sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Buriti dos Lopes

Fonte: Google

Buriti dos Lopes 

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

A história da cidade de Buriti dos Lopes data de princípio do século XVIII, quando ali se estabeleceu nas margens do riacho Buriti, o português Francisco Lopes, fundando fazenda de criar que passou a denominar-se Buriti dos Lopes.

Com a sua morte foi sucedido na posse da terra e administração da fazenda pelo filho José Lopes da Cruz, que já não existia em 16 de novembro de 1762, quando o desembargador Francisco Marcelino de Gouveia elaborou minuciosa relação de todos os possuidores de terra do Piauí.

Esse José Lopes da Cruz, segundo senhor da fazenda, fora casado com dona Florência de Monserrate Castello Branco – irmã do tenente-coronel João do Rego Castello Branco, de cujo consórcio deixara nove filhos. Depois de viúva ela convolaria segundas núpcias com João Fernandes Rodrigues de Queiroz. Era filha de João Gomes do Rego Barros, capitão-mor de Parnaíba e de sua segunda esposa Maria de Monserrate Castello Branco, esta filha de D. Francisco da Cunha Castello Branco e Maria Eugênia de Mesquita, portugueses radicados em São Luiz do Maranhão(ela faleceu em naufrágio nas costas do Maranhão, durante a mudança). Esta fazenda embora pertencesse ao pai de José Lopes da Cruz, que a povoara, somente teve a data de sesmaria confirmada anos depois a pedido da nora e viúva, respectivamente.

Além da fazenda Buriti dos Lopes, José Lopes da Cruz bem administrou essa herança paterna, ampliou seu patrimônio e tornou-se um abastado fazendeiro e grande latifundiário, adquirindo outras fazendas, a saber: Espírito Santo de Baixo, comprada a Lourenço Ferreira Gomes e este a Manuel de Abreu de Mello; Pirangi, com data confirmada em 8 de maio de 1728, a requerimento da viúva; São Vicente, nas margens dos rios Longá e Parnaíba, com data confirmada pela segunda vez em 20 de junho de 1750, a requerimento de José Lopes da Cruz, tendo-lhe sido concedida pela primeira vez em 1728 e não fora registrada por descuido do beneficiário.

A fim de bem esclarecer a sucessão dos proprietários e administradores da fazenda, transcrevemos na íntegra as notas do aludido desembargador: “Os ditos herdeiros e filhos do mesmo José Lopes da Cruz, que são nove, possuem a fazenda chamada o Buriti dos Lopes, que tem meia légua de comprimento e légua e meia de largura, a qual lhes tocou por falecimento do dito seu pai, tendo sido antes de seu avô, que a tinha povoado. Desta fazenda, em que todos os ditos herdeiros conservam gados, cada um com sua divisa, sendo este o modo porque costumam haver muitos possuidores em uma só fazenda, há data confirmada a requerimento da dita Dona Florência”.

Mais tarde, na sucessão do pai, tornou-se benemérito do lugar um seu filho e homônimo, José Lopes da Cruz, o moço, que mandou construir a capela de Nossa Senhora dos Remédios, hoje igreja-matriz da cidade. Este filho foi promovido do posto de alferes para o de capitão da 7ª Companhia do Terço de Infantaria Auxiliar do Piauí, em 25 de abril de 1794, falecendo somente em 1846. Foi casado com sua prima Francisca Maria Lopes de Jesus, de quem houve onze filhos, inclusive um homônimo do pai e do avô e Luiz Demétrio Castello Branco, casado com a sobrinha Ângela de Monserrate, filha do terceiro José Lopes da Cruz, que também se destacaram como beneméritos do lugar.

A memória histórica de Buriti dos Lopes guarda o nome de Ângelo Antônio Lopes(1749 – 1839) como sucessor do pioneiro Francisco Lopes. Todavia, não é o que confirma a documentação história ora revelada. Este fazendeiro, que fora assassinado pelos Balaios em 1839, aos 90 anos de idade deve ser um dos nove filhos de José Lopes da Cruz, o velho. Portanto, neto do primeiro povoador do lugar e, assim, irmão do antecedente.

Na segunda metade do século XIX, Buriti dos Lopes já era um povoado promissor, sendo criado o distrito e a paróquia pela Resolução nº 533, de 13 de junho de 1864, esta última sob a invocação de Nossa senhora dos Remédios.

Foi elevado à categoria de vila e município pela resolução estadual n.º 15, de 2 de agosto de 1890, desmembrado de Parnaíba, com instalação oficial em 1º de dezembro do mesmo ano.

Todavia, pela lei estadual n.º 428, de 27 de junho de 1907 foi criada a comarca passando a vila de Buriti dos Lopes a denominar-se Baixo Longá. A comarca foi suprimida pela lei estadual n.º 595, de 1º de agosto de 1910, retomando a antiga denominação pela lei estadual n.º 641, de 13 de julho de 1911.

Foi o município de Buriti dos Lopes extinto pelo decreto estadual n.º 1279, de 26 de junho de 1931, sendo o seu território reanexado ao de Parnaíba. Felizmente, teve a sua autonomia restabelecida pelo decreto n.º 1478, de 4 de setembro de 1933. E pelo decreto estadual n.º 147, de 31 de dezembro de 1938 foi a vila elevada à categoria de cidade. É esta uma despretensiosa contribuição ao esclarecimento de sua história.  

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXII

Fonte: Google

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXXII

Aqueles olhos verdes

Elmar Carvalho

A música era lenta (e a letra, romântica). Estava em todas as paradas de sucesso dos programas radiofônicos musicais da época. Ao embalo desse hit da Jovem Guarda, Marcos, aos poucos, foi se aconchegando a Laura. A moça, no início, fingiu não corresponder, simulando discreta resistência, mas gradativamente foi deixando que o rapaz a enlaçasse, em sucessivos e aliciantes deslizamentos de mãos e braços. Sem deixarem o salão, dançaram ao som de várias músicas, que a orquestra tocou sem intervalo.

Sob a manjada desculpa de que fazia muito calor, Marcos a convidou para irem “lá pra fora”. Laura assentiu com um movimento de cabeça. Seguiram lado a lado, mas sem enlaçarem as mãos. Na praça estavam vários casais. Alguns estavam sentados, de mãos dadas, a conversarem; outros, se beijavam sem grande efusão; contudo, alguns, encostados em árvores, canteiros ou postes, se beijavam e se abraçam com frenesi. Eram os chamados pinos ou amassos.

Quando chegaram à praça, Marcos tomou a mão de Laura, que não fez a menor oposição. Para não dar mostras de ser um “apressadinho”, o rapaz sentou-se em um dos bancos disponíveis, um tanto afastado dos outros casais. Iniciou uma conversa trivial, que não interessava aos dois. Quando um dos casais retornou ao clube, deixando um dos canteiros que lhe servia de encosto livre, Marcos se levantou e, segurando as mãos da namorada, a conduziu para esse local.

Ao chegar, colocou as mãos nas têmporas dela, afagando-lhe os cabelos com suavidade. A seguir, abraçando-a com leveza, encostou a cabeça na sua, para só depois esboçar um beijo na boca. Ela, demonstrando sua inexperiência ou mesmo certo recato e receio, virou o rosto.

Diante desse movimento de esquivança, que fazia parte do jogo amoroso inicial, quase ritualístico na época, beijou-a na face, deslizando a boca até perto da orelha, até lhe mordiscar o lóbulo, ornado com pequeno brinco. Deixou que ela lhe sentisse e ouvisse a respiração, que fingiu estar um pouco ofegante. Após alguns sutis movimentos de idas e vindas, avanços e recuos, marchas e contramarchas – sim, não, não, sim, sim, não, sim, sim, sim – o rapaz a abraçou com força e a beijou com sofreguidão. E ela correspondeu com todo o ímpeto de que Marcos não a julgava capaz.

Iniciaram um namoro que demorou mais de ano. Quase sempre os encontros eram semanais, aos sábados e domingos, algumas vezes em festas e tertúlias. O local dos encontros e namoro era a praça central. Por volta das dez horas ou dez e meia, Marcos ia deixá-la até perto de sua casa. Laura sempre vinha acompanhada de uma irmã ou amiga, que saía à procura do namorado ou de outras companhias. Nunca o rapaz foi a sua casa, pois segundo dizia aos amigos não queria se comprometer.

