quinta-feira, 6 de agosto de 2026
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
O ÚLTIMO GALO
| Imagem criada pela IA GPT |
O ÚLTIMO GALO
Elmar Carvalho
Quando, por uma curta temporada,
fui morar na zona rural, passei a prestar atenção no canto dos galos. Ficava
alegre ao ouvir esse cantar vibrante, metálico, que parecia uma trombeta
anunciando o amanhecer. Ao ouvi-lo, sabia que o dia vinha chegando, e que logo
a vida ativa começaria. Com a alvorada dos galos, eu tinha a certeza de que os
fantasmas bateriam em retirada, e já não iriam assombrar ninguém. Esses
animais, por alguns, são vistos como guerreiros, por causa da crista vistosa, a
lembrar um elmo, do bico adunco, como de ave de rapina, e sobretudo por causa
dos esporões agressivos, que ferem como punhais, que cortam como esporas, que
dilaceram como cilícios.
São associados a vigias, por
causa da corneta denunciadora de seu canto. Por causa do episódio bíblico, em
que Cristo disse a Pedro que este o negaria três vezes, antes que o galo
cantasse, naquele dia triste e de mau presságio, parecem denunciar a fragilidade
e a pusilanimidade do homem. Por isso, galos metálicos são colocados nos
campanários das igrejas, como advertência para que não reneguemos Cristo
novamente, ou, talvez, por causa de outro simbolismo que desconheço. Mas sempre
significando que devemos manter vigilância sobre nós mesmos. Vigiai e orai para
que não entreis em tentação – disse Jesus. O galo, como um sentinela vivo no
seu poleiro ou como simulacro de metal nos mirantes ou nas torres dos templos,
há de nos lembrar a negação de Pedro e a admoestação de Cristo.
Adolescente, creio que ao cursar
o antigo ginásio, li o poema de João Cabral de Melo Neto, afirmando que um galo
sozinho não teceria uma manhã, mas que sempre haveria a necessidade de outros
galos. Foi um dos meus primeiros grandes contatos com a poesia moderna, uma vez
que eu já conhecia relativamente bem os poetas do romantismo, do parnasianismo
e do simbolismo. Julgo não ter tido nenhuma dificuldade em interpretar o poema
de João Cabral. Entendi bem as suas rupturas sintáticas, as supressões de palavras,
como se as frases e os versos estivessem truncados, mas na verdade apenas
“enxugando” o texto, através de elipses sem nenhum enigma. Achei criativos e
apropriados esses cortes, porém só “materializei” as metáforas há poucos dias.
Foi quando, em certa madrugada,
ouvi uma alvorada festiva de galos, aqui em Regeneração. As aves, por razão que
desconheço, estavam excepcionalmente inspiradas e ativas. Um canto era
desferido aqui perto, outro respondia mais além. Um vinha do nascente, o outro
parecia estourar no poente; um à esquerda, o seguinte à direita. De repente, a
cantiga amiudou, e eu já não sabia ao certo de onde provinha o alvoroço
musical.
Houve um momento em que os
cocorocós pareceram formar uma mesma e única massa compacta, a se
entrecruzarem, se “entretendendo” como no poema. Então, em minha mente, o poema
se tornou uma imagem, e senti que os cantos formaram fios, que formaram teia;
teia, que formou tecido; tecido, que formou tenda; tenda, que formou um circo,
onde todos os galos se esgoelavam. Porém, os fios se foram desfiando, se
esgarçando, se desfazendo, quando foi minguando o número dos galos que
cantavam.
Até que o sol estrangulou o canto na garganta do último galo.
29 de março de 2011
domingo, 2 de agosto de 2026
INFLAÇÃO
quarta-feira, 29 de julho de 2026
SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO
| Imagem criada pela IA GPT |
SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO
Elmar Carvalho
Ingressei na Superintendência Nacional do Abastecimento –
Delegacia Regional do Piauí – SUNAB/DEPI no dia 10 de agosto de 1982, quando
tinha 26 anos de idade. Dos cerca de 25 funcionários em atividade no dia em que
tomei posse, só restam vivos três, talvez quatro. Exerci o cargo de Inspetor de
Abastecimento e Preços, posteriormente renomeado para Fiscal.
Sua sede ficava na Rua Eliseu Martins, no cruzamento com a
Rua Quintino Bocaiuva, no começo da ladeira do antigo Alto da Moderação, ou
Praça Demóstenes Avelino, mais conhecida como Praça do FRIPISA. Meu chefe
imediato era Walter e Silva Mendes, que cursara Medicina até o quarto ano e
fora amigo de meu pai na adolescência. A delegada era a Dra. Francisca Dalva
Marques Assunção.
