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INFLAÇÃO
Elmar Carvalho
A inflação está
tão alta que
papel-moeda
virou papel higiênico.
E papel higiênico
virou artigo de luxo.
Poeta, contista, cronista, romancista, memorialista e diarista. Membro da Academia Piauiense de Letras. Juiz de Direito aposentado. *AS MATÉRIAS ASSINADAS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES, E NÃO TRADUZEM OBRIGATORIAMENTE A OPINIÃO DO TITULAR DESTE BLOG.
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SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO
Elmar Carvalho
Ingressei na Superintendência Nacional do Abastecimento –
Delegacia Regional do Piauí – SUNAB/DEPI no dia 10 de agosto de 1982, quando
tinha 26 anos de idade. Dos cerca de 25 funcionários em atividade no dia em que
tomei posse, só restam vivos três, talvez quatro. Exerci o cargo de Inspetor de
Abastecimento e Preços, posteriormente renomeado para Fiscal.
Sua sede ficava na Rua Eliseu Martins, no cruzamento com a
Rua Quintino Bocaiuva, no começo da ladeira do antigo Alto da Moderação, ou
Praça Demóstenes Avelino, mais conhecida como Praça do FRIPISA. Meu chefe
imediato era Walter e Silva Mendes, que cursara Medicina até o quarto ano e
fora amigo de meu pai na adolescência. A delegada era a Dra. Francisca Dalva
Marques Assunção.
Após os sucessivos planos econômicos, destinados a debelar a
estratosférica inflação, a sede da delegacia regional do órgão foi transferida
para o prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, situado na Praça Barão do
Rio Branco, cujo busto de bronze foi surrupiado de seu pedestal anos depois.
Após esses planos, a delegacia da SUNAB teve vários delegados e delegados
substitutos.
Creio que, em 1995, eu e vários outros funcionários da
autarquia, por força de decisão judicial transitada em julgado, passamos a
receber uma vantagem salarial destinada a repor dois percentuais da inflação
que o governo federal havia expurgado do reajuste de nossos vencimentos. Meses
depois, por meio de ação rescisória, esse acréscimo foi retirado de nossos
salários, o que representou um duro golpe, uma vez que eles já se encontravam
bastante defasados, no jargão da época.
No começo de 1997, fui convidado pelo deputado estadual
Humberto Reis da Silveira, que iria comemorar 50 anos de atividade parlamentar
ininterrupta, para lhe prestar assessoria particular, sem qualquer vínculo
funcional com a Assembleia Legislativa. Tendo em vista possíveis entraves
burocráticos, pediu-me que entrasse em gozo de férias e requeresse minha
licença-prêmio, a que fazia jus em razão do tempo de serviço.
Assim fiz e pude prestar-lhe minha assessoria. Devo dizer que
a gratificação que dele recebi serviu para minorar os efeitos da redução
salarial acima referida. Dessa forma, auxiliei-o em diversos serviços, mormente
na elaboração do discurso que foi proferido em Jaicós, na solenidade magna de
comemoração de seus 50 anos como deputado estadual.
Agora vem o caso enigmático, motivo maior desta minha crônica
memorialística. Afirmo que desejo ser imparcial e objetivo e que não pretendo
fazer nenhum julgamento sobre o episódio. Deixarei que o leitor tire suas
próprias conclusões.
Quando minha licença especial estava prestes a terminar, a
SUNAB entrou em processo de extinção. Imediatamente, os fiscais foram afastados
de suas funções. Determinou-se, inclusive, que devolvessem todo o material de
trabalho, tais como blocos de formulários de autos de infração, comprovantes de
fiscalizações e notificações, bem como suas credenciais de identificação.
Mesmo estando impedido de exercer as funções inerentes ao
cargo de fiscal, fui falar com o delegado da época a respeito de minha
situação, inclusive sobre minha assessoria ao deputado Humberto Reis.
Ele então chamou o chefe da Seção de Pessoal e determinou que
eu fosse designado para compor uma das Comissões Especiais afetas ao processo
de extinção da autarquia. O chefe da seção lhe respondeu que isso não seria
possível, pois havia determinação do Superintendente no sentido de que nenhum
fiscal fosse designado para qualquer serviço interno.