Numa das vezes em que Marcos iria a uma festa de colação de grau (término do curso ginasial) de um de seus amigos, que aconteceria no Clube da AABB, tomou umas afoitas doses puras de uísque, bebida a que não era acostumado. Foi solicitado a saudar um amigo dele e de seu anfitrião, que havia se mudado para a capital há uns dois anos. Na empolgação da bebida e do discurso, chamou o homenageado de Milton Monteiro. Foi interrompido pela namorada do rapaz, que observou sem nenhuma sutileza:
– Você diz que é muito amigo dele, mas no entanto o chamou de Monteiro, quando o seu sobrenome é Moreira.

Marcos não perdeu a deixa de mostrar a sua verve, retrucando:
– Perfeitamente, eu o chamei de Monteiro porque Milton Moreira vem atingindo as mais altas culminâncias do saber e da cultura, e por isso é um monte, um Monteiro de sabedoria e erudição!   

Os amigos, algumas doses depois do seu triunfo no desfecho de sua oratória, que provocou risos e congratulações, vendo que ele já estava mais pra lá do que pra cá, ou seja, mais pra lá de Marraquexe, como se dizia na época, recomendaram que ele tomasse um banho. Após, seguiram no fusquinha do pai de Valdemar, que pilotava o apertado veículo, conduzindo cinco marmanjos, inclusive o filho, quando Marcos começou a engulhar, entre soluços. João Fernandes alarmou-se ante o que poderia acontecer ao seu querido fusca:
– Sai, sai, sai todo mundo, não deixa o Marcos vomitar dentro de meu carro.

Saíram todos à pressa, e foi o maior alvoroço quando o rapaz vomitou pra valer, ou, como dizia o eciano Conselheiro Acácio, “devolveu” o que havia acabado de comer e beber. Desceram na porta da AABB. Fabrício convidou os amigos a irem até um barzinho perto, antes de entrarem no clube. Aconselhou Marcos a passar pelo menos uma hora sem beber, o que foi aceito sem protesto. Disse que chupasse umas balas de hortelã Pipper e mastigasse uns cravinhos, para tirar o mau hálito da bebida e do vômito, já que Laura estaria na festa.

Marcos nunca esqueceu, por toda a vida, a acolhida carinhosa que Laura lhe deu, mesmo ele estando um tanto embriagado, e exalando um verdadeiro bafo de onça. Quando foram para o pátio do clube, após algumas danças, ela o beijou na boca, sem a menor demonstração de nojo e sem lhe fazer a menor recriminação. Pelo contrário, nunca ela foi tão carinhosa, e nunca lhe dispensou tanta ternura e atenção como nessa memorável noite em que ele esteve tão frágil e carente, com os cabelos em desalinho e a camisa um pouco amarrotada.

No decurso do namoro, quando estava no último ano ginasial, Marcos, com outro amigo, foi espiar as garotas fazerem ginástica na quadra do Liceu. Viu, então, uma linda garota loura, cujos cabelos cintilavam à luz do sol, como faíscas douradas. Era alta e esbelta. Seus olhos eram duas esmeraldas, de brilho intenso em seu verde profundo de mares cheios de mistérios e enigmas. Não a conhecia, mas procurou colher informações. Logo descobriu que se chamava Isabela, e era filha de um executivo paranaense, que chegara, fazia pouco tempo, para dirigir uma grande loja de venda de eletrodomésticos e móveis, a maior da cidade.

Trocaram olhares à distância. Nas vezes em que se encontravam nos corredores do Liceu se olhavam com intensidade. Várias vezes o rapaz foi assistir aos exercícios de ginástica só para vê-la à distância. Quando a via em outros lugares, nas ruas, praças e tertúlias, sentia o seu olhar apaixonado, a que correspondia. Mas nunca teve coragem de lhe propor namoro, nem mesmo através de bilhetes ou recados. A garota era cobiçada por vários rapazes da cidade, que lhe admiravam a beleza alva, longilínea, dourada, de ascendência europeia. Talvez para provocá-lo, para lhe forçar a iniciativa, começou a namorar um dos jovens ricos de Évora.

O rapaz começou a mistificar e mitificar a situação, criando fantasias e quimeras, algumas estimuladas por suas leituras da vida de poetas do romantismo. Colocou a moça numa torre de marfim, e a fez intocável e inatingível. Escreveu poemas de amor, que publicava no jornal mural, entre os quais o que tinha estes versos: “eras poeta e criaste uma quimérica / amada imortal e imaginária, inatingível / em sua torre de marfim. / ela talvez também te quisesse, / mas a fizeste intocável.”

Confessou as suas fantasias a alguns amigos. Chegou ao ponto de recitar numa farra, trepado numa cadeira, um poema de sua autoria, cujo título “Isa, a bela” denunciava a destinatária de sua paixão. O certo é que essa paixão de Marcos foi se tornando do conhecimento de vários alunos do Liceu. Um dia a professora de francês, que mesmo ao se casar continuou sendo chamada de mademoiselle Charlotte, radicada em Évora há muitos anos, ao notar o olhar vago e distraído do jovem, disse em sala de aula, com seu sotaque acentuado, provocando a risada geral da classe:
– Atenção Marcos, pareces que estás apaixonado, meu filho...

A frase foi amiúde repetida em todo o colégio. Mesmo alunos de outras turmas a repetiam, imitando o sotaque de mademoiselle Charlotte. Esse amor platônico de Marcos chegou ao conhecimento de Laura, mas, como ela o amasse, nunca abordou esse assunto. Contudo, num dia em que estava numa festa no Évora Clube, notou que Isabela, embora estivesse com seu namorado, furtivamente olhava para Marcos, que também a olhava da mesma forma, pensando não estar sendo notado pela namorada.

Laura tentou conter-se, mas terminou pedindo ao rapaz para que saíssem do recinto. Quando chegaram à praça, e Marcos quis abraçá-la, a moça o deteve com suave firmeza, e perguntou à queima-roupa:
– Marcos, você gosta de mim?

Tomado de surpresa ante a inesperada pergunta, feita de chofre, o rapaz tentou ser engraçado.
– Gosto. Gosto de você, de meus pais, de meus amigos, de minhas irmãs...

Muito séria, mas com voz branda, Laura insistiu:
– Você sabe a que tipo de gostar estou me referindo. Você me ama?
– Não. Amo outra garota – disse o rapaz sem titubeios, em verdadeiro haraquiri amoroso.

Com dignidade, sem dizer uma só palavra, Laura se afastou lentamente, sem se voltar uma só vez. Contudo, em seu íntimo sofria e os seus lindos olhos negros estavam úmidos.         

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

TENEBRAE FACTAE SUNT

Fonte: Google
TENEBRAE FACTAE SUNT

Valério Chaves – Des. inativo do TJPI
A cidade catarinense de Chapecó estava embandeirada em festa, com milhares de torcedores vestindo as cores do time de futebol local, em gritos e aclamações, ao sonho de se tornarem campeões internacionais pela primeira vez.

Embriagados pela grande euforia, ninguém pressentia que a morte, paciente, fria e calculista, ameaçava se debruçar sobre a delegação da Chapecoense que naquela tarde, procedente de São Paulo, iniciava viagem aérea à Medellin, na Colômbia, para disputar a final da Copa Sul-Americana de Futebol contra o Atlético Nacional.

Enquanto isso, sem que ninguém desse conta, a tarde corria, plácida, para os braços do crepúsculo – velho e cansado porteiro da noite. Noite, que naquele dia fatídico de 28 de novembro de 2016, baixara antecipadamente sobre a face da terra, emprestando à morte o seu regaço de sombra para a solerte tocaia, e, ao mesmo tempo, abrira a cortina para o encenador conceber no palco da vida, a queda dos heróis ao som melancólico das tubas e tambores anunciando a catástrofe.

Foi nesse cenário de verdade não pressentida, que os ocupantes do avião da empresa boliviana LaMia embarcaram no Aeroporto Internacional de Viru Viru, na Bolívia.

Mais tarde - era noite com seus fantasmas - o pesadelo chegou anunciando a tragédia da morte que com sua gargalhada sinistra dilacerando corações de milhões de pessoas, se debruçou sobre 71 vítimas fatais, enquanto os sobreviventes, com os olhos vendados pela súbita escuridão, se arrastavam, pávidos, a pedir misericórdia e a clamar por Deus.

Tudo parecia como se uma noite de angústia e soturnos incubos tivesse baixado sobre a faece da terra.

“Tenebrae factae sunt”.

