quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXVII


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXXVII

Seus olhos são negros, negros

Elmar Carvalho

Não se pode dizer que Marcos tenha sido insensível ao filho que Madalena lhe disse levar em seu ventre para as Alterosas. Apenas aceitou como fato consumado e irreversível a circunstância de que talvez nunca o veria e de que essa criança seria criada por ela e pelo marido, sem a sua participação e sem a sua lembrança. Contudo, alimentava a esperança de que algum dia poderia ver o filho, ainda que incógnito e à distância.

Muitos anos depois, quando Marcos já completara cinquenta anos de idade, e exercia, pela segunda vez, a função de delegado da Receita Federal, recebeu, em seu gabinete, a visita de um guapo rapaz, que se anunciara como uma pessoa que desejava tratar de urgente assunto pessoal. O jovem, bem vestido e elegante, após os cumprimentos iniciais e apresentação, com certo embaraço e discreta hesitação, lhe contou que era formado em medicina, como seu pai, e era filho de Madalena.

Disse que o pai, quando sentiu que estava à morte, um ano atrás, pedira à mulher que, após o seu falecimento, revelasse a Lucas da Mota Dias Júnior, que lhe herdara o nome e a profissão, quem era seu pai biológico. Recomendou que o filho o visitasse, caso o desejasse. O rapaz, após colher as necessárias informações da mãe, quando esta lhe revelou o segredo familiar, fez pesquisas na internet, tendo conseguido o endereço funcional de Marcos, sem maiores dificuldades.

Desejando ser sintético e não querendo emocionar o meu leitor, direi que ambos se comoveram, se abraçaram e mesmo derramaram discretas lágrimas. Marcos o convidou para se hospedar em sua casa, mas o rapaz, que viera acompanhado de sua jovem esposa, em viagem de lua de mel, preferiu ficar hospedado no Luxor Hotel, no centro da cidade.

Todavia, aceitou almoçar com o pai, na residência deste, onde foi muito bem recebido por sua esposa e pelos dois filhos do casal. Coroando tudo, em perfeito final feliz, após conversa e deliberação entre eles, Marcos foi com Lucas ao Cartório competente onde o reconheceu como filho. Os expedientes e termo foram enviados ao cartório de Belo Horizonte, onde Lucas fora registrado.

Feitas as averbações, o rapaz passou a constar como filho de Lucas da Mota Dias e de Marcos Azevedo, seus pais afetivo/adotivo e biológico. Pouco se falou em Madalena, mas o jovem médico informou que ela se encontrava em bom estado de saúde e ainda se mantinha bela e em forma. Pai e filho passaram a se comunicar, com admirável frequência, por telefone e pelas redes sociais da internet, inclusive com envio de fotos familiares.

*   *   *

Marcos nunca esqueceu a linda e loura paranaense de olhos de esmeralda. Ela lhe ficou como uma bela e inatingível miragem de sua adolescência. Seu pai fora transferido para outra loja, sediada na capital, e ele não mais a reviu. Porém, mais de década depois, quando ele já residia na capital voltou a vê-la, talvez por acaso, se é que o acaso existe.

Estava, em companhia de Antônio Francisco Sousa, colega fiscal, assistindo a um artista de rua, quando uma magnífica balzaquiana, de cintilantes cabelos louros e refulgentes olhos verdes, começou a olhá-lo de forma insistente e intensa. Embora estivesse acompanhada de uma menina de cerca de cinco anos, chegava ao ponto de quase se voltar para trás, para melhor fitá-lo.

Ele também a fitou, com intensidade e alumbramento, com paixão e ternura no olhar, mas logo convidou o colega a se retirarem, temendo  este notasse alguma coisa. Mas, não andaram muito, Antônio Francisco, que também era perspicaz cronista, lhe perguntou, com ar divertido e malicioso:
– Marcão, você pensa que eu não vi, que eu sou cego e insipiente? Quem é aquela suntuosa e esplêndida “balzaca”, com aquela linda aliança no anelar esquerdo, que te olhava com tanta insistência e admiração? Parecia te conhecer e estar cheia de amor para dar...

Marcos, recordando-se dos seus tempos de adolescente, preferiu responder de forma enigmática e poética:
– É um fantasma, um vulto de mulher que me persegue desde minha adolescência. Prefiro deixá-la numa torre ebúrnea, alta, distante, e inalcançável como um unicórnio, para que em mim permaneça indelével a nostalgia de quanto a amei, e de quanto a fiz inatingível em minha timidez e loucura de poeta adolescente, embora ela também me quisesse... Assim foi melhor, porque sempre permanecerá a doçura do enlevo e da devoção, e jamais a amargura da decepção... 

*   *   *

Quando Marcos completou 32 anos de idade, assumiu o cargo de auditora-fiscal uma moça de nome Lívia Maria. Esbelta, de boa estatura, chamava a atenção por sua beleza e simpatia. Embora concentrada nos serviços que desempenhava e focada em seus deveres funcionais, tinha senso de humor e o usava com inteligência, discrição e notável senso de oportunidade. Fora analista na Justiça do Trabalho. Corria o boato de que tinha um namorado ou noivo em sua antiga repartição.

O rapaz logo percebeu que, além de diligente em seus deveres funcionais, ela tinha bom caráter e uma exemplar formação moral, mas sem preconceitos e farisaísmos. Nas horas de folga, estudava com afinco a legislação tributária, especialmente as mais direcionadas a seu cargo. Tratava todos os contribuintes com urbanidade e presteza, sobretudo os mais humildes.

Quando Marcos entrava em discussão intelectual com algum colega, ela parecia admirar a cultura e a capacidade argumentativa dele, a sua capacidade de análise, a maneira como ele falava das variáveis que poderiam ser seguidas e de suas possíveis consequências. Poucas vezes ela participava dessas controvérsias, avessa que era a polêmicas e dissensões.

Todavia, em suas poucas e comedidas intervenções, demonstrava sempre conhecimento da matéria e muita racionalidade em seus fundamentos, sempre pautados pela lógica, proporcionalidade e razoabilidade. Uma vez ela confidenciou ao colega que o que mais admirava num homem era a inteligência e o caráter. E, se não fosse querer demais, o bom humor.

Algumas vezes, quando fazia um novo poema, e se encontrava bem humorado e eufórico, o rapaz o recitava para um ou outro colega interessado. Lívia parecia ouvi-lo com admiração e certo embevecimento. Ele, para testar os seus pruridos de pudor e talvez preconceitos, quando fez um poema erótico, aliás, inspirado em sua beleza sinuosa, lhe entregou uma cópia, e ficou a lhe observar as reações faciais.

Notou que ela enrubesceu levemente, talvez pressentindo ser a musa daqueles versos eróticos ou por estar sendo observada, mas o leu com muita atenção e sem demonstrar contrariedade. Fez duas ou três perguntas, e em seguida emitiu comentários argutos e pertinentes, em que se percebia a sua inteligência e os seus conhecimentos de quem gostava de literatura, conquanto não fosse poeta ou escritora, mas assídua leitora de poemas, contos, crônicas e romances, como esclareceu.

Certa ocasião, antes do início do segundo turno, Marcos foi até a sua sala. Encontrou-a sozinha. O rapaz, apesar de não cultivar a vaidade, percebeu que ela o olhou de cima a baixo. Pareceu admirar o que viu. O rapaz a consultou sobre certo assunto de trabalho, sobre o qual tinha dúvida, e depois lhe contou uma de suas anedotas engraçadas, supostamente verídicas, ao menos em parte, retornando a seu local de trabalho. Ficou pensando naqueles cabelos negros, ondulados, e naqueles olhos negros, cheios de fascínio e mistério, que lhe faziam recordar os versos do condor Castro Alves: “Teus olhos são negros, negros, / Como as noites sem luar... / São ardentes, são profundos, / Como o negrume do mar”. Seu pensamento divagava, como a barcarola do poeta.

A moça foi em seu encalço. O rapaz também estava sozinho em sua sala, sentado à sua mesa, com o olhar sonhador, pensativo. Ela, às suas costas, pousou as mãos sobre seus ombros, afagando-os com muita suavidade. Marcos ficou surpreso, porquanto Lívia sempre fora muito contida e discreta em seus gestos e palavras. Não sabendo bem o que fazer, pousou as suas sobre as dela, que não as retirou.

Porém, quando Marcos se levantou e tentou lhe afagar o rosto, ela se afastou e disse, com suavidade, mas com voz firme e peremptória:
– Não, Marcos, não... Eu te toquei porque te amo, mas você tem uma linda noiva, com a qual vai em breve se casar.

Para não entrar em delongas tão enfadonhas quanto desnecessárias, direi apenas que nesse mesmo dia Marcos terminou o noivado, que, por sinal, já vinha muito morno, quase adormecido, e logo iniciou apaixonado romance com Lívia, que se mostrou terna, carinhosa e ardente, como ele sempre sonhara.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Uma fotografia antiga



Uma fotografia antiga

Elmar Carvalho

Ontem, por simples desfastio do ócio ou simplesmente para driblar o tédio, dando-lhe ainda de quebra um chutão nas canelas, fui folhear o livro Dalí, da autoria de Carolina Brook, recheado de belas fotografias, sobretudo das mais importantes obras do grande pintor surrealista. O livro me fora ofertado pelo italiano Alfredo Fait, já falecido, que se hospedava no mesmo condomínio que eu, em Parnaíba.

