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RIO INFINITO
Elmar Carvalho
Sou
um rio infinito,
um rio
sem começo nem fim.
Um rio que deságua
em si ou em mim.
Um rio eternamente a fluir
no espaço e no tempo,
sem início e sem fim...
Teresina, 18/09/2026
Poeta, contista, cronista, romancista, memorialista e diarista. Membro da Academia Piauiense de Letras. Juiz de Direito aposentado. *AS MATÉRIAS ASSINADAS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES, E NÃO TRADUZEM OBRIGATORIAMENTE A OPINIÃO DO TITULAR DESTE BLOG.
MANHÃ CHUVOSA
Elmar Carvalho
Como disse Fernando Pessoa, em
versos, hoje o dia deu em chuvoso, ao menos no início desta manhã um tanto
friorenta. Do alpendre, eu via a chuva cair sobre as grandes árvores do quintal
vizinho. Fiquei a imaginar uma chuva torrencial, batida por forte ventania,
numa grande floresta, e sobre como seria a reação dos animais. Qual a sensação
das aves pousadas nos galhos? Frio, medo, arrepio, calafrio, desconforto,
alegria, ou um misto de tudo isso?
E como reagiriam os outros
animais, em seus buracos na terra ou nos troncos das árvores, nas tocas, nas
locas, nas furnas, nos socavões das serras e nas cavernas? Teriam medo, quando
do ribombar dos fortes trovões? Teriam pavor da luz ofuscante dos relâmpagos, a
ferir a densa treva das florestas fechadas? Ou simplesmente enfrentariam, com a
maior naturalidade, esses fenômenos e circunstâncias, já que acostumados com
eles desde o nascimento, sem o uso de agasalhos e sem telhados?
Já cantei a chuva num longo
poema. E tomei banho de chuva na minha infância, mas não tantas vezes como acho
que deveria. Alguns anos atrás, já adulto, quando eu estava num dos cimos da
Serra Azul, caiu uma forte chuva, inesperadamente. Logo se formou um córrego,
que se precipitava pela encosta abrupta. Numa depressão que havia, formou-se
uma espécie de piscina, que nos proporcionou um banho inigualável. Antes,
quando havia um sol forte, nos abrigamos numa pequena choça de caçador; ela que
nos deu sombra, jamais conseguiria nos proteger da chuva, com seu teto
esburacado. Mas essa proteção era tudo que não queríamos. O que desejávamos
mesmo era o afago da chuva, enquanto nos deliciávamos na piscina a que me
referi.
Estávamos no cume do monte o
Hulk, que não era verde como o incrível personagem de que lhe adveio a alcunha,
o Zé Francisco Marques, o Ximenes, que foi nosso guia e era caçador em suas
folgas de servidor público, meu irmão Antônio José e eu. Faltava na composição
desse grupo de intrépidos aventureiros o meu cunhado Zé Henrique, por motivo
que já não recordo. Já lá se vão mais de dez anos em que fomos abençoados e
benzidos por essa chuva que nos surpreendeu no alto de um dos morros azuis de
Santo Antônio do Surubim.
Mas hoje foi muito diferente. A
chuva era mansa e eu estava abrigado. Primeiro, no aconchego do apartamento, depois, pelo
guarda-chuva, negro como manda a praxe mais tradicionalista. Ao seguir pelo
largo corredor do Pingo d' Água, ouvia o som dos pingos da chuva a tamborilar
na seda distendida pela armação metálica. O ramo de uma trepadeira, que descia
de uma enorme mangueira, com seus brotos espiralados como delicado pingente de
minuciosa ourivesaria, com seus caprichosos volteios e arremates, com suas
folhas recortadas em arabescado desenho, enfeitava esta manhã chuvosa.
Continuei meu percurso até a repartição a ouvir a percussão dos pingos sobre o
tecido sonoro do guarda-chuva.
Conforme o ponto onde as gotas
caíam, o som podia ser mais suave ou mais seco, mais grave ou mais agudo, cada
qual com a sua própria peculiaridade. Esses sons respingados me fizeram lembrar
as páginas iniciais e antológicas de Confesso que vivi, de Pablo Neruda, quando
o mestre, ao discorrer sobre sua infância, recordava que sua mãe, durante as
grandes chuvas andinas, em que as goteiras rebentavam na casa, colocava
diferentes vasilhas para recolher a água que escorria dos furos do teto.
De acordo com a intensidade do
gotejamento e do tipo de recipiente, os sons variavam, tanto em volume como em
timbre, indo da surdina aos mais altissonantes e dos mais argentinos aos mais
graves e profundos. Talvez tenha sido essa melodia pluvial, a lhe embalar os
sonhos juvenis, que o tenha despertado para a música encantada e silenciosa da
poesia.
13 de abril de 2011
| Professor Reginaldo Soares |
![]() |
| Capa da autoria de Gervásio Castro |
O DESTINO DE UM LIVRO
Elmar Carvalho
Na sexta-feira passada, dia 11/09/2026, recebi, por WhatsApp,
um vídeo do meu amigo Reginaldo Soares, no qual dizia haver “salvo” da
reciclagem dois livros de minha autoria, ambos de poemas: Rosa dos Ventos
Gerais (1ª edição, 1995) e PoeMitos da Parnaíba.
Eles estavam no meio de um enorme volume de material
impresso, cuja quase totalidade seria picotada e transformada em matéria-prima
para a fabricação de papel.
