Professor Amstein
Elmar Carvalho
Ainda no início de nossa mudança para Parnaíba, em 1975, meus
pais, meus irmãos e eu fomos morar no apartamento dos Correios (ECT), na Praça
da Graça. Foi na placa da rua, que lhe passa pela lateral externa, que vi
estampado pela primeira vez o seu nome: Rua Professor Amstein. Sempre lhe
associei o nome ao do grande físico e gênio Einstein. Por isso mesmo a minha
imaginação, às vezes fantasiosa, me levou a acreditar que ele poderia ser um
judeu alemão fugitivo dos nazistas. Da janela de um dos banheiros do
apartamento, nas madrugadas silentes, eu vi, muitas vezes, uma nesga dessa rua
deserta e a placa luminosa da revenda Poncion Rodrigues com o W estilizado da Volkswagen.
Na época em que frequentei a casa do professor Lima Couto,
por ser amigo do Paulo de Athayde Couto, seu filho, meu colega de turma no
curso de Administração de Empresas (UFPI – Campus Ministro Reis Velloso), ouvi
novamente falar em Amstein. Lima Couto, ao me relatar fatos de sua vida,
sobretudo de sua experiência magisterial, me contou que o túmulo do velho
mestre e engenheiro suíço fora por ele idealizado, tomando como inspiração,
creio, o túmulo do Soldado Desconhecido.
Posteriormente, num comentário (em meu blog), sobre esta
crônica, soube pelo professor universitário e economista Vitor de Athayde Couto
que o mausoléu na verdade é uma réplica do túmulo de Napoleão Bonaparte, nos
Invalides, em Paris. Vitor revela a grande admiração que seu pai, o professor
Lima Couto, nutria por Amstein. Aduz, ainda, que o velho mestre teria
trabalhado na Companhia de Portos e Vias Navegáveis – CPVN, na função de
topógrafo ou agrimensor. Acrescentou que o seu irmão Régis lhe mencionara que o
arquiteto Assis Couto dos Reis dizia que foi com Amstein que aprendera Desenho
e Topografia, “não só no Ginásio Parnaibano, mas também na CPVN, onde
trabalharam juntos”.
Ao visitar o Cemitério da Igualdade, em diferentes ocasiões,
descobri, por conta própria ou por informações de coveiros, os túmulos da
poetisa Luíza Amélia de Queiroz, à sombra de sua frondosa e bela gameleira, o
de minha prima Verônica Melo, morta em plena juventude, no apogeu de sua
beleza, e o do professor Alfredo Eduardo Amstein.
Nesse campo santo também foi sepultada minha irmã Josélia,
falecida aos 15 anos de idade, em cujo túmulo meu pai afixou uma placa de metal
com os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do
pensamento!” No túmulo de Amstein, consta: “Nasceu em 27 de março de 1887 –
Faleceu em 30 de julho de 1948. Homenagem de seus colegas do Ginásio Parnaibano
e Escola Normal de Parnaíba.”
Através do Dr. Lauro Correia, diretor do Campus e meu
professor no curso de Administração de Empresas, e que foi seu aluno na segunda
metade da década de 1930, tomei conhecimento de outros fatos de sua vida,
inclusive de que ele morou na Ilha Grande de Santa Isabel, na mesma casa, por
sinal, em que nascera Evandro Lins e Silva, ministro do Supremo Tribunal
Federal.
Portanto, eu sabia que Amstein, engenheiro suíço, de porte
avantajado, de vastos e bastos bigode e barba ruivos, era um tipo bonachão, um
grande contador de estórias e fatos anedóticos, em que a fantasia parecia se
misturar com a verdade, em que a ficção se mesclava a fatos reais. Tive certeza
disso quando li o capítulo O professor Amstein, do livro Tomei um ita no Norte,
de Renato Castelo Branco, com quem, em minha juventude, cheguei a me
corresponder por cartas. Dessa obra memorialística extraio os seguintes
trechos:
“... Mas ele era bom e todos
gostávamos dele. Não como um professor, a quem se respeita, mas como um colega
maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão. // ... Suas
histórias, geralmente episódios de sua vida, eram ricas, férteis, cheias de
pitoresco e de surpresas. Sentia-se que refletiam a verdade. Mas não apenas a
verdade. A parte verdadeira as tornava plausíveis. Mas sentíamos que estávamos
sendo mistificados, que Amstein enriquecia suas aventuras, que inventava, que
acrescentava fatos, acontecimentos, detalhes imaginários. // Onde terminava a
verdade e começava a fantasia? Sabíamos que ele mentia. Mas, como o Taubelman
de Michel Deon, não sabíamos quando. Pois ele vivia em um mundo a um tempo real
e imaginário, do qual era uma espécie de mágico, a nos deslumbrar. // Até mesmo
a maneira como viera esbarrar em Parnaíba tinha esta marca de mistério e meia-verdade.