Foi uma excelente retribuição aos livros Rosa dos ventos gerais (2ª edição) e Lira dos cinqüentanos, ambos de minha autoria, que lhe autografei, dos quais ele me assegurou, por e-mail, haver gostado. Após lhe haver entregado os livros, ele viajou para Belo Horizonte, onde trabalhara no consulado italiano, e na primeira viagem que fez à sua terra natal adquiriu o álbum das obras de Dalí, para me presentear. Em virtude de só ter conversado com ele em duas ou três ocasiões, já que ambos não residíamos no condomínio (mas ele em BH, e eu em Teresina), não posso dizer que fomos amigos próximos.

Quando ele faleceu, cerca de um ano depois, o senhor Swami me telefonou, seguindo orientação da família de Alfredo Fait, para me perguntar se eu desejava ficar com os livros dele. Respondi-lhe que gostaria de ficar apenas com alguns dos livros de arte, e que sugeria fossem as demais obras doadas à Biblioteca Pública Municipal de Parnaíba.

Autorizado a fazer os contatos necessários, liguei para o secretário de gestão da Prefeitura Municipal, o escritor e poeta Alcenor Candeira Filho, que adotou as providências necessárias para arrecadar os livros, que foram prontamente entregues. Desnecessário dizer, mas direi: por uma culpa que não atribuo a ninguém, terminei não ficando com nenhum livro. Talvez tenha sido melhor assim.

Retomo o fio da meada. Ao atingir a metade das páginas do livro sobre a vida e obra de Dalí, encontrei uma velha fotografia, com certeza tirada em 1976; portanto, já lá se vão mais de 40 anos, quando eu tinha vinte de idade. Esbelto, ostentava uma cabeleira longa e ondulada, como era moda na época. Camisa de malha apertada, um cinto e uma calça quadriculada, boca de sino, compunham minha indumentária.

Estou de pé, segurando uma espécie de diploma, e me dirigia a pequeno auditório, que não se vê na fotografia. A meu lado, sentado numa cadeira colegial, estava o senhor João, dono do curso pré-vestibular, em que eu fazia o terceiro ano do antigo curso Científico. Eu iria presidir uma agremiação estudantil, que estava sendo criada. No ano seguinte, como na música de Martinho da Vila, passei no vestibular, e fui cursar Administração de Empresas em Parnaíba.

Ao me deparar com essa antiga fotografia, que não lembrava estar guardada no álbum que folheava, não posso negar que tive saudade de mim mesmo, do rapaz emotivo que fui, por vezes ingênuo, desprovido, quase sempre, de maldade e de malícia, sabedor de que Deus protege os tolos e os inocentes. Lembrei-me destes meus versos, em que proclamo sentir

A nostalgia do rapaz que fui,

Tão emotivo, tão sentimental (...)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lançamento do livro Sentimento Oceânico


O poeta Marcos FreitasEditora Catrumano (São Paulo, SP) e a Livraria Entrelivros têm o prazer de convidar-lhe para o lançamento do livro “Sentimento Oceânico”, nova coletânea de poemas, no dia 17 de janeiro (terça-feira) de 2017, às 19:30 hs, em Teresina – PI.

Programação:

Sessão de Autógrafos.
Leitura de poemas do livro “Sentimento Oceânico”, prefaciado por Anderson Braga Horta, apresentação de Edmar Oliveira e orelha por Jorge Amâncio.


Serviço:

LIVRARIA ENTRELIVROS
Av. Dom Severino, Av. Dom Severino, 1045 - Fátima,
Teresina - PI, 64049-375
Horário: 19:30 hs.

Livro:
Sentimento Oceânico
Ed. Catrumano, São Paulo, 124p, 2015.
ISBN: 978-85-64471-45-0   


APRESENTAÇÃO

Marcos Freitas é um poeta profícuo e, cumprindo a sina dos seus antepassados, nele a intimidade com as letras procura a composição estética sem qualquer esforço. Engenheiro de formação, com pós-graduação na Alemanha, também tira do estranho idioma, que teve de aprender, a tradução em versos de sua obra. Especializado em Recursos Hídricos, faz dos seus afazeres a poesia de um meio ambiente que, mesmo quando maltratado, grita num poema a percepção técnica.

Neste trabalho, que tenho a honra de apresentar, os cantos de jurema nas quenturas do bê-erre-ó-bró são percebidos nas verdesveredas de sua cidade como um Sentimento Oceânico, como se a galáxia fosse tomada por lembranças da sua aldeia.

O livro é dividido em quatro seguimentos. SULEANDO-SE PELAS VERDESVEREDAS traz as lembranças infantis, que foram buscadas nas Dobras Espaciais de Alcubierre, soluções do Tubo de Krasnikov, para entrar no encantamento de uma floresta tupi, substituída por uma concreta plantação de eucaliptos. Pois vejam só, o nosso poeta usa os conhecimentos das ciências exatas para explorar os recônditos de suas memórias sentimentais, onde a máquina Singer da mãe serve de instrumento musical: “dedilha, bem sei mãe, na nova harpa sutis sons de galáxia, estalos eternos de amor”. E também usa o Diário de Pigafetta, documentário da viagem marítima de Magalhães em volta da terra, para sair do sertão da cacimba barrenta e voltar ao cerrado do Planalto Central, não sem antes fazer um inventário das (S)obras do Piauí. Estamos apenas começando uma viagem espacial para dentro do sentimento.

Em ELEGIA ARANI, segunda parte do livro, pode ser num mau tempo e/ou numa cidade da Bolívia. Com os mesmos ares. Porque La Chascona de Neruda, em Santiago, há de ter paciência com o sol. “Ser poeta é estar sempre disposto a se lançar, sem paraquedas, no abismo profundo de sua alma, quando o poema lhe bate à porta”. A árvore da vida, os planos de Brasília (Unheimlich), as realidades não-locais podem ser achados na filosofia de Ernst Bloch? Foi muito pouco traduzido o alemão entre nós, mas é dos sonhos de sua arte que o poeta nos chama atenção, cantando a Laura Moura de Mário de Andrade ressoando em H. Dobal. Pronto, de volta a casa: na sua procura universal retorna a aldeia conquistada por Mandu Ladino: “o canto airoso daquela hora / é canto ladino / é elegia arani”. O nosso herói indígena nos braços da cabocla Jurema. A praça Tahrir é a nossa Pedro II. Pra lá de Dortmund, na Alemanha, a nossa Estação ferroviária, onde um metrô não nos leva a lugar nenhum.

A negra massapê, o amarelo-tauá e o branco caulim são as cores das areias em que caminha a AVIVENTAÇÃO DE RUMOS do terceiro movimento poético. Mesmo contemplando o Morro da Baleia no Goiás, a saudade de sua terra fala mais alto. O nosso anti-herói, o Cabeça de Cuia de nossos rios, sonha em ser descoberto por um olheiro de futebol. As andorinhas da Frei Serafim fugiram todas. Talvez ecoem no Morro do Roncador em Pedro II. Mas as palavras poéticas, ah, essas “palavras / como que formigas enfileiradas / as palavras como águias esfomeadas / flanando – quase sem peso – / no ar”. Aviventam os rumos.

Por último, nas MINUDÊNCIAS recolhe os fragmentos do território do Matopiba. É nesse pedaço de território, do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que a monocultura assassinou os pés de paus das frutas de nossa infância. E o Matopiba parece ameaçar toda a caatinga e cerrado, encerrando os doces frutos do buriti, do pequi, do bacopari. As lembranças são feitas de um gosto no território dos sentimentos. Para fazer-se mais luz, danificam-se os recursos hídricos. Se na sua profissão, Marcos luta desesperadamente contra o inevitável do progresso que nosmatará, o poeta ainda pode gritar no seu movimento político sentimental:

a tarde carregada / de chuva abriu-se / inesperada em sol”.

Edmar Oliveira, Rio de Janeiro, 2015.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Seleta Piauiense - Jorge Carvalho


O Fogo

Jorge Carvalho (1951)

Ascendem chamas... bailam labaredas! 
Fato volúbil, estigma de glória! 
Entre caminhos... trêmulas veredas! 
Castiçais: candelabro d'estória.

Aflora centelha... lúcia chama!
Cintilo brilho... ígneo fulgor!
Cálida se eleva... etérea flama!
Aquece, irradia ardente calor.

Enigmas!  Fascinantes misticismos!
Aonde o segredo de tuas cinzas?
Só no espectro volátil que eternizas?

Sofismas!  E múltiplos simbolismos!
Onde o mistério de tuas asas?
Sob as tépidas escarlates brasas?  

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXVI


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXXVI

E assim se passaram os anos

Elmar Carvalho

Quando Marcos concluiu o curso ginasial, encontrou uma turma de ginasianos que se comprometeu a dar continuidade ao jornal mural O Arauto. Conseguiu ainda publicar o jornal mimeografado O Liberal até o final de seu curso de Direito. Já então Mário Cunha fora morar no Rio de Janeiro, onde seu talento artístico foi reconhecido, passando a trabalhar como capista e ilustrador de grande editora nacional, que publicava revistas e livros didáticos e literários. Fabrício, que já vinha auxiliando seu pai na administração de sua loja de eletrodomésticos, fora cursar Administração de Empresas na capital.

