domingo, 28 de agosto de 2016

Seleta Piauiense - Mário Faustino


Legenda         

Mário Faustino (1930 - 1962)

No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se estendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.

Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
e mudo sou para contar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia. 

sábado, 27 de agosto de 2016

São Raimundo Não Nascido


São Raimundo Não Nascido

José Maria Vasconcelos
Professor, escritor e cronista
        
         Se não nasceu, não viveu nem morreu nem ressuscitou. Certo? Não. Explico já o mistério.

         Anualmente, uma voltinha ao novenário de São Raimundo Nonato, paróquia do Bairro Piçarra. Nem parece com os anos da minha infância ou dos párocos capuchinhos que por ali passaram. Coroinha de sete anos, eu me apaixonava pelas noites festivas de leilões, barracas, mundão de gente que se deslocava de toda parte para a modesta capela de São Raimundo, 1955, que se erguia à direita do atual templo.

         Paupérrima Piçarra, piçarrenta, sem caçamento, sem água encanada. Um poço artesiano da Prefeitura ao lado do velho Mercado servia à população. A ponte de madeira sobre o Poti, no final da Higino Cunha. Por ali, passavam “caboclos” trazendo produtos agrícolas para vender na feira. Pela madrugada, caravanas de noivos, em cavalos, vestidos de branco, soltavam foguetes e se dirigiam ao templo para casar. Comerciantes “lavavam a burra”, vendendo de tudo. Vaqueiros a cavalo vinham para homenagear noite deles.

         Frei Eliézer, italiano queridíssimo na comunidade, iniciou movimento para construção de novo templo, moderno e gradioso, além de um prédio para serviço social. De motocicleta, levava-me para acolitar a missa, ligar o som, atender a periferia. Feliz, pois meu pai só dispunha de bicicleta, fruto da bodega. Na pobreza, Martinho e Dedé nunca negaram à Igreja serviços e ofertas. A Divina Providência multiplicou-lhes com a prosperidade.

         Antigos paroquianos recordam-se dos tempos heroicos de Frei Eliézer, abraçado à procissão de fiéis, nas tardes de domingo, dirigia-se a pé, até o Poti, para encher sacos de areia para a construção da igreja. No meio da generosidade coletiva, eu só suportava uma latinha de areia; o frade transformava o chapuz da batina em fardo. Exibia filmes, com entrada paga e promovia leilões. O milagre da multiplicação dos pães e peixes em doações e sacrifícios. Suado e exausto, ele servia de pedreiro no alto dos paredões.

         Uma convocação urgente da província transferiu Frei Eliézer de Teresina para Belém, ainda no início da cobertura do templo. O frade abateu-se profundamente.

         Dona Rita, 84 anos, reside ainda em antiga residência, frente ao templo. Sentada, contempla o que foi entregue à administração dos frades franciscanos. Desencantada, resume a nostalgia: “Aquilo não é a mesma coisa. Os frades nem ligam para o novenário. Só um tiquinho de gente nas quermesses. Até o marco da fundação do templo foi arrancado.”


         Arrancado, também, foi Frei Eliézer, que não experimentou o parto de seus sonhos. Arrancado do ventre de sua mãe, morta, foi Raimundo Nonato. Do latim, portanto, Não Nascido, no século 12 na Espanha. Sacerdote da Ordem dos Mercedários, perseguido por muçulmanos, na Argélia, por libertar escravos e cristãos da tirania. Preso, torturado e doente, regressou à patria e faleceu, quando era escolhido para cardinalato.   

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

CAPITÃO IGNÁCIO RODRIGUES DE MIRANDA

Foto meramente ilustrativa

CAPITÃO IGNÁCIO RODRIGUES DE MIRANDA

Reginaldo Miranda
Escritor, historiador e membro da APL

Descoberto o vasto sertão do Piauí iniciou-se a lenta marcha de desbravamento e conquista territorial no objetivo de assentar a base colonial portuguesa. Desde o ano de 1662, bandeirantes paulistas armam as tendas do primeiro arraial nas margens do riacho de Santa Catarina, sendo o mesmo denominado Arraial dos Paulistas. Logo mais, a Casa da Torre, então sob o comando de Francisco Dias d’Ávila e de seu sócio Domingos Afonso Sertão, assenta a caiçara dos primeiros currais nos vales ribeirinhos, sendo 129 as fazendas ao final do referido século XVII. No início do século seguinte ainda estava o nosso sertão em plena era de conquistas, oportunizando a muitos portugueses vir aqui viver a sua epopeia colonial, desbravando terras e implantando currais. Estavam, assim, ao mesmo tempo adquirindo patrimônio particular e alargando o domínio de sua pátria portuguesa. Não faziam nada de errado, estavam conquistando e construindo uma nova sociedade dentro dos padrões do cristianismo, do capital e do trabalho.
Entre os que chegaram ao tempo de conquista do sertão estava João Rodrigues de Miranda, casado com Josefa de Sousa. O casal se estabeleceu na fazenda Buriti, na margem do Riacho do Brejo, também chamado Brejo do Buriti, afluente do Riacho Fundo, no médio curso do rio Piauí. No Mapa de Henrique Antônio Galluzzi(1760), aparece como fazenda com capela, o que denota a fé cristã dos moradores. Todavia, mesmo arriscando suas vidas para afastar os indígenas e colonizarem os novos domínios, inicialmente, são obrigados a pagar renda aos Regulares da Companhia de Jesus, como sucessores de Domingos Afonso Sertão, no valor de 10$000 (dez mil réis) anuais. Depois adquiririam a fazenda(AHU-Piauí - Cx. 4 – D. 4; Cx. 25 – D. 60; Cx. 4 – D. 309). Alargando seus domínios e aumentando o rebanho, cedem novas conquistas aos dois filhos mais velhos, que as situam com gado vacum e cavalar, sendo a fazenda Trindade dada a Antônio Pereira de Miranda e a fazenda Guaribas a Francisco Félix de Miranda, ambas sendo retiro da do Buriti. Em 1764, este último filho aparece como intendente arrecadando alimento (gado e farinha), em sua região, para abastecer as tropas de combate aos índios Pimenteiras. Depois muda-se para o Gurgueia. Além desses dois filhos mencionados, o indicado casal ainda deixou os filhos José, Ignácio, Luiz e João Rodrigues de Miranda.                                                                               
Pois bem, Ignácio Rodrigues de Miranda nasceu 1737, provavelmente em 31 de julho, dia consagrado a Santo Ignácio de Loyola no calendário cristão. Foi quem herdou a fazenda, nela vivendo até o fim de sua vida, criando gado e administrando a lavoura e escravatura. Viveu com abastança.
Além de fazendeiro, foi também militar e político. Desde a mocidade assentou praça de soldado Dragão, de onde galgou o posto de ajudante das primeiras ordenanças, posteriormente extintas. Em 1776, teve seu nome proposto para o mesmo posto de ajudante do Terço de Cavalaria Ordenança, porém, não sendo aceito em face de não encontrar-se servindo na mencionada tropa ao tempo da proposta, assumiu em seu lugar, Félix do Rego Castelo Branco.                                                                          
No entanto, no ano seguinte foi promovido ao posto de capitão do mesmo Terço de Cavalaria Ordenança da Capitania de São José do Piauí, atendendo à indicação ainda de 24 de fevereiro de 1776. Nesse posto realizou inúmeras diligências e prestou relevantes serviços à sua terra.
Na carreira política foi eleito por diversas vezes, vereador, presidente do Senado da Câmara e juiz ordinário da cidade de Oeiras, então capital do Piauí.
No ano de 1781, na falta de ouvidor letrado, foi eleito ouvidor-geral da capitania pela lei, assumindo essa elevada magistratura em 2 de janeiro do ano seguinte. E, por força da lei, tendo em vista a vacância do cargo de governador, para atender o disposto no Alvará Régio de Sucessão, assumiu na mesma data a chefia da Junta de Governo do Piauí, sendo auxiliado por dois adjuntos, o sargento-mor Manoel Pinheiro Ozório e o vereador Antônio Gameiro da Cruz. Sendo reeleito pelo Senado da Câmara, permanece no exercício desses dois cargos até 2 de janeiro de 1784, quando transfere as funções ao sucessor Marcos Francisco de Araújo Costa. No entanto, retornou às funções, por poucos dias, durante o mês de junho de 1784.
Nesse mesmo período, acumulou também as funções de provedor da real fazenda e dos defuntos e ausentes, capelas e resíduos, corregedor da Câmara, com alçada, chanceler juiz das justificações de índio e mina, e dos feitos e agravos da Coroa, vedor e auditor geral da gente de guerra, com alçada cível e criminal, e mais anexos.
Conforme se vê, durante dois anos consecutivos(2.1.1782 – 2.1.1784), acumulou a justiça e a chefia administrativa do Piauí, enfeixando, assim, grande soma de poderes. Figura, pois, entre os governantes do Piauí.
Durante sua gestão conduziu-se com altivez e independência, entrando em rota de colisão com o ajudante Antônio do Rego Castelo Branco e seus familiares. Então, em 1783, porque um preto cativo de nome João, encarregado de cortar carnes no açougue da cidade, fora à sua casa fazer-lhe a barba, ao retornar ao açougue foi injustamente preso na cadeia pública, carregado de ferros, por ordem do almotacé Manoel José dos Santos, aliado de Rego. Era um ato de provocação, valendo-se o almotacé da autoridade do cargo. Em represália, ignorando a imunidade do funcionário, Miranda manda pôr o mesmo debaixo de ferros na cadeia pública, por duas horas. Desde então, passou a sofrer as maiores perseguições por parte de Antônio do Rego e seus seguidores, que manipulando os vereadores, fizeram diversas representações contra sua pessoa, até conseguirem uma punição em maio de 1788. É que Miranda não podia prender o almotacé, apenas afastá-lo das funções(AHU. Cx. 016. D. 838).
Todavia, em 1786 o ajudante Antônio do Rego Castelo Branco se confronta com o padre Dionísio José de Aguiar, vigário de Oeiras. E durante processamento de devassa o capitão Ignácio Rodrigues de Miranda, comparece em juízo dia 10 de outubro daquele ano, para dar testemunho em favor do vigário. É qualificado como “natural e morador nesta freguesia e da governança desta cidade, na qual serviu de ouvidor pela lei, de idade que disse ser de quarenta e nove anos, pouco mais ou menos, que vive de seus bens” (AHU. Cx. 14. D. 820; Cx. 15. D. 825, 827, 829 e 832).
Ignácio Rodrigues de Miranda era um homem extremamente católico, devoto de Nossa Senhora da Conceição e de Santo Antônio de Lisboa, ou de Pádua, cujas imagens à vezes levava consigo durante espinhosas missões militares. Era também de visão elevada, com instrução acima da média, sendo possível que tenha estudado com padres jesuítas no colégio de Salvador, ou na companhia de parentes em Portugal. Durante seu indicado depoimento em favor do padre Dionísio, atacou Antônio do Rego, mostrando altivez, independência e consciência política, ao declarar:

