segunda-feira, 21 de maio de 2018

PLANO SUPERIOR (*)

Herculano Moraes em sua convivência literária. Fonte: Google/blog de Samuel Filho


PLANO SUPERIOR (*)

Gregório de Moraes
Poeta, escritor e romancista

I

As asas desse adeus estão batendo
Brisas lacrimosas duma verdade
Mansidão do tempo, uma saudade
Linhas cruzadas vão acontecendo

II

Feedback...Esvai-se um destino
A torre desmorona no orvalho
Miragem noutra carta de baralho?
O velho chora......Pranto de menino

III

Nesta procissão do que virá depois
Milhares vão orando E também nós dois
Antiga amizade construida.

IV

O sol que vai se pondo ´a qualquer hora
Sinaliza que um ser  vai embora
Da convivência doce desta vida!

The: 04 de maio de 2018 (18:30h)

(*) Este soneto me foi enviado por José Itamar Abreu Costa, Presidente da Academia de Medicina do Piauí, com a seguinte observação: “Este soneto é uma homenagem do poeta e escritor Gregório de Morais ao acadêmico Herculano Morais - "O Homem chamado Academias"(falecido dia 17 de maio de 2018).”   

domingo, 20 de maio de 2018

Seleta Piauiense - Mário Faustino

Fonte: Google


Brasão

Mário Faustino (1930 – 1962)

Nasce do solo sono uma armadilha
Das feras do irreal para as do ser
− Unicórnios investem contra o Rei.

Nasce do solo sono um facho fulvo
Transfigurando a rosa e as armas lúcidas
Do campo de harmonia que plantei.

Nasce do solo sono um sobressalto.
Nasce o guerreiro. A torre. Os amarelos
Corcéis da fuga de ouro que implorei.

E nasce nu do sono um desafio.
Nasce um verso rampante, um brado, um solo
De lira santa e brava − minha lei

Até que nasça a luz e tombe o sonho,
O monstro de aventura que eu amei.

Fonte: site Ermira     

sábado, 19 de maio de 2018

LICURGO DE PAIVA - A DESVENTURA DE UM BRILHANTE POETA

Fonte: blog Folhas Avulsas


LICURGO DE PAIVA - A DESVENTURA DE UM BRILHANTE POETA

Chico Acoram Araújo
Cronista, historiador e articulista

“Na escarpa de um morro bem deserto,
A paz da viração da gente ingrata,
De murtas povoado;
Eu quero que meu leito seja aberto
Descansem meu corpo democrata
Na vida abandonado.”
         (L. de Paiva)

                O sol ardente de um dia verão do ano de 1887 começava a declinar no poente.  A passarada se agitava, alegremente, anunciando com seus mil sons e tons a proximidade do pôr do sol. O lugar ficava não muito distante da Fazenda Santo Antônio de propriedade do comendador Dario Pereira da Silva, no antigo termo de Jerumenha. Uma desgastada estrada de chão arenoso por ali passava. O terreno era plano do tipo cerrado, mesclado por manchas de caatinga arbórea e algumas árvores frondosas típicas da região. Em uma das margens daquele caminho destacava-se um alto e majestoso juazeiro com sua abundante copa verde proporcionando uma generosa sombra aos viajantes que ali estacionavam para um ligeiro descanso, depois de uma longa viagem pelas regiões do alto Parnaíba. Um oásis poder-se-ia dizer, pois a poucos metros desse dadivoso juazeiro existia um perene riacho que escorria, paralelo, abaixo do nível da estrada. O pequeno regato era um presente de Deus. Seu tênue espelho d’água deslizava devagarinho nesse pedaço de chão esturricado no meio do sertão piauiense. Daí a razão porque o lugar era parada obrigatória dos viajantes, posto que ali tinham ao seu dispor sombra e água fresca e um agradável recanto para descansar.

                Alguns dias antes se via naquele aprazível lugar um andarilho; maltrapilho, barbudo e doente. Caminhava sem rumo e tropeçante por conta da maldita dipsomania que o consumia implacavelmente. Nessa andança, o homem balbuciava algumas palavras:

                “(...) Virgens ditosas, que folgais no baile, / Aves mimosas que adejais aí, / Tomai cuidado no librar das asas, / Mirai todas neste espelho aqui! ”

                No dia seguinte ao daquele quente dia de verão, Licurgo José Henrique de Paiva, o brilhante e inditoso poeta piauiense, nascido em Oeiras(PI) em 18/03/1942, fez daquele belíssimo paraíso a sua morada eterna. Tinha apenas 45 anos de idade. Alguns moradores da localidade o encontraram morto na beira da estrada. O corpo estava esquálido e deplorável. Era um espectro de homem. Sob a copa daquele velho juazeiro, enterraram o infeliz poeta, como indigente, em uma cova rasa, sem choro e nem velas. Ainda por alguns anos após a morte do poeta os viajantes que por ali passavam ainda viam uma carcomida cruz de madeira que indicava o local exato da sepultura desse notável piauiense. Hoje, se desconhece esse pedaço de chão onde jaz o grande poeta Licurgo de Paiva, considerado um dos precursores do romantismo no Piauí.

                Clodoaldo Freitas conta nos seus apontamentos biográficos (livro VULTOS PIAUIENSES), que conheceu pessoalmente Licurgo de Paiva quando este já se encontrava no declínio da sua vida, no mais avançado grau de decadência intelectual e física. Nessa época, Licurgo se tornara uma simples caricatura de homem, que na juventude revelara-se possuidor de um brilhante talento. Clodoaldo lembra que Licurgo “encontrava-se aleijado e pobre, doente dessa terrível consumpção que o levou ao túmulo”, e que ele “vegetava na mais grassa miséria, estiolado pelo álcool”. Lembra também que Licurgo, de tanto entregar-se ao alcoolismo, ficou com suas faculdades mentais precárias, louco, tendo como consequência a perda gradativa da “poderosa intelectualidade, que irradiara em versos de elevado mérito e que serão sempre a sua glória e a tábua que há de soerguê-lo do naufrágio do esquecimento”. O ilustre biógrafo diz ainda que, por essa época, as poesias que escrevia eram de péssima qualidade, deplorável. A embriaguez mórbida do autor de Flores da Noite e de outros belíssimos poemas “lhe toldara a inteligência, uma das mais belas que nasceram neste ridente solo piauiense”, enfatiza o já mencionado historiador.

                Sobre a vida do desventurado poeta Licurgo de Paiva, o biógrafo e historiador Monsenhor Chaves (livro OBRA COMPLETA), citando uma passagem bíblica (Capítulo 7, versículos 1 – 4, de Jó – que a vida do homem sobre a terra é uma luta), comenta:

                “ Estas palavras do velho Jó, às vezes, agarram-se a certas vidas marcando-as com ferro e brasa. Pensando nelas, lembrei-me de Licurgo de Paiva, o grande e infeliz poeta piauiense, cuja memória apagou-se totalmente no cenário cultural de nossa terra. E ele bem que merecia uma outra sorte. ”

                Lycurgo José Henrique da Paiva (Licurgo de Paiva) era filho natural do Tenente-Coronel Miguel Henrique de Paiva e de sua companheira Carolina Joaquina Bento. No ano de 1852, Licurgo com apenas oito anos de idade acompanhou seus pais que se mudaram para Teresina, a nova capital da Província do Piauí. Na época o clima na cidade de Oeiras estava em situação de animosidade uma vez que o Presidente da Província, Dr. José Antônio Saraiva, decidiu corajosamente transferir a capital para a Chapada do Corisco.

