segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

DEPOIMENTO SOBRE FLORENTINO ALVES VERAS NETO

Fonte: Google

DEPOIMENTO SOBRE FLORENTINO ALVES VERAS NETO

Alcenor Candeira Filho

     Órfão de mãe com menos de um ano de nascimento e de pai aos doze anos de idade, Florentino Neto nasceu em Buriti dos Lopes em 1969 e foi criado em Parnaíba pela avó materna, tendo sido estagiário da Caixa Econômica Federal na adolescência.
     Fui seu professor no curso de administração de empresas no Campus Ministro Reis Velloso da Universidade Federal do Piauí, notando ser ele um jovem inteligente e estudioso. Líder estudantil, presidiu o Diretório Acadêmico 03 de Março.
     Além do curso de administração, bacharelou-se em direito na Universidade Nacional de Brasília, ingressando no serviço público federal como servidor concursado da Fundação Nacional  de Saúde – FUNASA.
     Coordenador das  campanhas eleitorais de José Hamilton Furtado Castelo Branco em 2004 e 2008. Secretário municipal de governo (2005-2008) e vice-prefeito municipal (2009-2012).
     Prefeito de Parnaíba de 1913 a 1916.
     Como ocorreu com todos os municípios e estados brasileiros, o governo  de Florentino foi muito prejudicado pelos graves problemas econômicos e financeiros do país,  com quedas drásticas dos repasses federais, desemprego em massa e diminuição de arrecadação dos tributos em geral, o que o levou  a tomar sérias medidas de contenção de despesas, inclusive com a redução de 20% dos salários dos comissionados a partir de  abril do penúltimo ano de mandato. Graças a essas  providências a administração municipal, ao contrário da  maioria dos municípios do país, não atrasou um mês sequer o pagamento da folha salarial e o prefeito concluiu o mandato com todos compromissos contratuais devidamente quitados.
     Apesar das  dificuldades financeiras, Florentino conseguiu fazer uma boa administração, podendo ser lembradas como principais realizações:
     - construção e recuperação de praças e jardins ocupadas por camelôs e drogados  como a praça do mercado da Guarita, a praça da Santa Casa e a praça coronel Jonas de Moraes Correia;
     - aquisição de dezenas de veículos;
     - construção de Unidades Básicas de Saúde e de Unidades  de pronto Atendimento;
     - construção do Calçadão Cultural da Beira Rio;
     - Reforma e ampliação de Centros  Especializados de Saúde;
     - construções de creches;
     - implantação do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho);
     - informatização dos procedimentos licitatórios;
     - construção de ciclovia na avenida São Sebastião;
     - Programa “Amigos da Praça”, que envolve a comunidade na preservação dos espaços públicos;
     - implantação do Polo de Desenvolvimento Tecnológico;
     - Asfaltamento de diversas ruas e avenidas;
     - construção de ginásios poliesportivos;
     - campanha e parceria para implantação da  Zona de Processamento de Exportações de Parnaíba – ZPE;
     -  construção da Academia de Saúde do Conjunto Joaz Souza;
     Parceria com o governo federal para a construção de conjuntos habitacionais.
     Florentino Neto idealizou e implantou o Programa Pró-Estágio, possibilitando estágio remunerado, pago pelo município e por empresas privadas, a jovens estudantes de escolas municipais.
     Criou a Secretaria Municipal  de Habitação e Regularização  Fundiária, que beneficiou centenas de famílias  que receberam títulos de propriedade de imóveis devidamente registrados em cartório.
     No governo de Florentino Neto foram instalados em Parnaíba dois cursos de medicina (UFPI e IESVAP).
     Outro grande benefício para a cidade e pelo qual lutou bastante o prefeito foi a implantação em 2016 do serviço de tratamento de câncer, em parceria com a Clínica  João Silva Filho, Maternidade Marques Basto e Sistema Único de Saúde.
     Em entrevista-debate publicada no livro PIAUÍPSILON: UM PROJETO GEOPOLÍTICO EXCLUDENTE, do professor Vítor de Athayde Couto, - Florentino Neto vê as principais questões macroeconômicas e socioeconômicas de Parnaíba e região da seguinte forma:
    
             “Na verdade, eu considero que Parnaíba já viveu sua época,
             seus ciclos do apogeu econômico. Mais recentemente vivemos um
             grande período de estagnação econômica e não se observou nenhum
             movimento em defesa do crescimento, do desenvolvimento econômico
             da região.
             Nós temos dialogado com a sociedade, com o governo   do
             Estado e também federal sobre várias alternativas que venham viabilizar
             a alteração dessa trajetória , trazendo uma nova perspectiva para a
             região.
             Não há  como falar de Parnaíba dissociada da região muito
             póxima daqui, do Ceará, do Maranhão, que têm com esta cidade
             toda uma interação, uma troca de experiências, uma troca comercial,
             a prestação de serviços de educação, de saúde. Então, nós temos
             verificado essa possibilidade de buscar o desenvolvimento, mas também
             pensando que esse desenvolvimento tem que ser compartilhado com
             toda a região.
             Indiscutivelmente, nós temos em Parnaíba várias potencialidades.
             Nós temos o setor de serviços – e Parnaíba, cada dia, firma-se como
             polo educacional, pois temos vários cursos superiores.  Essa é  uma
             atividade que tem crescido muito.
             Parnaíba vem se firmando  como polo de saúde. Várias são as
             empresas que têm-se estabelecido, aliadas ao desejo do governo municipal
             de viabilizar esses empreendimentos”.

     Em maio de 2017 Florentino Neto assumiu o cargo de secretário de saúde do Estado do Piauí, anunciando como principal meta a ser cumprida a descentralização dos serviços.
     Considerando que Teresina ainda possui quase 80% dos médicos ativos no Estado e concentra mais de 70% das clínicas e hospitais registrados no Conselho Regional de Medicina – CRM-PI, o secretário entende  que uma das soluções para o problema é a descentralização dos serviços de saúde para que as pessoas do interior não precisem se deslocar para a capital.
     Tive a honra de exercer o cargo de secretário da gestão na administração de Florentino Neto, que é casado com Flaviana Veras com quem tem dois filhos.              

domingo, 14 de janeiro de 2018

Seleta Piauiense - R. Petit


FASES DO ANO

R. Petit - Raimundo de Araújo Chagas (1894 – 1969)

Janeiro! Eleva-se o rio.
Fevereiro — alaga os campos.
Março e Abril! Noites de frio,
bordadas de pirilampos.

Maio! Festa... sacramentos.
Junho — geme o órgão dos ventos,
buscando o luar de agosto.

Setembro e Outubro. É o verão.
Novembro, espalha alegrias
nas praias de Amarração.

Natal! Dezembro. O ano expira.
Trezentos e muitos dias
só de ilusões ... de mentira!

