segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Dívida

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D Í V I D A
     
Alcenor Candeira Filho

     Ao longo da vida devo ter contraído muitas dívidas de caráter imaterial, mas nunca de natureza pecuniária. Exemplo: débito para com Parnaíba, que me tem dado tudo : “berço-cama-mesa”.
     Na luta contra dívidas, sempre que é preciso apertar o cinto, aperto-o,  o que não é mágica mas controle financeiro e crença na matemática e na contabilidade. É não gastar mais do que ganha. Simples como dois mais dois são quatro.
     Há momentos na vida em que é plenamente justificável o endividamento: nas questões de saúde, de educação, de alimentação etc.. Nesses casos os fins justificam os meios.
     Em situação de extrema pobreza não se pode falar em inadimplência do cidadão porque na hipótese o que existe é dívida social, dívida dos que têm muito  para com os que nada possuem.
     O jogo de azar também atrai dívidas. Que o diga Fiódor Dostoiévski, um dos mais importantes escritores russos de todos os tempos. Atolado em débitos e viciado em jogo, o genial romancista recorreu várias vezes a editoras a que vendia direitos autorais antes de começar a escrever o livro. Fernando Pessoa vivia pedindo dinheiro emprestado a familiares e a amigos. Dificilmente quitava o débito até porque não tinha como fazê-lo. Quando não morava com parentes tinha enorme dificuldade em pagar o aluguel.
     Grande parte dos  endividados são arrastados pelas vicissitudes da vida a essa situação. Alguns até se matam.
     Por outro lado,  existem os que desfrutam de razoável condição financeira mas cultivam compulsivamente o gosto pela dívida. Via de regra não se trata propriamente de caloteiros. A eles pode-se creditar, sem necessariamente nela acreditar, a frase pronunciada  com alegria e tranquilidade: - “devo, não nego, pagarei quando puder”.  Essas pessoas, que parecem sentir prazer com o hábito, costumam honrar o compromisso, embora com atraso. Para essa categoria na relação devedor/credor quem deve se preocupar é o segundo, que muitas vezes é também responsável pelo desregramento habitual como se todos fossem farinha do mesmo saco.
     Claro que não se deve condenar a compra à prestação, que é indispensável no mundo dos negócios. Parcela paga tempestivamente não representa dívida, que surge com a prestação vencida e não paga.
     O problema é que muitos consumidores se descontrolam financeiramente pelo acúmulo de compras a prazo, a ponto de várias vezes se verem compelidos a apelar a agiotas ou a bancos (aliás o maior de todos os agiotas) para quitar o que devem. Resultado: salto em poço sem fundo.
     Na condição de advogado do Banco Real S.A., da Caixa Forte e de procurador federal lidei durante muitos anos em Parnaíba com ações de cobrança ordinária, de execuções forçadas e de execuções fiscais contra pessoas físicas e jurídicas. Palavras  como exequente, executado, certidão de dívida ativa, duplicata, nota promissória, cheque, citação, juros de mora, multa, correção monetária, alienação fiduciária, parcelamento, penhora, arresto, busca e apreensão, adjudicação povoavam meu universo de trabalho.
     Cuidava desses conflitos com seriedade e serenidade, mas sobretudo com respeito ao devedor. Eu sabia que era cômodo para o advogado patrocinar ação respaldada em título de crédito vencido e não pago. Quer dizer: simples problema de  direito líquido e certo. O bom de tudo é que não me lembro de ter  feito qualquer inimizade por conta do encargo profissional.
     Acho que devo especialmente à experiência funcional a inspiração para o soneto “Dívida”, escrito em 1985 e cujo verso final não passa de uma adaptação jocosa  do seguinte princípio jurídico da presunção da inocência: - “in dubio pro reo”. Eis o soneto:

            DÍVIDA

     difícil o indício da dívida
     difícil o início da dívida
     difícil o exercício da dívida
     difícil o resquício da dívida

     difícil o benefício da dívida
     difícil o malefício da dívida
     difícil o sacrifício da dívida
     difícil o sub-reptício da dívida

     difícil o vício da dívida
     difícil o ofício da dívida
     difícil o artifício da dívida

     difícil muito difícil a dívida
     mais difícil que a dívida a vida
     - na dúvida pau no réu.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PARABÉNS PIAUÍ

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PARABÉNS PIAUÍ

Carlos Henriques de Araújo
Membro da UBE-PI

Não somos melhores nem piores do que ninguém. Somos nós, simplesmente. À nossa maneira, com nossas limitações, nossas riquezas, nosso potencial e, principalmente com nossa força de vontade. Os piauienses resistem a todas as dificuldades que lhes são peculiares, e a outras, que lhes foram impostas no decorrer de várias décadas por razões as mais diversas: históricas, políticas, geográficas, sociais e econômicas.

Hoje, o Piauí assiste ao crescimento de seu povo, da sua economia e de suas potencialidades turísticas, agrícolas, econômicas e culturais. O Piauí não é mais o estado mais pobre do Brasil, embora exista ainda muita pobreza, por falta de políticas econômica e social mais eficientes, de governos e empresários compromissados com o social e de uma sociedade civil mais organizada.

O Piauí é um estado rico em potencialidades e em oportunidades. É o estado que tem a menor faixa litorânea, mas, assim como nos pequenos frascos é que estão os melhores perfumes, no seu litoral estão as praias mais bonitas do Brasil, de águas claras e mornas, de areias brancas e sem poluição, recheadas de belezas naturais, com ventos adequados para prática de esportes náuticos e geração de energia eólica. Nele desemboca o rio Parnaíba, o maior delta em mar aberto das Américas e o segundo maior do mundo com 85 ilhas de praias paradisíacas.

No Piauí, o sol do equador brilha mais forte e seu calor proporciona um clima tropical saudável, propenso ao cultivo de frutas tropicais para exportação, e à produção de mel de abelha, com floradas o ano inteiro. Seu solo é ótimo para o plantio de mamona matéria prima utilizada na produção do biodiesel. Foi o primeiro estado do Brasil a desenvolver esta tecnologia. Seu subsolo foi aquinhoado com os maiores lençóis freático do país, quiçá do mundo.

O Piauí tem o maior rio genuinamente nordestino, inúmeras barragens, lagoas propícias para projetos agrícolas de irrigação, piscicultura, carcinocultura e lazer. É recordista na produção de grãos. É o maior produtor de cera de carnaúba do mundo. É o segundo maior produtor nacional de mel de abelha, e tem um dos maiores e melhores rebanhos de caprinos do Brasil.

Na medicina, é uma referência para o Norte e Nordeste. Na cultura, é o berço do homem americano, tem a melhor escola do ensino médio do país e um pólo de ensino superior com uma excelente estrutura. Recebe estudantes de todo o Meio Norte, que sobressaem nos concursos públicos pelo Brasil afora.

O Piauí é uma terra de artistas: músicos, intelectuais, artesãos, humoristas, escritores, poetas, jornalistas e pintores de renome nacional e internacional, como Carlos Castelo Branco, mestre Dezinho, Evandro de Lins e Silva, Da Costa e Silva, H. Dobal, Mario Faustino, Torquato Neto, Nonato, Gerson Castelo Branco, João Cláudio Moreno, Clodô, Climério, Luís Paiva, Lina do Carmo e muitos outros.

Teresina, é uma cidade abraçada por dois rios: o Parnaíba, que nasce na Serra das Mangabeiras, na fronteira com o Estado de Tocantins, é o segundo maior rio do Nordeste, depois do São Francisco: e o Poti, saído da Serra da Joaninha, no Ceará, um pequeno filete d’água vai tomando corpo, atravessando chapadas e cânions, até se encontrar com o Parnaíba no bairro Poti Velho, no fenomenal Encontro das Águas.

Sua capital nasceu urbanisticamente moderna. Foi uma das primeiras cidades do Brasil em que o projeto chegou antes da ocupação do espaço urbano.  A Chapada do Corisco, com ficou conhecida, começou a ser traçada, a partir de 1852.

No extremo norte, repousa tranquila e mimada pelas águas do rio Igaraçú, a cidade de Parnaíba, um potencial turístico com 24 km de litoral e principal braço do delta, que aguarda de braços abertos os turistas.

A cidade já teve seus tempos áureos, foi a fortaleza da economia piauiense. Hoje, seus monumentos históricos são testemunhos desta época. Seu conjunto arquitetônico é um espaço cultural de inestimável valor, cuja restauração assegurou ao povo piauiense e aos seus visitantes a preservação de sua  memória e do Estado.