A economia de Oeiras, principalmente o setor comercial, sofreu um abalo incomensurável. Segundo Monsenhor Chaves, isso “acirrou os ânimos da população e se transformou num divisor de águas, levando o sofrimento de muitas famílias”. O padre aponta que a mudança da capital da Província do Piauí para Teresina teve uma enorme repercussão na vida do menino Licurgo. Seu pai que, além de militar, era também comerciante da velha Oeiras, encontrava-se em situação financeira muito complicada, inclusive devendo muito ao Erário. Isso é tanto verdade que, em setembro de 1852, o Tenente-Coronel propõe ao Presidente Saraiva uma negociação de suas dívidas junto à Fazenda Provincial, de modo que pudesse saldar seu passivo em prazos mais longos; o pleito foi de pronto atendido pelo jovem presidente. Além disso, o Conselheiro Saraiva decidiu contratar o Tenente-Coronel Miguel de Paiva para transportar os objetos das repartições públicas gerais e provinciais para a nova capital do Piauí. Segundo Monsenhor Chaves, o contrato estipulava, por cavalgadura, a quantia de 4$000 até o Porto de São Francisco, e 10$000 até Teresina (seis arrobas por cada animal), bem como uma multa de 5$000 por 15 dias de atraso para a entrega dos objetos transportados.

Nessa ocasião da transferência da capital, o militar tomou a decisão de transferir sua família para Teresina. A crise financeira de Miguel de Paiva perdurou por mais alguns anos. Isso é bem verdade que em 19 de abril de 1853 o militar foi notificado que seus bens tinham sido sequestrados pela Fazenda Pública em face do não pagamento das suas dívidas junto ao Erário.

Com residência definitiva em Teresina, o pai logo matricula o filho em uma escola primária; depois, Licurgo conclui seus estudos secundários no “Liceu Piauiense”. Em 1861, o Tenente-Coronel, tendo prosperado e melhorado suas condições financeiras, decidiu encaminhar o filho para Recife com objetivo de fazer os estudos preparatórios e submeter-se ao processo de admissão na Faculdade de Direito. No entanto, o jovem rapaz se deslumbrou com os encantos da capital pernambucana, desviando-se dos estudos preparatórios e entrando na vida boêmia. Licurgo não conseguiu lograr êxito para ingressar no Curso de Direito. Em 1866, Licurgo de Paiva publica seu primeiro livro de poesias com o título “FLORES DA NOITE”, que recebeu elogios de Tobias Barreto de Menezes (1839-1889), filósofo, escritor e jurista, principalmente com relação à poesia intitulada “DINA”.  Ao mesmo tempo fez severas críticas em outras poesias do jovem poeta piauiense, inclusive sugerindo ao moço que se dedicasse aos estudos uma vez que muitos dos seus versos eram “desleixados”. Cabe aqui ressaltar que Tobias Barreto era um crítico ferrenho de Machado de Assis, sendo este já consagrado na época como um grande escritor nacional.

Em 1867, o Tenente-Coronel Miguel de Paiva tendo notícias que o filho levava uma vida boêmia na capital pernambucana, e que não mais se dedicara aos estudos preparatórios para ingresso na Faculdade de Direito decidiu trazê-lo de volta a Teresina. Ao retornar a Teresina, Licurgo, por influência do pai, conseguiu um emprego público de secretário da Câmara Municipal. Nesse período publicou várias poesias, inclusive a sua obra prima que levou o título “Consequências do Baile” que foi recitada por sua companheira, a atriz Maria Henriqueta no Teatro Santa Teresa. No entanto, essa poesia apenas foi recitada uma única vez naquele teatro por conta da proibição do chefe de polícia de Teresina que a considerou imoral e ofensiva aos bons costumes da sociedade teresinense. Isso custou ao brilhante poeta a perda do emprego ocupava na Câmara Municipal. Nesse tempo, Licurgo de Paiva escrevia para a imprensa local, criticando severamente as autoridades locais da época. Em 1872, Licurgo é espancado violentamente por dois soldados paisanos a mando do Presidente da Província, Dr. Pedro Afonso Ferreira, que vinha recebendo contundentes críticas nos jornais. Por esse tempo, o poeta e jornalista já bebia habitualmente nos bares e botecos de Teresina. Tornou-se ébrio e andarilho. Soube-se depois que o poeta tinha sido visto em outras cidades do interior do Piauí, sem destino.

Em justa homenagem a esse brilhante poeta e expoente da literatura piauiense, a Academia Piauiense de Letras deliberou, quando da sua fundação, e sob a liderança de Lucídio Freitas e de outros nomes expressivos da intelectualidade na época, que fosse Licurgo José Henrique de Paiva escolhido como Patrono da Cadeira nº 10; cadeira que teve como seu 1º ocupante o eminente poeta Celso Pinheiro. Depois, sucessivamente, Monsenhor Antônio Monteiro de Sampaio, o 2º; Como 3º, o grandioso escritor e poeta H. Dobal. Hoje, a Cadeira é ocupada por um dos maiores poeta piauiense da atualidade, o ilustre beletrista Elmar Carvalho, autor do romance “Histórias de Évora” e dos livros de poesias “Rosa dos ventos gerais” e “Lira dos Cinquentanos”.

Fonte: Blog Folhas Avulsas

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Herculano Moraes

Fonte: portal O Dia


Herculano Moraes

Reginaldo Miranda 

Nem parece que é verdade! Foi tudo muito rápido, fulminante. Faleceu nosso amigo, Herculano Moraes! Era um dos mais notáveis escritores brasileiros da atualidade. Intelectual completo, com amplo domínio da palavra, tanto escrita quanto falada. Eloquente, de raciocínio rápido e conhecimento vasto, fazia um improviso como poucos são capazes de fazê-lo. Herculano Moraes, foi um orador brilhante, porque tinha conteúdo, boa dicção e sabia dosar a impostação da voz para dar o efeito desejado à arrematação das frases e a transmissão da mensagem.

Nascido na serrana cidade de São Raimundo Nonato(1945), plantada nas caatingas do sul do Piauí, ainda menino veio para a capital do Estado. Aqui encetou os seus estudos, finalizando-os com o ensino clássico. Na mocidade, fez as malas e resolveu conhecer o restante do País, logo mais fixando residência em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Para ganhar a vida, empregou-se como resenhista literário no jornal Correio do Povo, de porto Alegre, cujo suplemento literário saía aos sábados. Foi esta a sua escola de jornalismo. Mais tarde, trabalhou no D.O de Leitura, do IMESP, em São Paulo. Nessas andanças, publicou os seguintes livros de poesia: Murmúrios ao vento (1965), Vozes sem eco (1967) e Meus poemas teus (1968), onde divulga a sua verve poética e extravasa a vida boêmia que levava por aqueles dias.

