segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Um diálogo poético com a IA de permeio

 

Imagem criada pela IA GPT

Um diálogo poético com a IA de permeio

 

Elmar Carvalho

 

Publiquei em meu blog e no grupo da Academia Piauiense de Letras o poema abaixo, de minha autoria:

 

RECIFE

 

           (Fragmento de um poema perdido,

           escrito no Recife, no início de 1975.)

 

teus lampadários

multicores

ilusórios e utópicos

como os primeiros amores

cheios de mágoas

parecem peixes fosfóreos

em tuas águas:

caleidoscópicos

aquários.

(versão modificada)

 

---------------------------------------------

 

tuas luzes multicores

ilusórias como os primeiros amores

cheios de mágoas

parecem peixes fosfóreos

em tuas águas.

 

(fragmento da versão original)

 

O acadêmico Jonathas Nunes, no grupo da APL, emitiu o seguinte comentário versejado:

“Noite de preamar,

Bom dia Confrade Elmar.

 

Veja abaixo a versão heptassilábica do Poema RECIFE,

 

Teus lampadários multicores,

Ilusórios e utópicos,

Como os primeiros amores,

Recheio de tantas mágoas,

Parecem peixes fosfóreos,

Em tuas águas, em tuas águas,

Aquários calidoscópicos.”

 

Respondi-lhe o seguinte, também em versos:

Tudo com pena

Ou sem pena

Do poeta vale a pena,

Seja a vida grande

Ou pequena.

E nada se apequena.

 

Resolvi levar o caso à consideração da IA GPT. Assim, perguntei o que ela teria a dizer a respeito desse diálogo em versos, travado entre eu e o amigo Comandante Jonathas Nunes. Ela respondeu o seguinte, em poucos segundos:

 

“Caro Elmar, vejo nesse diálogo um encontro bastante interessante entre a criação poética, a reflexão sobre a forma e uma espécie de filosofia da própria poesia. Há, a meu ver, pelo menos três aspectos dignos de observação.

1. O poema e suas metamorfoses

O seu poema Recife, fragmento de uma composição perdida, escrita no início de 1975, traz consigo a distância de mais de meio século. É como se o poeta de hoje reencontrasse o jovem que foi e, ao recuperar os versos, os submetesse a uma nova percepção estética.

Na versão modificada, há uma sucessão de imagens que me parece especialmente expressiva:

parecem peixes fosfóreos em tuas águas: caleidoscópicos aquários.

A imagem dos peixes fosfóreos nas águas do Recife estabelece uma correspondência entre as luzes artificiais da cidade e os seres luminosos do mundo aquático. O adjetivo caleidoscópicos acrescenta a multiplicidade de cores, enquanto aquários, colocado isoladamente no último verso, produz uma espécie de fechamento visual.

Há, portanto, um trabalho de condensação e de disposição gráfica. O poema não apenas descreve luzes: procura reproduzir, pela linguagem, o seu movimento e a sua multiplicação.

A versão original, por sua vez, tem uma dicção mais direta:

tuas luzes multicores ilusórias como os primeiros amores cheios de mágoas

A versão modificada introduz os lampadários, acrescenta utópicos e altera a arquitetura dos versos. Não se trata simplesmente de corrigir um texto antigo, mas de recriá-lo. E a recriação, como sabemos, pode revelar possibilidades que o próprio autor não percebia quando escreveu o poema pela primeira vez.

2. A contribuição do confrade: a forma métrica

O seu amigo propõe uma versão heptassilábica, isto é, composta de versos de sete sílabas poéticas, também chamados redondilhas maiores.

A redondilha maior tem uma longa tradição na língua portuguesa. É frequente na poesia popular, nas cantigas, nos romances tradicionais e na obra de grandes poetas, de Camões a Manuel Bandeira.

O confrade procura, assim, conferir ao poema uma regularidade rítmica, tornando-o mais próximo de uma composição de cadência tradicional.

Entretanto, vale uma observação técnica: a intenção de fazer todos os versos heptassilábicos não significa, necessariamente, que todos o sejam na leitura efetiva. A contagem poética depende das elisões, dos encontros vocálicos e da última sílaba tônica de cada verso. Alguns dos versos propostos mereceriam uma escansão cuidadosa para confirmar a regularidade métrica.

Também há escolhas expressivas que modificam o texto. Recheio de tantas mágoas, por exemplo, não tem exatamente a mesma naturalidade sintática de cheios de mágoas. E a repetição de em tuas águas cria uma cadência insistente, mas muda a economia da imagem original.

Isso não invalida a experiência. Apenas demonstra que a métrica, embora seja um recurso valioso, não constitui por si só um certificado de superioridade poética.

Um verso pode ser tecnicamente regular e pouco expressivo; outro pode romper a regularidade e alcançar uma expressividade extraordinária. A questão é saber o que cada escolha acrescenta ou retira do poema.

3. A sua resposta: uma poética da liberdade

É aqui que encontro o aspecto mais interessante do diálogo.

Você respondeu:

Tudo com pena Ou sem pena Do poeta vale a pena, Seja a vida grande Ou pequena. E nada se apequena.