Em virtude de O Liberal ter uma linha editorial independente e criticar com contundência as três esferas de governo, terminou perdendo vários anunciantes, o que foi inviabilizando a publicação regular do jornal, que foi espaçando cada vez mais a sua periodicidade, até o seu extemporâneo último número, cujo editorial teve o título poético de O canto do cisne, em que anunciava melancolicamente a sua própria extinção. Nesse número, a exemplo do que fazia nos demais, denunciou várias mazelas e corrupções da política estadual, nacional e municipal, além da derrubada e descaracterização de vários prédios e logradouros do patrimônio arquitetônico e artístico municipal.

Com a decadência do extrativismo e da construção de estradas asfaltadas, interligando as cidades circunvizinhas, a navegação do Paraguaçu foi definhando, até quase extinguir-se de todo. Já não se viam as grandes chalanas, barcaças e alvarengas ancoradas no cais do Porto do Charque, cujo nome era devido às charqueadas que ali existiram num passado já distante. As duas maiores indústrias de óleo de babaçu e de cera de carnaúba – a Vegecera e a Teles Bacelar – entraram em processo falimentar.

Quando James Cavalcante Taylor, proprietário da primeira, parou suas máquinas e caldeiras, seu grupo empresarial já estava em grandes dificuldades financeiras; disso resultou ficar em atividade apenas a matriz da Casa Britânica, fixada em Évora, que ainda resistiu por alguns anos. Carlos Teles Bacelar, por sua vez, emborcou o facho de suas fábricas de cera e de óleo babaçu; passou a fabricar outros produtos e diversificou suas atividades.

Os pequenos fabricantes, geralmente pequenos e médios fazendeiros da região, também não puderam prosseguir com essa produção cerífera. Outros produtos, cultivados ou coletados, como jaborandi, tucum, oiticica, babaçu, maniçoba, algodão, ao longo dos anos, também perderam valor comercial, e foram substituídos por outros produtos, naturais ou sintéticos. A grande fábrica têxtil dos Dias Bezerra, que comprava quase toda produção algodoeira do entorno de Évora, entrou em colapso, e não mais se viu penacho de fumo em sua imensa e suntuosa chaminé.

Com a instalação de grandes lojas de departamento em Évora, com preços mais atraentes e sistema de crediário de prazo mais alongado, muitas lojas concorrentes locais, de nomes imponentes como Império dos Móveis, Ditador da Moda, Palácio de Variedades, fecharam as portas. Os chamados profetas do apocalipse anunciaram que a cidade entraria em total decadência, e passaram a chamá-la de “a cidade do já teve”, de “bela adormecida”, de “finada Princesa do Paraguaçu”, etc.

Contudo, o rebate das trombetas foi falso, e os profetas apocalípticos fracassaram em seus presságios. Tal como aconteceu com outras cidades de mesmo porte, Évora voltou a se desenvolver em outros setores, sobretudo no turismo, prestação de serviço e comércio. Assim, surgiram novos hotéis e pousadas; instalaram-se vários estabelecimentos de ensino, mormente de nível superior, inclusive com faculdades de medicina, odontologia, enfermagem, agronomia; fundaram-se mais clínicas e hospitais; grandes empresas atacadistas e de supermercados surgiram na cidade, atraindo consumidores e varejistas de todos os municípios da região. Eclodiram muitas empresas não pertencentes às famílias tradicionais da cidade. Évora se expandiu em novos e afastados bairros, inclusive com a construção de luxuosos condomínios fechados. Foi nesse embalo que, já formado, Fabrício conseguiu transformar a loja de seu pai numa grande rede estadual de lojas de departamento, o que demonstrou a sua inteligência, liderança e capacidade empresarial.

Em meados da década de 1980, Marcos associou-se a alguns amigos intelectuais e fundou a Academia Eborense de Letras. Na qualidade de seu idealizador, foi aclamado pelos seus confrades como seu primeiro presidente. Na solenidade de sua instalação, realizada no auditório da Câmara Municipal, no prédio onde funcionara o desativado Évora Clube, onde dançara tantas vezes, proferiu notável discurso, no qual denunciou que alguns prédios antigos e históricos da cidade já haviam sido derrubados ou descaracterizados, sobretudo por comerciantes gananciosos, ávidos apenas por lucro e mais lucro. Alertou que as velhas casas (os “planetas”) da Zona Planetária estavam com seu estado de conservação bastante comprometido, podendo ruir num “inverno” mais rigoroso.

Acrescentou que o poder público municipal deveria promover concurso no ramo da historiografia, para que algum pesquisador ou historiador ficasse estimulado a escrever a história de Évora. Falou da degradação ambiental da cidade, sugerindo que um parque florestal fosse criado, sobretudo para preservação das matas ciliares do Paraguaçu. Também apresentou a sugestão para que um parque de preservação ambiental fosse criado na região da Serra do Cachimbo, com a criação e instalação de piscinas, bicas, trilhas, teleférico e outros equipamentos, que, sem dúvida, fomentaria o turismo no município.

Por fim, defendeu a ideia de que o Cemitério da Igualdade, de nome tão justo quanto apropriado, já inativo há mais de duas décadas, fosse transformado num museu e memorial a céu aberto, com a preservação dos túmulos e a criação de alamedas, jardins, caramanchões e um espaço para meditações e palestras temáticas. Seu discurso, com as suas denúncias e sugestões, foi acolhido com longa e intensa salva de palma. O jornal A Batalha o publicou na íntegra e a rádio Princesa do Paraguaçu o divulgou em vários horários. Posteriormente, foi publicado em forma de folheto.

Após o seu discurso, houve um lauto coquetel. Quando Marcos se postou, sozinho, a uma das janelas ogivais, perto das quais dançara tantas vezes, quando o auditório era a pista de dança do saudoso Évora Clube, veio cumprimentá-lo uma moça loura, um tanto gorda, de olhos azuis, meio enevoados pelo que poderia ser o prenúncio de alguma doença ocular; apresentava sinais de espinhas, sardas e varíola no rosto. Elogiou-lhe o discurso e tentou entabular uma conversa. Olhava-o como se tentasse seduzi-lo. Não tendo gostado da conversa e não se sentindo nem um pouco atraído pela mulher, Marcos, conquanto a tenha tratado com cortesia, inventou uma desculpa qualquer e se dirigiu para a mesa onde estavam Fabrício e outros amigos.

Soube, então, que aquela mulher era uma neta de James Cavalcante Taylor, já falecido há alguns anos, despojado da fortuna que tivera outrora. Viera passar alguns dias em Évora, após longos anos de ausência, em visita a familiares. Marcos, consternado, teve a certeza de que por trás daquela ruína precoce se escondia a inefável e precária beleza daquela menina linda, mas tola e presunçosa, que tanto o encantara no início de sua adolescência, e que tanto o magoara com o seu estúpido desdém.

Tomou um longo gole de cerveja, porém a bebida lhe pareceu mais azeda que de costume, como se fora um cálice de amargura e de fel. Não teve nenhuma sensação de vitória, revanche ou vingança. Ao contrário, como lamentou esse reencontro e a beleza esvaída nas formas transitórias, imperfeitas.

Com o coração confrangido, lembrou-se destes versos de um jovem poeta amigo seu:

recordas a menina que te golpeou
com um não, apenas por capricho e maldade.
(...)
lamentas a namoradinha jovem e esbelta
que envelheceu e engordou.
debalde procuras a sua cintura
para ternamente lhe pousares as mãos.
antes não mais a tivesses revisto.     

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Engenheiro Antônio José de Sampaio

