quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Sarau 16 e "Confissões de um juiz"
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Visita ao amigo Alcione
Visita ao amigo Alcione
Elmar Carvalho
Ontem, por volta das dez horas, cavalgando o meu árdego e
nervoso Pangaré, fui visitar meu amigo Alcione Pessoa Lima, velho conhecido e
meu colega na ECT e no curso de Direito. Estacionei o pequeno e bravo
quadriciclo à sombra de frondosa e florida mamorana, que me fez lembrar o
título de um romance de Moura Rego — “As mamoranas estão florindo” —, que vale
por um verso.
Ficamos à sombra de um belo caramanchão, que tem o nome de
Cantinho dos Poetas. Disse-lhe que essa denominação tem um espírito acolhedor,
porquanto está no plural, enquanto o meu “cantinho”, na Várzea do Simão, foi
posto no singular, o que parece denotar mais introspecção e solitude.
Após uma agradável palestra com o poeta e anfitrião Alcione,
fui presenteado com dois livros de belos versos de sua lavra: “Grita” e “Um
homem de valor”, este último traçando o perfil de seu pai, Antônio Pereira Lima
(*), sobretudo no que diz respeito ao seu caráter e à sua postura de pai
amoroso e provedor, além de cidadão exemplar, que ainda tinha a virtude de ser
mestre do violão.
Na hora da despedida, sua esposa, Gleyde, me ofertou uma
farta porção de deliciosas castanhas de caju, que coloquei no alforge do
Pangaré. Em seguida, fui contemplar as árvores e os pássaros, que ainda alegram
as veredas e trilhas do condomínio.
(*) Alcione me enviou os seguintes dados sobre seu pai:
Foi casado com Rosália Pessoa Lima, também de Água Branca,
com quem teve dez filhos. Teve sete irmãos. Viveu parte da vida em sua cidade
natal, em Teresina e em Caxias-MA. Alguns de seus irmãos trabalharam na ECT:
João Pereira Lopes, Manoel Pereira Lopes, Luísa Lima Barreto e Rosa Lopes
Ferreira. Faleceu em 06.05.2006 (CA no cérebro).”
domingo, 11 de outubro de 2026
PAULICEIA
![]() |
| Imagem elaborada pela IA GPT |
PAULICEIA
Elmar Carvalho
Do apartamento
assistia sitiado
a antipanaceia
destrambelhada
da Pauliceia Desvairada
escaramuçando e rugindo
lá em cima
lá embaixo
para todos os lados,
pela boca fumarenta
fedorenta
das chaminés e dos
canos de descarga,
pela boca nojenta
gosmenta dos esgotos
que escarram e vomitam
no Tietê,
pela boca de morte
das sereias angustiadas
que gritavam,
pela boca fedida
da namorada que
brigava,
pela boca ferida
do namorado que
revidava,
pelos braços apressados
que bracejavam
elétricos,
pelos passos ansiosos
que esperneavam frenéticos
no dinamismo maluco
da vida fremente
premente
que me assustava e
angustiava
fechado e fugitivo
no apartormento.
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
TEMPOS ECETISTAS
![]() |
| Recife dos anos 1970. Imagem melhorada pela IA GPT |
TEMPOS ECETISTAS
Elmar Carvalho
Na noite passada, sem ver e nem
para que, sonhei com os tempos em que trabalhei na ECT, mas num contexto bem diferente da realidade, como não é
incomum acontecer nos sonhos; por mais realistas que aparentem ser, trazem
sempre algo de surpreendente e estapafúrdio, com alguma pitada desconcertante
de estranheza. Nesse sonho eu iria fazer um treinamento, já não me lembro ao
certo onde, e nele aparecia o Milton Higino, ao qual me referirei mais adiante.
De qualquer sorte, fez-me recordar do meu ingresso na Empresa de Correios e
Telégrafos, que dependeu de aprovação em curso de três meses no Recife,
ministrado no primeiro semestre de 1975, quando fui aluno do Centro de
Treinamento Correio Paulo Bregaro, situado no bairro Bonji.
Certa tarde, quando eu fazia
estágio numa das agências do centro do Recife, fui chamado pela diretora do
Centro, senhora Cecília, mulher do então diretor regional da ECT em Pernambuco,
para recitar um longo poema sobre Recife, que eu havia escrito. Salvo engano, a
declamação foi no auditório da escola, onde ocorria uma solenidade. Senti-me,
aos 19 anos, com bastos cabelos encaracolados, a própria reedição encarnada de
Castro Alves, que também estudara na Mauriceia. Desse poema sobre a nossa
tropical Veneza só consegui resgatar os seguintes versos: “tuas luzes
multicores / ilusórias como os primeiros amores / cheios de mágoas / parecem
peixes fosfóreos / em tuas águas”. Os versos retratavam o fascínio de um
menino/poeta interiorano diante da bela cidade do bardo Manuel Bandeira.
Foram meus colegas do curso de
Monitor Postal os conterrâneos Alcides Ananias Ibiapina, Wilson Higino, irmão
do Milton, a que me referi, e o Paulo, irmão do Luís Carneiro, empregado da
empresa, mas que nas horas de folga fazia serviços de instalação hidráulica e
elétrica. Dessa turma faziam parte o Chaguinhas, teresinense, e o Bernardo Candeira do Val, ambos já
falecidos; o segundo era natural de Buriti dos Lopes, torrão de minha mulher,
Fátima, que só vim a conhecer em 1977, quando fui cursar Administração de
Empresas no campus da UFPI em Parnaíba, já como empregado da estatal.
