quinta-feira, 17 de outubro de 2019

A confissão do diabo e a água benta

Fonte: Google


A confissão do diabo e a água benta

Pádua Marques
Jornalista, romancista e cronista

Naquele sábado pela manhã do início de setembro o escravo Elias desceu as escadas e deixou a casa de morada de Simplício Dias da Silva pra ir até a igreja de Nossa Senhora da Graça, ali perto, buscar o padre Horácio Pereira de Menezes, que havia acabado de chegar de uma missão na Barra do Longá. A mando de dona Isabel Tomásia o padre foi chamado pra ouvir em confissão o coronel. Já quase que sem voz, manifestou desejo de ser perdoado pelos seus pecados pela Santa Igreja. Não queria morrer e depois arder no fogo do inferno pelo que praticou em cima da terra enquanto pode e teve poder e dinheiro.

Dentro de casa e nas ruas próximas a notícia era de que o coronel Simplício Dias da Silva ia de mal a pior e a família já não tinha mais grandes esperanças de sua recuperação. No início da madrugada, mal iniciado o cantar dos galos pra os lados dos Tucuns, Elias havia chegado do Buraco dos Guaribas, onde trouxe a benzedeira Joana dos Anjos pra ver de perto como estava o padrinho e benfeitor. Foi chegar e entrando de porta adentro mandou que fizessem um chá de mastruz pra ser bebido amargo e de um gole só. Era pra aliviar a tosse e botar pra fora o catarro preso no peito.

Dali por diante a cozinha ficou sob suas ordens. Negra velha de mais de sessenta anos, criada nas terras de Simplício Dias pra os lados do Testa Branca, Joana era curandeira e parteira de ganho afamada. Pegou Carolina, a filha do coronel, quando nasceu, hoje ali já beirando trinta anos. Era conhecida e respeitada até no Maranhão e no Ceará. Pelos serviços de parteira e curandeira, ela e a família ganharam um pedaço de terras pra os lados do Sossego e Volta da Pimenta.

Mas enquanto o padre não chegava iam chegando as senhoras pra rezarem as excelências. Depois de tomado o banho da manhã e o chá de mastruz receitado por Joana, Simplício Dias da Silva, num gesto da mão levando na direção da cabeça, deu a entender que queria se confessar. Joana foi tomando a frente de tudo. Organizou a entrada das mulheres, trouxe um jarro de água fresca e abriu as janelas do quarto, as que davam pra rua Grande na direção de onde nascia o sol. O coronel estava deitado numa rede grande e embrulhado até a altura do pescoço.

Pelo sinal da Santa Cruz, livre nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos. Uma excelência que Nossa Senhora deu a Nosso Senhor! Esta excelência é de grande valor! Pai Nosso que estais no céu, santificado seja Vosso nome. Venha a nós o Vosso reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu! Duas excelências que Nossa Senhora deu a Nosso Senhor! Esta excelência é de grande valor. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!  A reza foi ficando forte dentro do quarto até que Elias veio avisar que o padre Horácio estava chegando.

Vieram as senhoras soberbas até a porta do quarto pra beijar a mão do padre, um tipo um tanto roliço, barba mal feita e quase careca. Pouco deu atenção pra aquele rapapé todo. Veio com os paramentos de dar extrema unção. As mulheres pararam de rezar e a um sinal de dona Isabel Tomásia, foram deixando o quarto. Padre Horácio Pereira de Menezes agora iria ouvir os pecados do coronel Simplício Dias ou pelo menos aqueles que ele teria ainda condições e coragem de contar. A voz do doente era muito baixa e pra ouvir o padre tinha que se curvar além do necessário. Parava e continuava. Contava passagens antigas.

As ambições, o luxo que fez com que gastasse além das necessidades, as intrigas com vizinhos, os crimes que acobertou, as vinganças por inveja de não ter nobreza no nome, os castigos a que submeteu seus escravos e agregados, o dinheiro que perdeu na política, as enrascadas em que se meteu indo pela cabeça de gente de dentro de sua casa, como o juiz João Cândido de Deus e Silva e a traição ao imperador dom Pedro I. Tudo isso ele ia contando com muita dificuldade. Chorava, dizia que tinha medo de morrer e descer aos infernos, feito tantos negros cativos que humilhou pela força.

Na cozinha Joana dos Anjos mandava e desmandava. As mulheres das rezas haviam ido embora e aos poucos toda a vila da Parnaíba haveria de estar sabendo que o coronel Simplício Dias já estava com a vela na mão. Elias ficou por perto, entre a porta e o imenso corredor que dava pra um terraço com janelas de treliça. Estava sempre pronto pra qualquer situação. Simplício poderia ter um ataque de tosse, se obrar todo, se mijar, qualquer coisa que causasse mais sofrimento. Dona Isabel Tomásia andava pelo andar de baixo arrumando umas peças de roupas.

O sol já ia alto no céu da vila da Parnaíba, o movimento vindo do porto Salgado tomava o de sempre, quando o padre Horácio Pereira de Menezes depois de rezar de olhos fechados e segurar a mão ressequida de Simplício Dias da Silva, tirou de uma bolsa de couro raspado e gasto, o aspersório de prata e pronunciando alguma coisa em latim lhe deu a absolvição. A água benta quando bateu no rosto caveiroso do coronel, formou algumas bolhas e que depois foram correr pelas rugas dos cantos da boca até chegarem ao pescoço.

Elias estava de olhos fechados acompanhando tudo e não pode conter o choro. Era talvez a primeira vez em tantos anos que soluçava em voz alta e na frente de seu senhor, embora ele já não tivesse mais condições de ver aquela compaixão. Depois de todo aquele momento o padre ainda permaneceu silencioso por um tempo sentado ao lado de Simplício Dias. Este, agora de olhos fechados, dava sinais de que não queria mais ser incomodado.