“que ordinariamente os que costumam servir na governança desta cidade são homens fazendeiros, e por isso pouco experientes nos negócios políticos e públicos, aproveitando-se por isso o dito Rego para os dirigir; e outrossim disse que é bem verdade que o dito Rego todas as vezes que se não segue os seus ditames, não perde a ocasião de se vingar daquela pessoa procurando por falsas ideias e calúnias deitá-la a perder muito principalmente aqueles que lhe podem fazer alguma sombra, e por isso ouve muitos queixarem-se de seu gênio orgulhoso e vingativo” (AHU. Cx. 14. D. 820; Cx. 15. D. 825, 827, 829 e 832).

Conforme se vê, era um inquebrantável piauiense que não se dobrava a conluios políticos, pugnando ao lado de outros denodados como Marcos Francisco de Araújo Costa e Domingos Gomes Caminha.
Na carreira militar, merece referência a exitosa entrada que fez contra os índios Pimenteiras, em 1790. Por aqueles dias essa nação vinha causando preocupações nas cabeceiras do rio Piauí, atacando fazendas e matando pessoas e animais domésticos. Aterrorizados, muitos colonos ameaçavam abandonar as fazendas. Muitos são os relatos de desinteligências entre os indígenas e colonos, que, à medida que avançavam com fazendas pelas cabeceiras daquele rio, iam reduzindo a área dos indígenas. A estes só restava atacar as fazendas e tentar recuperar o antigo território. Foi esta a última grande nação indígena que habitou o território piauiense, resistindo até princípio do século XIX, ajudados pela geografia local, pois abrigavam-se em plena caatinga entre as costaneiras e reentrâncias serranas do Piauí, fronteiriças à Bahia.  Algumas entradas anteriores, feitas pelo tenente-coronel João do Rego Castelo Branco e seus filhos Félix e Antônio do Rego, haviam sido infrutíferas. Assim, pouco se sabia sobre esses indígenas, ignorando-se a quantidade e força. Eram de língua desconhecida, mesmo pelos indígenas que integravam as tropas, entre esses Acoroás, Gueguês, Jaicós e Timbiras. Dizia-se que eram rebelados do rio de São Francisco, mas não se sabia ao certo. Portanto, era muito importante a obtenção de intérpretes. Foi nessa conjuntura que o governo interino da Capitania, ainda composto por outros membros da Junta Trina, o nomeou em 27 de fevereiro de 1790, para comandar tropa de combate aos mesmos indígenas. Nesse mesmo dia o referido governo interino lhe comunica a nomeação na forma seguinte:

“Tendo este governo interino notícias certas do estrago que fez o gentio na fazenda intitulada o Cavaleiro, vamos por esta nomear a V. Mce., comandante da tropa que V. Mce., sem perda de tempo deve formar de todos os soldados auxiliares e ordenanças, e ainda dos que o não forem com as armas que cada um tiverem, e puderem haver, e formada como lhe for possível, mandará municiada com a pólvora que leva o capitão Joaquim José Vicente de Almeida, e mande com ela correr a fronteira do mesmo gentio para o fazer retirar, e atemorizar, caso estejam postados próximo a nós. (...). Devemos lembrar a V. Mce, que S. Maj. proíbe a guerra ofensiva a estas nações, e que só nos concede a defensiva, por ser direito natural cada um defender a sua vida, a sua pessoa e os seus bens, e os do soberano de quem é vassalo” (AHU 016 – Cx. 18 – D. 929).

Mais tarde, em 8 de julho de 1790, o referido governo interino assim comunica a situação ao capitão-general do Estado, fazendo breve relato dos acontecimentos:

“... e ao mesmo passo requerendo providências sobre o mesmo gentio, ao contrário largariam suas fazendas deixando seus gados ao desamparo sem o devido benefício por não se esporem a experimentar a tirania daquele bárbaro gentio, assim como aqueles dois miseráveis experimentaram, em benefício dos mesmos moradores, e dos das Reais Rendas de S. Maj., por lhe ser indubitável o acontecimento de prejuízo com a despovoação das ditas fazendas na falta dos dízimos que delas recebia, se incumbiu ao capitão de cavalaria ordenança Ignácio Rodrigues de Miranda, morador na ribeira do Piauhy, a diligência de formar uma tropa para correr as fronteiras do sertão acima referido, para o fim de se atemorizar o sobredito gentio e retirar-se, quando estivesse postado perto de nós, (...); e remetendo-se-lhe dez libras de pólvora com o seu competente chumbo para municiar a dita tropa com a qual passaria o dito capitão/ a quem nomeamos comandante dela/ao predito sertão” (AHU 016 – Cx. 18 – D. 929).                                                                                   