(1934) 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

VICISSITUDES DA VIDA

Poeta Cunha Neto. Fonte: Bitorocara Blog

VICISSITUDES DA VIDA

Elmar Carvalho

Recebi, nesta manhã, telefonema de meu pai, que noticiava o falecimento do poeta Cunha Neto, ocorrido em Campo Maior, de madrugada. Meu pai havia ido ao velório. Não pude ir ao sepultamento do bardo. Tenho recordações antigas dele. Quando eu tinha por volta de nove anos de idade, vi um folheto de sua autoria, que o meu pai recebera na missa matinal de domingo, a que tinha ido assistir na matriz, hoje catedral. O cordel falava sobre o festejo de Santo Antônio do Surubim, padroeiro da cidade. Cantava as proezas e a coragem dos vaqueiros, que são homenageados na festa religiosa, com um dia a eles dedicado. Senti orgulho do conterrâneo, e – por que não confessar? – uma certa inveja. Imaginei o meu nome estampado em um livro. Mas só fui despertar de verdade para a literatura um pouco mais tarde.

Tempos depois, vi outros livretos do poeta, com poemas que falavam da lagoa do Corró, da saudade, e das belezas arquitetônicas e naturais de Campo Maior. Zé Cunha Neto era um autêntico cordelista, também chamado de poeta de gabinete, porque manejava a palavra escrita, mas não era um repentista, cuja principal característica é improvisar, acompanhando-se por uma viola. Foi meu amigo e amigo de meu pai. Quando tomei posse de minha cadeira na Academia do Vale do Longá, Zé Cunha me prestou uma enternecedora homenagem, declamando um poema de sua autoria sobre a minha pessoa. Não precisaria acrescentar que fiquei deveras comovido. Isso significa que o poeta era despojado da mesquinha inveja e sabia reconhecer as qualidades de outra pessoa, de outro poeta.

Era um cidadão de bem e do bem. Sua mulher, dona Ana, foi uma boa e sábia companheira, que soube amparar e compreender o grande poeta popular. Nos últimos anos, vinha amargando forte depressão, que torturava seu espírito, tornando-o quase recluso, retraído, quando outrora fora alegre, expansivo e sociável. Lembrando-me dos seguintes versos de Antero de Quental: “Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração”, tenho a certeza de que o coração bondoso e tão sofrido do poeta Cunha Neto encontrou abrigo, amparo e lenitivo na destra do Senhor.

                                    *  *  *

À tarde, quando eu voltava de um passeio a um balneário de Timon, vi, na avenida Joaquim Ribeiro, um rapaz tentando entrar num casebre, batendo vigorosa e insistentemente na porta, que permaneceu fechada. Não sei se alguém respondeu às insistentes batidas, com alguma negativa. Sei que o rapaz afastou-se e foi sentar em uma soleira de porta, próximo. Começou a sorrir, aparentemente sem nenhuma razão. Talvez risse de si mesmo ou da possível negativa, que recebera. Seus cabelos eram esquálidos, maltratados; as roupas, velhas e manchadas, e o seu aspecto geral era de sujeira, como se ele não cuidasse de si mesmo. Os que estávamos no carro, achamos que ele parecia estar drogado.

Por tudo que tenho visto, lido e ouvido, considero que a droga foi o grande flagelo do final do século passado, e parece que continuará a ser o mal deste século XXI. Traz grandes malefícios ao viciado, que termina sendo um tormento, inicialmente, para a sua família, ao exigir dinheiro para o sustento do vício, e depois para a sociedade, quando começa a furtar e a roubar, para poder adquiri-la. Segundo os estudos e as observações, o crack vicia logo na primeira ou segunda vez em que é fumado, prejudica o cérebro e a saúde do dependente e muitas vezes o leva à morte.

Na ansiedade e na compulsão pela droga, o usuário é capaz até mesmo de assaltar e matar, e nesses momentos a sua consciência e freios inibitórios morais ficam completamente desativados. Às vezes, o crime hediondo é cometido contra parentes próximos e pessoas que o dependente amava. E a sociedade se queda perplexa, impotente, diante da brutalidade e da barbárie que se instaura, sem nenhum sentido e de forma avassaladora.

7 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Associação dos Comunicadores Sociais de Parnaíba – ASCOMPAR




A diretoria da ACOMPAR, representada pelo seu presidente, jornalista José Luiz de Carvalho, demais associados e todos os que fazem a comunicação em Parnaíba, consternados com o inesperado falecimento de nosso associado Osmar Dias, vem elevar aos familiares votos de profundos pêsames ao tempo em que roga o Deus Criador que o acolha em sua morada eterna com as honras e as glórias das quais é merecedor.

Parnaíba, 10 de janeiro de 2018.


Fonte: ASCOMPAR. Foto: web. Edição: APM Notícias.

GENTILEZA E CAVALHEIRISMO NÃO PODEM ESTAR COM OS DIAS CONTADOS

Fonte: Google

GENTILEZA E CAVALHEIRISMO NÃO PODEM ESTAR COM OS DIAS CONTADOS

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)