Diante desse empecilho, o delegado imediatamente mandou que o
chefe da Seção de Pessoal minutasse um ofício colocando-me à disposição da
Delegacia do Ministério da Fazenda.
Devo esclarecer que minha relação com esse delegado era
amistosa, e eu até o considerava um quase amigo. Ele gostava de conversar
comigo. Ainda assim, fiquei com a leve, levíssima impressão de que pretendia me
prejudicar ou "quebrar" o meu "bico".
Farei uma breve pausa para criar um clima de suspense e
contar, resumidamente, um caso semelhante ocorrido com um saudoso amigo.
Meu amigo e mestre José Ribamar Freitas, professor do Curso
de Direito da Universidade Federal do Piauí, de quem fui aluno, requereu uma
vantagem a que julgava ter direito na repartição previdenciária em que era
lotado. Em virtude da morosidade burocrática e dos Correios da época, resolveu
levar pessoalmente o processo, viajando de avião até a cidade do Rio de
Janeiro.
Foi diretamente ao chefe responsável pelo caso. Após
explicar-lhe a situação e justificar a urgência, entregou-lhe o processo. O
chefe imediatamente começou a despachar. Como de praxe, carimbou e assinou o
despacho. Surpreso com tamanha presteza, algo insólita na burocracia
brasileira, o professor Ribamar Freitas perguntou-lhe se poderia ler o
despacho.
Atônito e estarrecido, constatou que o burocrata determinava
a devolução do processo à repartição de origem, para que fossem cumpridos os
trâmites burocráticos de praxe.
Retomo agora o fio de meu relato principal.
De posse do referido ofício, que me colocava à disposição da
Delegacia do Ministério da Fazenda, dirigi-me à Seção de Pessoal dessa
repartição, que funcionava no primeiro ou no segundo andar acima do nosso. A
chefe da seção, após ler o documento, sem delongas nem titubeios, disse que não
havia vaga e que eu poderia ir embora, devendo aguardar comunicação quando
surgisse alguma vacância.
Não me fiz de rogado. Fui embora e só retornei alguns meses
depois, no dia 19 de dezembro de 1997, para pedir minha exoneração e assumir,
no mesmo dia ou no seguinte, o cargo de juiz de Direito, do qual me aposentei
exatamente 17 anos depois.
Desde então, guardo a convicção de que, mais uma vez, Deus me
livrara do mal e da injustiça.
| Foto antiga da Praça da Graça, vendo-se o prédio da ECT. A foto foi melhorada pela IA GPT. |
O FAMIGERADO SNI E EU
Elmar Carvalho
Uns trinta dias atrás, o escritor, jurista e historiador
Marcelino Leal Barroso de Carvalho, meu professor no curso de Direito e meu
confrade na APL, perguntou-me se eu havia sido fichado no SNI. Respondi-lhe que
não tinha conhecimento disso.
Coincidência ou não, há quatro dias recebi, por WhatsApp, um
arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI), enviado pelo historiador
parnaibano Jedson Martins, no qual, a meu respeito, constava o seguinte:
“b. Após o Comício [de Luís Inácio da Silva – Lula], foi
realizada uma reunião na residência do estudante JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO
(líder estudantil e PT/PARNAÍBA), onde o mesmo recebeu orientações para a
organização do PT:
1. Buscar apoio de grupos já existentes na área, como, por
exemplo:
- Pessoal do Movimento Contra a Carestia;
- Pessoal das Pastorais da Terra;
- Pessoal das Pastorais da Juventude;
- Pessoal dos Encontros de Casais;
- Os movimentos eclesiais de base; inclusive foi ressaltada
pelo LULA a importância dos movimentos eclesiais de base, por trás dos quais
aconselhou que se articulasse todo o trabalho de conscientização popular, com o
respaldo da Igreja.”
Essa parte que me diz respeito até me faz lembrar um célebre
ironista que, dirigindo-se a um enciclopedista, teria dito:
— Cavalheiro, a sua definição seria perfeita, se não fosse
por três exceções: caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda para
trás.
O trecho que transcrevi acima está eivado de inverdades ou de
meias verdades. Não desejando assumir um protagonismo que não tive, outra
alternativa não me resta senão esclarecer os fatos, dentro da verdade, como
passo a fazer.