No cumprimento dessa importante missão, conforme mais tarde relatou, se dirigiu à fazenda da Conceição com 50 soldados, fazendo ciência aos mesmos de seu objetivo e os exortou a bem o cumprirem. Disse da importância de fazerem algumas presas, a fim de as prepararem para intérprete em missões futuras. Então, liderando os mesmos marchou procurando uma lagoa que fica quatro léguas distante da referida fazenda, para daí descer em busca da aldeia indígena, correndo as fronteiras até a fazenda o Cavaleiro. Dessa forma, chegou à referida lagoa no dia 30 de maio, às 8h da manhã e às 14h expediu 40 homens escoteiros, nomeando por cabo José Dias da Costa, com as recomendações de estilo. No dia seguinte(31.5.1790), aqueles descobriram rastro fresco do gentio. E a poucos passos chegaram a uma roça, de onde ouviram rumor de gente e pancadas de pisar pilões em duas partes distintas. A essa altura, seguiram a uma das partes por onde um pequeno caminho os guiava, sendo que “por milagre da Virgem N. Sra da Conceição e do glorioso Santo Antônio, que levaram por guia, chegaram sem ser vistos nem ouvidos pelos indígenas”. Então, os assustaram com o disparo de quatro armas, fazendo com que corressem assustados, aprisionando os soldados aqueles que estavam mais a jeito. Todavia, “em face dos gritos das presas e crianças, voltaram os homens com o mesmo ímpeto, que foi necessário ao cabo com muito trabalho e fadiga dos soldados fazer fogo ao inimigo, ficando deles quatro mortos e dois soldados flechados, ambos varados nos braços esquerdos”.  Diante dessa forte reação, fugiram os indígenas “e de longe gritavam, lançando por cima algumas flechas”. Então, “o cabo mandou também gritar e disparar alguns tiros, com que tudo se acalmou”.
Diante dessa situação, “os soldados quiseram queimar tudo e custou ao cabo controlá-los para que só queimassem as armas, inclusive imensas flechas, trazendo algumas, de que vão duas flechas ao governo sendo uma de ferro, que flechou um soldado”, além de dois machados e alguns outros utensílios, disse Miranda em correspondência.
Porém, para retornar em segurança os soldados fugiram da trilha por onde tinham ido, com receio de serem vítimas de tocaias. Rasgando a íngreme caatinga, sem estradas, chegaram ao encontro do capitão Ignácio Rodrigues de Miranda no dia 1º de junho.
Quatro dia depois, em 5 de junho, Ignácio Miranda chega com seus solados e presas indígenas à fazenda da Onça, de seus amigos Ribeiro Soares. Então escreveu ao governo interino:

“Ilmo. Sr. Hoje, cinco de junho, me acho nesta fazenda da Onça, com a presa de cinco índias mulheres, três crianças fêmeas, e três machos, que fazem o número de onze, tudo do gentio das Pimenteiras, alguns dos pequenos doentes, que me é necessário conduzi-los de cavalo, e assim os vou conduzindo com todo o amor e zelo até donde V. Sa., for servido//Também me assiste o cuidado de que essa cidade ainda se acha infestada das bexigas, e que indo elas para lá se lhes der semelhante mal será certo morrerem, [ficando] V. Sa., com esse desgosto, eu com o meu trabalho perdido, e os moradores sem esperança de alívio e no mesmo perigo, ou em muito mais que até agora: este é o meu sentir; V. Sa., mandará o que for servido// De todo o acontecimento que nesta diligência tem havido, breve será V. Sa., ciente; esta só vai dirigida a dar a V. Sa., este gosto, que sei há de ser grande; eu por ora não necessito cousa alguma, mas sempre desejo que V. Sa., dê a providência que vir será necessária pelas fazendas da Inspeção, e no enquanto me não chegar resolução de V. Sa., sempre me hei de ir valendo do que me for preciso. Deus guarde a V. Sa.// Fazenda da Onça, 5 de junho de 1790.// De V. Sa., obediente súdito// Ignacio Rodrigues de Miranda”.                                          

Mais tarde, em 14 de junho, já em sua fazenda do Buriti, no vale do Riacho Fundo, escreveu outra correspondência:

“No dia onze do presente mês de junho cheguei a este Riacho Fundo bastantemente molesto, e com as índias muito destroçadas, umas sem poderem andar por razão das muitas pedras dos caminhos, outras com febre e catarrões, mandando-as conduzir nas garupas dos soldados, em muitas vezes com os filhinhos nos braços, porque só corações de ferro, não terão compaixão de tal miséria, lembrando-me ao mesmo passo do muito que V. Sa., me recomendou respeito ao amor com que deviam ser tratados, mas o certo é que só o que não for católico, não terá compaixão de tanta miséria”.
E noutro trecho da mesma correspondência:
“As índias eu sentirei se se perderem ou se forem parar onde lhes falte amor e caridade, ou instrução para servirem de guia, no que V. Sa., não deixará de pôr todo cuidado, como benigno pai”.
Chegando adoentado dessa missão, recomendou ao cabo José Dias da Costa lavá-los para Oeiras.
Ao chegarem à capital faleceram de imediato duas índias em face de doenças, febre e catarrões. Em seguida, chamam os índios Guegués, Acoroás e Jaicós, assim como pessoas que conheciam a língua geral e ninguém conseguiu entendê-las. Foram então distribuídas em casas de família, a fim de que aprendessem o nosso idioma e, assim, servirem de intérpretes em missões futuras, bem como informar sobre sua nação. Infelizmente, esses indígenas seriam exterminados no primeiro quartel do século seguinte, por José Dias Soares, a serviço do governo.
Depois dessa importante missão, o capitão Ignácio Rodrigues de Miranda ainda permaneceria no posto de comandante militar do rio Piauí, prestando relevantes serviços. Todavia, faleceu algum tempo depois, provavelmente em sua fazenda do Buriti, onde residia. Deixou viúva, D. Leandra Maria de Jesus e já com família constituída o filho Felipe Nery de Miranda.
Foi um grande piauiense do período colonial, deixando um nome honrado, grande descendência e larga folha de serviços prestados à pátria.    

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XVIII


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XVIII

O lendário Zé Lolô

Elmar Carvalho

Logo no início d’ O Liberal tive a ideia de escrever pequenos textos em prosa sobre algumas figuras lendárias, populares e folclóricas de Évora, para publicar nesse periódico mimeografado e no jornal mural do liceu. No futuro, quando eu tivesse condição financeira, iria reuni-los em livro, acrescidos ou não de outros perfis que viesse a escrever. Nesse tempo não se falava em indenização por danos morais, ao menos em nossa cidade. De modo que por isso e também por causa de certo destemor próprio da idade, não me preocupei com essas evocações. É claro que tive algum cuidado, em certos episódios, como mudar o nome do protagonista e omitir ou mitigar algumas nuanças das histórias, para evitar briga com familiares do personagem.

Quando eu tinha em torno de seis anos, fui com meu pai participar de uma missa dominical, cedo da manhã, na matriz de São Gonçalo, após a qual iríamos assistir a um faroeste estrelado por Giuliano Gemma, no Cine Galileia. Quando ultrapassamos a feira ou mercado de venda de peixes e aves, como capote, pato e galinha caipira (nessa época não havia as de granja), meu pai se virou para mim, e disse em voz baixa:
– Marcos, preste atenção naquele homem que vem ali...

Meu pai não precisava me chamar a atenção para aquele homem, se é que ele era realmente um homem, tal a magnitude de sua feiúra. Há quem diga que é pecado comparar-se um homem a um macaco, embora o cientista Charles Darwin de certa forma o tenha feito. Mas o fato é que a criatura parecia um misto de chimpanzé, gorila e homem. Seus cabelos e barba eram desalinhados, opacos e duros como crinas de cavalo. O caminhar era desengonçado e bamboleante como o de um símio.