                - Dê-me licença – cavalheiro pedindo a determinada senhora permissão para abrir-lhe a porta.
                - Por que quer abrir a porta para mim? Acaso acha que sou alguma inválida, sem condições sequer de tomar as próprias decisões?
                - Claro que não, minha senhora: apenas quis tentar ser gentil...
                - Minha senhora?! Qual sua intenção? Estaria burilando alguma forma de me assediar? Cuidado, posso denunciá-lo, processá-lo!
                - Desculpe-me se agi tão mal assim! Até logo!
                Parece fictício, ainda, tal tipo de diálogo; todavia, será, não só possível, como muito provável que logo, logo saibamos ou sejamos partes em situações semelhantes. Atos de puro cavalheirismo, demonstração de esmerada educação ou de pura gentileza, a depender do interlocutor, poderão se constituir em mal-entendidos muito em breve; se é que já não o são, em certos casos. Atitudes que possam ser confundidas com insinuações preconceituosas, discriminatórias, tentativas de assédio moral ou sexual, estão na ordem do dia, esperando quase nada para se tornarem realidade, fatos consumados.
                Não estamos, com o que foi dito acima, querendo afirmar que situações semelhantes às descritas não possam, verdadeiramente, significar intenções de assédio ou exemplos bem acabados de insinuações preconceituosas; a margem de diferenciação entre essas e as ações, sabidamente gentis, educadas, civilizadas, às vezes, parece tênue, em outras, muito consistente, bastante larga; tênue porque, de modo a que não reste qualquer dúvida de que está ocorrendo o exercício de uma e não da outra, ou seja, faz-se presente uma atitude politicamente incorreta e não  uma imbuída de boas intenções, pode haver a necessidade de que ocorra entre as partes determinado tempo de conversação, interação ou de comunicação; distanciam-se, entendemos, pelo motivo inverso: de imediato, com um mínimo de atenção, é perfeitamente possível discernir, separar uma ação, manifestamente, impregnada de gentileza, respeito ou civilidade, de outra dissimulada, falsa, escamoteada; basta, para as contrapor, ou as diferenciar, que o assediador ou preconceituoso não se furte em bem demonstrar sua intenção, ou seja, fizer questão de não usar de subterfúgios diante do quer fazer, dizer ou como agir; ou que o emissor da ação gentil ou cavalheiresca não se valha de artifícios que possam induzir o interlocutor ou contatado a confundi-la com um ato de leviandade ou maledicência. Nesse tipo de interação, o momentâneo estado de espírito, a alta ou baixa estima, experiências anteriormente vivenciadas, o grau ou nível de estresse do ofendido ou “assediado”, vai ser de extrema importância no sentido de comparar o ato ou ação exercida pelo outro com conceitos de assédio, preconceito, gentileza, civilidade.  
                Diante de um mundo tão violento, precisamos envidar esforços, talvez extraordinários, no sentido de tentar evitar que possa acontecer, nos relacionamentos humanos entre homens, mulheres, heterossexuais, homossexuais, enfim, envolvendo quaisquer gêneros, ainda que subliminarmente, a “demonização” ou estigmatização de salutares práticas ou ações de gentileza, boa vontade, camaradagem; a ruptura nos processos de aproximação, interação, integração entre os indivíduos. Deve nos mover a certeza de que, nem sempre, está mal-intencionado aquele que propõe o contato; do mesmo modo que, somente muito raramente, está negativamente predisposto a qualquer tipo de relacionamento o contatado ou procurado. Convém nos policiarmos, mas também que nos desarmemos; abramo-nos às inúmeras possibilidades de interação social e camarada que o dia a dia nos proporciona, sem pré-conceitos firmados.
                Enfim, urge nos conscientizarmos de que gentileza, cavalheirismo e civilidade não podem estar com os dias contados; já, preconceito, discriminação, assédios criminosos, maledicência, dissimulação, bom que estivessem.          

A FOME

Fonte: Google

A FOME

Elmar Carvalho
    
           I
           
           a fome
que come
e consome
o “home”
            mora
em sua víscera sonora
                            e o devora
              como uma flora
                            cancerosa
                                         rosa carnívora
                  que aflora e o deflora
            de dentro para fora.

           II

a fome é tanta
e tanto espanta
que o ex-grevista de fome
hoje é grevista com fome
– ou melhor – desempregado
  pregado na miséria
                          de ser      gado       sub/ju/gado
fis/gado                       vis/gado               k/gado      

domingo, 7 de janeiro de 2018

Seleta Piauiense - Lucídio Freitas

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O incêndio

Lucídio Freitas (1894 – 1921)

O ar queima, o vento queima, a terra queima e abrasa.
Ondas rubras de Sol batem fortes na areia...
No espaço nem sequer um leve ruflo de asa,
Passa aos beijos do Sol que fustiga e esbraseia.

Fogo de um lado e de outro e o vento o incêndio ateia,
Da planície a fazer vasto lençol de brasa;
E o fogo sobe e desce, e volta, e mais se alteia,
E abraça e beija, e morde a ossatura da casa.

Nisto um grande rumor pela terra se escuta.
Braços abertos no ar, soluçando, o Castelo,
Se desmorona, enfim, depois de estranha luta.

Velho Castelo Real! ó sombra de outra idade!...
Lembras hoje, depois desse horrível flagelo,
As ruínas de Sol no poente da Saudade! ...   

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O SABIÁ APRISIONADO


O SABIÁ APRISIONADO

José Francisco Marques
Cronista e articulista

A algumas manhãs sou acordado pelo som mavioso de um canto de sabiá. Vem dos arredores da casa onde moro.

Soube a pouco ao comentar com um vizinho que o mágico canto vem de um pássaro aprisionado em uma pequena gaiola.

Pensei: então não é um canto, é um lamento de uma alma (sim, os pássaros possuem alma!), atordoada que clama por sua liberdade, pelo seu espaço infinito dos céus a que pertence.

Aquele pássaro apela em forma de cantarejo pela saudade em seu frio cárcere, longe de onde foi raptada a sua meritória liberdade.

Canta talvez, em um suspiro derradeiro ou como apelo ao seu algoz que inconscientemente o tem como um troféu.   

Dr. Nelson Nery Costa e os 100 anos da APL


Dr. Nelson Nery Costa e os 100 anos da APL

Especial 100 anos da Academia Piauiense de Letras

Uma das mais antigas instituições de cultura do país faz 100 anos. Fundada em 1917, por uma  ativa geração de escritores,  a Academia Piauiense de Letras chega ao seu centenário com muito a comemorar, com destaque para a Coleção Centenário, conjunto de 135 livros, com possibilidades de expansão de títulos, organizada em torno de obras piauienses de história, geografia, sociologia e, principalmente, literárias no sentido específico do termo. A maioria dos livros compõe-se de obras de domínio público já sem edição na atualidade; muitas, embora de relevância para se entender o Estado, sequer eram conhecidas das gerações de hoje.

À frente da Casa de Lucídio Freitas, o escritor, professor universitário e operador do direito Dr. Nelson Nery Costa, que promoveu uma revolução na instituição (a história e o tempo cuidarão de registrar isso) e que foi recentemente reeleito para gerir os destinos da entidade por mais dois anos, fala sobre os projetos, obstáculos e desafios da instituição, renovando as esperanças em uma literatura que, de olho no sagrado papel de preservar a memória, renova-se. Leia entrevista do presidente da APL, Dr. Nelson Nery Costa, a Entretextos, por meio da Assessoria de Comunicação da presidência do sodalício.


(ASCOM APL) -- Nos dois anos de mandato, qual dos projetos o senhor destaca como primordial?

Ninguém representa a si próprio, mas a seu grupo social ou a sua geração, assim nada mais sou do que a expressão dos escritores que hoje compõem a Academia Piauiense de Letras.  Tive a oportunidade de ingressar na instituição relativamente cedo, com pouco mais de quarenta anos e agora como seu presidente, inicialmente por dois mandatos.  Excepcionalmente, em razão das festividades do Centenário, em 30 de dezembro de 2017, que já começaram e vão se desenvolver no próximo ano, fui eleito para mais um mandato, o terceiro.  Nos próximos dois anos, então, vamos desenvolver várias atividades, em 2018, tanto pelo Centenário da Academia, como pelo Centenário da Revista da Academia Piauiense de Letras, com o primeiro número lançado em 1918, uma das mais longevas do país, publicada até hoje.  Em 2019, fazem trinta anos da doação da sede da Academia, também motivo para mais celebração.  Talvez, nos próximos dois anos, minha missão principal seja auxiliar no desenvolvimento da cultura local.

(ASCOM APL) -- Da Coleção Centenário, quantas edições faltam ser publicadas?

