sábado, 31 de janeiro de 2026

DIPLOMACIA GASTRONÔMICA E PROSÓDIA INDIGESTA

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DIPLOMACIA GASTRONÔMICA E PROSÓDIA INDIGESTA


Elmar Carvalho

 

No seu Diário Completo, vi a anotação em que Josué Montello conta que, em reunião diplomática internacional, em que se tratava da paz na Indochina, o representante da França, depois de observar que o representante oriental, por desconhecer os costumes do ocidente, comera um queijo com papel prateado e tudo, procedera da mesma forma, para evitar qualquer incidente, mal-estar ou constrangimento.

 

O diarista, a seguir, narra que ouvira importante personalidade, ao falar da galopante inflação brasileira de três dígitos, cometer grave erro de prosódia, ao pronunciar a palavra dígito (proparoxítona) como sendo digito (paroxítona); que, tomando como exemplo a atitude do representante francês no episódio diplomático, resolveu, na conversa, também pronunciar digito, e não dígito, para não melindrar o interlocutor.

 

Essa leitura me fez lembrar o caso que se passou com um amigo meu, notável erudito, profundo conhecedor da língua portuguesa, inclusive de etimologia, já que é um latinista, além de versado em grego. Esse meu mestre ouviu alta autoridade pronunciar a palavra díspares (proparoxítona) com a tonicidade de dispares (paroxítona). Só que o meu amigo, ao contrário do exemplo do primeiro-ministro francês e do ilustre romancista, não condescendeu com o erro.

 

Embora de forma cerimoniosa, cautelosa e até pedindo desculpas, esclareceu o ilustre homem público, muito conhecido na época, sobre a prosódia correta do vocábulo. Contou-me o mestre que a autoridade, imediatamente, abriu a gaveta, de onde sacou um dicionário, para averiguar a veracidade do corretivo, quando só então deu a mão à palmatória.

 

Pela parte que me toca, devo dizer que jamais iria comer queijo com papel laminado e nem iria pronunciar um vocábulo de forma errada porque uma outra pessoa o fez. Poderia até evitar comer o meu queijo, e não pronunciar a indigesta e indigitada palavra, substituindo-a por uma sinônima ou construindo a frase de modo a evitá-la, mas não seguiria a lição da autoridade francesa, no caso do queijo, nem do meu colega diarista, na questão da prosódia. Neste último caso, ficaria com o exemplo do meu amigo e mestre piauiense.

 

E torceria para que, nos dias violentos de hoje, a pessoa beneficiada com a correção sacasse apenas o dicionário, e não um revólver, por exemplo, ou mesmo uma palavra agressiva.

1º DE FEVEREIRO DE 2011     

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