terça-feira, 14 de julho de 2026
domingo, 12 de julho de 2026
MOISÉS
| Imagem criada pela IA GPT |
MOISÉS
Elmar Carvalho
Escravo,
não sou escravo da submissão
e meu último adeus será uma corrida
com os pés fora da corda-bamba.
Escreverei
um manifesto assinado
com o sangue de cada um,
com o suor de todos,
todos mocinhos
de um filme sem mocinhos.
Escarnecerei
os muros e os tetos das prisões
porque são exceções de um regime de
exceção.
Escangalharei
as portas do céu
e os portões do inferno
e soltarei a liberdade.
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Professor Amstein
Professor Amstein
Elmar Carvalho
Ainda no início de nossa mudança para Parnaíba, em 1975, meus
pais, meus irmãos e eu fomos morar no apartamento dos Correios (ECT), na Praça
da Graça. Foi na placa da rua, que lhe passa pela lateral externa, que vi
estampado pela primeira vez o seu nome: Rua Professor Amstein. Sempre lhe
associei o nome ao do grande físico e gênio Einstein. Por isso mesmo a minha
imaginação, às vezes fantasiosa, me levou a acreditar que ele poderia ser um
judeu alemão fugitivo dos nazistas. Da janela de um dos banheiros do
apartamento, nas madrugadas silentes, eu vi, muitas vezes, uma nesga dessa rua
deserta e a placa luminosa da revenda Poncion Rodrigues com o W estilizado da Volkswagen.
Na época em que frequentei a casa do professor Lima Couto,
por ser amigo do Paulo de Athayde Couto, seu filho, meu colega de turma no
curso de Administração de Empresas (UFPI – Campus Ministro Reis Velloso), ouvi
novamente falar em Amstein. Lima Couto, ao me relatar fatos de sua vida,
sobretudo de sua experiência magisterial, me contou que o túmulo do velho
mestre e engenheiro suíço fora por ele idealizado, tomando como inspiração,
creio, o túmulo do Soldado Desconhecido.
Posteriormente, num comentário (em meu blog), sobre esta
crônica, soube pelo professor universitário e economista Vitor de Athayde Couto
que o mausoléu na verdade é uma réplica do túmulo de Napoleão Bonaparte, nos
Invalides, em Paris. Vitor revela a grande admiração que seu pai, o professor
Lima Couto, nutria por Amstein. Aduz, ainda, que o velho mestre teria
trabalhado na Companhia de Portos e Vias Navegáveis – CPVN, na função de
topógrafo ou agrimensor. Acrescentou que o seu irmão Régis lhe mencionara que o
arquiteto Assis Couto dos Reis dizia que foi com Amstein que aprendera Desenho
e Topografia, “não só no Ginásio Parnaibano, mas também na CPVN, onde
trabalharam juntos”.
Ao visitar o Cemitério da Igualdade, em diferentes ocasiões,
descobri, por conta própria ou por informações de coveiros, os túmulos da
poetisa Luíza Amélia de Queiroz, à sombra de sua frondosa e bela gameleira, o
de minha prima Verônica Melo, morta em plena juventude, no apogeu de sua
beleza, e o do professor Alfredo Eduardo Amstein.
Nesse campo santo também foi sepultada minha irmã Josélia,
falecida aos 15 anos de idade, em cujo túmulo meu pai afixou uma placa de metal
com os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do
pensamento!” No túmulo de Amstein, consta: “Nasceu em 27 de março de 1887 –
Faleceu em 30 de julho de 1948. Homenagem de seus colegas do Ginásio Parnaibano
e Escola Normal de Parnaíba.”
Através do Dr. Lauro Correia, diretor do Campus e meu
professor no curso de Administração de Empresas, e que foi seu aluno na segunda
metade da década de 1930, tomei conhecimento de outros fatos de sua vida,
inclusive de que ele morou na Ilha Grande de Santa Isabel, na mesma casa, por
sinal, em que nascera Evandro Lins e Silva, ministro do Supremo Tribunal
Federal.