Mesmo às portas da morte e tendo sido perdoado um rasgo de tempo atrás por Horácio Pereira de Menezes, Simplício Dias da Silva ainda passava mesmo de olhos fechados uma soberba. Elias veio de forma bem devagar e ajudou o padre a se levantar da cadeira.  Estava encerrada a confissão dos pecados do coronel e dono da vila da Parnaíba a um representante de Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Agora era fechar os olhos, esperar a morte e o perdão de Deus.    

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

VOLTANDO AOS CLÁSSICOS



VOLTANDO AOS CLÁSSICOS

Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com

  

                Um cidadão que, como ministro da área econômica, permitiu que o governo a quem servia deixasse o poder com uma inflação acima dos oitenta por cento, mensais, não pode se dar ao luxo, ou, melhor dizendo, ao desplante de criticar   governantes ou aqueles que lhes sucederam, notadamente, se a economia, no geral, melhorou.

                Um indivíduo que, enquanto auxiliar do gestor federal de plantão, em uma época em que, para ele, já se fazia necessária a privatização de nossas empresas estatais – como não, se a figura, invariavelmente, quando escreve ou discursa, diz que o estado brasileiro jamais precisou delas? –, não o propôs, nem aconselhou seu superior a fazê-lo, que moral teria para se arvorar predador, alienador das estatais de que dispõe o país, sem que, antes, um profundo, abrangente, sério e transparente estudo concluísse pela necessidade de negociá-las? Privatizar por privatizar só os muito irresponsáveis, os demagogos, ou os toleirões seriam favoráveis a tal decisão.

                A respeito, ainda, de privatização, o mesmo senhor, certamente, para corroborar sua ideia fixa e recorrente de sugerir aos hodiernos inquilinos dos palácios governamentais e parlamentares que providenciem a imediata alienação, basicamente, de todas as estatais nacionais -  do Banco do Brasil, passando pelos Correios, produtoras de energia e combustíveis, enfim, atuantes em diversas atividades industriais e de serviços -, cita nações onde similares já teriam passado para empreendedores privados – só não diz que muitas foram devolvidas aos estados alienantes, que as receberam para evitar que fossem extintas de vez -, mas, irônica e, hipocritamente, esquece-se de arrolar países ou estados nos quais estatais funcionam e são referência econômica e em produtividade. Casos que poderiam exemplificar essa assertiva, negada pelo falante ex-ministro, ocorrem em Singapura, na Noruega, Hungria, Alemanha, França e, claro, nos Estados Unidos da América. Sim, também os ianques possuem grandes empresas estatais no seu organograma de administração pública, como estas: AMTRAK, estatal deficitária, criada para operar no transporte de passageiros por trem, que ninguém queria administrar em razão do alto custo e pouca, ou nenhuma, lucratividade. Até hoje é subsidiada pelos americanos; Export-Import Bank of the United States, criada para subsidiar exportações, inclusive com linhas especiais de crédito para pequenas empresas. Quem critica o BNDES por tentar linhas de financiamento para exportações, precisaria saber que os Estados Unidos têm um banco para isso; Farm Credit System, que não é apenas um banco de incentivo à agricultura ianque, mas um sistema integrado de crédito que destina bilhões de dólares a agricultores. Quer a boquirrota figura a quem vimos nos referindo, que o Banco do Brasil seja privatizado integralmente, inclusive a carteira agrícola; Tennessee Valley Authority, uma das maiores geradoras e distribuidoras de energia elétrica americana, tomada individualmente; se somadas as produções de U.S. Army Corps of Engineers e U.S. Bureau of Reclamation, o governo/estado seria o maior produtor de energia elétrica.

                Ou o ex-ministro estaria desatualizado no que diz respeito à ciência econômica, ao tentar vender, sabe-se lá a quem, a ideia de que toda estatal precisa ser privatizada, ou sendo, deliberadamente, hipócrita e demagogo, ao esquecer ou se omitir de colocar, entre as nações, países com muitas e grandiosas estatais, como os supracitados Hungria, França, Noruega; ou com poucas, mas enormes e poderosas, como as encontradas nos Estados Unidos da América. Aliás, o Brasil, verdadeiramente, nem é o país com o maior número de empresas estatais.

                A propósito, após tomarmos conhecimento da recorrente e reiterada recalcitrância de ex-ministro – certamente, não detentor de credibilidade técnica e moral para tanto, uma vez que, enquanto auxiliar governamental, sua principal colaboração econômica foi contribuir para que o país amargasse a maior inflação de nossa história -  em tentar nos fazer crer que parte da salvação da economia brasileira passaria pela privatização de todas as nossas estatais. Depois de muito lermos colunistas que, imaginávamos, discordarem da mesmice dos meios de informação para os quais contribuem – invariavelmente, atazanando os governantes de plantão -, quando concordavam com a justiça praticada pelo Judiciário brasileiro em decorrência de crimes apurados, por exemplo, pela Operação Lava Jato, e não que apenas estavam escamoteando suas ideias e posições ideológicas, na verdade, as mesmas de uns maria vai com as outras que viam e ainda veem como vítimas de injustiças, muitos daqueles que, um dia, tais cronistas viram como criminosos devidamente apanhados  pelas malhas da lei e, portanto, objeto, sim, da devida e necessária aplicação de punições legais; em vista disso, estamos decidindo diminuir ou pôr termo à leitura de assuntos em relação aos quais seus autores ou discursistas não nos oferecerem a possibilidade de obtenção de quaisquer ganhos intelectuais ou culturais. Vamos voltar aos clássicos. Aguardem-nos: Tolstói, Machado de Assis, Carlos Drummond, O. G. Rego, Eça de Queirós, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, e tantas outras feras.   

