domingo, 23 de abril de 2017

Neruda & Da Costa e Silva



Neruda & Da Costa e Silva

Itamar Abreu Costa
Cardiologista, escritor e poeta

I

O turista vai ao Chile, nerudar!
Vai à Amarante,  o poeta lá não está.
Resta-lhe, a beleza: da escadaria! A Serra!
O Rio e uma dose da cachaça Lira.

II

O mistério do Da Costa e Silva,
Foi desvendado, os restos mortais,
Já estão em solo amarantino. Trazidos
Nas patas e bicos das aves de arribação.

III

Feliz está Doutor Tatá, dacostiano de lá
Sabendo que o poeta em sua terra está
Construiu o monumento para o homenagear.

IV

O povo todo feliz com o que aconteceu,
O poeta retorna ao solo onde nasceu
Agradecidos, rezando ao nosso bom Deus! 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

C@ARTA AO POETA CHICO MIGUEL



C@ARTA AO POETA CHICO MIGUEL

Elmar Carvalho

Remexendo em velhos papéis, encontrei o convite que o bardo Francisco Miguel de Moura me havia enviado para as bodas de ouro de seu casamento com dona Mécia. A comemoração estava marcada para o dia 08.12.2009, dia de N. S. da Conceição. Por ser feriado nacional, confirmei-lhe a minha presença, tanto por telefone, como pessoalmente, quando nos encontramos em nossa reunião na Academia.

Infelizmente, em virtude da Semana da Conciliação, o Tribunal de Justiça transferiu o feriado para a segunda-feira seguinte. De modo que, não podendo comparecer às bodas do casal amigo, que conheço desde o final da década de setenta, resolvi encaminhar-lhes, de minha Comarca, um e-mail, na data do jubileu matrimonial,  a que dei o título de C@RTA AO POETA CHICO MIGUEL, que para honra minha foi lido na festa. Julgo importante transcrevê-lo:

“Caro poeta Chico Miguel: Deveres profissionais me impedem de participar de sua festa de Bodas de Ouro, comemorativa de seu meio século de feliz união conjugal, como era meu desejo, para confraternizar com o amigo, dona Mécia, seus filhos e nossos vários amigos comuns. Entretanto, nada me impede de lhe dirigir algumas palavras, que calo no peito há muito tempo, aguardando o momento propício para deixá-las aflorar.

Você é um típico sertanejo, apesar da pele clara e dos olhos azuis. E como bom sertanejo, é antes e acima de tudo um forte, no dizer euclidiano. Nascido em Francisco Santos, então povoado de Jenipapeiro, estudou, mourejou, você que é um Moura, estirpe de boa fama, e venceu. Criou os filhos com dignidade, sobretudo através da boa palavra e do bom exemplo.

Sob sua liderança, reerguemos, nós, um punhado de escritores, a União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI. Você promoveu vários eventos em sua profícua administração e legalizou a entidade, para que ela existisse de fato e de direito.

Diria que o amigo é um poeta do coração e da razão, no perfeito equilíbrio dessas duas vertentes. Sem ser um cerebralista, cultiva a inteligência, a criatividade, o labor, a leitura e a lapidação perfeccionista dos seus escritos, desbastando a sua fatura literária dos lugares comuns, das construções insípidas e da mesmice. Mas sem deixar de lado a emoção e a paixão, e os sentimentos desprovidos de pieguice.

Creio seja você o último remanescente dos polígrafos, a esgrimir a prosa e os versos com invulgar habilidade, e tanto na prosa como no verso produzindo diferentes gêneros da arte de escrever. Em textos eminentemente literários tem cometido belos poemas, urdido admiráveis versos, e enfrentado com galhardia e desembaraço o romance e o conto. Na teoria literária, na crítica e na historiografia, escreveu um notável livro de nossa história literária, elaborou percucientes e instigantes ensaios e crítica literária, em que se percebe a sua avantajada cultura humanística e o seu invejável lastro de conhecimento em literatura.

Considero-o, sem nenhum favor, um de nossos mais honestos intelectuais e críticos, porque não faz concessões espúrias, nem tampouco ignora aqueles que realmente têm merecimento, dando a cada um o seu justo valor, entretanto sem achincalhes desnecessários e desumanos, e sem alardes laudatórios.

Sem dúvida é o amigo um legítimo escritor e poeta, por devoção e vocação incontrastável. E alimentou essa vocação e devoção através de longas leituras, perquirições e ruminações reflexivas, mediante uma inteligência poderosa, porém cultivada no constante esforço pessoal, de que sou testemunha.”

                                 27 de janeiro de 2010

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DEPOIMENTO SOBRE CELSO BARROS COELHO


DEPOIMENTO SOBRE CELSO BARROS COELHO

     Alcenor Candeira Filho

     Na adolescência  ouvia falar do advogado Celso Barros Coelho, então já reconhecido como grande criminalista e civilista.

     Em 1972, regressando do Rio de Janeiro com o diploma de bacharel em direito, fui admitido na OAB-PI (inscrição nº 754/72) por ele presidida, com juramento prestado no seu escritório de advocacia, no centro de Teresina.

     Em 1976, ingressei por concurso público no carreira de procurador federal com lotação no INSS, passando a ter Celso Barros como um dos colegas de trabalho: ele lotado na superintendência em Teresina; eu, na agência da previdência social em Parnaíba. Lá se vão 45 anos de amizade, com convivência reforçada a partir de 1996,  quando ingressei na Academia Piauiense de Letras-APL, onde ele é ocupante da Cadeira Nº 39.

      Durante todo esse tempo só tem crescido minha admiração pelo mestre, com quem em companhia do saudoso  procurador e colega de repartição Francisco de Assis Costa Bacelar curti inesquecíveis momentos de boemia.  Sinto-me, portanto, credenciado a prestar depoimento sobre o grande jurista, professor e escritor.

     Lembro-me que nos anos 70 patrocinei uma causa cível cujo advogado da outra parte era o dr. Celso. Meu cliente perdeu a questão, mas eu ganhei muito em experiência e aprendizado.

     No início de minha vida profissional como advogado e professor participei ativamente em Parnaíba da campanha eleitoral de 1972 apoiando a candidatura de Elias Ximenes do Prado a prefeito municipal pelo  MDB. Elias derrotou o deputado estadual Francisco das Chagas Ribeiro Magalhães, que teve o apoio dos governos federal (Emílio Garrastazu Médice), estadual (Alberto Tavares Silva) e municipal (Carlos Furtado de Carvalho). O apoio do advogado Celso Barros, deputado estadual cassado em 1964 pela Assembleia Legislativa do Estado do Piauí,  foi importantíssimo na campanha, especialmente pelos serviços profissionais que prestou ao candidato do MDB. No meu livro – POLÍTICA E OUTROS ASSUNTOS PARNAIBANOS -, a ser editado brevemente pela Universidade Federal do Piauí-UFPI, reporto-me a esse fato:

            Alguns seguidores  de Elias sofreram ameaças de prisão feitas pelo Delegado Geral  de                       Polícia em Parnaíba, o promotor de carreira Genez de Moura Lima.
O juiz de direito Walter de Carvalho Miranda, que não admitia arbitrariedades, concedeu vários habeas corpus preventivos em favor dos ameaçados.
Em depoimento transcrito no livro POLÍTICA: TEMPO E  MEMÓRIA, de Celso Barros Coelho (Teresina, Academia Piauiense de Letras/Bienal Editora, 2015), desabafa Elias Ximenes do Prado:
“ Durante a a puração, com a contagem nominal das cédulas pelo Juiz, o governo usou de todos os meios para alterar o resultado da eleição não conseguindo  em razão da corajosa posição do juiz e da defesa assumida prontamente pelo advogado Celso Barros Coelho. A luta não termina. Desesperados o Governador e o candidato iniciaram um processo  na Justiça Eleitoral para barrar a diplomação do candidato eleito. Na defesa mais uma vez se alteia aquele advogado, ocupando a tribuna daquele Tribunal para denunciar o embuste, com argumentos assentados na lei e na jurisprudência do Tribunal” (p.115/116).

