interior com reflexos  dolorosos  diante da realidade dura  e irrefreável.

     Aquela viagem tinha sido um tremendo  divisor de águas, porquanto dela não sairia ileso nas grandes  transformações  de um  moço determinado a enfrentar e sobrepujar   grandes obstáculos na corrida  em direção  aos seus  objetivos  mais prementes  da realização  pessoal, como, de fato, ocorreu.

    Na casa de meu pai, deitado numa rede da sala,  eu me perguntei,  em meio a outros pensamentos   como numa escrita automática:  “Vou completar  vinte e nove anos ou  trinta nove anos? Não é possível. Já tudo isso? Meu Deus! E agora? Essa perguntas foram tão rápidas quanto   um foguete atômico.

    Noutra ocasião,  no Rio de Janeiro,  voltando  de um  passeio a Petrópolis, num carro   comprado por minha mulher, dirigido  por um  saudoso amigo,  olhando pelo  espelho  retrovisor,  notara, pela  primeira vez, que  a minhas têmporas,   exibiam  alguns fios   espaçados de  cabelo   branco. Naquele instante  percebi  que o tempo  mudava  para mim  e, contraditoriamente  não me senti  apavorado. A contrário,  achei até que  ficara mais atraente, pois via aquilo como  um charme  acrescido ao meu semblante  ainda moço.

     Anos se passaram desde aquele  primeiro  sinal do tempo. Este,  implacável, já viria,  apressadinho,  me cobrar  outros tantos anos vividos. É nesse  sorrateiro vacilar  do tempo  que, por vezes,  o malvado se esconde da gente para,  de repente, num fechar de olhos, semelhante a um pesadelo, fazer o que chamaria  agora de “enquadramento.”   É quando percebemos no quotidiano     um "senhor", um  “seu,” uma "senhora,"   um “tio”, uma" tia",  e, o que é pior,  o trágico epifânico  momentum às avessas   (sobretudo  trucidando os corações  e almas femininos):  o vovô, a vovó!

     Daí em diante,   o próprio tempo se encarrega dos apaziguamentos, ou  não,  dos novos  idosos, dessa longuíssima  fila   que se avoluma, mais hoje do que antes, por causa dos avanços da medicina, no coração   do Brasil  e do mundo.   Há que goste  desses tratamentos  pra si  e os recebe  de bom grado. Outros como eu,  não.

     Sei que jamais  poderei  lutar contra o meu inimigo. Sei que  ele é justo, lógico,   no conjunto  do que constitui   as fases da vida humana. Sei que  é inexorável,   sei que é necessário  esse passar do tempo. Mas sei também que  para muitos  se afigura injusto, cruel,  dilacerante quando o corpo encarquilhado  sofre  os seus achaques.  

    Em países, como o  nosso, socialmente  injusto,   envelhecer  é pra  muita gente  um calvário. Quando uma  pessoa  raivosa,  está brigando  ou discutindo  na iminência de ir  às vias de fato,   o primeiro   termo   que usa pra  pessoa    mais vivida é sempre um disfêmico   e acabrunhador   epíteto: “Seu velho,” “seu gagá,”  “velho caquético” etc.

    Ora,  caro leitor, não sabem os  mais moços  que,  num abrir e fechar de olhos,  a sua  mocidade estará enfrentado   esse mesmo   tipo de estigma contra os mais velhos. Se não morrerem antes,   jovens,  esperem  o que lhes virá pela frente.