A aludida reunião, que, segundo o CIE/SNI, teria acontecido
em 30/08/1980, após o comício, não ocorreu em minha casa. Na época, eu morava
com meus pais e mais seis irmãos no apartamento funcional da Empresa Brasileira
de Correios e Telégrafos (ECT), de, no máximo, 110 metros quadrados. Além da
limitação do espaço, meu pai jamais permitiria uma reunião de política
partidária nesse apartamento, uma vez que era o chefe da ECT em Parnaíba, e
isso poderia acarretar-lhe graves consequências.
Eu não era e não poderia ser filiado ao PT de Parnaíba, como
consta do documento acima referido, uma vez que meu título eleitoral pertencia
à Zona Eleitoral de Campo Maior. Em 10/08/1982, passei a residir em Teresina e,
após essa mudança, transferi meu título de eleitor para esta capital. Aliás, a
bem da verdade, devo dizer que nunca fui filiado a partido político algum.
Quanto às recomendações que teriam sido feitas diretamente a
mim, não tenho qualquer lembrança delas, nem poderia aceitá-las, muito menos
cumpri-las, pois era servidor da ECT, trabalhando em expediente duplo,
inclusive aos sábados (no turno da manhã), e, à noite, frequentava o curso de
Administração da UFPI – Campus Ministro Reis Velloso.
No segundo semestre do ano anterior (1979), na qualidade de
presidente do Diretório Acadêmico "3 de Março", do mesmo campus da
UFPI, discursei no grande comício que marcou o retorno do ex-governador Chagas
Rodrigues (Francisco das Chagas Caldas Rodrigues), após o término da suspensão
de seus direitos políticos.
Fui um dos primeiros a falar, no coreto da Praça da Graça,
onde se encontravam os demais oradores, entre os quais Ulysses Guimarães,
Franco Montoro, Almino Afonso e Miguel Arraes, próceres do MDB nacional. Entre
os piauienses, estavam presentes João Mendes Nepomuceno, Celso Barros Coelho,
Roberto Broder, José Alexandre Caldas Rodrigues e, claro, Chagas Rodrigues, a
grande estrela do comício, que, poucos anos depois, foi eleito senador.
Em meu discurso, falei das mazelas da época, entre elas o
cerceamento das liberdades, o Decreto-Lei nº 477, as eleições indiretas para
presidente da República e governador, bem como da escassez de recursos
destinados à educação. Vários oradores fizeram referência às minhas palavras.
Eu morava na Praça da Graça e tinha apenas vinte e poucos
anos de idade. Não sei se esse fato também foi parar em alguma ficha ou
relatório do SNI. Sei que, poucos anos depois, mais precisamente em 10/08/1982,
quando assumi o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços da SUNAB, exigiram
que eu apresentasse uma certidão de bons antecedentes expedida pelo DOPS. E eu
a apresentei.
Consta que o general Golbery do Couto e Silva, um dos
idealizadores e chefe do SNI, em conversa privada, teria dito, em referência a
esse órgão:
— Criamos um monstro.
Por fim, devo dizer que nunca fui ouvido em inquérito
policial, nem mesmo na condição de testemunha. E dou muitas graças a Deus por
isso.
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A FOME
Elmar Carvalho
I
a fome
que come
e consome
o “home”
mora
em sua víscera sonora
e o devora
como uma flora
cancerosa
rosa carnívora
que aflora e o deflora
de dentro para
fora.
II
a fome é tanta
e tanto espanta
que o ex-grevista de fome
hoje é grevista com fome
– ou melhor – desempregado
pregado na miséria
de ser
gado sub/ju/gado
fis/gado vis/gado k/gado
* Poema do final dos anos 1970 ou início dos anos 1980.
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FIM DE CASAMENTO
Elmar Carvalho
Perguntando eu, hoje, a um homem
de mais de sessenta anos de idade se ele era solteiro, contou-me que fora
casado, em sua juventude, mas durante menos de vinte e quatro horas. Revelou-me que ao constatar que fora enganado
pela mulher, a devolveu a seu pai. Fazendo-me de um tanto ingênuo, disse-lhe
estranhar como essa traição poderia ter ocorrido nesse curto espaço de tempo,
“em plena lua de mel”, como na bela letra da música de Reginaldo Rossi.