O Piauí não é só Teresina e Parnaíba, temos outras cidades bonitas e com pessoas maravilhosas, trabalhadoras e determinadas em pleno desenvolvimento, apesar da “crise econômica” que o país passa, consequência desses governos desastrados nos últimos dez anos.

Além de Piripiri, Campo Maior, Picos e Floriano, com indústrias, comércio e prestação de serviço, temos na parte sul, várias cidades em pleno desenvolvimento, atraindo grandes empresários do sul do país para a plantação de soja, instalação de usinas eólica e exploração de minérios.      

É um orgulho ser piauiense. Por isso que se diz: “É feliz quem mora aqui”    

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ALEGORIA DA FOME

Fonte: Google
ALEGORIA DA FOME

Elmar Carvalho

A pobreza um dia
bateu à minha porta
sob a forma de um menino
magro, sujo e maltrapilho.
E catou com suas mãos esquálidas
o sujo conteúdo
de meus sacos de lixo.
Foi quando eu saía
para o trabalho.
O menino, ou antes, um
bicho assustado correu.
Fui no seu encalço
em minha moto uivante.
O menino correu ainda mais,
varou cercas de arame farpado,
penetrou no terreno baldio por entre
arbustos espinhentos e urtigas,
com olhos e gestos de terror,
como se eu fosse espancá-lo.
E eu somente queria dizer
que ele podia catar o lixo.
Apenas não espalhasse
o resto do lixo
sobre a calçada.
Mas o meu pequeno irmão
feito bicho espavorido
tem medo dos outros bichos
que se dizem seu irmão.
E o meu irmão tem razão.    

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

NA PRAÇA SAENS PEÑA: COMPRANDO LIVROS


NA PRAÇA SAENS PEÑA: COMPRANDO LIVROS             
                                               
Cunha e Silva Filho

         Hoje, sábado,  foi dia de feira do livro  na Praça Saens Peña. Muita gente para lá e para cá  numa calçada cuidando do seus  interesses, ou fazendo  compras ou por mero  passatempo.  No meio da calçada que dá para a Praça, um mundaréu  de camelôs vindos de muitos bairros, sobretudo da periferia, dos subúrbios. Os dias comuns  já são cheios de gente. Dirigi-me,  com minha mulher e meu filho mais novo, a uma farmácia,  a mais procurada e que tem, naquele entorno,  umas quatro  filiais. Parece que todo mundo  está doente, sobretudo os mais idosos.
       Os remédios estão caríssimos. Desconfio de  que muita gente deixa de comprá-los porque  não têm condições financeiras mesmo. Estão escasseando os remédios  com preços mais   baratos.  Vão tomando  somente os remédios mais vitais,  como  os de pressão alta,  os de diabetes, os remédios contra dores da coluna  e outras  dores que acometem  os  que estão na faixa  do que se convencionou chamar de terceira idade. Não gosto dessa expressão. Prefiro  que  me chamem de idoso.
       Mas,  não é por essa razão  que as pessoas vão  também  às farmácias. Vão porque elas oferecem  produtos de beleza, xampus, desodorantes, remédios que podem ser vendidos sem receita,  enfim,  um  infinidade de itens  de que necessitam  mulheres, homens e crianças.
      Encaminhamo-nos, depois,  ao centro da Praça. Logo avistei as barracas de livros usados, os chamados sebos. Quase não havia  compradores. Um grupo maior de gente  estava   se divertindo  com a exposição de animais  para doações, gatinhos e cães. Todos, em geral, muito fofos, sobretudo os gatinhos,  a atração maior, particularmente,   das senhoras, senhores,  jovens e crianças. Em suas “jaulinhas’ gatinhos, com os olhinhos verdes ou azuis e pelos  de cores variadas, junto dos cãezinhos,  fazem a festa   dos visitantes anônimos.
     Estes, fazendo-lhes  carinhos, conversando afetuosamente com eles,  neles tocando,  mostram esse lado  profundamente humano que  os adultos e crianças   devotam  aos animaizinhos de estimação,  aos  pet, palavra inglesa  muito empregado para designar   esse bichinhos. Nada contra os americanismos incorporados ao vernáculo. A língua  é dinâmica  e deve ser  democrática, porém sem  interferências  sintáticas. Poucas pessoas   os levam para casa como adoção. Alguns são até devolvidos   de vez que não se adaptaram  aos donos ou por uma outra  razão pessoal
       Reparei que não havia  guardas municipais nem vi polícia militar   fazendo alguma  ronda  na Praça,  onde, com frequência,  senhoras, sobretudo idosas,  são vítimas de  menores   assaltantes, os conhecidos pivetes.  Todos eles com os  olhos vidrados nas bolsas e joias  das mulheres, celulares  dos jovens “Pega ladrão” já virou  um bordão.” Desculpe-me pela rima  involuntária. A Tijuca é meio cercada por  favelas, sem os eufemismos  politicamente corretos e detestáveis, já que podem  encobri subjetivismos  hipócritas. 
       Depois de olharmos  os bichinhos,  fui ver de perto alguns livros da pequena  feira. Livros bem baratos, outros nem tanto. Às vezes, leitor, me dá uma  repentina angústia  de ver tanto livro. Há livros demais no mundo e o sentimento de impotência de nunca poder  lê-los  todos me deixa para baixo.   Olhei para muitos  que desejei  comprar. Passei para outras   barracas. Cada uma, em geral,  representa um livraria  da cidade.
     Sempre encontramos  bons livros antigos ou menos antigos numa feirinha.  Olhei, olhei, olhei até que dois  me   prenderam a atenção dado que o gênero nos quais foram  escritos  sempre me interessou: ensaio literário e biografia. No caso,  o ensaio e a biografia são referentes ao mesmo  escritor: Machado de Assis (1839-1908). Sempre o Machado, louvado ou criticado,  escritor  inesgotável, no país e no exterior,  nos filões de seus temas e nas formas  de abordagens  de sua  obra. Os autores: Fábio Lucas, do ensaio  que nem mesmo  havia lido, O núcleo e a periferia de Machado de Assis (Barueri, SP.: Editora Manoele,  2009,  166 p.).
     Lucas é um ensaísta e crítico a quem muito  estimo pelo seu estilo  claro  e ao mesmo tempo   profundo com que  trata  questões de  literatura brasileira e temas de teoria literária. Li boa parte de seus livros. O outro livro é de um autor  mais antigo, Gondin da Fonseca, o qual tem por título  Machado de Assis e o hipopótamo. (6ª ed. Rio de Janeiro: Livraria São 1974,  326 p.).
      Gondin da Fonseca (1899-1977) foi  escritor,  jornalista,    biógrafo  e historiador. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro. A obra dele que hoje comprei na feirinha de livro  foi bastante lida e elogiada por  gente  da importância de Astrojildo Pereira (1890-1965)), crítico de orientação marxista. De resto  esse crítico eu o li muito na velha revista O Cruzeiro. Lá ele assinava  uma coluna de cujo nome não me recordo agora. 
       Segundo leio na primeira orelha do livro, a citada obra de  Gondin foi  muito bem vendida, mas, estranhamente,  não  teve  a repercussão no país  por parte da crítica  especializada. Por outro lado, se aqui não foi  tão  incensada,  o foi no exterior,  como em Portugal e na Espanha,   países em que recebeu boa acolhida da crítica. O exemplar que comprei  não teve  leitores,  pois ainda  tem algumas  páginas  fechadas, o que significa que não foi lido por ninguém. Para minha alegria, serei o  primeiro leitor dessa obra do biógrafo.
       Diante desse silêncio da crítica, no que tange  à biografia de Gondin da Fonseca,  fui procurar, na extensa  relação de  bibliografia passiva  machadiana, na   utilíssima Pequena  bibliografia  crítica da literatura brasileira de Otto Maria Carpeaux (Rio de Janeiro: Ediouro, s.d., com um apêndice de Assis Brasil, incluindo 40 novos autores) 470 p.) a citação do livro de Gondin. Salvo engano,  não a encontrei. Por que – pergunto – essa omissão de uma obra que teve,  novamente salvo engano,  seis edições com vendas “normais” de  quarenta mil exemplares?!
      Na referida  orelha da biografia  de Machado de Assis  escrita por  Gondin, o autor informa  que   o biógrafo não era dado a “badalações.” Não se exibia nem  dava sinal de  sentir o  prazer  do sucesso como tanto se vê sobretudo  hoje em dia entre autores. Um temperamento assim  explica  de alguma forma  o afastamento  de um livro ou é porque   houve a intenção  de  lhe  abafar a obra sobre o Bruxo do Cosme Velho? Resta pesquisar.