Portanto, eu sabia que Amstein, engenheiro suíço, de porte
avantajado, de vastos e bastos bigode e barba ruivos, era um tipo bonachão, um
grande contador de estórias e fatos anedóticos, em que a fantasia parecia se
misturar com a verdade, em que a ficção se mesclava a fatos reais. Tive certeza
disso quando li o capítulo O professor Amstein, do livro Tomei um ita no Norte,
de Renato Castelo Branco, com quem, em minha juventude, cheguei a me
corresponder por cartas. Dessa obra memorialística extraio os seguintes
trechos:
“... Mas ele era bom e todos
gostávamos dele. Não como um professor, a quem se respeita, mas como um colega
maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão. // ... Suas
histórias, geralmente episódios de sua vida, eram ricas, férteis, cheias de
pitoresco e de surpresas. Sentia-se que refletiam a verdade. Mas não apenas a
verdade. A parte verdadeira as tornava plausíveis. Mas sentíamos que estávamos
sendo mistificados, que Amstein enriquecia suas aventuras, que inventava, que
acrescentava fatos, acontecimentos, detalhes imaginários. // Onde terminava a
verdade e começava a fantasia? Sabíamos que ele mentia. Mas, como o Taubelman
de Michel Deon, não sabíamos quando. Pois ele vivia em um mundo a um tempo real
e imaginário, do qual era uma espécie de mágico, a nos deslumbrar. // Até mesmo
a maneira como viera esbarrar em Parnaíba tinha esta marca de mistério e meia-verdade.
Um dia o Diretor do Ginásio Parnaibano recebera um telegrama de Amstein,
declarando-se engenheiro suíço, professor de matemática, e disposto a aceitar o
convite para lecionar no Ginásio. O Diretor jamais lhe fizera qualquer convite.
Nem tampouco o conhecia. Mas precisava de professor e contratou-o. // Assim
chegou Amstein em Parnaíba, a cuja vida se incorporou, enriquecendo sua cultura
e seu folclore. Deixou muitos amigos. Mas já chegou montado em uma meia-verdade.”
No livro Cada Rua – Sua História, de Caio Passos, sobre as
ruas, avenidas, praças e outros logradouros de Parnaíba, no local apropriado,
encontro muitas informações sobre o velho professor Amstein, que corroboram o
que sobre ele eu já sabia, além de outras que desconhecia. Entre estas, tomo
conhecimento de que ele gostava de cavalgar e de cultivar suas hortas. E de que
falava amiúde das belezas de sua pátria, louvando-lhe as belezas naturais,
sobretudo “as edelweiss, uma linda flor branca dos Alpes”, que certamente lhe
enchiam o peito de saudade e lhe faziam relembrar as níveas neves alpinas.
Dois ou três dias atrás, mediante comentário em meu blogue e
de notificação em minha página no facebook, pude fazer contato com a professora
e historiadora Juliana Lacet, que me pediu informações sobre Amstein, uma vez
que ela está fazendo uma pesquisa sobre a vida de Catarina Moura, que foi sua
esposa, de cujo casamento nasceram duas filhas e um filho, falecido aos vinte e
poucos anos. Catarina foi uma mulher avançada para sua época. Advogada,
escreveu vários artigos em defesa da mulher e de seus direitos. Ela era natural
de Paraíba do Norte, hoje cidade de João Pessoa. Amstein era filho do cônsul
suíço em Recife. Portanto, não era fugitivo dos nazistas, como a minha
imaginação me fizera suspeitar.
Em meados dos anos 1980, creio, comecei a escrever uma série
de poemas sobre figuras populares, anedóticas e folclóricas de Parnaíba, que
faziam parte do cenário cultural, pitoresco e histórico dessa cidade.
Mensalmente esses textos eram publicados, com esmeradas ilustrações de
Flamarion Mesquita, no jornal Inovação. Flamarion é, como já disse, uma flama
flamejante de talento. Em 2009 reuni esses poemas, que tinham o título geral de
PoeMitos da Parnaíba, e os publiquei em livro, com geniais charges
policromáticas de Gervásio Castro e um esmerado prefácio de Cunha e Silva Filho.
Mas desde o início achei que entre eles deveria constar um sobre o professor
Amstein. Não sei ao certo porque não o fiz. Acho que me faltou engenho e arte
para retratar o velho engenheiro suíço.
Agora, muitas décadas depois, motivado pelos fatos acima
relatados, escrevi esse desejado poema sobre o inesquecível professor Amstein,
que segue abaixo (e que integrará doravante os meus PoeMitos da Parnaíba), como
uma homenagem a essa instigante e fulgurante figura humana, humana no melhor e
mais completo sentido da palavra:
AMSTEIN
Elmar Carvalho
O professor Amstein,
com seu vasto bigode
e densa barba ruiva,
alto, forte, avermelhado,
chegou a Parnaíba montado
no árdego Pégaso da mistificação.
Assumiu emprego no
Ginásio Parnaibano e na Escola Normal.
Professor de desenho geométrico e matemática,
fazia suas métricas e matemágicas
em suas fantásticas e fantasiosas histórias.
Engenheiro e da Suíça, era um verdadeiro
canivete suíço: polivalente, pau para toda obra,
homem de sete ou mais instrumentos, substituía
qualquer dos professores faltosos.