Reginaldo Miranda

Escritor, historiador e membro da APL



Engenheiro Antônio José de Sampaio
            Foi um homem de ideias e ação que apostou fundo no desenvolvimento econômico do Piauí. Engenheiro, professor, escritor, cientista, poliglota, veio ao mundo em 9 de abril de 1857, na fazenda Ininga, do termo de União, hoje de José de Freitas, antiga vila de Livramento, nos arredores da Capital. Foram seus pais o capitão Antônio José de Sampaio, primeiro do nome(1821 – 26.6.1889) e D. Roza Merolina de Jesus (1823 – 1915). Pelo costado paterno era neto de José Joaquim de Sant’Anna e D. Veneranda Roza de Sant’Anna. Pelo materno era neto de Estêvão Lopes Castelo Branco e D. Lina Rosa de Jesus, todos fazendeiros, parentes entre si e oriundos de tradicionais famílias piauienses.
Depois de cursar as primeiras letras em sua terra natal e em Teresina, seguiu para o Rio de Janeiro e em seguida para a Europa, a fim de prosseguir nos estudos. Licenciado em Letras e em Pedagogia por Weisthertur, estudou em Zurich(Suíça), onde fez proveitosa leitura de naturalistas do porte de Hartt, Gardner, Martius, d’Orbigny, Koster e Agassiz, entre outros. Formou-se em Engenharia Industrial pela Escola Politécnica Federal de Zurich e doutorou-se em Ciências Físicas e Naturais pela mesma instituição de ensino, concluindo sua formação acadêmica em 1881. Por fim, antes de retornar ao Brasil, empreendeu viagem de estudo por vários países da Europa.
Em 1882, com a mente borbulhando de ideias novas regressou ao Piauí, onde permaneceram seus genitores, tentando a todo custo despertar o ânimo e o interesse dos criadores da região de Campo Maior para a pecuária de leite, não obtendo, porém, êxito. É que se inspirava no sucesso dos lacticínios suíços e flamengos, que os conhecera. Sobre esse episódio, anotou o acadêmico Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves:
“Os criadores ouvem a explanação atentos e silenciosos. No fim, não lhe recusam aplausos. A boa educação e a urbanidade tradicional impõem tratamento respeitoso e afável ao hóspede ilustre. Mas, em verdade, o calor das falas ouvidas não lhes infundiu coragem. Acendeu-lhes, ao contrário, muitas dúvidas. O que lhes fora dito como proposta auspiciosa parecera-lhes, antes, uma inovação revolucionária. E, contra todas as sedutoras promessas, opunha-se a realidade, herança avoenga de mais de dois séculos, expressa na rotina satisfeita, modorrenta e despreocupada a que tão bem se acomodavam. Todos responderam à sugestão de maneira evasiva. Tiveram como muito mais seguro permanecer como estavam. O progresso, da forma por que lhes era acenado, além de excessivamente trabalhoso e cansativo, se lhes afigurava por demais arriscado. O que haviam recebido dos maiores, pretendiam legar, sem desfalque, à prole, garantindo-lhe igual quietude e tranquilidade”(GONÇALVES, L. M. R. Brasília: 1980:243).
Sobre esse mesmo episódio, também anotou a escritora carioca Augusta Franco de Sá de Sampaio, esposa do biografado:
“... muito anteriormente à propaganda e prática dos princípios e meios que somente agora estão sendo adotados e seguidos em diversos outros Estados, já procurava ele em 1882 introduzi-los em sua terra natal, para promover e estimular o seu progresso industrial, com auxílio e cooperação de todos os criadores”.
Depois desses esforços inúteis, retorna a Livramento e, em seguida, ao Rio de Janeiro, onde iniciou vida profissional dedicando-se ao magistério de Física e Química na Escola Politécnica, aí permanecendo entre os anos de 1883 a 1894, quando começou, de fato, seu empreendimento no Piauí. Nesse espaço de tempo, em presença do Imperador, no Externato Aquino, fez diversas conferências sobre ciências. Moço culto e inteligente, envidou esforços para reformar o ensino técnico no Brasil, chegando a escrever e publicar interessante estudo, de parceria com o professor Antônio Ennes de Sousa, um maranhense seu contraparente que ali também lecionava.
Mas o passo mais decisivo de sua vida, Antônio José de Sampaio estava por dar, aquele que o notabilizaria como pioneiro das indústrias de lacticínios no norte do Brasil. É que em 26 de abril de 1889, celebrou importante contrato de arrendamento com o governo imperial, passando a gerir as Fazendas Nacionais que haviam sido confiscadas aos jesuítas no Piauí e, anteriormente, pertenceram ao conquistador Domingos Afonso Sertão. Era o primeiro passo para realizar o sonho de implantar a indústria pastoril em terras piauienses. Entretanto, com a queda da monarquia e proclamação da República em 15 de novembro do mesmo ano, passou a enfrentar resistência de muitos opositores, culminando com a revogação do contrato em 9 de abril de 1891, no governo Deodoro da Fonseca, sob a falsa alegação de descumprimento de cláusulas. Felizmente, depois de vários embates, em 1893, já no governo Floriano Peixoto, teve restituídos os seus direitos.
Por esse contrato, o Engenheiro Antônio José de Sampaio arrendava as Fazendas Nacionais pelo prazo de nove anos e ao preço de 20:000$000 (vinte contos de reis) anuais. Assumiu o compromisso de promover a colonização, fundando colônias formadas de nacionais e estrangeiros, sendo metade pelo menos de estrangeiros, obrigando-se ainda a manter à sua custa o Estabelecimento Rural S. Pedro de Alcântara, que fora fundado pelo falecido agrônomo Francisco Parentes, mantendo a sua finalidade de acolher libertos menores e dar-lhes instrução primária, artística, industrial e zootécnica, assumindo as despesas com pessoal; criar e manter à sua custa uma estação meteorológica; desenvolver em grande escala a criação de gado lanígero e introduzir nas ditas fazendas melhoramento genético, com melhores raças de gado vacum, lanígero, cavalar e muar; fazer aquisição de maquinaria moderna para fabricar manteiga, queijo, leite condensado e outros produtos dentro dos mais modernos padrões, trazendo da Europa pessoal qualificado; montar frigorífico e contratar pessoal para abater gado e preparar a carne seca e mais produtos congêneres, logo que se fizesse necessário; desenvolver a lavoura de cereais, sobretudo de cacau e de cultivo do bicho da seda; montagem de fábrica de gelo – sistema Linde, utilizando amoníaco e bomba a vapor, para refrigerar e conservar o produto; funilaria, serraria circular e vertical, etc..
Por seu turno, o governo obrigava-se a vender as ditas fazendas ao arrendatário, no fim do seu contrato, ou antes, pelo preço de 400:000$000, desde que tivesse ele cumprido as suas condições.
A entrega das fazendas deveria ser feita mediante inventário, procedendo-se à contagem do gado. Sobre essas fazendas, é importante ressaltar o relatório do presidente da província, de 27 de junho de 1889: Departamento de Canindé compõe-se das seguintes fazendas: Fazenda Nova, Poções, Salinas, Campo Grande, Castelo, Campo Largo, Ilha, Buriti, Saco, Saquinho, Oiti, Tranqueira, Pobre, Sítio, Baixa, Nova Fazenda, Torre e Residência, com casas, demais benfeitorias e 19.565 cabeças de gado vacum e 8.745 de cavalar, assim avaliados: gado vacum (259:164$000), cavalar (28:805$000), benfeitorias (24:830$000) e terras (47:500$000). Nas demais fazendas que compunham os departamentos do Piauí e Nazaré, existiam apenas as terras, vez que o gado fora vendido. Deste último departamento achavam-se a cargo do Ministério da Agricultura as denominadas Serrinha, Algodões, Olho d’água, Matos, Guaribas e Rio Branco, que constituíam o patrimônio do estabelecimento São Pedro de Alcântara(COSTA, 2010:467/468)
Depois de resolver os imbróglios burocráticos e tomar medidas de urgência, Sampaio parte para a Europa em 1894, com a intenção de adquirir modernos equipamentos, nos moldes dos que usavam as mais modernas indústrias da Europa. E, de fato, os adquire em Hamburgo, na Alemanha, realizando verdadeira odisseia para trazê-los ao Piauí, sobretudo ao sertão de Campinas, na região de Oeiras, que elegeu por sede de suas atividades. Eram equipamentos enormes, pesadíssimos, tendo de colocá-los em barcaças e enfrentar a correnteza do rio Parnaíba até o porto fluvial do Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara, hoje cidade de Floriano. Dali teve de transportá-los em carros de bois, abrindo estradas, quebrando morros, construindo ponte sobre o rio Itaueira e pontilhões em outros córregos, para arrastá-los com inúmeras juntas de bois, às vezes forrando o solo com couro de animais, aumentando, assim, as despesas e causando retardamento. Foi um hercúleo trabalho de pioneiro empreendedor, que só os altos espíritos são capazes de concebê-lo e executá-lo, arrostando as dificuldades sem se deixar intimidar. Para isso contou com a colaboração de seu colega engenheiro, o alemão Alfredo Modrack e de outros importantes auxiliares. Haveria a instalação de funilaria, serraria e aparelhos de uma estação meteorológica.
Por fim, em 9 de abril de 1897 foi inaugurada a sonhada fábrica de lacticínios do Piauí, a primeira do nordeste e a segunda do Brasil, guarnecida com o que havia de mais moderno no mundo. Na palavra de Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves – “os edifícios se levantam, a água é captada e distribuída, as instalações se executam. As máquinas são postas em funcionamento, quebrando a monotonia daquelas paragens onde, antes, só o vento açoitava as folhas. A chaminé a atirar para o alto o seu penacho de fumaça, o vapor da caldeira a fazer vibrar o apito estridente a horas certas, a labuta dos currais, a atividade dos técnicos e auxiliares nas oficinas eram sinais de uma vida diferente que nascia rumorosa e promissora” (GONÇALVES, L. M. R. Brasília: 1980:244).
Porém, o gado leiteiro trazido da Europa enfrentou a grandiosa seca de 1900, causando-lhe sérios prejuízos.
Ao mesmo tempo chegam as primeiras famílias italianas, cerca de quarenta, que havia contratado em sua ida à Europa, sendo logo estabelecidas, porém, antes de iniciarem o trabalho efetivo surgem alguns reveses. “Alguns colonos adoecem depois de comerem, desavisados, frutos silvestres venenosos, outros são acometidos de doenças tropicais, ainda outros, amedrontados, não se adaptam ao clima. Surgem reclamações e o consequente cortejo de dificuldades. Há intervenções diplomáticas, repatriação de emigrantes com pesadas despesas imprevistas. O lamentável desastre iria servir de descrédito a outras tentativas” (GONÇALVES, L. M. R. Brasília: 1980:244).
Não se abate, porém, o notável Engenheiro Sampaio, partindo com redobrado esforço ao trabalho. Todavia, contra ele se colocam alguns políticos e pessoas negativas cujos interesses estavam sendo contrariados, praga que grassa em todas as épocas. Dessa fase, acrescenta Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves:
“Atordoado, após trabalho dedicado e hercúleo, é obrigado a concordar com a encampação do contrato, transferido, sem demora, a políticos cobiçosos. E, desde então, tudo foi aos poucos se perdendo. Da opulência das antigas Fazendas Nacionais mostra-se hoje, no cenário vazio, apenas o que construiu Sampaio e ficou, como ruína, exposto ao desgaste do tempo” (GONÇALVES, L. M. R. Brasília: 1980:244/245).
É, pois, lamentável que a mentalidade tacanha de muitos de seus contemporâneos tenha prejudicado uma iniciativa desse porte, que colocou o Piauí, com técnicas e aparelhagens modernas, entre os pioneiros da indústria de lacticínios no Brasil. Mas o fracasso do empreendimento deve-se ao atraso do Piauí de antanho, governado por políticos de pouca visão, com uma sociedade que não aspirava mudanças, contrastando, assim, com a visão moderna e o discurso otimista de um técnico formado nas melhores escolas da Europa e uma enorme capacidade de ação.
Da antiga fábrica hoje resta a construção ainda imponente, embora em ruínas, que alguns abnegados lutam incansavelmente pelo tombamento. Em seu entorno nasceu uma povoação, hoje transformada na pequena cidade de Campinas do Piauí, que permanece como testemunho imperecível da ação desse visionário engenheiro piauiense. De toda sorte o sonho frutificou, senão o desenvolvimento industrial, ao menos uma cidade para dizer que valeu a pena sonhar e lutar.
Antônio José de Sampaio foi um homem de extraordinária cultura, empreendedor, amante de sua terra e poliglota, dominando vários idiomas, entre esses: francês, italiano, inglês e alemão, tendo nessas línguas publicado alguns estudos divulgando, no estrangeiro, as nossas riquezas naturais e as iniciativas industriais. De sua lavra pode-se destacar: Zur Kenntnis der Diamidoditolylverbindungen, no Berichte der Deutschen Chemischen Gesellschaft (1881) e Investigações Químicas dos Produtos Naturais do Brasil (Revista de Engenharia, 28.05.1883), ambos de parceria com o químico alemão Wilhelm Michler; Nationale Landguter fur viehzucht in Staat Piauhy(1884); A general description of the State of Piauhy on the northern part of Brazil its natural resources, pasturagen, climate and salubrity with special reference to the cattle breeding compared with the conditions of the Argentine Republic and Australia(1905), depois parcialmente traduzida para o vernáculo pela Prof.ª Maria Cacilda Ribeiro Gonçalves e publicada no Brasil(Descrição Geral do Piauí), sob patrocínio o Governo do Piauí, na gestão Pedro Freitas, entre vários outros trabalhos científicos escritos em várias línguas.
É patrono da cadeira 19, da Academia Piauiense de Letras, cujo primeiro ocupante foi Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves. Nossa Senhora da Vitória Nossa Senhora da Vitória.
Em 22 de julho de 1893, no Rio de Janeiro, casa-se com a carioca descendente de maranhenses, D. Augusta Hermínia Franco de Sá, moça culta e inteligente que, em 1885, estudava com o irmão Francisco de Paula Franco de Sá, no Colégio Augusto, fundado há pouco mais de um ano, no Engenho Novo, sendo ambos aprovados com distinção em Português(O Paiz, 8.12.1885). Depois de casada passou a assinar com o nome de Augusta Franco de Sá de Sampaio, falecida em 10.4.1931, no Rio de Janeiro e sepultada no dia seguinte no cemitério de São João Batista(A noite, 11.4.1931). Oito anos antes havia recebido na mesma cidade o diploma de honra(15.3.1923) e ao tempo em que esteve com o marido no Piauí, ajudou a administrar a fábrica, ministrando curso de renda às mulheres. Era filha de Antônio Daniel Franco de Sá e D. Augusta Firmina Franco de Sá, abastados proprietários, inclusive de muitos imóveis urbanos no Rio de Janeiro, muitos deles alugados para órgãos públicos. Em 1924, D. Augusta Franco de Sá de Sampaio publicou um romance denominado Heloisa, com 138 páginas. O casal deixou uma filha, D. Ana Rosa Castelo Branco Cardoso(Nikota), que foi casada com o médico sergipano Eleyson Jesthe Esaú Cardoso.
Conclui Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, sobre o biografado:
“Sampaio foi, incontestavelmente, um desses raros exemplares de homem de alta cultura, rasgados horizontes e esclarecidas ideias, em cuja objetivação se obstinava, ao influxo de irreprimíveis energias criadoras. As amarguras, as vicissitudes, as contrariedades não o esbarraram. Até ser paralisado pela morte, em 1906, conservou, sempre mais ardente a fé no ideal irrealizado”.
Portanto, Antônio José de Sampaio é um brasileiro notável, cuja trajetória de vida merece ser reconstituída para conhecimento da posteridade.

