terça-feira, 14 de agosto de 2018

DEPOIMENTO SOBRE DANILO DE MELO SOUZA


Fonte: Google/Conexão Tocantins

DEPOIMENTO SOBRE DANILO DE MELO SOUZA

Alcenor Candeira Filho
    
     De 1982 a 1984 fui professor  de Danilo de Melo Souza no curso científico da Unidade Escolar Alcenor Candeira (Cobrão), período em que pude observar seu grande interesse pela literatura e pelo jornalismo. Nessa época produziu os primeiros poemas e foi um dos principais colaboradores do jornal estudantil O IMPACTO.
     Destemido e dinâmico líder estudantil, capaz de trazer dores de cabeça a dirigentes escolares, o jovem Danilo Melo desempenhou em Parnaíba intensa atividade nas áreas social, política, educacional e cultural:

     - presidente do Diretório Acadêmico 03 de Março (CMRV/UFPI);
     - presidente do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores-PT;
     - idealizador e coordenador do grupo de poesia “A Veiz do Ônzimo”;
     - membro fundador da Associação dos Artistas e Técnicos de Parnaíba – ASATERP;
     - apresentador do programa “Rádio  Rock-‘N-Roll”, na Rádio Educadora de Parnaíba;
     - editor e fundador do jornal LITORAL NEWS, primeiro jornal de turismo de Parnaíba;
     - editor do jornal universitário O TETEU, órgão de divulgação do Diretório Acadêmico 03 de Março;
     - colaborador do jornal INOVAÇÃO;
     - integrante de POEMARÍT(I)MOS, antologia de poetas piauienses editada em 1988 pela secretaria de cultura do Estado do  Piauí;
     - membro da Academia Parnaibana de Letras _APAL aos 24 anos de idade;
     - secretário de cultura de Parnaíba na primeira administração de José Hamilton Furtado Castelo Branco (1993-1996).

     Na vitoriosa  trajetória de vida, Danilo Melo concluiu em 1989 na Universidade Federal do Piauí/Campus Ministro Reis Velloso o curso de Licenciatura Plena em Pedagogia, tendo sido o orador da turma. O discurso  por ele proferido na solenidade de formatura é rico de conteúdo e de largo sentido utilitarista, questionando a prática do saber na universidade, a crise deste saber, o ofuscamento da razão e o relativismo que de maneira alienante estabeleceu uma cumplicidade, uma ausência de cobrança mais rígida do papel dos alunos e dos professores no contexto universitário:

    “Desejávamos uma reforma profunda na maneira de se
      pensar e administrar a nova universidade. Tivemos êxitos e derrotas,
      amadurecemos na luta. Desejávamos participar de um centro  de
      excelência e fomos abandonados num centro onde se privilegiou
      atuação dos currículos ultrapassados, longe da realidade  que
      nos cerca e – por que não dizer? -  demasiado tecnicista em
      detrimento da reflexão do aprofundamento do debate e   da
      livre circulação das ideias.
      O saber na universidade e a difusão do conhecimento
      puro estão comprometidos pelo caráter gerencial, excludente e
      privatista que esta instituição adquiriu, por conta da intervenção
      autoritária das políticas governamentais, que protegeram a
      ascensão do ensino privado, o sucateamento da escola pública
      e o afastamento das classes populares do ensino superior”.
                    
          Danilo Melo cultivou o jornalismo em Parnaíba de forma amadorística mas com a garra e a responsabilidade peculiares aos grandes profissionais da imprensa. Sabedor  da importância do jornal como veículo de comunicação social, nele ocupou espaço não para fazer promoção pessoal ou para ser simpático à burguesia sonolenta, mas para lutar pela democracia e pela dignidade da pessoa humana. Jornalismo livre, sem peias, sem medo, sem qualquer subordinação a grupos econômicos ou a facções políticas; jornalismo sem propinas, sem puxa-saquismo, sem cargos públicos;  jornalismo limpo, transparente, atraente.
     Como poeta, Danilo Melo reuniu seus principais versos na antologia POEMARÍT(I)MOS (1988), prefaciada por Renato Castelo Branco, e no livro (IN)CERTOS VERSOS E ALGUMA (P)ROSA (2010), editado em Palmas-TO. Desse livro, em cujo lançamento em Parnaíba tive a honra de fazer  a apresentação, diz o autor na contra-apresentação:

      “Em 1981, comecei a escrever prosa poética. Eram
      escritos de adolescente com pouca imaginação, exagerado
      romantismo, e de um passadismo que anunciava tardiamente o
      'mal do século’ oitocentista.
      Alguns anos depois, junto a um grupo  de jovens
      subversivos (o 11º ou o ‘ônzimo’) saímos por aí com a ideia
      maluca de mudar o mundo por intermédio da purificação  da
      palavra.  Fazíamos poemas coletivos, nos reuníamos para percorrer
      bares e restaurantes e participávamos de saraus literários nem
      sempre bem compreendidos.
      Descobrimos na inspiração dos poetas marginais dos
      anos 70 e dos Beatinics que  a literatura deveria ‘desafinar o coro dos
      contentes’. Uma vanguarda poética mais panfletária que
      propriamente proletária, numa privíncia de frente para o mar.
      Arrotávamos Maiakosvski, Breton, Ginsberg, Torquato, Mário
      Faustino e Chacal com uma intimidade duvidosa..
                     (...)
      Assim deve ser a poesia, uma arte, que ao contrário do
      que se imagina requer dedicação, empenho e paciência. Ninguém
      haverá de deitar sadio e acordar poeta. Poesia não é dor de cotovelo,                   
      nem declaração desajeitada de apaixonados. Poesia é também uma
      arte de solitários, é o reino da concisão”.

     Pelo teor de sua produção, constata-se que efetivamente o poeta não crê na poesia a que baste a beleza para justificar-se. Ao contrário, acredita na poesia que concorra para o desenvolvimento da consciência humana, na poesia enfim que sirva à sociedade, - testemunhando-a, observando-a, analisando-a, interpretando-a, para que o poema seja um documento vivo e expressivo de um povo, em certo momento histórico. Poesia não é instrumento de deleite, nem analgésico para dores de cotovelo. Poesia é o que conscientiza emocionando, ou, se preferirem, o que emociona conscientizando. Poesia ativa, útil, solidária, poesia que, na síntese drummondiana, “...faça acordar o homem/e adormecer as crianças”.
     E porque acredita na natureza utilitarista da poesia, é que Danilo Melo escreve versos como estes:

                   “Piso as mesmas pedras
                          com o mesmo tênis e ninguém reparou nos meus pés.
                          Sei onde piso.
                          Piso na águia americana, na suástica nazista e
                          nos monumentos a Somoza.
                          Faço parte dos que pisam diariamente,
                          tive a lúcida ideia de pisar.
                          A oportunidade de pisar deve ser única,
                          a não ser que se faça corpo mole.
                          Pisar  é uma ideia, uma lâmina..
                          Em se pisando
                          machuca um pouco.
                          - Qual o corte não doloroso?
                          - Qual a vida não sofrida?
                          E será mesmo sina pisar um pouco em tudo e em todos?”