De estatura abaixo da mediana; no entanto era forte, entroncado e de membros grossos e curtos. Tórax musculoso e repartido. Os bíceps eram avantajados, como se fossem os de um pequeno Maciste, que eu conhecia através da tela panorâmica do velho Cine Galileia. Trajava uma esgarçada camisa de mangas curtas, aberta ao peito, o que deixava à mostra os braços e o peito de densos pelos hirsutos. Conduzia um cofo de palha de carnaúba ao ombro e segurava uma fieira de pequenos peixes espetados num cipó, a que davam o nome de cambo.

Meu pai me esclareceu que ele era um pescador, mas que também vendia lenha e água, retirada de alguma das várias cacimbas do lago Galileia, para algumas famílias do centro da cidade. Na época o sistema de abastecimento d’água ainda estava sendo implantado, e aos poucos ia se expandindo, do centro para a periferia. Já então estava inativo o antigo cata-vento do principal chafariz.
– O nome dele é José Malaquias, mas é conhecido como Zé Lolô, pois as pessoas ignorantes acreditam que ele vira lobisomem – acrescentou meu pai. Como eu lhe indagasse sobre o que era um lobisomem, meu pai esclareceu:
– É um bicho muito malvado, perigoso, valente, feio, cabeludo e fedorento, mistura de lobo e homem.  

Nada mais ele disse e nada mais lhe perguntei. Não mais revi Zé Lolô, que parecia, no dizer do povo, o cão em figura de gente. Soube que veio a falecer um pouco depois, afogado, ao tentar desenganchar uma tarrafa, prisioneiro de sua própria armadilha, de modo que não mais voltei a ouvi falar nesse esquisito personagem. O medo que senti quando o vi pela primeira e única vez, e que me provocou alguns pesadelos, foi aos poucos arrefecendo, e terminei por esquecê-lo quase completamente.

Contudo, quando fui escrever a série de artigos a que me referi acima, lembrei-me dele para ser a matéria inicial. Conversei sobre Lolô com alguns colegas do liceu, tendo um deles me dito que seu vizinho lhe contara, certa vez, uma estarrecedora história desse misterioso homem. No dia combinado, o meu colega me levou até a casa de seu vizinho, cujo nome era Francisco Cardoso. Cardoso então me narrou uma tenebrosa narrativa, que resumirei a seguir.

Vivia da venda de peixes, lenha e água potável, conduzida numa espécie de pipa rolante, chamada “roladeira”, protegida por dois aros de borracha, que ele puxava com o uso de um cambão. Morava numa casinha muito pobre, de taipa e palha, quase uma tapera, em local próximo ao centro da cidade, alagadiço na época das chuvas, conhecido como baixa. As portas e as janelas eram tapadas por esteiras de palha. O casebre tinha somente dois dormitórios, separados apenas por um tapume de palmas de babaçu. Num deles ficava o casal, no outro, oito filhos, sendo três meninos e cinco meninas, das quais três púberes.

O senhor Cardoso, um tanto constrangido e penalizado, aduziu que corria o boato de que o próprio Lolô se encarregava de deflorar as filhas, pois, segundo ele mesmo justificava, “não ia plantar melancia para os outros comerem”. Diziam que quando os seios das meninas começavam a despontar e ele notava que as axilas começavam a ter penugem, mandava a garota subir num galho de árvore, para examinar se “a ‘fruita’ já estava ficando inchada”, e, portanto, de vez.

Elas o acompanhavam nas pescarias, noturnas ou diurnas, para levarem algum utensílio e para tratarem os peixes, tirando-lhes as escamas e as vísceras. Enquanto ele pescava com uma tarrafa, lançando-a em diferentes locais, elas, debaixo de uma árvore ribeirinha ou resguardadas por uma moita, usavam os anzóis.

Muitas vezes a tarrafa enganchava numa pedra ou em alguma raiz; Zé Lolô, homem de muita coragem e longo fôlego, então mergulhava, para desembaraçá-la. Em duas ou três ocasiões, ao fazer esses mergulhos, foi atacado por jacaré. Atracou-se com o bicho, trazendo-o para fora do rio, até dominá-lo e esfaqueá-lo. Chegou a ser comparado a Tarzan, pois numa das películas da época esse herói cinematográfico cometia essa façanha, que hoje seria considerada de pequena monta, sem nada de espetacular. Ganhou notoriedade com essa proeza, embora alguns dissessem que isso não passava de “história de pescador”.

Um caçador, conhecido de Francisco Cardoso, lhe narrou que certa feita foi fazer uma caçada, numa noite de quinta para sexta-feira. O céu estava um tanto nublado, e nem sempre a lua cheia se mostrava em toda sua glória. Mas, no momento em que os cachorros latiram desesperados, a acuar um bicho, ela saiu de uma grande nuvem escura, e brilhou com toda intensidade. O caçador viu que eles rodeavam um grande animal, de espécie que ele jamais vira.

O bicho era peludo e tinha o tamanho de um urso, embora não fosse gordo e demonstrasse ter muito mais velocidade e agilidade. Em determinado momento, o homem viu as suas orelhas grandes e pontudas, e os seus olhos brilhantes e vermelhos como dois tições em brasa viva. Apontou-lhe a arma e atirou. A assombração, que só podia ser um lobisomem, soltou um alto e pavoroso esturro de ódio e dor. Deu um enorme pulo por cima dos cães, e seguiu mata adentro como um raio. As pegadas eram enormes e não se pareciam com a de nenhum outro bicho da região.


O caçador jurava com a mão sobre a bíblia que a sua história era verdadeira, e que a marmota era um lobisomem. E que o lobisomem era Zé Lolô, pois dias depois ele ainda apresentava um ferimento no ombro. Todavia, Francisco Cardoso, para não passar como tolo ou bisonho, arrematou sua narrativa dizendo que tudo talvez não passasse de “história de caçador.”    

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A CRÍTICA NÃO PODE MORRER


A CRÍTICA NÃO PODE MORRER

 Cunha e Silva Filho

          Creio que o estado da atividade da crítica literária no  país me leva a uma antiga  questão  ventilada com muito interesse pelo crítico  impressionista Álvaro Lins (1912-1970) a propósito da discussão do estado de crise na poesia  em que se encontrava  naqueles tempos de militância dele em rodapés de jornais, mormente   do Correio da Manhã,  no qual atuou, por muito tempo,   como seu mais  arrojado  analista  de obras  lançadas  ao público, quer literárias (ficção,  poesia,  teatro), quer  históricas, filosóficas ou de outra natureza.

        Lins, sempre lúcido,  afirmava que a alegada  “crise” na poesia não era sinal de decadência, mas de vitalidade,  de  efervescência,  de superação,  renovação,   que antes  acentuava  as energias   criativas, nunca  sendo, portanto,   a morte de um gênero. Era mais ou menos  isso que  intentava  transmitir naquele estilo seu  tão pessoal  como se estivesse  sempre  dando   aulas  ao leitor, porém sem  dogmatismos e soberba.

       No sábado  passado,  li no  Segundo Caderno do Globo, Prosa e Verso,[1] uma resenha de  título entre  polêmico e irônico,  “Crítica literária,  você ainda está aí?”, de  Victor da Rosa. O resenhista, também ele próprio um   crítico literário,   comenta  três publicações  recém-lançadas que têm  como  eixo central  estudos  críticos de três livros, As formas de romance, de Felipe Charbel, Henrique Guimarães e Luiza de S. Mello (org.), Literatura e animalidade, de Maria Esther Maciel, e Armadilha para Ana Cristina e outros textos sobre poesia contemporânea, de Sérgio Alcides.