Nos finais de semana,
aproveitávamos para conhecer os pontos turísticos, tais como Olinda, parque
zoobotânico, praia de Boa Viagem, roda de ciranda no adro de uma das vetustas
igrejas. Num feriado prolongado, conheci Maceió e a bela praia de Pajuçara. Tive
a satisfação de ser o orador dessa turma do Paulo Bregaro. Um dos mestres, em
gritante exagero, disse que o meu discurso merecia ser proferido em um templo
da cultura, o que massageou meu ego de garoto, certamente ainda bisonho.
O Milton Higino, como disse,
apareceu nesse sonho, que não chamarei de extemporâneo porque os sonhos não
respeitam a dimensão tempo-espaço de que nos fala o gênio Einstein em sua
teoria da relatividade, e extrapolam ou mesmo violam os limites do tempo, do
espaço e da velocidade. Eu o conhecia desde o início de minha adolescência, a
trabalhar na agência do antigo DCT, em Campo Maior, quando esse departamento da
administração pública federal já se preparava para ser transformado em empresa.
Tanto ele, como seus irmãos Nonato, Cláudio, já falecido, e o Wilson começaram
a trabalhar bem jovens.
Logo o Milton Higino foi aprovado
em concurso para o BNB. Servidor exemplar, exerceu a gerência desse banco em
várias agências da hinterlândia piauiense, entre as quais as de Oeiras e a de
Água Branca, que ainda está sob seu comando. Presidiu o Comercial, arquirrival
do Caiçara, pelo qual torço. Às vezes, tratando de interesses do banco, ele
aparece no fórum de Regeneração, oportunidade em que conversamos brevemente.
Tem ele uma palestra agradável, temperada com pitadas de bom-humor, graças aos
casos anedóticos de seu vasto repertório.
Numa dessas práticas, contou-me
ele que um seu ex-colega ecetista, após chamar o chefe pelo nome, em momento em
que este estava um tanto turbinado pelo álcool, foi por ele advertido para que
o chamasse de senhor. O subordinado disse que iria obedecer, que passaria a
chamar todos de senhor, inclusive o Milton Higino, que ainda estava na
puberdade, mas que em contrapartida iria exigir que todos os funcionários o
chamassem também de senhor.
E, com efeito, passou a chamar
todo mundo de senhor, mas lamentavelmente a recíproca não foi verdadeira, e ele
não foi correspondido em seu respeitoso protesto, que terminou caindo no vazio.
26 de abril de 2011
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Padre Deusdedit, um mecenas do futebol
| Pe. Deusdedit, Elmar e Fátima |
Padre Deusdedit, um mecenas do futebol
Elmar Carvalho
Quando, recentemente, precisei do meu diploma do curso de
Direito, que era guardado numa gaveta, juntamente com o do curso de
Administração de Empresas, ambos expedidos pela UFPI, descobri que eles haviam
sido extraviados, em circunstâncias que desconheço. Por essa razão, requeri ao
setor competente a expedição de segunda via.
Numa das vezes em que lá estive, ouvi um velho servidor dizer
que tinha vindo requerer sua aposentadoria. No decorrer da conversa, ele disse
que era de José de Freitas e que havia sido vereador daquele município. Não
pude deixar de me intrometer na conversa. Falei que morei naquela bela e
bucólica cidade durante um ano, quando completei 14 anos de idade. Exatamente
no ano de 1970, quando a Seleção Brasileira ganhou o tricampeonato mundial de
futebol.
Perguntei qual era o nome de meu interlocutor, tendo ele me
respondido que era José Ribamar Santana. Disse-lhe que morei numa casa caiada,
que ficava exatamente no lugar onde terminava a rua que passava pelo teatro,
pelo clube social, pela casa do senhor Levi Carvalho e pela lateral da casa dos
Santana. Ribamar disse que aquela era a casa de seus pais. Contei-lhe, então,
os seguintes episódios.
Relatei que jogava bola num campinho arenoso, rodeado de
mangueiras, que ficava num terreno em frente à marcenaria de Zezé Barros, então
o melhor marceneiro da cidade. Zezé jogava com a gente, a partir das cinco
horas da tarde. Entre outros, participavam das “peladas” os garotos Itamar,
Louro, Carlos, filho de dona Irá, e Pedro ou João Rocha. Eu atuava como goleiro
e gostava de enfeitar minhas defesas com voadas acrobáticas. Acrescentei que,
quando os Rocha compraram esse imóvel, proibiram a prática de futebol nesse
campo.
Por essa razão, certo dia estávamos jogando futebol na rua,
na frente da casa dos Santana, quando chegou o padre Deusdedit, dirigindo o seu
Fusca. Ele era meu diretor e professor de Português no Ginásio Moderno Estadual
Antônio Freitas, quando eu cursava o segundo ano. Acenou-me para que fosse até
onde ele se encontrava. O padre perguntou-me por que estávamos jogando no meio
da rua. Narrei-lhe a história acima, não esquecendo de falar sobre o fechamento
de nosso campinho.