Esclareceu-me que a traição fora o fato de ela não lhe ter revelado,
anteriormente, não ser mais virgem. O homem a interrogou, e ela acabou por lhe
confessar já ter tido outras experiências sexuais.
Acrescentou-me ele que sua mãe,
ao saber do fato, ponderou-lhe que tudo poderia ser apenas um erro proveniente
da juventude dela, que poderia não mais se repetir. Ele disse à mãe que nessa
oportunidade conseguiu se controlar, e por isso não cometera nenhuma violência
contra a mulher, mas, em outra ocasião, não saberia dizer se conseguiria
conter-se. A mãe, então, falou que ele fizesse o que achasse melhor para si.
Embora pedindo desculpas, indaguei-lhe se ele, ao constatar que a jovem não era
mais virgem, havia interrompido o coito. Sorriu, e me disse que era homem, e
que, portanto, tivera de concluí-lo, talvez, suponho, para acalmar-se e tomar
uma atitude de maneira mais ponderada. Tinha ele 25 anos e a mulher, 16.
O certo é que ele não aceitou a
mulher, devolvendo-a a seus pais, mal (ou bem) comparando, como se ela fosse
uma mercadoria com defeito oculto ou vício redibitório. Na verdade, nessa
época, as mulheres se conservavam virgens até o casamento, e poucos homens
aceitariam casar-se com uma mulher que não fosse donzela, exceto se fosse o
próprio nubente o autor do defloramento. O próprio Código Civil de 1916
permitia a anulação do casamento, conforme o seu art. 218 em combinação com o
219, IV, ao estampar que era anulável o casamento quando “o defloramento da
mulher” fosse “ignorado pelo marido”.
Mas houve casos em que o marido
repudiou a mulher, embora fosse ele o responsável pela defloração, sob a alegativa de que ela não deveria ter cedido
às suas súplicas e insistências; que se cedera com relação a ele, poderia
entregar-se aos caprichos e seduções de outrem, no futuro, ainda mais porque já
não existiria a película denunciadora.
No final da conversa, fazendo uma
analogia entre as ponderações de sua mãe, para que desse nova oportunidade a
sua mulher e a perdoasse, lembrei-me de uns versos do grande poeta Hermes
Vieira, que tem poemas magistrais na vertente popular e na temática sertaneja,
que lhe citei de forma livre, parafraseada, já que faz muitos anos que os li
pela derradeira vez. O poema conta o caso de um jovem que constatou haver se
casado com uma mulher já deflorada.
Na manhã do dia seguinte às
núpcias, foi aconselhar-se com o pai, sobre o seu desejo de restituir a mulher
a seu pai. Após elogiar muito a própria mãe, acrescentou que feliz era ele, seu
pai, que se casara com uma mulher direita, séria, honesta, que sempre o
respeitara. O pai, nos versos do poeta, que cito livremente, apenas de memória,
disse ao filho angustiado: “Meu filho, vê se você se acoita, / Na mulher se
bota um frei, / é melhor você ficar na moita, / Do jeitim que eu fiquei”.
O homem sorriu, conquanto fosse
este o mesmo conselho que lhe dera sua mãe, em sua distante juventude.
23 de março de 2011
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MOISÉS
Elmar Carvalho
Escravo,
não sou escravo da submissão
e meu último adeus será uma corrida
com os pés fora da corda-bamba.
Escreverei
um manifesto assinado
com o sangue de cada um,
com o suor de todos,
todos mocinhos
de um filme sem mocinhos.
Escarnecerei
os muros e os tetos das prisões
porque são exceções de um regime de
exceção.
Escangalharei
as portas do céu
e os portões do inferno
e soltarei a liberdade.
Professor Amstein
Elmar Carvalho
Ainda no início de nossa mudança para Parnaíba, em 1975, meus
pais, meus irmãos e eu fomos morar no apartamento dos Correios (ECT), na Praça
da Graça. Foi na placa da rua, que lhe passa pela lateral externa, que vi
estampado pela primeira vez o seu nome: Rua Professor Amstein. Sempre lhe
associei o nome ao do grande físico e gênio Einstein. Por isso mesmo a minha
imaginação, às vezes fantasiosa, me levou a acreditar que ele poderia ser um
judeu alemão fugitivo dos nazistas. Da janela de um dos banheiros do
apartamento, nas madrugadas silentes, eu vi, muitas vezes, uma nesga dessa rua
deserta e a placa luminosa da revenda Poncion Rodrigues com o W estilizado da Volkswagen.