     Diversos poetas em diferentes momentos produziram poemas inspirados na cidade de Parnaíba. Via de regra, são poemas laudatórios e cívicos, estruturados nos moldes clássicos, passadistas, ora em forma de soneto, ora em forma de ode. Dentre os poemas que li sobre Parnaíba, nenhum me comoveu tanto quanto o de Danilo Melo, denominado “Parnahyba”, importante trabalho de re-criação poética resultante do desenvolvimento parafrástico do poema “América”, de Allen Ginsberg, reconhecido como o maior poeta da geração beat.
     Os saudosistas de velhas escolas literárias insurgem-se não raro contra a poesia espontânea, irreverente e contestatória que rompeu com as barreiras acadêmicas da poesia tradicional.
     É preciso, porém, deixar dito o seguinte: essa gente que, por ingenuidade ou má-fé, contesta e detesta  poesia não passadista, não acomodada a preceitos e preconceitos estéticos, - essa gente está de fato é fazendo o papel  dos reacionários da arte, dos autores e/ou consumidores de uma poesia que já nasce ultrapassada e, assim, não admitem versos como estes:

              “Parnaíba, vi de uma só vez: 50 favelas sem água, luz, piso, almoço,
                                                                                                           [café da manhã          
           e porra nenhuma.
                                              (...)
               Parnaíba, estão corrompendo um ciclo histórico.
               Não deixe o rio secar, tenho de pular da ponte
               E um monte de malinação.
               Parnaíba, intervirei em teu coração.
               Meu lado burguês pragmático conquistará teu terreno, teus olhos...
               Pois o amor é o final de nossas contas.
               E você me perdoará, estou certo
               Parnaíba, curral ontem, curral hoje, curral sempre”.

     Depois de realizar excelente gestão  na secretaria municipal de cultura, Danilo Melo teve que deixar Parnaíba em razão de perseguição política, passando a residir na capital de Tocantins, onde fez mestrado em educação, ingressou no quadro docente da Universidade Federal de Tocantins e exerceu os cargos de secretário de educação e cultura do município de Palmas e em seguida de secretário estadual de educação e cultura, reconduzido em 2014 ao cargo de secretário de educação e cultura de Palmas.
     Filho de Alípio Firmino de Souza e de Isabel Melo, Danilo nasceu em Parnaíba-PI em 1965 e é casado com Christina Rosa, com quem tem os filhos Victor e Daniel.         

domingo, 12 de agosto de 2018

Mensagem pelo Dia dos Pais

Elmar e João Miguel, com um ano de idade


Mensagem pelo Dia dos Pais

Recebi uma mensagem de congratulação pela passagem do Dia dos Pais, enviada pelo meu filho João Miguel para o whatsapp de minha mulher, Fátima, que muito me emocionou, mas que não a mereço em sua integralidade, conforme mandei lhe dizer em minha resposta, embora não possa deixar de dizer que mesmo assim fiquei feliz. Sem mais delongas e emocionalizações, transcrevo o que ele disse:

Hoje é o dia dos pais, dia do meu pai. Uma pessoa que me forjou, que muito ajudou a eu ser o que sou hoje. Eu só gostaria de ser apenas 50% dele, para mim isto já bastaria, já seria de bom tamanho. Um homem que na sua vida profissional e pessoal sempre teve uma conduta ilibada, honesta, íntegra, reconhecida por todos. Não tenho de que me envergonhar, só orgulho e tento também manter isso na minha vida.

Eu nunca me esqueço de um colega da escola, hoje advogado, que há alguns anos atrás me disse: "João conheci seu pai, eu estava conversando com uma pessoa e pensava que ele ocupasse outro cargo (inferior hierárquico, meu colega disse o nome do cargo), quando de repente ele disse que iria presidir audiência", ou seja mesmo ocupando um cargo considerado de alta hierarquia, ele não se deixou levar por isso, sempre mantendo a simplicidade e humildade. Portanto é isso que eu tento levar na minha vida pessoal e profissional, essas boas maneiras que ele me ensinou e deu exemplo.

Há 39 anos casado com minha mãe, nunca presenciei qualquer sinal de brigas, nenhum estremecimento na relação. É também um guerreiro que venceu dois CA na vida com muita sabedoria e principalmente disciplina.

Parabéns pai, sei que o senhor não é muito fã de datas (lembro que quando falava de comemorar data de aniversário, o senhor falava que tinha que comemorar era aprovação em vestibular, em concurso rs), também puxei isso do senhor, mas tinha que deixar esse registro, portanto desejo muitas felicidades, paz e saúde para senhor. Saudades! De seu filho João Miguel.”   

Seleta Piauiense - Herculano Moraes



Gravura

Herculano Moraes (1945 – 2018)

Não escreverei teu nome na areia.
O vento varre as palavras
e elas nunca se perpetuarão.

Escrever teu nome no tronco
de uma árvore?
eis o enigma
desta vã filosofia.
Até que a morte nos separe
pelo assassinato da ecologia.

Escrever teu nome nos granitos,
no cimento, nas nuvens,
nos muros rabiscados,
talvez não seja a forma exata
de te imortalizar.

Escreverei, teu nome sim
na folha indecifrável da memória,
pois só assim este amor
sem preconceitos e limites
ficará para a história.

Fonte: Antologia da Academia Piauiense de Letras, de Wilson Carvalho Gonçalves  

Pesquisadores parnaibanos criam mapa poético da cidade

Fonte: PMP

Morando longe de Parnaíba, os pesquisadores Augusto Santos e Breno Reis decidiram organizar um projeto dedicado à cidade, unindo a nostalgia ao interesse pela poesia parnaibana. Assim surgiu o Parnaíba Revisitada, uma coleção de poemas conectados à cidade, na forma de site e mapa interativo.

"Nos passeios que costumamos fazer quando retornamos a Parnaíba, veio a ideia de associar esses percursos urbanos às poesias que retratavam os locais pelos quais passamos no dia a dia", conta Breno. Os poemas reunidos são, em sua maioria, da chamada Geração Mimeógrafo, que compreende poetas atuantes na publicação independente e na imprensa alternativa durante as décadas de 1970 e 1980.

O principal critério para a seleção dos textos, como explica Augusto, foi o vínculo explícito com os espaços e as imagens da cidade: "Um poema pode nos impactar de diferentes maneiras. Quando ele se passa num local que faz parte do nosso cotidiano ou que fez parte da nossa infância, parece que amplifica ainda mais o seu poder de identificação". O título do projeto Parnaíba Revisitada se inspira no poema homônimo de Elmar Carvalho, presente no mapa:

"Pelos labirintos
de antigas ruas perdidas
caminho sem destino
e mergulho no temporal
das cavernas inescrutáveis
do deus Cronos
e o que se chama passado
intacto resgato
num pequeno pedaço de um
velho azulejo desbotado."

Colecionadores de literatura piauiense e parnaibana, os criadores do projeto pretendem divulgar à população as publicações locais que tiveram edições únicas, já esgotadas, difíceis de encontrar até mesmo nas bibliotecas. "A proposta do Parnaíba Revisitada é acessar as temporalidades passadas da cidade, que permanecem gravadas nas ruas, nas ruínas, no rio, nas fachadas arquitetônicas, e, sobretudo, na produção poética local", declaram.