      Não tendo evidentemente lido nenhum dos livros  mencionados pelo resenhista, apenas desejo  assinalar algumas  considerações em torno  do que me suscitou o resenhista no tocante à discussão, de resto,  polêmica,  do estado atual no país da crítica literária como prática desenvolvida principalmente por professores universitários, em particular pinçado algumas observações  afloradas pelo  resenhista, observações que há tempos  têm se tornado igualmente   do meu interesse teórico e de práxis crítica[2]

       Meu intuito é mais provocativo, ou seja, de suscitar novos questionamentos sobre a condição hoje da crítica  literária  brasileira tendo em vista que  o número de críticos e ensaístas ( não falando aqui  de tantos e tantos autores novos surgidos ultimamente no país) nos tempos correntes, se multiplicaram  enormemente, a ponto de não  mais  nem podermos acompanhar o que uns e outros estão fazendo  no momento e em que  lugares do país.

       É certo que, hoje, existe  um leque mais amplo de correntes críticas  seguidas por tantos outros  críticos e ensaístas nossos, cujo divisor de águas, no Brasil,  se iniciou  a partir das querelas   travadas, no  passado, dividindo os críticos entre  o Impressionismo e a Nova Crítica (através do esforço  pioneiro, entre nós, de Afrânio Coutinho, 1911-2000).

       Daí então,  foram-se se adaptando no país novas correntes críticas importadas da Rússia, da França, dos EUA, do Mexico,  da Inglaterra, da Itália, da Espanha, da América  latina, da América do Sul, e da Alemanha já  despojadas de subjetivismos superados, sobretudo  com  o  surgimento do estruturalismo na década de setenta do século  passado, seguidos, depois, de  autores que foram  aparecendo  como I.A Rchards, Roman Jakobson, René Welleck, Austen Warren, Eric Auebach, George Poulet, Hillis Miller,Stanley Fish, Hans Robert Jauss, Lévi, Strauss, Emil Staiger,  Michel Dufrenne, Roland Barthes,Todorov, Vítor Manuel de Aguiar e Silva (por sua exposição teórica   fundamentada nas mais atualizadas leituras  de teóricos de maior evidência no cenário  cultural do Ocidente), assim como  fez Luiz Costa Lima em seus dois volumes de teoria literária e,  de certa forma pioneira, Massaud Moisés pela contribuição  notável de obras de referência sobre  teoria literária e prática  de análise literária.

      Poder-se-ia citar a obra Teoria da literatura, organizada de  A. kibédi Vargas, professor de literatura  francesa na Universidade Livre de Amsterdã, Holanda, com apresentação de Jacinto do Prado  Coelho  traduzida em Portugal,  que  reúne uma série de  textos teóricos de teóricos europeus  menos conhecido até de  estudiosos  de teoria literária.Uma outra obra que, menos densa do que a de Aguiar e Silva,  seria O conhecimento da literatura, do críticos e ensaísta  português Carlos Reis, muito útil pela excelência de  informações  bibliográficas atualizadas no campo da teoria literária.

      No Brasil,  contamos também com  a obra Teoria literária (1979), organizada pelo crítico e teórico  Eduardo Portela, reunindo  ensaios  importantes de autores  nossos.Para   estudantes  de letras,  podiam-se citar as obras Teoria literária (Editora Ática), de Roberto Acízelo e as obras  de Rogel Samuel, Manual de teoria  literária  e Modernas teorias literárias: breve introdução,  publicadas  pela Editora Vozes.

      Saussure, Julia Kristeva,  Foucault, Blanchot, Greimas, Derrida, os estudos da Psicanálise freudiana, Walter Benjamin, Bataille,  Genette,  Deleuze, Lacan, Mihail Bakhtin,  William Raymonds, T. S. Elliot,Charles Sanders Pierce, Jean Paul Sartre,  Althusser, Georg Lukács, Lucien Goldamann,  Bachelard, Adorno,  Terry Eagleton, Jonathan Culler, Harold Bloom,  Umberto Eco, Frederic Jameson,  Roman Ingarden, Hans-Georg Gadmer, Wofgang  Iser, Susan Sontag, Edward Said e muitos e muitos    outros.

   Diante de tantas correntes críticas surgidas nos  últimos anos, voltadas para  aplicações  de análises de literárias  nos campos do marxismo, da fenomenologia,  teoria pós-colonial, teoria  feminista, discurso  da minoria, teoria queer, do pós-estruturalismo,  da desconstrução,  da psicanálise, do novo historicismo, materialismo cultural, além das mais remotas,  formalismo  russo,  new critcism, seria muito   temerário falar-se em morte  da crítica literária.[3]

       Todo esse  imenso  corpus teórico estará sempre acenando  para  seguidores  que  se afinem  com  a sua base teórica e até as leve a maiores investigações  do fenômeno literário e da práxis da crítica.
     
  Não faltarão  críticos literários e ensaístas  que levem adiante suas pesquisas, seja de autores  passados,  seja de autores  contemporâneos, nacionais e estrangeiros.  E eu arriscaria ainda asseverar que, no domínio da crítica literária no futuro,  haverá mais  autores  se especializando em determinadas  épocas da história  literária  universal,  ou em determinados autores, ou mesmo  num  só autor, Isso  já se tem feito  em centros adiantados,sobretudo americanos.

      Não é, pois, uma novidade. Contudo,  vejo esse como um dos caminhos  pelos  quais a crítica literária,  em livro, na internet, na universidade, de autores e pesquisadores  independentes terá  um lugar,voz e  vez.

      Onde houver um  espaço  de divulgação  e de interlocução,  aí  estará a crítica literária  ainda fecundante  e pronta para novos agenciamentos. E diria mais, sem  pessimismo algum,  uma espécie de competição intelectual saudável  caracterizará  os novos  tempos  da crítica literária e dos estudos teóricos. O que os tempos atuais    mudaram  foi a relação entre o crítico  e o leitor. Desapareceu o estrelismo, marca dos tempos do antagonismo  entre  Impressionismo  e  Nova Crítica. O espaço  da discussão  globalizou-se,  arejou-se,  não se confina mais  aos  grandes centros do  país mas se alastrou   por todas as regiões  brasileiras. Não há mais tão forte hegemonia do eixo cultural  Rio de Janeiro-São Paulo.

     A atitude diante da crítica deverá ser feita de igual para igual, de pesquisador para pesquisador,  seja  ele da universidade, seja  da internet, em sites e blogs. Todos  estarão contribuindo para um avanço dos estudos literários. Acabou a o tempo do mandonismo  intelectual,  dos barões das letras. Vale o trabalho de cada um  somado aos trabalhos de todos. O diálogo entre teóricos e críticos,  desta forma,  será muito mais democrático,  sem firulas de  superioridade,   dede patriarcas  do domínio dos saberes.  O que deles todos devemos esperar é humildade,  competência,  originalidade  e avanço  no domínio  cultural. A crítica literária  não  pode  morre. Sem ela,  o que há de ser do julgamento,   da avaliação  e  e da formação  de melhores leitores. A crítica é uma bússola. Nesta condição única, singular, específica, vitalizada  permanecerá como um  aviso aos navegantes de todos os tempos.
  
NOTAS
   
[1] Jornal O Globo. Segundo Caderno. Prosa e Verso, p. 06, Rio de Janeiro,  20.0.2016.
[2] Cf. alguns breves artigos meus sobre questões  relacionadas à situação  brasileira da crítica literária. Ver meu blog. “As ideias no  tempo,” ou  os mesmos  textos  na minha coluna “Letra Viva,” do site “Entretextos”, de Dílson Lages Monteiro. Ver também   no site Academia.edu., - Francisco da Cunha e Silva Filho. Consultar ainda minha pesquisa de Pós-Doutorado em Literatura Comparada,   sob o título  Álvaro Lins e Afrânio Coutinho: dois críticos e uma polêmica.  Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em  Ciências da Literatura. Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. .Supervisor: Professor Titular Doutor  Eduardo de Faria Coutinho.. Faculdade de Letras da UFRJ, 2º semestre de 2014,  167 p.