Milhões de pessoas pelo mundo afora ainda choram a perda de muitos profissionais da imprensa esportiva brasileira; de jogadores, diretores e funcionários da Chapecoense.  

Nós também choramos como se fossemos um pouco de seus entes queridos.
Ah! mas que impor se tanta gente chora, se somente as crianças entendem o choro: essa voz antiga da dor – essa teimosa mensageira da morte.

Aos olhos dos insensatos eles parecem ter morrido. Todos, porém estão em paz sob os cuidados de Deus.

“Tenebrae factae sunt”

Teresina/PI, 2 de dez. 2016.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Primeiros anos

Fonte: Google

Primeiros anos

Ferreira Gullar

Para uma vida de merda nasci em 1930 na rua dos prazeres Nas tábuas velhas do assoalho por onde me arrastei conheci baratas, formigas carregando espadas caranguejeiras que nada me ensinaram exceto o terror Em frente ao muro negro no quintal as galinhas ciscavam, o girassol Gritava asfixiado longe longe do mar (longe do amor) E no entanto o mar jazia perto detrás de mirantes e palmeiras embrulhado em seu barulho azul E as tardes sonoras rolavam sobre nossos telhados sobre nossas vidas. Do meu quarto ouvia o século XX farfalhando nas árvores lá fora. Depois me suspenderam pela gola me esfregaram na lama me chutaram os colhões e me soltaram zonzo em plena capital do país sem ter sequer uma arma na mão.  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MORRE O POETA FERREIRA GULLAR

Fonte: Google

MORRE O POETA FERREIRA GULLAR

Cunha e Silva Filho

              Ninguém morre sozinho. Quem  morre mata também em parte  o coração dos que ficam. Este ano, pra mim,  foi um dos mais  sombrios, um dos mais doloridos, um dos mais sofridos. Agora mesmo, meu filho Francisco Neto, muito entristecido, consternado, me telefonou informando-me do falecimento  do imortal  poeta  nascido em São Luís, Maranhão. Agora mesmo também  me recordo do ano de 1968, ano em que  faleceu  outro grande poeta brasileiro, Manuel Bandeira (1886-1968). Este ano de 1968 está ainda associado à data do nascimento do meu filho mais velho, acima  referido.

           As minhas  primeiras  lembranças de Ferreira Gullar (1930-2016) remontam  aos anos, sobretudo,   de 1964 e 1965. Morava, então,  na CESB (Casa do Estudante Secundário do Brasil), situada no centro velho   do Rio de Janeiro.Sobre esse “lar querido,” já me reportei no meu livro de memórias,  Apenas memórias (2016). Contudo,  o que me prende a esta coluna de hoje  é o desaparecimento  do poeta  Gullar, o qual se mistura às primeiras  notícias de que tive naquele tempo  do poeta  do “Poema sujo”(1976). Meus colegas e amigos  moradores  da CESB me relatavam  a presença de Gullar  em palestras  e em  envolvimentos  políticos  contra a  ditadura  militar  recém-instalada  no país. Falava-se muito da militância ideológica   de Gullar  e falava-se também de sua poesia ainda não tão conhecida  por muita gente. Uma vez,  me convidaram para uma palestra de Gullar.Só algum tempo depois,  por volta do meu  tempo de universitário de Letras,  começava a me interessar   pela  poesia de Gullar.

       As ideias vão fluindo à medida que progredimos  no tempo  presente da escrita e me vem á tona  aquele  dia em que Gullar foi  fazer uma palestra  na Faculdade de Letras da UFRJ. O auditório estava apinhado. Durante a palestra,  Gullar leu  o poema “Filhos,”  uma cópia do qual foi  distribuída aos   presentes. Esse poema comento  num dos capítulos  do meu  citado  livro de memórias.

       É um  poema  enternecedor e ao mesmo  tempo    uma reflexão densa sobre o fluir do tempo  relacionado  com   o crescimento  dos filhos  do  poeta e,  por extensão,  de todos  os filhos  de pais  que  vivenciaram  situações  semelhantes. Veja-se a pungência, neste  poema, nos seguintes versos “(...) Só então/ me perguntei/por que/não lhes dera/maior atenção/se há tantos/e tantos ano/não os via crianças/já que//agora/estão os três/com mais/de trinta anos”. O poema em foco  foi dedicado ao filho  Marcos.O meu capítulo de memórias foi dedicado aos meus filhos Francisco Neto e Alexandre.

      A personalidade do poeta Ferreira  Gullar, nos últimos anos, conheceu  o prestígio de que   gozava  sobretudo como  poeta, de tal sorte  que o seu nome  está indissoluvelmente vinculado  às vanguardas da poesia brasileira,  primeiro  como   um  voz  que,por suas característica renovadoras temática e formalmente, prenunciava, com o segundo livro  Luta corporal (1954), que lhe granjeou  renome, o movimento do  Concretismo  de 1956 e, em seguida,  como  um  dos  introdutores da poesia  neo-concretista (1959) que foi a sua fase  de não aderência ostensiva  mais  ao Concretismo. Sua obra  de estreia em poesia chama-se  Um pouco acima do chão (1949).

    A poesia neo-concreta, para simplificar a sua  complexidade teórica,   voltava ao verso e ao poema   preocupado  com a subjetividade, com o discursivo, com a memória  pessoal,  o valor  atribuído ao verso  popular, ao cordel, não mais  preso  a elementos  objectualistas  do radicalismo  verbi-voco-visual concretista  do grupo  de São Paulo tendo à frente, entre   outros,  Haroldo de Campos(1929-2003),  Augusto de Campos e Décio Pignatari (1927-2012)

     A alta poesia, porejada de humanidade, suplantaria  não só  a poesia  passadista, mas os formalismos  derivados de uma  época sob  o signo da cibernética. Seria, grosso modo,   aquele lirismo  por que tanto  se batia  José Guilherme Merquior (1941-.1991) e que ele via estar presente na poesia de Manuel Bandeira.

   Ferreira Gullar ficará sempre lembrando  poeticamente pelo  livro Poema sujo que causou   repercussão  na história  de sua  produção  poética. Ficará também  marcado  pelo  papel saliente que teve nas pesquisas  sobre  o campo das artes  plásticas, do ensaísmo, com obras como Vanguarda e subdesenvolvimento (1969) e Cultura posta em questão:vanguarda e subdesenvolvimento (2002). Ficara  ainda conhecido por seus trabalhos no teatro, na televisão, no cinema, na literatura infantil.

    E, finalmente, por sua incansável produção  de cronista, gênero que me inspirou este meu artigo, principalmente a partir de sua   coluna  iniciada e terminada na Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, aos domingos que,  por sinal,  tornou-se  para mim  leitura obrigatória acompanhando, desde o  início, os   seus  inúmeros artigos  repartindo-se   seus temas entre o  retrato do quotidiano  da vida,  com forte teor  poético,   os assuntos  sobre artes e poesia, quase beirando a ensaio  e aqueles dedicados a análises  da política  brasileira nos últimos  anos, com algumas incursões na  política mundial.

    Gullar sobre  este último  tópico foi  um  corajoso, independente e acerbo  crítico  do lulopetismo, da podridão de nossa política, sobretudo  a partir dos escândalos do Mensalão do Petrolão do desastroso governo Dilma, das revelações  feitas pela Operação Lava-Jato  e de outros  males do Brasil e da política  mundial. 

    Na juventude tendo sido  combatente da ditadura  militar, foi preso político viveu, por algum  tempo, exilado na Argentina,  no Chile e  na Rússia mas,  como  todo  homem sensato e evoluído,  embora tendo   pertencido ao  Partido  Comunista  Brasileiro. Com  o tempo foi  amadurecendo  sua visão  política e, nos últimos anos,    revelou-se  um  intelectual politicamente   ativo na imprensa, na crônica,   verberando   os erros  da comunismo,  da esquerda, os erros e  defeitos da direita,  das falhas  do capitalismo e  a constatação de tudo isso o levou a uma posição  equilibrada, conscienciosa,  de ver que tanto  a esquerda quanto a direita  possuem  deploráveis  falhas quanto praticadas com radicalismos.

    Penso que a sua  visão  política    atual  seria a   de um   escritor a quem  os regimes  de governos  só  valeriam a pena se considerassem a realidade social, econômica, histórica, política, libertando-se do fanatismo cego,  do farisaísmo e da hipocrisia  de um sociedade  com pretensões à   igualdade  completa  que só  caberia   nos sonhos malogrados da esquerda.    