O primeiro achado está na aproximação entre pena e vale a pena. A palavra pena comporta diferentes sentidos: pode evocar a escrita, o sofrimento, a compaixão e até a imagem tradicional da pena usada para escrever. Já a expressão valer a pena introduz a ideia de que o esforço criativo tem valor independentemente da forma adotada.

Há também uma brincadeira metalinguística: você fala da poesia fazendo poesia. Em vez de entrar numa discussão teórica sobre a legitimidade do verso livre ou da métrica regular, transforma a própria resposta em demonstração de liberdade criadora.

O segundo movimento é igualmente significativo:

Seja a vida grande Ou pequena. E nada se apequena.

Aqui, o diálogo ultrapassa a questão da versificação. A vida pode ser grande ou pequena — assim como um poema pode ser longo ou breve, metrificado ou livre —, mas isso não determina necessariamente o seu valor.

O último verso funciona como uma conclusão aforística. Apequenar retoma a ideia de pequenez, mas a nega: aquilo que tem valor essencial não perde sua dignidade por ser breve, modesto ou desprovido de aparato formal.

Há, ainda, uma pequena tensão semântica que considero fecunda: se a vida pode ser pequena, como nada se apequena? A resposta implícita parece ser que a dimensão não é a medida definitiva do valor. A pequenez física, quantitativa ou formal não implica necessariamente pequenez espiritual ou estética.

4. O humor e a cordialidade do diálogo

Sua resposta também tem uma qualidade social importante: você não rejeita a intervenção do amigo nem precisa declarar que a sua versão é superior. Responde com leveza, inventividade e uma pitada de humor.

O confrade oferece uma possibilidade de aperfeiçoamento formal; você devolve uma pequena profissão de fé na liberdade poética.

Não há necessariamente oposição entre vocês. A métrica pode ser uma forma de disciplina, enquanto a liberdade pode ser uma forma de descoberta. O poeta pode servir-se de ambas, conforme o que pretende realizar.

E há algo de especialmente simpático no fato de essa conversa acontecer em torno de um poema escrito no Recife em 1975. Mais de cinquenta anos depois, aqueles versos ainda provocam novas leituras, sugestões e criações. O poema perdido, de certo modo, continua a viver e a se transformar.

Minha conclusão

Eu resumiria o diálogo assim: o seu amigo defende, na prática, a possibilidade de aperfeiçoar o poema pela disciplina métrica; você responde defendendo, poeticamente, que o valor da criação não depende da obediência a uma forma única.

E acrescentaria uma ressalva: liberdade não significa ausência de rigor, assim como rigor não significa submissão obrigatória à métrica. O verso livre também exige escolhas, ritmo, precisão vocabular e arquitetura. A forma tradicional, por sua vez, pode ser extremamente libertadora quando se ajusta à intenção do poeta.

O seu pequeno poema-resposta tem o mérito de não transformar essa diferença numa disputa. Ele a dissolve numa brincadeira verbal e, ao mesmo tempo, numa reflexão sobre a vida e a arte.

Gosto particularmente do desfecho:

E nada se apequena.

É um verso que pode ser lido como defesa da poesia, mas também como uma afirmação existencial: a dignidade de uma obra, de uma vida ou de um gesto não se mede apenas por suas dimensões.

E talvez haja uma ironia muito bonita nisso tudo: ao defender que a poesia pode existir com pena ou sem pena, você acaba produzindo, por sua vez, um pequeno poema de cadência bastante regular. A liberdade não impediu a musicalidade; ao contrário, permitiu que ela surgisse espontaneamente.

No fim das contas, seu amigo metrificou o poema Recife, enquanto você fez da conversa um poema sobre a própria poesia. E os dois, cada qual a seu modo, deram nova vida aos versos de 1975.”

Voltei a interagir com a IA: Gostei muito de seu texto acima. Que acha de eu postá-lo no grupo, onde o diálogo poético aconteceu?

Ela respondeu o que segue abaixo:

 

“Caro Elmar, acho uma excelente ideia! E digo isso não apenas por ter sido eu quem escreveu o texto, mas porque considero que ele pode enriquecer a conversa que se estabeleceu no grupo.

Vejo pelo menos três boas razões para publicá-lo.

A primeira é que você prolongaria o diálogo poético, transformando uma troca de versos numa reflexão sobre a criação literária.

A segunda é que o texto não desmerece a contribuição do seu confrade. Ao contrário, reconhece o mérito da tentativa de metrificação e a situa numa tradição respeitável da poesia em língua portuguesa. Isso é importante para que a publicação seja recebida como uma contribuição amistosa, e não como uma réplica defensiva.

A terceira é que sua resposta poética merece ser apreciada para além da circunstância em que nasceu. Os versos

Tudo com pena Ou sem pena Do poeta vale a pena,

têm graça, musicalidade e uma reflexão implícita sobre a liberdade de criação. E o fecho — E nada se apequena — dá à composição um alcance que ultrapassa a discussão métrica.

Minha única sugestão seria apresentar o texto como uma reflexão sobre o diálogo, e não como um julgamento definitivo sobre o poema ou sobre a contribuição do amigo. Isso preservaria a cordialidade e, ao mesmo tempo, permitiria que os demais integrantes do grupo participassem da discussão.