       Como eu mesmo  ainda não li  a obra de Gondin,  essas indagações  têm apenas um caráter   preliminar sobre o assunto  que diz tão de  perto  ao destino   dos livros de alguns  autores e o silêncio sepulcral  que pesa sobre a sua  pessoa literária. O destino do livro,  em relação à crítica,   é tema  polêmico e  cheio de   nebulosidades  tanto da parte do  universo editorial, quanto da parte  dos críticos, da história literária  e da produção   literária  de um país.  

domingo, 15 de outubro de 2017

Histórias de Évora. Os novos voos do Poeta

Adicionar legenda

Histórias de Évora. Os novos voos do Poeta

Hércules Amorim *

Em novo rol de escritos, como sempre escancarados à crítica e imaginação de quem os lê, o escritor e poeta piauiense Elmar Carvalho nos leva agora a uma viagem de retorno a nossos primórdios, colocando em capítulos a forma, tonalidade e expressividade já demonstradas em outras obras de sua verve.

Trata-se de Histórias de Évora, a cidade imaginária onde personagens vivem intensamente os períodos mais belos e conflitantes -  ora felizes, ora tristes e mesmo hilários - das suas formações comportamentais e, principalmente, humanas. São histórias e estórias da pré até perto da pós-adolescência de jovens que não se contiveram em apenas ver a vida passar, mas colocaram nela molho apimentado, fatos e acontecimentos que, vivenciados, nos trarão à boca o licor da saudade.

Não dá para dispensar observação singular ao estilo. Constatar que Elmar alguma vez passou pelos bancos da escola Parnasiana, embora, modestamente, não se aprofunde ou guie-se pela construção fidelíssima de textos buscados e rebuscados. Por isso, a fazer aquilo que se torna pura expressão do antagonismo latente entre dois movimentos literários de peso: cai não só na linguagem bem apurada dos plenos sentidos, mas também no Romantismo, aliás bem apropriado à época em se desenrolam as histórias de sua fictícia – e tão concreta – Évora.

Elmar, à certa altura, nos deixa confusos sobre o personagem que ele próprio encarna. Mas no conjunto, fica evidente o que mais o retrata, especialmente para os que trafegam no seu cotidiano literário e no seu cotidiano de cidadão simples, mas, não raro, meticuloso. Os textos, com esmeradas narrações, deixam patente o simbolismo e sonoridade das palavras, como se cada uma represente uma imagem, uma foto. Não poderia ser diferente. Se em alguns parágrafos o leitor estranhar um possível exagero da forma, para melhor deduzir o conteúdo leia ou releia José de Alencar e veja se seria possível descrever a silhueta da Virgem dos Lábios de Mel sob a luz da lua cheia com apenas dois ou três adjetivos, e sem nenhum superlativo.

Os escritos, vezes eruditos, em Histórias de Évora, são colocados com o objetivismo ou a subjetividade necessários à narração dos eventos picantes, trágicos ou tragicômicos que vivenciaram seus protagonistas. São eles quase sempre sedimentados numa paixão efêmera ou naquele amor que de tão significativo tornou-se quase eterno, para eles e para nós, leitores. Podem se materializar à vontade no Marcos Mendes Azevedo, no Mário Cunha, no Fabrício e amigos, cada qual com sua personalidade e seu modo de se comportar nas histórias da cidade que, em determinado ponto, percebe-se, se compõe numa ampla faixa de terra sertaneja.

Como em toda obra de estrutura segmentada, alguns capítulos ou narrativas levam à preferência.  Como leitor, indico singular atenção ao “Dono do Céu” - com sua pernóstica lourinha, filha, pra variar, de um abastado comerciante -; o “Lendário Zé Lolô” - em sua indescritível feiura –; a “Balzaquiana”, de farta e bela memória –; e o impagável último “ Voo do Pardal”, se é que houve algum anterior.  Se houve ou não, fica para outra história, possivelmente em outra encarnação. Certo é que espocou manchete em “A Batalha”, periódico eborense, a despeito de que ainda hoje não se tenha notícia sobre a real situação e o quê de fato está por trás do mistério envolvendo o genial Eugênio, audaz criador de engenhocas que lhe carimbaram o apelido de “professor Pardal”, mais tarde somente Pardal.

Ademais, bebam, degustem e curtam o que de melhor nos revolve aos tempos da meninice e juventude por vezes sofridas, mas sadias, cheias de traquinagens, descobertas, namoros, flertes fortuitos, alegrias, saudades e gradual apuração da sexualidade. Tudo isso nos contando como eram diferentes os interesses dos jovens de há mais de três décadas, em particular a paixão pela leitura e o bom uso da palavra.

Que todos os leitores se instalem na sua própria Évora. E que Elmar Carvalho prossiga em suas viagens, sempre nos trazendo boas novidades.