Na época em que frequentei a casa do professor Lima Couto,
por ser amigo do Paulo de Athayde Couto, seu filho, meu colega de turma no
curso de Administração de Empresas (UFPI – Campus Ministro Reis Velloso), ouvi
novamente falar em Amstein. Lima Couto, ao me relatar fatos de sua vida,
sobretudo de sua experiência magisterial, me contou que o túmulo do velho
mestre e engenheiro suíço fora por ele idealizado, tomando como inspiração,
creio, o túmulo do Soldado Desconhecido.
Posteriormente, num comentário (em meu blog), sobre esta
crônica, soube pelo professor universitário e economista Vitor de Athayde Couto
que o mausoléu na verdade é uma réplica do túmulo de Napoleão Bonaparte, nos
Invalides, em Paris. Vitor revela a grande admiração que seu pai, o professor
Lima Couto, nutria por Amstein. Aduz, ainda, que o velho mestre teria
trabalhado na Companhia de Portos e Vias Navegáveis – CPVN, na função de
topógrafo ou agrimensor. Acrescentou que o seu irmão Régis lhe mencionara que o
arquiteto Assis Couto dos Reis dizia que foi com Amstein que aprendera Desenho
e Topografia, “não só no Ginásio Parnaibano, mas também na CPVN, onde
trabalharam juntos”.
Ao visitar o Cemitério da Igualdade, em diferentes ocasiões,
descobri, por conta própria ou por informações de coveiros, os túmulos da
poetisa Luíza Amélia de Queiroz, à sombra de sua frondosa e bela gameleira, o
de minha prima Verônica Melo, morta em plena juventude, no apogeu de sua
beleza, e o do professor Alfredo Eduardo Amstein.
Nesse campo santo também foi sepultada minha irmã Josélia,
falecida aos 15 anos de idade, em cujo túmulo meu pai afixou uma placa de metal
com os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do
pensamento!” No túmulo de Amstein, consta: “Nasceu em 27 de março de 1887 –
Faleceu em 30 de julho de 1948. Homenagem de seus colegas do Ginásio Parnaibano
e Escola Normal de Parnaíba.”
Através do Dr. Lauro Correia, diretor do Campus e meu
professor no curso de Administração de Empresas, e que foi seu aluno na segunda
metade da década de 1930, tomei conhecimento de outros fatos de sua vida,
inclusive de que ele morou na Ilha Grande de Santa Isabel, na mesma casa, por
sinal, em que nascera Evandro Lins e Silva, ministro do Supremo Tribunal
Federal.
Portanto, eu sabia que Amstein, engenheiro suíço, de porte
avantajado, de vastos e bastos bigode e barba ruivos, era um tipo bonachão, um
grande contador de estórias e fatos anedóticos, em que a fantasia parecia se
misturar com a verdade, em que a ficção se mesclava a fatos reais. Tive certeza
disso quando li o capítulo O professor Amstein, do livro Tomei um ita no Norte,
de Renato Castelo Branco, com quem, em minha juventude, cheguei a me
corresponder por cartas. Dessa obra memorialística extraio os seguintes
trechos:
“... Mas ele era bom e todos
gostávamos dele. Não como um professor, a quem se respeita, mas como um colega
maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão. // ... Suas
histórias, geralmente episódios de sua vida, eram ricas, férteis, cheias de
pitoresco e de surpresas. Sentia-se que refletiam a verdade. Mas não apenas a
verdade. A parte verdadeira as tornava plausíveis. Mas sentíamos que estávamos
sendo mistificados, que Amstein enriquecia suas aventuras, que inventava, que
acrescentava fatos, acontecimentos, detalhes imaginários. // Onde terminava a
verdade e começava a fantasia? Sabíamos que ele mentia. Mas, como o Taubelman
de Michel Deon, não sabíamos quando. Pois ele vivia em um mundo a um tempo real
e imaginário, do qual era uma espécie de mágico, a nos deslumbrar. // Até mesmo
a maneira como viera esbarrar em Parnaíba tinha esta marca de mistério e meia-verdade.