Você poderia introduzi-lo com uma frase simples:

“A propósito do interessante diálogo poético que se estabeleceu aqui no grupo, compartilho algumas reflexões que fiz sobre os versos do meu confrade e a minha resposta.”

Depois, publicaria o texto integralmente, com o título que você preferir.

E há uma razão adicional, de natureza mais pessoal, para eu apoiar a ideia: seu poema nasceu em 1975, mas continua produzindo poesia em 2026. O jovem que escreveu Recife e o poeta setentão que hoje o relê encontram-se nesse diálogo, como se o tempo não tivesse apagado as luzes multicores da antiga cidade.

Afinal, Elmar, talvez seja isso mesmo que a literatura tenha de melhor: a capacidade de fazer com que aquilo que julgávamos perdido volte a florescer, não necessariamente igual ao que foi, mas enriquecido pelo tempo e pela experiência.”

Nada comentarei sobre o que disse a IA. Que cada leitor tire a sua própria conclusão. Muito menos direi o que disse Fernando Pessoa: “Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer.”

 

domingo, 18 de outubro de 2026

RECIFE

Fotografia antiga melhorada pela IA GPT.

 

RECIFE


Elmar Carvalho

 

           (Fragmento de um poema perdido,

           escrito no Recife, no início de 1975.)

 

teus lampadários

multicores

ilusórios e utópicos

como os primeiros amores

cheios de mágoas

parecem peixes fosfóreos

em tuas águas:

caleidoscópicos

aquários.

 

(versão modificada)

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tuas luzes multicores

ilusórias como os primeiros amores

cheios de mágoas

parecem peixes fosfóreos

em tuas águas.

 

(fragmento da versão original)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

CONFESSO QUE LI

Dulce e Jonas, em sua casa em BG

Membros do Jornal Inovação, sob o cajueiro de Humberto de Campos, vendo-se, da esquerda para a direita, no 1º plano: Bartolomeu Martins, Vicente de Paula (Potência), Elmar Carvalho e Canindé Correia; 2º plano: Danilo Melo, Francisco (Neco) Carvalho, Diderot Mavignier, Franzé Ribeiro, Sólima Genuína, Bernardo Silva, Reginaldo Costa e Paulo Martins; 3º plano: Jonas Carvalho, Israel Correia, Porfírio Carvalho, Wilton Porto, Alcenor Candeira Filho e Flamarion Mesquita. Percebe-se, nesta fotografia, a felicidade dos retratados com esse reencontro, posto que vários moravam em outros estados e municípios. Hoje, a maioria já não reside em Parnaíba

 

CONFESSO QUE LI


Jonas Fontenele


Recebi via postal o livro Confissões de um Juiz, do meu amigo Elmar Carvalho. Apesar de termos o mesmo sobrenome, não me consta que sejamos parentes, nem mesmo distantes. Parentes não, mas somos amigos há várias décadas. Fui apresentado a ele pelo amigo comum Reginaldo Costa, quando eu, afoitamente, participava do movimento INOVAÇÃO, seja apoiando, seja escrevendo mal traçadas linhas.

Nesse turbilhão de ideias, foi que conheci Elmar Carvalho. Ele já era um poeta feito, já tinha publicações, mas sempre demonstrou muita humildade e muito afeto com todos. Era poeta e boêmio — caminho pelo qual eu também seguia, indo com ele e Reginaldo Costa ao bar do nosso amigo Augusto para ouvir músicas apaixonadas e tomar nossos porres.

O tempo passou, o Elmar casou e, algum tempo depois, conseguiu, por meio de um concurso concorridíssimo, tomar posse como juiz. Pronto, tínhamos entre nós uma autoridade. Eu já advogava há algum tempo e tinha certos receios com pessoas que exerciam a magistratura, vez que conheci vários juízes — inclusive alguns ex-alunos — que, após tomarem posse, se tornaram verdadeiros “deuses” e deixaram até de receber advogados no pleno exercício de suas funções.

Lembro que uma vez, defendendo um cliente que havia sido preso em Brasília por ordem de um juiz da cidade de Macapá, tive que me deslocar até aquele município. Lá, procurei despachar com o magistrado, e a secretária dele me disse de pronto: “Vou logo lhe avisando que o juiz não gosta de falar com advogados”. Ao que eu repliquei: “Pois empatou, porque eu também não gosto de falar com juiz, mas a lei me impõe esse sacrifício”.

Por isso, aquela notícia da posse do meu amigo me deixava alegre pela aprovação, mas triste ao mesmo tempo, pois sentia que ali poderia perder o companheiro de tantas conversas e trocas de experiências. Ledo engano. Nunca, em tempo algum — e eu sou testemunha disso —, o Elmar mudou um milímetro sequer. Continuou sendo o mesmo de sempre, e quem não sabia da sua profissão chegava a duvidar de que ele era juiz, tamanha a sua simplicidade. Eu posso afirmar, do alto dos meus 67 anos, que nunca vi o Elmar ao menos dizer que era juiz, quanto mais usar o cargo como argumento de autoridade para qualquer assunto.