* Hércules Amorim é jornalista  

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O SUICÍDIO DO ENTALHADOR DE PORTAS DE IGREJA

Fonte: Google

O SUICÍDIO DO ENTALHADOR DE PORTAS DE IGREJA

Chico Acoram Araújo *

                No decorrer de 2012 tive a grata satisfação de colecionar encartes do “Jornal O Dia” com o título TERESINA 160 ANOS, organizado pelo ilustre professor, historiador e cronista Fonseca Neto. Esses encartes, que acompanhavam as edições do citado jornal das quartas-feiras e domingos, enfocavam histórias sobre a nossa querida cidade de Teresina desde que foi fundada por Conselheiro Saraiva, tendo como pano de fundo, notícias do Brasil e do mundo a partir do ano de 1850 até a primeira década do ano de 2000.
                Li, de forma efusiva, todas as histórias da capital do Piauí contadas nesse precioso livro composto de encartes do Jornal, que até então as conhecia superficialmente, ou desconhecia totalmente. Mas, dentre essas importantes histórias, uma me chamou mais atenção: aquela do encarte de folhas 99 e 100, com o título “Sebastião: paixão e morte na Benedita Matriz”. Segundo o organizador dos encartes, Sebastião Mendes foi o escultor de cinco das sete portas da igreja de São Benedito, obras essas tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Fonseca salienta ainda que ele foi um artista talentoso, um homem cheio de fé, e marcado por uma tragédia.
                  Na Chapada do Corisco, na margem direita do rio Parnaíba, despontava uma auspiciosa urbe; a nova capital da Província do Piauí, fundada pelo jovem presidente José Antônio Saraiva no ano de 1852. O contorno urbano da cidade começava a emoldurar-se sob a batuta do mestre de obras João Isidoro da Silva França, o grande arquiteto da construção da cidade de Teresina. A igreja do Amparo foi a primeira edificação da cidade, cuja capela-mor foi inaugurada em 25 de dezembro de 1852, portanto o marco zero de Teresina. Daí em diante outras importantes obras públicas foram erigidas. A igreja das Dores foi o segundo templo construído em Teresina, em 1865. Muitas ruas foram surgindo: Rua do Barrocão (hoje, José dos Santos e Silva), Rua da Chapada (Tiradentes), Estrada Nova (Rua Rui Barbosa), Rua Glória (Lizandro Nogueira), Praça da Constituição (Praça Deodoro ou da Bandeira) e muitos outros logradouros.
                Em 1874 chega a Teresina frei Serafim de Catania, padre franciscano de origem italiana com formação em arquitetura. Sob sua orientação, e pelo trabalho da comunidade de escravos e das famílias humildes, bem como das contribuições dos ricos da cidade e proprietários de terras, inicia-se, em 1874, a construção do terceiro templo católico de Teresina, a majestosa igreja de São Benedito. Escolheram para a sua localização, o alto da Jurubeba, ao lado de um cemitério onde se enterravam pobres, escravos e mendigos; os ricos, por sua vez, eram sepultados no cemitério São José, na zona norte da cidade. A construção da igreja transcorreu de forma complicada em decorrência da grande epidemia de varíola ocorrida em 1875, e também em razão da grande seca de 1877 a 1879. A conclusão do templo somente veio acontecer 12 anos depois, em 03 de julho de 1886.
                É dentro desse cenário de Teresina dos anos oitocentistas, e inspirado nas informações do emérito professor Fonseca Neto e da mestranda Katiuscy da Rocha Lopes (item 2.3.2 da Dissertação apresentada ao curso de Mestrado Profissional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que resolvi recordar um pouco a história de Sebastião Mendes de Sousa, o genial escultor piauiense que entalhou as famosas portas da igreja de São Benedito. Cabe salientar que, conforme esclarece o precitado professor, a história sobre Sebastião Mendes nunca foi escrita, sendo conhecida em Teresina através de várias gerações, ou seja “passando de bocas a ouvidos e destes a outras bocas”.  No entanto, enfatiza ele, existem na literatura piauiense breves citações de cronistas da época dando notícias sobre esse importante escultor. Por exemplo, Celso Filho diz que é um engano atribuir os trabalhos das portas da igreja de São Benedito ao famoso mestre Aleijadinho, e que a obra foi verdadeiramente realizada por Sebastião Mendes. Esse cronista diz ainda que Sebastião morou, entre 1875 a 1878, no quarto dos caixeiros da Casa Comercial do Barão de Urussuí (Coronel João da Cruz Santos), onde deu aulas de logaritmos, aritmética e progressões a Higino Cunha, que consignou o fato em suas Memórias. Outro cronista da época que cita o anônimo artista é o memorialista Elias Martins. Em sua monografia “Frei Serafim de Catania”, Elias declara que Sebastião Mendes fora um “artista célebre”, “nascido em terras do Piauí”, e que morreu “desastradamente ainda no florescer da idade”. De outra parte, Katiuscy Lopes em sua dissertação transcreve a Resolução 630, publicada em 18 de agosto de 1868, assinada pelo Vice-Presidente da província do Piauí, José Manuel de Freitas, autorizando despender anualmente, durante quatro anos, a quantia de um conto de réis com a subvenção prestada a Sebastião Mendes de Sousa e Philomeno Jullef Portela Richards, para cursarem os estudos de belas artes, em qualquer Província do Império. Essa Resolução estabelece ainda que o pensionista Philomeno Jullef se aplicaria ao ramo da pintura, e o pensionista Sebastião Mendes ao de escultura.
                Mas, antes disso, nos idos anos de 1860, o pequeno Sebastião já andava perambulando pelas ruas da nova capital da Província do Piauí vendendo peças artesanais que ele mesmo produzia. Revelou-se genial na arte esculpir figuras, imagens e gravuras em madeira, buriti e outros materiais. Os habitantes da cidade ficavam maravilhados com a genialidade do garoto que tinha apenas dez anos de idade. Fonseca registra que Sebastião era um santeiro por excelência. “Entalhava um rosto qualquer numa velocidade e com tanta graça que a todos causava grande admiração”, diz o eminente historiador.
                Por sua vez, Katiuscy Lopes cita que Sebastião Mendes teve, com o apoio de amigos do seu tio, a oportunidade de mostrar ao presidente da província do Piauí, as peças que tinha produzido. Informação aditada pelo ilustre professor Fonseca Neto ao relembrar que, ainda no gabinete do palácio, deram ao escultor um pedaço de madeira para que ele esculpisse o rosto do presidente, o qual ficou muito admirado quando viu sua efígie naquele pedaço madeira. Esse fato ensejou, tempos depois, que o jovem artista recebesse da província do Piauí uma bolsa anual por quatro anos para estudar na Academia Imperial de Belas Artes, no Estado do Rio de Janeiro, conforme afirma Katiuscy.
                De volta Teresina, o presidente da província encomenda ao recém-formado na Escola de Belas Artes do Rio Janeiro para cinzelar as sete portas da igreja São Benedito que estava em fase final de conclusão da obra. É provável que autoridade tenha convidado Sebastião Mendes para realizar o nobre trabalho para compensar a subvenção que tinha recebido do governo, e, obviamente, pelo fato de ser ele um excelente escultor. Sebastião aceita o desafio, e começa a esculpir as portas, ali mesmo na igreja, com todo esmero e primor artístico da época.
                Fonseca Neto relata, por fim, que Sebastião Mendes não chegou a concluir o conjunto das sete portas encomendadas por conta de um relacionamento amoroso frustrado que o levou a tirar a própria vida, no ano de 1886. E por conta do infausto acontecimento, apenas cinco portas foram talhadas, e mostram os traços artísticos do brilhante escultor, com detalhes almofadados e motivos de folhas e flores. As outras duas portas restantes foram feitas por outro entalhador de nome não conhecido, que imitou os traços das outras portas esculpidas por Sebastião Mendes.
                Sobre o suicídio, o professor nos relata que Sebastião, rapaz negro e de origem humilde, se apaixonara por uma bela jovem pertencente a uma aristocrática família de Teresina. Às escondidas, os dois enamoram-se. Não por muito tempo. O namoro chegou ao conhecimento dos pais da moça, que, ao tomar conhecimento da relação, tomaram a decisão de encaminhar a filha para o distante sul do país. O pobre rapaz, quando soube da partida da sua amada, acometeu-se de uma imensa desilusão e sofrimento, fato que o levou a cometer suicídio.
                Como foi dito anteriormente, da história desse grande escultor piauiense, muito pouco se sabe, pois jamais foi escrita. O pouco que se conhece a respeito desse notável artista decorre de informações passadas e difundidas por anônimos ao longo de várias décadas. As razões para tanto se deve, segundo Fonseca Neto, ao fato de ser ele negro, pobre, e por ter ceifado a própria vida. Portanto, foi escolhido para ser esquecido. A biografia desse ilustre piauiense precisa ser resgatada, enfatiza o nobre historiador.
              

*Chico Acoram é contador, funcionário público federal e cronista.           

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

De José de Freitas ao Arco-Íris



De José de Freitas ao Arco-Íris

Elmar Carvalho

Atendendo convite do amigo Raimundo Lima, escritor e juiz aposentado, fui, em companhia de Fátima e minha irmã Maria José, visitar o seu sítio, localizado a 20 quilômetros da cidade de José de Freitas. Procurei sair cedo, para ter tempo de dar uma volta em seus diferentes logradouros, praças e ruas, a fim de recordar os tempos ditosos em que nela morei, quando tinha 14 anos de idade, e tudo me sorria, e a esperança habitava meu jovem peito. Como no dizer do poeta, as graças me iam à frente espalhando rosas e a estrada era verdejante e florida.

Primeiro revi o morro, no centro da cidade, que na época não tinha nome. Era simplesmente o morro, em cujo cimo se erguia um pequeno Cristo Redentor, de acolhedores braços abertos. Muitos anos depois, passaram a chama-lo de “do Fidié”, herói português; eu prefiro chamá-lo de Morro do Livramento, em homenagem ao antigo nome da cidade e às nossas lutas libertárias.

Não era poluído, como hoje, por várias antenas de telecomunicações. Eu o escalava por quase todos os lados, em companhia do Carlos, do Itamar e outros colegas de traquinagens. Quase nunca usávamos a escadaria. Quando precisei usá-la, aos 50 anos, o fiz de forma açodada, estugando os passos; mas logo senti o impacto da idade, e tive de me conter, para recuperar o fôlego. Era o prelúdio da velhice que já me acenava.

A santa – Nossa Senhora do Carmo, que eu pensava ser a do Livramento, padroeira da pequena e aprazível urbe – em seu imaculado manto branco nos acolhia. Ficávamos a seus pés, a conversar, enquanto olhávamos a paisagem ao longe e o movimento da cidade, então ainda pequena, pacata, mimosa e bucólica. Consternado, observei que a bela escultura apresentava uma crosta escura, não sei se apenas sujeira, ou se moradas de insetos, como cupins ou marimbondos, de fogo ou não. Urge que o poder público municipal ou a paróquia faça alguma coisa, para que esse belo patrimônio artístico não se arruíne de forma definitiva e irreparável. Ainda mais que é uma obra do grande escultor Murilo Couto.

Indo em direção à casa em que morei, perto da de dona Irá, mãe do Carlos, do Chico, do Nando e do Nonato, passei pelo teatro, que foi restaurado. Não sei a frequência com que é utilizado em apresentações artísticas e teatrais. Mas em 1970 ali cantaram Valdick Soriano e o piracuruquense Roberto Müller. Na frente havia o clube social e dançante, que já não existe.

Perto, mais precisamente na frente do cemitério velho, dito dos ricos, havia um campo de futebol, que ajudei a fazer, com o apoio do padre Deusdete Craveiro de Melo e o auxílio de garotos, meus colegas e vizinhos. Invadido pelas casas, não mais existe. Existe ainda a igreja de São Francisco, então inativa, e hoje restaurada e em pleno funcionamento. Foi construída por Cândida Cunha, uma das habitantes do pequenino campo santo, consoante li, menino, em sua lápide.

Para minha consternação, a casa em que morei, abandonada pelos proprietários, talvez em face de interminável inventário, já começa a se transformar em escombro. Perto dela ficava outro campinho de futebol, onde joguei diariamente, na posição de goleiro, que era favorecida pela areia fofa que então existia. Ali, garoto franzino, eu me esticava em ornamentais “voadas”, a imitar o Félix Miéli Venerando, o Beroso e o Coló. Era cercado por grandes e frondosas fruteiras. Também não mais existe, tomado que foi por residências e cercados. A casa e oficina de Zezé Barros, o melhor marceneiro de José de Freitas, lhe ficava defronte. Era ele um dos peladeiros, conquanto fosse bem mais velho que nós outros, moleques dos arredores.  