De retorno a Teresina, não mais se afastaria do jornalismo, produzindo textos brilhantes e atuando na editoria dos jornais A voz do Piauí, O Dia e O Estado. Fez escola na Capital, tanto divulgando literatura quanto discutindo os problemas e divulgando as mazelas que afligiam o povo.

Por esse tempo, já era um poeta festejado, liderando uma legião de jovens rebeldes que agitavam a cena cultural de Teresina, no início dos anos setenta. Eram constantes os saraus literários, com composições e declamação livres, ao gosto moderno. Com Hardi Filho e Francisco Miguel de Moura, criou o Círculo Literário Piauiense (CLIP), movimento literário que balançou o pacato mundo cultural da cidade.

Em face da ampla popularidade angariada nesses saraus literários e na tribuna jornalística, vai eleito vereador de Teresina, no pleito travado em 1970. Era, de fato, líder de uma geração de jovens boêmios e literatos. Não prossegue, porém, na atividade política, mas com o fim do mandato parlamentar vai nomeado para o cargo de secretário estadual de comunicação social, no governo Lucídio Portella(1978 – 1982). Depois, atuou como diretor do Arquivo Público do Estado (Casa Anísio Brito) e do Theatro 4 de Setembro, além de assessor de algumas autoridades.

Herculano Moraes, ainda publica na seara poética, os livros Território bendito (1973), Seca, enchente, solidão (1977), Pregão (1978), Legendas ((1995) e Oferendas (1996), além de ensaios e crônicas.

Também, se imiscuiu no campo do romance, publicando o livro Fronteira da liberdade, romance histórico ambientado no tempo da Independência, no Piauí.

Porém, a obra que, a nosso sentir, mais popularizou seu nome na atualidade, é a Visão histórica da literatura piauiense, onde traça um amplo painel de nossa literatura, desde os primórdios à atualidade, analisando a obra de nossos autores. Nesse campo, ainda publicou Nova literatura piauiense.

Herculano Moraes, foi um escritor de raro talento, trazendo para a sua escrita a prática jornalística. Capitava fácil as ideias e produzia um texto de qualidade com rapidez surpreendente. Sua obra tem lugar assegurado em nossa Literatura.

Outro aspecto que desejamos ressaltar nessa homenagem fúnebre, que fazemos a esse nosso amigo na hora derradeira, é relembrar a sua luta com divulgador de nossa cultura. Lutou tenazmente para inserir o ensino de Literatura Piauiense, nos currículos escolares das escolas estaduais. Ingressou na Academia Piauiense de Letras, em 1º de maio de 1980, e ali exerceu protagonismo cultural. Preocupado com a movimentação cultural do Estado e a sua nunca esquecida luta para divulgar nossa literatura, incentivou a muitos e fundou mais de dez academias literárias em regiões distintas do Estado, assim como em seguimentos culturais, a exemplo das academias de ciências, de jornalismo e de história. Foi, também, muito generoso para com os jovens, sempre orientando àqueles que o procuravam e os apoiando com uma palavra de incentivo. São inúmeras as resenhas literárias, assim como os prefácios e apresentações de obras literárias, sinal do respeito que gozava entre seus pares. Era também um revisor de raro talento.

Com essas notas, prestamos justa e merecida homenagem a esse bom amigo e grande intelectual de nossa terra. O mundo literário piauiense ficou mais pobre, porque perdeu um de seus principais protagonistas. Aliás, todos nós perdemos com a morte de Herculano Moraes. Nossas reuniões não serão mais as mesmas sem a sua atuante presença. Abraço, amigo. Vá com Deus!

_________________

*REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br   

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Viagem a Manaus

Da esquerda para a direita, no sentido horário: Higino (Gino) com a filha Mariá, tenente Fernando Alves, João Miguel, Elmar, Fátima e Luciene. Autor da foto: Pedro Higino.


Fonte: Google/Portal Tucumã



Viagem a Manaus

Elmar Carvalho
1

Com a finalidade de visitar nosso filho João Miguel, que reside em Manaus, no domingo, dia 29 de abril, fomos a essa capital amazônica. Ao chegarmos ao aeroporto de Brasília, para a conexão, à boquinha da noite, mal me levantei da poltrona, fui abordado por uma senhora, que me fez uma pergunta casual, sobre o nosso destino ou sobre a conexão, não me lembro ao certo. Respondi-lhe que ia a Manaus, em visita a um filho; ela, então, me disse que seu pai, um português, fora dono de seringal no Amazonas.

Disse-lhe que, no auge da exploração da borracha, vários nordestinos, inclusive piauienses, foram para a Amazônia. Nosso rápido e circunstancial diálogo terminou aí. Depois, na continuação da viagem, lembrei-me de Humberto de Campos, que tentara melhor sorte na região amazônica. Humberto, embora maranhense de Miritiba, que hoje tem o seu nome, após o falecimento de seu pai, passou grande parte da infância em Parnaíba (PI), de onde saiu aos 13 anos de idade, com destino a São Luís.

No meu retorno a Teresina consultei o importante livro Humberto de Campos: evocações de uma vida, da autoria da amiga e confreira na Academia Parnaibana de Letras Amparo Coêlho, para refrescar-me a memória, e nele encontrei a informação de que esse escritor, memorialista e poeta foi capataz de um seringal, onde foi acometido de uma febre palustre, que lhe fez retornar a Belém. Chegou a redator-chefe do jornal A Província do Pará, cujo proprietário era Antônio Lemos, que foi eleito prefeito dessa capital. Foi designado secretário da Prefeitura. Com a deposição do alcaide, foi perseguido por causa de sua atuação jornalística, e teve que fugir para o Rio de Janeiro, a bordo de um navio da Lloyd.

O rápido diálogo, a que me referi, me fez lembrar que os avós maternos do poeta e escritor Alberto da Costa e Silva, filho de dona Creusa e de Antônio Francisco, o poeta maior do Piauí, de nome literário Da Costa e Silva, também moraram em Manaus. Soube disso através dos livros O espelho do Príncipe e Invenção do Desenho, da lavra de Alberto, ambos com o subtítulo “ficções da memória”, que nem por isso deixam de ser duas excelentes obras memorialísticas, que li com muito agrado, quase de um gole, como se costuma dizer. Fiz a leitura através de e-book, em meu aparelho Kindle.

Do cotejo deles, fiquei sabendo que seu avô materno possuíra cabedais na região amazônica, entre os quais fazenda e seringal, além de duas amantes, que, com sua morte, se apropriaram de quase tudo. Sua avó, Maria Adélia Fontenelle de Vasconcellos, conhecida como Aroca, ficou viúva com menos de quarenta anos de idade, e teve que retornar ao Ceará, sua terra natal. Fixou residência em Fortaleza e passou a usar luto fechado pelo resto da vida, conquanto não tenha se tornado uma pessoa melancólica, amarga ou depressiva. Ao contrário, tinha ânimo forte e positivo. Pertencia a importantes estirpes de Viçosa e Sobral. Recomendei-lhes a leitura ao historiador Vicente Miranda, que escreveu a mais importante obra sobre a genealogia e história da Ibiapaba e adjacências, inclusive Piauí, no intuito de lhe possibilitar eventuais enriquecimentos e acréscimos quando de uma anunciada segunda edição.  