domingo, 13 de outubro de 2019

ÁLBUM DE FIGURINHAS



ÁLBUM DE FIGURINHAS

Elmar Carvalho

– Papai, que bicho é esse?
– É uma vaca, filho.
(A vaca havia minguado,
seus dois chifres
em um se transformado
e esse mesmo retorcido e desbotado,
estilhaçado, pendido e fendido.)
– Que pássaro é esse?  
– Um papagaio.
(A ave amadurecera:
suas penas verdes
haviam amarelado
e ela própria de madura
definhara e morrera.
Era apenas escultura
no museu de cera.)
– E esses, quem são?
– Somos nós.
(Eram nossos avós.)   

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O VELHO ANCIÃO




O VELHO ANCIÃO

Elmar Carvalho

No sábado passado, estive na Oficina da Palavra, pertencente a Cineas Santos, para tirar fotografia de um belo quadro do Amaral, em que aparece um goleiro em um voo espetacular e talvez um tanto espetaculoso, para ilustrar uma crônica que fiz em homenagem a dois grandes goleiros de nosso estado: Coló e Beroso, que marcaram época, o primeiro a defender o Caiçara, e o segundo, como guarda-meta do Comercial.

Como goleiro, com atuações quase sempre regulares ou boas, ao menos segundo meus amigos, fui admirador dos dois, embora, por ser caiçarino, tivesse certa predileção pelo Coló, goleiro estiloso, cujas enfeitadas “pontes” admirava e aplaudia. Também queria fotografar um quadro do saudoso Fernando Costa, que conheci, cujo talento artístico apreciava. Lamentei sua morte trágica e precoce, décadas atrás, em pleno carnaval.

Quando eu estava nesse mister, chegou o Cineas Santos, que foi meu professor em 1976, no Cursão. Nós, todos os alunos, o admirávamos, mesmo os que não eram tão interessados em literatura. Garoto interiorano, fanático por literatura, gostava imensamente de suas aulas. Acompanhei o lançamento de Ciranda, no Theatro 4 de Setembro, e com muito gosto li suas páginas. Rapaz um tanto tímido, um dia criei coragem e lhe mostrei alguns poemas e um ou dois contos meus.

Cineas os leu, e com a sua proverbial franqueza me disse, com ênfase, que eu tinha “garra”, mas me aconselhou a ler os poetas modernos, dos quais, entre os que ele citou, me lembro bem de João Cabral de Mello Neto. Nessa época, deslumbrei-me com o jornal de cultura Chapada do Corisco, editado pelo Cineas, que estampava os belos versos do poeta Paulo Machado, intelectual do mais alto valor e honesto, como cidadão e como ser cultural.

Entretanto, já no início do ano seguinte (1977) retornei a Parnaíba, para cursar Administração de Empresas, pois fora aprovado no vestibular, bicho papão na época, uma vez que existia apenas, como entidade de ensino superior, a Universidade Federal do Piauí.

Devo acrescentar que Cineas era um verdadeiro mestre; suas aulas eram fascinantes e atraíam o aluno, mormente aqueles que, como eu, amavam literatura. Como pessoas físicas, e não instituições, ele e o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana são os dois maiores editores do Piauí. Apesar de vigoroso, enérgico e dinâmico em seus sessenta e poucos anos de vida, em auto-ironia ou talvez como catarse, para afastar o fantasma da velhice, que ainda vem longe, deu para chamar-se a si mesmo de o “velho ancião”, com a proposital ênfase da redundância.

Conquanto, pelas circunstâncias da vida, não tenha sido um amigo próximo, acompanhei os seus permanentes e constantes sucessos, como escritor, editor e promotor de eventos culturais. E sempre lhe reconheci e aplaudi os méritos.   

24 de março de 2010

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A canja da vingança




A canja da vingança

Pádua Marques
Jornalista, romancista e cronista

Agora era a vez. A mágoa guardada fazia anos no peito de Guilhermina saía pra causar sofrimento a Simplício Dias da Silva, doente, tomado pela caduquice, sem defesa, andando pra cima e pra baixo pelas mãos dos outros. Assim era a vida. Haveria ele de pagar ali e agora em cima da terra e ardendo de febre, tossindo e se obrando todo, toda a humilhação e o sofrimento causados ao seu filho Moisés, à época um menino de pouca idade, quase cinco anos, quando o senhor e patrão, entrando um dia na cozinha encontrou a pobre negra dando de comer na boca do filho e ordenou que nunca mais queria ver aquilo.

Ordenou que colocasse mais sal na canja que estava sendo servida. Pedindo clemência e por tudo quanto era santo, chorando, a cozinheira obedeceu com medo de que pudesse fazer ainda um mal maior ao menino e de que ela fosse açoitada por Elias, o fiel pra qualquer situação dentro da casa de Simplício Dias da Silva na vila da Parnaíba.  Moisés vendo aquele homem na frente de sua mãe, falando alto, teve que engolir a canja salgada. Seus olhos marejavam.

Depois, a mãe humilhada e com medo o colocou lá embaixo, sentado num batente que dava pra o grande quintal e indo em seguida, já só na cozinha, levar um caneco de água. Moisés ficou mais aliviado e bebendo aos goles, rápido, ficou chorando sozinho enquanto Guilhermina voltava ao serviço e com vistas a não dar ainda mais confusão entre Simplício Dias, Elias e até dona Isabel Tomásia. Sua senhora era muito humilhada pelo marido porque não ostentava certos gostos e vaidades vindas de fora. Pouco saía de casa, não pegava numa moeda que fosse, tanto ela quanto a filha Carolina.