Ele disse que havia um terreno baldio em frente ao cemitério
velho, por trás da casa de Levi Carvalho. Prometeu que, se limpássemos esse
terreno, ele daria as traves, uma bola de couro, os tornos de marcação e um
apito para o árbitro. Liderei os colegas de futebol e limpamos o terreno dos
mata-pastos que infestavam o local.
O padre imediatamente cumpriu sua promessa. Diante disso, fiz
uma carta ao Armazém Paraíba, relatando esses fatos e pedindo um equipamento
completo para um time de futebol. Um ou dois meses depois, recebi em minha casa
o uniforme do Santos. Assim, posso dizer que, com a ajuda do padre Deusdedit
Craveiro de Melo, contribuí para a fundação de um campo de futebol e do Santos
de José de Freitas. O padre já havia fundado outro campo de futebol, o Guriatã.
Relatei ao Ribamar Santana que certa vez vi o irmão dele, em
companhia de outros rapazes, ouvindo músicas da Jovem Guarda numa radiola
portátil, na calçada de sua casa. Entre outros cantores, pude ouvir, nessa
ocasião, José Roberto e Paulo Sérgio. Contei que, poucos anos depois, soube da
morte de seu irmão, afogado nas águas do Parnaíba. Ele confirmou a morte do
irmão e acrescentou que esse fato trágico aconteceu no dia da inauguração do
Estádio Alberto Silva.
Ele, após me dizer que se casara com uma irmã de Pedro e João
Rocha, afirmou estar admirado de minha memória e mostrou o braço arrepiado, em
sinal da emoção que sentiu com os fatos que narrei.
Encerro esta crônica memorialística prestando minha comovida
homenagem ao monsenhor Deusdedit Craveiro de Melo, que me casou 15 anos depois,
meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, mecenas do
futebol freitense.
(*) Alguns dos fatos narrados encontram-se no documentário
“José de Freitas – a cidade da memória e da saudade”, disponível no YouTube.
domingo, 4 de outubro de 2026
LABIRINTO TINTO DE SANGUE
LABIRINTO TINTO DE SANGUE
Elmar Carvalho
Faço um poema
com o sangue ardente
das nascentes de meus dedos:
vertentes de medos e degredos.
Os versos são fios de esperança
que saem de palpos de estranhas aranhas
construindo labirintos em arabescos
tintos de sangue nos afrescos.
Ariadne recolhe o fio
e Teseu surge intacto
com a espada embebida
do sangue do Minotauro que traz
no peito a rosa sangrenta da ferida.
Com esse fio
Penélope tece e destece
um longo manto ensopado
de pranto e quebranto
e se amortalha das dores
de amor de que padece
– amor que lhe pasta e apetece.
O que conclui desfaz peça por peça
e interminavelmente recomeça.
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
CADERNOS DE SARAMAGO
CADERNOS DE SARAMAGO
Elmar Carvalho
Na sessão da APL do dia 9 do
corrente, sábado, a Teresinha Queiroz, apesar de minha amiga, terminou
“inconfidenciando” que eu estava a fazer aniversário. Recebi os aplausos e os
cumprimentos dos confrades, pelos quais agradeci, na hora apropriada, quando
pedi a palavra. Por coincidência, o professor Paulo Nunes me dera, antes do
início da reunião, o volume II de Cadernos de Lanzarote, contendo os diários de
José Saramago referentes aos anos de 1996 e 1997.
Em minha breve alocução,
agradeci-lhe o mimo, e acrescentei que ele me havia emprestado um outro volume
dos ditos Cadernos, relativos aos anos 1993, 1994 e 1995, e que só não me
agraciara com esse tomo porquanto fora presente do confrade Celso Barros Coelho,
no qual se encontra consignada amável dedicatória desse notável intelectual,
datada de 8/5/97, que faço questão de transcrever: “Ao caro Paulo Nunes, a quem
muito agradarão estes 'Cadernos de Lanzarote', na mensagem que nos envia o
grande Saramago, de sua ilha, no dia a dia de sua meditação ao sabor das
circunstâncias agradáveis (para o leitor).”
Expliquei a meus pares que vinha
me dedicando a ler diários, autobiografias e memórias em virtude de que estou
me preparando para fazer da melhor maneira possível o meu Diário Incontínuo,
que venho escrevendo e publicando no meu blog e no Blog Literário do portal 180
Graus.
O professor Paulo Nunes,
complementando minhas palavras, falou que o volume ofertado pelo acadêmico
Celso Barros, além do valor agregado da dedicatória, tinha também um outro
valor afetivo a mais: é que por causa da compra desse livro, e também por causa
do embevecimento de Celso a olhar e folhear outras publicações da livraria do
aeroporto, terminara perdendo o avião que o traria de volta a Teresina, só
retornando em outra aeronave, posteriormente. Portanto, deixei de ganhar esse
volume em virtude da bela dedicatória e em razão de o nosso acadêmico haver
perdido o seu voo em decorrência de sua aquisição.
Para coroar o dia de meus anos,
que eu pretendia deixar transcorrer no mais absoluto esquecimento, o confrade
Manfredi Mendes de Cerqueira, mestre da oratória, sobretudo da concebida ao
sabor do improviso, disse que este diarista tem no prenome “a combinação de
cinco letras, e que as três últimas desaguam no mar; que o mar simboliza a sua
grandeza literária, a sua largueza de espírito e de outras qualidades”. Não me
restou alternativa, a não ser agradecer, embora não as merecendo, as belas
palavras do desembargador Manfredi, sempre lhano e espirituoso em sua verve bem-humorada.