Novo Barão de Munchausen
recheava suas aulas e recreios
com seus anedóticos e mirabolantes “causos”,
menino grande entre os demais meninos,
“barulhento, inconsequente e brincalhão”,
no dizer do ex-aluno Renato Castelo Branco.
Para sempre restou em sua mente a saudade
domingo, 5 de julho de 2026
SONATA EM DOR MAIOR
| Imagem elaborada pela IA GPT |
SONATA EM DOR MAIOR
Elmar Carvalho
A mesa está posta,
mas os pratos estão vazios.
O meu povo não tem
talheres, nem colheres,
por isso come com
as mãos o que não
existe nos pratos.
O meu povo vota em
eleições para presidente
da república (de estudantes),
mas sonha votar
na eleição para
Presidente da
República
Federativa do
Brasil.
O meu povo deseja bater
palmas para as estátuas dos
heróis libertários.
Mas como se as mãos
e os pés estão
atados?
Em 1888 acabaram com a
escravidão no Brasil. Mas que escravidão?
Se antes os
escravos eram pretos,
hoje são de todas
as cores,
e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”.
Parnaíba,13.10.78
quinta-feira, 2 de julho de 2026
A SUPER LUA CHEIA
| Imagem elaborada pela IA GPT |
A SUPER LUA CHEIA
Elmar Carvalho
O professor Nelson Rios,
regenerense de velha e boa cepa, através de comentário postado em meu blog,
sugeriu-me escrevesse sobre a super lua cheia, que ocorreria no sábado, dia 19.
Respondi-lhe que talvez o fizesse nesta terça-feira. Segundo os jornais e os
portais noticiosos, trata-se de um fenômeno natural, que só ocorre a cada 18
anos. Portanto, se Deus me mantiver vivo, só voltarei a revê-lo já setentão,
ou, mais precisamente, quando estiver com 73 anos de idade, posto que em poucos
dias completarei 5 ponto 5. Uma vez que a órbita de nosso satélite não é
circular, mas elíptica, há momentos em que a lua fica mais próxima da Terra,
atingindo o perigeu, ou mais distante, quando ocorre o apogeu. No primeiro caso
(perigeu), para um observador em nosso planeta, ela aparece 14 % maior e 30 %
mais brilhante; consequentemente, no apogeu ela aparentaria ser menor e ficaria
menos luminosa.
Portanto, no perigeu, o nosso
satélite alcança a sua maior luminosidade, o seu maior tamanho aparente, e fica
revestido de sua maior glória e beleza. Na verdade, metaforicamente, ou em
linguagem figurada, ou no sentido conotativo para o senso comum, ela teria
atingido o seu apogeu, pois teria alcançado o seu ponto máximo de brilho, de
beleza, de tamanho, de encantamento. Todavia, em se falando de órbita, ela
esteve mesmo no perigeu, e não no apogeu, embora, em termos de plasticidade,
devesse ser esta a palavra mais apropriada.
Aprendi a admirar o plenilúnio –
palavra que alguns poderão considerar pomposa, solene, ou de forte carga
poética, ou ainda motivada por algum pernosticismo – quando fui morar na zona
rural, por um curto período, em minha infância. Já então conhecia a música Luar
do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, compositor maranhense, à revelia de
seu sobrenome. Ficava extasiado, nas escuras noites da caatinga, a contemplar o
céu estrelado e a lua cheia, sobretudo ao nascer, ou quando ela se
entremostrava por entre os galhos das árvores ou através da cortina esgarçada
das nuvens, que por vezes mais se assemelhavam a um biombo de gaze.
Quando o astro se escondia detrás
das nuvens, minha mãe dizia que ela fora tomar banho. No período chuvoso, a lua
formava um círculo em torno de si, uma espécie de nimbo ou halo luminoso; minha
mãe, despertando-me em suas poucas letras para as metáforas e comparações e
para a poesia da natureza, falava que a lua, qual uma iara, tomava banho em sua
lagoa. Recordo que desde muito cedo mamãe me ensinou a admirar a beleza da
paisagem, o encantamento das flores, a delicadeza das pétalas das rosas, a
majestade de um urubu a planar no céu, a revoada giratória dessas aves,
verdadeiro balé aéreo, e as esculturas formadas pelas nuvens ao capricho do
cinzel etéreo do vento.
A lua cheia sempre foi associada
a mistérios e feitiços, fazendo despertar o imaginário das pessoas simples e a
criatividade dos artistas. Dizem que durante essa fase lunar os lobisomens se
manifestam, os cachorros hidrófobos se exacerbam; os loucos ficariam ainda mais
loucos, loucos furiosos, sob os influxos do plenilúnio. Os antigos almanaques
assinalavam a influência da lua sobre a germinação das sementes, sobre o
crescimento dos cabelos e das marés.