   Tampouco para ele haveria  mais justiça  com uma direita  que tivesse somente por referência os lucros exorbitantes  e nefastos do capitalismo que, por assim dizer, provoca uma forma  de esquecimento  dos valores  humanos  e da liberdade   de expressão  em todos os setores da vida em sociedade. Sua primeira  crônica,  salvo engano meu,  tem o título de “Resmungos.” Sua penúltima crônica  publicada no  domingo  passado, na Folha de São Paulo,  com o título  em tom  profético, foi  “Trump: après moi, lei déluge.”  Sua última crônica (penso que seja a última que é publicada naquele jornal,  saída hoje, 4 de dezembro, tem por título “Solidariedade, ”  uma  crônica que reafirma as suas convicções  expostas na penúltima, quer dizer,  desaprova  a pretensão utópica do comunismo   como forma  de  melhorar a vida  das pessoas e torná-las  iguais e o capitalismo que espolia  as pessoas  e as torna mais  desiguais.

    Entretanto,   há um  meio termo  que,segundo ele,  evitaria as falhas  dos dois sistemas  de governo: um capitalismo  mais justo,  que saiba reconhecer  o bem-estar  da sociedade em suas diferenças  de aptidões  e de  possibilidades. O erro  grave é a procura do lucro  encravado no egoísmo  de uns poucos ou de uma só pessoa.


      É possível ser rico sem ser  egoísta e Gullar cita o nome de Bill Gates que deixou  a direção de seus negócios e passou a dirigir uma “entidade  beneficente.” Pode-se dizer que, nessa última crônica da sua coluna no caderno Ilustrada,  é um gran finale  de  sua  alta  capacidade  de síntese e acuidade   de escritor, de jornalista, de roteirista de televisão, de poeta, de cronista, de crítico das artes e de um ser humano  com  o pé no chão. Não sendo religioso, ainda assim, termino este texto de homenagem pedindo a  Deus o abençoe pela sua  existência  entre nós que amamos  poesia  e a literatura em geral.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Seleta Piauiense - J. Ribamar Matos

Fonte: Google

Oeiras

J. Ribamar Matos (1946 – 1974)

Do fundo do meu tempo encarcerado
emerge intacta a vida inconsequente
do menino de rua – impenitente
ladrão de umbus de Santa do Condado;

o Sobrado, com grande catavento,
Lembrava estórias de lhe meter medo:
– estórias de fantasmas, cujo enredo
deixava-o todo num estremecimento;

 as ruas tortuosas, muito escuras,
com seus imensos casarões vetustos
e o cemitério, onde a tremer de sustos,
via almas brancas pelas sepulturas;

e a torre solitária da Matriz
erguida para o céu (como se fosse
a presença de Deus, serena e doce,
na alma do povo simples e feliz);

e o Mocha de água turvas que, perplexo
testemunhou primeira vadiagem
do molecote impúbere, selvagem,
mal despertando pro prazer do sexo;

Igrejas do Rosário e Conceição,
poço do Silva, praça do Mercado,
ruas do Fogo e do Hospital, Condado,
Canela, Barro Alto, Boqueirão,
tudo emerge do fundo da memória
do menino que a vida endureceu...

................................................ 

(Oeiras, meu torrão de amor e glória,
saúda-te o menino que sou eu!)    

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXI

Fonte: Google

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXXI

O crime do padre Amaro

Elmar Carvalho

O padre Amaro Nascimento da Silva chegou a Évora no final dos anos 1950. Chegou precedido da fama de sacerdote muito dedicado à Igreja, mas também de sedutor, galã e garanhão. Era educado, e tido pelas mulheres como um belo tipo de homem, alourado, esbelto e de olhos azuis. Tinha quase 1 metro e 80 centímetros de altura. Demorou pouco nas paróquias por onde passara, porquanto, logo que se espalhavam os boatos sobre suas investidas amorosas, pedia remoção para outra.

Na verdade, não eram só investidas suas, porquanto algumas mulheres casadas e moças solteiras tomavam, muitas vezes, a iniciativa de tentar seduzi-lo. Tentar, tentar não é bem o termo exato, porque Amaro se deixava cair nessas ‘tentações’ com notável facilidade. Na penúltima paróquia de que foi titular, desencaminhou muitas senhoras e moças, que se deslumbravam com sua beleza e conversa aliciante, melíflua, quase mefistofélica. Contribuíam para isso a sua ascendência de religioso e confessor, e sem dúvida o “poder” de perdoar pecados, que lhe era atribuído. Assim, o pecado do adultério ou o de fazer sexo com um padre era incontinenti perdoado pelo parceiro.

Consta que ao menos cinco mulheres embucharam nessa paróquia. Com relação às casadas, os meninos foram creditados como sendo dos maridos. Uma das grávidas solteiras, quando teve o rebento, ajuizou um pedido de investigação de paternidade cumulado com pensão alimentícia. Todavia, a carta precatória de citação sempre retornava com o certificado de que ele fora transferido para outra paróquia. Por isso mesmo, o escrivão Artaxerxes, que, apesar de tudo, lhe tinha certa amizade, em virtude das centenas de cervejas e vinho que com ele tomara, em diferentes ocasiões, dizia que ‘padre Amaro só não comeu os sinos da igreja, e assim mesmo por causa do badalo, que atrapalhava’.

Logo ao chegar a Évora, Amaro ostentou toda a sua dedicação à Igreja. Nunca faltava às missas. Seus sermões eram brilhantes, eloquentes, fundamentados em citações extraídas da bíblia ou de textos dos doutores da Igreja, e neles pregava o bem, o bom e o belo, que ele dizia consistir numa vida virtuosa, conquanto, como já deve ter ficado implícito, nem sempre seguisse o que ele mesmo exortava. Revitalizou a Liga das Senhoras Católicas e os Encontros de Casais e de Jovens, bem como as obras sociais e de caridade.

Em estrito senso, não se lhe podia atribuir a pecha de não ser um sacerdote virtuoso e gestor dinâmico de sua paróquia. Tornou-se evidente, contudo, que não observava o voto de castidade. Por causa da Liga das Senhoras Católicas e das obras de caridade, Amaro vivia sempre rodeado de mulheres, fosse na Casa Paroquial, na sacristia, na secretaria ou no confessionário. O certo é que, não demorou muitos meses, começaram a surgir comentários sobre as aventuras amorosas do vigário.

Entre esses falatórios, surgiu o rumor de que Amaro estava tendo um caso com dona Selma, casada com o prefeito e médico Bartolomeu Dantas Fontenele, de tradicional estirpe eborense. Não se sabe como, mas o fato é que esses murmúrios chegaram ao conhecimento do marido, que não fez alarde, demonstrando o mais perfeito sangue frio. Era apaixonado pela mulher, por quem se enamorou desde a adolescência. Era ela considerada uma das mais lindas mulheres de Évora.

Selma tinha um retardo mental moderado. Portanto, seu comportamento e percepção eram correspondentes ao de uma pessoa bem mais jovem. Por isso o marido lhe dispensava os cuidados de marido e pai. Segundo se comentou na cidade, Bartolomeu foi à capital, onde contratou os serviços do mais respeitável e competente detive particular, a quem pediu o máximo sigilo, e lhe recomendou tratasse do assunto apenas com ele.

Um mês e duas semanas depois, o detetive lhe entregou um relatório circunstanciado, com datas, horários e locais dos encontros, acompanhado de várias fotografias, em que Amaro e Selma eram vistos aos beijos e abraços, além de uma fita de áudio, em que ambos trocavam juras de amor. Como ele conseguiu tirar essas fotos e gravar os diálogos amorosos é um mistério, pois esses encontros de amores proibidos são sempre realizados em lugares fechados e recônditos. Contudo, ele tinha vários cursos profissionais, muitos anos de experiência e os mais modernos e eficientes aparelhos eletrônicos para o bom desempenho de sua profissão.

Meses depois, tarde da noite, quando Amaro voltava da casa de uma de suas amantes, cujo marido viajara a serviço de sua repartição, foi rendido por dois homens encapuzados, que lhe apontaram revólveres. O padre, na tentativa de se justificar e de comover seus captores, disse que vinha de bairro distante, onde fora ministrar a extrema-unção em um moribundo. Foi colocado num jipe sem placa, e levado para fazenda longínqua, situada no meio de denso babaçual. Chegaram por volta de uma e meia da madrugada. O padre estava apavorado e estrebuchava muito, e implorou para não morrer. Recebeu a imediata garantia de que não seria morto. Aplicaram-lhe um sedativo e em seguida a anestesia.