     Recordo que nessa luta  cheguei a emprestar um exemplar do Código Penal ao dr. Celso, o qual  nunca me foi devolvido: sumiu nas comemorações etílicas pela grande vitória.

     Dentre os inúmeros trabalhos que publicou como jurista, destaca-se  o da sua atuação como relator na Câmara dos Deputados do projeto do Código Civil Brasileiro (Lei Nº 10.406, de 10-01-2002)  na parte relativa ao Direito das Sucessões, compreendendo quatro títulos: I. Da Sucessão em Geral; II. Da Sucessão Legítima; III. Da Sucessão Testamentária; IV. Do Inventário e da Partilha.

     Com esse trabalho Celso Barros coloca-se, na minha opinião, no patamar do ilustre piauiense e extraordinário jurista Coelho Rodrigues, que em 1890 foi incumbido de redigir o anteprojeto  do Código Civil Brasileiro que ficou pronto em 1893 e que, assim como o anteprojeto de Teixeira de Freitas, elaborado entre 1859 e 1872, o de Nabuco de Araújo, elaborado de 1873 a 1878 e  os apontamentos de Felício dos Santos (1881), não foi transformado em lei, que só se tornaria realidade com a aprovação do anteprojeto Clóvis Beviláqua (Lei Nº 3071, de 1º de janeiro  de 1916, assinada por Wenceslau Braz como Presidente da República, tendo entrado em vigor em 1º de janeiro de 1917).
            
     A biografia e a bibliografia de Celso Barros Coelho são riquíssimas, envolvendo atividades advocatícias, docentes, políticas, administrativas e acadêmicas, com dezenas de publicações nessas áreas. Sua fortuna crítica também é invejável, expressa em livros, anais, anuários, revistas, jornais, dicionários, enciclopédias, etc.

     O prestígio alcançado no Brasil pelo professor Celso Barros como jurista fez com que fosse convidado a escrever dezoito verbetes para a ENCICLOPÉDIA SARAIVA DE DIREITO (75 volumes), edição comemorativa do Sesquicentenário de Fundação dos Cursos Jurídicos no Brasil, 1827-1977.

     Seu livro mais recente e já citado neste artigo – POLÍTICA: TEMPO E MEMÓRIA – compõe, segundo o jornalista e escritor Zózimo Tavares, “um painel do Piauí e do Brasil, em seus aspectos econômicos, culturais e políticos. São páginas vivas e pulsantes  de suas  memórias. À narrativa envolvente são acrescidos discursos históricos no parlamento que põem em relevo episódios notáveis da história do país”.

     Hoje o dr. Celso Barros  é nonagenário e eu setuagenário, ambos em plena atividade mental. Sempre que vou a Teresina ou que ele vem a Parnaíba nos encontramos e nos abraçamos. Somos dois idosos que fizemos ao longo de quase meio século uma amizade sólida como o pão de açúcar como costuma dizer o velho amigo Lauro Andrade Correia, também professor emérito da UFPI e nonagenário que continua escrevendo regularmente.   

terça-feira, 18 de abril de 2017

O Urubu e o Sapo


O Urubu e o Sapo

Valério Chaves
Desembargador inativo

          Certo dia os animais da floresta amanheceram em grande euforia.
         O sapo que saia à procura de insetos para comer, perguntou ao urubu o motivo de tanta alegria.
         - Ah! você ainda não sabe?
         - Pois fique sabendo que hoje vai ter uma grande festa no céu oferecida a todos os animais da terra – respondeu o urubu enquanto se arrumava para voar rumo ao céu.
         - Neste caso, vou me arrumar também para ir junto com você – disse o sapo com ar de animação.
         O urubu olhou indiferente para o sapo, e disse-lhe em tom comovido:
         - Sinto muito amigo sapo, você não pode ir comigo.      
         - Mas por que não? - quis saber o sapo. Afinal de contas sou bicho igual aos outros.
         -Tenho todo direito de me divertir como qualquer um. Ou não tenho? - perguntou, demonstrando aborrecimento.
         O urubu, vaidoso e com olhar de desprezo, respondeu:
         - Amigo sapo, as coisas nem sempre são do jeito que a gente deseja.
         - Vejo que você tem a boca muito grande, e pelo que estou sabendo quem tem boca grande não entra na festa do céu. Só entra quem tem boca pequena.
         O sapo deu um salto, encheu os pulmões, ajustou a boca o máximo que pôde, e falou indignado:
         -Isso é uma injustiça. Oh  injustiça!  Oh   injustiça...!!!

         Moral da história:
         As virtudes não estão nas aparências, mas no que somos e no que fazemos.    

segunda-feira, 17 de abril de 2017

SONETO DO ANDARILHO FANTASMA


SONETO DO ANDARILHO FANTASMA

Alcenor Candeira Filho

     Trevas. Noite sem lua. Nenhuma estrela.
     Excêntricos caminhos.  Mil percalços.
     Andarilho fantasma. Pés descalços.
     Ninguém para dar-lhe as mãos na ínvia estrada.

     Qual o destino se traspassa pontes
     que não cruzam lagos rios ou fontes?
     Defronte montanhas altas – montanhas
     altíssimas de azul ataviadas.

     Passos lentos do andarilho incansável
     totalmente nu – sem roupa relógio
     documentos óculos automóvel

     a vagar pelas veredas da exótica
     estrada cada vez mais larga cada
     vez mais linda e cada vez mais longa.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Piauí na Confederação do Equador


O Piauí na Confederação do Equador

Reginaldo Miranda
Historiador, escritor e membro da APL

             Proclamada e consolidada a independência do Brasil do jugo português, em que o Piauí, ao contrário de outras unidades do novel país, galhardamente, pagara seu tributo de sangue, fez-se necessária a elaboração da nova Carta Magna, para a qual o país eufórico se reuniu em Assembleia Nacional Constituinte. Todavia, o imaturo e despótico Imperador em total revelia ao processo democrático, em 12 de outubro de 1823, houve por bem dissolver a citada Assembleia Nacional Constituinte outorgando uma carta constitucional a 25 de março do ano seguinte, sem legitimidade do apoio popular. Esse ato autoritário do Imperador recebeu total censura, sendo aceito a contragosto pelas mais diversas províncias brasileiras. Contudo, contra essa aberração democrática se levanta em luta a altaneira província de Pernambuco, levando consigo Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Sob a alegação de que D. Pedro I retornaria o Brasil ao decaído regime colonial era disseminada a propaganda revolucionária pelo jornal Typhis Pernambucano que contava com a briosa colaboração de frei Joaquim do Amor Divino. Então, a 2 de julho de 1824, rebenta a revolução republicana sob o comando do presidente da província, Manoel de Carvalho Paes de Andrade, herói de outras refregas. É proclamada a Confederação do Equador. A ela também aderiu Alagoas.