Após os sucessivos planos econômicos, destinados a debelar a
estratosférica inflação, a sede da delegacia regional do órgão foi transferida
para o prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, situado na Praça Barão do
Rio Branco, cujo busto de bronze foi surrupiado de seu pedestal anos depois.
Após esses planos, a delegacia da SUNAB teve vários delegados e delegados
substitutos.
Creio que, em 1995, eu e vários outros funcionários da
autarquia, por força de decisão judicial transitada em julgado, passamos a
receber uma vantagem salarial destinada a repor dois percentuais da inflação
que o governo federal havia expurgado do reajuste de nossos vencimentos. Meses
depois, por meio de ação rescisória, esse acréscimo foi retirado de nossos
salários, o que representou um duro golpe, uma vez que eles já se encontravam
bastante defasados, no jargão da época.
No começo de 1997, fui convidado pelo deputado estadual
Humberto Reis da Silveira, que iria comemorar 50 anos de atividade parlamentar
ininterrupta, para lhe prestar assessoria particular, sem qualquer vínculo
funcional com a Assembleia Legislativa. Tendo em vista possíveis entraves
burocráticos, pediu-me que entrasse em gozo de férias e requeresse minha
licença-prêmio, a que fazia jus em razão do tempo de serviço.
Assim fiz e pude prestar-lhe minha assessoria. Devo dizer que
a gratificação que dele recebi serviu para minorar os efeitos da redução
salarial acima referida. Dessa forma, auxiliei-o em diversos serviços, mormente
na elaboração do discurso que foi proferido em Jaicós, na solenidade magna de
comemoração de seus 50 anos como deputado estadual.
Agora vem o caso enigmático, motivo maior desta minha crônica
memorialística. Afirmo que desejo ser imparcial e objetivo e que não pretendo
fazer nenhum julgamento sobre o episódio. Deixarei que o leitor tire suas
próprias conclusões.
Quando minha licença especial estava prestes a terminar, a
SUNAB entrou em processo de extinção. Imediatamente, os fiscais foram afastados
de suas funções. Determinou-se, inclusive, que devolvessem todo o material de
trabalho, tais como blocos de formulários de autos de infração, comprovantes de
fiscalizações e notificações, bem como suas credenciais de identificação.
Mesmo estando impedido de exercer as funções inerentes ao
cargo de fiscal, fui falar com o delegado da época a respeito de minha
situação, inclusive sobre minha assessoria ao deputado Humberto Reis.
Ele então chamou o chefe da Seção de Pessoal e determinou que
eu fosse designado para compor uma das Comissões Especiais afetas ao processo
de extinção da autarquia. O chefe da seção lhe respondeu que isso não seria
possível, pois havia determinação do Superintendente no sentido de que nenhum
fiscal fosse designado para qualquer serviço interno.
Diante desse empecilho, o delegado imediatamente mandou que o
chefe da Seção de Pessoal minutasse um ofício colocando-me à disposição da
Delegacia do Ministério da Fazenda.
Devo esclarecer que minha relação com esse delegado era
amistosa, e eu até o considerava um quase amigo. Ele gostava de conversar
comigo. Ainda assim, fiquei com a leve, levíssima impressão de que pretendia me
prejudicar ou "quebrar" o meu "bico".
Farei uma breve pausa para criar um clima de suspense e
contar, resumidamente, um caso semelhante ocorrido com um saudoso amigo.
Meu amigo e mestre José Ribamar Freitas, professor do Curso
de Direito da Universidade Federal do Piauí, de quem fui aluno, requereu uma
vantagem a que julgava ter direito na repartição previdenciária em que era
lotado. Em virtude da morosidade burocrática e dos Correios da época, resolveu
levar pessoalmente o processo, viajando de avião até a cidade do Rio de
Janeiro.
Foi diretamente ao chefe responsável pelo caso. Após
explicar-lhe a situação e justificar a urgência, entregou-lhe o processo. O
chefe imediatamente começou a despachar. Como de praxe, carimbou e assinou o
despacho. Surpreso com tamanha presteza, algo insólita na burocracia
brasileira, o professor Ribamar Freitas perguntou-lhe se poderia ler o
despacho.
Atônito e estarrecido, constatou que o burocrata determinava
a devolução do processo à repartição de origem, para que fossem cumpridos os
trâmites burocráticos de praxe.