Serviço
Parnaíba Revisitada
https://parnaibarevisitada.tumblr.com

Fonte: Proparnaiba.com     

sábado, 11 de agosto de 2018

ENTRE A CABOTINICE E A DISSIMULAÇÃO


Fonte: Google
Fonte: Google


ENTRE A CABOTINICE E A DISSIMULAÇÃO

 Antônio Francisco Sousa – Auditor Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                De antemão, devo confessar que leio qualquer livro que me caia às mãos, ou que, procurando, consiga encontrar em livrarias ou sebos. Muitas vezes faço, não com intenção ou pretensão de passar por crítico literário, mas por diletantismo ou exercício cognitivo, comparações entre as leituras de certas obras, de que, ou gostei deveras ou deveras abominei. Ainda no campo das confissões, preciso me desculpar perante nosso maior best-seller – no instante, no átimo da criação, quase não lembro o nome do famoso escritor –, Paulo Coelho: tenho tentado, porém, não consegui ler, integralmente, quaisquer de suas obras; como também tentei, todavia, abandonei logo às primeiras páginas, um livro, do qual talvez faça eu parte da minoria que dele não gosta, chamado – Ih! Quase esqueço o título da preciosidade, novamente (mas não é Alzheimer, nem senilidade, ainda: testes médico-psicológicos afirmaram que continuo, mentalmente, até mais sadio do que mereceria), O Apanhador no Campo de Centeio. Atribuo a sonolência que se abateu sobre mim durante a leitura do exemplar da obra-prima de J. D. Salinger, à tradução; palavrões, expressões chulas e piegas, não só no caso de esse, especificamente, mas sempre, afastam-me de qualquer leitura que pretenda fazer imbuído de alguma seriedade. Até aceito ouvir obscenidades, porque sem elas eles não seriam possíveis, em shows humorísticos ou em incontáveis, quem sabe melhor dizer, imprestáveis filmes nacionais.

                Já me sinto, diante do até aqui escrito, um tanto cabotino. A propósito, expressão que um velho e dileto amigo gosta de citar em suas observações sobre homens e seus procederes, mas que, tenho quase certeza, não aplicaria à figura que pretendo chamar agora à cena: o escritor José Sarney, em razão de, por este, meu chapa nutrir certa e comedida admiração.

                Admito, porém, que talvez mais cabotino do que me considerei ao falar, resumidamente, de autores que não tive oportunidade - ainda que um pouco de vontade e curiosidade houvesse – nem paciência de ler obras suas, pareceu-me o imortal José Sarney em alguns trechos de seu recente livro Galope à Beira-Mar – Casos e acasos da política e outras histórias. Outros, no curso do longo calhamaço, poderão tomá-lo por bairrista, corporativista, dissimulado, politicamente quase correto; concordo com esses, mas não me absteria de, reiteradamente, considerá-lo cabotino. Millôr Fernandes, em crítica acidamente humorosa a obra do prezado ex-governador, presidente, senador, mais longevo político que o país já possuiu, considera-a feito de um escritor sem estilo. Pois bem, no livro citado no início deste parágrafo, em pequenas frases ou orações, Sarney despeja, subliminar e/ou implicitamente, grandes maledicências ou vitupérios contra certos escritores, como também o faz, contrariamente, atribuindo imensuráveis e rasgados elogios ou encômios a outros, amigos ou aduladores. Com relação a H Dobal, como é mais conhecido aqui e alhures, ele tenta diminuí-lo ou não lhe dar o devido lugar e honra que merece no cenário literário nacional, ao tratá-lo, não pelo conhecido pseudônimo, mas pelo nome verdadeiro – Hindemburgo Dobal, a quem poucos, entre esses, os grandes amigos e admiradores, reconhecem como sendo um dos grandes poetas mafrensinos. Dele, cita ideia que, acidentalmente, casa com o contexto que pretende dar a uma situação específica, que não comentarei.

                Preferi começar este parágrafo com outro escritor, coincidentemente, também piauiense, a quem Sarney, por linhas transversas, tenta diminuir, inclusive, fisicamente: Assis Brasil que, certamente, escreveu mais que o autor de Marimbondos de Fogo, livros bem melhores que esse. Citá-lo em seu Galope à Beira-Mar como sendo autor de apenas um bom livro – Beira Rio Beira Vida -, esquecendo-se de que criou dezenas de boas obras, a ponto de, por conta de alguma delas, ser premiado com a comenda Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, é quase um acinte. O episódio em que menciona o nome do parnaibano é um sarau de poesia, em barzinho ludovicense dos idos de Sarney jovem, em que, a um jornalista-contista, Erasmo Dias, segundo o próprio, intelectual de rara inteligência, Assis Brasil apresenta um poema de sua autoria, havido pelo jornalista, após sua oitiva, como de qualidade pífia, capaz de ser feito, apenas, por um péssimo poeta.

                Não diria, até porque não ousaria arvorar-me crítico literário, como já falei, que Sarney seria um escritor ruim – sem parcimônia, muitos já afirmaram que ele não é muito bom -; fizesse isso e estaria, sumariamente, depreciando a Academia Brasileira de Letras, à qual pertence,  fórum literário e celeiro de grandes talentos intelectuais, mormente, de antanho, bem mais que de hoje; fato é, todavia, que o grande político – como tal, não resta dúvida de que é monstro - pinheirense, não é escritor nem crítico literário com cacife suficiente para afirmar que Assis Brasil é autor de apenas um bom romance: Beira Rio Beira Vida. Continue escrevendo, imortal Sarney: quem sabe seu próximo livro não seja, enfim, uma obra-prima literária.   

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

BUCHADA DE BODE NA FAZENDA DO ROCIO (*)

Zé Francisco, Neto, Elmar, dona Socorro e o casal Celso e Nevinha
Elmar, Neto e Zé Francisco, em memorável manhã, no Sítio Carajás
Vista observada do Sítio Carajás
Elmar, Neto, João Luís Queiroz e Zé Francisco Marques, no alpendre da antiga sede da extinta Fazenda do Rocio, pertencente à família do meu saudoso amigo Otaviano e do dramaturgo Francisco Pereira da Silva


BUCHADA DE BODE NA FAZENDA DO ROCIO (*)

Elmar Carvalho

No dia do lançamento de meu livro Bernardo de Carvalho – O Fundador de Bitorocara, encontrei-me com o amigo João Luís Queiroz. É ele médico veterinário e dono de uma loja de produtos destinados à agricultura e à pecuária. Fundou, juntamente com Elton Andrade e outros companheiros, a Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos de Campo Maior – Ascamcco, que funciona na antiga sede da Fazenda Rocio, no Bairro São João, no local onde outrora eram realizadas as exposições agropecuárias.

Em presença do professor Zé Francisco Marques, disse-lhe que minha mãe havia descoberto uma senhora que era uma exímia preparadora de buchada de bode, e que eu iria encomendar essa iguaria por ocasião de minha próxima visita a meus pais. O João Luís ficou interessado e me perguntou a data de minha vinda. Em seguida, disse que ele mesmo iria mandar preparar uma buchada, a ser feita com bode de seu próprio rebanho. Marcamos a data e o local do repasto.

No domingo agendado, nos encontramos na casa grande da extinta Fazenda do Rocio. Ficamos no alpendre que possibilitava a visão de umas árvores frondosas e de uma nesga do tabuleiro campomaiorense, apesar de o imóvel ficar atualmente encravado em área urbana. Fizeram parte do ágape, além do anfitrião, o Zé Francisco, o professor Neto Chuíba, senhor feudal do sítio Carajás, o universitário Guilherme Queiroz, filho do João Luís, e este cronista.

