AS PERIPÉCIAS DA AUTORIDADE
Elmar Carvalho
No domingo, após o lançamento do
livro do Fonseca Neto sobre o padre Vicente de Paula, conversei com o médico
Humberto Guimarães. Além de psiquiatra respeitado, é um notável escritor e um
agradável contador de histórias, em suas conversas, sempre interessantes. Seu
livro Abyssus é uma obra de muito valor, em que ele coligiu pequenos ensaios de
natureza biográfica sobre notáveis figuras da cultura universal. São textos
densos, recheados de informações curiosas sobre essas personalidades, desfiadas
em agradável narrativa, que prendem a atenção do leitor. Esses ensaios lhe
revelam a admirável erudição, seu preparo intelectual, e sem dúvida seu enorme
trabalho de pesquisa, na busca de coletar essa vasta gama de conhecimento.
Contou-me ele que certa
autoridade dos cerrados piauienses tinha o hábito de dançar, para passar o
tempo e driblar o tédio de seu insulamento em longínquo rincão. Indo esse homem
a uma festa interiorana, tirou certa moça para dançar. Nesses tempos distantes,
as mulheres, ao menos as das plagas mais distantes, não tinham elástico em suas
calcinhas, que, comparadas às de hoje, seriam “calçonas”. Essas peças íntimas
tinham as peças traseiras e frontais ligadas por laços e/ou botões.
A nossa brava autoridade tinha
uma dança espalhafatosa, em que ele levantava muito um dos braços, fazendo
rápidos giros sobre o eixo do próprio corpo, além de se deslocar por todo o
salão em vertiginosa velocidade. Com tantos giros e rodopios, com tantas
marchas e contramarchas, com tantos requebros, saracoteados e quebra de asas,
além do apressado deslocamento, com passos longos e sacudidos, a sua parceira
terminou forçando o laço da calcinha, vindo esta a lhe cair pelas pernas.
A descida da veste íntima
funcionou como uma espécie de peia de prender animais, dificultando-lhe os
passos e fazendo-a despencar. No seu cinematográfico estabaque, terminou
arrastando a intrépida autoridade, que lhe caiu por cima, em pleno salão de
dança, o que deve ter sido motivo de risos e chacotas, pois a situação
inusitada deve ter sido realmente hilária.
Na localidade, havia uma jovem,
muito bela e muito pálida, o que me fez lembrar as monjas maceradas dos poetas
simbolistas. Na escola, na qual a autoridade exercia o magistério,
invariavelmente o mestre exaltava a beleza da moça, mas sempre ressaltando a
sua palidez, com certa ênfase e impertinência. Chegou ao ponto de lhe receitar
umas pílulas, então em voga. Pelo visto, o homem, além de pé de valsa e de
forró, professor e autoridade, era também uma espécie de facultativo, como se
dizia outrora.
Como a palidez da bela jovem
continuasse, o nosso herói, em virtude de ela morar em pequena casa, na
companhia de um irmão, comentou que ela provavelmente estava sendo “possuída”
pelo rapaz, e que sua cor pálida se devia a isso. Ora, naqueles idos, em que as
moças se mantinham virgens até o casamento, mormente nos insulados rincões da
hinterlândia piauiense, essa suspeita era uma ofensa de extrema gravidade,
ainda mais grave por causa do ingrediente da acusação de incesto.
A família da jovem ficou
“injuriada”, como se falava no local e na época, e prometeu dar cabo da
autoridade. Esta, que morava na dependência de um prédio público, um tanto
isolado à noite, ouviu barulhos
estranhos, certa madrugada, como se alguém estivesse tentando arrombar a porta.
Sem perda de um segundo, fugiu pelos fundos, e saltou o muro do edifício. Em
virtude de seu cargo, conseguiu adquirir um revólver na capital, já que se
disse ameaçado de morte. Retornando a sua jurisdição, notou certa feita um movimento
estranho, perto de um arbusto, ao atravessar a escura praça da cidade,
porquanto não havia luz elétrica e nem era noite de plenilúnio. A autoridade
não vacilou, e sem delongas atirou contra o vulto. E o viu cair imediatamente.
No dia seguinte, na praça central
da cidadezinha, foi encontrado morto um inocente e inofensivo jegue, que
costumava aparar os capins da pracinha, podendo ser considerado o seu vigia e
jardineiro. Se não fosse uma ofensa aos asnos, muitos poderiam perguntar sobre
quem era mais jumento, se o próprio, ou se a autoridade que o abateu.
23 de fevereiro de 2011