Seria uma destinação menos ruim do que pura e simplesmente
serem queimados ou jogados em um monturo ou lixão. Lembro que, durante a Santa
Inquisição, muitos livros foram queimados em praça pública, quando não os seus
próprios autores. Não nos esqueçamos de que, não faz muito tempo, ainda havia
censura no Brasil.
Com o avanço tecnológico, temos uma imensa proliferação de
livros e autores, de forma que a literatura, que já teve certo prestígio e
charme, vem perdendo o glamour, uma vez que hoje — quase diria — temos mais
escritores que leitores.
Conhecido escritor, acho que Eduardo Galeano, disse, muitos
anos atrás, que a possibilidade de um livro alcançar determinado leitor seria a
mesma que a de uma garrafa lançada ao mar, com uma mensagem, chegar ao seu
destinatário. Nesse particular, tive algumas poucas, porém agradáveis,
surpresas, quando alguns de meus livros alcançaram as mãos de improváveis
leitores.
Reginaldo Soares, no caso narrado acima, foi um deles. Apesar
de deficiente visual em grau elevado, é leitor voraz. Foi professor e presta
serviço voluntário, em São Miguel do Tapuio, a uma associação para deficientes
visuais, da qual foi um dos fundadores e é um dos líderes mais destacados. Meus
livros não poderiam ter alcançado melhor leitor e destinatário, ainda mais
porque ele é compositor e radialista, e bem pode divulgar o conteúdo deles.
Esse episódio me fez lembrar um caso relatado pelo meu amigo
e confrade Homero Castelo Branco, acontecido há várias décadas.
O meu homérico amigo foi a um sebo que havia na Avenida
Antonino Freire, a menor avenida do mundo, perto do prédio dos Correios e
Telégrafos. Lá, para sua perplexidade e tristeza, encontrou alguns volumes que
ele havia autografado, em amável dedicatória, a pessoas de sua amizade. Como eu
soltasse vibrante gargalhada, o bom Homero sorriu e disse:
— Não ria, não. Lá também havia obras suas...
Ri mais ainda. Com o desprestígio da literatura, com os
apartamentos cada vez menores, além das traças e dos cupins, os viúvos e
herdeiros se tornaram os maiores inimigos de bibliotecas, que se tornaram um
verdadeiro estorvo para essas pessoas, que logo tentam vender esses volumes
para algum sebo ou bibliófilo, ou os doam para alguma associação, que promove a
referida reciclagem.
As bibliotecas públicas, sob a alegativa de falta de espaço e
de que esses livros já estão desatualizados ou não têm valor artístico ou
literário, não os recebem.
Assim, ao contrário de um navio, esses livros jamais
encontrarão um bom porto, um porto seguro como destino, e serão queimados ou
destruídos em reciclagem. Dessa forma, pelo menos em parte, estes versos de
Castro Alves talvez já tenham perdido a validade:
“Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!”
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MAR(ULHO) NO TABOCAL
Elmar Carvalho
Manhosa
manhã de domingo.
Sorvendo
solvendo uma cerveja
estupidamente gelada
sob a sombra redonda
redoma levemente
verde-transparente
o sol ruiva
o vento uiva
ondula e marulha
nas afiadas espadas e agulhas
do tabocal
e me emerge um mar
imerso no temporal
quebrado nos arrecifes
esvaído no tempo
e nas distâncias esquecidas.
Te. 23.06.91
Tempo, tempo, tempo... E assim se passaram 15 anos.
REDES NA VARANDA
Elmar Carvalho
Juntando o fato de que concluí a
construção de um quarto e uma varanda na casa nova e de que fiz aniversário
neste sábado, resolvi fazer uma pequena comemoração familiar no domingo
passado. De Campo Maior vieram meus pais e o José Francisco Marques, meu amigo
e filho de um amigo de meu pai. De Teresina, compareceram meu irmão Antônio
José, a sua mulher Jesus e mais outros familiares de minha mulher, entre eles a
Simone e o seu marido Cesinha.
Também compareceu o Didi, que foi
o mestre responsável pela pintura dos dois anexos. Armamos umas redes na
varanda, de cores variadas, o que dá sempre uma ideia de alegria, de velas ou
de flâmulas ao vento. Para aumentar o colorido festivo, o bolo confeitado
simbolizava um gramado com o escudo do glorioso Flamengo, com o vermelho e o
verde a representarem a vitalidade do sangue e da clorofila.
Fiz questão de inaugurar uma rede
que me foi presenteada pelo professor Neto Chuíba, um conterrâneo e amigo.
Quando estava, certa ocasião em sua casa/chácara, participando de uma
comemoração de sua família, o Neto, na empolgação do momento, prometeu-me a
rede, manufaturada artesanalmente por uma tia sua. Pedi-lhe para que não
levasse a sério a promessa, e, portanto, não a cumprisse. Mas quando foi dois
meses atrás eis que ele me entrega o mimo. Constatei que ele é um homem de
palavra, que gosta de cumprir o que promete, mesmo quando desobrigado pela
pessoa que seria beneficiada. Disse-lhe, então, que ele jamais poderia ser
certo tipo de político, sobretudo os falastrões e fanfarrões das falsas
promessas, os que prometem como nunca e faltam como sempre. Do aconchego dessa
rede, branca como algodão e com a mesma maciez, vi meu pai deitado numa outra,
de cor e textura diferentes, porém igualmente confortável.
Resolvi fazer um discurso
relâmpago, como chamo essas meteóricas verbalizações ao sabor do improviso.