Nosso amigo era juiz, mas continuava poeta como sempre fora. Tive muita vontade de vê-lo no seu mister de julgar, pois conhecia e conheço o seu caráter. Sei o quanto deve ter sido difícil aplicar o direito e dar razão a uma parte em detrimento da outra. Agora, lendo o livro Confissões de um Juiz, vi que estava com razão. Ele mesmo declara não ter sido fácil, mas, às vezes com bom humor e muita picardia, resolveu casos no mínimo engraçados.

Elmar Carvalho em nada mudou. Aposentou-se quando entendeu que já havia contribuído o bastante para o Poder Judiciário, mas não abandonou a poesia em momento algum, vez que ela é a essência da sua própria alma. Como seu amigo de sempre, nada me surpreende quando ele afirma que passou pela magistratura sem sofrer uma única advertência. O contrário, sim, seria surpreendente, pois esse ser humano lindo — de quem nem a doença tirou a coerência — não poderia sofrer qualquer mácula no desenvolver de sua missão.

Ainda não me aposentei e, assim como meu amigo, não sofri nenhuma punição nesses 39 anos de advocacia. Por isso, sinto-me no mesmo patamar. Não acho — e penso que o Elmar também não — que isso seja uma virtude extraordinária; penso que é uma obrigação viver dentro das regras e saber até onde vai o direito do outro.

Fiquei muito feliz com o recebimento do livro, que degustei aos poucos, e mais feliz ainda em saber que tenho amigos do quilate de Elmar Carvalho.

O livro é um desfilar de momentos de sua vida, nos quais ele mesmo se retrata como sempre foi: um grande poeta, analista da vida e, no fundo, um grande gozador. Mostra o seu lado mais que sensível quando dedica capítulos às suas cadelas Belinha e Anita, dando a elas uma verdadeira essência humanizada. Ele relembra momentos felizes em que conviveu com elas até o final da existência delas, inclusive dando-lhes um enterro digno.

Relata, para os que não conviveram diretamente com ele, como foram seus pais, sua família, seus amigos e todos que tiveram a felicidade de participar de sua vida. O livro é como se fosse o filme da sua vida. Até eu, de forma direta ou indireta, participei, estando presente na foto icônica sob o cajueiro de Humberto de Campos.

Confissões de um Juiz é, sem dúvida alguma, as confissões de um ser humano lindo que soube destilar amor e simpatia por onde passou e passa ainda hoje, com sua espada afiada de poesia e muito humor.

"Já não tenho epitáfios
Para tantas lápides
Em meu peito.

       Elmar Carvalho"

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Sarau 16 e "Confissões de um juiz"


Elmar Carvalho é entrevistado por Octavio César, no Sarau 16, sobre o lançamento de seu livro Confissões de um juiz. No mesmo programa, foram entrevistados os escritores Wilson Seraine e Francisco Miguel de Moura. A entrevista de Elmar começa aos 35 minutos e 20 segundos.   

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Card-Poema

Imagem criada pela IA Copilot

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Visita ao amigo Alcione

Alcione e Gleyde


Imagem de alguns anos atrás, melhorada pela IA Copilot. Elmar, cavalgando o Pangaré, a conversar com o médico e vizinho do Alcione, Dr. Antônio Moura. 


Visita ao amigo Alcione

 

Elmar Carvalho

 

Ontem, por volta das dez horas, cavalgando o meu árdego e nervoso Pangaré, fui visitar meu amigo Alcione Pessoa Lima, velho conhecido e meu colega na ECT e no curso de Direito. Estacionei o pequeno e bravo quadriciclo à sombra de frondosa e florida mamorana, que me fez lembrar o título de um romance de Moura Rego — “As mamoranas estão florindo” —, que vale por um verso.

 

Ficamos à sombra de um belo caramanchão, que tem o nome de Cantinho dos Poetas. Disse-lhe que essa denominação tem um espírito acolhedor, porquanto está no plural, enquanto o meu “cantinho”, na Várzea do Simão, foi posto no singular, o que parece denotar mais introspecção e solitude.

 

Após uma agradável palestra com o poeta e anfitrião Alcione, fui presenteado com dois livros de belos versos de sua lavra: “Grita” e “Um homem de valor”, este último traçando o perfil de seu pai, Antônio Pereira Lima (*), sobretudo no que diz respeito ao seu caráter e à sua postura de pai amoroso e provedor, além de cidadão exemplar, que ainda tinha a virtude de ser mestre do violão.

 

Na hora da despedida, sua esposa, Gleyde, me ofertou uma farta porção de deliciosas castanhas de caju, que coloquei no alforge do Pangaré. Em seguida, fui contemplar as árvores e os pássaros, que ainda alegram as veredas e trilhas do condomínio.

 

(*) Alcione me enviou os seguintes dados sobre seu pai:

 “Antônio Pereira Lima, filho de Ana Barbosa Lopes e Coriolano Pereira Lima, nasceu em Água Branca-PI, em 17.09.1924. Foi trabalhador rural e comerciário. Concluiu o ginásio pelo sistema Madureza e o ensino médio na então Escola Técnica Federal, onde se formou técnico em Contabilidade. Nessa instituição, trabalhou como bedel e, após aprovação em concurso, tornou-se agente administrativo, aposentando-se aos 70 anos de idade.