Os poetas simbolistas se quedavam
em êxtase, na contemplação da lua cheia e do luar, comparando-os a belas
monjas, pálidas e maceradas, enclausuradas em suas celas, em que os cilícios
laceravam suas carnes tenras e suas esplêndidas peles brancas. Viam a lua plena
como uma hóstia ou como um lírio, e imaginavam o luar como níveas e frígidas
neblinas, em que virgens esmaecidas se perdiam em êxtases pecaminosos ou em
tormentos inimagináveis, por causa de paixões malogradas ou interditas.
Certa vez, quando eu tinha três
anos de idade, mamãe me encontrou na árdua tarefa de emendar umas varas, no
terreiro de nossa casa. Intrigada com essa inusitada atividade, perguntou-me o
que eu fazia. Respondi-lhe que desejava futucar ou atrair a lua cheia, como se
ela fosse algum balão ou apetitosa fruta. Claro, não me recordo desse episódio,
mas apenas narro o que minha madre me contou.
Contudo, às vezes, ainda me sinto
esse mesmo menino, a porfiar em atingir a beleza e a bondade de meus mais
profundos sonhos e ideais, e alcançar assim o meu perigeu em relação a Deus,
que na verdade seria o meu apogeu de homem que não deseja perder a sua mais
intrínseca humanidade, apesar dos percalços e das ciladas; de homem que, mesmo
quando momentaneamente parece perder a sua Fé, não deixa de rezar
fervorosamente.
22 de março de 2011
domingo, 28 de junho de 2026
ALEGORIA DA FOME
| Fonte: Google |
ALEGORIA DA FOME
Elmar Carvalho
A pobreza um dia
bateu à minha porta
sob a forma de um menino
magro, sujo e maltrapilho.
E catou com suas mãos esquálidas
o sujo conteúdo
de meus sacos de lixo.
Foi quando eu saía
para o trabalho.
O menino, ou antes, um
bicho assustado correu.
Fui no seu encalço
em minha moto uivante.
O menino correu ainda mais,
varou cercas de arame farpado,
penetrou no terreno baldio por entre
arbustos espinhentos e urtigas,
com olhos e gestos de terror,
como se eu fosse espancá-lo.
E eu somente queria dizer
que ele podia catar o lixo.
Apenas não espalhasse
o resto do lixo
sobre a calçada.
Mas o meu pequeno irmão
feito bicho espavorido
tem medo dos outros bichos
que se dizem seu irmão.
E o meu irmão tem razão.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
TRIBUTO A MONSENHOR SOLON
| Fonte: Google. Imagem melhorada pela IA GPT |
TRIBUTO A MONSENHOR SOLON
Wilton Porto
Da Academia Parnaibana de Letras
Do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba
“Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
O! bendito o que semeia
Livros... livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É gérmen – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar”.
(O livro e América – Castro Alves)
“Vendo-o, era forçoso estimá-lo. Estimando-o ninguém podia esquecê-lo.”
É impossível falar de educação em São João do Piauí, sem lembrar nomes como Dr. Joaquim Vaz da Costa, Antônio Cavalcante, Adail Coelho Maia, Genésia Arraz, Laura Arraz, Espedita Alves e tantos outros. Porém, a grande estrela foi Monsenhor Solon. É bem verdade que o poeta inspiradíssimo, Adail Coelho Maia, também imprimiu sua marca na cidade, contudo Monsenhor Solon até os dias de hoje contribui para uma educação de relevância maior na cidade de São João do Piauí.
Em 1953 Solon fundou a “Escola São João”. Em 1956 cria o “Instituto São João Batista”.
Ali, iniciava-se a grande arrancada para o desenvolvimento educacional e cultural, além da assistência social para a juventude sanjoanense.
Escola “São João” e ginásio “Frei Henrique” atingiram uma respeitabilidade tão grande, que ouvi muitas vezes ser essas escolas o “primor” de educação do Piauí.
Ingressar no ginásio “Frei Henrique” não era fácil. Tinha-se que ter preparo. Lembro-me que à minha época de primário, o grande medo do alunado era o exame de admissão – “verdadeiro vestibular!” O exame de admissão era obrigatório.
Quando eu fazia a quarta série do primário, uma das professoras chamou-me a mim e ao Nerinho e disse: “Vocês dois têm condições de fazer exame. Façam”. Eu e Nerinho (Moura Fé) nos olhamos.