Além do multicitado quitute, vieram outras iguarias, entre as quais um delicioso sarapatel. Tudo foi preparado pela moradora da sede da Acampi, que se esmerou no preparo do repasto, que além de farto foi supimpa. Todos fomos unânimes em reconhecer a qualidade gastronômica dos pratos ofertados, que deglutimos com muito brio e entusiasmo, em meio a alegre e descontraída libação. Sendo João Luís Queiroz um grande apreciador da cultura nordestina, sobretudo das cantorias, dos desafios de repentistas, dos poemas de cordel e do autêntico forró nordestino, nos brindou com belíssima camisa em homenagem a Luiz Gonzaga, o insuperável e eterno Rei do Baião, que passamos a envergar imediatamente. Parecíamos estar em sua fazenda do Exu. Ao final, fomos enquadrados pelo meu irmão Antônio José, que como um legítimo cangaceiro virtual nos colocou sob a mira de uma câmera fotográfica.


Como é de minha praxe, propus que fizéssemos uma rodada do que chamo de discursos-relâmpagos, referentes ao evento. Para dar o exemplo e estimular os demais amigos, iniciei a peroração. Enalteci as qualidades e virtudes de cada um dos presentes. Recordei que quase oito anos atrás, a saudosa mãe do João Luís, a pedido de meu pai, orou por minha saúde, e me enviou um escapulário, que me acompanhou durante muitos anos, em sinal de Fé e de agradecimento pela minha cura. Seus pais, Francisco e Nazaré, foram amigos dos meus. A seguir fiz a louvação da bela paisagem do entorno, ainda um tanto bucólica, o que mais se acentuou com a presença de algumas reses bovinas, que coroaram a festa, dando-lhe um aspecto também pastoril. Alinhavei considerações sobre o histórico da velha fazenda do Rocio, mormente a respeito dos familiares de seus antigos proprietários.

Disse que ela pertencera à família do grande teatrólogo Francisco Pereira da Silva, um dos maiores do Brasil, filho ilustre de Campo Maior, que teve a peça Chapéu de Sebo encenada, durante vários anos, em Berlim, na Alemanha. Falei de minha amizade com os filhos dos saudosos João Capucho do Vale e dona Consolação. Recordei que no início da década de 70, quando eu tinha 16 ou 17 anos de idade, o poeta Odylo Costa, filho, e sua mulher, a pintora campomaiorense Maria de Nazareth (irmã de Chico Pereira), visitaram Campo Maior. Cheguei a ver o casal na casa do senhor João Capucho, situada perto do Centro Operário.

A minha timidez da época e de sempre não me deixou cumprimentar Odylo, e lhe dizer que eu também fazia versos, ainda que tortos ou capengas. De qualquer sorte, pedi emprestado, através do Otaviano Furtado do Vale, o seu livro Cantiga Incompleta, que ele autografara para os seus parentes João Capucho e dona Consolação, pais do meu amigo. O poeta era sabidamente um mestre na arte da convivência, e soube construir e conservar belas amizades, entre as quais as dos bardos Carlos Drummond de Andrade, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira, que foram seus padrinhos de casamento. Por sinal, esses vates são de minha admiração, e de todos eles tenho livros em minhas estantes.

A minha retração me impediu de ganhar – quem sabe? – um exemplar de Cantiga Incompleta, autografado pelo autor, mas hoje tenho a sua Poesia Completa, edição organizada por Virgílio Costa, seu filho, em lugar de honra em minha biblioteca, que fui forçado a “enxugar” bastante no ano passado, por falta de espaço físico. Para minha maior satisfação, na oportunidade em que consegui essa obra, adquiri também os três volumes de Teatro Completo de Francisco Pereira da Silva, publicados pela Funarte em 2009, igualmente organizados pelo Virgílio Costa, que é escritor, historiador e pintor.

Na apresentação da obra, que enfeixa 32 peças, o Ministro da Cultura, Juca Ferreira,  diz que o grande dramaturgo “fez da pobreza e da secura do Nordeste sua temática principal e formou, com Ariano Suassuna e Osman Lins, uma tríade de expoentes da dramaturgia regionalista”, mas reconhece a universalidade de FPS quando diz que a sua obra “extrapola os temas regionais e, em muitos casos, se volta para a realidade cultural do país”. Grandes diretores e atores, entre os quais Gianni Ratto, Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Francisco Cuoco, Zilka Salaberry, Maria Gladys, José Wilker e Sérgio Britto, encenaram obras de sua autoria. Uma de suas peças foi transformada em filme. Não obstante tudo isso, Sérgio Mamberti, em nota introdutória, reconhece que Chico Pereira foi um artista extremamente modesto. Sua timidez já me fora relatada pelo ator Tarciso Prado, que foi seu amigo e lhe tinha profunda admiração.

Ele era tio de Olavo Pereira da Silva Filho, arquiteto, um dos mais destacados lutadores da preservação arquitetônica do Piauí, autor de importantes obras sobre os velhos solares do Piauí e do Maranhão, e que arrebatou um dos maiores prêmios nacionais dessa área cultural. Era primo de Abdias Silva, campomaiorense, com quem tive a honra de me corresponder, que foi um dos maiores jornalista do país, e do memorialista Francisco Cardoso da Silva.

A alta qualidade de sua obra, o seu estilo apurado, a sua técnica esmerada, no momento em que o teatro nacional enveredou pelo experimentalismo e em busca de pretensas ou verdadeiras vanguardas, fez com que a sua fatura teatral, embora bem recebida pela crítica, fosse “bastante ignorada pelo público”, segundo foi observado na cronologia, na qual consta que sua dramaturgia fora escrita numa hora errada, ipso facto, além de haver encontrado “certa hostilidade da elite sulista à cultura e ao desnudamento da pobreza nordestina”, de onde o dramaturgo teria extraído sua principal temática.

Ao contemplar a velha sede da Fazenda do Rocio, não pude deixar de me lembrar dos versos em que o poeta H. Dobal disse ali haver tomado banho de leite. E não pude deixar de lamentar que o notável teatrólogo campomaiorense pouco seja lembrado e festejado em sua terra natal, apesar de há muitos anos uma lei estadual ter determinado a criação do Memorial Francisco Pereira da Silva. Até hoje essa lei nunca foi executada. Não sei o que impede a criação desse Memorial, uma vez que o autor já é falecido e é um dos maiores teatrólogos brasileiros.

17 de janeiro de 2013

(*) Crônica republicada como uma homenagem ao professor Neto Chuíba (Antônio José Araújo Silva), falecido em 27/07/2013, em Campo Maior, em sua residência no Sítio Carajás, onde estive várias vezes, acompanhado de nosso amigo comum Zé Francisco Marques, professor e musicista.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Agosto é mês pra achar graça

Fonte: Google/Antagonista


Agosto é mês pra achar graça

Pádua Marques
Jornalista e escritor

Já foi o tempo em que se costumava dizer que agosto era mês quando tudo de ruim, tragédia, calamidade, crimes, acidentes, coisas ruins faziam e aconteciam sem escolher cara e condição de quem havera de ter dinheiro no banco. Lembro que quando criança as pessoas se benziam e até passavam o mês inteiro escutando rádio e procurando saber os acontecidos.

Mas nos últimos anos as coisas e os governos ficaram tão medíocres, mas tão medíocres e ruins, as coisas ruins ganharam a rotina, a violência, roubo de celular, corrupção, surra em mulher, viadagem, dança da novinha, silicone na bunda, relação sexual, troca de sexo, casamento de pessoas do mesmo sexo, tudo em quanto não presta foi pra dentro da casa da gente e saindo pela televisão que coisa ruim ninguém nem mais se espanta.

