DIPLOMACIA GASTRONÔMICA E PROSÓDIA INDIGESTA
Elmar Carvalho
No seu Diário Completo, vi a
anotação em que Josué Montello conta que, em reunião diplomática internacional,
em que se tratava da paz na Indochina, o representante da França, depois de
observar que o representante oriental, por desconhecer os costumes do ocidente,
comera um queijo com papel prateado e tudo, procedera da mesma forma, para
evitar qualquer incidente, mal-estar ou constrangimento.
O diarista, a seguir, narra que
ouvira importante personalidade, ao falar da galopante inflação brasileira de
três dígitos, cometer grave erro de prosódia, ao pronunciar a palavra dígito
(proparoxítona) como sendo digito (paroxítona); que, tomando como exemplo a
atitude do representante francês no episódio diplomático, resolveu, na
conversa, também pronunciar digito, e não dígito, para não melindrar o
interlocutor.
Essa leitura me fez lembrar o
caso que se passou com um amigo meu, notável erudito, profundo conhecedor da
língua portuguesa, inclusive de etimologia, já que é um latinista, além de
versado em grego. Esse meu mestre ouviu alta autoridade pronunciar a palavra
díspares (proparoxítona) com a tonicidade de dispares (paroxítona). Só que o
meu amigo, ao contrário do exemplo do primeiro-ministro francês e do ilustre
romancista, não condescendeu com o erro.
Embora de forma cerimoniosa,
cautelosa e até pedindo desculpas, esclareceu o ilustre homem público, muito
conhecido na época, sobre a prosódia correta do vocábulo. Contou-me o mestre
que a autoridade, imediatamente, abriu a gaveta, de onde sacou um dicionário,
para averiguar a veracidade do corretivo, quando só então deu a mão à
palmatória.
Pela parte que me toca, devo
dizer que jamais iria comer queijo com papel laminado e nem iria pronunciar um
vocábulo de forma errada porque uma outra pessoa o fez. Poderia até evitar
comer o meu queijo, e não pronunciar a indigesta e indigitada palavra, substituindo-a
por uma sinônima ou construindo a frase de modo a evitá-la, mas não seguiria a
lição da autoridade francesa, no caso do queijo, nem do meu colega diarista, na
questão da prosódia. Neste último caso, ficaria com o exemplo do meu amigo e
mestre piauiense.
E torceria para que, nos dias
violentos de hoje, a pessoa beneficiada com a correção sacasse apenas o
dicionário, e não um revólver, por exemplo, ou mesmo uma palavra agressiva.
1º DE FEVEREIRO DE 2011

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