[3] EAGLETON, Terry. Literary theory : a very short introduction.  Oxford University Press,  2000.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Duas homenagens a José Marques da Costa

Cidade de Alto Longá

Duas homenagens a José Marques da Costa

Meu saudoso pai(José Marques da Costa) irmão da ex-funcionário dos Correios e Telégrafos de Campo Maior Julita Marques da Costa(in memoriam), será homenageado em Teresina dia 31 de agosto de 2016

O mesmo estará dando nome a uma rua provavelmente no
as imediações do Zoobotânico

José Marques foi vaqueiro dos bons, administrador das fazendas de Juca de Castro(Altos e Alto Longa), Vereador por Alto Longá (1958-1962), proprietário rural, empresário no ramo de empresa de Ônibus, Comerciante em Alto Longa e Teresina, foi proprietário de uma  vacaria na Catarina(Teresina ainda pequena) e foi o grande responsável pelo desenvolvimento  e criação da feira aos sábados em Altos, quando ele em uma Camioneta Willis Drive(adquirida na Casa Inglesa em 1959) transportava ás sexta-feira, tarde e noite as mercadorias e animais para serem comercializadas(inicialmente muito pequena e depois transformou-se em gigantesca feira livre).

Papai fabricava rapadura e cachaça(Engenho secular da fazenda Bonsucesso-Altos atualmente Pau Dárco do Piauí e aos domingos fazia a entrega dos referidos produtos aos  comerciantes ao longo da estrada Altos -Teresina, dentre eles: Mucuim, Moraes e em Teresina, Flor, Agostinho Nogueira Lima etc.

Itamar Abreu Costa
Cardiologista e escritor

UM LEGADO DE DIGNIDADE E HONRADEZ DEIXADO A SEUS DESCENDENTES

Hoje volto minhas atenções para a trajetória de vida luminar percorrida por um cidadão de bem, que durante oito décadas, descreveu uma história digna das mais nobres referências que se possa estabelecer. É piauiense e meu inestimável conterrâneo, do qual sinto orgulho de citar. Seu nome é JOSÉ MARQUES DA COSTA, nascido a 02 de fevereiro de 1932 do século passado, na Fazenda Cajueiro, município de Alto Longá – Piauí. É filho do casal Agustinho Marques da Costa e Ernestina Marques de Araújo, família tradicional de minha terra. Aos 11 anos foi estudar em Teresina, a capital, a convite de parentes e amigos da família, época de forte apreensão para os brasileiros. O ano era de 1943, de muita tensão nervosa, pelo conflito da II Guerra mundial que estava começando. José Marques foi matriculado no Colégio Diocesano, um dos mais conceituados da época. Eram seus colegas de jornada estudantil Paulo Marques, Francisco Marques, Geraldo Marques, Carlos Said, Itamar Caldas e outros, todos oriundos da elite piauiense. José Marques não arredava sua mente e a grande saudade que sentia das Fazendas Pequizeiro, Pernambuquinho, Invejada, Garcinha, Bonsucesso e outras administradas pelo seu pai Agustinho Marques. E isso se constituía numa tortura diária, pelo cheiro cativante que sentia da terra molhada pelo orvalho da manhã e o aroma do campo exalado pelas rosas, jasmim, alecrim e patchouli.
Certo dia não suportando a pressão da saudade, simulou um argumento de ter sido informado que sua mãe Ernestina estava doente e carecendo de sua ajuda. O casal da casa a que era hóspede, sensibilizados, liberaram o jovem José, no compromisso de ele voltar aos estudos tão logo sua genitora melhorasse da saúde. Ao chegar à fazenda, os pais ficaram apreensivos com a sua chegada súbita, gerando um misto de alegria e tristeza pela saudade que sentiam do jovem. Fizeram preleções de praxe e acataram a decisão do filho. A vida de José Marques era voltada para o campo, seu mundo predileto e, apesar da idade, começaram a fluir idéias verdejantes de um trabalho fecundo voltado para o que gostava e que era seu único sonho. Tinha 15 anos de idade, de cor branca, forte, aparência saudável e uma disposição ferrenha impressionante. Nesse ínterim recebeu de Noé Fortes uma proposta de reunir o gado que acabara de comprar, espalhado por diferentes regiões, no que acatou de imediato e foi de sucesso o seu labor, conquistando a confiança do Empresário.
José Marques com sua aparência bonita lhe facultou conquistar o coração de muitas jovens daquela época. Namorava uma linda morena de nome Antônia, que residia nas proximidades da residência dos avôs materno Antônio Rodrigues e Joana, na agradável fazenda Cruzeiro, município de Altos, separada da Garcinha, onde morava os pais, pelo legendário Rio Gameleira. Nas férias, Francisca, que estudava e trabalhava em Teresina, se encontrou com José Marques e como num conto de fada, se apaixonaram, iniciando daí um forte namoro, com o casamento que foi realizado em 1949, ele com 17 anos de idade, apenas. Um casório que uniu famílias importantes, de Altos (Cruzeiro) e Alto Longá (Garcinha). Agustinho Marques e Ernestina ficaram felizes com o matrimonio. Agustinho era um homem alto, forte, um vaqueiro-lutador, guerreiro destemido, que administrou com proeminência as propriedades dos irmãos João de Castro Lima (Juca Feitosa) e Laurindo de Castro Lima. O seu trabalho ficou reconhecido por toda região. Ernestina era uma mulher de personalidade forte, exímia comerciante, que comprava pele de animais, cera de carnaúba, tucum e coco babaçu. Em 26 de dezembro de 1950, do casal José Marques e Francisca nasceu o filho primogênito, que recebeu o nome de José Itamar Abreu Costa e veio residir em Alto Longá. Francisca auxiliava no comércio de Adonias Bezerra Lima. José Marques passou a trabalhar como comerciante. Tinha uma mercearia no Mercado Público da cidade e um Quiosque em frente ao mesmo e por trás da Igreja Matriz de N.S. dos Humildes. Uma vacaria e a cria de gado leiteiro no Sítio Crioly. Sua residência inicial foi no bairro da Piçarra, em frente à residência do casal Manoel Dengoso e Maria Dengosa, exímia especialista na confecção do bolo frito, de agrado geral da comunidade. E sinto saudade daquele bolinho tão gostoso! O visinho de lado era D. Lousa e João Sabino. Posteriormente mudou-se para o centro passando a residir numa casa ampla, que pertencia ao pai Agustinho Marques. Ali nasceram Francyslene e os gêmeos Ismar e João de Deus. José Marques passou a trabalhar na Coletoria do Município, em virtude da amizade que nutria com a família Cabral (ex-prefeitos Antonio Cabral e Pitosa). Em 1954 comprou um imóvel do Tabelião Público Temístocles de Area Mattos e sua esposa Professora Geralda Mattos, minha inestimável Professora de saudosa memória.
José Marques era de uma versatilidade invejável, competente, meticuloso, audacioso e organizado. Sempre sonhava com coisas grandes. Não se acomodava com as conquistas já realizadas. Em 1957 foi designado por Agustinho Marques para residir na Fazenda Bonsucesso, no município de Altos e administrar mais de cinco mil hectares de terra que pertencia à viúva de Juca Feitosa, Senhora Dorinha, que residia em Belo Horizonte. Foi um desafio para a família. A esposa Francisca e os filhos do casal. Após a mudança, Itamar passou a estudar na Escola Reunida Basílio de Abreu Sepúlveda (seu bisavô) no Cruzeiro, recebendo a orientação de Tia Marica e Doquinha. Bonsucesso era uma fazenda bonita. Em frente à casa grande um belíssimo pátio e logo após, a visão do alto da casa do engenho, que mostrava um amplo canavial, onde era feita a rapadura e a cachaça de alambique. O extrativismo era pujante da cera de carnaúba e do tucum. Havia criação de gado, ovelhas, porcos e bodes. Em 1958 Itamar foi estudar em Beneditinos, na casa dos tios Adaildo e Nazareth, irmã de José Marques. Pelo Banco do Brasil em Campo Maior, José Marques comprou uma camionete Willy. As propriedades eram rendosas e isso facultava o crescimento do jovem administrador. Em 1958, por sugestão do pai, José Marques foi eleito vereador pelo município, mandato de 4 anos. Em 1959, Itamar foi estudar em Teresina na casa de sua tia Julita.
José Marques era criativo, comerciante nato e com o desejo frenético de prosperar sempre. Em 1962, foi candidato a reeleição não obtendo sucesso, por não possuir nenhuma vocação política. Comprou uma casa em Teresina à Rua Primeiro de Maio esquina com a Taumaturgo de Azevedo e um terreno ao lado da Rua Primeiro de Maio. Mudou-se com a família para a capital. Já em Teresina montou uma vacaria no local Portal de Catarina, sendo gerenciado por Manuel “Pé de Estrondo.” José Marques, um lídimo empreendedor, junto com Noé Fortes e Raimundo Vasconcelos, fez a Senhora Dorinha uma proposta de compra das propriedades administradas por ele. O negócio foi realizado e ao cabo de cinco anos todas as terras haviam sido pagas. Em 1982 José Marques dividiu com os quatro filhos parte das terras, cabendo a cada um 450 hectares, estimulando-os a trabalharem nas mesmas. A Fazenda Alto do Maceió vendeu ao médico Hugo Prado que, posteriormente transferiu para o Exército, onde hoje é um Stand de Tiro, dando uma certa proteção aos vizinhos (assistência médico-odontológico).
José Marques da Costa tem uma trajetória de vida louvável. Com a esposa Francisca o casal criou os quatro filhos, dando aos mesmos uma boa educação. O primogênito formou-se em Medicina. Hoje é proprietário do Instituto do Coração, em Teresina, um Órgão Hospitalar que desfruta do melhor conceito pelo padrão de qualidade que ostenta administrado condignamente com a esposa, Dra Edilane, minha sobrinha, dando ao ITACOR uma excelência de organização reconhecida pela comunidade. Edilane é exigente, organizada, metódica e perfeccionista, daí a razão de sua desenvoltura. A filha de José Marques, Francyslene, é Professora na Universidade Federal do Piauí. Os gêmeos Ismar e João de Deus têm curso superior e hoje são funcionários do Banco do Brasil.
Na década de quarenta e cinqüenta Alto Longá era uma cidade carente de tudo. Não tinha estrada, sem energia elétrica, sem saneamento básico. Faltava praticamente tudo. O transporte em uso, naquela época, era através de animais de raça, o cavalo alazão, a burra formosa, que eram vistos pelas ruas da cidade com freqüência. Os ciganos, vez por outra, passavam pela terra e traziam lindos animais, que negociavam com os habitantes da cidade. Cícero era o líder dos ciganos. Alto, de boa aparência e ostentava jóias de ouro pelo corpo, inclusive os dentes mostrados quando sorria. Era gentil, simpático e habilidoso e negociava seus animais com certa facilidade. José Marques quando passava montado em sua burra faceira e bem equipado atraía a atenção dos que estavam em sua volta. José Marques continuou sua trajetória de um trabalho incansável, administrando seus bens, residindo em Altos, até completar 75 anos, quando começou a sofrer um trauma psicológico mostrando sinais de senilidade precoce. Em decorrência desse fato, foi morar em Teresina sob os cuidados da filha Francyslene. Quando a saúde foi se agravando, foi montado para ele um apartamento cedido por dona Luiza, pessoa íntima da família, no conjunto residencial João Emílio Falcão, sendo-lhe dado todo apoio e os cuidados médicos de que se fazia mister.
No dia 27 de setembro de 2013 José Marques da Costa faleceu aos 81 anos de idade, deixando em todos o marco da grande saudade, pelo homem de conduta ilibada que foi, bom filho, bom pai, bom esposo, bom amigo e excelente administrador, que tratava a todos com humildade e urbanidade. Como uma justa homenagem o Auditório Cultural do Hospital ITACOR recebeu a denominação de Patrono José Marques da Costa, cuja memória será lembrada para sempre pelos seus pósteros. A FALRES, através de seu Presidente José Alves Fortes Filho e o colegiado da Academia, fizeram-lhe significativa homenagem admitindo-o como Patrono da Cadeira 56, que será doravante ocupada pela filha Francyslene Abreu Costa Magalhães, uma merecida, justa e digna homenagem a um homem do campo, cujo labor será lembrado eternamente por todos. Disse Bob Marley que a saudade é um sentimento, que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos. Da eternidade José Marques da Costa poderá contemplar a beleza imensurável da obra que edificou, para a felicidade, alegria e grandeza de nossa gente. As coisas acontecem na hora certa. Exatamente quando devem acontecer! Momentos felizes louvem a Deus. Momentos difíceis busquem a Deus. Momentos silenciosos adorem a Deus. Momentos dolorosos confiem em Deus. Cada momento agradeça a Deus. “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá.” (João 11.25).
Boa Vista – Roraima, 25 de Novembro de 2014.
_______________________________________
FRANCISCO DE ASSIS CAMPOS SARAIVA
Conterrâneo de José Marques da Costa
Grande admirador de sua obra      