Bibliografia:
COSTA, F. A. Pereira da. Cronologia histórica do Estado do Piauí. Vol. 2. 2.ª Ed. Teresina: APL-FUNDAC, 2010.
FERREIRA, Edgardo. A mística do parentesco. Os Castello Branco. Vol. 5. 2.ª Ed. São Paulo: ABC Editorial, 2013.
GONÇALVES, L. M. Ribeiro. A luta de um idealista. In: Impressões e perspectivas. P. 241-245. Brasília: Centro Gráfico do Senado federal, 1980.
TITO F.º, Arimathéa. Antônio José de Sampaio. Diário Oficial – Suplemento Cultural. Ano I – N.º 7. Teresina, 31.01.1988. p. 10.
ROCHA, Odete Vieira da. Maranduba. Rio de Janeiro: Sindical, 1994.
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* A fotografaia que ilustra a matéria é da fábrica de lacticínios fundada pelo Engenheiro Antônio josé de Sampaio, hoje em Campinas do Piauí. As demais são do engenheiro e de sua esposa, muito raras e inéditas em livros foram restauradas pelo autor, a dele tendo servido de modelo para uma gravura muito divulgada, a única imagem que até  há pouco dele se conhecia.
** REGINALDO MIRANDA, autor, é membro da Academia Piauiene de Letras.

(Excerto do livro inédito a ser publicado no corrente ano pela Academia Piauiense de Letras: MIRANDA, Reginaldo. Piauienses notáveis. Teresina: APL, 2017)

sábado, 7 de janeiro de 2017

João do Rego Castelo Branco - Capitão da conquista do gentio

Reginaldo Miranda

Historiador e escritor.
Membro da Academia Piauiense de Letras

João do Rego Castelo Branco - Capitão da conquista do gentio.
             Foi o mais graduado e mais importante militar piauiense durante a segunda metade do século XVIII, exatamente os primeiros cinquenta anos de nossa vida administrativa.