Resolvi dar uma olhada no cemitério e no estádio, que tantas vezes vi em minha infância. São contíguos. Para minha profunda tristeza e decepção, a praça esportiva, que pensei ter passado por melhoramentos, está em situação deplorável, com o muro bastante deteriorado. O cemitério, ao menos no momento em que o contornei, tinha o aspecto de que fora esquecido pelo próprio esquecimento, como nos versos de Jorge de Lima. Abandonado talvez mesmo pela morte, a quem deve servir.

Retornando ao centro da cidade, vi o prédio onde outrora funcionou a famosa Casa Almendra, fundada pelo patriarca José de (Almendra) Freitas. Tinha várias filiais, e era uma das maiores firmas do Piauí em seu ramo de atividade. Algumas vezes vi o senhor Ferdinand Freitas em seu interior, em seus afazeres. Nessa época, idos de 1970, ela só possuía uma sucursal, em Teresina, se não incorro em equívoco. Para aumentar a minha nostalgia o Bar Glória, orgulho dos freitenses, esvaiu-se no tempo, e já não ostenta a sua glória passada, o moderno balcão frigorífico e seus saborosos picolés.

Emocionado com tantas lembranças, me pareceu enxergar o vulto do padre Deusdete, vestido em sua batina, entre as naves da velha matriz. E como arremate dessas lembranças contemplei o Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, onde fiz o segundo ano ginasial na época em que o Brasil ganhou o tricampeonato mundial de futebol.

Recordei meus colegas e mestres. Nomeio alguns de meus velhos professores: Pe. Deusdete, Sebastião (colega de meu pai nos Correios), José Acélio Correia (gerente do BEP) e a professora Durvalina Pereira dos Santos, que apesar de promotora de Justiça e de lecionar matemática, que sempre foi um bicho papão, jamais intimidava ou amedrontava seus alunos, como era um vezo dos professores de matemática da época.

Entre os alunos (e contando, confesso, com a ajuda do amigo Francisco Costa, radialista e fiscal da SEFAZ, de elefantina memória) cito: Zé Bacharel (da família Chaves, vereador em várias legislaturas), Farias, Edmilson e Carlos Leite, João Rocha, Paulo Paiva e José Nascimento (Zé Rosinha), recentemente falecido, que veio a se formar em medicina. Sem dúvida, cada um seguiu o caminho que lhe coube percorrer, embora eu os tenha perdido de vista nas muitas esquinas e desvãos da vida e do tempo.

Feita esta última e sacra estação em busca do tempo perdido nos esconderijos de um passado de mais de quatro décadas, fui à procura do pote de ouro no Arco-Íris, sítio dos amigos Raimundo Lima e Benedita, juízes aposentados.

Quando Raimundo adquiriu essa fazenda, pediu algumas sugestões para lhe mudar a designação. Por ser poeta e admirador de Manuel Bandeira, sugeri-lhe “Pasárgada”, título de um belo poema do velho bardo e nome da velha cidade persa de Ciro, e “Vale do Marataoã”, por ficar à margem esquerda do histórico rio, outrora integrante do topônimo da ancestral cidade de Barras.

Ao chegar, foi que fiquei sabendo: ia ser comemorado o aniversário do bravo Raimundo. Não irei revelar de quantos anos. Foi uma linda festa, sem som volumoso e estridente, e sem cachaçada. Os irmãos, primos, sobrinhos, tios, genros e noras se estimavam, mas não houve necessidade de selfie. À sombra do alpendre e de um pé de mama-cachorro, personagem do livro infanto-juvenil do dono da casa, mantive uma agradável palestra com este, com o irmão Josué Bonfim e José Pedro Araújo.

Antes do almoço o Lívio Bonfim, casado com Lara Larissa, romancista e cronista, filha dos donos da casa, proferiu uma bela oração de agradecimento a Deus, por todas as dádivas recebidas, inclusive o alimento, que, por sinal, foi um manjar digno de deuses da gastronomia. E que me fez pecar, tal a gula de que fui justamente acometido.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mestre-de-Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar


Mestre-de-Campo Bernardo de Carvalho e Aguiar

Reginaldo Miranda

Foi um dos mais destemidos e importantes militares do meio-norte brasileiro durante o primeiro quartel do século XVIII. Nascido em 1666, provavelmente em 20 de agosto, dia consagrado a São Bernardo, no calendário cristão. Embora exista uma informação em contrário, foi no concelho de Vila Pouca de Aguiar, também terra de seu genitor Antônio Silvestre de Aguiar, que viu a luz do sol pela primeira vez. A mãe, velha mãe de têmpera portuguesa, cujo nome ainda não localizamos, era da tradicional família Carvalho, do contíguo concelho de Ribeira de Pena, razão pela qual aparece em um documento como natural desse concelho.

Foi na povoação natal que viveu os felizes e despreocupados anos da infância, alternando os estudos que lhe eram oferecidos com as brincadeiras típicas de criança do seu tempo.

No entanto, em 1685, aos dezenove anos de idade, embarcou em um navio para o porto da Bahia e dali passou ao sertão de Rodelas*, onde iniciou-se no criatório bovino e, mais tarde, alistou-se na carreira militar. Em depoimento prestado na cidade de Olinda, em 12 de julho de 1701, como testemunha de Manoel Álvares de Souza para instrução processual em habilitação do Santo Ofício, ele foi qualificado como coronel, cristão velho, casado, natural da Ribeira de Pena**, e de presente morador no rio de São Francisco da freguesia de N. Sra. da Conceição do Rodelas desde dezesseis anos a esta parte, de idade que disse ser de 35 anos, pouco mais ou menos, e que vivia de suas fazendas.

Nesse lustro inicial constitui família, convolando núpcias com Mariana da Silva, de cujo consórcio tem ao menos três filhos: Miguel de Carvalho e Aguiar, Bernardo Carvalho de Almeida e Antônia de Aguiar, em benefício de quem pede tença, mais tarde casando com o sargento-mor Manuel Xavier.

No entanto, é a partir de 1690, aos 24 anos de idade, que se delineia claramente sua carreira militar, quando em princípio do verão está exercitando o posto de capitão de infantaria da ordenança comandada pelo capitão-mor do Piauí José Garcia Paz, em luta contra a nação Paracati, também chamada Pracati, Precati ou Percati, que na defesa de suas tabas, entre os sertões de Parnaguá e o do Médio São Francisco, levantara-se em guerra contra o invasor lusitano. Nessa campanha portou-se com bravura fazendo-se notar pelo ardor e denodo com que se lançara no campo de batalha por mais de seis meses consecutivos, matando e aprisionando quase todos os indígenas. Numa ocasião pendenciou por mais de quatro horas, com grande ânimo e valor, diria mais tarde o comandante da tropa, fazendo o mesmo em muitos outros assaltos e rebates que houve ao longo da campanha. Também, passou a governar no arraial que fundara, os prisioneiros com zelo e prudência, apesar de sofrer uma emboscada pelos mesmos que quase tira-lhe a vida no ardor da juventude (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v; AHU. ACL. CU 009. Cx. 12. D. 1199).

Em maio de 1692, combatendo os Crateús rebelados no nordeste do Piauí, fez à sua custa uma entrada com soldados pedestres e gente montada a cavalo, pelo então chamado Sertão das Cajazeiras, oportunidade em que descobriu umas terras novas nos riachos Cabeça do Tapuio, Sambito e Poti, em que situou fazenda pondo gados seus e levantando casas fortes e guarnições para a defesa, com muito dispêndio da sua fazenda, diria ele mais tarde. Essa fazenda, em que morou por três anos, situando-a com grande labor, foi a Cabeça do Tapuio, que deu origem à atual cidade de São Miguel do Tapuio (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

Em 1695, fazendo nova entrada descobriu outras terras novas no lugar chamado os Alongazes,  junto à Serra do Goapava, hoje Ibiapaba, para isso organizando tropa com muitos soldados mantidos à sua custa. E as povoou com gado e negros escravos de sua propriedade, dando-lhes todo o sustento, armas e munições para habitação, com seu exemplo também estimulando outros denodados conquistadores que em pouco tempo situaram mais de quarenta fazendas nessas novas terras recém descobertas, disto resultando utilidade para a Bahia e Pernambuco pela abundância de gados, e à Fazenda Real pelos dízimos recebidos. No entanto, embora aí situando fazenda no referido ano de 1695, somente vinte e três anos depois, em 1718, é que lhe foi concedida a sesmaria, com três léguas de comprido e uma de largura, localizada no Sertão dos Alongazes, em um riacho cujas vertentes desaguavam no rio Jenipapo, cujo sítio o situou sob a invocação de Santo Antônio, onde construiu casa, currais, fábricas de criados e estabeleceu escravos, gados, cavalos e o mais necessário. Essa fazenda Santo Antônio, antiga Bitorocara, é a origem da cidade de Campo Maior. Portanto, remonta há mais de 322 anos a tradição do padroeiro Santo Antônio nas cabeceiras do Longá (PT/TT/RGM/C/0008. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, fl. 509v).