Não sei bem se admirados, gratos, assustados... Arregalamos os olhos para a professora. Com as vozes embargadas engolimos cuspe em busca de salvação. A professora nos fez relaxar e afirmou: “Não se intimidam, vocês serão aprovados, tenho certeza”.
A professora Valdinê (assim a chamávamos) falava pela boca de um anjo, ou fora intermediária de um deles. Fomos aprovados. Eu, por exemplo, sem dificuldade.
Vocês podem imaginar a nossa alegria! Não tínhamos apenas sido aprovados no vestibular, digo exame de admissão, mas sem ingressar no quinto ano, sem contar que iríamos participar daqueles desfiles fenomenais, vestir a farda do “Frei Henrique”, estudar numa das escolas mais cobiçadas do Piauí!
Monsenhor Correia de Aragão não era filho de São João. Contudo é como se o fosse. Não só ele se considera como se filho o fosse, nós, filhos daquele maravilhoso torrão, também sabíamos que ele o era.
Em 16 de dezembro de 1968, o então prefeito Claudionor Paes Landim de Oliveira confere ao vigário Pe. Solon, o título de cidadão sanjoanense, fazendo justiça àquele que foi enviado por Deus para servir a Deus servindo aos piauienses, principalmente a São João do Piauí.
Em cinco de janeiro de 1969, o povo sanjoanense mais uma vez reconhece o valor do Monsenhor Solon Aragão. Ele continuava firme, comprometido, competente como vigário de São João do Piauí. Desta feita, a festa que lhe dirigiam era por conta das suas bodas de prata de sacerdócio.
A igreja matriz lotada. Os sinos tocando. Os acordes vibrando distante. Na calçada da igreja, muitos se acotovelam. Alguns jovens aproveitam para namorar. Os anjos nos céus com suas clarinetas tocam “Ave-Maria”.
A missa concelebrada mexe com o coração de cada um. Dos olhos de Deus uma lágrima cristalina rola rosto abaixo. E, com certeza, Deus gritou bem alto: “Este é um dos meus filhos muito amados”!
Monsenhor Solon sempre teve ânsia de servir. Era um servo de Deus: ele encarnou a frase de cristo: “Eu não vim para ser servido, contudo para servir”. Como religioso, estava presente na igreja como Cristo na hóstia sagrada; e como educador, estava presente na escola como o barro entre tijolos.
Em 1970, funda o primeiro estabelecimento de ensino de 2º grau do município de São João do Piauí – a Escola Normal Genésio Arraes.
Uma cidade com tantos atributos, com uma escola-modelo, não podia deixar de ter uma escola para preparar professores – o espírito desbravador do vigário, a visão microscópica do educador tinha que se movimentar, criar, servir... E a escola surge, cheia de luz, para iluminar, com certeza, os cérebros famintos de conhecimentos desejáveis.
As décadas de 60 e 70, segundo quem viveu em São João do Piauí, foram áureas. A efervescência política, educacional, cultural e esportiva foi incomparável. O esporte era espetacular. O Ginásio “Frei Henrique” imbatível. Chegou a emprestar oito craques para a seleção da cidade.
Lembro-me bem, no que diz respeito ao esporte, de nomes como Bibiu, Zé Paulo, Zé do Dequinha, Chico Afonso. Eram capazes de destruir qualquer defesa. Bibiu, meu irmão de sangue, era a estrela maior. O Tubéu era o unha de gato. No gol não passava nada. O David, lá das bandas do Jacaré, era um beque inigualável. Bons craques São João tinha! Pandu, João de Vita e tantos outros moram em nossa memória.
O Ginásio, a educação como um todo, fora decisiva para essa alegria, para essas lembranças.
As festas juninas sempre foram marcas registradas da cidade, tendo como dedo propulsor de frente o Monsenhor Solon Aragão.
Arrastava multidões. Aquelas músicas amplificadas atingiam o interior da cidade e de lá, aos montes, vinham se juntar a nós, os interioranos.
Eu, especialmente, sensibilidade de poeta, não tinha como muitas vezes deixar de verter lágrimas ao ouvir aquelas músicas, que penetravam torrencialmente por todos os meus poros.
Monsenhor Solon sabia como nos emocionar. Ele era mensageiro de Deus. Sua inteligência fulgurava de forma incomparável. Tinha domínio do verbo, por isso, sua oratória contagiava. Sem dúvida, um sábio, o que o levou a ser Presidente da Fundação Cultural do Estado do Piauí.
Professor exímio, muitas vezes ele chegava na sala de aula e perguntava: “Em que matéria vocês estão sem aula?” Ali, ele entrava, e dava uma aula inesquecível. Com as aulas dele, eu tirava nota máxima sem estudar. Até ensinando inglês, ele cintilava.