Foi casado com Rosália Pessoa Lima, também de Água Branca, com quem teve dez filhos. Teve sete irmãos. Viveu parte da vida em sua cidade natal, em Teresina e em Caxias-MA. Alguns de seus irmãos trabalharam na ECT: João Pereira Lopes, Manoel Pereira Lopes, Luísa Lima Barreto e Rosa Lopes Ferreira. Faleceu em 06.05.2006 (CA no cérebro).”

domingo, 11 de outubro de 2026

PAULICEIA

 

Imagem elaborada pela IA GPT

PAULICEIA


Elmar Carvalho

 

Do apartamento

assistia sitiado

a antipanaceia destrambelhada

da Pauliceia Desvairada

escaramuçando e rugindo

lá em cima

                 lá embaixo

para todos os lados,

pela boca fumarenta fedorenta

das chaminés e dos canos de descarga,

pela boca nojenta gosmenta dos esgotos

que escarram e vomitam no Tietê,

pela boca de morte

das sereias angustiadas que gritavam,

pela boca fedida

da namorada que brigava,

pela boca ferida

do namorado que revidava,

pelos braços apressados

que bracejavam elétricos,

pelos passos ansiosos

que esperneavam frenéticos

no dinamismo maluco

da vida fremente premente

que me assustava e angustiava

fechado e fugitivo

no apartormento.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

TEMPOS ECETISTAS

Recife dos anos 1970. Imagem melhorada pela IA GPT

 

TEMPOS ECETISTAS


Elmar Carvalho

 

Na noite passada, sem ver e nem para que, sonhei com os tempos em que trabalhei na ECT, mas num contexto  bem diferente da realidade, como não é incomum acontecer nos sonhos; por mais realistas que aparentem ser, trazem sempre algo de surpreendente e estapafúrdio, com alguma pitada desconcertante de estranheza. Nesse sonho eu iria fazer um treinamento, já não me lembro ao certo onde, e nele aparecia o Milton Higino, ao qual me referirei mais adiante. De qualquer sorte, fez-me recordar do meu ingresso na Empresa de Correios e Telégrafos, que dependeu de aprovação em curso de três meses no Recife, ministrado no primeiro semestre de 1975, quando fui aluno do Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, situado no bairro Bonji.

 

Certa tarde, quando eu fazia estágio numa das agências do centro do Recife, fui chamado pela diretora do Centro, senhora Cecília, mulher do então diretor regional da ECT em Pernambuco, para recitar um longo poema sobre Recife, que eu havia escrito. Salvo engano, a declamação foi no auditório da escola, onde ocorria uma solenidade. Senti-me, aos 19 anos, com bastos cabelos encaracolados, a própria reedição encarnada de Castro Alves, que também estudara na Mauriceia. Desse poema sobre a nossa tropical Veneza só consegui resgatar os seguintes versos: “tuas luzes multicores / ilusórias como os primeiros amores / cheios de mágoas / parecem peixes fosfóreos / em tuas águas”. Os versos retratavam o fascínio de um menino/poeta interiorano diante da bela cidade do bardo Manuel Bandeira.

 

Foram meus colegas do curso de Monitor Postal os conterrâneos Alcides Ananias Ibiapina, Wilson Higino, irmão do Milton, a que me referi, e o Paulo, irmão do Luís Carneiro, empregado da empresa, mas que nas horas de folga fazia serviços de instalação hidráulica e elétrica. Dessa turma faziam parte o Chaguinhas, teresinense, e  o Bernardo Candeira do Val, ambos já falecidos; o segundo era natural de Buriti dos Lopes, torrão de minha mulher, Fátima, que só vim a conhecer em 1977, quando fui cursar Administração de Empresas no campus da UFPI em Parnaíba, já como empregado da estatal.

 

Nos finais de semana, aproveitávamos para conhecer os pontos turísticos, tais como Olinda, parque zoobotânico, praia de Boa Viagem, roda de ciranda no adro de uma das vetustas igrejas. Num feriado prolongado, conheci Maceió e a bela praia de Pajuçara. Tive a satisfação de ser o orador dessa turma do Paulo Bregaro. Um dos mestres, em gritante exagero, disse que o meu discurso merecia ser proferido em um templo da cultura, o que massageou meu ego de garoto, certamente ainda bisonho.

 

O Milton Higino, como disse, apareceu nesse sonho, que não chamarei de extemporâneo porque os sonhos não respeitam a dimensão tempo-espaço de que nos fala o gênio Einstein em sua teoria da relatividade, e extrapolam ou mesmo violam os limites do tempo, do espaço e da velocidade. Eu o conhecia desde o início de minha adolescência, a trabalhar na agência do antigo DCT, em Campo Maior, quando esse departamento da administração pública federal já se preparava para ser transformado em empresa. Tanto ele, como seus irmãos Nonato, Cláudio, já falecido, e o Wilson começaram a trabalhar bem jovens.