Essa semana passada aqui na Parnaíba se deu um dos maiores momentos desta nova fase da história moderna, o chamado Agosto Vermelho. Vermelho porque a gente fica com a cara vermelha de tanto achar graça de tanta coisa que acontece, que se for colocar na caderneta uma em cima da outra há de perder a conta.  Mas tudo está documentado e visto pela nossa imprensa.

Temer saiu de Brasília e veio de cretado até o aeroporto lá no Catanduvas só dizer que estava deixando pro Mão Santa uns trocados, coisa de uns míseros 54 milhões de reais pros seculares Tabuleiros Litorâneos. Voltou no mesmo rastro e dizendo que Mão Santa não se avexe e não se acanhe quando precisar de alguma coisa. Tem carta branca e nem precisa enfrentar fila na porta do Planalto, sem necessidade de senha. Prometeu como se fosse ficar mais uns dez anos no poder.

Voltou no mesmo rastro. Agora aqui eu fico imaginando que talvez tudo isso não seja mais uma enganação. Temer está em final de mandato e de carreira. Corre agora e dentro de mais alguns meses o risco de ser processado e até preso, dependendo da visão da justiça. Não tem mais lá muito poder e muito menos condições de andar dando dinheiro a quem quer que seja. Até porque não se tem esse dinheiro todo.

A outra da semana vem da Câmara Municipal como protagonista. Geraldo Alencar Filho, o vereador de sete mandatos e, portanto vinte e oito anos de casa, com grandes projetos e serviços prestados à cidade na vereança, encasquetou com um artigo do Bernardo Silva. Disse que vai processar e pedir reparos por danos morais ao superintendente de comunicação da prefeitura. Fez os seus colegas votarem uma moção de repúdio e tudo o mais. Calculem só vossas excelências.

Se a gente acreditasse em feitiço havera de dizer que foi coisa feita do Codó pra uma banda, do Maranhão pra dentro. Mal Geraldinho fechou a boca dizendo que vai processar o Bernardo Silva e já na segunda-feira dois vereadores, Reinaldinho Santos e Bernardo Lima estavam usando um elevador, que nem ainda foi inaugurado, e pelo que se sabe custou um caminhão de dinheiro, o bicho deu enguiço. Estava junto o repórter Hudson Veras, da TV Delta. Depois de muita reza e muito medo todos saíram rezando o Pai Nosso e o Creio em Deus Padre. E olhe que ainda estamos no início do mês! Pelo visto ainda vai acontecer muita coisa pra gente achar graça. Ainda bem que Mão Santa não chamou o Temer pra visitar a Câmara Municipal e andar de elevador. Deus sabe o que faz! Tanto sabe o que faz que enviou o Emanuel na hora do desespero. Emanuel vai ser condecorado com a Ordem Nacional do Mérito da Chave de Fenda.   

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

PARABÉNS PARNAÍBA!

Fonte: Google


PARABÉNS PARNAÍBA!

Carlos Henriques de Araújo
Escritor membro da UBE-PI

Ao completar mais um aniversario, Parnaíba não tem muito a comemorar. Embora com uma nova “cara” depois da reforma da praça da Graça, e da desgraça que assolou o Brasil nos último dez anos, os parnaibanos continuam sem esperança de dias melhores, e apreensivos com o que pode vir depois dessas eleições.

Não precisa ser gênio ou vidente para concluir que nós, brasileiros só temos duas opções para decidir o futuro do Brasil, num processo de eleição difícil, sujeito a fraudes e com muito dinheiro de origem duvidosa e com pesquisas e notícias falsas.

A primeira seria continuarmos com a politicagem de sempre, com as promessas de campanha que eles nunca cumprem. Com o toma lá, dá cá. Com muita corrupção. Com nossos trilhões de impostos pagos sendo desviados e mal empregado. Com o desemprego, a violência, a impunidade, e todas as formas de degradação social e desrespeito para com a família e a religião. Com a divisão da população em ricos e pobres, pretos e brancos, gays e héteros, machistas e feministas, defendida pela Esquerda dos Comunista e simpatizantes, criadores do Foro de São Paulo, que apoiam as ditaduras falidas da América Latina, principalmente a de Cuba e da Venezuela.

 A outra opção seria eleger um presidente da Direita Liberal e Democrática que defende um país com um só povo, sem divisões de raça, de gênero, com um distribuição de renda mais igualitária, onde a família seja respeitada e a população tenha segurança, emprego, saúde, transporte, moradia e principalmente educação, para ter oportunidade de crescer por mérito e ter sua própria empresa.

Um presidente capaz de fazer exatamente o contrário de tudo isso que tem sido feito nos últimos governos. Com autoridade e independência para escolher seus ministros e assessores competentes para fazer as reformas necessárias e administrar um projeto de governo, e não de poder.

Voltando ao aniversário de Parnaíba. Como não dá pra falar do futuro pois ele está dependendo de quem vier governar o estado e o país, melhor então é falar do seu passado, mergulhando nesse mar de saudades e recordações agradáveis.

Até pouco tempo atrás era comum ouvir de algumas pessoas que Parnaíba era “a terra do já teve”. Em parte era verdade. Parnaíba já teve muita coisa, foi um passado que nos deixa orgulhosos.

Para se ter uma ideia do estágio de desenvolvimento que Parnaíba alcançou naquela época, basta lembrar que do Campo de Aviação (como era chamado o Aeroporto) saíam voos regulares da Real Aerovias, para as principais cidades do Norte, Nordeste e parte do Sudeste, depois teve mais duas companhias, a Paraense e a VARIG.

Do porto de Amarração,  o navio “Jozias Moraes” da família Moraes, dona de várias indústrias e comércios, com filial no Rio de Janeiro, uma vez por mês zarpava para o Rio. Empresas como Moraes S.A. importavam máquinas e equipamentos. A loja Celso Nunes S.A. importava tratores e máquinas agrícolas. A Casa Inglesa vendia Jeep e Rural Willys. O grupo Roland Jacob exportava cera de carnaúba, jaborandi e algodão. E a loja Rosemary trazia as últimas novidades de Paris em artigos de cama, mesa, decorações, roupas, joias e acessórios para as famílias parnaibanas.

Em comemoração de mais um aniversário, quero transmitir meu afetuoso abraço a todos os conterrâneos, e lembrar que outras passagens desse passado glorioso da nossa querida Parnaíbinha de Nossa Senhora das Graças poderão ser revistas no meu livro “Sem lenço, sem documento”. São momentos interessantes que estão guardados na memória de todos nós parnaibanos.   

domingo, 5 de agosto de 2018

Seleta Piauiense - Cineas Santos

Fonte: Google


Bens de família

Cineas Santos (1948)

Meus avós vivem de rendas:
vovó faz
vovô vende.    

sábado, 4 de agosto de 2018

Francisco de Canindé Correia: cidadão parnaibano de visão terceiro-mundista

Canindé Correia (ao centro), Depaula (plano superior), e Reginaldo Costa (primeiro plano, à esquerda), em entrevista a Vilmar Klein Ferreira

Francisco de Canindé Correia: cidadão parnaibano de visão terceiro-mundista

Reginaldo Costa (*)

No inicio da década de 70, quando oportunizei a condição de morador da cidade do Rio de Janeiro, vivi a plenitude dos primeiros sonhos, embevecido pela imponência daquela arquitetura e os benefícios proporcionados pelo poder da natureza, em que a imensidão do Oceano Atlântico, aconchegando-se em sua orla, desenha, caprichosamente, os contornos da exuberante Baía de Guanabara.