A Coleção Centenário tem vida própria e está traçando seus próprios caminhos.  Iniciou sem uma fixação de número, ainda na gestão do Reginaldo Miranda, mas alusiva ao Centenário da Academia Piauiense de Letras.  Depois, foi planejada por mim a edição de cem números, divididos em duas partes.  A primeira, com 51 obras, já foi completado; da segunda, foram lançados 30, com 8 prontos mas não lançados e 24 em produção.  Porém, atualmente, planejo chegar até o número 140, mas foram lançados o nº 101, Zodíaco, de Da Costa e Silva, bem como o nº 132, Argila da Memória, do Clóvis Moura, pois não dá para seguir a ordem numérica, vez que os livros têm tempos diversos de produção.

(ASCOM APL) -- Como foram selecionadas as obras da Coleção Centenário, quais critérios adotados?

Acredito que no início a coleção não tivesse bem um caráter, assemelhado talvez a outra importante coleção, que foi os Grandes Textos, com noves exemplares, três dos quais foram também reciclados para Coleção Centenário. No entanto, eu vejo que desde o começo passou a ter um padrão, de expor as tessituras da literatura e da pesquisa feitas no Piauí ou sobre o Piauí, como um grande caleidoscópio cultural.  Assim, em torno dos escritores da própria Academia Piauiense de Letras, mas não só eles, inclusive outros bens anteriores, como Leonardo Castelo Branco e Padre Antônio Vieira, que não tiveram nada com a instituição.  Foram selecionadas as formas literárias, como poesia, contos, romances e crônicas, e as obras técnicas de história, de geografia, de sociologia ou de economia, do século XVII ao século XXI.  Os autores mais significantes tiveram mais de uma obra, como Higino Cunha, Clodoaldo Freitas e outros.  Em alguns casos, aglutinou-se dois livros, como na obra de Renato Castelo Branco, que tem seu romance Teodoro Bicanca junto com o clássico da sociologia local A Civilização do Couro.

(ASCOM APL) -- À frente da APL, qual foi o seu grande desafio?

O financeiro, sem dúvida, pois a Academia Piauiense de Letras vive em meio a muita penúria e é surpreendente que tenha sobrevido cem anos, pois do ponto de vista econômico já devia ter perecido há muito tempo, como ocorreu com inúmeras outras instituições semelhantes.  A força interior da instituição, sim, mostra-se muito poderosa e capaz de resistir a tudo, seja pela perseverança, seja pela energia positiva que dela emana.  Desse modo, tal deve ser meu principal desafio para que ela possa ter recursos e mostrar toda sua pujança com a publicação de obras, com a realização de evento e com a produção dos acadêmicos nos principais jornais e revistas do Piauí.  Com a boa vontade do Governo do Estado e da Prefeitura de Teresina, foi possível a Academia continuar a realizar seus propósitos, auxiliada ainda pela Universidade Federal do Piauí, pela Gráfica do Senado Federal e pelos recursos do Siec, além da boa vontade de muita gente.

(ASCOM APL) -- O que tinha planejado fazer e não houve tempo hábil?

Faltou ligar a Academia Piauiense de Letras ao século XXI e isto só vai ser possível quando melhorar muito seu site www.academiapiauiensedeletras.org.br e quando interagir mais nas redes sociais.  Por hora, por mais relevante que seja na vida social piauiense, a instituição está muito distante das novas gerações, dos secundaristas e dos universitários, assim como das pessoas mais pobres e dos que vivem fora de Teresina.  Não foi por falta de tempo, não, foi por pura incompetência, que nem eu, nem os outros acadêmicos que tentaram me ajudar, avançamos na questão na linguagem e da tecnologia.  Espero, agora, com muita coisa andando sozinha, ter mais tempo para me dedicar ao aperfeiçoamento do site, que possamos oferecer alguns livros digitalizados em pdf para acesso ao grande público, como o nome provisório de “Livros na Rede”, alguns da Coleção Centenário, em 2018.  Por outro lado, acho necessário que a Academia participe de outras mídias, como facebook, instagram, youtube e outros meios.  Ah, apesar de não ser da responsabilidade financeira da Academia, também não houve a premiação de cem mil reais do Enéas Barros, no Concurso H. Dobal, mas vamos tentar resolver o problema, em 2018.

(ASCOM APL) -- Qual a sua meta para o biênio 2018/2019?

A Academia Piauiense de Letras vai ter o incremento de despesas com o funcionamento do Museu da Cultural Literária Piauiense e com as festividades previstas para os próximos dois anos, de modo que talvez meu maior objetivo seja dar sustentabilidade financeira para a instituição.  Tentei muito e consegui bons recursos, com base na imagem da Academia, nos meus relacionamentos pessoais e também com a boa vontade de muita gente das secretarias estaduais e municipais e da Fundação Monsenhor Chaves, enfim, dos simples servidores públicos aos principais gestores.  Sinto, porém, que não foi o bastante.  É preciso que tais recursos sejam permanentes e também que a instituição possa sobreviver bem depois de concluído meu terceiro mandato, hora então de ir embora, mas gostaria de deixar a casa arrumada para o próximo Presidente da Academia.  Junto com o Prof. Fonseca Neto, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense, pretende a Academia assumir a gestão do prédio público estadual onde funcionou o Tribunal de Contas e depois o fórum de Teresina, para transformá-lo em centro um cultural, tudo com base na revitalização da área histórica da Capital.

(ASCOM APL) -- Quais projetos pretende desenvolver?

Acima de tudo, a realização das festividades alusivas ao Centenário da Academia Piauiense de Letras, com uma longa programação em andamento, como a inauguração do Museu da Cultura Literária Piauiense e da reforma de sua sede, na Av. Miguel Rosa, sul, no começo do próximo ano, e a solenidade do Centenário, no dia 24 de janeiro, data da instalação da Academia, antigo Dia do Piauí. Vai ser a reunião mais relevante, inclusive com a entrega da Medalha do Centenário, em amplo auditório. No primeiro semestre do próximo ano, continua-se a lançar obras da Coleção Centenário e da Coleção Século XXI.  Deve ocorrer o lançamento também de série especial chamada Coleção 100 ANOS, inclusive com a obra do Des. Nildomar Silveira, O Livro do Centenário da Academia Piauiense de Letras, e outras reedições, como Antologia da Academia Piauiense de Letras, de Wilson Gonçalves, Os Fundadores, e, inéditos,  História da APL, de Celso Barros, e, História Piauiense: aventura, sonho e cultura, de minha autoria, com quase mil páginas, em 17 de março de 2018.  Dra. Fides Angélica Ommati está me ajudando a organizar o Seminário Piauí 2100, que tem a intenção de refletir sobre o Piauí e de como estará o mesmo no final do século XXI, em termos de desenvolvimento econômico e social, de sustentabilidade, de temperatura, e de cultura, que deve contar com palestra de encerramento do Min. João Paulo dos Reis Veloso.  Pretendemos promover concurso literário para o ensino médio e também para o ensino universitário, em poesia, conto e crônica, com premiação até setembro do próximo ano, com recursos já assegurados. Em 2018, ocorrerá também o Centenário da Revista da Academia Piauiense de Letras, com dois números previstos para o próximo ano.