Por esse tempo o Piauí ainda se refazia dos estragos ocasionados pela Guerra da Independência. Porém, a litorânea vila de Parnaíba recebia emissários do Ceará, mandados pelo líder revolucionário cearense, Tristão Gonçalves de Alencar Araripe. Não tardou, pois, aos idealistas da Parnaíba, que por primeiro abraçaram a causa da Independência, também aderirem à Confederação do Equador, cuja proclamação solene pela Câmara Municipal deu-se a 25 de agosto do mesmo ano sob a presidência do Dr. João Cândido de Deus e Silva, e a participação efetiva do tenente-coronel Domingos Dias da Silva Henrique, major Bernardo Saraiva de Carvalho, comandante do corpo de milícia da vila, major José Francisco de Miranda Osório, João Rodrigues Falcão, Veridiano Sousa, José Ferreira Meireles, José de Sales, João Cardoso Batista, Pe. Francisco de Paula Barros e outros insurretos. Insuflados por essa vila, também a Câmara Municipal da vila de Campo Maior aderiu à mesma revolução a 8 de setembro seguinte. É que haviam marcado essa data para jurarem a Constituição outorgada pelo Imperador. Porém, orientados pelos insurretos da Parnaíba, ao se reuniram nessa data, ao invés de jurarem a Constituição como pretendiam, também aderiram ao movimento secionando o norte da província em franca adesão ao regime pernambucano. Era a influência do Ceará, de onde chegavam notícias alvissareiras. Contudo as demais vilas permaneciam reticentes. Oeiras, sob o comando do presidente da Província, Manoel de Sousa Martins, agia com dubiedade, fazendo vista grossa aos insurretos do norte e se comunicando permanentemente com a imperial Bahia, em busca de notícias esclarecedoras. O velho político queria bem decidir e conservar seu poder. E ao saber pela Bahia que Pernambuco caíra, fato que desconheciam as duas vilas do norte porque se comunicavam apenas com os revolucionários cearenses se decidiu pelo partido do Imperador. Enquanto isso, os insurretos do norte despacharam o major José Francisco de Miranda Osório, para em missão melindrosa se dirigir até Oeiras em busca do apoio do presidente da Província, que com eles mantinha contato. Porém, este já sabedor do malogro pernambucano prendeu Miranda Osório na mesma noite em que chegara a Oeiras, 27 de outubro, e apreendeu toda a sua bagagem que, mais tarde, foi examinada publicamente pelo Ouvidor-geral. Nada encontraram e adversários acusaram Sousa Martins de retirar papéis comprometedores. De fato, parece que o silêncio de Miranda Osório interessava a Sousa Martins, pois ainda sob custódia foi nomeado selador da Alfândega de Parnaíba por provisão de 15 de janeiro de 1825.  A devassa posteriormente procedida concluiu que ele fora a Oeiras apenas tratar desse assunto.

E diante da frustração do movimento nas outras províncias, em 28 de outubro e 7 de novembro, respectivamente, as vilas de Parnaíba e Campo Maior abdicaram de suas anteriores proclamações e juraram a Constituição do Império do Brasil outorgada por D. Pedro I. Estava, assim, encerrada a participação do Piauí na Confederação do Equador, e que ficara circunscrita apenas às duas vilas nortistas. Contudo, essa participação ainda não foi devidamente reconhecida pelos historiadores pátrios. O historiador piauiense Anísio Brito, em 1920, publicou na Revista do Instituto Geográfico e Histórico Piauiense um artigo sobre esse tema sob o título Adesão do Piauí à Confederação do Equador (Teresina: Papelaria Piauiense, 1920. Tomo 1º. p. 241/248). Lamenta ele os erros e lacunas que existem sobre esse assunto. No ano seguinte, outro ilustre escritor piauiense, Abdias Neves(1876-1928), publica interessante livro com o título O Piauí na Confederação do Equador, reeditado em 1996. Também ele se insurge contra essa ignorância de alguns escritores à participação piauiense nesse movimento, acrescentando que, embora sem projetar heróis, sem os lances dramáticos das grandes paixões, se afirmou positivamente em atos de manifestações de rebeldia ao governo constitucional. Diz: “Convenho que o concurso do Piauí não foi ruidoso. Faltou-lhe o lado sugestivo das agitações das ruas – o fragor das refregas, a perturbação das derrotas, as surpresas alucinadoras do imprevisto. Não contribuiu, também, com o tributo de sangue, de enforcados e fuzilados. Mas, isto, se não desperta a sentimentalidade lírica do historiador, não condena a realidade histórica do fato” (p. 147). Faça-se justiça, pois, ao Piauí, o incluindo entre as seis províncias que participaram da histórica Confederação do Equador.   

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Noturno de Oeiras no hotel do SESC

Elmar Carvalho e Denise Barros, gerente do Hotel SESC-Oeiras


Fotos: Carlos Rubem

Noturno de Oeiras no hotel do SESC

Elmar Carvalho

Na quarta-feira, no final da tarde, a Destaque Comunicação Visual me informou, por telefone, que havia finalizado uma placa em que se encontrava estampado meu poema Noturno de Oeiras. No dia seguinte, retornei a ligação e fui vê-la. Media 1,20 metros por 60 centímetros, e fora confeccionada em metal inoxidável.

Além de minha assinatura, tinha uma bela imagem da catedral de Nossa Senhora da Vitória, que meu poema louvava. Destinava-se a ser colocada no prédio do hotel do SESC em Oeiras, que leva o nome do Dr. Moisés Reis, meu amigo e grande admirador do Noturno, desde mais de duas décadas.

Havia sido encomendada pessoalmente pelo Dr. Valdeci Cavalcante, em minha presença. Como a Destaque fica defronte ao seu escritório de advocacia, fui falar com ele. Dinâmico como é, perguntou-me se eu não desejava ir a Oeiras para escolher o local exato em que eu gostaria de afixar a placa. Disse que a pressa se devia ao fato de que na Semana Santa o hotel estaria lotado, o que seria bom para sua maior divulgação.

Não vacilei um segundo e lhe respondi que sim. Ele me conduziu até a sua secretária Sabrina, e disse para que combinássemos o dia e o horário em que o automóvel do SESC me apanharia em minha casa. Em seguida se despediu para cumprir seus inúmeros afazeres. Em virtude das diversas tarefas e compromissos da repartição, marcamos para o sábado, cedo da manhã.

Na sexta-feira, na caminhada da Raul Lopes, encontrei o médico Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, oeirense por nascimento e vocação. Falei-lhe de minha agradável missão cultural no dia seguinte. O ilustre amigo e esculápio me prometeu que no Sábado de Aleluia iria “fiscalizar” se a placa teria sido colocada em local apropriado.

Conforme o combinado, às seis e meia da manhã, em pontualidade britânica, o Neto, prestativo e educado motorista do serviço social, estava à porta de minha casa. Colocamos a placa no carro, e seguimos para nosso destino. Revi as paragens que semanalmente via, quando fui juiz em Regeneração e Oeiras.

Ao chegar ao lindo, novo e grande hotel, que administra imenso parque de lazer, com inúmeros equipamentos aquáticos e outros, além de churrascaria, liguei para o promotor de Justiça Carlos Rubem, para me ajudar a escolher o local mais adequado para a afixação da placa do Noturno de Oeiras. Optamos por colocá-la no hall, um pouco abaixo de onde estão afixadas as belas pinturas da grande artista piauiense Dora Parentes. Por sinal que essas magníficas telas retratam as mesmas paisagens e monumentos arquitetônicos que exaltei em meu poema.

Eu, Denise Barros, gerente da casa, e o Carlos Rubem terminamos por dar um singelo cunho solene ao evento, aproveitando as pessoas que se encontravam no local e alguns jovens que foram convidados pelo meu amigo, entusiasmado promotor de Justiça e também de Cultura. Carlos Rubem se encarregou de fazer a louvação de meu Noturno, assim como parabenizou o SESC pela feliz iniciativa. Falou sobre minha longa ligação afetiva com a velhacap. E ainda desafiou o compositor Herbert Vinicius, que se encontrava presente, a musicar os meus soturnos e noturnos versos.

Seguindo as suas pegadas, discorri sobre a minha vinculação à nunca assaz louvada antiga urbe, que remonta às minhas leituras de menino e a eventos culturais e literários de que participei. Assinalei que concluí minha carreira de julgador como titular do Juizado Especial da Comarca do Mocha. Aludi a diversos eventos em que o Noturno foi entoado e interpretado, inclusive no proscênio do Cineteatro Oeiras, entre as naves da vetusta catedral de N. S. da Vitória e no seu adro. No You Tube podem ser vistos dois audiovisuais desse poema.


Por fim, como não poderia deixar de ser, sob pena de ingratidão, fiz enfático agradecimento ao SESC e ao seu dirigente Valdeci Cavalcante, que foi meu professor no Curso de Direito (UFPI), pela aposição da bela placa do Noturno de Oeiras no prédio que leva o honrado nome do grande causídico e intelectual Moisés Reis.     

domingo, 9 de abril de 2017

0904.01


0904.01

Walter Lima

O maior e mais velho Carvalho
Do mundo tem cerca de 1400 anos.
A árvore fica localizada
Na Carolina do Sul, E.U.A.”.