Feito esse parêntese, que achei pertinente, retomo o tema central. Chegamos a Manaus por volta de meia noite, ou 23 horas no horário local. Após os abraços e cumprimentos de praxe, João Miguel nos levou ao seu apartamento, situado perto da avenida das torres. Torres de transmissão elétrica, esclareço. No dia seguinte, pude constatar que da varanda, para qualquer lado que pudesse alcançar, eu via, por entre ruas e casas, boas porções de florestas. Ao amanhecer, ouvi o canto alegre de aves. À noite, ouvi, muitas vezes, o canto rascante de cigarras e a sinfonia álacre dos batráquios.

Também, margeando algumas avenidas, víamos, amiúde ou quase sempre, generosas nesgas florestais, que adornavam a paisagem urbana. No meio de árvores imponentes e copadas, vi pequenas plantas e arbustos, de um verde vivo, luxuriante e diversificado, em que muitas vezes parecia haver esmeraldas esmaltadas, tal o brilho das cores da folhagem. O formato e o tamanho das folhas eram muito variados. Em caprichado paisagismo natural, digno talvez dos arranjos de um Burle Marx, víamos trepadeiras a se enroscar em suntuosas árvores.

Em dois shoppings, vi, através de paredes envidraçadas, verdadeiros parques florestais, que lhe ficavam contíguos, talvez como áreas de preservação ambiental. Dessa espécie de mirante ou posto de observação, vi plantas imensas, de enormes frondes. Algumas, suponho, eram mais altas do que um prédio de cinco ou seis andares. Fiz esse cálculo tomando por base o andar de onde eu as observava.

Mais uma vez verifiquei a diversidade de tamanho, formato, textura e flexibilidades dos arbustos e árvores. Fiquei a imaginar que algumas poderiam ter vários séculos, podendo remontar à descoberta do Brasil pelos portugueses, senão ainda anteriores. Havia ainda enormes e variadas palmeiras, que vi de perto e do alto, através das vidraças do centro comercial.


2

Ao conversar com João Miguel sobre o Teatro do Amazonas, que conheci em viagem anterior, disse-lhe que essa deslumbrante e faustosa casa de espetáculo fora concluída pelo governador Fileto Pires Ferreira, nascido no Piauí. Como ele tenha se admirado dessa informação, acrescentei que outro piauiense também governara o Amazonas: Gregório Thaumaturgo de Azevedo, que também foi o primeiro governador republicano de seu estado natal. Ambos são filhos de Barras, justamente cognominada Terra dos Governadores.

No texto Piauienses viraram ficção na Amazônia, de Dílson Lages Monteiro, colho o seguinte comentário: “Um é descrito como ‘magro, ágil, elétrico, homem de fino trato, olhar inteligente, meio romântico, ousado, impetuoso, um tanto ingênuo, elegante de espírito (...) bem-nascido, família abastada, dona do Norte do Piauí, a terra do gado’. O outro, como um combativo homem público de ampla atuação, a seu tempo, no Norte do País. Fileto Pires Ferreira e Thaumaturgo de Azevedo, piauienses que governaram o Amazonas, respectivamente, entre 1896-1898 e 1891-1892, são personagens do romance ‘Teatro do Amazonas’, de autoria do amazonense Rogel Samuel.”  

A família Pires Ferreira exerceu o protagonismo político no Piauí durante vastos anos, sobretudo sob a liderança dos barrenses Firmino Pires Ferreira (25-09-1848 – 21-07-1930) e Joaquim Pires Ferreira (15-07-1868 – 23-12-1958). O primeiro participou da Guerra do Paraguai, como voluntário, e se tornou herói em várias batalhas; era marechal do Exército nacional, e foi senador por mais de trinta anos; o segundo era advogado, foi deputado federal e senador da República por várias décadas e é epônimo de uma cidade piauiense.

Gregório Taumaturgo de Azevedo, filho de Manoel de Azevedo Moreira de Carvalho e Angélica Florinda Moreira de Carvalho, nasceu em Barras (PI), em 17-11-1853, e faleceu no Rio de Janeiro, em 29-08-1921. Fundou a cidade de Cruzeiro do Sul (Acre) e a Cruz Vermelha Brasileira, da qual foi presidente. Segundo o escritor e romancista Rogel Samuel, foi ele quem traçou o plano da cidade de Manaus. Encerrou sua carreira profissional como marechal do Exército Brasileiro.

Fileto Pires Ferreira, filho de Raimundo Carvalho Pires Ferreira e Lídia Santana, nasceu em Barras, em 16-03-1866, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 11-08-1917, tendo alcançado o posto de general. Esforçou-se em concluir as obras iniciadas por antecessores, inclusive o famoso Teatro do Amazonas. Embora considerado um grande governador, encontra-se imerso em injusto esquecimento. Ao se ausentar do estado, para tratamento de saúde na Europa, foi vítima de uma “armação” política de seus inimigos, que forjaram um falso pedido de renúncia, com a falsificação de sua assinatura, e lhe destituíram de seu cargo. Embora em vão, teve a hombridade de tentar reconquistar seu cargo de governador fraudulentamente usurpado.

Nas vezes em que percorri as ruas e avenidas manauaras, em automóvel conduzido por João Miguel, sem querer laborar em estereótipos e maniqueísmos, que sempre distorcem ou exageram a verdade, notei que os demais motoristas não eram excessivamente apressados, e cediam a preferência em cruzamentos e conversão de faixas, de sorte que não presenciei nenhum acidente de trânsito, como com frequência observo em Teresina, apesar de Manaus ter mais do dobro da população desta.

Quando pedi alguma informação, notei que a pessoa parava, fixava a atenção em mim, e com urbanidade e respeito dava a sua resposta. Mera coincidência ou não, só vi no noticiário local um crime de alta repercussão: o assassinato do advogado criminalista e ex-deputado estadual Armando Freitas. Ou os homicídios não ocorrem com tanta frequência ou não lhe atribuem a importância sensacionalista que lhe dão em outras paragens.

No domingo, 6 de maio, fomos conhecer o calçadão e praia de Ponta Negra. É um local de muita magia e beleza, com muita água espraiada e a presença aprazível de algumas nesgas de florestas, que me pareceram bem preservadas. A impressão geral que tive, embora possa estar enganado, é de que a cidade não entrou em processo de excessiva verticalização. O rio Negro parece formar nesse local uma espécie de baía ou de grande remanso. Em dia anterior, fomos conhecer a Praia do Japonês, que não se encontrava aberta. Mas o passeio não foi em vão, pois nos serviu para termos uma ideia do que seja a floresta amazônica, apesar de que não estávamos em mata fechada.

Fomos, em seguida, a um restaurante flutuante, onde nos encontramos com Higino Freitas, sobrinho da Fátima, e com o tenente Fernando Alves, paraibano, amigo e colega de meu filho. Nesse local, vimos a pujança e a beleza da floresta e do grande rio, perante o qual, sem ironia e sem menoscabo, o nosso Rio Grande do Tapuia, o nosso querido Parnaíba ou Velho Monge, como nos versos de Da Costa e Silva, torna-se quase um igarapé. Mas o Parnaíba, apesar das maldades que lhe fazem e da incúria dos governantes, é um rio forte e bravo; e resistente, insiste em não morrer.