O momento máximo da carreira desse sacerdote foi o centenário da Igreja Matriz de São João Batista, em São João do Piauí.
Os sanjoanenses espalhados pelo Brasil acorreram para São João naquele julho de 1975.
Chorei muito. É que saindo de São Paulo, junto com meu cunhado e irmã, para essa festa, com dez dias de antecedência, cheguei depois dos principais acontecimentos. Alcancei somente o baile, no clube, após muito malabarismo.
O nosso carro quebrou, fundiu o motor em área deserta, porque fizemos trajeto via Brasília e a estrada, à época, estava uma lástima.
Eu fiquei só de ouvir os comentários emocionados dos parentes. Depois, eu fechava os olhos, e lembrava-me das festas juninas, das celebrações, das músicas, dos sermões de Solon, dos passeios pela praça, das namoradas, da escola, do futebol, dos poemas, do grêmio, da efervescência cultural, onde muitas me viam como destaque... E chorava.
Por muito tempo, o sanjoanense cantou uma música daquela comemoração centenária:
“São João, São João, São João.
Meu São João do Piauí...”
Eu me esqueci da letra. Porém essa música por muito me deixou extasiado. Quando eu a cantava, lembrava-me da festa que perdi. É lógico que todo o meu ser entristecia-se.
Dia 20 de janeiro de 2001, quando eu estava em Teresina, no meu curso de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), meu irmão Afrânio, que já havia ligado para Parnaíba (eu não estava hospedado na casa dele), informou-me do desencarne de Monsenhor Solon.
Não dava para telegrafar. Resolvi que escreveria algo. Sou admirador de Solon e admirado por ele. Não poderia deixar de me reportar. Como diz Antonie de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Cativei Monsenhor Solon. Fitei um dia nos seus olhos vívidos e percebi um homem incomum, uma luz que, com certeza, em outras paragens, melhor estará arregaçando as mangas para que o seu ideal de servir ao sanjoanenses seja mais vibrante, e agora com melhores condições, porque está do lado esquerdo (coração de Deus).
Monsenhor Solon foi uma trombeta descida dos céus para alertar os homens da importância da fraternidade. Foi uma chama ardente colocada no alto da Igreja Matriz de São João do Piauí, para que todos pudessem seguir caminho sem se perder na escuridão do sofrimento. Foi o silêncio em oração para que Deus, por meio dele, ouvisse nossos apelos. Fora o advogado daqueles que, em momentos críticos, se perdiam na descrença de que o Pai existe. Revelou-se o político que fez pelo prazer de fazer. Sem dúvida alguma, um pedaço do céu que desceu à terra.
Neste mundo e numa época de tantas atrocidades, tinha que surgir, na terra, homens completamente voltados para os interesses populares. Homens que em milênios de caminhadas conseguiram dominar os ímpetos dos desejos materialistas e penetraram fundo na essência do próprio ser.
Esses homens não negaram a si mesmos em prol dos outros. Compreenderam o seu dever, aprenderam sobre o verdadeiro amor e se realizam no servir.
Monsenhor Solon, o senhor é um desses homens! Aí está o motivo da minha admiração. Houve momentos em que o senhor agiu de maneira enérgica, mas não se pode ser líder, sendo só açucarado. Porém no âmago do seu âmago, nas entranhas da sua alma, vibra uma doçura ímpar.
Ninguém nesta vida se faz respeitado, se dentro de si não desenvolve a pureza divina que nos é latente! Os grandes iluminados deixam transparecer essa pureza em tudo que fazem. E, nós, os menos dotados, nos deixamos guiar, porque sabemos (e muitas vezes sem saber) que o líder nos está levando para o caminho do bem.
Sabemos que o homem não morre. Monsenhor Solon está vivo num plano de vida, numa outra dimensão.
Digo: Mons. Solon. Que bom, você ter descido à terra! Que maravilha que o senhor fora para São João do Piauí! Que ótimo, eu ter vivido em São João, na mesma época em que viveu o enviado de Deus! Que privilégio, eu ter sido seu amigo! Mons. Solon, luz cristalina, fonte indispensável ao sedento, anjo de muitas asas a abrigar o viajor cansado do sol, da dor. Lá dos céus, onde agora habita, ore por nós. De vez em quando, deixe-nos abrigar-nos em suas asas. Porque sabemos que em todo o sem ser, encontramos a paz buscada. Que os nossos laços sejam cada vez mais firmes e salutares. Bom regresso à verdadeira Pátria. Meus aplausos pelos louros da vitória! Do dever cumprido com sabedoria!