23 de abril de 2011
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Sobre livros, poemas e leituras
| Acadêmicos Oton, Elmar, Cecília e Felipe, no auditório do Liceu Piauiense |
Sobre livros, poemas e leituras
Elmar Carvalho
Dias atrás, estive no velho Liceu Piauiense (CETI Zacarias de Góis) para participar
de um evento promovido pela Secretaria Estadual de Educação e pela Academia
Piauiense de Letras. Como representantes da APL, participamos eu e os
acadêmicos Felipe Mendes, Oton Lustosa e Cecília Mendes. Cada um, a seu modo,
falou sobre livros, experiências com a literatura e a importância dos Clubes de
Leitura, mormente para a difusão da literatura piauiense. Os alunos recitaram
poemas e apresentaram performances.
Em minha conversa, disse que meu interesse pela literatura
nasceu quando eu tinha dez anos, na época em que, por um curto período, fomos
morar na zona rural de Campo Maior. À falta de outras diversões, a leitura se
tornou o meu entretenimento predileto, que mantenho até hoje. Acrescentei que,
a partir dos meus 16 anos, comecei a publicar contos e crônicas no jornal A
Luta, de Campo Maior.
Revelei que, no primeiro semestre de 1973, aos 17 anos,
quando fui aluno do Liceu, o seu auditório, onde estávamos, me encantava, e eu
o achava grande, deslumbrante, quase mesmo suntuoso (*).
Olhando as suas cadeiras, o seu palco, as suas ornamentações
e balaústres, sobretudo as suas cariátides, que pareciam sustentar o teto,
interiorano, jovem e algo bisonho, um tanto cabeludo e esbelto, eu me julgava o
próprio Antônio Frederico de Castro Alves e sonhava recitar um de meus poemas
para um grande público de alunos e professores.
De certa forma, realizei esse sonho dois anos depois, no
Recife, quando a diretora do Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro me
convidou para recitar um poema de minha autoria sobre a linda Veneza
Brasileira. O poema se perdeu nos desvãos e esconderijos de esconsa gaveta.
Dele, guardei apenas estes versos:
tuas luzes multicores
ilusórias como os primeiros amores
cheios de mágoas
parecem peixes fosfóreos
em tuas águas.
Aproveitei o momento para realizar o sonho do bisonho garoto
que eu fui e, do alto do palco do belo auditório do Liceu Piauiense, aos 70
anos, recitei um poema de minha lavra para o auditório lotado de atentos alunos
e professores.
Parafraseando o poeta Luís Guimarães Júnior, diria que a
emoção “jorrou-me em ondas”, e quase não pude resistir às lágrimas que queriam
marejar meus olhos e minhas retinas já fatigadas.
---
Na terça-feira da semana passada (22/09/2026), cumprindo
outro evento da parceria entre a SEDUC e a APL, os confrades Fonseca Neto,
Cecília Mendes, Marcelino Leal Barroso de Carvalho e eu estivemos no CETI João
Henrique de Almeida Sousa. Fomos recebidos pela diretora Lívia Simão, pelo
professor de Literatura Gilson e por outros mestres e funcionários. Todos
falamos sobre literatura, livros e a importância dos Clubes de Leitura.
Funcionou como apresentadora, ou mestra de cerimônia, a jovem
aluna Bianca Soares, que teve muita desenvoltura, criatividade e capacidade de
improviso. Alguns alunos fizeram performances e recitaram poemas de sua
autoria. Foi recitado um poema do estudante Heitor, rapaz um tanto tímido, cujo
nome — e o fato de ser poeta — me fez lembrar Troia e Homero, que celebrou em
seus versos o herói lendário.
Desta feita, optei por falar sobre a gênese de meu poema “Rio
Infinito”, elaborado recentemente, e fazer a minha interpretação de autor.
Contudo, deixei claro que ele poderia ter outras interpretações diferentes da
minha.
Foi projetada uma imagem que pedira a uma IA que elaborasse,
seguindo minhas instruções, na qual aparecia um rio que formava o símbolo do
infinito e do qual surgia a “escada” retorcida de um DNA humano.
Expliquei que, ao ler um livro de poesias, o poema, como um “insight”,
ficara gravado em meu cérebro, já pronto e acabado. Eis o poema, que também foi
projetado pelo datashow:
Sou
um rio infinito,
um rio
sem começo nem fim.
Um rio que deságua
em si ou em mim.
Um rio eternamente a fluir
no espaço e no tempo,
sem início e sem fim...
Dei algumas explicações sobre a imagem e seu significado, mas
principalmente tentei interpretar o meu poema. Assim, lhes disse que o rio
infinito de meu poema não poderia ser nunca um rio literal, um rio de verdade,
uma vez que um rio natural não pode desaguar em si mesmo, já que sempre segue a
declividade por onde corre.
Um rio de verdade pode se transformar num rio seco, num rio
de pedras ou num rio de areia, quando é temporário. É o rio de Heráclito de
Éfeso, que não pode ser atravessado duas vezes, já que as águas serão outras. É
o rio de um filme a que assisti recentemente, em que um personagem, ao
contemplá-lo e se lembrar do passado, exclamou, talvez apenas para si mesmo:
“As águas passam, o rio fica; que nem nós”. Era um filme baseado no magnífico
conto de Aníbal Machado, “Viagem aos seios de Duília”, cujo título vale por um
excelente poema lírico.