O Gino e o João Miguel comemoravam seus aniversários, ocorridos, respectivamente, nos dias 4 e 5 de maio. O primeiro ficou muito emocionado com um vídeo que lhe foi enviado por seu irmão Nonato (Natim) Freitas, em que este proferiu belas palavras afetivas e fraternas. O Gino, entre outras iguarias, pediu o peixe jaraqui, por não ser conhecido no Piauí; para não sair da rima, repetiu o bordão: “Quem come jaraqui, não sai daqui”. E eu, fingindo um equívoco, continuei no mesmo refrão: “E quem come do jaracá, não sai de cá”. Com isso brindamos e encerramos essa tarde de encantamento, confraternização e beleza.

E, arrematando, para os estilistas esqueléticos, de pretensiosa contenção e rigor, que se autoproclamam avessos ao uso de adjetivos, direi: ao se falar de uma amazônica beleza, de amazônicos rios e florestas, não se pode deixar de usar muitos adjetivos. E aproveito para perguntar: se os adjetivos não devem ser usados, por que diabos teriam sido inventados?

(*) Vários dados históricos desta crônica foram extraídos do referido texto de Dílson Lages Monteiro, de uma entrevista concedida por Rogel Samuel ao portal Entretextos, do blogdorocha e do Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, da autoria do barrense Wilson Carvalho Gonçalves.   

terça-feira, 15 de maio de 2018

Capitão Marcos Francisco de Araújo Costa

Fonte: Google


Capitão Marcos Francisco de Araújo Costa

Reginaldo Miranda

Entre os integrantes do governo interino do Piauí, figura o capitão Marcos Francisco de Araújo Costa, um piauiense de grande valor.

Nasceu em 4 de outubro de 1743, na fazenda Canavieira, situada na margem direita do rio Gurgueia, freguesia de Santo Antônio, onde hoje viceja a cidade de Canavieira, desmembrada que fora do antigo termo de Jerumenha. Era filho do capitão João Francisco de Paiva, povoador daqueles sertões com diversas fazendas, falecido em 22 de fevereiro de 1768, e de sua esposa Antônia do Espírito Santo, natural da Bahia de São Salvador (irmã do padre Domingos de Araújo Costa, natural e residente em Salvador, com quem provavelmente estudou o sobrinho Marcos Francisco).

Pouco sabemos sobre as origens de seu genitor, senão que povoara diversas fazendas no vale do rio Gurgueia, inclusive a de mesmo nome do rio, onde se metia o riacho do Tapuio, hoje fazenda Buriti Grande, que recebeu em sesmaria no ano de 1742.

Pelo lado materno, descendia de uma das mais antigas famílias do Piauí, em cujo território entrara nas primeiras bandeiras colonizadoras. Seu avô materno fora o desbravador Manuel de Araújo Costa, nascido na vila de Ponte da Barca, extinta freguesia de São Lourenço de Touvedo, arcebispado de Braga, no ano de 1665, filho de Gaspar da Costa e sua mulher Serafina de Araújo, naturais do mesmo lugar, onde sempre foram moradores. Com cerca de vinte anos de idade esse avoengo deixou sua terra no Alto-Minho e depois de atravessar o oceano, fixou-se no Piauí, por volta de 1685, fundando a fazenda Sussuapara, no vale do rio Piauí, onde iniciou criatório bovino, que logo prosperou vertiginosamente. Oito anos depois, já abastado, com grande rebanho, recebeu em sua fazenda a importante visita do padre Miguel de Carvalho, que ali esteve no ano de 1693, envidando esforços para criar uma freguesia, que receberia o nome de Nossa Senhora da Vitória, hoje cidade de Oeiras.

Continuou a apascentar seu rebanho, comercializando suas boiadas nas feiras de Pernambuco e Bahia. Com os recursos auferidos nesse comércio, tanto aumentara o rebanho, quanto investira em imóveis na cidade da Bahia, para onde mudou-se definitivamente por volta de 1702, estabelecendo-se comercialmente. Em depoimento prestado em 2 de novembro de 1705, fora qualificado como cristão velho, de 40 anos de idade, natural de Ponte da Barca, arcebispado de Braga e residente na cidade da Bahia, onde vivia de seu negócio. Faleceu nesta última cidade, em 19 de setembro de 1719, com testamento, sendo o corpo sepultado na igreja de Nossa Senhora do Carmo. Deixou entre os bens inventariados, duas moradas de casa de pedra e cal, sendo uma na Rua do Passo, da parte do mar e outra na Rua Direita de Santo Antônio, defronte do Convento do Carmo, além de seis moradas de taipa de mão nas terras foreiras de Santo Antônio, defronte da fonte, todas na cidade da Bahia. De seu primeiro casamento com dona Luzia Henriqueta da Conceição, não deixou geração. Porém, do segundo consórcio com dona Ana de Oliveira, falecida antes do esposo, deixou dois filhos, a saber: D. Antônia do Espírito Santo, mãe do biografado e o padre Domingos de Araújo Costa, vigário na Bahia, tendo deixado em seu testamento ao sobrinho e afilhado Marcos Francisco, a quantia de 400$00 (quatrocentos mil reis). Por essa razão, a família Araújo Costa tem sequência apenas pelo neto Marcos Francisco de Araújo Costa.

Marcos Francisco viveu sua infância em Canavieira, brincando nas águas do Gurgueia e correndo pelas veredas da fazenda. Entre um afago dos pais e um conselho ou outro recebido, ia com estes iniciando nas primeiras letras. Tinha quatro anos quando ali esteve, na fazenda vizinha, por sete meses o Bispo D. Frei Manoel da Cruz e sua ilustrada comitiva. É provável que tenha sido um dos alunos por eles alfabetizados.

Embora não tenha ficado registro de sua vida escolar, é quase certo que morou na juventude com o tio e padrinho, o padre Domingos de Araújo Costa, em Salvador. Sob seus cuidados e orientação educacional frequentou as aulas existentes naquela cidade, adquirindo sólida cultura, daí tendo levado alguns escritores a dizer ser ele nascido no reino e ter recebido o grau de bacharel, o que não é verdade.

De retorno ao Piauí, ingressou na carreira militar ascendendo desde os postos de menor escalão hierárquico até ser provido no de capitão do regimento de cavalaria ordenança da capitania, por ato de 31 de agosto de 1784. Depois, com a reorganização das forças militares e criação do regimento de milícias, em 1798, manteve sua patente militar no novo regimento.

Em 8 de setembro de 1772, na fazenda Paulista, hoje cidade de Paulistana, situada na ribeira do Canindé, sudeste do Piauí, convolou núpcias com a senhorita Maria Rodrigues de Santana, filha do abastado fazendeiro Valério Coelho Rodrigues, português ali radicado, senhor da referida fazenda e de dona Domiciana Vieira de Carvalho, esta filha dos fazendeiros José Vieira de Carvalho e Maria Freire da Silva, bandeirantes paulistas que entraram no Piauí integrando uma bandeira, em 1719.

Depois do consórcio fixou-se o jovem casal na fazenda Boa Esperança, termo de Oeiras, que depois de 1832 passaria ao de Jaicós, onde hoje viceja a cidade de Padre Marcos, em homenagem ao seu ilustre filho homônimo.