(ASCOM APL) -- O orçamento da cultura é baixo, como o senhor sabe por já ter presidido o Conselho Municipal de Cultura.  Qual o orçamento disponível da APL?

A Academia Piauiense de Letras tem recursos próprios da venda dos livros por ela editados e também do aluguel de imóvel na rua Álvaro Mendes, o que não é muito mas ajuda no seu custeio.  Parte do seu pessoal vem de órgãos públicos, como cedidos, e outros contratados.  A instituição também tem projetos junto a Secretaria de Estado do Governo, com o Dep. Merlong Solano, junto a Fundação Monsenhor Chaves, com o Dr. Luís Carlos, e junto ao Siec, sob a liderança do Dep. Fábio Novo, além de tentar captar com a Lei Roaunet e também junto a Fundação Roberto Marinho.  Ou seja, prevê-se  muitos projetos, de negociações e de captações.   Tivemos muito auxílio do Grupo Claudino, mas hoje nossa parceira é com as Drogarias Globo. Não é fácil conseguir recursos para a cultura, mas não é impossível, pois existem muitas fontes.

(ASCOM APL) -- No momento, há algumas vaga a ser preenchida?

Sim, a Cadeira nº 24 está vaga, tendo a mesma por patrono Jonas de Moraes Correia, da qual Paulo de Tarso Mello e Freitas era o quarto ocupante, tendo falecido no começo de 2017.  Para o preenchimento da referida cadeira, precisa-se de maioria absoluta, com vinte votos, dos trinta e nove com validade, o que não foi preenchido no último edital, mesmo em dois turnos, em que um candidato conseguiu muitos votos, mas não o suficiente para seu sucesso.  Assim, vai ser lançado novo edital, tão logo a nova Diretoria tome posse e que acabe o recesso do mês de janeiro de 2018; provavelmente em fevereiro próximo haja a abertura da concorrência para a Cadeira nº 24.  Espero não ter nenhuma mais até o final da gestão, pois além de dar muito trabalho é sempre triste ver a partida de um confrade.  Apesar disto, vou contar uma anedota atribuída ao Prof. Manoel Paulo Nunes, nosso grande líder ainda hoje, em que um escritor veio lhe pedir o voto para uma vaga aberta ainda inexistente, pois ninguém tinha falecido, ao que ele respondeu – “voto, desde que não seja na minha vaga”.

(ASCOM APL) -- Como está o processo de criação do Museu da Escrita?


Bem, a ideia mudou bastante, pois como  disse antes, estamos preparando a inauguração agora em janeiro do Museu da Cultura Literária Piauiense, mas com uma área sobre a escrita, inclusive com acervo que eu devo doar para o mesmo.  Teve-se que arquivar, provisoriamente, o Museu da Cultura Piauiense, no antigo Meduna e hoje em um shopping. Era previsto material interativo sobre a cultura local em todos os seus aspectos, desde a literatura, a música, a dança, o teatro, as artes visuais, o folclore e a arte popular. A ideia continua de pé e pretende-se realizá-lo ainda, em parceria com o Prefeito Firmino Filho e com o apoio do Prof. Charles Camilo.  Também está no radar, como já comentado, junto com o Instituto Histórico e Geográfico Piauiense, de promover um centro cultural na antiga sede do Tribunal de Contas do Estado, próximo do Palácio de Karnak.  As ideias são muitas, talvez falte dinheiro e tempo, mas como disse o Max Weber, “só se consegue o possível, sonhando com o impossível”.

Fonte: Portal Entretextos

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Dois animais em extinção, o moleque de recados e a fofoqueira

Fonte: Google

Dois animais em extinção, o moleque de recados e a fofoqueira

Pádua Marques
Jornalista e escritor

Com a chegada de mais um ano a gente vai percebendo o quanto o tempo está mudando e as formas de vida se modificando. Nestes dias, antes da passagem de Ano Novo, fiquei aqui imaginando como as coisas e as pessoas estão e andam diferentes. Se da água pro vinho é difícil de classificar. Mas de uma coisa eu tenho certeza: umas morrem, outras se alteram e mais outras lá na frente se adequam ao curso do tempo.

Dois animais estão em extinção, o moleque de recados e a fofoqueira. O primeiro é coisa de meu tempo. Havia moleque pra dar todo tipo recado. De feira, pedido de namoro, correr na vizinha pedindo uma xícara de açúcar, alguém que havia chegado e por tantas outras coisas. Aquele moleque da canela e dos pés cinzentos, criado no olho da rua, de calção encardido e com catinga de sol.

Bastava colocar na mão dele uma moeda, um bombom ou outro tipo de agrado e lá ia ele cumprir o mandado. Mas naquele tempo havia menino de rua. Não menino de rua com essa nomenclatura, essa classificação de ser menino abandonado à própria sorte, sem pai e mãe pra lhe dar de vez em quando um puxão de orelhas. Hoje não. Basta ver um adulto conversando com um menino que é logo tido como assédio.

Moleques desses que jogavam bola, peteca, brincavam com carrinhos de lata, soltavam pião ou papagaio em mês de agosto pra cima. Moleque de recados conhecidos pela obediência e respeito aos mais velhos. Fossem parentes aderentes ou apenas conhecidos de passagem. Dava o recado e voltava pra sua brincadeira. Até poderia ficar ouvindo conversa de gente grande pra mais tarde sair espalhando com acréscimo.

Outro animal que está em extinção é a fofoqueira. Dessas que ficavam o dia inteiro na calçada com a vassoura na mão ouvindo e dizendo. Falando da vida alheia, acenando pra um conhecido debochado. Chamando uma pariceira pra uma conversa de pé de muro ou de cerca. Aumentando um fuxico aqui, falando da filha da vizinha que agora andava perdida em más companhias namorando homem casado ou aquele sujeito vagabundo que nunca deu um prego numa barra de sabão!

Puxar pela memória tem é coisa. Tudo isso acabou com esse negócio de redes sociais! Se bem que eu acabei de ouvir de um amigo ilustre, o professor e confrade de academia, Antonio Gallas Pimentel, é que estes dois tipos não se extinguiram. Apenas mudaram as ferramentas de trabalho. Hoje tem esse negócio de facebook e whatsap.