Retomo agora o fio de meu relato principal.
De posse do referido ofício, que me colocava à disposição da
Delegacia do Ministério da Fazenda, dirigi-me à Seção de Pessoal dessa
repartição, que funcionava no primeiro ou no segundo andar acima do nosso. A
chefe da seção, após ler o documento, sem delongas nem titubeios, disse que não
havia vaga e que eu poderia ir embora, devendo aguardar comunicação quando
surgisse alguma vacância.
Não me fiz de rogado. Fui embora e só retornei alguns meses
depois, no dia 19 de dezembro de 1997, para pedir minha exoneração e assumir,
no mesmo dia ou no seguinte, o cargo de juiz de Direito, do qual me aposentei
exatamente 17 anos depois.
Desde então, guardo a convicção de que, mais uma vez, Deus me
livrara do mal e da injustiça.
domingo, 26 de julho de 2026
O PROTESTO DO JUDAS
sexta-feira, 24 de julho de 2026
O FAMIGERADO SNI E EU
| Foto antiga da Praça da Graça, vendo-se o prédio da ECT. A foto foi melhorada pela IA GPT. |
O FAMIGERADO SNI E EU
Elmar Carvalho
Uns trinta dias atrás, o escritor, jurista e historiador
Marcelino Leal Barroso de Carvalho, meu professor no curso de Direito e meu
confrade na APL, perguntou-me se eu havia sido fichado no SNI. Respondi-lhe que
não tinha conhecimento disso.
Coincidência ou não, há quatro dias recebi, por WhatsApp, um
arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI), enviado pelo historiador
parnaibano Jedson Martins, no qual, a meu respeito, constava o seguinte:
“b. Após o Comício [de Luís Inácio da Silva – Lula], foi
realizada uma reunião na residência do estudante JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO
(líder estudantil e PT/PARNAÍBA), onde o mesmo recebeu orientações para a
organização do PT:
1. Buscar apoio de grupos já existentes na área, como, por
exemplo:
- Pessoal do Movimento Contra a Carestia;
- Pessoal das Pastorais da Terra;
- Pessoal das Pastorais da Juventude;
- Pessoal dos Encontros de Casais;
- Os movimentos eclesiais de base; inclusive foi ressaltada
pelo LULA a importância dos movimentos eclesiais de base, por trás dos quais
aconselhou que se articulasse todo o trabalho de conscientização popular, com o
respaldo da Igreja.”
Essa parte que me diz respeito até me faz lembrar um célebre
ironista que, dirigindo-se a um enciclopedista, teria dito:
— Cavalheiro, a sua definição seria perfeita, se não fosse
por três exceções: caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda para
trás.
O trecho que transcrevi acima está eivado de inverdades ou de
meias verdades. Não desejando assumir um protagonismo que não tive, outra
alternativa não me resta senão esclarecer os fatos, dentro da verdade, como
passo a fazer.
A aludida reunião, que, segundo o CIE/SNI, teria acontecido
em 30/08/1980, após o comício, não ocorreu em minha casa. Na época, eu morava
com meus pais e mais seis irmãos no apartamento funcional da Empresa Brasileira
de Correios e Telégrafos (ECT), de, no máximo, 110 metros quadrados. Além da
limitação do espaço, meu pai jamais permitiria uma reunião de política
partidária nesse apartamento, uma vez que era o chefe da ECT em Parnaíba, e
isso poderia acarretar-lhe graves consequências.
Eu não era e não poderia ser filiado ao PT de Parnaíba, como
consta do documento acima referido, uma vez que meu título eleitoral pertencia
à Zona Eleitoral de Campo Maior. Em 10/08/1982, passei a residir em Teresina e,
após essa mudança, transferi meu título de eleitor para esta capital. Aliás, a
bem da verdade, devo dizer que nunca fui filiado a partido político algum.
Quanto às recomendações que teriam sido feitas diretamente a
mim, não tenho qualquer lembrança delas, nem poderia aceitá-las, muito menos
cumpri-las, pois era servidor da ECT, trabalhando em expediente duplo,
inclusive aos sábados (no turno da manhã), e, à noite, frequentava o curso de
Administração da UFPI – Campus Ministro Reis Velloso.
No segundo semestre do ano anterior (1979), na qualidade de
presidente do Diretório Acadêmico "3 de Março", do mesmo campus da
UFPI, discursei no grande comício que marcou o retorno do ex-governador Chagas
Rodrigues (Francisco das Chagas Caldas Rodrigues), após o término da suspensão
de seus direitos políticos.