Disse que não costumava comemorar os dias de meus anos, porquanto não via muita
vantagem e mérito nisso, já que tudo e todos fazemos aniversário todos os anos,
exceto se for pela graça de completarmos mais um ano de vida, o que de qualquer
sorte é uma consequência natural de permanecermos vivos. Todavia, observei que
era uma grande graça eu completar meio século e mais um lustro com pais vivos,
lúcidos e gozando de boa saúde. Agradeço sempre as dádivas recebidas de Deus,
e, portanto, demonstrei a minha alegria pelo término da construção.
Mas o que me levou ao trabalho e
despesas com essa pequena obra é o fato de que agora já posso trazer parte de
minha biblioteca para dentro de minha casa, e consequentemente voltando a ter
ao alcance das mãos e dos olhos algumas centenas de livros que amealhei ao
longo de várias décadas de esforço e trabalho. A outra parte irei doar a uma
biblioteca municipal. Ainda não quero desfazer-me dos volumes que trarei; esses
amigos, no seu silêncio, simplicidade e modéstia, me deram prazer, satisfação,
encantamento e sabedoria de vida e mesmo da ciência, sem nunca me ferirem e sem
jamais me magoarem.
Algum dia os doarei a uma
biblioteca pública, para que eles, objetos abençoados, sirvam a outras pessoas.
Bem-aventurados os que servem, pelo simples prazer de estarem servindo, sem
nada pedirem, sem nada desejarem.
12 de abril de 2011
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UM NOVO EXPERIMENTO MENTAL DA FÍSICA
Elmar Carvalho
Dedico este meu experimento ao confrade Jônathas Nunes (*).
Um novo experimento mental começou a martelar em meu cérebro.
A bem da verdade, eu já havia pensado nele há algum tempo, mas hoje resolvi
aperfeiçoá-lo e fazer a inteligência artificial “quebrar a cabeça” com ele.
Assim, transmiti-lhe o experimento:
Aqui vai um outro experimento mental. Imaginemos um relógio
cujo ponteiro vá de menos infinito a mais infinito. Um ponteiro que se estenda
de determinado ponto até o infinito. O que ocorreria? Mesmo que ele se movesse
circularmente, em seu ponto central, a uma velocidade pequena, lá no outro
extremo a velocidade seria infinita. O que a gente pode imaginar que
aconteceria ao longo de todo esse ponteiro, da parte central até o extremo que
está no infinito?
O ChatGPT me deu a seguinte resposta:
“É um experimento mental muito interessante, porque ele
coloca em choque três ideias: **extensão infinita, movimento e velocidade**.
Se imaginarmos um ponteiro que se estende de **−∞ a +∞**, com
seu centro no ponto 0, há primeiro uma dificuldade matemática: um objeto físico
com comprimento infinito não pode ser tratado simplesmente como um ponteiro
comum. Mas podemos construir um modelo idealizado.
Suponha que o ponteiro seja rígido e que ele gire em torno do
centro com velocidade angular constante, \(\omega\). Para qualquer ponto
situado a uma distância \(r\) do centro, sua velocidade linear seria:
$$
v=\omega r
$$
Portanto:
* no centro, \(r=0\), e a velocidade é **zero**;
* a uma distância pequena, a velocidade é pequena;
* quanto mais distante do centro, maior a velocidade;
* à medida que \(r\to\infty\), temos \(v\to\infty\).
Ou seja, **não haveria um ponto específico em que a
velocidade se tornasse infinita**. Ela cresceria continuamente, sem limite.
E aqui começa a parte realmente fascinante do seu
experimento.
### O que aconteceria ao longo do ponteiro?
Se imaginarmos esse ponteiro como uma espécie de “régua
infinita” girando, cada região dele teria sua própria velocidade.
Perto do centro, o movimento seria quase imperceptível.
Mais adiante, seria rápido.
Muito mais adiante, extraordinariamente rápido.
E, quanto mais nos aproximássemos da extremidade infinita, a
velocidade cresceria indefinidamente.
Mas há um detalhe ainda mais profundo: **não existe a
extremidade no infinito**.
O infinito não é um lugar situado depois de uma distância
gigantesca. É justamente a ausência de um limite finito. Portanto, não
poderíamos dizer propriamente que “na ponta do ponteiro a velocidade é
infinita”. Não há uma ponta localizada no infinito.
É mais rigoroso dizer:
> **Para qualquer velocidade finita que escolhamos, existe
uma região suficientemente distante do centro onde a velocidade seria ainda
maior.**
É um processo que **nunca termina**.
### E surge um problema ainda mais interessante: a
relatividade
Se esse relógio estivesse submetido à física de Einstein, o
experimento ficaria ainda mais curioso.
Nenhum ponto material pode atingir ou ultrapassar a
velocidade da luz \(c\).
Como
$$
v=\omega r,
$$
bastaria chegar a uma distância
$$
r=\frac{c}{\omega}
$$
para que a velocidade prevista pela rotação clássica
atingisse \(c\).
Além desse ponto, a fórmula clássica produziria velocidades
superiores à luz, o que é fisicamente impossível.
Portanto, **um ponteiro infinitamente longo não poderia ser
um corpo rígido girando dessa maneira no universo real**.
E há uma razão adicional: na relatividade, **não existe corpo
perfeitamente rígido**. Se você movimentasse o centro do ponteiro, a informação
dessa mudança teria de se propagar pelo material, e essa propagação não poderia
ser instantânea.