Portador de cultura acima da média, cedo projetou-se entre seus contemporâneos. Como consequência dessa liderança natural, foi eleito por diversas vezes para compor o senado da câmara de Oeiras, então capital do Piauí, sendo um dos mais assíduos membros de sua governança. Como juiz ordinário conduziu os destinos da municipalidade em vários mandatos. E como consequência, entre 2 de janeiro e 19 de fevereiro de 1780, ocupou o cargo de ouvidor interino, na ausência de ouvidor letrado, e nestas circunstâncias integrou a junta trina de governo do Piauí. Nesse ano foi sucedido por Antônio Teixeira de Novaes (20 de fevereiro a 14 de julho) e, posteriormente, por Domingos Gomes Caminha, que assume a partir de 7 de agosto daquele ano.

Nesse último ano, um fato marcante na biografia de Marcos Francisco de Araújo Costa, na qualidade de juiz ordinário de Oeiras, foi ter presidido a histórica Devassa da morte dos índios guegués, instaurada em 2 de agosto de 1780. Visava apurar as responsabilidades pela morte e decapitação de quatro indígenas, cujas cabeças foram expostas em postes na aldeia de São Gonçalo, hoje cidade de Regeneração. Ouviu trinta testemunhas, fez exame, vistoria e corpo de delito indireto, em tudo agindo com a maior prudência, comedimento e coragem, para, afinal, depois de dez dias de trabalho enviar os autos para o juiz da auditoria geral de guerra, que deveria pronunciar os culpados, em virtude de serem militares. Foi muito elogiado o seu trabalho pelos contemporâneos, tendo sido por nós resgatado e publicado em forma de livro, para a posteridade.

Marcos Francisco de Araújo Costa, retorna à ouvidoria-geral do Piauí e, como consequência, à presidência do governo interino da capitania, em 1º de janeiro de 1784, em cujo exercício permanece até 31 de dezembro do mesmo ano, com breve interregno, por poucos dias, durante o mês de junho, quando foi substituído pelo capitão Ignácio Rodrigues de Miranda. É que naquele período o Piauí estava, de fato, sem ouvidor letrado e sem governador titular, sendo, assim, administrado na forma do alvará de perpétua sucessão. Durante essa gestão tudo fez para bem desincumbir-se, assim demonstrando amor à terra que lhe viu nascer. Entre outros pleitos, expõe ao secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, as necessidades mais prementes da capitania e pede a nomeação de sacerdotes, construção de cadeias e aumento da tropa paga. Também, solicita uma visita do capitão-general do Estado, José Teles da Silva, ao Piauí, para melhor se inteirar da situação da capitania subalterna (AHU. ACL. CU 06. Cx. 14. D. 815).

Novamente, no ano de 1800, retorna ao exercício da ouvidoria-geral do Piauí, porém, sem exercício do governo interino porque o Piauí já contava com a presença de governador nomeado. Em todas essas oportunidades, acumulou a esses cargos a provedoria de real fazenda e a provedoria da fazenda dos defuntos e ausentes, capela e resíduos e mais cargos anexos.

Em 27 de setembro de 1802, o capitão Marcos Francisco de Araújo Costa, era diretor do aldeamento Cajueiro, dos índios Jaicós, data em que enviou ao governo um inventário dos acessórios e ferramentas ali existentes. Permaneceu no exercício desse cargo até 14 de abril de 1803, quando foi autorizado a entregar a direção do lugar a Francisco Antônio Mendes, que havia exercido o mesmo cargo anteriormente (APP. Códice 159. P. 3v e 47).

Outro aspecto relevante de sua vida foi o trabalho benemérito que realizou em sua fazenda da Boa Esperança, alfabetizando diversas gerações de piauienses. Nesse aspecto, seu trabalho ficou ofuscado pelo do ilustre filho homônimo, o padre Marcos, da Boa Esperança. No entanto, também o pai, Marcos Francisco ali educou muitos jovens, dando-lhes aulas de gramática e ensinando as operações aritméticas, inclusive aos próprios filhos. Foi Esmaragdo de Freitas e Sousa, num trabalho revisionista sobre Manoel de Sousa Martins, o visconde da Parnaíba, quem primeiro anotou que ele fora educado pelo tio-afim Marcos Francisco de Araújo Costa, de quem recebera aulas de latim. Portanto, é esta a maior prova de que o biografado ali exercera esse trabalho benemérito, instruindo uma geração de piauienses que iria se projetar nos últimos anos da colônia e primeiros do império.

Consta que como recompensa por todos esses serviços prestados, recebeu a comenda da ordem de Cristo.

Prestando depoimento em 22 de novembro de 1785, em devassa que apurava denúncias contra o padre Dionísio José de Aguiar, vigário de Oeiras, foi qualificado como cidadão daquela cidade de Oeiras e da governança da mesma, capitão da cavalaria ordenança, natural desta capitania, morador e casado na freguesia de Oeiras, de idade que disse ser de 41 anos, pouco mais ou menos, e vivendo de seus bens. Em outra devassa, declarou ser parente em quarto grau do ajudante Antônio do Rego Castelo Branco, o que nos induz a pensar num parentesco mais provável de dona Antônia Gomes Travassos, avó materna daquele com dona Ana de Oliveira, avó materna deste, ambas naturais da Bahia e descendentes dos primeiros colonizadores do Brasil  (AHU. ACL. CU 016. Cx. 15. D. 829).

Deixou o capitão Marcos Francisco de Araújo Costa, sete filhos de seu consórcio, sendo quatro mulheres e três homens. Estes últimos participaram ativamente da Guerra da Independência e da repressão à Balaiada, sendo eles Ignácio Francisco e Francisco Manuel de Araújo Costa, além do padre Marcos de Araújo Costa, importante clérigo e educador piauiense.

Com essas notas resgatamos a memória desse ilustre piauiense, visando, assim, recompor a trajetória de vultos notáveis de nossa terra, que se destacaram por algum relevo de personalidade.

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* REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br

** A fotografia que ilustra a matéria, é da cidade de Padre Marcos, situada em parte da fazenda Boa Esperança, colhida livremente na Internet.  

segunda-feira, 14 de maio de 2018

RETRATO DE MINHA MÃE (*)


Tela da autoria do pintor Rogério Albino



RETRATO DE MINHA MÃE (*)

Elmar Carvalho

Fernando Pessoa, em versos, disse que após sua morte, se quisessem escrever sua biografia, não haveria nada mais simples, porquanto tinha apenas duas datas: a de sua nascença e a de sua morte. Minha mãe nasceu no dia 20/11/1933 e faleceu na sexta-feira passada, 26/04/2013. Era de poucas letras, embora tivesse enorme sabedoria de vida, e tinha o que hoje chamam de inteligência emocional. Com efeito, em sua modéstia e simplicidade, era uma mulher muito inteligente e perspicaz. Se eu quisesse resumir este perfil, que tento fazer de minha mãe, diria que o texto insuperável de Don Ramon Angel Jara, bispo de La Serena – Chile, a ela se aplica com exatidão, como se aplica a todas as verdadeiras mães.