Um dia o Diretor do Ginásio Parnaibano recebera um telegrama de Amstein,
declarando-se engenheiro suíço, professor de matemática, e disposto a aceitar o
convite para lecionar no Ginásio. O Diretor jamais lhe fizera qualquer convite.
Nem tampouco o conhecia. Mas precisava de professor e contratou-o. // Assim
chegou Amstein em Parnaíba, a cuja vida se incorporou, enriquecendo sua cultura
e seu folclore. Deixou muitos amigos. Mas já chegou montado em uma meia-verdade.”
No livro Cada Rua – Sua História, de Caio Passos, sobre as
ruas, avenidas, praças e outros logradouros de Parnaíba, no local apropriado,
encontro muitas informações sobre o velho professor Amstein, que corroboram o
que sobre ele eu já sabia, além de outras que desconhecia. Entre estas, tomo
conhecimento de que ele gostava de cavalgar e de cultivar suas hortas. E de que
falava amiúde das belezas de sua pátria, louvando-lhe as belezas naturais,
sobretudo “as edelweiss, uma linda flor branca dos Alpes”, que certamente lhe
enchiam o peito de saudade e lhe faziam relembrar as níveas neves alpinas.
Dois ou três dias atrás, mediante comentário em meu blogue e
de notificação em minha página no facebook, pude fazer contato com a professora
e historiadora Juliana Lacet, que me pediu informações sobre Amstein, uma vez
que ela está fazendo uma pesquisa sobre a vida de Catarina Moura, que foi sua
esposa, de cujo casamento nasceram duas filhas e um filho, falecido aos vinte e
poucos anos. Catarina foi uma mulher avançada para sua época. Advogada,
escreveu vários artigos em defesa da mulher e de seus direitos. Ela era natural
de Paraíba do Norte, hoje cidade de João Pessoa. Amstein era filho do cônsul
suíço em Recife. Portanto, não era fugitivo dos nazistas, como a minha
imaginação me fizera suspeitar.
Em meados dos anos 1980, creio, comecei a escrever uma série
de poemas sobre figuras populares, anedóticas e folclóricas de Parnaíba, que
faziam parte do cenário cultural, pitoresco e histórico dessa cidade.
Mensalmente esses textos eram publicados, com esmeradas ilustrações de
Flamarion Mesquita, no jornal Inovação. Flamarion é, como já disse, uma flama
flamejante de talento. Em 2009 reuni esses poemas, que tinham o título geral de
PoeMitos da Parnaíba, e os publiquei em livro, com geniais charges
policromáticas de Gervásio Castro e um esmerado prefácio de Cunha e Silva Filho.
Mas desde o início achei que entre eles deveria constar um sobre o professor
Amstein. Não sei ao certo porque não o fiz. Acho que me faltou engenho e arte
para retratar o velho engenheiro suíço.
Agora, muitas décadas depois, motivado pelos fatos acima
relatados, escrevi esse desejado poema sobre o inesquecível professor Amstein,
que segue abaixo (e que integrará doravante os meus PoeMitos da Parnaíba), como
uma homenagem a essa instigante e fulgurante figura humana, humana no melhor e
mais completo sentido da palavra:
AMSTEIN
Elmar Carvalho
O professor Amstein,
com seu vasto bigode
e densa barba ruiva,
alto, forte, avermelhado,
chegou a Parnaíba montado
no árdego Pégaso da mistificação.
Assumiu emprego no
Ginásio Parnaibano e na Escola Normal.
Professor de desenho geométrico e matemática,
fazia suas métricas e matemágicas
em suas fantásticas e fantasiosas histórias.
Engenheiro e da Suíça, era um verdadeiro
canivete suíço: polivalente, pau para toda obra,
homem de sete ou mais instrumentos, substituía
qualquer dos professores faltosos.
Novo Barão de Munchausen
recheava suas aulas e recreios
com seus anedóticos e mirabolantes “causos”,
menino grande entre os demais meninos,
“barulhento, inconsequente e brincalhão”,
no dizer do ex-aluno Renato Castelo Branco.
Para sempre restou em sua mente a saudade