Fui um dos primeiros a falar, no coreto da Praça da Graça,
onde se encontravam os demais oradores, entre os quais Ulysses Guimarães,
Franco Montoro, Almino Afonso e Miguel Arraes, próceres do MDB nacional. Entre
os piauienses, estavam presentes João Mendes Nepomuceno, Celso Barros Coelho,
Roberto Broder, José Alexandre Caldas Rodrigues e, claro, Chagas Rodrigues, a
grande estrela do comício, que, poucos anos depois, foi eleito senador.
Em meu discurso, falei das mazelas da época, entre elas o
cerceamento das liberdades, o Decreto-Lei nº 477, as eleições indiretas para
presidente da República e governador, bem como da escassez de recursos
destinados à educação. Vários oradores fizeram referência às minhas palavras.
Eu morava na Praça da Graça e tinha apenas vinte e poucos
anos de idade. Não sei se esse fato também foi parar em alguma ficha ou
relatório do SNI. Sei que, poucos anos depois, mais precisamente em 10/08/1982,
quando assumi o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços da SUNAB, exigiram
que eu apresentasse uma certidão de bons antecedentes expedida pelo DOPS. E eu
a apresentei.
Consta que o general Golbery do Couto e Silva, um dos
idealizadores e chefe do SNI, em conversa privada, teria dito, em referência a
esse órgão:
— Criamos um monstro.
Por fim, devo dizer que nunca fui ouvido em inquérito
policial, nem mesmo na condição de testemunha. E dou muitas graças a Deus por
isso.
domingo, 19 de julho de 2026
A FOME
| Criação da IA Copilot |
A FOME
Elmar Carvalho
I
a fome
que come
e consome
o “home”
mora
em sua víscera sonora
e o devora
como uma flora
cancerosa
rosa carnívora
que aflora e o deflora
de dentro para
fora.
II
a fome é tanta
e tanto espanta
que o ex-grevista de fome
hoje é grevista com fome
– ou melhor – desempregado
pregado na miséria
de ser
gado sub/ju/gado
fis/gado vis/gado k/gado
* Poema do final dos anos 1970 ou início dos anos 1980.
quinta-feira, 16 de julho de 2026
FIM DE CASAMENTO
| Imagem criada pela IA GPT |
FIM DE CASAMENTO
Elmar Carvalho
Perguntando eu, hoje, a um homem
de mais de sessenta anos de idade se ele era solteiro, contou-me que fora
casado, em sua juventude, mas durante menos de vinte e quatro horas. Revelou-me que ao constatar que fora enganado
pela mulher, a devolveu a seu pai. Fazendo-me de um tanto ingênuo, disse-lhe
estranhar como essa traição poderia ter ocorrido nesse curto espaço de tempo,
“em plena lua de mel”, como na bela letra da música de Reginaldo Rossi.
Esclareceu-me que a traição fora o fato de ela não lhe ter revelado,
anteriormente, não ser mais virgem. O homem a interrogou, e ela acabou por lhe
confessar já ter tido outras experiências sexuais.
Acrescentou-me ele que sua mãe,
ao saber do fato, ponderou-lhe que tudo poderia ser apenas um erro proveniente
da juventude dela, que poderia não mais se repetir. Ele disse à mãe que nessa
oportunidade conseguiu se controlar, e por isso não cometera nenhuma violência
contra a mulher, mas, em outra ocasião, não saberia dizer se conseguiria
conter-se. A mãe, então, falou que ele fizesse o que achasse melhor para si.
Embora pedindo desculpas, indaguei-lhe se ele, ao constatar que a jovem não era
mais virgem, havia interrompido o coito. Sorriu, e me disse que era homem, e
que, portanto, tivera de concluí-lo, talvez, suponho, para acalmar-se e tomar
uma atitude de maneira mais ponderada. Tinha ele 25 anos e a mulher, 16.
O certo é que ele não aceitou a
mulher, devolvendo-a a seus pais, mal (ou bem) comparando, como se ela fosse
uma mercadoria com defeito oculto ou vício redibitório. Na verdade, nessa
época, as mulheres se conservavam virgens até o casamento, e poucos homens
aceitariam casar-se com uma mulher que não fosse donzela, exceto se fosse o
próprio nubente o autor do defloramento. O próprio Código Civil de 1916
permitia a anulação do casamento, conforme o seu art. 218 em combinação com o
219, IV, ao estampar que era anulável o casamento quando “o defloramento da
mulher” fosse “ignorado pelo marido”.