Esclareci que o meu rio formava uma espécie de Ouroboros, a
serpente ou dragão que morde a própria cauda, como símbolo da eternidade — do
nascimento, morte e ressurreição para a eternidade. É um rio sobrenatural
porque deságua em si mesmo, como a significar a retroalimentação e a
perenidade.
Para não me alongar, diria que o meu rio representa a vida
eterna, de que nos falou Jesus, e que ele está nos seguintes trechos do Novo
Testamento, para os quais remeto o leitor: João 4:14, João 15:5 e Apocalipse
22:1.
Portanto, o rio de meu poema é o mesmo que está no Novo
Testamento, o rio metafórico de que nos falaram Jesus e João. Um rio de águas
límpidas, puras, cristalinas. Quem dele beber não voltará a ter sede. Quem dele
beber não morrerá, a não ser para a vida eterna.
Nasce no trono de Deus e a ele infinitamente retornará, pelos
séculos dos séculos, “ad infinitum”.
(*) Esse relato se encontra no documentário “Teresina – Tempo e Memória”, que se encontra disponível no YouTube.
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Uma Leitura Íntima de "A Maldição do Poeta"
| Imagem elaborada pela IA GPT |
Uma Leitura Íntima de "A Maldição do Poeta"
Frederico Rebelo (*)
Ensaio
elaborado pelo escritor e poeta Frederico Rebelo sobre o poema “A Maldição do
Poeta, da autoria de Elmar Carvalho, que poderá ser lido na íntegra através
deste link: https://poetaelmar.blogspot.com/2026/09/a-maldicao-do-poeta.html.
Conheço Elmar Carvalho há tempo suficiente para reconhecer,
por trás de seus versos, algumas das inquietações que os alimentam. A amizade e
a convivência me ensinaram que, nele, poesia e vida não caminham por estradas
inteiramente separadas. Há sempre, sob a palavra rigorosamente trabalhada,
alguma inquietação mais funda, algum acerto de contas do homem consigo mesmo e
com o mundo.
É dessa perspectiva, ao mesmo tempo afetiva e crítica, que
leio "A Maldição do Poeta". O poema me parece uma espécie de
autorretrato interior: não do homem biográfico, mas do poeta diante da própria
condição de escrever.
Desde o primeiro verso, o poema nos coloca diante de uma
figura solitária: o “lobo solitário”, perdido em estepes onde jamais esteve. A
paisagem é imaginária, mas o sentimento que a produz é concreto. Vento, frio,
Lua e estepes compõem menos um cenário do que uma geografia interior.
Então vem um dos versos que mais me chamam a atenção:
"para não a ver
meus próprios olhos ceguei.”
Há aqui uma contradição de grande força poética. O poeta cega
os próprios olhos para não contemplar a Lua. Mas essa cegueira voluntária pode
ser entendida de outra maneira: ao recusar o olhar imediato, ele procura uma
visão que não depende dos olhos. A imagem sugere o preço de uma percepção que
ultrapassa a aparência das coisas.
Em seguida, aparece o “cão danado”, “condenado / por si
mesmo”. A condenação já não vem somente de fora; nasce no próprio sujeito. E
sua pena é uma “eternidade / de trabalho forçado”. A expressão me parece
particularmente feliz porque despoja o ato de escrever de qualquer romantismo
fácil. Para esse poeta, a criação tem algo de necessidade e de suplício.
É nesse ponto que o título começa a adquirir sua verdadeira
dimensão. A maldição não está apenas no sofrimento. Está na impossibilidade de
escapar daquilo que o impele a escrever.
O "Judeu Errante" prolonga essa condição. O poeta
atravessa “desertos de areia e de gelo”, sempre fugindo de si mesmo. A errância
deixa de ser geográfica e passa a ser existencial. Por mais que caminhe, o
poeta carrega consigo aquilo de que tenta fugir.
Quando se proclama “Poeta maldito / até a infinita geração”,
Elmar aproxima sua voz de uma antiga linhagem literária: a do poeta que não se
acomoda, que permanece em conflito com o mundo e consigo próprio. Não é
necessário recorrer a nomes ou genealogias para perceber essa filiação; ela
está contida na própria imagem.
Mais adiante, a expressão “cosmopolita proscrito / das
fronteiras do / tudo e do nada” amplia o horizonte do poema. O poeta pertence a
todos os lugares e, simultaneamente, sente-se estrangeiro neles. As fronteiras
de que fala Elmar já não são políticas: são existenciais. O poeta habita esse
território instável entre o que pode ser nomeado e aquilo que permanece
obscuro.
E então surge Prometeu.
A escolha é precisa. Prometeu traz consigo o fogo, a
transgressão e o castigo. Mas o que mais me interessa na apropriação de Elmar é
um detalhe: as aves que dilaceram o titã “saíram de seu cérebro”.
Aqui o poema alcança uma de suas imagens mais perturbadoras.
O algoz nasce do próprio pensamento. Os monstros e fantasmas
que atormentam o poeta são também criaturas de sua imaginação. Ele dá
existência àquilo que depois o persegue. A criação, portanto, deixa de ser
apenas expressão: torna-se também uma forma de confronto com aquilo que o
próprio espírito produz.