A vida da gente não tem mais um dia, um minuto de sossego. Caiu nas redes sociais, está lascado! É coisa de efeito rápido, feito coceira de cansanção de boi ou de urtiga. Gallas está coberto de razão. O moleque de recados e a fofoqueira se modernizaram. Engraçado, levou tempo, mas se modernizaram.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

MOISÉS

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MOISÉS

Elmar Carvalho

Escravo,
não sou escravo da submissão
e meu último adeus será uma corrida
com os pés fora da corda-bamba.
Escreverei
um manifesto assinado
com o sangue de cada um,
com o suor de todos,
todos mocinhos
de um filme sem mocinhos.
Escarnecerei
os muros e os tetos das prisões
porque são exceções de um regime de
exceção.
Escangalharei
as portas do céu
e os portões do inferno
e soltarei a liberdade.

           Parnaíba, 02.04.78  

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

MAIOR É A GIRAFA

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MAIOR É A GIRAFA
                          
Alcenor Candeira Filho

     Há  anos recebi de um jornalista e escritor piauiense a solicitação de que me manifestasse numa pesquisa/eleição definidora  de quem seria o maior poeta vivo do Piauí.  Minha resposta: silêncio.
     Implico há bom tempo com esse negócio de se considerar alguém como absolutamente superior aos demais. Vejo como inúteis todas as calorosas discussões que flamenguista doente travei na adolescência com vascaínos, botafoguenses, tricolores sobre quem era o maior. Sempre a emoção sobre a razão. E o Brasil é maior que a Alemanha,  Itália, Uruguai, Argentina?
     Cresci e aprendi que todos são grandes, têm uma história rica de vitórias e derrotas e compõem  no calor da competição a grandeza superior da prática esportiva.
     Olavo Bilac, poeta parnasiano, foi eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” em concurso promovido pela revista “Fon-fon”.  Sei não, mas a meu juízo Alberto de Oliveira, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho,  Da Costa e Silva e Cruz e Sousa em nada ficam a dever a Bilac.  Se Camões é o maior dentre os maiores, como classificar Homero, Dante, Shakespeare, Fernando Pessoa?
     O poeta Jonas Fontenele da Silva foi envolvido numa disputa  com Antônio Francisco da Costa e Silva destinada a eleger o “Príncipe dos Poetas Piauienses”.
     Na época,  primeira  metade do século XX,  Parnaíba se encontrava no apogeu do desenvolvimento econômico, de modo que havia forte rivalidade entre parnaibanos e teresinenses. Jonas da Silva representava a cidade natal, Parnaíba, enquanto Da Costa e Silva, nascido em Amarante,  estava representando sobretudo a capital do estado.
     O episódio inspirou a Jonas da Silva o soneto “As Duas Cidades”, transcrito no livro-álbum PARNÁRIAS: POEMAS SOBRE PARNAÍBA:

          “As cidades lutavam... Pertencia
          Eu a uma delas – as facções rivais:
          Teresina querendo a primazia,
          Parnaíba -  ombrear com capitais...

          O príncipe dos poetas imortais
          Do Piauí, quem era, quem seria!
          Como soldado em meio a generais
          O meu nome surgiu nesta porfia...
         
          E assim, na Arte esplêndida de Dante,
          Na eleição  -  soube aqui no meu retiro  -
          Vencedor foi o poeta de Amarante!

          Nada a mim perturbou nesta humildade...
          Eu só do bem ao principado aspiro.
          O homem só é grande pela caridade!”

          No livro de estreia  -  ALGUMA POESIA  _ , de 1930, Carlos Drummond de Andrade publicou um poema-piada denominado “Política Literária”, que diz:

          “O poeta municipal
          discute com o poeta estadual
          qual deles é capaz de bater o poeta federal.

          Enquanto isso o poeta federal
          tira  ouro do nariz.”

     Para Virgínia Wollf, “a estátua é sempre  maior que o original”.
    Em Fernando Pessoa colhi inesquecíveis lições sobre o ´que é ser verdadeiramente grande:

          “Para ser grande, sê inteiro: nada
                      Teu exagera ou exclui.
          Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
                      No mínimo que fazes.”
                                                 (“Ode”)


          “Grande é a poesia, a bondade e as danças...
          Mas o melhor do mundo são as crianças,
          Flores, música, o luar, e o sol, que peca
          Só quando, em vez de criar, seca.

          O mais do que isto
          É Jesus Cristo,
          Que não sabia nada de finanças
          Nem consta que tivesse biblioteca...”
                                       (“Liberdade”)
     Na obra FERNANDO PESSOA: O LIVRO DAS CITAÇÕES, de José Paulo Cavalcante Filho, há a seguinte nota de rodapé na pág. 59:

               “O poema, de 16/3/1935, é um ato de protesto contra         
          o autoritarismo de Salazar  -  como se percebe pelo próprio  
          título. Vetado pela censura, foi publicado só depois da
          morte de Pessoa (...) A ironia do verso é ser referência ao
         fato de que Salazar, professor de direito financeiro em
         Coimbra, passou, em 1928, a ser ministro das Finanças de
        Portugal.”

     Quando alguém quer a minha opinião sobre quem é o maior nisto, o maior naquilo, tenho a resposta na ponta da língua: como diz o doutor Lauro Correia, “maior é a girafa porque tem o pescoço grande”.             

DIZ O GÊNIO PENSADOR QUE NADA DURA PARA SEMPRE

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DIZ O GÊNIO PENSADOR QUE NADA DURA PARA SEMPRE

                O ano está chegando ao fim e repassam em nossa mente as agruras e sofrimentos que ele nos impingiu, de forma torpe e desumana. Uma lembrança recente me vem de um cidadão, que quase passou pelas garras da morte e que Deus usou de sua Misericórdia, ouvindo as orações que foram feitas e deu-lhe o livramento.  Já refeito, encontrei-me com o mesmo, por quem também orei, e sua postura, ao cumprimentar-me, foi deveras arrogante, grosseira e deselegante, como se ele próprio tenha dado o seu livramento. Que atitude infame e petulante. E fiquei sem graça durante o dia e entreguei a Jesus para a sua misericórdia ou a recompensa que lhe for devida.

                O ano de 2017 foi sofrido demais para a gente humilde de meu País, vítima que foi de maus brasileiros e indignos compatriotas, que vêm solapando nossa amada Terra como podem. Uma roubalheira brutal por toda parte, de cidadãos com gravata e paletó em cargos importantes, se dizendo representante do povo e de nossa gente. São indivíduos audaciosos, que vivem vilipendiando a boa fé de nossos irmãos, gente humilde que padece com uma saúde pública grotesca, sem moradia condigna, sem segurança pública, marcada pelo desemprego e tudo mais que lhe falta para uma vida justa e saudável.  Cidade e ruas abandonadas, com gente sem dinheiro para nada e a família sofrendo as agruras que lhe foram impostas, com o dinheiro que foi subtraído pelos ladinos vorazes, abastados que ficaram sem pejo e sem nenhuma comoção. Nossa gente pobre está vivendo a mercê da própria sorte. Desempregada e sem dinheiro para nada procura sobreviver como pode, porque a fome é grande e o desespero é maior ainda, sofrimento imposto por gente desumana não temente a Deus e que não tem sido punida pelos atos abomináveis praticados, o que é lastimável. Nos últimos tempos tenho procurado, com acuidade, alguém em quem possa confiar, o que não me foi possível até agora. Cidadãos de boa aparência e bem trajados vão ludibriando a boa fé dos incautos, que sofrem amarguradamente a devassa que lhe é imposta. E isso me fez lembrar a atitude do filósofo grego Diógenes, que em plena luz do dia e com uma lanterna acesa nas ruas de Atenas, procurava um homem digno e confiável. Apesar do esforço dispendido, não lhe foi possível encontrar o cidadão de bem que procurava.