Não exerceu cargos e nem funções públicas. E nunca os almejou. Cristo disse que quem desejasse ser o maior, deveria ser o que mais servisse. Portanto, deveria ser o maior e o melhor dos servos. Mamãe (quase) renunciou a si mesma, para servir aos outros. Sua missão, à qual se dedicou de forma obstinada e contínua, sem tréguas, sem férias, sem feriado, sem queixas e sem lamentações ou mágoas, foi cuidar do seu marido e dos seus oito filhos. E como soube cuidar... Nisso foi inexcedível.

Desde o amanhecer até o momento em que ia dormir, não sabia ficar quieta. Sempre tinha algo a fazer. Nisso se incluíam todos os misteres domésticos. Cuidava do marido e dos filhos; limpava a casa; lavava as roupas e as louças; fazia as refeições e chegou ao ponto, durante vários anos, de confeccionar as roupas dos filhos, mormente numa época em que não era costume comprar-se roupas feitas.

Nossas roupas eram bem-feitas, tanto no corte, como na costura, e bem se ajustavam ao nosso porte. Em determinada época, apenas por passatempo, no período em que morava em Parnaíba, passou a confeccionar animais e bonecas de pano ou plástico, para presentear os filhos e alguns amigos, e também ornar sua casa. Eram trabalhos feitos com esmero, com observância de detalhes, enfeites e adereços, que lhe revelaram a sua faceta artística, a que não deu continuidade, porquanto sua vocação ou devoção era, efetivamente, ser esposa, mãe e exímia dona de casa.

Mesmo quando passou a ter colaboradora, jamais deixou de exercitar esses trabalhos. Nunca lhe ouvimos lamúrias por causa de sua dura labuta doméstica. Sentia-se realizada em ser dona de casa e mãe de família. Parecia encarar esse labor extenuante e repetitivo como uma missão sagrada, que lhe dava íntima satisfação e à qual não desejava e nem poderia fugir, ainda que apenas aos domingos.

Das várias mensagens que os netos divulgaram através da internet (facebook) e que publiquei em meu blog, pinço trecho de duas. Este, de meu filho João Miguel, cadete da Polícia Militar do Amazonas, e que, por isso mesmo, não pôde comparecer ao enterro de sua avó: “Hoje o céu está mais alegre. Os anjos cantam. Chega mais uma estrela para brilhar no paraíso. Passa agora um filme na minha cabeça dos momentos que passamos juntos, da alegria que cativava todos, da cumplicidade com a família, da sinceridade que transparecia em seu rosto”. E este outro, escrito por Raquel Guedelha: “Certa vez, vovó comentou com meu irmão, que a imagem da felicidade dela era olhar para o passado e lembrar a época em que o meu avô chegava do trabalho em Campo Maior, e todos os filhos dela, que brincavam na frente da casa, saíam correndo ao encontro do pai para trazê-lo para casa”.

Tinha mamãe o espírito forte e uma grande energia vital. Mantinha sempre o ânimo alegre, sem mágoa, sem ira e sem temores. Não tinha inveja de nada e nunca se maldizia. Não gostava de fuxicos, futricas e fofocas, e, portanto, não se comprazia em falar da vida alheia. Embora não fosse de visitar amiúde as casas alheias, mesmo porque não tinha tempo para isso, tinha a amizade e a estima dos vizinhos, aos quais tinha o mesmo apreço, amizade e consideração. Creio que a sua força e vitalidade provinham de uma Fé singela, mas inabalável em Deus, que ela não alardeava, pois a conservava em seu íntimo, em recanto secreto.

Essa Fé a fez ser sempre uma mulher forte, decidida, embora de trato suave, e mesmo delicado. Cultivava discreta alegria, sem ostentação e espalhafato. Ao trabalhar, em sua faina diária e contínua, cantarolava algumas músicas de sua predileção. Não obstante essa sua postura, soube disciplinar os filhos, com a palavra, com o castigo e com os corretivos, para que fôssemos pessoas do bem e buscássemos a virtude. Nessa seara tivemos, também, o seu exemplo e o de nosso pai, que lhe sobrevive. Contudo, não fomos criados presos, amarrados à barra de seu vestido. Fomos livres e brincamos a valer.

Conquanto tivesse mamãe uma personalidade forte, e tenha enfrentado com galhardia as dificuldades e vicissitudes da vida, que se abatem sobre todas as famílias, sejam percalços financeiros ou doenças, sem nunca esmorecer ou perder a Esperança e a Fé, entretanto, quando a tragédia, pela primeira e única vez, atingiu a nossa família, eu pude imaginar o quanto ela nos amava. Foi quando minha irmã Josélia, aos quinze anos de idade, no auge de sua beleza, carisma e simpatia contagiante, linda e odorífera flor que mal desabrochara, foi colhida brutal e inesperadamente pela morte, vítima de acidente automobilístico.

Minha mãe passou vários dias imersa em imensa tristeza, prostrada em sua alcova, a derramar profusas e sentidas lágrimas; chorou sua filha, como Raquel chorou seus filhos, “sem aceitar consolação por eles, porque já não existem”. A duras penas, sabe Deus com que esforço, conseguiu sair de sua profunda prostração, para cuidar do seu marido e de seus filhos, que dela ainda muito precisavam. Aos poucos, retomou a sua rotina e voltou a tomar posse de si mesma, do modo como sempre fora.

Tinha senso de humor, embora o usasse de forma moderada, e jamais para diminuir ou ridicularizar quem quer que fosse. Certa feita, o meu saudoso cunhado Zé Henrique disse que, quando morresse, gostaria de ser um urubu. Um pouco por influência minha, creio, ele passara a admirar essas negras aves, a sua saúde, a sua missão de limpar o mundo, a sua magnífica coreografia aérea, e até mesmo o seu gingado caminhar de malandro carioca. Minha mãe, sorridente, retrucou-lhe que preferia ser um bem-te-vi, pela sua beleza e alegria. Na tarde de sua morte, ouvi o canto alegre desse passarinho, que já não ouvia há algum tempo, e tive o lampejo de que seu espírito partia para o infinito.

Décadas atrás, minha mãe ganhou um casal de papagaios. Criou-os com muito zelo, carinho e estima. Não lhes ensinou palavrões e nem cantigas indecorosas, como as que hoje nos agridem os tímpanos e a alma em quase todo lugar. Ensinou-lhes belas e alegres canções, inclusive religiosas, conquanto não fosse carola, avessa que era a hipocrisias e falsidades farisaicas.

Graças à sua obstinada determinação nesse mister, o Louro e a Rosa aprenderam um vasto repertório de palavras, frases e cantigas. Era muito engraçado ouvir-se a algazarra festiva dos papagaios, quando eles estavam de bom-humor, pois essas aves, como os humanos, cuja voz eles imitam, parecem ter os seus caprichos, em que alternam momentos de alegre expansão com momentos de sisuda introspecção, ou mesmo de certa melancolia.

Deus concedeu a minha mãe que ela nos preparasse para a sua morte. Ela sempre disse não ter medo de morrer. Quando teve de encarar duas ou três cirurgias, resolveu enfrentá-las de imediato, sem desânimo e sem receio. Os sentimentos negativos, que deve ter tido, em sua condição de humana, guardou-os para si; parecia não desejar contaminar os outros com queixas, medos, mágoas ou desesperanças. Em virtude de sua hepatopatia, um ano atrás, começou a definhar e a apresentar alguns problemas de saúde, ela que sempre fora tão saudável e incansável.