Guilhermina tinha medo de que Simplício Dias voltasse e mandasse Elias os açoitar. Simplício Dias da Silva vinha de uma situação difícil nos negócios naquele ano de 1808 com a carne salgada e os estaleiros na Ilha Grande de Santa Isabel e na Barra do Longá. Perdia dinheiro com o mercado na Europa e ainda por cima duas embarcações encomendadas por gente de São Luís no Maranhão, davam prejuízos a olhos vistos.

A escrava Guilhermina guardou aquilo por muitos e muitos anos. Da mesma forma como foram sendo guardadas as moedas de vinténs e mil réis, mandadas de vez em quando pela única irmã, Justina, mais velha e escrava de cozinha da casa de um desembargador em São Luís no Maranhão. Era dinheiro guardado e bem guardado e com ele um dia sonhava mais lá na frente comprar uma casinha nos Campos, Macacal ou Buraco dos Guaribas e com o filho Moisés poder viver e morrer sossegada.

A vingança de Guilhermina agora vinha aos poucos. Num dia colocava mais sal na canja que seria servida ao coronel Simplício Dias da Silva. Noutro dia era pimenta do reino. Mais outra vez era menos sal. Mais pimenta malagueta. Azeite, pra fazer com que se obrasse todo na rede. Era o jeito que tinha de ir aos poucos se vingando pelo que passou ela e o filho e curando uma dor antiga. Elias pouco se importava de provar a canja do coronel. Confiava em Guilhermina e dona Isabel Tomásia andava agora muito ocupada com suas rezas e as roupas de cama e de mesa. As negras de casa iam pela manhã com enormes trouxas descendo no rumo do cais lavar essa roupa, pra os lados de São José e só voltavam depois do sol estar passando do meio do céu, quando as embarcações apitavam anunciando chegada ou partida do porto Salgado.

Dona Isabel agora era de dar atenção às poucas visitas ao coronel e marido no fundo de uma rede, a receber dos comerciantes mais chegados na praça da rua Grande alguma ajuda, um médico vindo do Maranhão decretado ver como estava o antes valente e poderoso governador da vila da Parnaíba. Guilhermina entregava o prato de canja nas mãos de Elias. Antes fingia assoprar e Elias, na confiança de que tudo estava bem, ia levando as colheradas na boca desdentada do patrão e senhor.

O velho Simplício Dias da Silva até que fazia beiço, igual menino pequeno quando toma remédio amargo. Elias assoprava e assim o doente acabava engolindo. Era um sofrimento pra os dois, o fiel escravo e seu senhor naquela hora de refeição! Vez por outra, dada a quantidade de pimenta ou de sal, o coronel lacrimejava, tossia, chorava. Dona Isabel Tomásia vinha correndo ver o que estava acontecendo. Depois de muita paciência Simplício Dias da Silva acabava engolindo a canja. Guilhermina lá na cozinha ficava esperando que Elias terminasse o serviço. Depois vinha com um pano molhado pra limpar a boca e o queixo do coronel.

Vinha, fazia seu serviço, olhava bem pra ele e do jeito que havia chegado silenciosa e obediente, voltava pra cozinha. Terminada a refeição da noite Elias levava o coronel pra rede ali perto. Pouco tempo e mais um bocado Simplício Dias da Silva havia pegado no sono. A vida da vila da Parnaíba, com seu comércio, seu porto Salgado, seus negros e vagabundos, as vendedoras de frutas e de mariscos vindos dos Morros da Mariana na Ilha de Santa Isabel. Mais lá embaixo no Cheira Mijo e ali na Coroa e Cantagalo, estavam esperando a cada dia o desfecho da morte do homem mais rico da Parnaíba.

Mas agora os navios e as embarcações menores rareavam. A antes casa mais vista e próximo da rua Grande, que noutros tempos hospedou gente importante do Rio de Janeiro, da França, Portugal e Inglaterra, que era conhecida pela louça e os pratos de porcelana, que foi motivo de intrigas e cobiça de muitos dentro e fora da capitania do Piauí, estava mais silenciosa do que nunca. Na sala de jantar, agora sem a presença do dono, era lugar apenas de dona Isabel Tomásia ou da filha Carolina.

Simplício Dias da Silva agora ficava encolhido no fundo de uma rede no andar do meio, tendo Elias lhe abanando devido ao forte calor de setembro. E mais na boca da noite quando o centro da vila da Parnaíba ia ficando silencioso, a escuridão pra os lados do porto Salgado era quebrada aqui e ali pelas lanternas das embarcações e do lado da rua Grande por alguma janela aberta denunciando um lampião ou vela acesa, Guilhermina estava ainda na cozinha preparando a canja ou ainda um chá de erva cidreira ou de capim limão, que logo seriam trazidos pra o coronel doente.

Doutor José Cândido de Deus vinha de vez em quando e naquela boca de noite veio ver o estado de saúde do ilustre coronel. Tentou falar com ele, dar ânimo, puxar por lembranças. Em vão. Simplício já não queria viver, se entregava à morte sem resistência, caduco, desdentado, cabelos raros, vestido com um chambre ordinário, os olhos encovados.

O médico recomendou que ele fosse levado pra São Luís ou até mesmo pra Europa, onde a medicina estava muito adiantada, onde havia mais recursos.  Guilhermina preparou a canja como de costume. Não colocou nem sal, nem pimenta do reino ou óleo. Mas antes de entregar o prato e a colher pra Elias, deu as costas, de forma a não ser vista, e cuspiu dentro.   