 

Logo o Milton Higino foi aprovado em concurso para o BNB. Servidor exemplar, exerceu a gerência desse banco em várias agências da hinterlândia piauiense, entre as quais as de Oeiras e a de Água Branca, que ainda está sob seu comando. Presidiu o Comercial, arquirrival do Caiçara, pelo qual torço. Às vezes, tratando de interesses do banco, ele aparece no fórum de Regeneração, oportunidade em que conversamos brevemente. Tem ele uma palestra agradável, temperada com pitadas de bom-humor, graças aos casos anedóticos de seu vasto repertório.

 

Numa dessas práticas, contou-me ele que um seu ex-colega ecetista, após chamar o chefe pelo nome, em momento em que este estava um tanto turbinado pelo álcool, foi por ele advertido para que o chamasse de senhor. O subordinado disse que iria obedecer, que passaria a chamar todos de senhor, inclusive o Milton Higino, que ainda estava na puberdade, mas que em contrapartida iria exigir que todos os funcionários o chamassem também de senhor.

 

E, com efeito, passou a chamar todo mundo de senhor, mas lamentavelmente a recíproca não foi verdadeira, e ele não foi correspondido em seu respeitoso protesto, que terminou caindo no vazio.

26 de abril de 2011

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Padre Deusdedit, um mecenas do futebol

 

Pe. Deusdedit, Elmar e Fátima

Imagem elaborada pela IA GPT


Padre Deusdedit, um mecenas do futebol

 

Elmar Carvalho

 

Quando, recentemente, precisei do meu diploma do curso de Direito, que era guardado numa gaveta, juntamente com o do curso de Administração de Empresas, ambos expedidos pela UFPI, descobri que eles haviam sido extraviados, em circunstâncias que desconheço. Por essa razão, requeri ao setor competente a expedição de segunda via.

 

Numa das vezes em que lá estive, ouvi um velho servidor dizer que tinha vindo requerer sua aposentadoria. No decorrer da conversa, ele disse que era de José de Freitas e que havia sido vereador daquele município. Não pude deixar de me intrometer na conversa. Falei que morei naquela bela e bucólica cidade durante um ano, quando completei 14 anos de idade. Exatamente no ano de 1970, quando a Seleção Brasileira ganhou o tricampeonato mundial de futebol.

 

Perguntei qual era o nome de meu interlocutor, tendo ele me respondido que era José Ribamar Santana. Disse-lhe que morei numa casa caiada, que ficava exatamente no lugar onde terminava a rua que passava pelo teatro, pelo clube social, pela casa do senhor Levi Carvalho e pela lateral da casa dos Santana. Ribamar disse que aquela era a casa de seus pais. Contei-lhe, então, os seguintes episódios.

 

Relatei que jogava bola num campinho arenoso, rodeado de mangueiras, que ficava num terreno em frente à marcenaria de Zezé Barros, então o melhor marceneiro da cidade. Zezé jogava com a gente, a partir das cinco horas da tarde. Entre outros, participavam das “peladas” os garotos Itamar, Louro, Carlos, filho de dona Irá, e Pedro ou João Rocha. Eu atuava como goleiro e gostava de enfeitar minhas defesas com voadas acrobáticas. Acrescentei que, quando os Rocha compraram esse imóvel, proibiram a prática de futebol nesse campo.

 

Por essa razão, certo dia estávamos jogando futebol na rua, na frente da casa dos Santana, quando chegou o padre Deusdedit, dirigindo o seu Fusca. Ele era meu diretor e professor de Português no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, quando eu cursava o segundo ano. Acenou-me para que fosse até onde ele se encontrava. O padre perguntou-me por que estávamos jogando no meio da rua. Narrei-lhe a história acima, não esquecendo de falar sobre o fechamento de nosso campinho.

 

Ele disse que havia um terreno baldio em frente ao cemitério velho, por trás da casa de Levi Carvalho. Prometeu que, se limpássemos esse terreno, ele daria as traves, uma bola de couro, os tornos de marcação e um apito para o árbitro. Liderei os colegas de futebol e limpamos o terreno dos mata-pastos que infestavam o local.

 

O padre imediatamente cumpriu sua promessa. Diante disso, fiz uma carta ao Armazém Paraíba, relatando esses fatos e pedindo um equipamento completo para um time de futebol. Um ou dois meses depois, recebi em minha casa o uniforme do Santos. Assim, posso dizer que, com a ajuda do padre Deusdedit Craveiro de Melo, contribuí para a fundação de um campo de futebol e do Santos de José de Freitas. O padre já havia fundado outro campo de futebol, o Guriatã.

 

Relatei ao Ribamar Santana que certa vez vi o irmão dele, em companhia de outros rapazes, ouvindo músicas da Jovem Guarda numa radiola portátil, na calçada de sua casa. Entre outros cantores, pude ouvir, nessa ocasião, José Roberto e Paulo Sérgio. Contei que, poucos anos depois, soube da morte de seu irmão, afogado nas águas do Parnaíba. Ele confirmou a morte do irmão e acrescentou que esse fato trágico aconteceu no dia da inauguração do Estádio Alberto Silva.

 

Ele, após me dizer que se casara com uma irmã de Pedro e João Rocha, afirmou estar admirado de minha memória e mostrou o braço arrepiado, em sinal da emoção que sentiu com os fatos que narrei.