                O ano de 2017 foi drástico demais para a maioria dos brasileiros, que presencia a amada Pátria ser sucateada por águias humanas vorazes espalhadas em todos os recantos do País. E as cidades, com ausência de segurança pública, facultam aos larápios contumazes, que cometem crimes de toda natureza, exterminando vida de pessoas, às vezes de uma mesma família, sem que em nada se justifique tamanha crueldade. O trânsito virou outro cadinho destruidor de vidas humanas, com indivíduos dirigindo alcoolizado ou drogado, que fica sem a lucidez de qualquer perigo a sua frente. Outras vezes, com o celular colado ao ouvido, perdem a noção do perigo e aí a tragédia acontece. E assim são exterminadas vidas inocentes e, que, na maioria dos casos, os criminosos ficam em liberdade, sem sofrer qualquer tipo de punição. As famílias choram a perda dos entes queridos que se foram para nunca mais voltar. A juventude não quer mais saber de estudo e nem de trabalho. Preferem ir à busca de ganho fácil, enveredando pelo caminho insidioso da criminalidade, assaltando a mão armada e arrombando bancos, casas comerciais e residências e assim vão se enchendo de dinheiro a custa dos atos nefandos praticados. Muitos perdem a vida e outros são mutilados em confronto com a polícia. E fica aí uma vida jovem inútil para toda a sua existência. As doenças estão dizimando vidas com frequência, porque a saúde publica está um caos. Os administradores públicos embolsam o dinheiro que recebem e a comunidade fica com a saúde entregue a própria sorte, com um serviço público desqualificado. Os desmandos são vistos e reclamados e sem qualquer providência que seja adotada. A escola pública é outra penúria e o caos bem visível aos olhos de todos. Salas de aula com carteiras velhas e quebradas, prédios sem pintura e o calor abrasador martirizando a comunidade escolar, porque central de ar inexiste no ambiente. Os setores de saúde empresarial, que presta serviço ao público, como postos de saúde, cirurgiões-dentistas, postos de enfermagem, laboratório de análises clínicas e outros, estão sofrendo com a escassez de clientes, porque, sem ônus para custear essas despesas, vão fazer gratuito nos Órgãos do Governo e Prefeitura que, em Boa Vista, prestam esse tipo de serviço. E o empresário arca com as despesas gerais e os impostos correspondentes por conta própria. E os que não dispõem de recurso, vão a falência inevitavelmente como ora vem ocorrendo.

                Nesse momento de reflexão doída, achei melhor me valer das sábias palavras de Charles Spencer Chaplin, que nos deixou para sempre aos 88 anos. “Nada é para sempre neste mundo, nem mesmo os nossos problemas. Eu gosto de andar na chuva, porque ninguém pode ver minhas lágrimas. O dia mais desperdiçado da vida é o dia em que não rimos. Os seis melhores médicos do mundo são: Luz do sol. Descanso. Exercícios. Dieta. Autoestima e Amigos. Se você ver a lua, verá a beleza de Deus. Se você ver o sol, verá o poder de Deus. Se você ver o espelho, verá a melhor Criação de Deus. Acredita Nele. Somos todos turistas. Deus é o nosso Agente de Viagens que já fixou as nossas rotas, reservas e destinos. Confie Nele e desfrute da Viagem Chamada Vida. A vida é apenas uma viagem.” Aproveito o ensejo para fazer uma homenagem “in memorian” a dois diletos amigos que nos deixaram para sempre no dia 17 do mês corrente. Francisco Almeida Alves e Francisco Assis Quezado Araújo, com o preito da imensa saudade que ficará para sempre. Diletos e amáveis companheiros de jornada. Um ano novo está bem próximo de nós. Que o ano de 2017, apesar de tirano como foi, nos sirva apenas de lição e de arrefecimento de nossa fé em nosso Deus Pai Criador, porque somos conhecedores de Sua Santa Palavra, que procuramos obedecer sempre no transcorrer da vida que prossegue. Não podemos olvidar o que diz o sábio pensador: “Morre o homem e o espírito fica bem vivo em suas obras”.  É de nossa viva fé de que o novo ano que se avizinha nos seja de prosperidade e a realização de grandes projetos, nos enchendo de sonhos e de bênçãos maravilhosas, como é da promessa de nosso Deus Onipresente. O nosso abraço fraternal a todos e que Deus nos abençoe e nos ilumine sempre.

Boa Vista – Roraima, 28 de Dezembro de 2017.

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Dr. FRANCISCO DE ASSIS CAMPOS SARAIVA
Oficial R1 do Exército
Escritor e Empresário
Membro da ALB e da ALLCHE
E-mail: ldalmada@hotmail.com    

sábado, 30 de dezembro de 2017

Rio Grande dos Tapuias

Fonte: Google

Rio Grande dos Tapuias

Reginaldo Miranda *

A cordilheira serrana que vem do planalto central em rumo do norte separando a bacia do S. Francisco da bacia do Tocantins, a certa altura se abre ao meio formando um ipsilon em que uma vertente derreia para o leste direcionando o curso do rio S. Francisco e outra derreia para o oeste direcionando em sentido contrário o curso do rio Tocantins. Eis aí o fator determinante do direcionamento das águas do norte do Brasil.  Para trás ficam os campos cerrados do Brasil Central e numa vertente as primeiras manifestações da floresta amazônica ao passo que na outra vai se encontrar os primeiros sinais da caatinga nordestina. No vértice desse ipsilon vão surgir as primeiras águas que formam o rio Parnaíba, de cujas vertentes da cordilheira serrana que se abriu vão correr as águas dos diversos afluentes que o engrossarão ao longo de seus 1.700km de curso. Do lado de fora desses vértices outras águas vão formar novos afluentes das duas primeiras bacias hidrográficas, às vezes com nascedouro comum interligando-as. Por essas razões na bacia intermediária do Parnaíba vai se encontrar espécimes vegetais das três grandes vegetações brasileiras, sendo mesmo a barra do Gurgueia com o Parnaíba, verdadeiro marco de vegetação donde vai se encontrar as primeiras manifestações da exuberância amazônica em contato com a vegetação de cerrado. Pois, essa interligação de bacias e a variedade vegetal vai determinar a bacia parnaibana como grande corredor de migrações entre as diversas tribos indígenas que demandavam de uma região para outra. Mais tarde, esse caminho vai ser continuado pelos retirantes nordestinos que do sertão agreste buscam os vales úmidos do norte.