Seja grande ou pequeno,
Maior, menor, velho ou novo,
Contanto que seja igual Carvalho,
Internamente a seiva-vida
O sustém dia a dia, ano a ano.

Outro Carvalho deste abril
Nutrido da seiva-humildade,
Qualidade(s) que o mantém enraizado,
Fincado e afincado na missão-viver.

Missão-função-profissão segue
Angariando  cada hora passada,
Assim consegue semelhança
Ao Carvalho: Carvalho se mostra.

  
w.lima_.
09.04.2017.

*texto-homenagem pela data natalícia de José El-Mar de Mélo Carvalho. Finit.

sábado, 8 de abril de 2017

2101.01


2101.01

Walter Lima

“se procurar bem, você acaba encontrando...”

Dois homens lado a lado espiam
Poeta inerte no esquife.
Discutem ambos
Como viver a vida sem poesia.

No centenário texto bíblico
Antigos compravam seu próprio túmulo

“não a explicação (duvidosa) da vida, ...”

Não entrava na cabeça do morto
(por isso, poetas incompreensíveis)
Que nossa morte problema dos outros.

“mas a poesia (inexplicável) da vida”.



w. lima_-.

RP, SP, 22/01/2017.  

sexta-feira, 7 de abril de 2017

VICENTINHO E O ZICO



VICENTINHO E O ZICO

Elmar Carvalho
  
Fui a Campo Maior visitar meus pais. Aproveitei para ir a casa do Henrique, filho do craque de futebol Vicentinho, para tirar umas fotografias desse atleta, com a finalidade de ilustrar uma crônica que fiz em sua homenagem. Foi ele o maior cobrador de faltas do futebol piauiense, por causa da precisão e força de seus chutes. Inteligente, era um grande armador de jogadas, em razão de seus arremessos certeiros e da boa distribuição em seus lançamentos.

Atuou nos arquirrivais Comercial e Caiçara, embora este último seja o time de seu coração, pois foi o que o trouxe do Ceará, e foi nesse esquadrão, sanguíneo e sanguinário alvirrubro, que atingiu o ápice de sua glória e performance. Enquanto esperava a vinda de Vicentinho, fiquei numa mercearia vizinha, a conversar com o amigo Zé Francisco Marques e o professor de química Carlos Sousa.

Através deste, fiquei sabendo que o craque, em virtude de sua alta qualidade, tinha o privilégio, na época em que jogou no Comercial, de não ter que ir para a “concentração”, que ficava no Horto Florestal, do outro lado da barragem. A casa de Vicentinho ficava perto do Estádio Deusdete Melo. Os jogadores, quando estava perto do início do jogo, atravessavam o paredão da barragem e seguiam pela rua onde o atleta residia até a praça futebolística.

Contou-nos o Carlos que, duas horas antes da partida, o craque lhe pedia fosse comprar um copo de pinga no bar e mercearia do senhor Antônio Borges, e tomava duas ou três doses da calibrina. Um pouco depois, chegava o time comercialino e Vicentinho engrossava o cortejo em direção ao estádio. Carlos Sousa contou ainda um outro episódio interessante da biografia futebolística do atleta. Certo dia, na preliminar do jogo em que o Tiradentes (PI) jogava contra o Flamengo (RJ), o Comercial venceu o Piauí pelo placar de cinco a dois.

O magnífico craque Deca marcou três gols, e Vicentinho, dois, em exímias cobranças de falta, em que a bola passou no chamado L da trave, local onde a coruja costuma dormir, no jargão do futebol. Antes de começar a partida principal, o craque flamenguista Zico, no início de sua carreira, foi pedir lições e “bizus” ao Vicentinho. Acredita-se que essas dicas preciosas foram importantes na irrepreensível trajetória do grande Zico.


Após a conversa e as fotografias, retornei a casa de meus pais, em companhia do Zé Francisco, para inaugurar o que chamei Recanto da Saudade, em homenagem ao bar de mesmo nome, do saudoso Dom Augusto da Munguba. O Recanto fica no quintal da casa, debaixo de frondosa mangueira, enlaçada por belas parasitas e rodeada por outras plantas de menor porte, algumas ornamentais e outras frutíferas.

24 de janeiro de 2010

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Anísio Brito


Anísio Brito

Reginaldo Miranda

O Prof.º Anísio de Brito Melo nasceu na cidade de Piracuruca, norte do Piauí, em 24 de setembro de 1886, filho de Antonino de Brito Melo(1854 – 1927) e D. Leonília do Moraes Brito. Era neto paterno de Domingos de Brito Passos e D. Carlota Rosa de Melo e materno do coronel Gervásio de Brito Passos e D. Carlota Maria de Moraes, todos aparentados e oriundos de distintas famílias daquela região.

Foi na cidade natal que iniciou as primeiras letras, estudando na única escola pública local com o professor Fernando Pereira Bacelar, a quem num gesto de gratidão presta singela homenagem no estudo que faz sobre sua terra, a velha Piracuruca. Em seguida matricula-se no curso de odontologia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, colando grau depois de cursar com êxito a grade curricular.

De retorno a Piracuruca, ali inicia vida profissional atendendo à população local. Em 1910, recebeu a carta-patente de capitão do 74º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional, lembra o parente Augusto Brito.

Por esse tempo casa-se com a prima Carlota de Moraes Brito, filha de Pedro Melchíades de Moraes Brito e D. Carlota de Moraes Brito, não tendo, porém, gerado sucessores.

Contudo, porque a vida profissional na pequena Piracuruca não oferecia perspectivas para um jovem profissional da odontologia, mudou sua residência para a cidade de Teresina, capital do Estado.

Mas a sua vocação mesma foi o magistério, abandonando completamente a odontologia. Sobre essa mudança de vida lembra o Porf.º Arimathéa Tito Filho, ex-presidente da Academia Piauiense de Letras e grande estudioso das cousas de nossa terra:

“E em chegando a Teresina encontrou um ambiente de efervescência de ideias, um ambiente de renovação intelectual, pelo qual foram responsáveis Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, Anísio de Abreu, Abdias Neves. Justamente os bacharéis que vinham modificados no seu espírito e na sua inteligência pela famosa e ainda discutida Escola do Recife, com os seus pontífices maiores: Tobias Barreto e Sílvio Romero. Neste ambiente de pregação naturalista, anticlericalista, ambiente de ateísmo confessado, neste ambiente, Anísio recusaria os instrumentos do odontólogo e aderia a conceitos novos e seguia outros caminhos. Tornou-se professor. Ascendeu à direção do Colégio Estadual, na época Liceu Piauiense. No governo João Luís Ferreira, diretor da Instrução Pública. Mantido por Matias Olímpio, depois reconduzido por Landri Sales e finalmente sustentado por Leônidas Melo”.

Acrescenta o inolvidável mestre, chamando atenção para a reforma do ensino promovida pelo educador Anísio Brito quando diretor da Instrução Pública:

“Quatro vezes no cargo hoje correspondente a Secretario de Educação. Realizou reforma do ensino, abdicou dos métodos de Lancaster adotados na escola primária. Realizou modificações na educação física, contratando técnicos do sul para este mister nas escolas secundárias do Piauí. Inaugurou o gosto do canto orfeônico e só deixou a paixão pelos motivos educacionais quando Leônidas de Castro Melo lhe entregou tarefas que antes já havia exercido, as tarefas de organizar, dirigir, orientar a Biblioteca, o Arquivo e o Museu Histórico do Estado. Três instrumentos culturais que foram paixão permanente do seu espírito. Pena é que os tempos futuros lhe desmanchassem a obra, separando o Arquivo, a Biblioteca e o Museu, como se as três não fossem peças do mesmo processo, o mesmo processo de busca da verdade”.