Mas houve casos em que o marido
repudiou a mulher, embora fosse ele o responsável pela defloração, sob a alegativa de que ela não deveria ter cedido
às suas súplicas e insistências; que se cedera com relação a ele, poderia
entregar-se aos caprichos e seduções de outrem, no futuro, ainda mais porque já
não existiria a película denunciadora.
No final da conversa, fazendo uma
analogia entre as ponderações de sua mãe, para que desse nova oportunidade a
sua mulher e a perdoasse, lembrei-me de uns versos do grande poeta Hermes
Vieira, que tem poemas magistrais na vertente popular e na temática sertaneja,
que lhe citei de forma livre, parafraseada, já que faz muitos anos que os li
pela derradeira vez. O poema conta o caso de um jovem que constatou haver se
casado com uma mulher já deflorada.
Na manhã do dia seguinte às
núpcias, foi aconselhar-se com o pai, sobre o seu desejo de restituir a mulher
a seu pai. Após elogiar muito a própria mãe, acrescentou que feliz era ele, seu
pai, que se casara com uma mulher direita, séria, honesta, que sempre o
respeitara. O pai, nos versos do poeta, que cito livremente, apenas de memória,
disse ao filho angustiado: “Meu filho, vê se você se acoita, / Na mulher se
bota um frei, / é melhor você ficar na moita, / Do jeitim que eu fiquei”.
O homem sorriu, conquanto fosse
este o mesmo conselho que lhe dera sua mãe, em sua distante juventude.
23 de março de 2011
terça-feira, 14 de julho de 2026
domingo, 12 de julho de 2026
MOISÉS
| Imagem criada pela IA GPT |
MOISÉS
Elmar Carvalho
Escravo,
não sou escravo da submissão
e meu último adeus será uma corrida
com os pés fora da corda-bamba.
Escreverei
um manifesto assinado
com o sangue de cada um,
com o suor de todos,
todos mocinhos
de um filme sem mocinhos.
Escarnecerei
os muros e os tetos das prisões
porque são exceções de um regime de
exceção.
Escangalharei
as portas do céu
e os portões do inferno
e soltarei a liberdade.
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Professor Amstein
Professor Amstein
Elmar Carvalho
Ainda no início de nossa mudança para Parnaíba, em 1975, meus
pais, meus irmãos e eu fomos morar no apartamento dos Correios (ECT), na Praça
da Graça. Foi na placa da rua, que lhe passa pela lateral externa, que vi
estampado pela primeira vez o seu nome: Rua Professor Amstein. Sempre lhe
associei o nome ao do grande físico e gênio Einstein. Por isso mesmo a minha
imaginação, às vezes fantasiosa, me levou a acreditar que ele poderia ser um
judeu alemão fugitivo dos nazistas. Da janela de um dos banheiros do
apartamento, nas madrugadas silentes, eu vi, muitas vezes, uma nesga dessa rua
deserta e a placa luminosa da revenda Poncion Rodrigues com o W estilizado da Volkswagen.
Na época em que frequentei a casa do professor Lima Couto,
por ser amigo do Paulo de Athayde Couto, seu filho, meu colega de turma no
curso de Administração de Empresas (UFPI – Campus Ministro Reis Velloso), ouvi
novamente falar em Amstein. Lima Couto, ao me relatar fatos de sua vida,
sobretudo de sua experiência magisterial, me contou que o túmulo do velho
mestre e engenheiro suíço fora por ele idealizado, tomando como inspiração,
creio, o túmulo do Soldado Desconhecido.
Posteriormente, num comentário (em meu blog), sobre esta
crônica, soube pelo professor universitário e economista Vitor de Athayde Couto
que o mausoléu na verdade é uma réplica do túmulo de Napoleão Bonaparte, nos
Invalides, em Paris. Vitor revela a grande admiração que seu pai, o professor
Lima Couto, nutria por Amstein. Aduz, ainda, que o velho mestre teria
trabalhado na Companhia de Portos e Vias Navegáveis – CPVN, na função de
topógrafo ou agrimensor. Acrescentou que o seu irmão Régis lhe mencionara que o
arquiteto Assis Couto dos Reis dizia que foi com Amstein que aprendera Desenho
e Topografia, “não só no Ginásio Parnaibano, mas também na CPVN, onde
trabalharam juntos”.
Ao visitar o Cemitério da Igualdade, em diferentes ocasiões,
descobri, por conta própria ou por informações de coveiros, os túmulos da
poetisa Luíza Amélia de Queiroz, à sombra de sua frondosa e bela gameleira, o
de minha prima Verônica Melo, morta em plena juventude, no apogeu de sua
beleza, e o do professor Alfredo Eduardo Amstein.