Nasceu João do Rego Castelo Branco em 7 de abril de 1719, na mui impropriamente chamada Vila da Parnaíba, depois conhecida por Vila Velha do João Gomes ou simplesmente Vila Velha, no delta do rio Parnaíba, arredores de onde hoje se assenta uma importante cidade de mesmo nome. Era filho do capitão-mor João Gomes do Rego Barros(c.1665 – c.1735), fundador da referida povoação, a pedido do governador de Pernambuco, para onde fora por ele designado, a fim guarnecer aquela região de ataques inimigos; Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e grande latifundiário, tendo adquirido sesmarias entre as barras do rio Igaraçu e Parnaíba, incluindo a Ilha Grande de Santa Isabel, João Gomes pertencia a uma das mais distintas famílias de Pernambuco. Pelo lado paterno João do Rego era neto do comendador da Ordem de Cristo, capitão-mor e governador da Paraíba(1663 – 1670), provedor da Real Fazenda de Pernambuco(13.7.1675 – 27.10.1697)João do Rego Barros(c.1628 – 27.10.1697) e de Caetana Theodora Valcaçar, esta filha de Francisco Camello Valcaçar e Anna da Silveira. Pela linha varonil, bisneto de Francisco do Rego Barros e Archângela da Silveira Moraes, casados em 8.5.1623, em Olinda. Trineto do português Luiz do Rego Barros, natural de Viana; e de Ignez de Goés.
Seu pai foi casado duas vezes, sendo a primeira com a lisboeta Ana Castelo Branco de Mesquita, mãe do biografado, com quem teve quatro filhos, de que ele é o caçula, antecedido por Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, Lourenço dos Passos Rego Castelo Branco e Rosendo Lopes do Rego Castelo Branco. Depois de viúvo, o pai contraiu novas núpcias com a cunhada Maria do Monte Serrate Castelo Branco, também lisboeta, com quem teve mais três filhos: Francisca, Florência e Ana do Monte Serrate Castelo Branco. Eram ambas as esposas filhas de D. Francisco da Cunha Castelo Branco, natural de Portugal – irmão de D. Pedro de Castelo Branco da Cunha, 2º Conde de Pombeiro. Capitão de infantaria do exército português, mudou-se para o Brasil em 1693, servindo na guarnição de Pernambuco. A partir de 1696, serviu na do Maranhão, até quando faleceu, e dona Maria Eugenia de Mesquita, natural de Lisboa, falecida em naufrágio marítimo no ano de 1696, quando de mudança para o Maranhão. Eram todos oriundos de antiquíssimas e nobres famílias de Portugal.
Pouco se sabe sobre os estudos de João do Rego Castelo Branco, sendo, porém, um homem instruído, com formação acima da média, acreditando-se que tenha estudado inicialmente com os pais e depois em companhia de parentes, em São Luiz ou Recife, pela década de vinte, sendo mais provável em companhia do avô materno, na primeira cidade.
O que há de certo, porém, é que cedo ingressou na carreira das armas, servindo com o pai no norte do Piauí. Naquele tempo era comum os meninos sentarem praça ainda adolescentes, o que certamente aconteceu com João do Rego Castelo Branco.
Porém, pouco depois de 1735, com a morte do pai, o jovem militar mudou-se para a fazenda Cajazeiras, no termo de Parnaguá, passando a servir com o capitão-mor, mestre-de-campo e capitão da tropa de guerra Antônio Gomes Leite, seu contraparente, casado com uma sua prima. Ainda muito jovem, com cerca de dezoito anos de idade, o acompanha em diversas entradas contra o gentio, inclusive nos combates contra a nação dos Paracatis, na qual é ferido o comandante da tropa. Destemido, ágil, corajoso, perspicaz, logo destacou-se no seio da tropa, recebendo menções honrosas e ascendendo nos postos militares.
Estava, assim, nos sertões de Parnaguá, iniciado o seu batismo de sangue e a longa carreira militar em que iria notabilizar-se como o algoz dos nativos do norte de Goiás e sul do Piauí e Maranhão.
Por volta de 1740, aos 21 anos de idade, casa-se com Perpétua Luiza de Barros Taveira, filha de dona Antônia Gomes Travassos e de seu segundo esposo, o capitão-mor do Gurgueia, Gonçalo de Barros Taveira, todos de ilustrada estirpe.
Em 1743, acompanha o capitão-mor Antônio Gomes Leite na guerra defensiva que fazia contra os Guegués ou Gurgueias, conseguindo as pazes com os mesmos no ano seguinte e os aldear em número de 2.051, no lugar Guaribas, sendo sustentados com um lote diário de dez bois das fazendas daquele capitão.
Em 1745, com a ajuda desses indígenas aldeados e sob o comando do mesmo militar, faz nova entrada contra os indígenas no território de Goiás, desta feita contra a nação Akroá (Acoroás), de que morreram 32 indígenas e ficaram diversos feridos em um entrevero, resultando apenas 16 feridos e sem mortes de sua parte. Nessa oportunidade, conquistam e celebraram paz com oito mil indígenas, que aceitam a vassalagem e a catequização em suas próprias tabas. A falta de recursos inviabilizou a transferência para outro local.
Porém, em 1747, com a morte do capitão-mor Antônio Gomes Leite e a dura disciplina na catequese religiosa, os Guegués se rebelam, matando seu missionário e mais de sessenta pessoas no arraial e nas fazendas por onde passavam. Provocaram terror porque aprenderam a manusear e levaram consigo as armas de fogo do arraial, provocando rebeldia também nos Acoroás e Timbiras. Nessa conjuntura, o sargento-mor João do Rego Castelo Branco é reconhecido sucessor de Antônio Gomes Leite e nomeado cabo das tropas de combate aos indígenas rebelados. Para essa missão fora recomendado pelo ouvidor da Mocha, Mateus Pinheiro da Silva Botelho, que, em 6 de novembro do mencionado ano de 1747, informou ao rei ser ele “homem de reconhecida nobreza, capacidade e experiência, porque andara com seu comparente Antônio Gomes Leite em diversas bandeiras”(AHU. Piauí. Cx. 4. D. 285). Nessa missão, a primeira sob sua inteira responsabilidade, aos 28 anos de idade, mostra serviço a El Rei, atacando diversas malocas, matando uns e prendendo outros, não sem levar algumas flechadas, conforme declara em sua correspondência.
Novamente, no verão de 1751, o então sargento-mor João do Rego Castelo Branco parte em nova campanha contra os Guegués, que continuavam rebelados no sudoeste do Piauí. Levou por capelão da tropa frei José Antônio de Freitas. Nessa altura já ia se revelando como um militar que buscava resultados, partindo sem piedade contra o oponente. Passou a ferro malocas inteiras, aprisionando duzentos e trinta e tantos indígenas, depois de confrontos sangrentos, separando os mais renitentes, principalmente Timbiras, que foram condenados à escravidão e os demais ao aldeamento. Posteriormente, por ordem de El Rei, foram os indígenas escravos postos em liberdade. Foi, então, como resultado desta conquista, fundado no vale do rio Itapecuru, então termo de Aldeias Altas, hoje de Parnarama, no leste do Maranhão, o aldeamento de São Félix, sendo ele nomeado diretor do mesmo e nesse cargo permanecendo por oito anos, continuando o combate às tribos indígenas.
Como resultado dessa conquista e reconhecimento pelos serviços prestados, foi nomeado pelo governador e capitão-general do Maranhão por “capitão da conquista da guerra do gentio”. Nesse tempo o Piauí ainda estava anexado à Capitania do Maranhão.
Sobre essa conquista ainda disse o governador Gonçalo Pereira Lobato e Souza, do Maranhão:

“Pelo que alcancei neste cabo, parece-me que é homem de verdade e que enquanto andou na dita expedição observara o dito Regimento, e remetendo o conhecimento da conta da receita e despesa que nela fizera ao Desembargador Provedor da Fazenda desta Capitania; me informou este vocalmente, que não achara que fizesse, ou contivesse algum descaminho da Fazenda de V. Majestade”(AHU – Piauí – Cx. 5. D. 324).