Às seis horas da manhã, já desperto, mas muito debilitado e zonzo, foi libertado numa estrada vicinal, perto da BR, que na época ainda era de piçarra. Ao ficar só, subiu a batina, que segurou entre os dentes, e desceu a calça. Estarrecido, mas não tanto, constatou então o que já imaginava: fora castrado. A cirurgia fora perfeita e indolor, e devidamente suturada. Dizem que foi realizada pelo Dr. Bartolomeu, exímio cirurgião, com o auxílio de uma enfermeira de sua absoluta confiança.

Na rodovia o padre Amaro tomou um ônibus com destino à capital, sede da Diocese a que pertencia. Confessou-se ao seu bispo, contando o que lhe acontecera. Disse que aceitava a sua emasculação como uma bênção e um merecido castigo; que a sua exacerbada concupiscência o levara muitas vezes a não respeitar o voto de castidade, e a violar a inocência de mulheres ingênuas e até de incapazes e menores.

Pediu a dom Augusto para ser transferido para a mais longínqua e pobre paróquia do bispado. Tornou-se o mais virtuoso sacerdote dos últimos anos. Uns vinte anos depois, um tanto gordo, morreu em estado de santidade. Atribuíram-lhe alguns milagres, e a sua beatificação foi requerida e se encontra em tramitação no Vaticano.


Quanto a Bartolomeu, continuou casado com Selma, com quem teve uma prole numerosa e proeminente de médicos, advogados, engenheiros e um padre. Comentava-se, a boca pequena, que o padre era filho de padre.” 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

VIDA E MORTE

Fonte: Google

Fonte: Google


VIDA E MORTE

Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

            O liquidificador, por mais de um minuto, valeu-se de seu potente motor para esfarelar, triturar, trucidar, enfim, transformar em líquido de densidade semelhante à do leite e mel, que serviram de diluente, pedaços de maçã, pera, mamão, cenoura, beterraba, de abacate, além de algumas colheres de flocos de aveia e de farinha de linhaça, colocados, todos juntos, no enorme copo do aparelho. Algo decorrente de essa ação, deveras interessante, deixou-me surpreso e estupefato: a banana, dividida em duas metades e misturada às outras frutas, verduras e cereais, escapou ilesa, praticamente sem arranhões, de todo o processo destrutivo. Convém informar que o equipamento era novo e suas lâminas, claro, perfeitamente afiadas; como pôde ser percebido e comprovado pela destruição imposta aos demais itens da poderosa vitamina.

            Não pude deixar de relacionar o que acabara de presenciar com os eventos vida e morte. Aquele não fora, ainda, o momento de a banana voltar ao pó (ou virar suco), ter sua consumação enquanto fruta em estado sólido. Se é que se pode afirmar isto: não havia chegado o instante, o átimo de tempo em que se extinguiria, teria fim, e passaria a ser parte indivisível do todo que comporia juntamente com os outros produtos liquidificados. Sem presença visível, somente poderia ser percebida com o auxílio de técnicas de separação de substâncias ou por olfatos e paladares muito bem apurados.

            Vezes sem conta já ouvi indivíduos letrados, iletrados, tolos, iniciados, jovens, maduros ou velhos dizerem que vida e morte são dois mistérios. Nunca concordei, integralmente, com essa assertiva, haja vista discordar ou divergir de suas opiniões no que tange à morte.

            Que de misterioso há na morte, se esta, sem anúncio nem aviso prévio, inapelavelmente, sobrevém-nos a todos, a qualquer momento, tenhamos tido ou não tempo de fazer o que nos impuséramos como meta ou objetivos de vida?

            A propósito, o que é mistério? Não poderia ser, também e, adredemente, a despeito ou em complemento aos conceitos que lhe dão dicionários e gramáticas, aquela situação ou condição, inusitada, que recai ou se insurge sobre nós sem que, a respeito ou em relação à mesma, por mais imaginativos ou inteligentes que sejamos, possamos exercer qualquer influência no sentido de tentar alterar ou modificar o formato ou o modo como ele se apresenta, mostra ou surge? O que há de inusitado ou de inédito na morte, se ela é a única certeza que todos nós, mais cedo ou mais tarde, haveremos de comprovar?

            Para o filósofo espanhol Sêneca, a morte goza de tamanha independência que sequer da vida precisa para que ocorra. Essa tese ou premissa ele a expôs quando, certa feita, vaticinou: tenho experimentado a morte desde antes de nascer, porque a morte é a não existência. O que quer que ela seja, depois de mim, será o mesmo que foi antes de mim.

            Quanto a mim, sou seguidor daqueles que entendem a vida como um dom, um privilégio, uma individualidade, e a morte, uma singularidade, um acerto de contas levado a cabo, muitas vezes, antes mesmo da efetiva movimentação de essas contas. A vida admite conceitos, sinônimos, definições; a morte é unívoca; a vida pode ser cíclica, morte é fim de ciclo. A vida é um caminho, de curto ou de longo percurso, a que somos convidados percorrer; a morte é o ponto desse caminho que, uma vez atingido, impede-nos de retornar ao início ou de seguir adiante. A vida é um mistério, a morte uma evidência.

            Assim como não é errado afirmar que morte significa, de fato, o fim natural da vida, certeza também é que não temos poder para dilatar nosso tempo de vida – o que parece lógico, já que não sabemos qual seria nosso prazo de duração - nem para postergar a hora, o minuto, o segundo em que haveremos de morrer, uma vez que, feliz ou, infelizmente, a ninguém é dado saber quando a indigitada das gentes nos visitará pela primeira e última vez.            