Andar sem compromisso pelo centro e bairros banhados pelo mar, visualizando o conjunto de belezas planetárias inconfundíveis, enchia-me os olhos de encantamento. Tanto que, recortes de imagens inesquecíveis conduzem à recordações nostálgicas da cidade e das pessoas, na época em que a vida era harmonizada pelo caráter solidário dos relacionamentos, a consolidar a identidade de um povo alegre, trabalhador, solidário, amante da liberdade. Referência universal do samba e da bossa nova, a Cidade Maravilhosa foi o berço onde nasceram alguns expoentes da música brasileira, entre eles, Cartola, Noel Rosa, Pixinguinha e Vinicius de Moraes.

Nesse cenário de beleza, vivia-se o inconformismo e as incertezas de um Brasil governado por militares, em que a ditadura mantinha a imprensa amordaçada. Dessa maneira, não se podia tomar conhecimento das prisões, torturas, e assassinatos de ativistas de esquerda. Diferente dos porões, nas rádios, os Novos Baianos dominavam as paradas com “Tinindo Trincando”, “Besta é Tu”, “Preta Pretinha” e “Brasil Pandeiro”, todas do vinil Acabou Chorare, considerado obra-prima da música brasileira, cujo exemplar ainda guardo, com imensa alegria.

Enquanto as estatísticas registravam o aumento da concentração de renda e da desigualdade social, como também, da promoção do sofrimento humano, em grande escala, o parnaibano João Paulo dos Reis Veloso, dos maiores entusiastas do regime de exceção e um dos sócios assíduos do clube dos generais, ocuparia a pasta do planejamento, nas gestões de João Baptista Figueiredo e Ernesto Geisel, contribuindo diretamente para a consolidação do tristemente afamado “milagre econômico”.

Embora sob a vigência de um regime que suprimia direitos constitucionais, entre outros malefícios à sociedade civil, nada abalaria a sensação de liberdade e descontração próprias do carioca, características incorporadas à rotina diária da casa-república, localizada à rua Barão de Pirassununga, nº 55/6, há poucos passos da Praça Saens Peña, no tradicional e simpaticíssimo bairro da Tijuca, onde eu me juntara aos conterrâneos Luís Costa, Umberto Tito Lima, José Alberto Ripardo e Carlos Petrônio de França Rego.

O local, favorecido pelo clima agradável, acolhia vasta quantidade de aves de diferentes espécies que se manifestavam todas as manhãs, pelas janelas da antiga construção, anunciando o novo alvorecer, em panorama semelhante aos longínquos rincões nordestinos, aflorando a saudade das nossas raízes.

Nessa estação de cores e harmonia, vivendo no auge dos primeiros sonhos, foi que conheci Canindé Correia. Na lembrança, o domingo de sol abrasador, daqueles de lotar as praias, coloridas de mulheres exuberantes, sensualizando por amplas passarelas de areia ao frescor das águas oceânicas, enquanto outras, mais ousadas, se expunham ao sol, sem qualquer modéstia, a refletir o brilho dos corpos bronzeados, desproporcionalmente amparados por diminutas tangas, acessório revolucionário de libertação feminina, lançado naquele verão tropical.

Na manhã de um dia recompensado pela sequência do que viria, a colônia parnaibana houvera iniciado as atividades domésticas, contando piadas, conversando qualquer coisa, interagindo de maneira agradável com os ponteiros do relógio, a completar o ciclo diário de transportar para o futuro sensações de momentos indescritíveis.

Seguindo a velocidade do pingue-pongue verbal, audível da sala a área de serviço, alguém sugere feijoada para o cardápio. Repentinamente, uma voz projetada de outro compartimento da casa, propõe uma rodada de caipirinha, certamente na intenção do grupo filtrar as emoções de mais uma semana de compromissos com a vida. Entretanto, da teoria à prática, caberia uma questão de ordem, sobretudo, onde não sobra cascalho. Nesse caso, nada mais eficaz que uma vaquinha, o que foi prontamente realizado.

Espontaneamente, o evento ganharia forma e estilo próprios, incluindo a acomodação em círculo, no aconchegante piso assoalhado da sala, onde todos deveriam compartilhar do cachimbo da paz, na verdade, uma cuia, joia rara, disponibilizada não me lembro por quem, abastecida com a bebida deliciosa. De boca em boca, todos saciariam a sede, instante em que, adentra ao recinto, os visitantes da hora, Canindé Correia e Milton Cherman, este, ex-morador daquele cafofo.

A partir de então, as conversas seriam favorecidas por conteúdo divertidíssimo. Em cena, o piadista nato, Umberto, escrito com “u”, sobressaindo-se na maneira de expor ao ridículo, figuras consideradas folclóricas da vida parnaibana. E não escapavam à lembrança, políticos, jornalistas, animadores culturais, gente do mundo de fantasias das socialites. Para temperar a mistura, não poderia faltar a essência especial do humor parnaibano, na figura do lendário Pacamão, com suas tiradas engraçadíssimas.

Aquele endereço, simples e acolhedor, adequado à visita de gente com energia favorável à harmonia entre as pessoas, tinha como uma de suas referências o cidadão que atendia pelo nome José do Egito da Costa (in memorian), parnaibano que se destacou pela inteligência, bom humor e desprendimento, nitidamente ligado a tudo que é sincero. Dessa maneira, rememorar aprendizagens marcantes nos remete a recordações construtivas do amigo cujas maiores riquezas, a humildade e o companheirismo, o tornam inesquecível. Esses detalhes, invisíveis aos olhos dos que consagram o glamour dos reconhecimentos, muitas vezes circunstanciais, dispensam estátua ou placa de bronze.

Após o encontro agradável, no Rio, voltaria a conversar com Canindé Correia, somente em Parnaíba, no momento em que procurava parcerias para o Jornal Inovação, quando fui visitá-lo no SESI, onde exercia cargo relevante. Entre cordialidades, apresentei-lhe a 3ª edição do nanico, acolhendo em suas mãos com surpreendente entusiasmo. Identificando-se com o conteúdo, assumiu, inicialmente, a condição de assinante. Não demorou, o movimento social ganharia um novo aliado nas lutas por conquista de cidadania, protagonizando uma história diferente das elites conservadoras cultural, social, política e economicamente excludentes; e eu, um amigo inseparável, a compartilhar de inúmeras experiências, dinamizadas por convivência testemunha do respeito e da decência, pautada por interesses exclusivos ao campo das ideias.                    

Convencido de que o sangue a percorrer em nossas veias carregava o DNA da indignação contra o moralismo castrador e no recôndito dos nossos corações, sentíamos o mesmo desejo por mudanças, em março de 1978, se integra, definitivamente, ao Grupo INOVAÇÃO, quando me entrega um manuscrito protegido por capa improvisada em papel almaço, para ser publicado na 5ª edição do jornal. Meticuloso, solicita minha atenção para a leitura do texto.