quinta-feira, 25 de junho de 2026
O GUERRILHEIRO, O POETA E O MÉDICO
O GUERRILHEIRO, O POETA E O
MÉDICO
Elmar Carvalho
Por precaução e em virtude de
achar que já estava havendo sinalização de que eu poderia estar com tendência
para um início de hipertensão, fui consultar-me com o dr. Itamar Abreu Costa,
meu conhecido há um bom tempo. Trata-se de um médico humanitário, de um bom ser
humano, cordato e educado. Logo a gente percebe que ele gosta do que faz,
porquanto ele exerce sua profissão com alegria, com presteza e dedicação,
satisfeito por estar prestando um benefício a seu semelhante. E todo aquele que
se realiza em sua profissão, que a exerce com entusiasmo é um felizardo, porque
o trabalho torna-se uma bênção, ao passo que, para o que a exerce apenas por
obrigação, apenas por causa do dinheiro, o trabalho é um fardo pesado,
enfadonho, convertendo-se numa espécie de penitência e maldição.
Vi, nas estantes de seu
consultório, várias imagens de santos, quase como se ali fosse uma espécie de
oratório, o que talvez seja também. Indaguei-lhe a respeito. Respondeu-me que
sua mulher Edilane, diretora do ITACOR, é uma católica praticante e fervorosa,
descendente de uma senhora piedosa, que contribuiu para o soerguimento da
igreja matriz de N. Sra. dos Humildes, padroeira de Alto Longá, onde ambos
nasceram. Mas vi também, destacando-se entre os livros e as imagens, duas
placas metálicas com os retratos de Che Guevara e Pablo Neruda, o que revela o
lado “guerrilheiro” de Itamar, na busca talvez utópica de uma sociedade mais
justa, mais igualitária, mais fraterna, pois, como se sabe, os dois ícones eram
homens de esquerda.
O primeiro, herói da revolução
cubana, tendo lutado em Sierra Maestra, até a vitória final, com a instauração
do governo de Fidel Castro, era médico, como o nosso bravo Itamar Costa. O
segundo, além do altíssimo poeta andino que foi (e digo andino em sentido
literal e metafórico), com versos que ainda hoje me encantam e enternecem, foi
também político no Chile, sua terra natal, tendo apoiado o governo de esquerda
de Salvador Allende. Portanto, os dois retratos são significativos e bem
apropriados, porquanto Itamar, além de médico, como Guevara, é também um ser
cultural e telúrico, como Neruda, tanto que é o dinâmico presidente da Academia
Longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia – ALLCHE.
Quando, alguns anos atrás, levei
meu filho João Miguel para ser consultado por Itamar, ele me disse a sorrir,
com seu jeito bonachão:
– Quer dizer que você confia em
me entregar o coração de seu filho?
Disse-lhe que sim. Desta feita
fui logo lhe advertindo que, à revelia de minha preocupação, o meu histórico
era bom, porquanto minha pressão sempre fora normal e meus pais sempre tiveram
bom coração, tanto no sentido fisiológico, como no simbólico, posto que são
pessoas saudáveis e de boa índole. Ele sorriu e me passou uma bateria de
exames; falta-me fazer o derradeiro.
Coloquei o coração de meu filho
em suas mãos. Agora, nelas coloquei o meu próprio. Aguardemos o resultado dos
exames e o vaticínio do oráculo, que, no caso, é o próprio Itamar Abreu Costa,
com suas vestes brancas de esculápio e sua farta barba de profeta.
16 de março de 2011
domingo, 21 de junho de 2026
CIDADE GRANDE
CIDADE GRANDE
Elmar Carvalho
Dando (m)urros
no vazio
por causa da dor
da doidice
da vida
da vivida mediocridade
entre as ruas
nuas sujas tristes
as ladras
ladram como cães
e os cães
gemem como homens.
Na (c)idade
do lobo
o lobo-homem
é o lobisomem
do homem.
Tudo é
ferro feio (en)ferrujado
ferindo feridas
já abertas.
Na cidade
na cilada
das suas ruas
surgem (g)ritos
lavados em sangue
lavrados a ferro e fogo.
Soltam berros
soltam (b)urros
prendem os b’rros
que incomodam.