domingo, 21 de agosto de 2016

UM POEMA DE AMOR


UM POEMA DE AMOR

Elmar Carvalho

            Eu me entrego todo
            a teu corpo de doação
aberto como
corola e cálice
aberto para a
recepção de meu corpo
que também se entrega.
            Percorro
           – minhas mãos –
    percorro teu
    corpo em ânsia
    em busca de seus
    recantos secretos
de suas grutas escondidas
de suas fendas perdidas
de suas chagas naturais.
            Eu me te entrego
            que te me entregas
como uma dádiva
que te dou e que me dás.
            Nos instantes
            de nossos afetos
percorro os relevos e as vertentes
de teu corpo como
quem penteia
cabelos de nuvens
            e altera
            a posição
            das estrelas.
            E desejaria,
            nessas horas
de lúcidas loucuras
que um brutal espasmorgasmo
nos consumisse
nos braços um do outro.
            E que uma
            longa vertigem
nos transportasse
            ao paraíso
dos sonhos das quimeras
            e dos loucos.

           Parnaíba, 79 

sábado, 20 de agosto de 2016

Não voto em caricatura


Não voto em caricatura

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Começou o período de campanha eleitoral. Para início de conversa, perpassa-me, como na maioria dos brasileiros, a sensação de náusea à classe política, em geral. Assiste-se a desenfreada e faminta tara por um mandato eletivo, como rapinas atrás da presa, embora estigmatizados de fichas sujas. Sem falar na desavergonhada corporação do que “vou receber, se virar a casaca”.

         Bote de lado qualquer ranço ideológico ao nobre povo cubano, exemplo de cidadania e patriotismo, apesar do implacável cerco americano à sua tentativa de prosperidade. Repare o depoimento do médico cubano, Orlando Leskay, do programa “Mais Médicos”, de Porto Alegre. Acompanhado de colegas de profissão, durante coletiva com a imprensa, Leskay lascou, em defesa de seu povo: “Para nós o mais importante é o sentimento de ajudar as pessoas. Sabermos que temos garantia de segurança. A família cheia de saúde, possibilidade de atendimento médico. Recebo o meu salário, e, no meu país, nenhum de nós está contando quanto nós ganhamos. Isso não é importante para nós. Quando nossa turma se reúne, é para falar do trabalho no posto de saúde. Ninguém fala de dinheiro, do que vou fazer com esse dinheiro. Falamos de quantos pacientes com tuberculose atendemos e estão bem. Ou de um diabético descompensado, agora recompensado. Nós respondemos a um sistema social, enquanto, em outros lugares, as pessoas pensam em dependência do sistema social. No Brasil, um doutor não nos entende, porque responde a outro sistema social. Nós, desde a infância, somos educados com um sentimento diferente, coletivo. É preciso que vocês entendam isso. Nós não vamos mudar. Nós não vamos morrer, tal como éramos no período da colonização e exploração capitalista”.