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

ABENÇOADO B-R-O-BRÓ




ABENÇOADO B-R-O-BRÓ

JOSÉ MARIA VASCONCELOS
CRONISTA, josemaria001@hotmail.com

Chega B-R-O-BRÓ, chega de chororô. Repórteres alarmistas enxergam inferno nos 38 a 40 graus. Assemelham-se a profetas apocalípticos. Deveriam difundir os benefícios que a bendita estação nos proporciona. Gente de regiões frias, residentes aqui, ressalta as virtudes de nosso calor. Repare:

    “Frio é bom para turistas, mas quem reside no Sul, prefere o clima do Nordeste, particularmente do litoral” - afirma o gaúcho e pastor evangélico, Sérgio Campanelli.

Jesuíta e italiano já falecido, PADRE LUCIANO afirmou certa vez: “Vocês precisam explorar os benefícios do calor”. Na Itália, há picos de 45 graus. Todo mundo se banha mais do que no rigoroso inverno.”

Gerente de importante empresa paranaense: “Tempo gelado incomoda até quem se senta no sifão. Não há agasalho que resista. Aqui, vocês enfrentam estiagem; lá, as geadas queimam a pele e as plantações”.

      É preciso tirar proveito do calor, estação sazonal da manga, caju (cajuína), abacaxi, mamão... Bebe-se mais água, que elimina radicais livres, toxinas, excessos de sais e açúcares no sangue, previne cáuculos. Hábitos que prometem longevidade. 

    Em tempo de estiagem, consegue-se produção agrícola com moderna tecnologia de gotejamento. Cadê minhas favas? Estou colhendo-as em pleno B-R-O-BRÓ, com irrigação por gotejamento. Aprendi a técnica quando visitei Israel. Meio a plantações, suor, prazeres que não encontro em academia. Deliciosas favas, caras e disputadas no mercado, cozidas (prefiro as verdes) com arroz, cheiro verde e azeite de coco. Seduzido pelo fácil manejo, sem pragas e predadores, o agrônomo Bartolomeu resolveu seguir-me a lição, cumprindo a parábola do bom semeador.

     Piauí, solo fértil, aquíferos e mananciais; mais abundante, só o chororô e cuia na mão, avidez de verbas públicas, sabe Deus com que intenções.

   Todas as manhãs, generosos ventos frescos invadem Teresina. À tarde, a canícula dispara, até primeiras horas da noite. Mas aquele ventinho das dez... Antigamente, pessoas sentavam-se à porta das casas, esticavam o papo, aguardando a brisa relaxante, ao brilho do luar. Na zona rural, ainda se conserva saudável hábito. Na capital, porém, muita gente se deleita na cerveja estupidamente gelada.

     Edênica CIDADE VERDE, quente como a terra de JESUS, que bateu longo e belo papo com a samaritana, à beira do poço, sedento e fatigado pelo calor do meio-dia (João, 4). Dois milênios antes, ABRAÃO e três mensageiros à sombra dos carvalhos de MAMBRÉ, “no maior calor do dia”, confraternizavam-se com carne de cordeiro e promessa de futuro filho, sem maldição das safadezas sodomitas (Gênesis, 18). Teresinenses confraternizam-se à sombra das árvores ou balneários, em finais de semana.

Lamentar B-R-O-BRÓ, eu, hein?! Sem bendito calor, faltar-me-ia a suculenta manga, caju, cajuína, mil frutas, de dar água na boca dos que não se adaptam aos ciclos e mistérios da natureza.    

CAPAS & DEDICATÓRIAS: Gilberto Mendes Feitosa





Após muitos anos, encontro/reencontro o poeta Gilberto Mendes Feitosa, a cujos poemas tivesse acesso décadas atrás, ainda jovem. Soube de suas andanças, em virtude de seu cargo de funcionário do Banco do Nordeste, sobretudo na cidade de Esperantina, onde mais se demorou. Nesses périplos, Gilberto compôs poemas, incentivou o esporte e a cultura. Praticante assíduo e competente de futebol, fundou, sozinho ou com outros companheiros, alguns times dessa modalidade.

Na clínica de fisioterapia, tive a satisfação de lhe entregar meus livros Rosa dos ventos gerais (poesia) e Histórias de Évora (romance), e dele recebi, com amável dedicatória, o livro de poemas Passeios sobre os sonhos, sobre o qual disse Elnora Gondim (Profa. Dra. em Filosofia): “O texto de Gilberto Mendes Feitosa incentiva a crença na vida e no belo. As palavras sutilmente pensadas e pesadas pela verve poética nos convidam à contemplação e admiração daqueles elementos que lide diária velam. Como poeta, Gilberto sabe ouvir o silêncio capaz de desvelar uma “madressilva, balouçando ao vento”.   

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A Zona Planetária - Marte

Fonte: Google


MARTE

Elmar Carvalho

Poema épico moderno, inspirado no meretrício Zona Planetária, de Campo Maior, em que procurei mesclar a mitologia greco-romana, a astronomia e a sociologia dos cabarés. Na Zona Planetária cada um dos lupanares ostentava na fachada o nome e a imagem de cada um dos planetas, entre os quais Saturno e seus anéis. Irei, no blog, publicando cada uma das dez unidades desse relativamente longo poema. 