Portanto, o mestre Arimathéa resumiu a trajetória de Anísio Brito como professor e, também, diretor do Liceu Piauiense em quatro oportunidades; assim como diretor da Instrução Pública nos governos de João Luís Ferreira(1920 – 1924), Matias Olímpio de Melo(1924 – 1928), Landri Sales(1931 – 1935) e Leônidas Melo(1935 – 1945). Não esqueceu de mencionar seu excelente trabalho à frente do Museu, da Biblioteca e do Arquivo Público do Estado, este último hoje denominado, em sua homenagem, “Casa Anísio Brito”. É que muito contribuiu com sua ação para organizar a documentação das diversas repartições públicas do Estado, de forma que hoje o Piauí possui um dos mais completos arquivos do Brasil, embora no momento esta documentação clame por uma digitalização, a fim de ser mais bem preservada e, também, para facilitar a consulta pelos interessados. Portanto, são dois aspetos da vida de Anísio Brito que merecem ser ressaltados: a sua contribuição para o desenvolvimento da educação piauiense e a catalogação e organização da documentação histórica visando preservar nossa memória histórica.

Nessa última perspectiva, Anísio Brito desenvolveu também o gosto pela pesquisa histórica, analisando questões controvertidas e tirando algumas conclusões interessantes. Entre outros assuntos, envidou esforços para elucidar a prioridade no desbravamento do Piauí, se cabia a Domingos Jorge Velho ou Domingos Afonso Mafrense? assunto que ainda hoje suscita debates; outro aspecto que ocupou sua atenção foi a fixação da data mais relevante para se comemorar a adesão do Piauí à independência do Brasil; um terceiro aspecto que prendeu sua atenção, foi revisar a visão historiográfica sobre os Balaios, até  então vistos como criminosos, demonstrando que os mesmos foram vítimas de  ações nefastas do governo; por fim, também destacou a figura do Visconde da Parnaíba, que tantos serviços prestou à pátria e vinha sendo injustiçado pelos historiadores de antanho.

Arimathéa Tito Filho, no papel de presidente da Academia Piauiense de Letras, fazendo-lhe o panegírico por ocasião do centenário de seu nascimento, lembrou ser ele um historiador científico, revisor de nossa história, servindo de luz, de farol aos outros que lhe sucederam.

É bem verdade que ele foi inovador, porém produziu pouco, apenas pequenos estudos sobre questões pontuais. Talvez a sua atividade de educador não tenha permitido maior tempo para a pesquisa histórica, à qual tinha competência e poderia ter produzido uma grande obra. Ainda assim sua contribuição é notável e merece ser reunida para o conhecimento da posteridade. Foi por essa razão que incluímos na coletânea Obra reunida alguns de seus estudos, aqueles que no momento foram possível localizar, a fim de integrar a Coleção Centenário, comemorativa dos primeiros cem anos de nossa Academia Piauiense de Letras.

Na referida Coleção incluímos cinco trabalhos de Anísio Brito, a saber: Piracuruca: história, um interessante e completo estudo sobre sua terra, que fora publicado no livro O Piauhy no centenário de sua Independência: 1823 – 1923 (Teresina: 1923); constitui-se num estudo aprofundado que diferencia-se dos de outras localidades, escritos por outros autores, geralmente cópias de Notícias das comarcas do Piauhy, de Pereira da Costa.

O segundo trabalho reunido na indicada coletânea é Do ensino primário: seu histórico, desenvolvimento, métodos adaptados e estado atual (In: A Instrução Pública no Piauhy. Teresina: 1922), onde traça um painel da educação pública piauiense.

Em seguida, incluímos três ensaios inovadores sobre questões polêmicas de nossa historiografia: A quem pertence a prioridade histórica do descobrimento do Piauí?, Adesão do Piauí – Confederação do Equador e, por fim, Contribuição do Piauí na Guerra do Paraguai. O mérito de Anísio Brito foi aprofundar com método científico questões pontuais de nossa história, trazendo novas conclusões e, assim, alargando as possibilidades.

Além destas ainda consta em sua bibliografia outros pequenos ensaios, a saber: A Independência no Piauí, Os Balaios no Piauí, Ligeiras notícias sobre o ensino no Piauí e A reforma atual e o ensino público. Também, colaborou com verbetes para o Dicionário Histórico, Geográfico e Etimológico Brasileiro(Rio de Janeiro, 1922).

Em face dessa laboriosa atividade intelectual tornou-se sócio-fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí(IHGP), assim como patrono da Cadeira n.º 34 da Academia Piauiense de Letras, cujo primeiro ocupante foi o historiador Odilon Nunes.


Faleceu na cidade de Teresina, em 17 de abril de 1946, com pouco mais de 59 anos de idade. Por suas múltiplas atividades, inscreve seu nome na galeria dos grandes piauienses e sua obra fica como testemunho imperecível de seu trabalho em prol da memória de nossa gente. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

0104.01


0104.01

Walter Lima

Quando estamos no meio
                                Do nada
Do nada podemos    trans-
F o r m a r
Trans-formar transformar
Nada em AdaN.

Madam I´m AdaM”
(Palíndromo que fôssemos, somos querendo.)
No dia gênese / gênese vira hoje
Hoje que é dia passado
E foi feito presente.

Presente dado diferentemente
Do cavalo de Troia.
No avesso do Palíndromo
Presente dado no presente:
Madam I´m AdaM”.

  
W.lima_.

RP/SP, 01.04.2017.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Dois sonetos de Alcenor


SILENCIOSAS SOMBRAS MELANCÓLICAS

Alcenor Candeira Filho

    ó silenciosas sombras melancólicas
     tristes almas sem rumo sem destino
     que vagam cansadas e vagarosas
     pelo vasto universo negro em ruínas!

     olhos lacrimejantes de tormenta
     procissão sinistra de miseráveis
     que não alimentam sequer um sonho
     sem o ônus de infinito sofrimento!

     diurnos e noturnos peregrinos
     sorumbáticos fantasmas viageiros
     eternamente a caminhar sozinhos!

     sombrias sombras cuja esperança única
     é esperar nuvens que em vez de chuva
     se façam fumaça no nevoeiro!


SONETO DO PERDÃO

Alcenor Candeira Filho

     para ambos a vida era colorida,
     vergel de rosas de todas as cores.
     depois tempestades e dissabores
     varreram a união apetecida.

     contra ela, outrora a rosa mais querida,
     a flor mais bela entre todas as flores,
     ele dirige injustos horrores
     gritando com a voz enfurecida.

     contudo, ela é tão dócil e ama-o tanto
     que ao cabo de cada vã  discussão
     (quando ele precisa ser perdoado, quando...)

     é quem chorosa, mergulhada em pranto
     humildemente implora-lhe perdão
     -e é o pecador quem acaba perdoando.

domingo, 2 de abril de 2017

Seleta Piauiense - Raimundo Alves Lima - RAL

Fonte: Google

O trem

Raimundo Alves Lima - RAL (1956)

Nenhum segredo há de ser violado
com a inesperada passagem
do trem com sua fúria.

O trem passa ao lado
dos que sobrevivem nas palafitas
às margens da estrada,
levando o pesadelo dos homens
em suas engrenagens de pânico.

sábado, 1 de abril de 2017

2303.01

Fonte: Google

2303.01

Walter Lima

É fevereiro, seis, onde
Par e pares se encontram.

Junção sem tamanho, sem cheiro,
Cor, distinção, julgamentos,
Sei apenas que forma a fôrma.

Cheguei, chegaste, na oposição do poeta
Não vínhamos fatigados nem tristes
E paramos sim nessa estrada
Que segue dia a dia caminhante
E se fortalece das nossas
Pegadas diárias.

. . .
É fevereiro, seis, onde
Par e pares se encontram.
. . .


w.lima_.