Por isso, o "caldeirão vulcânico / em contínua erupção”
me parece a imagem que melhor concentra o poema. A mente do poeta ferve. Dela
brotam “monstros e fantasmas / de milhares de membros e cabeças”, numa
proliferação quase descontrolada de formas. O vulcão não é apenas destruição; é
também fonte de matéria.
E talvez esteja aí o paradoxo central de "A Maldição do
Poeta": aquilo que atormenta o poeta é também aquilo que alimenta sua
poesia.
É por essa razão que não vejo o poema apenas como uma
confissão de angústia. Vejo nele uma reflexão sobre a própria condição de
escrever. O lobo, o cão, o Judeu Errante e Prometeu são faces diferentes de uma
mesma figura: o homem que carrega dentro de si uma matéria que não lhe permite
o repouso.
Como amigo e confrade, essa leitura me toca de maneira
particular. Há em Elmar uma inquietação intelectual que conheço e que reconheço
nesses versos. Não me parece que ele esteja simplesmente construindo a
personagem convencional do “poeta maldito”. Há, antes, uma espécie de
reconhecimento: o poeta sabe que sua condenação está ligada àquilo que
constitui sua própria força.
Talvez seja essa a verdadeira maldição de quem escreve: não
conseguir expulsar os fantasmas que o habitam porque são justamente eles que,
transformados em palavra, podem sobreviver ao próprio poeta.
É nesse ponto que o poema deixa de ser apenas autorretrato e
se torna poética. A dor, a solidão, a errância e o tumulto da imaginação
encontram na linguagem uma forma de permanência.
E é talvez aí que eu encontre o Elmar que conheço: o homem
inquieto que não se satisfaz com a superfície, o escritor que transforma a
inquietação em matéria verbal e o poeta que, mesmo quando fala de sua própria
maldição, continua exercendo aquilo que essa mesma maldição lhe impõe.
Prometeu permanece acorrentado. As aves continuam retornando.
O vulcão não se extingue.
E o poeta, fiel ao seu destino, continua escrevendo.
(*) Frederico A. Rebelo Torres, poeta, escritor, Brasil.
domingo, 27 de setembro de 2026
VENTO NA ALMA E NOS CABELOS
| Imagem elaborada pela IA Copilot |
VENTO NA ALMA E NOS CABELOS
Elmar Carvalho
De Parnaíba jamais esquecerei
o vento dedilhando a harpa eólia
da palma dos coqueiros
e uma música divina destilando.
Jamais esquecerei a ventagonia fiando
e desfiando os novelos de meus cabelos
encrespados em espumas e salsugens
e arrastando minha alma
– veleiro de aventureiros e
corsários
bandoleiros e libertários
–
pelo largo mar onde
onda após onda
o sonho vai quebrar.
Pba. 29.07.89
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
DES. JOSÉ LUÍS – UMA JUSTA LOUVAÇÃO
| Imagem recriada pela IA Copilot |
DES. JOSÉ LUÍS – UMA JUSTA
LOUVAÇÃO
Elmar Carvalho
Nesta sexta-feira, fui ao
cemitério da Ressurreição, em virtude do sepultamento do desembargador José
Luís Martins de Carvalho, que havia falecido por volta das quatro horas da
tarde do dia anterior. Tive a oportunidade de conhecê-lo em 1997, em cujo mês
de dezembro, dia 19, ingressei na magistratura, tomando posse perante ele, em
seu gabinete de presidente do Tribunal de Justiça do Piauí. Fiz um breve discurso de saudação e de regozijo, em meu nome e no nome de mais doze colegas,
que tomaram posse juntamente comigo.
Sabia de suas virtudes de homem
de bem e de magistrado íntegro, honrado, imparcial, contra o qual nunca se
ouvia o mais leve murmúrio, por mais leve e por mais murmúrio que fosse. Não
quero neste texto arrolar atos e fatos de sua vida pública, nem inventariar
datas e dados de seu curriculum vitae, pois a sua mais refulgente biografia é o
seu caráter e as suas ações, revestidas sempre de honradez e probidade.
De muitos falsos grandes homens,
se diz que a estátua é maior que o modelo. De muitos falsos Catões, se nota
logo que a capa dourada de verniz é muito frágil, muito tênue, muito precária,
e que basta um leve passar de unha para que a pátina e a ferrugem apareçam,
para mostrar a nua e feia realidade. Mas o desembargador José Luís, não; ele,
em sua humildade altiva, era maior que a estátua, até porque não a tinha e nem
precisava dessas fátuas ostentações. Também não tinha o áureo verniz da
hipocrisia, pois era verdadeiro em suas posturas de homem e de magistrado digno
e correto, conquanto devesse ter os seus defeitos, inerentes à condição humana,
como todos nós.
Devia-lhe um favor pessoal. Favor
republicano, legítimo, legal, que mais o engrandeceria se eu o revelasse, mas
prefiro guardá-lo no recôndito de meu coração. Quando o saudoso magistrado foi
inaugurar a reforma do fórum de Oeiras, terra a que sou ligado por laços
afetivos, sentimentais e de amizades, eu ainda estava no início de minha
carreira, como juiz substituto.
