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| Recife dos anos 1970. Imagem melhorada pela IA GPT |
TEMPOS ECETISTAS
Elmar Carvalho
Na noite passada, sem ver e nem
para que, sonhei com os tempos em que trabalhei na ECT, mas num contexto bem diferente da realidade, como não é
incomum acontecer nos sonhos; por mais realistas que aparentem ser, trazem
sempre algo de surpreendente e estapafúrdio, com alguma pitada desconcertante
de estranheza. Nesse sonho eu iria fazer um treinamento, já não me lembro ao
certo onde, e nele aparecia o Milton Higino, ao qual me referirei mais adiante.
De qualquer sorte, fez-me recordar do meu ingresso na Empresa de Correios e
Telégrafos, que dependeu de aprovação em curso de três meses no Recife,
ministrado no primeiro semestre de 1975, quando fui aluno do Centro de
Treinamento Correio Paulo Bregaro, situado no bairro Bonji.
Certa tarde, quando eu fazia
estágio numa das agências do centro do Recife, fui chamado pela diretora do
Centro, senhora Cecília, mulher do então diretor regional da ECT em Pernambuco,
para recitar um longo poema sobre Recife, que eu havia escrito. Salvo engano, a
declamação foi no auditório da escola, onde ocorria uma solenidade. Senti-me,
aos 19 anos, com bastos cabelos encaracolados, a própria reedição encarnada de
Castro Alves, que também estudara na Mauriceia. Desse poema sobre a nossa
tropical Veneza só consegui resgatar os seguintes versos: “tuas luzes
multicores / ilusórias como os primeiros amores / cheios de mágoas / parecem
peixes fosfóreos / em tuas águas”. Os versos retratavam o fascínio de um
menino/poeta interiorano diante da bela cidade do bardo Manuel Bandeira.
Foram meus colegas do curso de
Monitor Postal os conterrâneos Alcides Ananias Ibiapina, Wilson Higino, irmão
do Milton, a que me referi, e o Paulo, irmão do Luís Carneiro, empregado da
empresa, mas que nas horas de folga fazia serviços de instalação hidráulica e
elétrica. Dessa turma faziam parte o Chaguinhas, teresinense, e o Bernardo Candeira do Val, ambos já
falecidos; o segundo era natural de Buriti dos Lopes, torrão de minha mulher,
Fátima, que só vim a conhecer em 1977, quando fui cursar Administração de
Empresas no campus da UFPI em Parnaíba, já como empregado da estatal.
Nos finais de semana,
aproveitávamos para conhecer os pontos turísticos, tais como Olinda, parque
zoobotânico, praia de Boa Viagem, roda de ciranda no adro de uma das vetustas
igrejas. Num feriado prolongado, conheci Maceió e a bela praia de Pajuçara. Tive
a satisfação de ser o orador dessa turma do Paulo Bregaro. Um dos mestres, em
gritante exagero, disse que o meu discurso merecia ser proferido em um templo
da cultura, o que massageou meu ego de garoto, certamente ainda bisonho.
O Milton Higino, como disse,
apareceu nesse sonho, que não chamarei de extemporâneo porque os sonhos não
respeitam a dimensão tempo-espaço de que nos fala o gênio Einstein em sua
teoria da relatividade, e extrapolam ou mesmo violam os limites do tempo, do
espaço e da velocidade. Eu o conhecia desde o início de minha adolescência, a
trabalhar na agência do antigo DCT, em Campo Maior, quando esse departamento da
administração pública federal já se preparava para ser transformado em empresa.
Tanto ele, como seus irmãos Nonato, Cláudio, já falecido, e o Wilson começaram
a trabalhar bem jovens.
Logo o Milton Higino foi aprovado
em concurso para o BNB. Servidor exemplar, exerceu a gerência desse banco em
várias agências da hinterlândia piauiense, entre as quais as de Oeiras e a de
Água Branca, que ainda está sob seu comando. Presidiu o Comercial, arquirrival
do Caiçara, pelo qual torço. Às vezes, tratando de interesses do banco, ele
aparece no fórum de Regeneração, oportunidade em que conversamos brevemente.
Tem ele uma palestra agradável, temperada com pitadas de bom-humor, graças aos
casos anedóticos de seu vasto repertório.
Numa dessas práticas, contou-me
ele que um seu ex-colega ecetista, após chamar o chefe pelo nome, em momento em
que este estava um tanto turbinado pelo álcool, foi por ele advertido para que
o chamasse de senhor. O subordinado disse que iria obedecer, que passaria a
chamar todos de senhor, inclusive o Milton Higino, que ainda estava na
puberdade, mas que em contrapartida iria exigir que todos os funcionários o
chamassem também de senhor.
E, com efeito, passou a chamar
todo mundo de senhor, mas lamentavelmente a recíproca não foi verdadeira, e ele
não foi correspondido em seu respeitoso protesto, que terminou caindo no vazio.
26 de abril de 2011