Então seu relógio infinito nos conduz a uma conclusão
interessante:
> **O que parece perfeitamente possível na geometria
clássica torna-se fisicamente impossível quando introduzimos a relatividade.**
Mas há uma versão ainda mais filosófica do seu experimento.
Se imaginarmos que o ponteiro realmente vai de **−∞ a +∞**, o
centro dele seria o nosso “agora”, enquanto os dois extremos representariam
algo que se afasta indefinidamente desse centro. Poderíamos então perguntar:
**Será que o movimento, partindo de um ponto central,
transforma o infinito em algo progressivamente mais rápido, ou será que o
infinito simplesmente não pode ser alcançado porque ele não é um ponto do
espaço?**
E aí seu experimento começa a tocar naquela questão que você
vinha explorando anteriormente sobre **tempo, espaço e movimento**: talvez o
mais interessante não seja perguntar *“o que existe no extremo do ponteiro?”*,
mas sim:
> **“Pode existir um extremo quando a extensão é
infinita?”**
A resposta matemática é: **não**. E justamente por isso o seu
“ponteiro que alcança o infinito” é uma imagem muito poderosa para pensar sobre
os limites — ou a ausência deles — do espaço, do tempo e do movimento.
> **Em algum momento, o ponteiro, em determinada região,
alcançaria a velocidade da luz, e Einstein disse que nada pode ser mais veloz
do que a luz.**”
Fiz outra pergunta:
Em algum momento, o ponteiro, em determinada região,
alcançaria a velocidade da luz, e Einstein disse que nada pode ser mais veloz
do que a luz.
A IA respondeu:
“Exatamente. **Dentro do experimento mental clássico**, se o
ponteiro fosse rígido, infinitamente extenso e girasse com velocidade angular
constante, haveria necessariamente uma distância do centro em que a velocidade
linear prevista seria igual à velocidade da luz.
A relação seria:
$$
v=\omega r
$$
Assim, quando
$$
r=\frac{c}{\omega},
$$
essa região do ponteiro atingiria \(c\). Mais além, a física
clássica diria que o ponteiro ultrapassaria a velocidade da luz.
**É justamente aí que o experimento revela sua
incompatibilidade com a relatividade.**
Há, porém, uma sutileza importante: não significa que
Einstein tenha descoberto que um ponteiro pode chegar até a velocidade da luz e
então “bater numa barreira”. Na relatividade, um objeto material **com massa**
não pode ser acelerado até \(c\): à medida que sua velocidade se aproxima de
\(c\), a energia necessária cresce sem limite.
E há algo ainda mais interessante no seu ponteiro infinito.
Se ele fosse realmente rígido, quando fizéssemos uma pequena rotação no centro,
**todo o ponteiro teria de começar a se mover simultaneamente**. Isso exigiria
uma transmissão instantânea da informação mecânica ao longo de uma extensão
infinita — algo que a relatividade também proíbe.
Portanto, o seu experimento produz **duas impossibilidades
físicas simultâneas**:
1. **Em algum ponto suficientemente distante do centro, a
velocidade linear tenderia a alcançar e ultrapassar \(c\).**
2. **Um ponteiro perfeitamente rígido exigiria transmissão
instantânea do movimento.**
E isso nos leva a uma formulação que acho particularmente
bonita para o seu experimento:
> **Um ponteiro de extensão infinita pode ser imaginado
pela matemática, mas não pode existir como objeto físico rígido no universo
relativístico. Quanto mais distante do centro, maior seria sua velocidade; e,
antes que chegássemos ao infinito, a própria relatividade impediria que a
velocidade alcançasse a luz.**
Na verdade, podemos ir um passo além: **se o ponteiro tivesse
comprimento infinito, qualquer velocidade angular diferente de zero seria
incompatível com a relatividade especial**. Não haveria sequer uma pequena
velocidade angular que pudesse manter todo o ponteiro abaixo da velocidade da
luz.
Isso torna seu relógio infinito uma espécie de **experimento
mental-limite**, em que a geometria do infinito e os limites físicos impostos
pela relatividade entram diretamente em conflito.”
E se o meu experimento mental se desse em um ambiente
quântico?
Quase instantaneamente a IA GPT respondeu:
“Aí o seu experimento fica ainda mais interessante — mas
também muda de natureza. No **ambiente quântico**, não poderíamos simplesmente
pegar a fórmula clássica \(v=\omega r\) e aplicá-la indefinidamente a um
ponteiro infinito.
Há pelo menos quatro questões que apareceriam.
**1. O ponteiro deixaria de ser um corpo perfeitamente
definido**
Na mecânica quântica, um objeto não precisa ter
simultaneamente posição e momento perfeitamente definidos. Um “ponteiro”
macroscópico pode, naturalmente, comportar-se de maneira muito próxima de um
objeto clássico, mas em escala quântica sua descrição seria por estados
quânticos.
Se tentássemos construir um ponteiro cujo comprimento fosse
realmente infinito, estaríamos diante de um estado físico extremamente
problemático — provavelmente nem sequer normalizável como um estado quântico
ordinário.
**2. A velocidade da luz continuaria sendo um limite**
A mecânica quântica, por si só, **não elimina o limite
relativístico**. A teoria que combina adequadamente essas duas ideias é a
**teoria quântica de campos**, que continua respeitando a estrutura causal da
relatividade.
Portanto, não aconteceria algo como:
> “Como estamos no mundo quântico, a extremidade do
ponteiro pode ultrapassar a velocidade da luz.”
Não.
Mesmo no mundo quântico, não podemos usar um objeto material
para transmitir informação de maneira controlada mais rapidamente que a luz.