23/03/2017.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Academia Piauiense lança vários livros



A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: Petrônio Portella – Depoimentos à História Política Brasileira, Osvaldo Lemos, nº 82, da Coleção Centenário, e da Coleção Século XXI, Alfredo e Rosa e a Descendência da Esperança – A Família Pires Lages de Barras do Marataoã, Maria do Socorro Lages Gonçalves, nº 10; Piauiense, Sim Senhor, Lisete Napoleão Medeiros, nº 12; e Joga o Barro na Parede – Uma Canção de Amor e Paz, Gutemberg Rocha (organizador), nº 14, com apresentação de Moisés Reis, bem como O Recinto do Elogio e da Crítica – Maneiras de Durar de Alberto Silva na Memória e na História do Piauí, Cláudia Cristina da S. Fontineles, da EDUFPI.


Nelson Nery
Presidente da Academia Piauiense de Letras


Data: 1º de abril 2017 (Sábado)
Horário: 10h
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão) Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone: (86) 3221 1566 – CEP.: 64001-490 – Teresina-PI  

Agrônomo Francisco Parentes


Agrônomo Francisco Parentes

Reginaldo Miranda

                  Foi o pioneiro da agronomia no Piauí, o primeiro piauiense que venceu os obstáculos e conseguiu a formação acadêmica em Engenharia Agronômica, para isto tendo de buscar uma escola francesa no terceiro quartel do século XIX. Mas recuemos um pouco e acompanhemos sua vida desde o berço materno.

Ele veio ao mundo em 10 de junho de 1839, na vila de Barras do Marataoan, norte do Piauí, num período de grande agitação política e social, em plena guerra da Balaiada e seu pai fora um dos que se alistara nas tropas legalistas de combate aos rebeldes, razão pela qual não assistiu ao nascimento da criança. Estava em combate.

Era um dos quatro filhos de Raimundo de Araújo Parentes e dona Maria Joaquina da Silva Parentes. Foram seus irmãos Honório Parentes, autor de interessante diário, Ângela, falecida pequena e Joaquina, que chegou à idade adulta.

Com o fim da insurreição política e o apaziguamento do Meio-Norte brasileiro, buscando novas oportunidades seus pais mudam para a povoação de Buriti de Inácia Vaz, do outro lado do Parnaíba, hoje cidade de Buriti, no Maranhão. Ali o esperançoso jovem barrense iniciou as primeiras letras até concluir o ensino primário.

Com esse pequeno cabedal de conhecimento, em busca de novos horizontes, o jovem barrense mudou-se para a cidade de Teresina, que acabara de seu fundada e de receber os foros de Capital do Piauí. E para manter-se empregou-se como caixeiro de um armazém, cujo trabalho lhe absorvia todo o tempo impedindo-o de continuar nos estudos, o que era objeto de preocupação do jovem, que viera para estudar. Foi, então que arranjou uma colocação no serviço administrativo do Liceu Piauiense, passando depois a secretário do tradicional estabelecimento de ensino. Pôde, então, prosseguir nos estudos almejando dias melhores.

Em 1857, dar mais um passo em sua caminhada assumindo o cargo de secretário da Câmara Municipal de Teresina, cuja remuneração era melhor.

Porém, em 6 de março de 1862, foi nomeado 4.º Escriturário do Tesouro Nacional, o que lhe abria novas perspectivas na vida. No ano seguinte, em função desse emprego mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, já no firme propósito de formar-se em Agronomia. Ali pôde aprimorar seus conhecimentos, cursando preparatórios, mas ainda não existia escola agronômica. Foi, então, que se firmou no propósito de cursá-lo na França, mas para isto teria de vencer dois obstáculos: o financeiro, vez que seus pais não tinham condições de mantê-lo estudando no estrangeiro, aliás, desde muito que ele ganhava o próprio sustento; e a barreira do idioma, sendo então renitente monoglota. Ademais, conturbavam-se os ventos políticos, iniciando o conflito na Bacia do Prata, conhecido como Guerra do Paraguai.

Mas para os grandes espíritos não há obstáculos, só os fracos se abatem antes do combate. Concebida a ideia era preciso lançar-se à luta e vencer as dificuldades. Assim, depois de noites indormidas maturando seu sonho, pediu breve licença do emprego, pegou seu ordenado, comprou passagens e veio ao Piauí pedir à Assembleia Legislativa uma subvenção em forma de bolsa. A sua fala branda e firmeza  de propósitos sensibilizou o deputado Antônio José Almendra, que abraçou a causa e convencendo seus pares, apresentou projeto e conseguiu aprovar a lei concessiva do pleito. Todavia, em face de revés político seu protetor rompe com o presidente da província, Dr. Franklin Américo de Meneses Dória que, para vingar-se do parlamentar veta a indicada lei, trazendo, assim, transtorno ao estudante piauiense, que mais uma vez não se deixou abater. Era de uma fortaleza inquebrantável e o seu sonho o embalava, fazendo-o partir para outra alternativa, a busca de ajuda entre os particulares. Sobre esse assunto, é interessante a informação colhida por Monsenhor Chaves, seu biógrafo, que assim se reporta ao assunto:

“Francisco, porém, não era homem para esmorecer. Não podendo contar com o Governo, apelou para os particulares. Abriu-se uma subscrição. Três apenas a assinaram: o Dr. Almendra, que lhe garantiu uma mensalidade de 80$000, o pai de Francisco, que subscreveu 20$000, e o irmão, Honório Parentes, que começava a vida, mas mesmo assim lhe garantiu 10$000 por mês. Claro que 110$000 não dariam. Mas eram alguma coisa.

‘Àquela altura, a tenacidade, a humanidade e o entusiasmo de Francisco já haviam contagiado outras pessoas, que se dispuseram a ajudá-lo sob outra forma, sob a forma de empréstimo. Juntaram-se o Vigário do Amparo, Pe. Mamede Antônio de Lima, José F. Alves Pacheco, Antônio José Araújo Bacelar, José Ferreira de Vasconcelos. Entre eles levantaram uma importância bem alta e a colocaram à sua disposição. Agora o problema financeiro estava resolvido” (CHAVES, Mons. Joaquim. Obra Completa. 2.ª Ed. Teresina: FCMC, 2013. P. 474).

Assim, vencido esse primeiro obstáculo, Francisco Parentes embarca para a França em 7 de março de 1864, aos 25 anos de idade. Ainda era tempo de realizar seu sonho e conseguir a formação acadêmica no curso que desejava. Mas outro obstáculo se lhe antepunha: enfrentar e vencer o idioma francês, pois ainda nada sabia. Procurou então a Embaixada do Brasil, onde foi bem recebido e iniciado na língua de Victor Hugo, aprendendo as noções rudimentares, o suficiente para matricular-se no Instituto Neully, de Paris, onde concluiu com êxito os preparatórios.

Por fim, depois de mostrar a si próprio e aos que o acompanhavam e o ajudavam, de que contra a força de vontade não há obstáculo que resista, em princípio de 1866 matriculou-se na Escola de Agricultura de Grand Joyan, onde cursou com êxito as mais diversas disciplinas. Porém, em 1870, quando estava prestes a concluir o tão sonhado curso de Engenharia Agronômica, rebenta guerra na Europa e as tropas alemãs invadem e rendem a França em 2 de setembro, fechando as escolas. Então, o estudante Francisco Parentes, que cursava as últimas disciplinas do curso e nada tinha a ver com aquele conflito, “foge para a Bélgica e lá consegue sobreviver com a ajuda de um grego, seu colega” (op. cit.).

Com o fim do conflito retorna à França, mas não consegue prosseguir nos estudos, em face da guerra civil que sucedeu. Por fim, voltando os tempos de paz e reabrindo as escolas, Francisco Parentes consegue estudar as últimas disciplinas, completar a grade curricular e concluir o curso de Agronomia, recebendo o diploma em 19 de junho de 1871, poucos dias depois do aniversário de 32 anos de idade. Estava realizado o sonho, era hora de retornar à pátria e lançar-se ao trabalho. Porém, não havia recursos para a passagem de volta, tendo de recorrer a um empréstimo no valor de 1.405 francos ao patrício Francisco Marques Rodrigues, que morava em Paris.