domingo, 27 de novembro de 2016

Meia-vida, de Oton Lustosa

Fonte: Google

Meia-vida, de Oton Lustosa


Dílson Lages Monteiro
Membro da Academia Piauiense de Letras

Analisando o caráter social da literatura brasileira, o crítico Fábio Lucas diz que “a rigor, toda obra que fixasse uma personagem (imitação do homem real) poderia, em sentido amplo, ser considerada de caráter social”. Ao fazer tal explicação, esclarece que “a perspectiva social será apanhada toda vez que a personagem ou o grupo de personagens tiver seu destino ligado ao da sociedade global de que faz parte, sob o impulso das forças fundamentais que conferem historicidade às tensões entre indivíduos ou grupos”.
A obra do romancista e desembargador Oton Lustosa, da Academia Piauiense de Letras, de evidentes traços neorrealistas, tem-se afirmado pela perspectiva social, de que se constitui exemplo o romance Meia-vida, relançado pela APL (Coleção Centenário), em 2016. Vive-se nessa obra, principalmente, as tensões do drama de Santino, entregador de jornal, funcionário de hotel, líder estudantil, na ânsia de alcançar mobilidade social; o drama de Santino e de sua classe social, mergulhada na miséria de que ele, à exceção, consegue em parte se desvencilhar. Ainda que a superação alcançada pelo herói não signifique a transformação completa pela qual ansiou, conforme se subentende no final dessas notas.
O personagem Santino endossa Fábio Lucas, para o qual, “o ficcionista social (...) será aquele capaz de representar nos seus tipos e heróis a perdida unidade do homem, isto é, fixar aquele ser a quem roubaram horizontes, mas que aspira a ser íntegro numa sociedade que o mutila”. Santino delineia-se à proporção que a descrição de hábitos e costumes desenha-se como elemento central, funcionando para alicerçar o fundo moral que configura a construção dos personagens e dá a eles a consistência necessária para os questionamentos sociais que movem o leitor; para a caracterização histórico-geográfica do espaço e  para a curiosidade pelos dramas de personagens sem  horizontes, senão o da reprodução dos valores mais imediatos de suas vivências.
Em prefácio a Meia-vida, o acadêmico e notável crítico literário M. Paulo Nunes, ao apresentar o tema da obra  – “a vida fervilhante, com as suas vivências, e sofrências, do aglomerado urbano que procura sobreviver em torno do Troca-troca, na beira do rio Parnaíba, na praça Rio Branco, com suas bancas de jornais e seus camelôs e a mulher da vida,ou nos cabarés da Paissandu e do Morro do Querosene – reproduz a vida miúda sem quaisquer perspectivas”.  Ao focalizar esses tipos e espaços, retoma Oton Lustosa, conforme assinala Nunes, antigo filão que é o romance de costumes, ambientando a narrativa na Teresina da década de oitenta do século XX, somente assim situada para dar substância ao caráter político de que também é portadora a obra.
Ao centrar-se na vida cotidiana de personagens que vivem à margem, vasculhando-lhes os dramas, Oton Lustosa vai além do sentido mais habitual dessa categoria de romance. Espaços e valores servem tanto para descrever e documentar um tempo, quanto para lançar luz sobre a desigualdade, fugindo das explicações meramente deterministas. 
Para os romances de costumes, mais frequentemente, as desigualdades advinham da vontade de Deus ou da força agressiva da natureza. A esse propósito, diz o já citado crítico Fábio Lucas: “Embora descrevesse muitas vezes o estado sub-humano dos indivíduos alienados da propriedade dos bens, não indicava nunca a razão da miséria. Quase sempre, o fenômeno era analisado sob um prisma de comiseração e piedade, e as soluções que pudessem daí ser inferidas não passavam de um apelo à solução parcial, individual e ineficaz, em maior amplitude. Condenava-se a miséria, sem se condenar a sua causa”.
Em Meia-vida, entretanto, o destino de Santino traz implícitas as explicações para os encaminhamentos que a vida engendra, sem as marcas fechadas da solução fácil ou do determinismo. Em sua cosmovisão, a segregação familiar e os destinos da vida, antes de estarem ligados aos caprichos da natureza ou ao curso inflexível da imposição social, explicam-se pela organização dos homens, pela dinâmica da sociedade do capital.
Ao se ler ou reler Meia-vida, a atenção flui naturalmente para três pontos, que se cabe mencionar, a fim de, do ponto de vista temático-discurso, compreender a obra.  Antes de mais nada, Oton Lustosa constrói um panorama do centro da Teresina, focalizando pontos tradicionais de concentração de trabalhadores informais, cujo perfil é delineado, sobretudo, para, além de pintar o dia a dia, sondar as perspectivas de vida.
A construção desses espaços, embora se atenha também, a representar o lado malandro desses ambientes, por meio, por exemplo, das prostitutas e ladrões, volta-se com maior ênfase para a dignidade do trabalho, expresso em personagens como o feirante do Troca-troca Zezão e a vendedora de pratos feitos Mundica. Neles, o trabalho e a honestidade falam mais alto, desfazendo preconceitos e projetando olhar humano sobre os desprotegidos da fortuna e da sorte.
Outro ponto merecedor de anotação é o olhar para a política, aqui significada como forma legítima de representação dos anseios coletivos (a ilustrar esse enfoque, a luta bem intencionada de Santino para se fazer representante estudantil e a participação política para se ser vereador), mas também como troca de favores. Disso se servem, conforme a obra, políticos do Sul do Estado, tendo em Santino, um intérprete vocacionado para percorrer hospitais com enfermos ou encaminhar pedidos ao gabinete de “autoridades”.
Lendo Meia-vida, ocorrem questionamentos que, em essência, dirigem o leitor para o argumento da obra: “Sob quais critérios se constroem as representações sobre os semelhantes? A partir de critérios morais? A partir de habilidades pessoais? A partir da conta bancária? A partir da capacidade de influenciar? A partir do talento para a comunicação interpessoal? A partir do número de amigos? A partir de quê?”.
As perguntas validam o terceiro elemento que absorve o leitor  e que é um dos  esteios  de sua argumentação: “Como superar as adversidades, em um espaço marcado por lugares socialmente delimitados?”.  
Em Meia-Vida, cujo título retoma analogicamente o pneu de bicicleta semigasto e, nesse sentido, vidas cujos desejos não se completam, como bem destacou prof. M. Paulo Nunes, a superação social encontra em Santino explicação em quatro elementos: o trabalho honesto e dedicado; o exercício cotidiano da bondade; as escolhas que se realiza e, claro, uma boa dose de oportunidades, que surgem quase como uma consequência.

Em Meia-vida, o desembargador e romancista Oton Lustosa pratica uma escritura de resistência. Seu engajamento, longe de quaisquer comodismos ou reafirmação do olhar piedoso burguês é, acima de tudo, a crença na capacidade humana de superação, ainda que marcada pela dúvida, pelo pessimismo e pelas frustrações dos novos lugares sociais assumidos.

sábado, 26 de novembro de 2016

Fonte: Google

"Paradeiro", de Geovane Fernandes Monteiro: uma estreia e uma promessa

Cunha e Silva Filho

Escrever sobre um obra de estreia de um jovem ficcionista torna a responsabilidade do crítico ainda bem maior do que escrever sobre um autor já conhecido e bem analisado pela crítica. Desta vez, tenho diante de mim o livro de contos Paradeiro[1] do piauiense Geovane Fernandes Monteiro.

Segundo breves dados biobibliográficos fornecidos no final do pequeno volume de contos, o autor, formado em Letras, escreve também poesia, crônicas, artigos e já tem a seu favor alguns prêmios conquistados fora do Piauí. Fez parte de várias coletâneas pelo país afora, o que é bom sinal de que o ficcionista pretende mesmo dar continuidade à sua produção e enfileirar-se ao número elevado de outros jovens autores que serão acrescentados à produção ficcional brasileira. O Piauí, quer-me parecer, já vai aumentando, ao contrário do que havia no passado com o predomínio de poetas, substancialmente o número de ficcionistas na contemporaneidade, de tal sorte que muitos escapam ao conhecimento de quem faz crítica literária, o que é, no mínimo, natural nas condições hoje oferecidas a esta atividade que, no passado, foi muito intensa em nosso vida literária. 

Para um estreante, devem-se acentuar de início alguns pontos fundamentais de construção ficcional nele evidentes: seu domínio narrativo, seu poder descritivo, sua boa dose de imaginação e sua forte tendência de fundir a prosa e a poesia de molde a resultar num texto que envolve o leitor num espaço e tempo tendentes a um mundo ficcional regido pela força do interioridade do que o mundo empírico não é capaz de dar conta.

O que a leitura dos seus contos suscita é aquilo que, em poesia, se chama de estranhamento, os formalistas russos denominam de ostranenie,[2]i.e., desfamiliarização ou desautomatização dos modos comuns pelos quais percebemos a realidade e as situações existenciais. Seu intento é o de impactar o leitor. O mundo empírico, a partir desse desvio literário, assume uma nova forma de “realidade” tanto em lidar com o narrador quanto com a narrativa. Essa estratégia, no passado, já fora usada por poetas como Wordsworth (1750-1850) e Shelley (1792-1822. A vanguarda, na ficção e na poesia, da mesma maneira fez uso desse traço linguístico-literário. O mesmo diria da nossa poesia modernista nas suas fases mais radicais.

Em Paradeiro tal uso do estranhamento ocorre não só ao nível do narrador mas também no discurso literário. Ora, ao utilizar-se de tal estratégia, Geovanne Monteiro não vai satisfazer o leitor habituado ao romance de corte tradicional, mais focado no enredo, nas peripécias da narrativa. Desta forma, o horizonte de recepção da obra se encolhe para certas faixas de leitores e não atinge a maioria. Teoricamente, se elitiza.

Outro componente da linguagem que logo nos chama atenção é a recorrência do emprego da oxímoro ou do paradoxo ao longo dos contos.Vejam-se, por exemplo, “(...) intenso e efêmero,”[3] primeiro conto, “Paradeiro,” da primeira parte da obra, ou “(...) pequenez profunda,”[4] ou estoutro “(...) harmonia da desordem,”[5]conto “Redescobrindo Teresina,” o quarto da primeira parte. Há também na sua linguagem, diria na sua sintaxe literária, um recurso bem original, que é o emprego de um sintagma no qual o adjetivo e o substantivo guardam um inusitada combinação de efeito antinômico a fim de configurar um estado mental ou emocional de uma personagem, segundo se constata nos exemplos “(...) em difícil doçura,”[6] conto “Paradeiro”; “(...) severidade paciente;”[7] “(...) contradição animada;”[8] “(...) pobre superioridade,”[9] conto “Redescobrindo Teresina.”
 