Nesse campo santo também foi sepultada minha irmã Josélia,
falecida aos 15 anos de idade, em cujo túmulo meu pai afixou uma placa de metal
com os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do
pensamento!” No túmulo de Amstein, consta: “Nasceu em 27 de março de 1887 –
Faleceu em 30 de julho de 1948. Homenagem de seus colegas do Ginásio Parnaibano
e Escola Normal de Parnaíba.”
Através do Dr. Lauro Correia, diretor do Campus e meu
professor no curso de Administração de Empresas, e que foi seu aluno na segunda
metade da década de 1930, tomei conhecimento de outros fatos de sua vida,
inclusive de que ele morou na Ilha Grande de Santa Isabel, na mesma casa, por
sinal, em que nascera Evandro Lins e Silva, ministro do Supremo Tribunal
Federal.
Portanto, eu sabia que Amstein, engenheiro suíço, de porte
avantajado, de vastos e bastos bigode e barba ruivos, era um tipo bonachão, um
grande contador de estórias e fatos anedóticos, em que a fantasia parecia se
misturar com a verdade, em que a ficção se mesclava a fatos reais. Tive certeza
disso quando li o capítulo O professor Amstein, do livro Tomei um ita no Norte,
de Renato Castelo Branco, com quem, em minha juventude, cheguei a me
corresponder por cartas. Dessa obra memorialística extraio os seguintes
trechos:
“... Mas ele era bom e todos
gostávamos dele. Não como um professor, a quem se respeita, mas como um colega
maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão. // ... Suas
histórias, geralmente episódios de sua vida, eram ricas, férteis, cheias de
pitoresco e de surpresas. Sentia-se que refletiam a verdade. Mas não apenas a
verdade. A parte verdadeira as tornava plausíveis. Mas sentíamos que estávamos
sendo mistificados, que Amstein enriquecia suas aventuras, que inventava, que
acrescentava fatos, acontecimentos, detalhes imaginários. // Onde terminava a
verdade e começava a fantasia? Sabíamos que ele mentia. Mas, como o Taubelman
de Michel Deon, não sabíamos quando. Pois ele vivia em um mundo a um tempo real
e imaginário, do qual era uma espécie de mágico, a nos deslumbrar. // Até mesmo
a maneira como viera esbarrar em Parnaíba tinha esta marca de mistério e meia-verdade.
Um dia o Diretor do Ginásio Parnaibano recebera um telegrama de Amstein,
declarando-se engenheiro suíço, professor de matemática, e disposto a aceitar o
convite para lecionar no Ginásio. O Diretor jamais lhe fizera qualquer convite.
Nem tampouco o conhecia. Mas precisava de professor e contratou-o. // Assim
chegou Amstein em Parnaíba, a cuja vida se incorporou, enriquecendo sua cultura
e seu folclore. Deixou muitos amigos. Mas já chegou montado em uma meia-verdade.”
No livro Cada Rua – Sua História, de Caio Passos, sobre as
ruas, avenidas, praças e outros logradouros de Parnaíba, no local apropriado,
encontro muitas informações sobre o velho professor Amstein, que corroboram o
que sobre ele eu já sabia, além de outras que desconhecia. Entre estas, tomo
conhecimento de que ele gostava de cavalgar e de cultivar suas hortas. E de que
falava amiúde das belezas de sua pátria, louvando-lhe as belezas naturais,
sobretudo “as edelweiss, uma linda flor branca dos Alpes”, que certamente lhe
enchiam o peito de saudade e lhe faziam relembrar as níveas neves alpinas.
Dois ou três dias atrás, mediante comentário em meu blogue e
de notificação em minha página no facebook, pude fazer contato com a professora
e historiadora Juliana Lacet, que me pediu informações sobre Amstein, uma vez
que ela está fazendo uma pesquisa sobre a vida de Catarina Moura, que foi sua
esposa, de cujo casamento nasceram duas filhas e um filho, falecido aos vinte e
poucos anos. Catarina foi uma mulher avançada para sua época. Advogada,
escreveu vários artigos em defesa da mulher e de seus direitos. Ela era natural
de Paraíba do Norte, hoje cidade de João Pessoa. Amstein era filho do cônsul
suíço em Recife. Portanto, não era fugitivo dos nazistas, como a minha
imaginação me fizera suspeitar.