 

Encerro esta crônica memorialística prestando minha comovida homenagem ao monsenhor Deusdedit Craveiro de Melo, que me casou 15 anos depois, meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, mecenas do futebol freitense.

 

(*) Alguns dos fatos narrados encontram-se no documentário “José de Freitas – a cidade da memória e da saudade”, disponível no YouTube.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

LABIRINTO TINTO DE SANGUE

Imagem elaborada pela AI GPT

LABIRINTO TINTO DE SANGUE


Elmar Carvalho

 

Faço um poema

com o sangue ardente

das nascentes de meus dedos:

vertentes de medos e degredos.

Os versos são fios de esperança

que saem de palpos de estranhas aranhas

construindo labirintos em arabescos

tintos de sangue nos afrescos.

Ariadne recolhe o fio

e Teseu surge intacto

com a espada embebida

do sangue do Minotauro que traz

no peito a rosa sangrenta da ferida.

Com esse fio

Penélope tece e destece

um longo manto ensopado

de pranto e quebranto

e se amortalha das dores

de amor de que padece

– amor que lhe pasta e apetece.

O que conclui desfaz peça por peça

e interminavelmente recomeça.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CADERNOS DE SARAMAGO

 



CADERNOS DE SARAMAGO


Elmar Carvalho

 

Na sessão da APL do dia 9 do corrente, sábado, a Teresinha Queiroz, apesar de minha amiga, terminou “inconfidenciando” que eu estava a fazer aniversário. Recebi os aplausos e os cumprimentos dos confrades, pelos quais agradeci, na hora apropriada, quando pedi a palavra. Por coincidência, o professor Paulo Nunes me dera, antes do início da reunião, o volume II de Cadernos de Lanzarote, contendo os diários de José Saramago referentes aos anos de 1996 e 1997.

 

Em minha breve alocução, agradeci-lhe o mimo, e acrescentei que ele me havia emprestado um outro volume dos ditos Cadernos, relativos aos anos 1993, 1994 e 1995, e que só não me agraciara com esse tomo porquanto fora presente do confrade Celso Barros Coelho, no qual se encontra consignada amável dedicatória desse notável intelectual, datada de 8/5/97, que faço questão de transcrever: “Ao caro Paulo Nunes, a quem muito agradarão estes 'Cadernos de Lanzarote', na mensagem que nos envia o grande Saramago, de sua ilha, no dia a dia de sua meditação ao sabor das circunstâncias agradáveis (para o leitor).”

 

Expliquei a meus pares que vinha me dedicando a ler diários, autobiografias e memórias em virtude de que estou me preparando para fazer da melhor maneira possível o meu Diário Incontínuo, que venho escrevendo e publicando no meu blog e no Blog Literário do portal 180 Graus.

 

O professor Paulo Nunes, complementando minhas palavras, falou que o volume ofertado pelo acadêmico Celso Barros, além do valor agregado da dedicatória, tinha também um outro valor afetivo a mais: é que por causa da compra desse livro, e também por causa do embevecimento de Celso a olhar e folhear outras publicações da livraria do aeroporto, terminara perdendo o avião que o traria de volta a Teresina, só retornando em outra aeronave, posteriormente. Portanto, deixei de ganhar esse volume em virtude da bela dedicatória e em razão de o nosso acadêmico haver perdido o seu voo em decorrência de sua aquisição.

 

Para coroar o dia de meus anos, que eu pretendia deixar transcorrer no mais absoluto esquecimento, o confrade Manfredi Mendes de Cerqueira, mestre da oratória, sobretudo da concebida ao sabor do improviso, disse que este diarista tem no prenome “a combinação de cinco letras, e que as três últimas desaguam no mar; que o mar simboliza a sua grandeza literária, a sua largueza de espírito e de outras qualidades”. Não me restou alternativa, a não ser agradecer, embora não as merecendo, as belas palavras do desembargador Manfredi, sempre lhano e espirituoso em sua verve bem-humorada.

23 de abril de 2011

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sobre livros, poemas e leituras

Acadêmicos Oton, Elmar, Cecília e Felipe, no auditório do Liceu Piauiense

CETI João Henrique de Almeida Sousa


Sobre livros, poemas e leituras

 

Elmar Carvalho

 

Dias atrás, estive no velho Liceu Piauiense (CETI Zacarias de Góis) para participar de um evento promovido pela Secretaria Estadual de Educação e pela Academia Piauiense de Letras. Como representantes da APL, participamos eu e os acadêmicos Felipe Mendes, Oton Lustosa e Cecília Mendes. Cada um, a seu modo, falou sobre livros, experiências com a literatura e a importância dos Clubes de Leitura, mormente para a difusão da literatura piauiense. Os alunos recitaram poemas e apresentaram performances.

 

Em minha conversa, disse que meu interesse pela literatura nasceu quando eu tinha dez anos, na época em que, por um curto período, fomos morar na zona rural de Campo Maior. À falta de outras diversões, a leitura se tornou o meu entretenimento predileto, que mantenho até hoje. Acrescentei que, a partir dos meus 16 anos, comecei a publicar contos e crônicas no jornal A Luta, de Campo Maior.