Ó sangrento e sanguinário
planeta, tua cor esvaiu-se
do mênstruo das mulheres.
Deus guerreiro, deus do belo amor
                                       do bélico
furor das Ninfas maníacas mordedoras
         dos sádicos dráculas desdentados,
mas de hábeis ventosas sugadoras.
Planeta das Valquírias
das guerras do amor,
da busca ansiosa e incessante
do paraíso do sexorgasmodorrento
do hidromel emanado dos fluidos da libido.
As armas são espadas fálicas desfolhadas
e triangulares escudos escamados e retentores.
Teu rugido da grande
explosão da gênese e do caos
repercute nos gritos, nos fungados
e gemidos dos embates sexuais.
Os satélites Fobos e Deimos,
filhos de Marte e Vênus,
amantes do amor (em)bebido em sangue
em suas fatídicas rondas orbitais
espalham o Medo e o Terror.
Marte dos amores lav(r)ados
no sangue das Fúrias e do Terror
dos romanescos crimes passionais
dos sexos decepados pelas guilhotinas
ou cortados pelas espadas
dos homens e mulheres ciumentos.
Marte dos mártires
dos grandes amores matadores.
Planeta das amáveis
               das afáveis amazonas
a cavalgarem sequiosas
o enlouquecido cavalo alado
do sexo    Pégaso pegajoso
de esperma e mucosa de vagina. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

LANÇAMENTO DE CONTOS ENTRE GERAÇÕES : UMA GRANDE NOITE CULTURAL




LANÇAMENTO DE CONTOS ENTRE GERAÇÕES : UMA GRANDE NOITE CULTURAL

Um grande acontecimento artístico-cultural teve lugar na noite deste sábado, 05/10, no auditório central da Universidade Federal  Delta do Parnaíba - UFDpar,  durante o lançamento da coletânea CONTOS ENTRE GERAÇÕES.

Apresentações musicais, teatro, humor, poesias, discursos, foram a tônica desta noite da cultura parnaibana prestigiada por autoridades, intelectuais e membros da sociedade local. Todas as apresentações levadas a efeito por participantes da obra, com exceção de um monólogo apresentado por uma atriz especialmente convidada para o evento.

O poeta e contista Carlos Pontes (Pontes é cearense e tem sangue de violeiro) abriu a noite declamando o poema BERADÊRO, do cantor e compositor paraibano Chico César e, com sua afinadíssima viola,  fez fundo musical para o poeta, contista e cronista Benedito Lima declamar poesias  de sua autoria,  como de outros poetas, entre as quais AS FLÔ DE PUXINANà  do poeta paraibano Zé da Luz, com a qual Benedito encerrou sua participação.

Benedito Lima e o poeta Carlos Pontes



Morgana Sales  e Joyce Araujo fizeram a parte musical. Com suas maviosas vozes  e acompanhadas   ao violão  por  Jailson Junior, cantaram e  encantaram o público presente interpretando belíssimas páginas do cancioneiro popular brasileiro de cantores famosos como Alceu Valença, Caetano Veloso  e Djavan.

A atriz Érika Jamp (única  não participante da coletânea) fez uma belíssima  interpretação do monólogo A SENSITIVA de autoria do poeta e escritor Airton Porto.

Érika Jamp interpretando o monólogo A SENSITIVA - autoria de Airton Porto.
  
     Convidado para se pronunciar, o presidente da Academia Parnaibana de Letras, poeta, contista, cronista e contador de causos, José Luiz de Carvalho, além dos agradecimentos a todos que contribuíram para o êxito desse empreendimento,  disse ainda que  "este livro é um divisor de águas  na literatura da Parnaíba. É  a materialização de um sonho antigo. É a Academia Viva! Corpo e Alma"!, enfatizou.

Em seguida usou da palavra o jovem intelectual e literato Cláucio Ciarlini destacando a importância desse livro reunindo diversas gerações de intelectuais residentes na cidade da Parnaíba e anunciou que este é apenas o passo inicial, pois outros livros com gêneros literários diferentes como poemas, crônicas, causos serão lançados em dias vindouros.  Em seguida chamou todos os 30 componentes do livro para apresentação ao público presente.

Finalizada a  parte e apresentação dos escritores, o professor Antonio Gallas, secretário geral da APAL, usou da palavra para justificar a ausência do poeta e romancista Elmar Carvalho, em virtude de compromisso na data de ontem, 05/10 na Academia Piauiense de Letras, da qual é o 1º secretário. Na oportunidade anunciou a presença  do acadêmico Altvir Esteves o qual é o representante da APAL em Teresina e comunicou a todos os presentes que o paranaibano e membro da APAL Valdeci Cavalcante tinha sido eleito para ocupar uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras.

Ainda na fala de Antonio Gallas, ressaltou que, ao receber seus exemplares da coletânea,   abriu aleatoriamente em uma página e deparou-se com  uma linda história de amor escrita pela professora Maria Christina de Moraes Souza Oliveira, citando  inclusive que entre os escritores da coletânea,  a professora Christina era a decana e pediu aplausos para a mesma.

Após as falas todos foram convidados para um farto coquetel.

A coleção Entre Gerações organzada por Cláucio Ciarlini e José Luiz de Carvalho tem o objetivo de fortalecer os laos de amizade entre os jovens literataos e os mais experientes numa espécie de ponte oficial de onde se espera os melhores frutos.CONTOS ENTRE GERAÇÕES reúne 30 escritores de diferentes idades Cada um com suas escolhas e  estilos com histórias repletas de suspense, humor, Aventura, romance, ficção e muito mais.

O cerimonialista foi o também escritor Daltro Paiva que soube conduzir com maestria uma grande noite da cultura parnaibana.