Em meados dos anos 1980, creio, comecei a escrever uma série
de poemas sobre figuras populares, anedóticas e folclóricas de Parnaíba, que
faziam parte do cenário cultural, pitoresco e histórico dessa cidade.
Mensalmente esses textos eram publicados, com esmeradas ilustrações de
Flamarion Mesquita, no jornal Inovação. Flamarion é, como já disse, uma flama
flamejante de talento. Em 2009 reuni esses poemas, que tinham o título geral de
PoeMitos da Parnaíba, e os publiquei em livro, com geniais charges
policromáticas de Gervásio Castro e um esmerado prefácio de Cunha e Silva Filho.
Mas desde o início achei que entre eles deveria constar um sobre o professor
Amstein. Não sei ao certo porque não o fiz. Acho que me faltou engenho e arte
para retratar o velho engenheiro suíço.
Agora, muitas décadas depois, motivado pelos fatos acima
relatados, escrevi esse desejado poema sobre o inesquecível professor Amstein,
que segue abaixo (e que integrará doravante os meus PoeMitos da Parnaíba), como
uma homenagem a essa instigante e fulgurante figura humana, humana no melhor e
mais completo sentido da palavra:
AMSTEIN
Elmar Carvalho
O professor Amstein,
com seu vasto bigode
e densa barba ruiva,
alto, forte, avermelhado,
chegou a Parnaíba montado
no árdego Pégaso da mistificação.
Assumiu emprego no
Ginásio Parnaibano e na Escola Normal.
Professor de desenho geométrico e matemática,
fazia suas métricas e matemágicas
em suas fantásticas e fantasiosas histórias.
Engenheiro e da Suíça, era um verdadeiro
canivete suíço: polivalente, pau para toda obra,
homem de sete ou mais instrumentos, substituía
qualquer dos professores faltosos.
Novo Barão de Munchausen
recheava suas aulas e recreios
com seus anedóticos e mirabolantes “causos”,
menino grande entre os demais meninos,
“barulhento, inconsequente e brincalhão”,
no dizer do ex-aluno Renato Castelo Branco.
Para sempre restou em sua mente a saudade
domingo, 5 de julho de 2026
SONATA EM DOR MAIOR
| Imagem elaborada pela IA GPT |
SONATA EM DOR MAIOR
Elmar Carvalho
A mesa está posta,
mas os pratos estão vazios.
O meu povo não tem
talheres, nem colheres,
por isso come com
as mãos o que não
existe nos pratos.
O meu povo vota em
eleições para presidente
da república (de estudantes),
mas sonha votar
na eleição para
Presidente da
República
Federativa do
Brasil.
O meu povo deseja bater
palmas para as estátuas dos
heróis libertários.
Mas como se as mãos
e os pés estão
atados?
Em 1888 acabaram com a
escravidão no Brasil. Mas que escravidão?
Se antes os
escravos eram pretos,
hoje são de todas
as cores,
e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”.
Parnaíba,13.10.78
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A SUPER LUA CHEIA
| Imagem elaborada pela IA GPT |
A SUPER LUA CHEIA
Elmar Carvalho
O professor Nelson Rios,
regenerense de velha e boa cepa, através de comentário postado em meu blog,
sugeriu-me escrevesse sobre a super lua cheia, que ocorreria no sábado, dia 19.
Respondi-lhe que talvez o fizesse nesta terça-feira. Segundo os jornais e os
portais noticiosos, trata-se de um fenômeno natural, que só ocorre a cada 18
anos. Portanto, se Deus me mantiver vivo, só voltarei a revê-lo já setentão,
ou, mais precisamente, quando estiver com 73 anos de idade, posto que em poucos
dias completarei 5 ponto 5. Uma vez que a órbita de nosso satélite não é
circular, mas elíptica, há momentos em que a lua fica mais próxima da Terra,
atingindo o perigeu, ou mais distante, quando ocorre o apogeu. No primeiro caso
(perigeu), para um observador em nosso planeta, ela aparece 14 % maior e 30 %
mais brilhante; consequentemente, no apogeu ela aparentaria ser menor e ficaria
menos luminosa.
Portanto, no perigeu, o nosso
satélite alcança a sua maior luminosidade, o seu maior tamanho aparente, e fica
revestido de sua maior glória e beleza. Na verdade, metaforicamente, ou em
linguagem figurada, ou no sentido conotativo para o senso comum, ela teria
atingido o seu apogeu, pois teria alcançado o seu ponto máximo de brilho, de
beleza, de tamanho, de encantamento. Todavia, em se falando de órbita, ela
esteve mesmo no perigeu, e não no apogeu, embora, em termos de plasticidade,
devesse ser esta a palavra mais apropriada.