Ao visitá-lo em seu gabinete,
disse-lhe que havia escrito, tempos atrás, o poema Noturno de Oeiras, que caíra
no agrado dos oeirenses, e que esse texto se prestaria a uma encenação por
parte de um ator que o interpretasse, dando-lhe alma e emoção. Conversei com os
seus assessores, e o certo é que o poema foi interpretado pelo ator Bonifácio,
na solenidade de inauguração da reforma do fórum Des. Cândido Martins, ocorrida
no Cine-Teatro Oeiras. A encenação foi calorosamente aplaudida por todos os
meus colegas e por todos os presentes, em momento para mim inesquecível.
Amigo de vários parentes seus,
filhos do des. Antônio Santana Ferreira de Carvalho, de antigas estirpes
oeirenses, tive o ensejo de degustar três cálices de vinho tinto, em sua
companhia e na do historiador e cronista Antônio Reinaldo Soares Filho, casado
com sua prima Maria Eulália. Pude, então, mais uma vez, apreciar a sua conversa
agradável, inteligente, em que ele desfiava episódios interessantes, pitorescos
ou mesmos jocosos, de que fora observador privilegiado e arguto. Às vezes, em
meio aos casos engraçados que contava, emitia sua gargalhada, de timbre e
modulação bem característicos, que realmente lhe denotavam uma alegria sincera.
Um ou dois meses antes de seu
falecimento, conquanto já o soubesse doente, fui entregar o meu livro Noturno
de Oeiras e Outras Evocações, lançado recentemente na velha capital, com o
apoio do Instituto Barros de Ensino, com desvanecedora apresentação do advogado
e escritor Moisés Reis, em magnífica noite literomusical, ao seu filho
Godofredo, para que este lhe fizesse chegar às mãos. A obra contém meus
principais textos velhacapianos, em verso e em prosa, entre os quais dois
poemas, crônicas, ensaios e discursos. Não sei se o des. José Luís ainda o
conseguiu ler, se ainda susteve o meu livro em suas mãos. Nunca perguntarei
sobre isso. Prefiro imaginar, que ele lhe repassou as folhas, lhe fitou as
gravuras, lhe leu um ou outro verso, e tenha se comovido com uma ou duas frases
mais felizes...
No cemitério, conversei
brevemente com sua filha Madalena. Ouvi-a contar ao des. José James e sua esposa que seu pai a
consolou sobre sua morte, pedindo-lhe que aceitasse essa provação, que se
resignasse com o término de seus dias. Ante esse depoimento filial, me é lícito
imaginar que ele, não obstante os sofrimentos por que passou em sua doença,
morreu em paz, sem medo, sem terrores diante do inelutável, graças a sua
consciência tranquila de homem bom, honrado e digno. E sei que ele subiu a
outros páramos, onde a Justiça brilha com mais intensidade.
19 de abril de 2011
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
RIO INFINITO
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
MANHÃ CHUVOSA
MANHÃ CHUVOSA
Elmar Carvalho
Como disse Fernando Pessoa, em
versos, hoje o dia deu em chuvoso, ao menos no início desta manhã um tanto
friorenta. Do alpendre, eu via a chuva cair sobre as grandes árvores do quintal
vizinho. Fiquei a imaginar uma chuva torrencial, batida por forte ventania,
numa grande floresta, e sobre como seria a reação dos animais. Qual a sensação
das aves pousadas nos galhos? Frio, medo, arrepio, calafrio, desconforto,
alegria, ou um misto de tudo isso?
E como reagiriam os outros
animais, em seus buracos na terra ou nos troncos das árvores, nas tocas, nas
locas, nas furnas, nos socavões das serras e nas cavernas? Teriam medo, quando
do ribombar dos fortes trovões? Teriam pavor da luz ofuscante dos relâmpagos, a
ferir a densa treva das florestas fechadas? Ou simplesmente enfrentariam, com a
maior naturalidade, esses fenômenos e circunstâncias, já que acostumados com
eles desde o nascimento, sem o uso de agasalhos e sem telhados?
Já cantei a chuva num longo
poema. E tomei banho de chuva na minha infância, mas não tantas vezes como acho
que deveria. Alguns anos atrás, já adulto, quando eu estava num dos cimos da
Serra Azul, caiu uma forte chuva, inesperadamente. Logo se formou um córrego,
que se precipitava pela encosta abrupta. Numa depressão que havia, formou-se
uma espécie de piscina, que nos proporcionou um banho inigualável. Antes,
quando havia um sol forte, nos abrigamos numa pequena choça de caçador; ela que
nos deu sombra, jamais conseguiria nos proteger da chuva, com seu teto
esburacado. Mas essa proteção era tudo que não queríamos. O que desejávamos
mesmo era o afago da chuva, enquanto nos deliciávamos na piscina a que me
referi.
Estávamos no cume do monte o
Hulk, que não era verde como o incrível personagem de que lhe adveio a alcunha,
o Zé Francisco Marques, o Ximenes, que foi nosso guia e era caçador em suas
folgas de servidor público, meu irmão Antônio José e eu. Faltava na composição
desse grupo de intrépidos aventureiros o meu cunhado Zé Henrique, por motivo
que já não recordo. Já lá se vão mais de dez anos em que fomos abençoados e
benzidos por essa chuva que nos surpreendeu no alto de um dos morros azuis de
Santo Antônio do Surubim.