Por esse tempo, se anima em pedir a El Rei o cobiçado hábito da Ordem de Cristo, declarando ser “pessoa das principais famílias do Maranhão, por ser descendente da casa dos condes de Pombeiro; que ele tem a honra de servir a V. Majestade naquele Estado voluntariamente; e levado do espírito dos que descende se resolveu a empreender a conquista do gentio; e sendo conhecido o zelo e valor com que executava todas as empresas foi chamado pelos governadores de V. Majestade para lhe encarregarem muitas, ocupando neste tempo todos os postos até o de cabo maior, em que mostrou a fidelidade de vassalo de V. Majestade, havendo-se em todos os combates em tal esforço, que em todas as ocasiões sem recear o perigo ficando em algumas delas ferido com setas, sempre teve bom sucesso, o que atribui à Onipotência Divina por ir com o sentido de fazer mais dilatados os Estados de V. Majestade e reduzir ao grêmio da Igreja maior número de católicos” (AHU. Piauí. Cx. 4. D. 312).
Embora situado em terreno fértil, por questão de policiamento e comércio foi o aldeamento de São Félix mudado para a fazenda Boa Vista, na freguesia de São Bento das Balsas, sudeste do Maranhão, de propriedade do capitão João do Rego Castelo Branco, em meado do ano de 1758. Essa decisão foi tomada em Termo de Junta realizado em 20 de junho do mencionado ano de 1758, no “lugar Trizidela, vulgarmente chamado Aldeias Altas”, com a presença do governador do Maranhão Gonçalo Pereira Lobato e Souza, que o convocou, dos ouvidores Manoel Cipriano da Silva Lobo, do Piauí, e Gaspar Álvares dos Reis, do Maranhão; dos capitães-mores Antônio Madeira Brandão, da vila da Mocha e Manoel Aires de Figueiredo, de Aldeias Altas, do capitão João do Rego Castelo Branco e outras autoridades.
Foi João do Rego Castelo Branco o artífice dessa mudança, tendo induzido as autoridades e doado a fazenda para implantar o aldeamento, tendo em vista ser local mais estratégico para defender as fazendas das ribeiras do Gurgueia e de Balsas, do ataque dos indígenas, que continuavam rebelados e reagindo às perseguições sofridas. Na oportunidade, se comprometeu a continuar dirigindo o aldeamento e à conquista do sertão, policiando desde a fazenda Cajazeiras, na freguesia do Gurgueia(Jerumenha), centro sul do Piauí, até a de Antônio Rabelo Bandeira, na freguesia de São Bento, no Maranhão. Também, visava essa mudança “fazer navegável o rio Itapecuru desde este lugar (das Aldeias Altas) para cima até a matriz de S. Bento das Balsas, em ordem a facilitar o comércio que atualmente lhe requereu os moradores da freguesia da Gurgueia, como também os índios situados junto à matriz de S. Bento” (AHU – Piauí – Cx 6. D. 387).
Todavia, em face de insatisfação com essa mudança e, provavelmente, fome, esses indígenas se levantam em fuga e desertam em outubro de 1759, embrenhando-se na mata, em rumo da freguesia de Pastos Bons. Contra eles, no ano seguinte, agora por ordem do primeiro governador do Piauí, João Pereira Caldas, parte novamente João do Rego Castelo Branco, trazendo-os à localidade depois de lutas e mortes(AHU – Piauí – Cx. 6. D. 387).
De fato, em 20 de setembro do referido ano de 1759, foi instalada a Capitania do Piauí, com a posse de seu primeiro governador, João Pereira Caldas, filho de Gonçalo Pereira Lobato e Souza, governador e capitão-general do Maranhão, já referido nestas notas. Então, indicado pelo pai, em princípio do ano de 1760, João Pereira Caldas encarrega o capitão João do Rego Castelo Branco de continuar perseguindo os indígenas de São Félix da Boa Vista e trazê-los de volta ao aldeamento, cuja missão é cumprida com êxito.
Satisfeito com o resultado da diligência o governador vai provê-lo na patente de tenente-coronel de cavalaria auxiliar e encarregá-lo de organizar e comandar o mesmo regimento. Era a mais alta patente entre os militares piauienses, sendo nomeado e sentando praça em 6 de dezembro de 1761, cujo ato foi confirmado por El Rei em 7 de outubro do ano seguinte(Arquivo Público do Piauí. Códice 162. P. 1v/30v). Todavia, o cargo não era remunerado com soldo, sendo-lhe dada em recompensa a administração de uma fazenda do Real Fisco, que fora confiscada aos jesuítas, como sucessores de Domingos Afonso Sertão. Sobre essa escolha disse o governador: “encontrei o homem certo para o lugar certo” – Mons. CHAVES.
Em face da guerra que se travava na Europa, de Portugal contra Castela e França, foi o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco designado pelo governador para guarnecer as barras do rio Parnaíba e do braço dele chamado Igarassu, por serem considerados lugares mais expostos a invasões. Por isso, mais dignos de vigilância. Desta forma, entre o mês de outubro de 1762 e junho de 1763, esteve comandando um competente corpo de tropa de cavalaria e de ordenança, de atalaia no litoral do Piauí, nas praias que ficam na ponta da ilha que jaz entre duas das sobreditas barras, com os olhos fixos no mar à espera do inimigo. Aí permaneceram por oito meses seguidos, alojados em barracas de palha por eles construídas, comendo carne de gado sequestrado das fazendas dos herdeiros de José de Abreu Bacelar e peixes e mariscos pescados no delta pela soldadesca. Felizmente, foi autorizado seu retorno a Oeiras, em face da paz celebrada entre os contendores, em fevereiro deste último ano, mas a eles só chegando a comunicação naquele mês. No regresso foi deixando alguns soldados em seus destacamentos de Parnaíba, Piracuruca e Campo Maior(Arquivo Público do Piauí. Códice 146. P. 84v/86. 117).
De retorno a Oeiras, não tem descanso o comandante João do Rego, logo reorganizando sua tropa para nova missão militar. Desta feita, seria o combate aos índios Guegués e Timbiras, no sul do Piauí e Maranhão, seus velhos conhecidos. Durante todo o restante do ano e princípio do seguinte foi ação principal do governo a requisição de indígenas e soldados, aquisição de armas e munições, assim como arrecadação dos mantimentos de boca. Então, em 7 de abril de 1764, parte à frente de seu comando para a vila de Jerumenha, onde o esperavam diversos soldados com alguns alqueires de farinha. Dali mandou uma parte da tropa, com mantimentos, armas e munições estabelecer arraial militar na boca do rio Uruçuí, conforme as instruções recebidas. E se dirigiu para Pastos Bons, no Maranhão, onde reuniria mais alguns soldados e os índios aliados do arraial de São Félix, que os esperavam. Entretanto, logo que saiu da vila de Jerumenha em busca da passagem do Parnaíba, donde atingiria Pastos Bons, entre este rio e o Gurgueia, teve o primeiro encontro com a nação Guegués, que no dia antecedente tinha atacado a casa e fazenda do vereador Antônio de Siqueira Barros, ferindo vários escravos. Então, depois de renhida peleja, sofre essa nação as primeiras baixas, refluindo, em seguida, para as terras dos Timbiras, onde João do Rego os alcança novamente, combatendo-os pela segunda vez e infligindo-lhes severas baixas. Resgata-lhes duas mulheres cristãs, cativas desta nação há mais de nove anos. Nessas duas pelejas se fizeram alguns prisioneiros, ficando diversos mortos na mata, para pasto das feras.
E por executar as instruções que levava do governador, se une em Pastos Bons à tropa do capitão José Nunes Maltez e prossegue a guerra contra a nação Timbira, nela empregando as forças militares com o desvelo de cinco meses, infligindo-lhes severas derrotas e grandes carnificinas, praticamente dizimando-a.
Sobre esse assunto é imprescindível o depoimento do historiador Odilon Nunes:

         “Com os primeiros dias de agosto começam a chegar a Oeiras levas de prisioneiros que eram logo remetidos para S. Luís, ficando no Piauí apenas as crianças que eram distribuídas entre os moradores da capitania.
‘Antecedeu a todos o Ten. João Rodrigues Bezerra, com 143 presas combalidas de cansaço e fome, prestes e morrer, e João Pereira Caldas diria a João do Rego que foram os que unicamente escaparam do maior número com que V. M.ce o expediu.
‘Novos grupos chegam a Oeiras, desfalcados pela desídia e impiedade dos preadores. Ao todo, uns trezentos e cinquenta prisioneiros, excedendo de muito o número dos mortos. No primeiro recontro, aprisionaram 183 pessoas, e deixara-se quatrocentos mortos e feridos que ficaram no campo por aqueles matos” (NUNES, 1975: 114-115).