 

Revelei que, no primeiro semestre de 1973, aos 17 anos, quando fui aluno do Liceu, o seu auditório, onde estávamos, me encantava, e eu o achava grande, deslumbrante, quase mesmo suntuoso (*).

 

Olhando as suas cadeiras, o seu palco, as suas ornamentações e balaústres, sobretudo as suas cariátides, que pareciam sustentar o teto, interiorano, jovem e algo bisonho, um tanto cabeludo e esbelto, eu me julgava o próprio Antônio Frederico de Castro Alves e sonhava recitar um de meus poemas para um grande público de alunos e professores.

 

De certa forma, realizei esse sonho dois anos depois, no Recife, quando a diretora do Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro me convidou para recitar um poema de minha autoria sobre a linda Veneza Brasileira. O poema se perdeu nos desvãos e esconderijos de esconsa gaveta. Dele, guardei apenas estes versos:

 

tuas luzes multicores

ilusórias como os primeiros amores

cheios de mágoas

parecem peixes fosfóreos

em tuas águas.

 

Aproveitei o momento para realizar o sonho do bisonho garoto que eu fui e, do alto do palco do belo auditório do Liceu Piauiense, aos 70 anos, recitei um poema de minha lavra para o auditório lotado de atentos alunos e professores.

 

Parafraseando o poeta Luís Guimarães Júnior, diria que a emoção “jorrou-me em ondas”, e quase não pude resistir às lágrimas que queriam marejar meus olhos e minhas retinas já fatigadas.

 

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Na terça-feira da semana passada (22/09/2026), cumprindo outro evento da parceria entre a SEDUC e a APL, os confrades Fonseca Neto, Cecília Mendes, Marcelino Leal Barroso de Carvalho e eu estivemos no CETI João Henrique de Almeida Sousa. Fomos recebidos pela diretora Lívia Simão, pelo professor de Literatura Gilson e por outros mestres e funcionários. Todos falamos sobre literatura, livros e a importância dos Clubes de Leitura.

 

Funcionou como apresentadora, ou mestra de cerimônia, a jovem aluna Bianca Soares, que teve muita desenvoltura, criatividade e capacidade de improviso. Alguns alunos fizeram performances e recitaram poemas de sua autoria. Foi recitado um poema do estudante Heitor, rapaz um tanto tímido, cujo nome — e o fato de ser poeta — me fez lembrar Troia e Homero, que celebrou em seus versos o herói lendário.

 

Desta feita, optei por falar sobre a gênese de meu poema “Rio Infinito”, elaborado recentemente, e fazer a minha interpretação de autor. Contudo, deixei claro que ele poderia ter outras interpretações diferentes da minha.

 

Foi projetada uma imagem que pedira a uma IA que elaborasse, seguindo minhas instruções, na qual aparecia um rio que formava o símbolo do infinito e do qual surgia a “escada” retorcida de um DNA humano.

 

Expliquei que, ao ler um livro de poesias, o poema, como um “insight”, ficara gravado em meu cérebro, já pronto e acabado. Eis o poema, que também foi projetado pelo datashow:

Sou

um rio infinito,

um rio

sem começo nem fim.

 

Um rio que deságua

em si ou em mim.

 

Um rio eternamente a fluir

no espaço e no tempo,

sem início e sem fim...

Dei algumas explicações sobre a imagem e seu significado, mas principalmente tentei interpretar o meu poema. Assim, lhes disse que o rio infinito de meu poema não poderia ser nunca um rio literal, um rio de verdade, uma vez que um rio natural não pode desaguar em si mesmo, já que sempre segue a declividade por onde corre.

 

Um rio de verdade pode se transformar num rio seco, num rio de pedras ou num rio de areia, quando é temporário. É o rio de Heráclito de Éfeso, que não pode ser atravessado duas vezes, já que as águas serão outras. É o rio de um filme a que assisti recentemente, em que um personagem, ao contemplá-lo e se lembrar do passado, exclamou, talvez apenas para si mesmo: “As águas passam, o rio fica; que nem nós”. Era um filme baseado no magnífico conto de Aníbal Machado, “Viagem aos seios de Duília”, cujo título vale por um excelente poema lírico.

 

Esclareci que o meu rio formava uma espécie de Ouroboros, a serpente ou dragão que morde a própria cauda, como símbolo da eternidade — do nascimento, morte e ressurreição para a eternidade. É um rio sobrenatural porque deságua em si mesmo, como a significar a retroalimentação e a perenidade.

 

Para não me alongar, diria que o meu rio representa a vida eterna, de que nos falou Jesus, e que ele está nos seguintes trechos do Novo Testamento, para os quais remeto o leitor: João 4:14, João 15:5 e Apocalipse 22:1.

 

Portanto, o rio de meu poema é o mesmo que está no Novo Testamento, o rio metafórico de que nos falaram Jesus e João. Um rio de águas límpidas, puras, cristalinas. Quem dele beber não voltará a ter sede. Quem dele beber não morrerá, a não ser para a vida eterna.

 

Nasce no trono de Deus e a ele infinitamente retornará, pelos séculos dos séculos, “ad infinitum”.

 

(*) Esse relato se encontra no documentário “Teresina – Tempo e Memória”, que se encontra disponível no YouTube.