Aprendi a admirar o plenilúnio –
palavra que alguns poderão considerar pomposa, solene, ou de forte carga
poética, ou ainda motivada por algum pernosticismo – quando fui morar na zona
rural, por um curto período, em minha infância. Já então conhecia a música Luar
do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, compositor maranhense, à revelia de
seu sobrenome. Ficava extasiado, nas escuras noites da caatinga, a contemplar o
céu estrelado e a lua cheia, sobretudo ao nascer, ou quando ela se
entremostrava por entre os galhos das árvores ou através da cortina esgarçada
das nuvens, que por vezes mais se assemelhavam a um biombo de gaze.
Quando o astro se escondia detrás
das nuvens, minha mãe dizia que ela fora tomar banho. No período chuvoso, a lua
formava um círculo em torno de si, uma espécie de nimbo ou halo luminoso; minha
mãe, despertando-me em suas poucas letras para as metáforas e comparações e
para a poesia da natureza, falava que a lua, qual uma iara, tomava banho em sua
lagoa. Recordo que desde muito cedo mamãe me ensinou a admirar a beleza da
paisagem, o encantamento das flores, a delicadeza das pétalas das rosas, a
majestade de um urubu a planar no céu, a revoada giratória dessas aves,
verdadeiro balé aéreo, e as esculturas formadas pelas nuvens ao capricho do
cinzel etéreo do vento.
A lua cheia sempre foi associada
a mistérios e feitiços, fazendo despertar o imaginário das pessoas simples e a
criatividade dos artistas. Dizem que durante essa fase lunar os lobisomens se
manifestam, os cachorros hidrófobos se exacerbam; os loucos ficariam ainda mais
loucos, loucos furiosos, sob os influxos do plenilúnio. Os antigos almanaques
assinalavam a influência da lua sobre a germinação das sementes, sobre o
crescimento dos cabelos e das marés.
Os poetas simbolistas se quedavam
em êxtase, na contemplação da lua cheia e do luar, comparando-os a belas
monjas, pálidas e maceradas, enclausuradas em suas celas, em que os cilícios
laceravam suas carnes tenras e suas esplêndidas peles brancas. Viam a lua plena
como uma hóstia ou como um lírio, e imaginavam o luar como níveas e frígidas
neblinas, em que virgens esmaecidas se perdiam em êxtases pecaminosos ou em
tormentos inimagináveis, por causa de paixões malogradas ou interditas.
Certa vez, quando eu tinha três
anos de idade, mamãe me encontrou na árdua tarefa de emendar umas varas, no
terreiro de nossa casa. Intrigada com essa inusitada atividade, perguntou-me o
que eu fazia. Respondi-lhe que desejava futucar ou atrair a lua cheia, como se
ela fosse algum balão ou apetitosa fruta. Claro, não me recordo desse episódio,
mas apenas narro o que minha madre me contou.
Contudo, às vezes, ainda me sinto
esse mesmo menino, a porfiar em atingir a beleza e a bondade de meus mais
profundos sonhos e ideais, e alcançar assim o meu perigeu em relação a Deus,
que na verdade seria o meu apogeu de homem que não deseja perder a sua mais
intrínseca humanidade, apesar dos percalços e das ciladas; de homem que, mesmo
quando momentaneamente parece perder a sua Fé, não deixa de rezar
fervorosamente.
22 de março de 2011
domingo, 28 de junho de 2026
ALEGORIA DA FOME
| Fonte: Google |
ALEGORIA DA FOME
Elmar Carvalho
A pobreza um dia
bateu à minha porta
sob a forma de um menino
magro, sujo e maltrapilho.
E catou com suas mãos esquálidas
o sujo conteúdo
de meus sacos de lixo.
Foi quando eu saía
para o trabalho.
O menino, ou antes, um
bicho assustado correu.
Fui no seu encalço
em minha moto uivante.
O menino correu ainda mais,
varou cercas de arame farpado,
penetrou no terreno baldio por entre
arbustos espinhentos e urtigas,
com olhos e gestos de terror,
como se eu fosse espancá-lo.
E eu somente queria dizer
que ele podia catar o lixo.
Apenas não espalhasse
o resto do lixo
sobre a calçada.
Mas o meu pequeno irmão
feito bicho espavorido
tem medo dos outros bichos
que se dizem seu irmão.
E o meu irmão tem razão.