Pertinaz, sobretudo, na defesa da implantação do Distrito Industrial de Parnaíba, um dos cavalos de batalhas de sua militância no jornalismo, direciona sua produção intelectual para convocar a população e entidades de classe a se envolverem nas discussões pertinentes àquele empreendimento que, aliado à interligação rodoviária do norte do Piauí-Maranhão-Ceará e a definitiva construção do Porto de Luís Correia, consolidaria o desenvolvimento econômico da região norte do Estado do Piauí, assuntos incorporados por INOVAÇÃO, considerando o presente de incertezas e a necessidade de conter o atraso, portanto, reivindicações consideradas de cunho popular, e não de grupos historicamente vinculados à concepção individualista de sociedade, que através de iniciativas burocratizadas se arvoram da autoria de iniciativas mais sem o poder de articulação, para transformar sonhos em realidade.

Contribuindo com o processo de conscientização, Canindé Correia mexia com os brios do leitor, alertando para a necessidade de reflexão sobre a inadiável necessidade de recuperação do poder de influência da cidade como núcleo empreendedor, considerando inoportuno, alimentar a discussão, sustentada pela nostalgia dos tempos em que o apito do trem despertava as comunidades que usufruíam da ferrovia como meio de transporte de cargas e de passageiros ou dos navios que zarpavam do Porto Salgado rumo a Europa, sob o rótulo “Parnahyba Norte do Brasil”.

O que outrora alimentava egos, na atualidade, em razão da mudança radical do perfil da economia brasileira, enriquecia bibliografias específicas de pesquisa, por meio das quais, acadêmicos e pesquisadores poderiam detectar a falta de visão das elites parnaibanas, no que diz respeito aos novos rumos da economia, a partir do momento em que o presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), consolidou as estradas como elemento prioritário para o desenvolvimento nacional, em detrimento do transporte fluvial e ferroviário, incorporados à história como “símbolos do passado”.

Nitidamente contrastando com os que consolidam o conhecimento no egoísmo, Canindé Correia acompanhava a dinâmica dos fatos no âmbito do Jornal INOVAÇÃO, com ousadia. Entusiasta do desenvolvimento econômico e social mantinha o tom elevado do discurso para denunciar as estatísticas preocupantes da miséria, comentando entre amigos que houvera chegado a hora de mudar o perfil da sociedade, cabendo ao movimento popular encaminhar as alternativas de discussão coletiva com a participação popular, as classes dirigentes, e por que não, da Associação Comercial de Parnaíba e da Federação das Indústrias do Estado do Piauí, com sede em Parnaíba, desde a sua criação em 1954, embora a FIEPI, à época, dominada por grupos retrógrados e de onde prosperaria o projeto de desmembramento dos Morros da Mariana do município de Parnaíba, iniciativa que o jornal se insurgiu.

Entretanto, o apelo jornalístico jamais seria digerido no âmbito dessas e de outras entidades, muito provavelmente porque, naquelas circunstâncias, não alcançaram a dimensão das novas fronteiras que poderiam ser alcançadas a partir de campanhas de valorização da autoestima, tendo em vista a superação da incômoda imagem de “cidade do já teve”, lamentável condição em que Parnaíba, nas trevas da ignorância feudal dos líderes políticos, estava inserida.

Com a convivência passei a chamá-lo de “chefe”, em referência ao cargo que ocupava no Serviço Social da Indústria. Por princípios comuns, discordávamos do amor livre e do uso de drogas. Também não morríamos de amores pelo rock’n’roll. Entretanto, a Bossa Nova, através das batidas de Badem Powel, Carlos Lyra e João Gilberto, combinou com nossa personalidade e temperamento. Com o amigo com quem tive relação muito pessoal, convivendo como sujeitos ativos da história, caminhamos e cantamos, seguindo a canção de Vandré, buscando compreender as dores do mundo na expectativa de uma sociedade solidária, alimentando utopias compatíveis à esperança de quem visualizava um Planeta onde seria possível a todos viver em condições de igualdade.  

Espírito eminentemente anticapitalista, Canindé Correia discordava da tendência humana ao consumismo exacerbado, considerando a fragilidade das conquistas relacionadas ao prazer e à felicidade, um reflexo do sistema politico e econômico que se apodera das vontades, utilizando-se da mídia para estimular a cultura do descartável, inclusive, os relacionamentos.

Atendo às necessidades de evolução do movimento social, colocou o único transporte de sua propriedade – uma moto Honda 125 – para servir de suporte às varias atividades do Grupo. No auge da amizade, quando já circulava de automóvel, me visitava em casa todas as manhãs. No silêncio do alvorecer das quatro estações, sua chegada era anunciada ao acionar o freio de mão do seu Corcel II.  Coautores de notinhas, títulos e textos, fidelizávamos agilidade em formular ideias com a habilidade de coordenar e encaixar as palavras nos períodos. Chegar ao consenso, na busca de manchete atraente, compatível ao que gostaríamos, era motivo de alegria.

Politicamente integrado à dinâmica do tempo, Canindé Correia sabia analisar com conteúdo convincente questões eleitorais em nível local, nacional e internacional, nutrindo paixão especial pelos números estatísticos, aos quais se apegava como referência para avaliações que superavam a visão contraditória dos pseudocientistas sociais. Sem reivindicar o título de profeta, construía situações favoráveis para fomentar a avaliação da realidade parnaibana, traçando parâmetros de comparação determinantes das circunstâncias do atraso entre esta e outras cidades com as mesmas características, e que, entretanto, apresentavam desenvolvimento econômico e social satisfatórios.

Pela forma de ver os acontecimentos à sua volta, intuído pela conduta humana irretocável, adotava, como critério de avaliação, valores diferentes do comportamento habitual em que bens materiais são colocados na balança como objeto de valorização do indivíduo. Cauteloso ao escolher amigos, orgulhava-se dos poucos que desfrutavam do seu círculo, preferindo qualidade à quantidade, afirmando gostar de se relacionar com gente inteligente e de caráter. Por herança da genética paterna, preferia a postura de mergulhar na boa leitura, a compartilhar de relações sociais sustentadas pelas aparências.                       

Por suas convicções, a ligação quase umbilical com o movimento popular não comprometeu o vínculo consanguíneo de família tradicional. Em oposição aos laços familiares culturalmente conservadores, revelou-se um parnaibano de visão terceiro-mundista, identificando-se com as nações empobrecidas do Planeta, defendendo, categoricamente, esses redutos de exploração do capital sobre o trabalho, com comentários cortantes, principalmente, contra a grande mídia, em que alguns articulistas direcionavam a notícia, desvirtuando a realidade sobre o enfrentamento dos povos contra a burguesia, nas lutas por alternativas de poder e, difundindo informações distorcidas sobre o acirramento das lutas por liberdade.

Alvo de sua inquietude, as nações que apresentavam os mais baixos índices de expectativa de vida, o fazia vasculhar os catálogos das editoras. Sentindo a necessidade de estar informado sobre o desenrolar dos movimentos de libertação nacional, especialmente na Nicarágua, dos Sandinistas; em Cuba, de Fidel; em Moçambique, de Samora Machel; em Zâmbia, de Kenneth Kaunda; e na África do Sul, de Nelson Mandela, solicitava livros, revistas, assinava jornais, enfim, sabia alcançar o mundo à sua frente.

Imbuído do propósito de plantar as sementes que germinariam a essência do seu discurso humanitário, certa ocasião, foi a meu encontro com uma edição dos “Cadernos do Terceiro Mundo”, uma das melhores publicações editadas no Brasil, fundada em setembro de 1974, por Neiva Moreira, Beatriz Bissio e Pablo Biacentini.