Vejam alguns depoimentos sobre o lançamento  e a obra  CONTOS ENTRE GERAÇÕES:

 O acadêmico e romancista Pádua Marques que fez o posfácio da obra assim se expressou: "o lançamento da coletânea Contos entre Gerações serviu para mostrar que nossa literatura está mais viva do que nunca, que existe uma reserva de talentos muito grande e já produzindo e outra querendo chegar". Altevir Esteves, representante da Academia Parnaibana de Letras em Teresina também manifestou sua opinião: "lançamento que marca época em Parnaíba.  Para muitos escritores, ter um texto publicado em um livro é um desafio.  O evento mostrou que é possível juntar pessoas,  idéias,  diferenças e, acima de tudo, dar oportunidade às novas gerações em prol da cultura de um povo. Valeu cada esforço,  valeu Ciarlini, valeu APAL, valeu caros amigos".  Da poeta e escritora Dilma Ponte: "a noite do lançamento do livro foi magnífica.

Que o sucesso se repita na próxima coletânea".

Texto: Antônio Gallas
Fotos: Cláucio Ciarlini/Piaguí

domingo, 6 de outubro de 2019

Seleta Piauiense - Isabel Vilhena

Fonte: Google


O pau-d’arco

Isabel Vilhena (1896 – 1988)

Altaneiro, florido, grandioso,
Dominando a floresta emurchecida,
O pau-d’arco sereno, silencioso,
Sente viver, glorificando a vida!

Traz num poema de ouro, luminoso,
A luz dos astros viva, refletida!
Lembra da Pátria o tempo majestoso
De uma coroa augusta decaída.

Ei-lo em silêncio, a derramar da terra
O pranto de ouro transformado em flor,
Quando o tesouro a transbordar descerra!

Na placidez da fronde sobranceira
Simboliza do sol todo o esplendor
E a riqueza da Terra Brasileira!

Fonte: Seara Humilde, 3ª edição, Teresina: APL, 2019.  

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA BELA ESCULTURA




CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA BELA ESCULTURA

Elmar Carvalho

Vítima de brutal “engarrafamento”, na sexta-feira passada, fiquei preso no trânsito, exatamente no balão do cruzamento das avenidas Petrônio Portella e Raul Lopes. Em lugar de me debater e espancar o volante, ou proferir imprecações contra tudo e contra todos, como muitos fazem, optei por ficar observando, detidamente, a escultura instalada na rótula. Não tenho certeza, mas acho que ela foi produzida pelo grande artista Carlos Martins, falecido em 2013, autor de outras magníficas obras.

É feita de arame, peças de ferro e vergalhões metálicos. É bela e imponente em sua singeleza. É como se fora uma catilinária ou verrina metálica contra os conquistadores e os preadores e matadores de índios. O vencedor montado em grande e robusto corcel, em pose típica das estátuas equestres, puxa com uma corda um prisioneiro, naturalmente derrotado na refrega, e que será escravizado. O enorme corcel passa sobre corpos tombados. Seu chapéu produz grande efeito plástico, pois parece o próprio Sol com os seus raios incandescentes.

No simbolismo do monumento, o cavaleiro, na concepção dos nativos, poderia ser a própria encarnação do deus-sol, pois possuía o estrondo e o raio de armas de fogo. Conduz na destra enorme lança, que faz lembrar os heróis das pelejas medievais e os cavaleiros andantes da idade média. Mas apenas aparentemente, porque na verdade ele simboliza os chamados heróis da conquista, como os bandeirantes paulistas e os homens da Casa da Torre da Bahia.

Entretanto, hoje se sabe que muito do morticínio das chamadas conquistas se deve a doenças transmitidas aos nativos americanos pelos europeus, inclusive e talvez principalmente pelos espanhóis. Contudo, essa pecha de violência não é um “privilégio” e exclusividade de portugueses e espanhóis, mas também de ingleses, franceses, holandeses e outros povos, pois onde quer que tenha havido invasões, conquistas, houve entrechoque de civilizações, com a consequente reação dos invadidos, dos conquistados.

Hoje, como todo mundo sabe, o Brasil é essa fecunda miscigenação, com essa diversidade e riqueza cultural, e esse caldeamento de raças, que possibilitou o surgimento da beleza morena, que nos encanta e encanta o mundo. Não houvera acontecido o que aconteceu, hoje o Brasil seria, talvez, ainda um paraíso selvagem, intocado, com os indígenas caçando, pescando e colhendo suas frutas nativas. Foi pior? Foi melhor assim?

Deixo a resposta aos latifundiários da verdade, aos doutos, aos exegetas, aos proprietários das certezas absolutas. Aos que não aceitam o que somos ou o que nos tornamos, resta-lhes o consolo de que podem se despir, envergar uma tanga, armar-se de arco e flecha e tentar ser admitidos em alguma tribo do Xingu ou do Amazonas. No entanto, devo lhes recordar que o maior cantor indianista do Brasil, o grande bardo Gonçalves Dias, tinha orgulho de carregar em suas veias a mistura do sangue de três raças: a negra, a indígena e a branca.

Mas a bela e significativa estátua pode ser um libelo de fogo contra todos as formas de dominação, como o patrão que espolia o empregado, o marido que tiraniza a mulher, o pai que sevicia o filho, o governante que tripudia sobre o povo que o elegeu... Tenho a esperança de que algum dia todos seremos irmãos, sem dominadores e dominados, sem conquistadores e conquistados.

Ainda é possível sonhar e nutrir esperanças. No momento em que eu contemplava a escultura, um forte vendaval a fez oscilar, e tive a nítida impressão de que o cavalo, o cavaleiro e o prisioneiro ganhavam a vibração da vida. A vida que deve perpassar toda verdadeira obra de arte.   