Desta forma, em 10 de agosto do indicado ano de 1871, o Dr. Francisco Parentes está de volta a Teresina, onde já estavam mortos seu pai e o velho protetor, Dr. Almendra, cujos herdeiros, de forma magnâmica, se recusaram a receber qualquer reembolso.

A essa altura, o jovem agrônomo piauiense não tinha tempo a perder. Procura então a presidência da província, ocupada pelo Dr. Manoel do Rego Barros Sousa Leão e lhe expõe ambicioso projeto a ser executado nas Fazendas Nacionais, que no século passado haviam sido confiscadas aos jesuítas. Ele tinha conhecimento de que as mesmas só traziam prejuízos à Coroa, em face da inaptidão dos diversos administradores, embora grande parte fosse constituída de terras férteis, onde pastava imenso rebanho bovino, também da Coroa. Então, idealizou nelas implantar uma colônia agrícola com escola de agricultura prática voltada para os filhos de escravos libertos, onde se apresentavam duas vantagens para o Estado, a saber: desonerá-lo das despesas com a manutenção das fazendas, que pouco produziam e, por outro lado, facilitaria o emprego de libertos e a educação de seus filhos, no contexto da Lei do Ventre Livre, que libertara os nascituros e regular a manumissão dos cativos atribuindo ao estado a obrigação de cuidar dos ingênuos com idade superior a oito anos. Dessa forma, foi um projeto singular, extraordinário e com ampla visão social. E existiam no Piauí 24 fazendas do Real Fisco, com excelentes terras, abundância de gado, tendo nelas perto de 800 negros libertos, inclusive 300 menores e cerca de 100 inválidos. Era, portanto, campo propício à ação governamental, onde repercutiu positivamente o discurso do Agrônomo Parentes.

O presidente da província o ouviu com atenção e interesse e o encaminhou com carta de recomendação ao Presidente do Conselho de Ministros, José Maria da Silva Paranhos, visconde do Rio Branco, no Rio de Janeiro. Depois de parlamentar com este, foi encaminhado para entender-se como ministro da Agricultura, conselheiro Teodoro Machado Freire Pereira da Silva que, encampa seu projeto e o contrata para aprofundar os estudos, percebendo uma remuneração de 300$000 e uma ajuda de custo de 1:000$000. Conforme o Aviso expedido em 11 de janeiro de 1872, deveria Francisco Parentes vir ao Piauí escolher o local, levantar as plantas e orçar a instalação de uma colônia que teria o nome de Estabelecimento Rural de São Pedro de Alcântara, em homenagem ao imperador.

Retornando a Teresina, agora a soldo do governo imperial, lança-se em ação dirigindo-se imediatamente ao território das Fazendas Nacionais. Depois de algumas andanças, à margem do rio Parnaíba, em pequena eminência denominada Chapada da Onça, elege por sede da nova colônia agrícola. Faz então os estudos iniciais, levantamentos topográficos e questões orçamentárias que sem demora os apresenta ao ministro da Agricultura, no Rio, onde volta a apresentar-se. Depois de aprovados os projetos é o mesmo agrônomo definitivamente contratado para, no período de 15 anos, fundar e dirigir o novo estabelecimento rural brasileiro em território da Inspeção de Nazaré das fazendas Nacionais, no Piauí, que haviam sido sequestradas aos jesuítas e, mais remotamente, fora do conquistador Domingos Afonso Sertão. O Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara foi oficialmente criado pelo decreto imperial n.º 5.392, de 10 de setembro de 1873.

De conformidade com o referido decreto, que autorizou o contrato do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas com o agrônomo Francisco Parentes para a fundação de um estabelecimento rural na província do Piauí, compreendendo as fazendas nacionais denominadas Guaribas, Serrinhas, Matos, Algodões, e Olho d'Agua, todas pertencentes ao departamento de Nazareth, obrigar-se-ia o contratante, assim é designado o agrônomo Parentes, às seguintes condições: 1. Fundar, à margem do rio Parnaíba, na Província de Piauí, um estabelecimento de agricultura prática, empregando como trabalhadores os libertos da nação, existentes nas fazendas do Estado, que fossem aptos para o trabalho e não estivessem empregados por conta do Governo; podendo também contratar na Província ou fora dela trabalhadores que não fossem libertos da nação, se o número destes fosse insuficiente ou não fossem aptos para o serviço; 2. Educar física, moral e religiosamente os libertos das ditas fazendas, que forem menores, e os filhos das libertas nascidos depois da promulgação da Lei de 28 de Setembro de 1871, não podendo, porém, os menores ser separados da companhia de suas mães, nem entrar para o estabelecimento, antes de completarem cinco anos de idade, salvo os órfãos de pai e mãe; provendo, outrossim, à educação moral e religiosa dos adultos; 3. Prestar os necessários socorros e alimento, vestuário e habitação aos libertos das ditas fazendas, que forem inválidos e quiserem se asilar no estabelecimento, sujeitos ao regulamento e polícia do mesmo; 4. Estabelecer lavouras de algodão, de cana de açúcar, de cereais e quaisquer outras que forem próprias do clima e do solo; fábricas de queijos e de sabão, charqueadas e curtume em que se empreguem os processos mais aperfeiçoados e compatíveis com os recursos do estabelecimento; 5. Construir prédio de residência, casa de oração, enfermaria, aula, cemitério, edifícios com proporções para as fábricas e curtume, para depósitos, para engenho de açúcar e suas dependências, para prensa e descaroço do algodão e para quartel das praças encarregadas da policia do estabelecimento e fazendas de gado, devendo também preparar um campo para estudos agronômicos; 6. Construir currais, cercados e estábulos apropriados para o melhoramento e aperfeiçoamento das raças de gado; formar açudes e prados artificiais e fazer aplicação do sistema de cruzamento ou do de seleção, segundo a espécie de gado e os resultados de um ou de outro sistema.

Para o bom êxito da empreitada, o estabelecimento contaria com o seguinte pessoal: um diretor, que seria o contratante acima referido, um escriturário, um sacerdote, um professor, uma professora, uma diretora dos trabalhos domésticos, um carpina, um ferreiro, um enfermeiro, uma enfermeira, seis criados, trinta trabalhadores para a lavoura da cana de açúcar, trinta ditos para a do algodão, quatro ditos para o curtume, quatro para as charqueadas, quatro para a fábrica de queijos, dois para a de sabão, seis encarregados da direção das indústrias, cinco vaqueiros e os fábricas necessários, seis praças e um sargento, e, finalmente, todos os menores e inválidos já referidos. No entanto, além do número fixado, deveriam ser admitidos, como trabalhadores, todos os libertos da nação que fossem aptos para o serviço rural e outros a que se destina o estabelecimento.

Eram amplas as atribuições do diretor, competindo-lhe admitir e despedir livremente todo o pessoal do estabelecimento e fixar-lhe os respectivos vencimentos e salários, salvo, porém, o escriturário, que era nomeado pelo presidente da província; organizar e sujeitar à aprovação do Governo o regulamento interno do estabelecimento, no qual poderia impor penas correcionais; fazer todas as despesas necessárias às construções, regime e bom serviço do mesmo estabelecimento; vender todos os produtos naturais e industriais deste, compreendidos os bois de talho das cinco fazendas que ficam sob sua direção; e remeter à Tesouraria de Fazenda, no fim de cada trimestre, os saldos líquidos existentes, depois de deduzidas as mencionadas despesas.

Também, durante os cinco primeiros anos, em que o contratante teria de receber consignações do Governo, seriam encontradas nestas as quantias líquidas que pudessem existir em seu poder, produto do estabelecimento, constantes dos balancetes trimestrais.

A escrituração da receita e despesa do estabelecimento ficaria a cargo do escriturário respectivo.