Esses problemas começaram a amiudar, e culminaram com a necessidade de ser internada em hospital de Teresina. Poucos dias depois, com a alteração de suas taxas, como a de potássio, que se elevou muito, e a de sódio, que caiu demasiadamente, seu coração, que era forte e vigoroso, sofreu uma fibrilação atrial, tendo ela que ir para a Unidade de Tratamento Intensivo.

Disso lhe adveio outras complicações, como uma embolia, numa das pernas, tendo ela que ser submetida a pequena cirurgia para retirada do coágulo sanguíneo. Finalmente, ocorreu o seu falecimento, aos 79 anos de idade, na tarde do dia 26, às 15:45 horas. Esse lento e gradativo declínio de sua saúde, contribuiu para que meu pai, minhas duas irmãs, meus quatro irmãos e eu suportássemos a sua morte sem desespero, e com resignação. Os choros foram contidos, silenciosos, ou apenas internamente, sem convulsivos soluços e clamores.

Minha mãe, como já falei, dizia não temer a morte. Dizia isso de forma humilde, sem empáfia e sem ostentação; apenas como quem, de há muito, entendeu-a como parte integrante da vida, ou mesmo como um portal para a continuação da existência, em novo estágio ou nova dimensão do espaço-tempo. Por essa razão, numa das vezes em que a visitei na UTI, disse-lhe para ser forte, rezar e confiar em Deus. Ela, com um fio de voz, dada a sua fraqueza física, porém com firmeza e serenidade, reafirmou-me não temer a morte.

O meu irmão César Carvalho (Neném), quando contei esse diálogo, disse-me, aludindo à circunstância de ser eu poeta:

– Você é doido mesmo... Todo poeta é um pouco doido. Você foi puxar um assunto desse!?

Sou, talvez, mas quem não é? Dizem que todo mundo tem um pouco de poeta e de louco. Além do mais, quiçá, tenha contribuído para reavivar a sua coragem e Fé.

Quando se aproximava a sua viagem a Teresina, para consulta e tratamento, se fosse o caso, minha mãe deu alguns de seus vasos de plantas a uma vizinha, Lindalva, esposa do comerciante Zé Francisco, amigo nosso. Ambos são pessoas boníssimas, e Deus os está abençoando em seus filhos, que estão a concluir os cursos de Radiologia e de Medicina. Recomendou, ainda, que os seus queridos papagaios fossem entregues a um dos filhos. Provavelmente, antevia que meu pai fosse sofrer muito com a visão e as cantigas deles, a lhe provocar lancinantes evocações e saudade, o que já está acontecendo.

Tempos atrás, ela firmou contrato com a funerária Pax União, naturalmente antevendo que o termo de seus dias já se aproximava. Também preveniu a familiares que desejava ser sepultada em Campo Maior, no cemitério do bairro Cidade Nova, ao lado do sepulcro de seu irmão Antônio Horácio de Melo, que fica perto do túmulo de sua irmã Maria dos Remédios e de seu cunhado Zeca Quaresma. Ela, pessoalmente, foi escolher o local, e pediu a sua reserva e marcação. Disso podemos inferir que ela tinha a premonição de que sua hora final já se avizinhava.

Josélia, filha de minha irmã Maria José (Mazé), contou que, na tarde em que minha mãe partiu para a eternidade, sonhara que ela retornava a sua casa em Campo Maior, entrando pelo quintal, cheio das árvores que ela plantou e dos arbustos ornamentais e flores que ela cultivava. Minha sobrinha, admirada de ela haver saído do hospital, lhe perguntou:

– Vovó, a senhora está bem?

Minha mãe, então, lhe respondeu:

– Agora, estou.

Quando Josélia acordou desse sono/sonho ouviu o telefone tocar. Era o meu irmão César Carvalho que ligara para lhe dar a notícia de que mamãe acabara de falecer. Certamente está bem, no lugar de beatitude que o Pai lhe deve ter destinado.

Na manhã do dia em que mamãe morreu, os papagaios começaram a cantar uma das cantigas que ela lhes ensinou. Como uma espécie de premonição, o Louro e a Rosa cantaram o seguinte trecho de hino religioso: “Mãezinha do céu, eu não sei rezar / Eu só sei dizer quero te amar”. O Solimar, um de nossos vizinhos, acrescentou que, após o cântico católico, uma das aves teria pedido: “Vovô Miguel, traz o café”, tendo a outra acrescentado que o queria com leite. Que avezinha mais exigente!...

Pouco antes da chegada do corpo de mamãe, fato ocorrido à noite, os papagaios novamente cantaram o refrão acima transcrito, e também o seguinte trecho de melancólica marchinha carnavalesca: “Oh! jardineira por que estás tão triste / Mas o que foi que te aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho / Deu dois suspiros e depois morreu”. Há quinze dias que meus pais já se encontravam ausentes, ficando eles aos cuidados da Alba, que também os ouviu cantar os versos iniciais do hino religioso. Os animais, que muitos dizem não ter raciocínio, parecem ter os seus mistérios e segredos.

Somos agradecidos a todos os parentes e amigos que nos deram a sua solidariedade, pessoalmente, por telefone ou pela internet, tanto nas visitas ao hospital, como no comparecimento ao velório e ao sepultamento. Na longa noite em que mamãe foi velada, muitos ficaram até o raiar do dia, rezando e nos reconfortando com sua presença. No quintal da casa, os xarás Zé Francisco, o professor e o nosso vizinho, ficaram a noite toda conversando comigo, por mais que eu lhes tenha dito que deveriam ir repousar, pois ambos têm as suas ocupações profissionais.

Muitos choraram copiosamente, embora de forma sóbria. Outros contiveram as lágrimas. Meu pai, minhas irmãs e alguns irmãos derramaram seus prantos, em alguns momentos, mas sem lamentações e sem desespero, porque sabiam que a vida de minha mãe continua em alguma das casas do Senhor da Eternidade – “na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito”, garantiu-nos o Cristo (João, 14.2). Ao tombar do dia, mas ainda com sol, entregamos o corpo de mamãe aos cuidados da mãe terra. Sua alma, esta se encontra numa das moradas celestiais, ou “na mão de Deus, na sua mão direita”, como nos versos sublimes de Antero de Quental.

Encerrando redação sobre as mães, que valeria como prova da disciplina Educação Moral e Cívica, no antigo Ginásio Estadual, da qual era professor o impoluto juiz de Direito Dr. Hilson Bona, em que obtive nota máxima, disse, em pleno adolescer: “E agora direi, como disse Paulo Setúbal: 'Minha mãe, Deus lhe pague!'” Repito, agora, finalizando este singelo retrato, em plena maturidade: Minha mãe, Deus lhe pague.

(*) Republicada no ensejo do Dia das Mães, ocorrido ontem, dia 13.05.2018.

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Sobrevivem a minha mãe, o marido, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, e os filhos José Elmar, João José, Antônio José, Maria José, Paulo José, Joserita e Francisco José Nonato César (César), todos com o sobrenome “de Mélo Carvalho”. Minha irmã Josélia faleceu em 02/07/1978, aos 15 anos de idade. Meu pai veio a falecer em 05.11.2017.