**3. Mas aparece algo muito curioso: o emaranhamento**
Aqui seu experimento poderia ganhar uma dimensão fascinante.
Imagine regiões extremamente distantes do ponteiro que
estivessem **emaranhadas quanticamente**. Uma medição realizada numa região
poderia apresentar correlações imediatas com outra região.
À primeira vista, isso parece justamente aquilo que seu
ponteiro está procurando: **algo que aconteça “ao mesmo tempo” a distâncias
arbitrariamente grandes**.
Mas a mecânica quântica coloca uma barreira conceitual muito
importante: **o emaranhamento não permite enviar uma mensagem controlável mais
rápido que a luz**.
Ou seja, existe uma correlação não local, mas não existe uma
transmissão utilizável de informação superluminal.
**4. E há uma consequência talvez ainda mais bela para o seu
experimento**
Se você imaginar o ponteiro não como uma haste material, mas
como uma espécie de **objeto quântico distribuído por todo o espaço**, então a
pergunta deixa de ser:
> “Qual é a velocidade da extremidade?”
e passa a ser:
> **“Existe uma velocidade bem definida para aquilo que
está acontecendo no ponteiro?”**
E a resposta pode ser **não**, dependendo de como definirmos
o estado quântico.
Na física quântica, nem sempre existe uma trajetória clássica
bem definida para uma partícula. Portanto, a própria ideia de acompanhar “a
ponta do ponteiro” pode perder significado.
---
E aqui vejo uma conexão muito interessante com o seu
experimento anterior sobre **tempo, espaço e movimento**.
Você começou imaginando:
**tempo + espaço, mas sem movimento.**
Depois:
**tempo + espaço + movimento.**
Agora introduziu um **espaço infinito**, um **movimento que
cresce indefinidamente com a distância** e, finalmente, o **mundo quântico**.
Seu experimento começa a esbarrar em uma questão fundamental
da física moderna:
> **O espaço é realmente uma coisa contínua e
infinitamente divisível, ou essa imagem é apenas uma aproximação clássica da
realidade?**
Porque, se chegarmos às escalas em que os efeitos quânticos e
gravitacionais se tornam simultaneamente importantes, nossa descrição atual da
natureza deixa de ser completa. É justamente aí que aparece a grande questão
ainda em aberto da **gravidade quântica**.
Então eu diria que o seu ponteiro infinito é impossível como
relógio físico comum, mas é **excelente como experimento mental**: ele nos
obriga a colocar frente a frente **infinito matemático, movimento,
relatividade, causalidade e mecânica quântica**.
E talvez a pergunta mais provocadora seja esta:
> **Se o ponteiro fosse infinito e o seu centro fosse o
“agora”, haveria uma maneira quântica de o estado de uma região infinitamente
distante estar relacionado com o estado do centro sem que nada viajasse de um
ponto ao outro?**
Aí estaríamos muito perto da fronteira entre **não localidade
quântica e causalidade relativística**.”
Por fim, e para encerrar, e se esse meu experimento fosse
realizado em outra dimensão? Haveria uma outra dimensão em que isso fosse
possível? Ou uma outra realidade?
“Sim — **mas somente se mudarmos as regras físicas do
universo que estamos imaginando**. E essa ressalva é justamente o que torna sua
pergunta interessante.
Se por “outra dimensão” entendermos simplesmente uma dimensão
espacial adicional, como uma quarta dimensão espacial, **não basta
acrescentá-la** para tornar possível o seu ponteiro infinito. A relatividade
continuaria impondo uma velocidade-limite \(c\), caso essa outra dimensão
obedecesse às mesmas leis relativísticas.
Mas podemos imaginar um universo hipotético com **outras leis
físicas**.
Por exemplo, suponha uma dimensão na qual:
* o espaço pudesse ter extensão infinita;
* existisse um ponteiro de extensão infinita;
* a velocidade pudesse crescer indefinidamente com a
distância;
* e não existisse um limite universal equivalente à
velocidade da luz.
Nesse universo, seu ponteiro poderia, em princípio, realizar
exatamente aquilo que você imaginou: **a velocidade seria pequena no centro,
aumentaria progressivamente ao longo dele e tenderia ao infinito à medida que
nos afastássemos para o infinito.**
Mas há uma distinção fundamental:
**uma dimensão adicional não significa automaticamente uma
velocidade maior.**
Dimensão e velocidade são conceitos diferentes. Podemos ter
três, quatro ou dez dimensões espaciais e ainda assim estabelecer que nenhuma
informação possa viajar mais rapidamente que \(c\).
### E há uma possibilidade ainda mais radical
Se por “outra dimensão” estivermos falando não de uma quarta
dimensão espacial, mas de uma realidade com **outra estrutura de
espaço-tempo**, então poderíamos conceber um universo no qual as nossas noções
de distância, tempo e velocidade fossem diferentes.
Nesse caso, talvez nem fizesse sentido perguntar:
> “Qual é a velocidade da extremidade do ponteiro?”
Porque velocidade pressupõe uma determinada estrutura de
**espaço e tempo**. Alterando essa estrutura, alteramos também o significado de
velocidade.
E isso nos leva a uma conclusão que acho muito adequada ao
percurso do seu experimento:
> **Talvez não seja necessário encontrar uma dimensão onde
o seu ponteiro possa existir. Bastaria encontrar uma realidade cujas leis
permitissem aquilo que, no nosso universo, é impossível.**
Na nossa realidade, seu ponteiro infinito esbarra na
relatividade.