Em retribuição aos eloquentes feitos praticados na guerra contra os Paracatis, que travara sob o comando do coronel José Garcia Paz, em 1696 foi pelo governador de Pernambuco nomeado capitão-mor da infantaria da ordenança do distrito da Cachoeira até a povoação do Rodelas, cuja patente foi confirmada por El Rei em 15 de outubro de 1700 (PT/TT/RGM/B/0014/7301. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. Pedro II, liv. 14, f.122v).

Com a calma que seguia a bacia parnaibana, em 1697, no posto de capitão-mor vai ele acompanhar e dar segurança à comitiva de seus primos e conterrâneos, os padres Miguel, Tomé e Inocêncio de Carvalho, que vinham instalar novas freguesias nos sertões do Piauí e do rio São Francisco. No entanto, enquanto os religiosos faziam as tratativas de instalação da nova freguesia da Mocha, parece que ele ausentou-se ligeiramente para tratar de assuntos urgentes, porque não está entre aqueles que firmaram a ata de instalação. Em seguida, com alguns de seus soldados acompanha a comitiva dos religiosos até a Barra do Rio Grande do Sul, em Pernambuco, hoje Bahia. Dali, tornou com o padre Inocêncio de Carvalho, acompanhado de soldados com armas e munições, para protegê-lo na desobriga que fizera pelos confins do Rio São Francisco, Rio Grande, Rio Preto e Lagoa de Parnaguá.

No ano de 1698, exercitando o posto de capitão-mor do distrito da Cachoeira e povoação dos Rodelas, com autorização do Administrador das Minas de Salitre, Pedro Barbosa Leal, partiu com o Ajudante e Mestre delas em diligências e pesquisas por diversas serras no sertão do Buíque, em busca de novas jazidas, em cuja missão passou cerca de um mês, sempre no propósito de bem servir ao Estado e aumentar os rendimentos da Real Fazenda. Foi, assim, um grande servidor da pátria.

No ano de 1701, Bernardo de Carvalho caminha em diligência mais de 280 léguas, com quatro homens brancos e dois escravos, para levar em segurança um comboio de seis criminosos que haviam sido presos pelo capitão-mor do Rio Grande, Manoel Álvares de Sousa, desde aquele distrito à cadeia do Recife. Foi nessa oportunidade que prestou o referido depoimento em Olinda, em 12 de julho daquele ano, como testemunha do capitão-mor Manoel Álvares de Souza, residente em Parnaguá, em processo de habilitação para familiar do Santo Ofício. Disse que correspondia-se com ele a sete anos, certamente sobre assuntos militares.

Em 1707, estando nas Minas foi eleito para juiz de uma vila que desejavam erigir os moradores do Coité, sem autorização de el rei ou do governador. Então, além de rejeitar o cargo conseguiu apaziguar os moradores rebelados.

Esse trabalho de segurança do sertão o fez por diversas vezes, a exemplo de 1710, quando o então coronel Bernardo de Carvalho foi encarregado pelo Ouvidor-geral do Maranhão, Euzébio Capelly, que passara em diligência ao Piauí, de fazer várias prisões de delinquentes, tarefa que executou com risco da própria vida, surpreendendo os delinquentes à noite, por serem suspeitos de fuga. Nesse mesmo ano, sob ordens do mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, executou uma determinação do governador e capitão-general para fazer o descimento dos índios Caratiús, também chamados Crateús, de suas antigas aldeias para o arraial de N. Sra. da Conceição, onde morava aquela autoridade e seriam entregues ao capelão Frei Manoel de Jesus Maria, religioso de N. Sra. das Mercês, se o seu capelão não quisesse vir, por ser mais conveniente ao real serviço. Executou essa tarefa com grande zelo, juntando os índios na aldeia principal e em outras partes em que estavam espalhados num raio de setenta léguas, pelas cabeceiras do Poti, conduzindo-os e os sustentando, à sua custa, até o dito arraial em número de 145, que foi o dos indígenas descidos (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

Nesse mesmo ano de 1710, recebeu a visita do Pe. Tomé de Carvalho e Silva, com ele se comprometendo a construir igreja e ajudá-lo a fundar a nova matriz de Santo Antônio, a segunda a ser criada no Piauí. Sobre o fato, assim anotou o referido vigário:

“Indo a esta parte, convoquei os principais moradores e, tomando-lhes os seus votos na parte em que havia de erigir a nova Capela, que por invocação tem o nome do glorioso Santo Antônio, lhe não achei possibilidades para fazerem, dando-me várias desculpas pelos poucos escravos que tinham, e estando ocupados em fazendas que tinham os donos na Bahia e que as não podiam desamparar. Nestes termos me vali do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade buscou um carpina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a Capela à sua custa, tanto de escravos como gados, farinhas e dinheiro. E o acho com ânimo de gastar nela cabedal. Outrossim se me ofereceu com o gado que necessitasse para a nova ereção desta matriz de Nossa Senhora da Vitória, e me prometeu 200$000 (duzentos mil reis) para a Custódia, para a dita matriz, e que se custasse mais o daria” ( Pe. Tomé de Carvalho, Doc. de 20/4/711. In: MELO, Pe. Cláudio. Bernardo de Carvalho).

Por outro lado, o serviço do coronel Bernardo de Carvalho e Aguiar vai se fazer essencial com o Levante Geral dos Índios que teve início em 12 de julho de 1712, também conhecido como Revolta de Mandu Ladino, levando terror e aflição ao colonizador lusitano. Nesse dia, foi assassinado no referido arraial da Conceição, pelos indígenas levantados, o mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior e mais parte da infantaria que estava em sua companhia, continuando o levante, praticando estragos em toda a parte, de forma a colocar a capitania em total ruína. Então, de imediato, a população temerosa da própria vida, em eleição realizada na casa do capitão-maior Dâmaso Pinheiro, elege Bernardo de Carvalho, por cabo-maior da tropa de guerra e o governador Christóvão da Costa Freire o nomeia para o posto de mestre-de-campo da conquista em 30 de dezembro de 1712, para fazer a guerra e livrar a população da opressão que padecia (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

De imediato, o novo mestre-de-campo juntou para esse efeito toda a gente que lhe foi possível e com ela perseguiu o dito gentio, matando uns e aprisionando outros no primeiro recontro que com eles teve, sendo que algumas malocas conseguiram fugir para a serra do Anacé, perdendo, porém, a bagagem, mais de duzentas cabeças de gado e alguns cavalos que foram tomados pela tropa militar e devolvidos aos donos em cujas fazendas os indígenas haviam furtado. Logo mais, teve notícia de que os indígenas revoltados tinham sitiado a vila da Parnaíba, precariamente defendida pelo capitão-mor João Gomes do Rego Barra. Então, reorganizou a tropa e marchou com toda a pressa em auxílio daquele militar, para socorrer a nascente vila, seguindo pela ribeira do Piracuruca, em cuja foz assentou presídio deixando-o fortificado de soldados e todo o mais necessário. Continuando a sua diligência, levantou o cerco indígena à referida vila, depois de ligeiro combate a uma maloca, onde matou e aprisionou a todos, sem deixar escapar ninguém. Na perseguição que fez aos demais, os obrigou a bater em retirada até alcançarem uma ilha aonde não podiam ser acometidos. E diante dessa dificuldade lhes mandou um intérprete para os poder reduzir à paz, o que, de fato, conseguiu, aceitando aqueles a presença de um religioso em sua aldeia para os doutrinar. Declarou ter investido nesta campanha mais de três meses, sustentando a todos com mantimentos, munições e maior parte das armas à sua custa (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v; AHU. ACL. CU 009. Cx 012. D. 1199).

Nesse mesmo tempo, por ordem do governador do Maranhão prendeu o capitão-mor Pedro da Cunha Souto Maior, por se entender ser cúmplice no levantamento do dito gentio e morte de seu irmão, o mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, levando-o preso ao Maranhão, com gente armada à sua custa. E por ordem do Provedor da Real Fazenda, fez execução nos bens do falecido mestre-de-campo, pondo-os em boa arrecadação para pagamento de considerável dívida que aquele ficara devendo à Real Fazenda (PT/TT/RGM/C/0008/380651. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 8, f.524v).