22 de março de 2010

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

CARÊNCIA DE AFETOS




CARÊNCIA DE AFETOS

Cunha e Silva Filho

        Leitores  queridos, não sei se já se detiveram mais demoradamente para refletirem sobre  algumas  postagens das redes sociais (aqui, me reporto mais  ao Facebook e às conversas  privadas do Messenger e do WhatsApp,  mais conhecido por zapp. Uma visão  e um análise, por mais esquemática   que sejam, nos vai mostrar indicadores  de grande monta para entendermos  melhor  o que  se passa no interior  de dessas centenas ou milhares de pessoas que se servem desses veículos  de comunicação  e interação    sociais a fim de, por assim dizer,  minimizarem a carga enorme de carência de afeto,  carinho, cumplicidade, solidariedade e de muito amor   que gostariam  de repassar aos milhares ou milhões de usuários pelo mundo afora.

   Eu mesmo recebo,  dentro dos limites de  adicionados à minha lista de amigos, diariamente mensagens e cumprimentos  relacionado à esfera  tão necessária  da afetividade. São vídeos,  áudios,   ilustrações,  fotos,   frases em forma de antigos cartões   postais  que faziam as delícias dos velhos tempos da correspondência  manual enviada pelos Correios, sobretudo no  auspiciosos  períodos do Natal e véspera de Ano Novo ou no Bom. Isso tudo que encanava os nossos olhos no passado  praticamente  se acabou.

      Eu diria que são poucos  aqueles que  ainda se utilizam desses mensagens escritas à mão e cuidadosamente sobrescritadas  pelo  remetentes  queridos e amados de antanho. Tal atitude do antigo remetente de cartões e cartas me  faz recordar  uma visão  drummondiana  expressa  cabalmente  num  crônica “Participação  de casamento,” do livro Boca de luar (Rio de Janeiro: Record,  1987 ) 
    Essa visão pertence a um tem  do filósofo alemão  Walter Benjamin (1892-1940)), que seria a da “atitude do colecionador! No meu ensaio “Drummond: o cronista entre a tradição e a modernidade”, incluído no livro As ideias no tempo (Teresina: Convênio  APL/Senado Federal, 2010, 267 p.) tento analisar  esse aspecto da “atitude do colecionador.” Nesta crônica de hoje  pinço uma frase emblemática do narrador-colecionador do citado livro, Boca de luar:  “(...) Essas coisas transitórias, como tudo,  vivem tanto”(, apud As ideias no tempo, op. cit.p. 181)

     Não sou avesso a descarta-me de qualquer  mesmo  recebida no Messenger ou pelo zapp. Posso até não concordar com elas, e até, contraditoriamente,  as repasso. Não sei como os que a receberam  de mim senti-se-ão  ou que atitude tomarão   relativamente ao conteúdo repassado.  Contudo, isso não me diz  respeito.  Não sou adepto de aceitar tudo ou negar tudo. Tenhamos alguma paciência com os nossos   usuários amigos do peito ou amigos  ocasionais, bissextos, ou mesmo  indiferentes.

    Retornemos,  então, ao campo vital da afetividade.  O que esses carentes, amigos,  não amigos,   acrescidos à nossa lista de amizade, perseguem sofregamente  é puro  desejo de se comunicar,  de   compartilhas suas   alegria,  vitórias,  sofrimentos,   sentimento de amor,  partilhados, desejos  insatisfeitos,   paixões delirantes,   vontade de estar  presentes, no chamado mundo real, em nossas vidas,  neste fenômeno  da tecnologia  pós-moderna,  amiúde   se apresentando   como o mágico  mundo  da virtualidade, algo glamuroso em certas situações  vividas   graças à possibilidade de  escrever à distância,  do falar   pelo celular,   ou s não sendo possível por razões de privacidade,   de conviver  momentos  de felicidade,   de  prazer  juntos,   porquanto  por estarem  distantes  muito distantes,   não poderem  concretizar mais  plenamente  as fruições  dos sentimentos vários  que  comungam   com maior ou menor carga  de amor e  compartilhamento.   

    Nem tudo é trash  nas redes sociais. Seu papel é múltiplo e irradiador tornou-se algo  presente na vida contemporânea.  Obviamente,  o mau uso  delas  não vai empanar  as outras funções  fundamentais  que  elas sobejamente podem  ensejar a quem as saiba usar com  dignidade, discrição   respeito e responsabilidade,  Se existe in box próprios  à s intimidades de vária natureza,  isso não seria tampouco   um  indicador  de só pura  licenciosidade, já á que  está protegido por lei e   pela segurança do protocolos  dos  organismos  responsáveis pelo  espaço virtual.

          O mundo da virtualidade  veio para ficar. O mais  relevante nessa permanência  é o respeito à dignidade dos usuários entre si. Para o que me interessa discutir  como tema da afetividade, ou melhor, da ausência dela,   cumpre que  devotemos  com  paciência  e com   tolerância um  pouco de nosso  egoísmo e individualidade.

        Tentemos  preencher esses vazios  de amor, de fraternidade,  de  cumplicidade,  de adesão a todas as inúmeras formas  de   manter  os nossos espíritos  abertos   àqueles que nos procuram por necessidade  intrínseca   de dar sentido  às suas vidas,  aos seus anseios e às suas fragilidades emocionais, sentimentais, morais,  transcendentais, culturais, sem os grilhões nefastos dos preconceitos de toda sorte   e das ideias superadas  na contramão   do aperfeiçoamento  do espírito humano e da práxis do humanismo universalista   em todas as direções    conducentes a uma mundo melhor com paz,  discernimento entre os homens e valorização  do espaço  real ou  virtual, ou combinados,  da afetividade estendida a cada um de nós e em proveito de todos, como uma das grandes fontes geradoras  da felicidade entre os povos. Bom dia, leitores! Feliz  mês de outubro de 2019.