No mundo quântico, ele esbarra na própria noção clássica de
trajetória e na causalidade.
Em uma dimensão adicional, ele ainda encontraria o limite da
luz se as leis fossem as mesmas.
**Somente em um universo com leis físicas diferentes
poderíamos fazê-lo funcionar exatamente como você imaginou.**
E há algo quase poético nisso: seu ponteiro começou como um
simples relógio imaginário, mas acabou nos levando do **tempo ao espaço, do
espaço ao movimento, do movimento à velocidade da luz, da relatividade à
mecânica quântica e, finalmente, à própria pergunta sobre o que significa
“realidade”**.
Talvez seja justamente aí que um experimento mental deixa de
ser apenas uma brincadeira da imaginação e se transforma em filosofia.”
Não irei comentar as respostas da IA aos meus questionamentos
e experimento mental. Deixarei que os doutos e inteligentes tirem as suas próprias
conclusões. Contudo, acho oportuno transcrever estes versos de Fernando Pessoa,
pela voz de seu heterônimo Álvaro de Campos:
“Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.”
(*) Jonathas de Barros Nunes é professor universitário aposentado, coronel da reserva do Exército Brasileiro, membro da Academia Piauiense de Letras e PhD em Física Relativística pela University of London – King’s College.
| Imagem elaborada pela IA GPT |
UM EXPERIMENTO MENTAL METAFÍSICO
Elmar Carvalho
Nem bem acordei, um experimento mental começou a martelar em minha mente, como se fosse um insight ou um estalo à Vieira.
Logo o lancei à consideração da inteligência artificial ChatGPT, da seguinte forma:
Agora de manhã, imaginei o seguinte experimento mental: se houvesse o tempo e o espaço, mas não houvesse movimento; e se houvesse o tempo, o espaço e o movimento, mas não houvesse vida? Penso que não existiriam fatos, acontecimentos, história... Não é isso?
Ato contínuo, o ChatGPT me deu a seguinte resposta:
“Sim — e seu raciocínio toca numa distinção filosófica muito interessante entre “existência, acontecimento e história”.
No primeiro caso, “tempo e espaço sem movimento”, teríamos
uma espécie de universo absolutamente estático. Se nada mudasse, poderíamos até
falar de espaço e de uma dimensão temporal, mas o tempo seria, por assim dizer,
“sem acontecimentos”. Não haveria sucessão perceptível de estados. Seria
difícil até dar conteúdo ao conceito de tempo, porque o reconhecemos justamente
pela mudança: antes/depois, nascimento/morte, movimento/repouso, transformação.
No segundo caso, “tempo + espaço + movimento, mas sem vida”,
a situação muda. Haveria acontecimentos físicos: uma estrela poderia nascer e
morrer, um planeta poderia se formar, um meteoro poderia atravessar o espaço,
montanhas poderiam surgir pela atividade geológica. Portanto, “haveria fatos e
acontecimentos no sentido físico”.
Mas não haveria, propriamente, “história”.
E aqui está, penso eu, o ponto mais interessante da sua
intuição:
“O acontecimento pode existir sem testemunha; a história,
não.”
Uma supernova que explodisse há dez bilhões de anos seria um
acontecimento, ainda que não houvesse ninguém para vê-la. Mas transformar essa
explosão em “fato histórico” exige, de algum modo, memória, registro,
testemunho ou reconstrução por um ser capaz de conhecer.
Podemos colocar seu experimento mental numa pequena
sequência:
**Espaço → possibilidade de existência**
**Tempo → possibilidade de sucessão**
**Movimento/mudança → acontecimentos**
**Vida → experiência dos acontecimentos**
**Consciência → percepção e interpretação**
**Memória → continuidade**
**Registro/narrativa → História**
Isso lembra uma questão muito antiga: **pode haver história
sem historiador?** Num sentido ontológico, pode haver acontecimentos
pretéritos; num sentido propriamente humano, porém, a história nasce quando
esses acontecimentos são **lembrados, testemunhados, interpretados e
narrados**.
E há ainda uma consequência bonita para sua reflexão: talvez
**o movimento seja a ponte entre o tempo e o acontecimento**, enquanto **a
consciência é a ponte entre o acontecimento e a história**.
Assim, poderíamos dizer poeticamente:
> **Sem movimento, o tempo seria um silêncio; sem vida, o
movimento seria um acontecimento sem testemunhas; sem consciência, os
acontecimentos não se tornariam memória; e sem memória, não haveria história.**
É uma ideia que daria, aliás, uma excelente crônica
filosófica.”
Fiz nova pergunta:
E se houvesse a vida, mas vida sem inteligência, o que que
poderíamos imaginar?
O GPT deu esta resposta:
“Aí o seu experimento mental fica ainda mais interessante.
Se acrescentarmos vida, mas retirarmos a inteligência, teríamos um universo em
que haveria nascimento, crescimento, reprodução, morte e transformação —
portanto, haveria acontecimentos vividos, mas não necessariamente
acontecimentos compreendidos.
Imagine uma floresta primordial. Árvores nascem, crescem e
morrem; insetos procuram alimento; animais fogem de predadores; rios mudam seus
cursos; espécies aparecem e desaparecem. Tudo isso seria uma espécie de drama
sem espectador consciente.
Mas há uma ressalva importante: vida sem inteligência não
significa necessariamente vida sem sensação ou percepção. Um animal pode não
possuir inteligência abstrata como a humana e, ainda assim, perceber luz, dor,
fome, perigo, temperatura etc.