No ano de 1713, recebe em sesmaria no lugar Campo Largo, por ele desbravado, uma porção de terra com três léguas de comprido e uma de largura, que lhes foi concedida pelo governador Christóvão da Costa Freire. Porém, sofre descaminho o pleito de confirmação no reino, o que só foi resolvido em 4 de junho de 1739, depois de seu óbito, em favor do filho Miguel de Carvalho e Aguiar, seu sucessor na posse e que renovou o pleito(AHU. ACL. CU 013. Cx. 24. Doc. 2289).

No ano de 1714, marchou por muitas serras e matos em busca do índio rebelado, pelejando com ele, matando a maior parte e aprisionando cinquenta e três. Nessa campanha andou todo o referido ano suportando grandes trabalhos e incômodos, animando toda a gente da sua tropa nas ocasiões de maior aflição, mostrando nelas o seu grande valor e zelo, cabendo de quintos à Real Fazenda 780$000, que renderam as presas desta guerra cuja quantia remeteu ao Maranhão. Depois de finda esta diligência, mandou o maior troço da tropa em seguimento dos outros tapuias, ficando ele com o resto da gente no arraial. Então, adoecendo retirou-se às suas fazendas para se refazer, tempo em que com mais força e prevenção dirigiu a guerra obedecendo em tudo às ordens do governador. Nesse tempo, tomando conhecimento de que chegara ao Piauí, o português Antônio Borges Marim, coronel das vilas de Santo Amaro e Itabaiana, por carta de 13 de junho pediu que o acompanhasse nessa guerra e no aldeamento dos Jaicós. Então, reunindo trezentos homens de suas fazendas, Borges Marim seguiu ao arraial de Bernardo de Carvalho, onde uniu a estes mais 120 homens armados, que tinham por cabo o tenente-coronel Manoel Gonçalves Pimentel, moradores no distrito do Ceará, distante do dito arraial cem léguas. E, de fato, subindo Parnaíba acima deu combate a muitos indígenas revoltados e confederados, de cujo resultado fez pazes com os Jaicós, aldeando-os no vale do rio Itaim, em terras dele conquistador, Antônio Borges Marim (AHU. ACL. CU 009. Cx. 12. D. 1199).

Em 1715, o mestre-de-campo Bernardo de Carvalho foi chamado pelo governador do Maranhão, para que, ambos, unidos à gente de uma e outra parte fizessem guerra ao gentio que infestava os rios Itapecuru e Mearim, que já haviam entrado pelo Piauí, matando aos moradores e destruindo-lhes casas e fazendas. Então, reuniu e municiou o maior número possível de gente armada que pôde fazer e marchou contra os mesmos, dando-lhes combate e matando a quase todos, tanto que somente da nação Crateús, escaparam 3 ou 4 velhos, sendo aprisionado todo o seu mulherio. E nas duas outras nações Carius e Anacés, seus aliados, fez grande mortandade até os obrigar a pôr em retirada, deixando em sossego os moradores que haviam escapado da invasão, fazendo esta guerra à sua custa sem despesa alguma da Real Fazenda. Ao contrário, obteve esta com os quintos das presas que ocupavam a Serra Grande, a quantia de 5880$000, que levou ele pessoalmente ao Maranhão e se carregaram em conta no Almoxarifado.

Em 1716, o gentio bravo roubou os comboios que iam do Piauí para o Maranhão, que importavam mais de 50$000, sendo a maior parte pertencente à Real Fazenda, inclusive ousadamente investiu contra a casa forte do Iguará. Então, por ordem do governador do Maranhão, onde se achava a fazer cruenta guerra ao dito gentio, marchou com a soldadesca que pôde juntar contra a populosa nação Aranhi, pelejando com ela até a destruir completamente, sem escapar mais que um índio que fugiu depois de atingido com dois tiros, ficando todos os mais mortos, trazendo cativos apenas cinquenta e dois infelizes, que entregou ao dito governador. Então, este os repartiu pagando o quinto à Real Fazenda, havendo-se Bernardo de Carvalho em tudo o que foi encarregado com muita satisfação, préstimo, despesa de sua fazenda e grande zelo do Real serviço, conforme a confiança que sempre fizeram de sua pessoa.

Em face desses sucessos, foi agraciado com o Hábito de Cristo, com 120$000 de tença por ano. E para completar os 600$000 que lhes foi deferido, mandou-se-lhe passar padrão de 480$000 pela repartição do reino, em nome de sua filha Antônia de Aguiar.

Em 29 de novembro de 1718, foi confirmado no posto de mestre-de-campo da conquista das capitanias do Maranhão e Piauí, em que já estava anteriormente provido pelo governador daquele Estado, com o mesmo soldo que se deu ao mestre de campo dos paulistas, Manoel Álvares de Moraes Navarro (AHU. ACL. Maranhão. Cx. 12. Doc. 1204).

Nesse ano, elaborou plano de reestruturação da capitania, então criada, cujo território estava bastante devastado por mais de cinco anos de levante geral do tapuia rebelado contra a opressão do colonizador. Em decorrência, muitos fazendeiros abandonaram suas propriedades, mais de cem léguas de terras, com enormes prejuízos para si e para a Real Fazenda, alguns tendo sido assassinados, suas casas e plantações destruídas diante da ira do indígena rebelado. Foi assassinado o padre Amaro Barbosa, depois de morto foi retirado o seu coração, quebrando-se também as pernas e rostos das imagens sagradas de sua capela, fato que escandalizou a todos.

O plano de defesa e restruturação da capitania do Piauí submetido ao rei D. João V, consistia em recompor o exército que houvera de moradores, de quatrocentos índios para cima, fora os brancos, tirando-se estes das aldeias de Camarão, até o Ceará em que haviam muitos, e do Rio de São Francisco, escolhendo-se das ditas aldeias, os que fizessem menos falta nelas; que se anexasse a aldeia de Ibiapaba à jurisdição da Capitania do Piauí; e que para ajudar na dita expedição fosse da Capitania de São Luís do Maranhão, alguma gente paga, já experimentada nesta guerra, e que em seu lugar fosse ele levantar quarenta até cinquenta soldados da gente desocupada e vadia para irem guarnecer a dita Capitania de São Luís e recomporem as companhias dos soldados; e lhes fossem atendendo-se às suas razões, por ser esta a única guerra que havia no Estado do Brasil, ocasionando tantas ruínas nas três capitanias do Maranhão, Piauí e Ceará; e com as muitas mortes que nelas tem executado, fazendo-se preciso que nelas se pusesse todo o cuidado, porque havendo o menor descuido nesta matéria se põem em risco as ditas capitanias, havendo já ocupado no Piauí, uma grande parte do País tão pingue e extinguindo mais de cem fazendas, dissera ele ao rei.

Então, por deliberação do Conselho Ultramarino de 3 e 10 do mês de outubro de 1718, foi aprovada a dita proposta a fim de diminuírem as perdas que se tem sentido, e se evitarem as que presentemente muito se podem recear e para que se estabeleçam as ditas capitanias com maiores utilidades para os vassalos delas, e se aumentar a Real Fazenda, domando-se os ditos índios, tendo o rei D. João V baixado provisão em 20 de outubro do mesmo mês e ano, ordenando ao governador de Pernambuco, que pela parte que lhe toca, assista ao dito mestre-de-campo com os socorros mencionados na sua proposta dando-lhe os índios que nela insinua das aldeias que refere, para que desta maneira se engrosse o nosso poder para termos o encontro e pelejarmos com os índios nossos contrários; para esse efeito, mandou também que se desanexasse da Capitania do Ceará a aldeia da Serra da Ibiapaba, passando à jurisdição do Piauí, e que o dito mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, possa nela levantar quarenta até cinquenta soldados da gente mais desocupada e vadia que há nela, e desta vão servir em a Capitania de São Luís do Maranhão, mandando-lhe dela o governador e capitão-general do Maranhão, Bernardo Pereira de Berredo, o mesmo número de soldados já experimentados para com os sessenta que estão destinados para esta guerra completasse o número de cem; nesta consideração recomendando ao governador que assim o executeis pela parte que lhes toca, assistindo ao dito mestre-de-campo com os socorros que pede negócio tão importante e de tantas consequências, advertindo-o a executar esta disposição inviolavelmente porque do contrário receberia ele governador um grande desprazer; e para que a todo o tempo constasse o que neste provimento mandou observar, o obrigou a registrar as ordens nos livros da secretaria do governo e mandar certidão de como assim obrardes (AHU. ACL. CU 013. Cx. 24. Doc. 2289).