Insatisfeito com esses sucessos, de regresso em fins de outubro, ainda tenta continuar a guerra com os Guegués, fazendo-lhe algumas perseguições. Porém, o inverno que se avizinhava lhe atalhou os passos, deixando o inimigo assaz enfurecido(Arquivo Público do Piauí. Códice 146. P. 193-195; Códice 147. P. 15v-16v).
Na mesma ocasião, uma tropa que saiu de Parnaguá, com cem homens, cinquenta a menos que a de João do Rego, e sob o comando do capitão Manoel de Barros Rego, para bater as matas entre os rios Uruçuí e Balsas, nada conseguiu, sendo infrutífera a missão.
Novamente, em princípio do verão de 1765, o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco parte com sua tropa no cumprimento da luta e conquista dos Guegués, que, em represália ameaçavam a vila de Jerumenha. Depois de tomadas todas as medidas preparatórias, na segunda quinzena de maio está o tenente-coronel novamente no mato em busca dos indígenas. Apoiado no arraial ou presídio que fundara na foz do rio Uruçuí, onde hoje existe uma cidade de mesmo nome, sem muita demora trava contato com os Guegués na margem ocidental do rio Uruçuí, ainda no final de junho, aprisionando alguns deles. Logo mais, em 3 ou 4 de julho, contando com o auxílio do índio cristão do arraial de São Félix, Manoel de Matos,  que era da mesma nação, conseguiu firmar paz com os Guegués, descendo com 434 deles, que chegam à vila de Jerumenha em 9 de outubro, logo mais alcançando Oeiras e fundando o arraial de São João de Sende, em 29 de novembro de 1765, nove léguas ao norte daquela cidade. Ainda hoje ali existe uma povoação de mesmo nome, no atual município de Tanque do Piauí, que recentemente foi desmembrado de Oeiras. Foi João do Rego Castelo Branco quem implantou o aldeamento, fazendo construir os edifícios necessários, a capela e os primeiros roçados, permanecendo como seu diretor, com pequeno interregno, até setembro de 1772, quando partiu para a conquista dos Acoroás. Foi sucedido na administração do lugar pelo filho Antônio do Rego Castelo Branco.
Em 1771, no governo de Gonçalo Lourenço Botelho de Castro(1769 – 1775) tem início a conquista dos índios Acoroás(Akroá). É novamente João do Rego Castelo Branco nomeado comandante da tropa de conquista. Devido às constantes queixas dos moradores do termo de Parnaguá, foi organizada nova campanha contra os mesmos, composta a tropa por 150 homens, entre esses diversos índios Jaicós e Guegués. Partiram de Oeiras no final do inverno, dirigindo-se pelo termo de Pastos Bons e vale do Balsas. Encontraram os Timbiras, aprisionando 124 deles e os enviando ao governador, escoltados por alguns soldados da tropa. Por não virem acorrentados como índios guerreiros desvencilham-se a caminho, fugindo cerca de vinte indígenas.
Mais tarde, em princípio de setembro, consegue surpreender e aprisionar uma maloca de 74 Acoroás, remetendo-os para Oeiras, pelo capitão Ignácio Paes Maciel. Continuando em sua marcha alcança o vale do rio Tocantins, onde novamente surpreende uma maloca da mesma nação, aprisionando 104 deles, em sua maioria mulheres e crianças, uma vez que os homens conseguiram fugir para as montanhas. Conta-se que foram surpreendidos ao romper do dia, ao tempo em que se achavam entretidos com a sua dança, e que era esta a única hora que tinham de divertimento. Então, vendo os homens que nação os conseguiram seguir, suas mulheres e filhos, combinaram descer seu cacique Bruenque que, enfim, após algum entendimento, aceitou a proposta de paz formulada por João do Rego. Consistia esta na imediata remessa para Oeiras de 97 índios, libertando-se 7 daqueles presos. E em razão do inverno que se avizinhava, no descimento para o mês de abril do ano seguinte, de outra aldeia vizinha e também do resto da gente que em diversas malocas ficou dispersa pelo mato, a fim de viverem na mesma Capitania estabelecidos.
Dessa forma, em princípio do verão de 1772, Bruenque, à frente de sua tribo, abandona as terras do Tocantins e é conduzido ao Piauí, satisfazendo o compromisso assumido. No mês de julho, nos subúrbios de Oeiras, arrancham-se 876 Acoroás. Logo mais chega o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco com mais 190 indígenas da mesma nação, totalizando 1237 Acoroás, acertando com o governador estabelecê-los numa mata do Poti, certamente onde hoje se localiza a cidade de Teresina. Porém, a caminho se enamora de uma mata nas cabeceiras do riacho do Mulato, ainda no termo de Oeiras, aí os estabelecendo em virtude de verificar a existência de seis léguas de terreno fértil. Era 26 de setembro de 1772, quando foi fundado o aldeamento de São Gonçalo de Amarante, hoje cidade de Regeneração. João do Rego, novamente implanta a estrutura mínima com construção de edifícios, capela e roçados iniciais, assumindo a direção do lugar.
Porém, em face da grande quantidade de bocas e escassez de alimentos começou a reinar a fome, pois foi escassa a ajuda do governo. Então, os indígenas abandonam o aldeamento em fuga na noite de 21 para 22 de janeiro de 1773, o que se repetiu na noite de 2 de abril. Buscavam suas antigas moradas. Contudo, sob o comando do diretor João do Rego grande foi a repressão e mortandade no combate às deserções. O velho militar permaneceu na aldeia castigando os que ficaram ou iam sendo remetidos pelos soldados. Entregou a campanha pelo sertão ao filho Félix do Rego Castelo Branco, em benefício de quem Botelho de Castro mais tarde pede favores elogiando-o. Depois dessa repressão restaram apenas cerca de 380 indígenas, tendo alguns conseguido fugir, porém, a maior parte sendo chacinada. Desde então, João do Rego Castelo Branco, já velho e cansado, com princípio de cegueira, permanece na missão de São Gonçalo, tocando as obras necessárias para sua implantação, à custa da Real Fazenda, inclusive o edifício da igreja. Em 1774, ainda orientou o filho Félix do Rego na infrutífera campanha de recaptura de alguns Acoroás desertores. Nesta campanha, mesmo indo até às margens do rio Tocantins, não encontrou as presas desejadas, mas aprisionou mais de 150 Timbiras, que foram enviados em sua maioria ao governador. João do Rego permanece na direção do aldeamento até o final de agosto de 1777, quando é interinamente substituído pelo filho Félix do Rego.
Com o afastamento do governador Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, que retornou ao reino, em 1º de janeiro de 1775, assume em seu lugar uma Junta Trina de Governo presidida pelo ouvidor-geral Antônio José de Moraes Durão, e tendo por membros o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, portador da mais alta patente militar e o vereador mais velho do Senado da Câmara de Oeiras, capitão-mor Domingos Barreira de Macedo, este último sendo substituído no ano seguinte por José Esteves Falcão. Em face da amizade de João do Rego com o antigo governador, de que Durão era inimigo, logo começou a azedar a convivência dos membros no governo interino. Então, desde 11 de janeiro de 1776, João de Rego abandona o governo e se afasta para o lugar de São Gonçalo, onde também era diretor. À vista disso, em pouco tempo começa uma correspondência acre entre os dois, a despeito de assuntos corriqueiros.
Mesmo afastado dos trabalhos no governo interino, somente em 12 de junho de 1777, foi substituído pelo capitão de dragões Fernando José Velozo de Miranda e Souza, oficializando, assim, sua saída do governo do Piauí. Porém, com a morte do rei Dom José e queda do Marquês de Pombal, assim como injunções de João do Rego, o bacharel Antônio José de Moraes Durão é afastado do governo e preso em 3 de dezembro do mesmo ano. Estava, assim, restaurado o prestígio da família Rego Castelo Branco no Piauí.
Durante todo o restante de sua vida o tenente-coronel João do Rego Castelo Branco ficou ligado a esses dois últimos aldeamentos indígenas. Em 1778, foi nomeado inspetor das duas aldeias, com autoridade superposta à dos diretores. Em 9 de julho de 1778, porque insistisse em extinguir o aldeamento de São João de Sende e levar os indígenas dali para São Gonçalo, fogem os mesmos, sendo trazidos de volta ao lugar. Ainda assim em dezembro do mesmo ano já estavam alguns homens da aldeia estabelecidos em São Gonçalo, dividindo-se, então, a aldeia dos Guegués.
Em 12 de setembro de 1779, João do Rego manda transferir à força todos os indígenas de São João de Sende para o aldeamento de São Gonçalo. Porém, no feriado do Natal daquele ano, entre cinquenta e sessenta indígenas retornaram sem consentimento ao seu antigo aldeamento. Foram então trazidos de volta, à força, por ordem do diretor João do Rego. Contudo, às margens do riacho do Bacuri, provavelmente o atual riacho do Jacaré, em 8 de janeiro de 1780, os indígenas conseguiram libertar-se de um libambo de couro ao qual vinham presos, embrenhando-se na mata. Perseguidos pelo ajudante Félix do Rego e seus soldados, são recapturados e quatro deles degolados, tendo as cabeças enfiadas em postes no centro da aldeia de São Gonçalo para terror dos demais indígenas. Tudo respaldado pelo tenente-coronel João do Rego Castelo Branco. O assunto foi objeto de devassa, sendo condenado João do Rego, seu filho e alguns auxiliares, tendo o primeiro assumido espontaneamente as responsabilidades. Posteriormente, foram perdoados por ato do general do Estado D. Antônio de Sales e Noronha e sentença do ouvidor do Maranhão, Julião Francisco Xavier da Silva Siqueira Monclaro(AHU. Cx.24. D. 1246).
Em 1779, mesmo completamente cego, João do Rego Castelo Branco, auxiliado pelo filho Antônio do Rego, ainda enfrenta penosa e infrutífera campanha contra os índios Pimenteiras, perlustrando as cabeceiras do rio Piauí. Como resultado desse esforço redigiu um interessante Diário.
O tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, mesmo velho e cego, ainda retornou à administração do aldeamento de São Gonçalo em diversas oportunidades(de setembro a dezembro de 1777; pela terceira vez, de 18.8.1784 a 6.10.1788; quarta vez, de 4.6.1792 a 12.8.1793; e, finalmente, pelo quinto e último período, de 7.10.1795 a 1798, quando foi afastado pelo governado D. João de Amorim Pereira). Pode parecer estranho e contraditório, mas tinha o respeito e estima da maioria dos indígenas do lugar.
Faleceu no estado de viúvo, em sua residência, na cidade de Oeiras, vítima umas febres, às 11h da manhã de 7 de agosto de 1800, com 81 anos de idade, sendo assistido pelo padre Cosme Damião da Costa Medeiros, e o corpo sepultado na capela de N. Sra. do Rosário, da mesma cidade, do seu cruzeiro para dentro.
Segundo informação constante no Censo Descritivo do Piauí, realizado em 1762, João do Rego possuía cinco filhos, sendo dois varões e três varoas. Todavia, conseguimos localizar o nome de apenas quatro destes, a saber: 1. Ajudante Antônio do Rego Castelo Branco, foi casado com Ana Joaquina de Menezes e foram pais de um único filho, o capitão-mor João Nepomuceno de Castelo Branco; 2. Ajudante Félix do Rego Castelo Branco, casado com Joana Angélica de Menezes, irmã da precedente, esta ainda existindo em 1818, deles descendendo os Marreiros de Castelo Branco; 3. Ana Pulchéria do Monte Serrate Castelo Branco, que contraiu dois matrimônios, respectivamente, com seu primo Antônio José Leite Pereira de Castelo Branco e, depois, com o capitão Antônio Pereira da Silva(2.º casamento deste), com ilustrada descendência nos dois leitos; por fim, Joana Angélica Dorotéa Castelo Branco, casada com seu primo, o capitão Pedro Luiz de Abreu Bacelar, irmão do primeiro esposo de sua irmã.
A vida de João do Rego Castelo Branco foi muito densa e ocupa uma página interessante da história piauiense, merecendo estudo mais aprofundado. É bastante controverso, suscitando debates acalorados, sendo muito maltratado pelos historiadores piauienses. Cometeu excessos, é verdade, contudo agiu sempre a serviço do Estado, sendo quase sempre exaltado pelas autoridades e recebendo diversas homenagens em seu tempo. Paralelamente, foi um construtor de povoações e cidades, edificador de templos religiosos, devoto católico, organizador de forças armadas, defensor do território pátrio e, assim, detentor de larga folha de serviços prestados à coroa e a pátria. Infelizmente, executando a política de sua época, com alguns lamentáveis excessos, também escreveu uma página que melhor seria se não existisse. Ao público de hoje, com a maior isenção possível, está aí a revelação de uma densa trajetória de vida.
Que cada um faça o seu juízo de valor.
* A fotografia que ilustra a matéria foi tirada na década de cinquenta, sendo da Praça São Gonçalo,  vendo-se o antigo mercado público, na cidade de Regeneração(PI), cujas raízes assentam no aldeamento indígena fundado pelo tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, em 27.9.1772.

(Excerto do livro ainda inédito: MIRANDA, Reginaldo. Piauienses notáveis. Teresina: APL, 2017).