Na opinião de Canindé Correia, o INOVAÇÃO deveria assumir a publicação de textos em solidariedade aos povos do Terceiro Mundo, numa “época em que se vivia uma História em movimento e uma confrontação permanente de pensamentos antagônicos”, assim, o fizemos, embora os conteúdos “comprometedores”, alimentassem a fúria dos opositores do jornal.             

De formação humanitária absolutamente afinada com a evolução do homem, a partir da concepção de novas mentalidades, Canindé Correia absorvia a leitura das obras de Alceu de Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Frei Beto, Joel Silveira, Nelson Werneck Sodré, Fidel Castro, Dom Pedro Casaldáliga, dos quais compartilhava as ideias, queimando pestanas em horas incessantes de leitura e reflexão. Navegando pelas fronteiras do conhecimento, repassava com entusiasmo, o conteúdo do que lia, analisando de modo breve.

Não há como fugir da lembrança o entardecer do dia em que, embalados por espiritualidade saudável, fomos espairecer na beira-Rio, onde nos acomodamos no “Veleiro”. Chamariz de boêmios, o bar estimulava prolongar a jornada, atravessando tardes e noites vadias. Prazerosamente sentados, aquela brisa agradável na pele, o pôr do sol refletindo seu encanto sobre as água do Igaraçú, e o violão, bem ali, colado ao peito de Edson Rocha, que nos alegrava com a leveza de sua agradável companhia, a deslizar os dedos sobre as cordas do instrumento, emitindo sons que preencheram o ambiente de musicalidade envolvente.

Como num toque de magia, nos entreolhamos, erguemos as taças, brindamos e consumimos de um gole só, a primeira rodada de cerveja. Simultaneamente, o amigo violonista sinalizou com a batida no violão para que eu o acompanhasse, fazendo vibrar o tom da música “O amor em paz”, de Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. E eu cantei, com alma, coração e muita vibração. Ao ouvir a sentença “o amor é a coisa mais triste quando se desfaz” Canindé Correia, fascinado com a melodia a penetrar-lhe n’alma, tremeu nas bases. Arrebatado emocionalmente para outras dimensões, levanta-se da cadeira, estufa o peito, abre os braços, gesticula para enfatizar o estado de euforia e pronuncia: – Isso é muito lindo! Isso é muito lindo! O pensamento circular desconectou o amigo consciencioso, sobretudo pela apurada sensibilidade de ver as coisas, o mundo e as pessoas. Como diria o poetinha, em “Tomara”, das músicas que compôs sozinho, a coisa mais divina desse mundo é viver cada segundo como nunca mais. É bom lembrar que em nenhuma daquelas ocasiões desperdiçávamos o tempo com conversa miúda ou particularidades inerentes à vida alheia. Os assuntos convergiam, predominantemente, para troca de palavras no âmbito da conjuntura social, politica e econômica. Enfim, a pujança de confraternizações daquela natureza era uma maravilha: o entardecer, a cerveja gelada, o violão, a conversa aflorando descontraída e envolvente.

No momento de colocar em pauta algum tema para ser discutido democraticamente, Canindé Correia, formulava propostas recorrendo à comunicação argumentativa, fundamentando o assunto dialeticamente, articulando com habilidade, sem manipulações, concordando ou mesmo discordando de outras opiniões. Dono de jeito muito pessoal de ser, se habituou a conversar mutilando a substância fina e flexível das folhas de papel, pelos cantos, cujos apêndices, dobrando e desdobrando, como se fora diminutas sanfonas, eram manuseadas em câmera lenta, ao tempo em que raciocinava progressivamente. Sem qualquer constrangimento, o documento acessível sofria o crivo dos dedos habilidosos. A prática repetitiva, em que não havia a intervenção da vontade de danificar documentos, faz parte da coletânea de casos engraçados de José Ciríaco Lima, mestre na arte da imitação, que detalhava, com naturalidade, os mecanismos da atitude de natureza instintiva. Um simples olhar para a demonstração teatral acontecer, e a sensação de riso emergia.

Motorista e fiel escudeiro de outro José, o Hamílton Castelo Branco, Zéciríaco, familiarizado conosco, nos transportou para paradas inolvidáveis, quando batia à minha porta, acompanhado apenas do patrão ou de Canindé Correia, na certeza de que, independente da hora, se com o sol a pino, emergindo no horizonte; ou em plena madrugada, de lua cheia ou na escuridão das noites, o acolhimento teria a mesma afetividade.  Seguramente, no vigor de manifestações de amizade sincera, movidas a muitos brindes, sem trincar cristais, foi que se tornou possível, a saga de INOVAÇÃO. Portanto, sentimentos de natureza humana, revestidos de adjetivos que qualificam atos e ações, constituem a memória invisível, de altíssimo valor.

O tempo passou. Estávamos em 1992, quando o jornal já não existia. Entretanto, de tão importante, fazia parte das nossas histórias. Por isso, juntamente com Canindé Correia, Elmar Carvalho e Vicente de Paula Araújo, o Depaula, elaboramos uma edição extemporânea, estimulados por dois motivos: homenagear o amigo e colaborador Mário dos Santos Carvalho, desencarnado a 25 de novembro de 1991, e mostrar a importância do Distrito de Irrigação Tabuleiros Litorâneos do Piauí, na pessoa do gerente executivo, Vilmar Klein Ferreira, um dos entusiastas do projeto, em entrevista exclusiva, que, ao ser convidado, demostrou indignação com a classe política e a comunidade, por não haverem incorporado, nas suas plataformas de lutas, a permanência do Centro Nacional de Pesquisa Irrigada (CNPAI), único centro do gênero da América do Sul, instalado em Parnaíba, já que a transferência do órgão estava sendo articulada para Teresina.

Enquanto o Jornal INOVAÇÃO retorna às bancas, conservando o entusiasmo e consistência que marcaram a existência do alternativo mais duro na queda do Estado do Piauí, no comando da cidade, a mesma constelação de estrelas ilustres, sem perder a pose, mantinha-se atrelada às glórias do passado, certamente para não comprometer o sistema nervoso dos interesses que se resumiam na necessidade de manutenção do poder pela aparência fútil da vaidade.

Representante da corrente de pensamento em que as ideias avançadas devem ser discutidas construtivamente, Canindé Correia se sobressaiu pelo compromisso de conscientizar pelo poder da palavra e o comportamento ético em tudo que fazia: no trabalho, nas relações sociais e nos compromissos com a sociedade. Parceiro de tudo aquilo que não pode ser objeto de contestação, sem se arvorar de dono da verdade, nos momentos em que as discussões efervesciam, sobretudo quando o assunto fazia referência à Parnaíba, ativada a centelha da paixão pela terra natal, surpreendia pela abundância de argumentos infalivelmente construtivos, despontando, da ave dócil, de timidez proporcional à estatura, o galo de briga indomável.

Identificado com as lutas por democracia, sua contribuição para a sustentação da linha editorial do Jornal INOVAÇÃO e a consolidação do Movimento Popular, pautada pela plenitude do conhecimento, foi de construção do ser humano integrado à vida pela grandeza de seus valores e potencialidades.

(*) Professor e escritor. Fundador, juntamente com Franzé Ribeiro, do Jornal Inovação.

Fonte do texto e da fotografia: Blog do B. Silva