Tal feição conduz a narrativa a exigir do leitor uma constante reflexão diante de frases em tom sentencioso,aforístico, hermetizando o discurso literário da mesma maneira que, na poesia contemporânea ou nas antigas vanguardas do início do século passado, a descodificação torna-se antes mais sentida do que explicitada, como se estivéssemos em pleno estado característico da poesia simbolista, guardadas as proporções,com a conhecida recomendação de Paul Verlaine (1844-1896): “sugerir sempre, nomear nunca.” 

A sensação que passam ao leitor os contos de Geovane Monteiro é a de um mundo ficcional poetizado ou metaforizado tanto no sentido dos sentimentos bons quanto maus ou indeterminados.
O livro, segundo aludi acima, se divide em duas partes, ambas com intenções bastante desarticuladoras: 1) “Histórias mal contadas ou entre o medo e a saudade”. Esta se compõe de quatro contos, o primeiro dos quais dá título à obra; 2) “De volta ao esboço ou fica comigo.” Reúne três contos.

Há que considerar, na compreensão geral dos contos, o valor das parataxes relativas à primeira parte da obra, usadas pelo autor, com citações de escritores universais, Dostoiévski (1821-1881), Lao Tsé (605 a.C-531 a. C.) e Fernando Pessoa (1888-1935); na segunda parte do volume, são citados, dois brasileiros de peso, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e João Guimarães Rosa (1908-1967) e um estrangeiro, o famoso Franz Kafka (1883-1924).

O curioso e ao mesmo tempo relevante é o fato de que em todos aqueles autores nomeados, sem dúvida um exemplo de “isotopia narrativa”[10] convergindo, é claro, para a unidade temática da obra por inteiro instaurada pelos termos “caminho,” “paradeiro”(que aparece mais de uma vez na obra), ou equivalentes, “regressam, saída,”extraviados,” “chegada,” “retorno,” “travessia” Propositalmente ou não, esses termos fazem parte dos enunciados dos parataxes ou epígrafes. presentes, segundo referi antes, no livro. Por falar em parataxes, não se deve esquecer que o autor, no início da obra, com sua maneira desconcertante de escrever, inclui uma nota prévia ao leitor, a qual corrobora a natureza estético-composicional de seus contos no livro, sob o título “Aos outros”:Este livro esteve melhor escrito quando da falta de história tão fácil de contar. Apenas leitores inconscientes de sua escrita salvariam minha literatura. Este livro é minha pior bondade, pois – sem paradeiros – descubro o caminho.[11]

Na análise destes contos, há que assinalar em todos eles o componente estrutural do enredo, ou de uma trama, que, na obra, recebem um tratamento "contra-ideológico" no que concerne às narrativas tradicionais lineares ou mesmo não lineares.

Paradeiro persegue algum enredo? Conta uma história? Contém ações? Sim, contudo de forma subvertida. Assim se dá no primeiro conto, “Paradeiro,” uma história que fala de um homem velho, já vencido pelo cansaço da vida e do seu passado, Antônio Soares Monteiro. Seu presente é a sua relação com os filhos, suas netas. Sua vida consiste em tentar se equilibrar entre as memórias do passado no sítio e a sua pálida vida presente de idoso e divorciado.

O narrador deste conto não deseja apenas situar a figura do velho Monteiro no espaço familiar e no espaço exterior, da rua, dos conhecidos, das conversas. O que mais interessa ao narrador é a vida interior da personagem nuclear, captar-lhe os anseios na fase de declínio vital, as boas lembranças, as frustrações e o seu destino humano e comum.

Mais um elemento a se acrescer a esta personagem típica do homem do interior é a sua forma de aguardar o derradeiro dia da vida, com a esperança na vinda de Cristo. A sua morte não se manifesta direta na matéria narrativa.

Ela vem obliquamente, graças a um recurso que, no conto se repete, não agora com a intenção puramente de se valer da fé, mas com o propósito de fundir hedonismo e alusão bíblica frente à sociedade do espetáculo tendo, por melhor ilustração o esvaziamento de valores positivos, o Big Brother Brazil que vai aparecer no derradeiro conto do livro, “Travessia.”[12] Sobre este conto, voltarei a comentar nas páginas finais deste estudo.

No segundo conto, “Dona Maria,” o narrador-protagonista, na fase adulta, rememora o seu convívio, quando menino,com uma velha viúva atravessando os anos crepusculares de uma vida simples, cheia de lições a transmitir ao menino e que decida, depois, mudar de lugar s fim de morar com os filhos até seus últimos dias. O que flagra este conto é a questão mais uma vez da velhice e de seus percalços. 

O terceiro conto, “O segredo da vida,” retrata psicologicamente os momentos decisivos de jovem Ada, pessoa simples, trabalhadora, habitante de um bairro periférico. Os instantes do drama pessoal mais intensos são o de pagar a passagem ao cobrador. Este é um ato simples e corriqueiro de uma passageira passar pela roleta, porém, no relato, adquire contornos de ordem pessoal e moral diante da situação psicológica da personagem num ambiente fechado de um ônibus lotado de passageiros e insinuações. 

O estar no ônibus era uma forma também de pensar fora daqueles limites do carro e até pensar numa possível maneira de ser feliz dentro ou fora do veículo. Verdadeira sondagem subterrânea na alma de uma jovem pobre. Sobressalto e epifania. Alegria e dor. Fantasias de uma vida melhor, confortável e lembranças passadas.O ônibus como metáfora do mundo interior intenso de uma personagem presa à vida e às suas surpresas e limitações. Ada, o nome da passageira, é, sim, um poço fundo de vida interior. 

Após descer do ônibus, dirige-se para a sua casa. Toda esse monotonia de um vida sem horizontes no cotidiano urbano assume um alto sentido do drama existencial inescapável nos seus segredos e nas suas finalidades de existir no anonimato.

“Redescobrindo Teresina,” o quarto conto, narra a história de um personagem conhecido apenas pelas iniciais de JS (alusão kafkiana?), esperado por um amigo num bar sem luxo, numa noite de um sábado teresinense. O evolver da narrativa bate na tecla da espera do amigo que nunca chega.

Enquanto aguarda a chegada do amigo, o mundo interior de JS ressurge forte e avassalador, indo às recordações de Água Branca, cidadezinha piauiense, onde viveram ele e o amigo. Agora, no presente da narrativa, estavam ambos em Teresina, um cidade já crescida, desconhecida, que oferecia perigos e novidades.Já eram estudantes de universidade. No meio de um gole de cerveja, o espaço ao redor quebrava algum silêncio com um música e os movimentos de um jogo de bingo.

Todo o conto é essa espera que não chega,mas que desperta a abertura para o insondável da existência humana e para a solidão.

Até agora, se vê que a atmosfera dos contos de Geovane Monteiro é invadida pela reflexão de estofo filosófico, de questionamentos e tentativas de interpretar os sinais da convivência humana, sobretudo no plano familiar e da amizade. 

São narrativa pontuadas da “vaguidão,” de silêncios, de medos, de perigos e de inquietudes abissais. Ao analisar estes contos,me vem à mente algum modo de narrar e de olhar para o humano e o existencial de Clarice Lispector (1925-1977), ficcionista cuja narrativa mergulha densamente na contemplação e análise da vida e no destino de seus personagens, segundo a perspectiva de uma certa hesitação, de mistérios, ambiguidades, conceituações metafísicas, silêncios e indefinições, ou seja, de uma inconclusa procura de caminhos, num movimentar-se sem fim, propiciando ao leitor aquela sensação do texto beirando o poético e o dramático da condição do indivíduo no mundo.

Um literatura em desespero, em sofreguidão, em luta interior contra o vago e o indecifrável.Na ficção de autor piauiense, só consigo vislumbrar algo parecido em O.G. Rego de Carvalho (1930-2013) no que tange ao mundo interior, sombrio e indevassável de alguns personagens.

O texto se faz sensível, ao leitor, mas não se lhe entrega de bandeja. Nesta direção, é significativo, do ponto de vista metaficional, o seguinte trecho que aparece no conto “A chuva,” que, adiante comento:”Há encantos em não desamparar o desconhecido, hei de dominá-lo? Se o desafio é a falta de desfecho, o desconhecido é uma revelação.”[13]

No conto “O alto da montanha,” o tema, de conotação visivelmente simbólica, faz girar seu eixo no desejo estético da personagem que aspira a encontrar a “beleza.” Esta é a sua busca: desentranhar o belo no que lhe seja possível. É uma narrativa plena de sortilégios. Na procura por nomear o que fosse belo, no seu deambular pelas ruas, ao mesmo tempo se misturavam sentimentos de liberdade, de autobeleza só alcançada caso fosse relacionada a outrem, até que uma amiga lhe oferece de presente uma “pedra.” Ora, de posse desse objeto, a personagem inicia a sua perquirição existencial cheia de contradições e de aporias, tanto quanto existem em alguns autores, por sinal o citado Fernando Pessoa.