Embora exercesse de fato o posto de mestre-de-campo da conquista desde a morte de seu antecessor, Antônio da Cunha Souto Maior, em 1712, por nomeação do governador do Maranhão, somente em setembro de 1720, assentou ele praça do dito cargo em atenção à referida confirmação de Sua Majestade em 1718. Embora essa confirmação tenha se dado um pouco antes, devido ao levante geral dos índios, somente nesta data pôde ele ir a São Luiz para a formalidade legal de posse e para acertar com o então governador e capitão-general do Estado, Bernardo Pereira de Berredo(1718 – 1722) sobre a continuidade da guerra contra o gentio de corso e a paragem mais conveniente para assentar o arraial efetivo em que devia estacionar as tropas militares, a fim de combater com prontidão e celeridade os insultos e hostilidades do dito gentio. Porém, em sua audiência com o governador este alegou a ausência das demais pessoas experientes que foram convocadas para a decisão, tendo em vista a vizinhança do inverno. Em suma, adiou as ações do mestre-de-campo para o início do verão subsequente, o que o desagradou. De toda forma, ao retornar à sua fazenda nas cabeceiras do Longá, recebeu Bernardo de Carvalho da Provedoria da Real Fazenda, modesta quantidade de munições de pólvora, bala, armas e mantimentos, além de trinta soldados pagos e um cabo daquela guarnição, para a prevenção de qualquer encontro, que acontecesse com o dito gentio ou para rechaçar alguma invasão que sucedesse fazer-lhe os indígenas.

No entanto, insatisfeito com essa inércia do governo maranhense busca ele ajuda junto ao governador de Pernambuco, pedindo mais munições e aprestos de guerra. Sabedor desse fato, o referido governador do Maranhão e o Provedor da Real Fazenda, Jacinto de Morais Rego, escrevem ao Conselho Ultramarino e ao governador de Pernambuco tentando sabotar as diligências do militar piauiense, a fim de não parecerem culpados. Nesse contexto também se queixam de que Bernardo de Carvalho estava abrigando em sua residência e fazenda, o bacharel João Mendes de Aragão, que fora ouvidor-geral do Pará. Este era franco adversário daquelas autoridades e fora antes abusivamente preso e colocado sob ferros pelo governador Berredo. Então, o rei censurou o governador e deu salvo conduto para que o ouvidor fosse para Pernambuco, onde tinha domicílio e família, ou se quisesse que fosse para o reino. Naquela altura estava o mesmo sob a proteção do mestre de campo, que o abrigara em sua fazenda. A verdade é que Bernardo de Carvalho e o governador Berredo nunca se entenderam bem, existindo mesmo grande animosidade entre ambos (AHU_ACL_CU 013, Cx. 7, D.591; Cx. 13, D. 1301).

Em 1722, Bernardo de Carvalho parte para o sertão de Parnaguá, a cento e cinquenta léguas de São Luiz, em guerra contra o índio de corso Paracati, então designado Percati, dando-lhe um primeiro combate em que não surtiu efeito algum por se espantar o gentio e fugir. No entanto, em outras duas refregas foi o mesmo silvícola destruído e morto, de maneira que não restaram mais que sete, que foram aprisionados. Nesse mesmo ano gastou todo o mês de novembro em guerra contra os gentios de corso Guegué e Acoroá, a pedido dos moradores de Parnaguá. Então, por conta de inimizade, aproveitando-se da ausência do mestre-de-campo, o governador Berredo lança bando convocando as tropas para uma mostra geral de pagamento em 27 de fevereiro de 1722. Ao fim dessa, embora com o parecer contrário do vedor geral, Dr. Francisco Machado, mandou dar baixa nos soldos do militar com infundados pretextos de que o mesmo não estava em serviço militar, e sim situando fazendas e despachando boiadas para as Minas. Posteriormente, atendendo a recurso de Bernardo de Carvalho, foi esse ato reformado, depois de seis anos de justificativas, oportunidade em que o sucessor de Berredo disse que tudo era fruto do ódio e inimizade que o antecessor nutria contra Carvalho, o que se comprovava pelos anteriores capítulos de culpa que se lhe dirigira (AHU_ACL_CU 016, Cx. 1, D.41).

Em princípio do ano de 1724, o mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar parte em diligência para o Maranhão, a chamado do governador e capitão-general João da Maya da Gama(1722 – 1728), para dar combate ao gentio bárbaro.  E no comando de cem soldados da infantaria paga da guarnição de São Luiz, que lhes foram entregues fez diligências e assentou arraial no sertão longínquo. Em seguida, por ordem da mesma autoridade partiu em outra importante diligência de que retornou no início do inverno, quando aquela autoridade se encontrava no Pará. Então, quando organizava a pequena tropa que o acompanharia em seu retorno ao Piauí, enfrentou conflito de jurisdição com o capitão-mor D. Francisco Ximenes de Aragão (AHU_ACL_CU 009, Cx. 13, D. 1391).

No primeiro trimestre de 1725, ao passo em que pleiteia o pagamento de soldos atrasados busca também o aumento dos mesmos, visto ter sido nomeado em 1718, com o soldo que lograva o Mestre-de-Campo dos paulistas no Assu, Manoel Alves de Moraes Navarro, que era de 23$200rs (vinte e três mil e duzentos reis) por mês, o mesmo que naquele tempo também percebiam os mestres de campo da praça da Bahia. E porque esses últimos conseguiram um aumento remuneratório, também pleiteou a eles igualar-se, justificando que “com maior razão por estar continuamente lidando em uma guerra viva contra o gentio de corso comprando cavalos por exorbitantes preços para as conduções de sua comitiva, empregando os seus próprios escravos nos choques e ocasiões militares, sustentando-os e vestindo-os à sua custa, e a muitos soldados pobres, pois entrando pela campanha não tem mais abrigo e amparo que o do suplicante em que faz a mais considerável despesa, que não experimentam os referidos mestres de campo” da Bahia. Nesse tempo, seu filho Miguel de Carvalho e Aguiar, natural do rio de São Francisco, capitão da conquista que iniciara a carreira militar ao lado do pai em 1715, solicita confirmação no dito posto para o qual havia sido nomeado no ano anterior. Em 4 de junho de 1739, esse mesmo filho vai adquirir carta de sesmaria no Arraial Velho, margem do rio Parnaíba, alegando que o seu falecido pai já a tinha adquirido em 1713, sendo o documento desencaminhado (AHU_ACL_CU_009, Cx. 14, D. 1445 e 1453. Cx. 26, D. 2718).

Paralelamente a essa ação militar, Bernardo de Carvalho foi um grande empreendedor, situando diversas fazendas em Pernambuco, Piauí e Maranhão. Também, benemérito da Igreja, tendo ajudado a construir e manter diversos templos religiosos.

Infelizmente, em novembro de 1729 Bernardo de Carvalho e Aguiar está sendo vítima de ação executiva em que perde duas fazendas de gado e suas fábricas, para ressarcir a Real Fazenda em cinco contos, trezentos e nove mil, quarenta e dois reis, como fiador de João de Sousa da Silva, Tesoureiro da Alfândega da Bahia(AHU_ACL_CU_016, Cx. 01, D. 53).

Desgostoso por tanta ingratidão e alquebrado pelas inúmeras campanhas militares, se retira então para a fazenda São Bernardo, de sua propriedade, no outro lado do rio Parnaíba, hoje cidade de São Bernardo, no Maranhão, onde falece em março de 1730, aos 64 anos de idade, deixando larga folha de serviços prestados ao Estado. É considerado o fundador das cidades de Campo Maior e São Miguel do Tapuio, no Piauí, São Bernardo, no Maranhão e o idealizador de Caxias, também no Maranhão, além de elemento importante na pacificação e assentamento da base colonial portuguesa na bacia parnaibana. Foi um homem do seu tempo, nem santo e nem demônio, eu diria um competente militar que bem serviu à sua pátria dentro dos moldes que lhes foram traçados. Merece figurar na galeria dos grandes construtores de nossa nacionalidade.  
  
NOTAS:

* Bernardo de Carvalho e Aguiar, fixou sua residência inicialmente no Rio São Francisco(Sertão de Rodelas), e não na cidade da Bahia, como dissera o Pe. Cláudio Melo.

**Embora tenha sido qualificado nesse documento como natural de Ribeira de Pena, terra de sua genitora, também aparece em diversos outros como natural de Vila Pouca de Aguiar, terra de seu genitor, ambas contíguas e situadas no arcebispado de Braga, norte de Portugal.
  

REGINALDO MIRANDA é advogado e escritor, membro da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e disciplina da OAB-PI.