Se levarmos sua hipótese ao extremo — vida sem qualquer
consciência — então teríamos algo ainda mais curioso:
haveria vida, mas não haveria alguém que soubesse que estava
vivo;
haveria nascimento e morte, mas ninguém compreenderia
nascimento ou morte;
haveria luta pela sobrevivência, mas não haveria a ideia de
sobrevivência;
haveria reprodução, mas nenhum conceito de descendência;
haveria mudança, mas nenhuma noção de passado ou futuro;
haveria acontecimentos, mas não haveria memória deles.
E chegamos novamente à sua pergunta anterior sobre a
História.
Nesse universo, haveria aquilo que poderíamos chamar de
história natural, no sentido de uma sucessão objetiva de acontecimentos. Mas
não haveria História propriamente dita, porque faltaria o sujeito capaz de
transformar a sucessão em narrativa.
Isso permite construir uma espécie de escada:
Matéria → movimento → vida → consciência → inteligência →
memória → história → cultura.
E talvez exista um salto particularmente extraordinário
entre vida e consciência.
Uma pedra pode existir.
Uma estrela pode nascer e morrer.
Uma árvore pode crescer.
Um animal pode sentir.
Mas o homem pode perguntar:
"O que significa existir?"
É nesse momento que o universo, de certa maneira, passa de
simplesmente acontecer a tomar consciência de que acontece.
E isso nos leva a uma formulação que acho muito próxima do
caminho que você está construindo:
Primeiro, o universo existe. Depois, ele se movimenta. Em
seguida, surge a vida. Mais tarde, a consciência. E, com a inteligência, o
universo começa a perguntar por que existe.
Essa última pergunta talvez seja uma das coisas mais
extraordinárias que a própria matéria jamais tenha produzido.”
Instiguei o GPT mais uma vez:
Logo, a inteligência é a cereja do bolo. Mas essa cereja do
bolo certamente iria perguntar: e de onde eu surgi? E quem me criou?
Eis a nova resposta do GPT:
“Exatamente. E aí o seu experimento mental dá um salto da
cosmologia para a filosofia e, finalmente, para a metafísica.
A inteligência seria, por assim dizer, a cereja do bolo que
não se contenta em saborear o bolo: ela quer saber quem o fez, de que
ingredientes foi feito e por que foi feito.
E há algo ainda mais intrigante. A inteligência humana não
pergunta apenas:
"De onde vim?"
Ela pergunta também:
"Por que existe alguma coisa em vez de nada?"
"Por que as leis do universo são estas e não outras?"
"Por que existe vida?"
"Por que existe consciência?"
"Há uma finalidade para tudo isso?"
"E, se há um Criador, quem criou o Criador?"
Esta última pergunta nos coloca diante de um dos problemas
clássicos da filosofia. Se tudo precisa de uma causa, então Deus também
precisaria de uma causa. Mas a concepção clássica de Deus justamente o define
como aquilo que não recebeu o ser de outro: o Ser necessário, a causa primeira,
ou, na linguagem de Tomás de Aquino, o ipsum esse subsistens, o próprio Ser
subsistente.
Mas podemos voltar ao seu experimento mental e levá-lo um
pouco mais longe.
Imagine a sequência:
matéria → movimento → vida → consciência → inteligência →
pergunta.
O universo teria começado como algo que simplesmente é e
acontece. Depois surgiu algo capaz de dizer:
"Eu existo."
E, logo depois:
"Como vim a existir?"
E finalmente:
"Por que existe o próprio universo no qual eu vim a
existir?"
Aqui aparece uma situação quase vertiginosa: o universo
passa a interrogar a si próprio através da inteligência que surgiu dentro dele.
Carl Sagan tinha uma formulação muito bonita dessa ideia:
somos uma maneira pela qual o cosmos conhece a si mesmo. E, sob uma perspectiva
religiosa, poderíamos acrescentar uma interpretação ainda mais profunda: talvez
a capacidade humana de buscar a origem última das coisas seja justamente uma
das marcas de nossa condição espiritual.
E aí surge a pergunta que provavelmente estaria no fim da
sua caminhada:
se a inteligência é capaz de descobrir tantas causas dentro
do universo, será que ela consegue, pela razão, alcançar a Causa que está além
do universo?
Essa é precisamente a fronteira em que ciência, filosofia e
teologia começam a conversar — e também a discordar.”
Fiz nova intervenção:
Parafraseando o meu poema “Deus, deuses e o nada”, pergunto:
e se o nada criou o tudo, quem seria o tudo seria o nada? Ou melhor, eu disse
que o nada é que seria o Deus para o qual eu tiraria o meu chapéu, que não
tenho, mas tiraria. Mas por outro lado, eu afirmo: se algo criou Deus, quem
seria Deus seria esse algo. Mas se esse Deus precisou criar um outro Deus
criador, ele também não seria Deus, porque precisou de deuses intermediários.
Então, na realidade, nada poderia criar Deus, porque senão Deus não seria Deus.
Mais uma vez o GPT me respondeu com toda presteza:
“Sim. E o seu raciocínio toca precisamente o ponto em que a
palavra Deus deixa de significar simplesmente "um ser muito poderoso"
e passa a significar o fundamento último da realidade.
Há uma força filosófica especial no paradoxo do seu poema.