Na cidade grande
onde não existe
pôr-de-sol
o homem gira e pira
sem (gira)sol
sem (guarda)sol.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
MEUS TEMPOS EM CURIMATÁ
| Imagem criada pela IA Gemini |
MEUS TEMPOS EM CURIMATÁ
Elmar Carvalho
Vez ou outra, ao entardecer ou no
silêncio da madrugada, escuto o relincho ritmado, vibrante, metálico, quase
musical, de um jumento, certamente com pendores artísticos. Disse relincho, mas
quase dizia canto, porque a voz desse asno é algo semelhante ao som de um
instrumento de sopro. Por vezes o jegue se dá ao requinte e virtuosidade de
emitir um sustenido ou mesmo um melodioso falsete.
Isso me fez recordar, por motivo
que adiante será esclarecido, da madrugada solitária e fria, no início de minha
carreira, quando, na qualidade de juiz substituto, assumi a Comarca de
Curimatá, por quatro meses e alguns dias. Depois da longa viagem de mais de
setecentos quilômetros, em desconfortável ônibus, com grande parte da estrada
devastada por imensas crateras, cheguei a meu destino. Se bem me recordo,
desceram duas ou três pessoas, que logo se dirigiram para suas casas. O ônibus
seguiu para Avelino Lopes, de modo que fiquei sozinho no banco da praça
central, à espera da pessoa que iria me abrigar até eu conseguir pousada.
Como disse, a solidão era
absoluta, de modo que me senti desamparado, na terra estranha e distante. Para
me distrair, fiquei a olhar as casas e os logradouros. No centro da praça havia
o fórum e o prédio da prefeitura. Mais adiante, numa esquina, erguia-se o
edifício do Banco do Brasil. Bem perto do local em que me sentei, um jumento
pastava o tenro e verde capim que ornava a praça, sem ser incomodado por
ninguém, nem mesmo por eventual e zeloso vigia do jardim público.
Se bem que o jegue mais se
assemelhava a um servidor público, a executar gratuitamente o serviço de
capina. Logo chegou dona Miraísa, que era a chefe do cartório eleitoral e
escrivã da Justiça comum. Era ela viúva de um ex-prefeito do município.
Posteriormente, seu filho, então estudante do curso de Direito, veio a se
tornar alcaide de Curimatá. Já não me senti mais abandonado, e fui esperar o
dia amanhecer em sua residência, onde tomei banho e café.
Felizmente, o doutor Carlos
Washington Machado, promotor de Justiça,
com a sua lhaneza e elegância habitual, convidou-me para ocupar um
quarto do apartamento funcional do Banco do Brasil de que ele era locatário, depois
de ter providenciado uma singela solenidade de posse. Nessa curta temporada
curimataense, convidado pela prefeita Estelita Guerra de Macedo, participei de
evento cultural no campus da UESPI, em que discursei e recitei poema de minha
autoria.
Nessa cidade, da qual guardo boas
recordações, fiz amizade com o sr. Mundinho Mascarenhas e com o rábula Vogado,
que eu chamava, brincando, de Ad-Vogado. Ambos tinham interesses culturais, e
entretivemos boas conversas. Na companhia dos dois, fui conhecer a pequenina e
vetusta Parnaguá, ornada por um grande lago, referto de encantos, lendas e
mistérios, terra do romancista e contista Oton Lustosa, magistrado e meu
confrade da Academia Piauiense.
Às vezes, ao contemplar as
carnaubeiras e a serra de Parnaguá, azulando na direção de Avelino Lopes, uma
melancolia se infiltrava na minha alma ao me recordar de minha longínqua terra
natal.
15 de março de 2011
domingo, 14 de junho de 2026
GALO MAGRO
| Imagem elaborada pela IA GPT |
GALO MAGRO
Elmar Carvalho
Galo Magro
não tinha
penas multicores
não tinha canto
nem encanto
não tinha crista
nem cristais de prata.
Sim, senhores, porque Galo Magro
era apenas o apelido
de um menino pobre,
de um menino feio,
de um menino com fome,
de um menino sem nome,
como milhares de
outros meninos do Brasil.
Galo Magro
jogava bola
mas um dia
para driblar a fome
encravada no seu bucho
ainda menino foi ser
motorista de táxi.
Um dia,
um dia como
outro qualquer,
um dia simples
sem exuberância de sol
e sem adorno de nuvens
um homem mandou
que o Galo Magro
fizesse uma corrida
à passagem do
“Vai-não-Volta”.
E o Galo Magro
foi e não mais voltou.
Foi encontrado morto
com o olhar de
vidro absorto
fitando o vazio
do sem futuro.
Foi encontrado morto
com os olhos tristes
abertos
fitando talvez a quimera
da vida perdida de quem nada espera
da vida perdida
de pobre diabo
completamente morto
morto ainda em vida
de morto morto e acabado.
(Uma rosa rubra de
sangue coagulado
brilhava muito
viva e linda em seu
peito frágil de
Galo Magro magro.)