O diretor remeteria trimestralmente à Tesouraria da Fazenda balancetes explicados e os documentos da sua receita e despesa, que as comprovarem, para que a mesma Tesouraria pudesse exercer a fiscalização que lhe competisse. À vista desses balancetes se faria também a escrituração devida naquela repartição, de modo que no fim de cada exercício, apresentado o balanço anual do estabelecimento, se pudesse tomar a conta da diretoria e dar-se-lhe quitação. Na liquidação das contas e nos balanços anuais e trimestrais se discriminaria a renda do estabelecimento e a despesa própria da fundação, bem como a do custeio. A Tesouraria daria conta ao Ministério da Agricultura dos resultados da liquidação das contas anuais.

Todavia, o diretor poderia fazer no estabelecimento todas as modificações que julgasse necessárias, quer aumentando ou reduzindo o pessoal, sempre com atenção às normas indicadas, quer alterando a distribuição dos diversos serviços, sem acréscimo, porém, das consignações convencionadas com o Governo.

Quanto ao início dos trabalhos, deveria o diretor dar princípio às mesmas no prazo de seis meses, contados do dia em que recebesse as fazendas do Estado, sendo-lhe, porém, entregue dentro de três meses, da data do recebimento das ditas fazendas, a primeira prestação para as despesas da indicada fundação. E deveria concluí-los e iniciar o regular funcionamento das fábricas industriais no prazo de cinco anos, uma vez que por parte do Governo lhes fossem entregues nas épocas estipuladas as prestações pecuniárias devidas. No entanto, deveria concluir antecipadamente algumas etapas, sendo dentro de dois anos a construção de edifícios e a fábrica de queijos; no terceiro ano fazer funcionar as charqueadas, o curtume e a fábrica de sabão, e nos últimos anos as lavouras de algodão e de cana.

Deveria ainda o agrônomo contratante, prestar fiança idônea da quantia de 10$000 na Tesouraria de Fazenda da Província do Piauí, não só para receber as consignações contratadas, como para garantir a arrecadação da renda do estabelecimento, que tem de recolher trimestralmente à mesma Tesouraria. No que se referia à prestação de contas, sempre que o contratado apresentasse a sua conta documentada das despesas feitas, e fossem estas julgadas regulares pela Tesouraria, considerar-se-ia desonerado da importância delas e habilitado para receber nova consignação, prevalecendo a dita fiança. No entanto, se verificar-se a existência do saldo em seu poder, a mesma Tesouraria lhe entregaria somente a soma que, reunida a esse saldo, perfizesse a prestação pedida. Todos esses prazos e condições deveriam ser observadas, sob pena de rescisão do contrato com audiência prévia do diretor.

É importante ressaltar que o estabelecimento ficaria sujeito à inspeção imediata do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Publicas ou do Presidente da Província, sempre que necessário.

O Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas obrigou-se a mandar entregar por meio de inventário, que se processaria pela Tesouraria da Fazenda, ao contratante diretor do estabelecimento as fazendas denominadas Guaribas, Serrinhas, Algodões, Mattos e Olho d'Agua, pertencentes ao Estado no departamento de Nazareth, Província do Piauí, as quais foram concedidas pelo Ministério da Fazenda por Aviso de 10 de junho do referido ano para fazerem parte do estabelecimento, com todo o gado nelas existente, e as casas, utensílios, terras, currais e logradouros; da mesma forma, a entregar-lhe os libertos da nação precisos para os trabalhos do estabelecimento, e todos os menores e inválidos, os quais deveriam ser conservados nos lugares em que se achavam, até que pudessem ser transferidos para o estabelecimento; o que se entenderia até que fosse concluído o prédio destinado a asilá-los, que deveria ter preferência a qualquer outra construção, no prazo máximo de um ano. Os inválidos que precisassem de prontos socorros e os órfãos de pai e mãe seriam imediatamente transferidos para as cinco mencionadas fazendas a fim de receberem os auxílios de que necessitassem.

Obrigou-se ainda o órgão governamental a fornecer ao contratante, para a fundação do estabelecimento, no primeiro ano a quantia de 30:000$000 em quatro prestações iguais de três em três meses; no segundo a quantia de 20:000$000 pela mesma forma, e 30:000$000 em prestações, à proporção que fossem requisitadas pelo mesmo até completar o prazo de cinco anos. Porém, enquanto o estabelecimento não produzisse renda suficiente, as despesas de seu custeio correriam por conta das consignações convencionadas.

A fim de garantir a transparência na execução e administração do empreendimento, toda a sua receita e despesa, quer relativa às consignações recebidas do Governo, quer à renda do mesmo estabelecimento, seria escriturada em livros abertos, rubricados e encerrados por empregados da Tesouraria, que seriam recolhidos anualmente à mesma Tesouraria para a tomada das contas. Além desses livros, haveria um destinado à entrada e saída de gêneros, incluídos os bois de talho e outros objetos que fossem do uso e serviço do estabelecimento.

Por fim, o contratante perceberia o honorário anual de 6:000$ durante os cinco anos iniciais, e daí em diante, anualmente, o de 5:000$ e uma porcentagem, deduzida do rendimento líquido do estabelecimento, a qual seria marcada pela Presidência de acordo com o contratante, com tanto que a sua importância não fosse superior a 3:000$, não sendo também menor de 1:000$000. O contra tinha vigência de quinze anos, não podendo o contratante nesse período, exercer nenhum ramo de indústria ou de comércio por conta própria ou de terceiro.

Então, com o contrato em mãos o primeiro agrônomo do Piauí, o jovem barrense que venceu contra todas as circunstancias desfavoráveis, iria mostrar a que veio. Lançou-se então incansavelmente ao trabalho, à execução do projeto por ele concebido. Segue em vapor pelo rio Parnaíba até a Chapada da Onça, onde abre a clareira das primeiras edificações. E quase um ano depois, em 10 de agosto de 1874, o novo estabelecimento rural é oficialmente inaugurado pelo presidente da província, Dr. Adolfo Lamenha Lins, que ali chegara com numerosa comitiva. A viagem fora feita no vapor “Piauí”, que havia partido de Teresina seis dias antes, em 4 do indicado mês. Foi então lançada a pedra fundamental do edifício principal, cuja inscrição trazia os seguintes dizeres: “São Pedro de Alcântara. Estabelecimento Rural. Fundado por Decreto n.º 5.392. Pelo Agrônomo Piauiense, Dr. Francisco Parentes. Na presidência do Exmo. Sr. Dr. Adolfo Lamenha Lins, 1874”.

Desde então continuou o Agrônomo Parentes no seu afã de servir à pátria, levando a efeito todas as construções necessárias, desde o edifício principal que serviria de sede até as instalações mais simples. Era incansável em seu trabalho e vontade de servir.


No entanto, a cruel parca veio ceifar-lhe a vida ainda em seu alvorecer, quando muito ainda poderia realizar. Parece uma ironia do destino, pois o jovem que tanto lutara para fazer-se agrônomo e para implantar um grande empreendimento agrícola em sua terra, desapareceria antes de ver a sua realização, embora prestes a concluí-la. É que foi acometido por uma febre de mau caráter, sendo transportado às pressas para a cidade de Amarante, rio abaixo, em busca de recursos médicos. Todavia, ali vem a falecer em 16 de junho de 1876, seis dias depois do aniversário de 37 anos de idade e três dias antes de completar cinco anos de formado. Mas a sua obra perdura para sempre. E a conclusão das instalações foi continuada por seu auxiliar Juvêncio Tavares Sarmento da Silva. O governo teve a intenção de transformá-lo em um instituto de zootecnia, mas não houve sucesso, sobretudo em razão da falta de seu idealizador. Porém, o estabelecimento rural por ele fundado é hoje a cidade de Floriano, uma das mais prósperas do Estado. E a Escola Agrônomo Parentes, que ali funciona é um testemunho da reverência daquele povo ao fundador da cidade. E enquanto soar o nome desta cidade também soará o nome do Agrônomo Francisco Parentes, o pioneiro de sua profissão em terras mafrenses, figurando nessa galeria pelo pioneirismo, pela tenacidade, pelo trabalho, pela visão de futuro e pelo amor ao Piauí.