         Filtrando-se certo exagero da utopia cubana, passada e vigiada pela repressão da ditadura, observa-se, entretanto, testemunho patriótico do médico Orlando Leskay. Provoca inveja na consciência de brasileiros, mais ávidos de direitos pessoais do que deveres de cidadão. Na defesa do prato do que da pátria (só nos esportes).

         Quando se observa o campo político no Brasil, espanta-se com a retórica histérica, populista, apaixonada, ideológica. Por trás da verborreia, só planos pessoais. Apela-se de tudo, até para o nome de Deus, na fúria esbaforida e ofegante pelo voto. Nem precisa citar conhecidas figuras dos escândalos, palavrões, tabefes e garrafadas em público. Servem apenas de caricaturas na missão tão nobre da política, como a inglesa. Na campanha eleitoral para presidente americano, destaca-se uma dessas caricaturas, Trump.


         Candidatos caricaturescos berram, ofendem adversários, prometem o impossível, testemunham a própria mediocridade com palhaçada para seduzir, especialmente, a plebe sofrida, desinformada de consciência cívica, responsável, coletiva, em vez das merrecas prometidas para vender seu voto. Falta um Orlando Leskay nessa história.   

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XVII


HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XVII

Prostituição e tragédia familiar

Elmar Carvalho

Com a finalidade de colher informações para o jornal mimeografado O Liberal e para futuros trabalhos no campo da história social recente e da  sociologia eborense, Marcos fez várias entrevistas com idosas e jovens prostitutas, e também com antigos frequentadores de lupanares. Ele tinha ciência própria de certos fatos, histórias e costumes, porque esporadicamente fazia as suas incursões e “vistorias”, tanto na alta como na baixa zona meretrícia, bem como sabia de fatos que lhe foram repassados pelos seus colegas e amigos. Dizia estar fazendo laboratório literário.

Em decorrência desse seu trabalho jornalístico e intelectual ficou sabendo que muitas mulheres caíram na difícil “vida fácil” após terem se entregado, em confiança, a seu noivo, que lhes prometia casamento; algumas por gosto, e outras por certa irresponsabilidade juvenil. Quando os pais tomavam conhecimento, por causa de gravidez ou não, de que a filha não era mais virgem, as expulsavam de casa. Muitos chegavam a dizer que a filha “desonrada” era um “dedo cortado fora”. Não servia para nada.

Sem estudo e sem aptidão para o trabalho doméstico, que não tinha as garantias trabalhistas atuais, muitas iam exercer o meretrício, que, ao menos enquanto eram jovens, era muito mais bem remunerado. Mas Marcos suspeitava que muitas iam em busca da chamada vida fácil, do trabalho menos estafante e mais bem pago, e algumas desejavam mesmo o hedonismo do sexo, da dança, da música e da bebida. Sentiam prazer no exercício da profissão e do gozo cotidiano e repetido com diferentes parceiros, como se isso fosse uma constante ventura e aventura.

No mês de junho alguns cabarés costumavam fazer os arraiais dos folguedos de São João e São Pedro. As quadrilhas eram animadas e tinham muitos participantes. Algumas eram bem simples, enquanto outras tinham certo requinte. Os sanfoneiros afamados eram convocados, e traziam seus parceiros, tocadores de pandeiro, triângulo, chocalho e zabumba. O carnaval também era comemorado, com bailes alegres e cheios de enfeites. Muitas raparigas ostentavam belas fantasias e enigmáticas máscaras. Os instrumentos de sopro imperavam, com repertório de esfuziantes marchinhas e saracoteantes frevos.  

Mas a prostituição tinha os seus riscos e mazelas, que seguem sinteticamente enumerados: gravidez indesejada, doenças venéreas, sífilis, abusos de homens grosseiros ou embriagados, logro na hora do pagamento dos honorários e brigas com outras raparigas e homens por causa de ciúmes e outras rixas, às vezes antigas, que afloravam durante as bebedeiras. Muitas mulheres, quando não recebiam o pagamento combinado, puxavam uma lâmina de barbear, uma faca ou um canivete para compelir o parceiro a cumprir a avença verbal. Se mesmo assim o homem não efetuava o pagamento, algumas chegavam a lhes provocar lesões, havendo mesmo alguns casos de morte. Por causa de indesejada gravidez, alguns abortos eram executados pelas “fazedoras de anjos”, mediante perigosas beberagens e curetagens.

Algumas dessas mulheres, as mais belas, mais jovens e mais afortunadas, eram aceitas no alto meretrício, onde tinham quarto e cama mais confortáveis, mais higiênicos, e onde a comida era de melhor qualidade. Outras, as mais feias ou mais velhas, só conseguiam alugar um quartinho, guarnecido apenas por uma tosca e estreita cama, de colchão de palha, e uma rústica mesinha, sobre a qual eram colocados um espelho pequeno, uma bacia de alumínio, um litro com água, um sabonete, quase sempre da marca Gessy, e um pote de talco Cinta Azul. Muitas colocavam na parede um enorme pôster de seu ídolo favorito, cantor ou ator de fotonovela, que vinha encartado em revista feminina da época.

Quando a prestação de serviço terminava, o homem segurava a bacia com as duas mãos e a mulher lhe fazia as abluções na genitália, com a garrafa d’água e o sabonete. Isso não era considerado uma humilhação da meretriz. Era aceito como o complemento indispensável e natural do seu trabalho.

Alguns homens, os mais delicados ou sensíveis, dispensavam essa higiene, e eles mesmos se asseavam como podiam. Os quartinhos mais humildes sequer dispunham de luz elétrica e tudo isso era feito à luz mortiça de uma lamparina a querosene. Muitas dessas mulheres tinham na pele marcas de doenças, como sarampo ou varíola, e cicatrizes de facas, dentadas ou unhadas, resultantes de brigas com clientes ou colegas.

Gracinha, além de filha de uma viúva que veio a exercer o meretrício, como já dito, era neta materna de Marlene, afamada prostituta de Évora, nos áureos tempos da carnaúba e de outros produtos do extrativismo. Nos seus anos de juventude e beleza fora a de mais extensa e seleta freguesia. Além de bela, era perita em sua arte, e se esmerava em bem tratar os homens que a procuravam, dando-lhes carinho e palavras amorosas e de delicado estímulo. Tinha ou fingia êxtases que deixavam os homens com o ego lá em cima, como se fossem o maior amante do mundo. Se se sentiam enganados, jamais reclamavam de tão reconfortante logro.

Contudo, não foi Marlene perfeita em sua profissão, porque veio a se apaixonar por um de seus amantes, o que ainda hoje é tido como erro grave. Deu-lhe tudo, tudo, até mesmo dinheiro; perdeu dinheiro, ao afastar-se dos amantes mais lucrativos, para se dedicar ao gigolô que tanto amava. Um dia ele, sem medir e sem adoçar as palavras, lhe disse de chofre:
– Depois de amanhã vou me casar. Nunca mais virei aqui. Não me procure mais e não me mande recado.

Nada mais disse, nem procurou ouvir. Virou as costas e se foi, sem aceno e sem palavras convencionais de despedida e desculpas, e sem se voltar uma única vez.


No dia do casamento, à boca da noite, Marlene foi até uma mercearia e bar, que havia perto. Sorrindo, cumprimentou uns homens que tomavam cerveja. Pediu um litro de querosene. Os homens a olharam com admiração, pois apesar de seus 37 anos de idade, ainda era uma formosa, simpática e atraente mulher. Um pouco depois chegou a notícia: uma rapariga se matara, incendiando as próprias vestes e lençóis, embebidos de querosene.