Mas hoje foi muito diferente. A
chuva era mansa e eu estava abrigado. Primeiro, no aconchego do apartamento, depois, pelo
guarda-chuva, negro como manda a praxe mais tradicionalista. Ao seguir pelo
largo corredor do Pingo d' Água, ouvia o som dos pingos da chuva a tamborilar
na seda distendida pela armação metálica. O ramo de uma trepadeira, que descia
de uma enorme mangueira, com seus brotos espiralados como delicado pingente de
minuciosa ourivesaria, com seus caprichosos volteios e arremates, com suas
folhas recortadas em arabescado desenho, enfeitava esta manhã chuvosa.
Continuei meu percurso até a repartição a ouvir a percussão dos pingos sobre o
tecido sonoro do guarda-chuva.
Conforme o ponto onde as gotas
caíam, o som podia ser mais suave ou mais seco, mais grave ou mais agudo, cada
qual com a sua própria peculiaridade. Esses sons respingados me fizeram lembrar
as páginas iniciais e antológicas de Confesso que vivi, de Pablo Neruda, quando
o mestre, ao discorrer sobre sua infância, recordava que sua mãe, durante as
grandes chuvas andinas, em que as goteiras rebentavam na casa, colocava
diferentes vasilhas para recolher a água que escorria dos furos do teto.
De acordo com a intensidade do
gotejamento e do tipo de recipiente, os sons variavam, tanto em volume como em
timbre, indo da surdina aos mais altissonantes e dos mais argentinos aos mais
graves e profundos. Talvez tenha sido essa melodia pluvial, a lhe embalar os
sonhos juvenis, que o tenha despertado para a música encantada e silenciosa da
poesia.
13 de abril de 2011
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
O DESTINO DE UM LIVRO
| Professor Reginaldo Soares |
![]() |
| Capa da autoria de Gervásio Castro |
O DESTINO DE UM LIVRO
Elmar Carvalho
Na sexta-feira passada, dia 11/09/2026, recebi, por WhatsApp,
um vídeo do meu amigo Reginaldo Soares, no qual dizia haver “salvo” da
reciclagem dois livros de minha autoria, ambos de poemas: Rosa dos Ventos
Gerais (1ª edição, 1995) e PoeMitos da Parnaíba.
Eles estavam no meio de um enorme volume de material
impresso, cuja quase totalidade seria picotada e transformada em matéria-prima
para a fabricação de papel.
Seria uma destinação menos ruim do que pura e simplesmente
serem queimados ou jogados em um monturo ou lixão. Lembro que, durante a Santa
Inquisição, muitos livros foram queimados em praça pública, quando não os seus
próprios autores. Não nos esqueçamos de que, não faz muito tempo, ainda havia
censura no Brasil.
Com o avanço tecnológico, temos uma imensa proliferação de
livros e autores, de forma que a literatura, que já teve certo prestígio e
charme, vem perdendo o glamour, uma vez que hoje — quase diria — temos mais
escritores que leitores.
Conhecido escritor, acho que Eduardo Galeano, disse, muitos
anos atrás, que a possibilidade de um livro alcançar determinado leitor seria a
mesma que a de uma garrafa lançada ao mar, com uma mensagem, chegar ao seu
destinatário. Nesse particular, tive algumas poucas, porém agradáveis,
surpresas, quando alguns de meus livros alcançaram as mãos de improváveis
leitores.
Reginaldo Soares, no caso narrado acima, foi um deles. Apesar
de deficiente visual em grau elevado, é leitor voraz. Foi professor e presta
serviço voluntário, em São Miguel do Tapuio, a uma associação para deficientes
visuais, da qual foi um dos fundadores e é um dos líderes mais destacados. Meus
livros não poderiam ter alcançado melhor leitor e destinatário, ainda mais
porque ele é compositor e radialista, e bem pode divulgar o conteúdo deles.
Esse episódio me fez lembrar um caso relatado pelo meu amigo
e confrade Homero Castelo Branco, acontecido há várias décadas.
O meu homérico amigo foi a um sebo que havia na Avenida
Antonino Freire, a menor avenida do mundo, perto do prédio dos Correios e
Telégrafos. Lá, para sua perplexidade e tristeza, encontrou alguns volumes que
ele havia autografado, em amável dedicatória, a pessoas de sua amizade. Como eu
soltasse vibrante gargalhada, o bom Homero sorriu e disse:
— Não ria, não. Lá também havia obras suas...
Ri mais ainda. Com o desprestígio da literatura, com os
apartamentos cada vez menores, além das traças e dos cupins, os viúvos e
herdeiros se tornaram os maiores inimigos de bibliotecas, que se tornaram um
verdadeiro estorvo para essas pessoas, que logo tentam vender esses volumes
para algum sebo ou bibliófilo, ou os doam para alguma associação, que promove a
referida reciclagem.
As bibliotecas públicas, sob a alegativa de falta de espaço e
de que esses livros já estão desatualizados ou não têm valor artístico ou
literário, não os recebem.
Assim, ao contrário de um navio, esses livros jamais
encontrarão um bom porto, um porto seguro como destino, e serão queimados ou
destruídos em reciclagem. Dessa forma, pelo menos em parte, estes versos de
Castro Alves talvez já tenham perdido a validade:
“Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!”