Segundo o monumental Dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, a pedra, entre outros sentidos, está relacionada com a alma. A “pedra bruta” se considerava ainda como "símbolo da liberdade.”[14] No Arcadismo, o topos da “pedra” está muito presente no poeta Manuel da Costa (1729-1789)). Segundo Antonio Candido, para aquele poeta:

(...)
a presença da rocha aponta nele para um anseio profundo de encontrar alicerce,ponto básico de referência que a impregnação da infância e adolescência o levam a buscar no elemento característico da paisagem natal.”[15]


Recorde-se também o controvertido poema de Carlos Drummond de Andrade “No meio do caminho”[16] aqui citado apenas na primeira linha do verso:”No meio do caminho havia uma pedra...”

No conto “A chuva” tem-se, sem dúvida, o ponto talvez mais evidente da capacidade de o autor construir uma narrativa sem mácula, uma pequena obra-prima no meio de bons contos. O que dizer desse conto? Somente encontro uma definição: é pura poesia. Latejar de sons e palavras poderosamente tematizando o fenômeno da chuva ressoando nos poros da existência.O ritmo frenético,uma enxurrada harmoniosa de enunciados lírico, num canto à natureza tendo por elemento nuclear a “água” – fonte da existência e equilíbrio na Terra.

O eu do narrador se espraia por todos os cantos de um espaço indefinido. Fala de si e dos multifários contornos da Natureza-Mãe abrangendo todo um vasto movimento da paisagem humana e da força da natureza no seu dinamismo natural e irreprimível, construindo um caleidoscópio atravessado pelos corpos, pelos objetos e pelos espíritos dos homens diante dos fenômenos naturais.

Se há catarse do trágico pode-se asseverar que o há igualmente no lirismo desta narrativa, na exaltação assombrosa dos movimentos, das mutações, das ondulações, do solo, do ar, dos ventos, dos mares, e da “alma,” termo que aparece reincidente na narrativa destes contos surpreendentes e, a meu ver, muito bem elaborados, elaborados com plena consciência estética: “Viu o adeus da amiga no perigo de uma bondade. Ela obedeceu a seus mistérios.”[17]

Atinge, finalmente, este pequeno volume o derradeiro conto, “Travessia.” Essa narrativa retoma, em muitos traços temáticos a notação autoficcional do primeiro conto, a que, de resto, não fiz claramente alguma alusão. Suas referências se alicerçam nas raízes familiares do autor e no forte tom rememorativo da figura do velho Monteiro. Só que no conto inicial, o narrador é de terceira pessoa, ao passo que, no conto final, o narrado é de primeira pessoa. O conto se desenvolve em seções, ao todo, nove, sendo as últimas formadas de pequenos enunciados.

Entretanto, é uma conto independente ainda que retomando aspectos semelhantes do primeiro conto do volume. Tem-se, agora, as lembranças de um adulto que remontam aos treze anos. Fala da infância, do início da adolescência, do sentimento do amor juvenil, da competição pelo mesmo ser amoroso, dos sobressaltos, dos medos, das incompreensões nunca aclaradas ainda que pelo distanciamento temporal e amadurecimento do adulto. Tanto é que o narrador, aqui e ali, recorre à palavra “vagueza” ou suas derivadas ou sinônimas (e isso vale praticamente para o livro todo). 

O conto oscila entre o passado e o presente do narrador. Ou seja, as recordações se tornam novamente vivas na elucidação do presente do jovem adulto da Teresina moderna. 

Durante o fechamento de um sinal de trânsito, no seu carro, passa em revista as mais enternecidas passagens de sua infância e adolescência no interior, Água Branca, que, a caminho do trabalho, na cidade de Teresina, já com traços de cidade grande.

Neste vaivém de reminiscências e sobressaltos existenciais, o jovem adulto retorna ao presente tão ao logo abre o sinal de trânsito. Suas reflexões, sempre pontuadas pelos elucubrações de natureza existencial e vincadas de frases sentenciosas, conceituais, se concentra numa espécie de surda denúncia de modos e estilos da vida moderna, vida pautada pelos meios eletrônicos, pelo sensacionalismo das mídias, pelo universos virtual. Seu tom é de franca crítica à vulgaridade da sociedade de espetáculos, disfarces do marketing e da publicidade, espaço artístico sem sentido e vazio.

A narrativa reveste, então, ares de montagem, de fusão de realidades artificiais. O exemplo mais contundente é sua clara referência ao programa de TV BBB - fonte de hedonismo oco e disparatado conduzindo massas amorfas e alienadas. Parte de uma seção, a quinta do conto, com evidentes[18] vestígios de pós-modernidade, é uma contundente denúncia a esta nova modernidade que mistura o profano e o sagrado. Daí o clamor do narrador invocando figuras de destaque do Velho Testamento em tempos apocalípticos. É curiosa a inclusão nesta seção de palavras da língua inglesa que reforçam o traço globalizante das imitações midiáticas ao mesmo tempo que são lembradas cenas de horrores de guerras e mortos, de refugiados. O texto, assim manejado habilidosamente pelo narrador, junta objetos difusos e díspares, num caldeirão semântico e conceitual que nos desconcerta pelo impacto que pode ter o leitor em termos de comunicação literária.

Não deixa esta seção de ser um belo libelo (valem a rima e o oximoro, por coincidência em consonância com o espírito geral deste conto) contra os tempos(templos) atuais em qualquer cidade contaminada pelos big brothers do capitalismo devorador da multidões famintas de consumo e de entretenimento que estiolam a inteligência da massa de espectadores de programas de baixo nível da televisão brasileira, fenômeno que, aliás, não é privativo de nosso país. 

Os períodos finais desta narrativa retomam as lembranças do pai e, como sempre, as aporias prevalecem, dando apenas uma posta final na hermenêutica da obra, que não deixa de ser uma epifania à criação literária: “Retorno a casas, vivo minha pior bondade, pois – sem paradeiro – descubro o caminho.”[19] Este epílogo, em parte, já se tinha anunciado naquela nota “Aos outros.” [20]

Uma palavra ao autor não deixaria por menos: se a posse dos segredos da ficção aponta para novas excursões, que o autor, sem se desviar de seu estilo de escrita, saiba também penetrar no mundo ficcional por caminhos renovados que não percam um pouco da chama ardente das grandes lições das narrativas da tradição literária. 

Que, não abdicando da originalidade de sua escrita, possa seduzir os leitores a veredas que ainda acenam a um bom enredo a despeito dos experimentalismos necessários à oxigenação da narrativa contemporânea. Basta descer um pouco na escala do hermetismo e a estrada do imaginário lhe estará aberta e lhe será bem-vinda.

[1] MONTEIRO, Geovane Fernandes. Paradeiro. Introdução de Perce Polegatto e orelhas do editor.Teresina: Nova Aliança, 2016, 104 p,
[2] GRAY, Matin. A dictionary of literary terms. 2nd edition. Essex:, EnglandLongman York Press, 1994, p. 206.
[3] MONTEIRO, Geovanne Fernandes. Idem, p. 23.
[4] Ibidem. .
[5] Idem, p. 75.
[6] Idem, p.20.
[7] Idem, p.25.
[8] Idem, p. 38.
[9] Idem, p. 71.
[10] Apud PIRES, Orlando. Manual de teoria e técnica literária. 2 ed.rev. . e ampl.Rio de Janeiro: Presença, 1985, p. 288.
[11] Idem, p. 13.
[12] Idem, p. 91 -102.
[13] Idem, p. 84.
[14] CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT. Alain. Dicionário de símbolos. 8 ed. rev.. e aumentada. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1994. Trad. de Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Angela Melim e Lúcia Melim. Verbete "pedra", p. 696..
[15] CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. momentos decisivos. 6. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, p. 88-89.
[16] ANDRADE, Carlos Drummond de. “No meio do caminho”. In: __. Poesia e prosa. Rio de Janeiro. Editora Nova Aguilar, 1983, p. 80
[17] MONTEIRO, Geovane Fernandes, idem, p. 84..
[18] Idem, p. 99-101.
[19] Idem p, 102.
[20] Ver p. 13.