Mercê desse fenômeno migratório, no brasil pré-lusitano quase uma centena de nações indígenas vai residir no vale parnaibano, com cerca de trezentas mil almas. Viviam primordialmente da caça e da pesca, ajudados por uma agricultura rudimentar em que cultivavam algumas culturas a fim de não deixarem ao acaso a sobrevivência diária de seus membros. Às vezes entrava em guerra uma nação contra outra em disputa dum rio mais piscoso ou duma mata de fauna mais rica, onde pastavam as manadas de caitetus, veados, antas, capivaras, cotias, pacas, tatus e outras espécies da rica fauna parnaibana. Todavia, até o século XVII o curso desse rio vai ser desconhecido para os conquistadores lusitanos, se acreditando, por informações dos índios do litoral, que o mesmo nascia em uma grande lagoa rica em pérolas.

Esse desconhecimento do rio piauiense vai se refletir em sua primeira denominação, Rio Grande dos Tapuias. Rio Grande, porque era o maior desaguadouro da costa entre o Maranhão e Pernambuco, a ser avistado pelos navegantes. Dos Tapuias, em face dos índios Tremembés que desciam em canoas a mariscar em sua foz. Mais tarde foi também designado Pará, Parauaçu, Punaré, Paraguaçu e, por fim, Parnaíba, em homenagem aos paulistas de Santana do Parnaíba que aqui fincaram raízes. O ano em que se descobriu sua foz não se sabe ao certo, mas foi designado Ano Bom, daí o delta parnaibano ter ficado conhecido durante os primeiros anos como Baía do Ano Bom.

Na verdade, outros europeus que não os portugueses iniciaram o comércio pelo Rio Grande dos Tapuias ainda em meado do século XVI, através de aliança com índios Tapuias da nação Tremembé. Por essa razão, o Rio Grande dos Tapuias, mais tarde designado Parnaíba, vai ser uma importante via comercial, principalmente utilizada pelos franceses, que em troca de ferros, roupas, espelhos e algumas bugigangas levavam âmbar e pau-violeta, entre outros produtos vegetais e animais. Para isso, os Tremembés, seus principais fornecedores, se aliaram a índios do interior servindo de intermediários e se fortalecendo como grandes parceiros de franceses e de outras nações indígenas. Sobre esse assunto muito ainda há de ser pesquisado, inclusive na França, para se estabelecer o grau de intensidade desse comércio, a influência que exerceu sobre as tribos que dele participaram e a consequente dificuldade que possa ter trazido para a ocupação colonial portuguesa no litoral piauiense, retardando-a de forma a atrasá-la em relação ao sul da mesma bacia hidrográfica. Por seu turno, os franceses estacionavam em frente ao delta, ou Baía do Ano Bom, com seus navios de honesto porte, de onde prosseguiam rio a dentro por algumas léguas em busca dos diversos produtos estocados pelos tapuias Tremembés, por si e/ou comprados de outras tribos do interior, em caravelões da costa. Faziam “muito boa colheita”, segundo informa o cronista Gabriel Soares de Souza. Até onde navegavam os franceses rio acima é questão ainda não descoberta, entretanto, não se pode esquecer que os Tremembés tinham influência até a foz do Poti, hoje Teresina, onde viviam seus parentes Aranhis, e por esse afluente acima os também parentes Potis e Crateús.

Esses fatos todos demonstram que os Tremembés se tornaram grandes aliados dos franceses, não sendo descabido, portanto, que alguns deles possam ter visitado a França a fim de fortalecer as relações comerciais, assim como ocorreu com os Tupinambás do Maranhão. De qualquer forma essas notas pontificam o rio Parnaíba, outrora Rio Grande dos Tapuias, como corredor de contrabando. É assunto que merece maior investigação.

(Artigo publicado no jornal Meio Norte, coluna Academia, edição de 02.11.2007).

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*REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico e Piauiense e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O goleiro e o Gato

Autor: Amaral. Acervo de Cineas Santos
Autora: Elmara Cristina

O goleiro e o Gato

Elmar Carvalho

Joguei futebol até os dezoito anos de idade, sobretudo na posição de goleiro, mas também atuando, algumas vezes, na lateral e na ponta direita. O trabalho e meus estudos me impediram de continuar praticando o esporte bretão. Depois, só muito esporadicamente voltei a jogar, mormente após ingressar na magistratura, no time de nossa associação – AMAPI, por um curto período.

Praticamente havia esquecido essa minha faceta esportiva, quando, muitos anos depois, o professor Zé Francisco Marques me disse que eu havia sido um bom goleiro. Como eu lhe tenha dito que já pouco me lembrava de minhas atuações goleirísticas, o Zé Francisco escreveu a crônica “Quem te ensinou a voar?”, que muito me comoveu, na qual descreveu as minhas principais características e uma de minhas defesas. Foi um ato de generosidade, mas o fato é que esse texto se encontra publicado em meu livro “O Pé e a Bola”, assim como na internet.

Portanto, foi motivo de agradável surpresa e regozijo, o Gato, famoso e respeitado árbitro do futebol teresinense, na última comemoração natalina da AMAPI, me haver dito que eu fora um bom goleiro. Ele me viu jogando em algumas disputas do time amapiano. Como eu lhe tenha indagado se falava com sinceridade, ele não só confirmou o que dissera, como ainda descreveu uma “ponte” que fiz para defender um chute do adversário.

Olhou para o campo de futebol, que fica perto de nosso clube social, e apontou para a trave em que eu praticara a defesa. Confesso que fiquei extasiado, no momento em que ele acrescentou que até perguntou se eu havia sido goleiro profissional. Alguns colegas magistrados presenciaram essa conversa, embora possam não ter ouvido o seu conteúdo, em virtude do som musical muito alto.

Eu tinha em torno de cinquenta anos, e foi nessa época que deixei de jogar para sempre, com exceção de uma última partida, que fiz em Regeneração, em que, segundo os presentes, atuei muito bem. Nessa derradeira partida, modéstia às favas, fiz algumas ótimas defesas. Essa minha última atuação como golquíper foi relatada na crônica “Despedida de goleiro”, que também se encontra postada na internet.  


Pelo que o amigo e grande árbitro Gato me relatou, a minha defesa pode ser considerada, sem nenhuma falta de modéstia, como uma bela “ponte”, mas não uma ponte qualquer, porém uma legítima e deslumbrante ponte estaiada. Valeu, grande Gato! Muito obrigado.