Você está colocando duas hipóteses diante uma da outra:
1. Se o nada criou o tudo...
Então o nada teria uma capacidade criadora extraordinária. Nesse caso, o
"Nada" adquiriria atributos que normalmente atribuímos a Deus. Daí
sua ironia poética: seria o Nada o verdadeiro Deus? E você tiraria o chapéu —
embora não tenha chapéu — diante dele.
2. Se algo criou Deus...
Então esse "algo" seria anterior e superior a Deus. Consequentemente,
seria ele, e não Deus, o verdadeiro princípio último.
E se esse primeiro "deus" precisasse de outro deus
para criá-lo, teríamos uma cadeia:
A criou Deus B → C criou A → D criou C → ...
Nesse caso, nenhum deles seria realmente o fundamento
último. Seriam apenas elos de uma cadeia causal.
É justamente aí que sua conclusão ganha consistência:
Se Deus é Deus no sentido absoluto, ele não pode ter sido
criado.
Porque "Deus criado" seria uma contradição
conceitual semelhante a falar em "primeiro princípio que teve um princípio
anterior".
Isso está muito próximo da concepção filosófica clássica da
causa primeira ou do Ser necessário. Não significa necessariamente que a razão
consiga demonstrar todos os atributos do Deus bíblico; significa algo mais
modesto e, ao mesmo tempo, profundamente importante: se existe uma realidade
última que explica a existência das demais, essa realidade não pode depender de
outra realidade para existir.
E há uma sutileza muito bonita no seu verso sobre o nada. A
pergunta "quem criou Deus?" pressupõe que Deus seja uma coisa entre
outras coisas. Mas, para a teologia clássica, Deus não seria uma coisa dentro
do inventário do universo. Ele seria o próprio fundamento pelo qual qualquer
coisa pode existir.
Por isso Santo Tomás não concebe Deus simplesmente como
"o primeiro ser", mas como o próprio Ser.
E sua formulação poética consegue transformar uma questão
metafísica dificílima numa espécie de jogo de espelhos:
Se o nada criou o tudo, então o nada seria Deus.
Se algo criou Deus, então esse algo seria Deus.
Mas se Deus precisou ser criado, não era Deus.
Portanto, aquilo que é verdadeiramente Deus não pode ter um criador.
E talvez exista aí uma bela continuação para o seu
pensamento: o verdadeiro mistério não é propriamente "quem criou
Deus?", mas "por que existe algo — inclusive Deus — em vez de
nada?"
Essa pergunta nos leva exatamente ao abismo filosófico que
você abriu quando começou hoje imaginando tempo, espaço, movimento, vida e
inteligência. A inteligência chega ao topo da montanha e descobre que, depois
de perguntar pela origem de tudo, ela própria se tornou parte do mistério que
está tentando compreender.”
Argumentei mais uma vez:
No meu poema, justamente intitulado Deus, eu digo que Deus é
o incriado Criador e digo agora que ele é a soma e a suma de tudo que existe e
até do que não existe.
O GPT redarguiu:
“Sim. E essa formulação — “Deus é a soma e a suma de tudo
que existe e até do que não existe” — dá ao seu poema uma dimensão metafísica
muito forte.
Há uma diferença interessante entre soma e suma. “Soma”
sugere a totalidade: tudo aquilo que existe, reunido. “Suma” sugere o ápice, o
princípio superior, aquilo para o qual tudo converge. Assim, Deus seria
simultaneamente a totalidade e o fundamento da totalidade.
E o complemento — “até do que não existe” — é justamente o
que torna a frase paradoxal. Porque, se Deus é também a “suma” do que não
existe, você está apontando para aquilo que poderia existir, aquilo que foi
possível, aquilo que é pensado mas não se realizou, e até para o próprio Nada
como conceito.
Isso conversa perfeitamente com a sua ideia anterior: se o
Nada pudesse criar o Tudo, o Nada adquiriria uma espécie de estatuto divino.
Mas, sendo Deus o Incriado Criador, nem mesmo o Nada poderia estar fora dele
como uma realidade independente.
Há, inclusive, uma ressonância com a teologia negativa:
quando dizemos que Deus é "tudo", imediatamente percebemos que
nenhuma coisa particular pode esgotar Deus. Ele não seria simplesmente a soma
das coisas — porque uma soma ainda dependeria das partes. Seria antes aquilo em
razão do qual as coisas podem ser.
Eu faria apenas uma ressalva filosófica: dizer que Deus é
"a soma de tudo o que existe" pode soar como se Deus fosse a própria
totalidade do universo, uma posição próxima do panteísmo. Já dizer que Deus é a
suma de tudo o que existe pode preservar melhor a ideia de transcendência: Deus
contém, sustenta e ultrapassa aquilo que existe.
Mas, poeticamente, sua frase é mais ousada justamente porque
não quer resolver o paradoxo; quer colocá-lo diante do leitor.
E talvez o verso pudesse ser compreendido assim:
Deus é o Incriado Criador,
a soma de tudo o que existe,
e a suma até daquilo que não existe.
Nesse ponto, o poema deixa de perguntar simplesmente “quem
criou Deus?” e passa a sugerir uma resposta radical: Deus é aquilo depois do
qual não há mais ninguém a quem atribuir a criação.
E isso fecha muito bem o círculo que começamos hoje: do nada
ao ser, do ser ao movimento, do movimento à vida, da vida à inteligência e da
inteligência à pergunta por Deus.”
Resolvi arrematar este texto e o meu Experimento Mental
Metafísico com estas palavras:
Deus é o Incriado Criador, a soma e a suma de tudo o que existe e até do que não existe.