Um dia o Diretor do Ginásio Parnaibano recebera um telegrama de Amstein,
declarando-se engenheiro suíço, professor de matemática, e disposto a aceitar o
convite para lecionar no Ginásio. O Diretor jamais lhe fizera qualquer convite.
Nem tampouco o conhecia. Mas precisava de professor e contratou-o. // Assim
chegou Amstein em Parnaíba, a cuja vida se incorporou, enriquecendo sua cultura
e seu folclore. Deixou muitos amigos. Mas já chegou montado em uma meia-verdade.”
No livro Cada Rua – Sua História, de Caio Passos, sobre as
ruas, avenidas, praças e outros logradouros de Parnaíba, no local apropriado,
encontro muitas informações sobre o velho professor Amstein, que corroboram o
que sobre ele eu já sabia, além de outras que desconhecia. Entre estas, tomo
conhecimento de que ele gostava de cavalgar e de cultivar suas hortas. E de que
falava amiúde das belezas de sua pátria, louvando-lhe as belezas naturais,
sobretudo “as edelweiss, uma linda flor branca dos Alpes”, que certamente lhe
enchiam o peito de saudade e lhe faziam relembrar as níveas neves alpinas.
Dois ou três dias atrás, mediante comentário em meu blogue e
de notificação em minha página no facebook, pude fazer contato com a professora
e historiadora Juliana Lacet, que me pediu informações sobre Amstein, uma vez
que ela está fazendo uma pesquisa sobre a vida de Catarina Moura, que foi sua
esposa, de cujo casamento nasceram duas filhas e um filho, falecido aos vinte e
poucos anos. Catarina foi uma mulher avançada para sua época. Advogada,
escreveu vários artigos em defesa da mulher e de seus direitos. Ela era natural
de Paraíba do Norte, hoje cidade de João Pessoa. Amstein era filho do cônsul
suíço em Recife. Portanto, não era fugitivo dos nazistas, como a minha
imaginação me fizera suspeitar.
Em meados dos anos 1980, creio, comecei a escrever uma série
de poemas sobre figuras populares, anedóticas e folclóricas de Parnaíba, que
faziam parte do cenário cultural, pitoresco e histórico dessa cidade.
Mensalmente esses textos eram publicados, com esmeradas ilustrações de
Flamarion Mesquita, no jornal Inovação. Flamarion é, como já disse, uma flama
flamejante de talento. Em 2009 reuni esses poemas, que tinham o título geral de
PoeMitos da Parnaíba, e os publiquei em livro, com geniais charges
policromáticas de Gervásio Castro e um esmerado prefácio de Cunha e Silva Filho.
Mas desde o início achei que entre eles deveria constar um sobre o professor
Amstein. Não sei ao certo porque não o fiz. Acho que me faltou engenho e arte
para retratar o velho engenheiro suíço.
Agora, muitas décadas depois, motivado pelos fatos acima
relatados, escrevi esse desejado poema sobre o inesquecível professor Amstein,
que segue abaixo (e que integrará doravante os meus PoeMitos da Parnaíba), como
uma homenagem a essa instigante e fulgurante figura humana, humana no melhor e
mais completo sentido da palavra:
AMSTEIN
Elmar Carvalho
O professor Amstein,
com seu vasto bigode
e densa barba ruiva,
alto, forte, avermelhado,
chegou a Parnaíba montado
no árdego Pégaso da mistificação.
Assumiu emprego no
Ginásio Parnaibano e na Escola Normal.
Professor de desenho geométrico e matemática,
fazia suas métricas e matemágicas
em suas fantásticas e fantasiosas histórias.
Engenheiro e da Suíça, era um verdadeiro
canivete suíço: polivalente, pau para toda obra,
homem de sete ou mais instrumentos, substituía
qualquer dos professores faltosos.
Novo Barão de Munchausen
recheava suas aulas e recreios
com seus anedóticos e mirabolantes “causos”,
menino grande entre os demais meninos,
“barulhento, inconsequente e brincalhão”,
no dizer do ex-aluno Renato Castelo Branco.
Para sempre restou em sua mente a saudade
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SONATA EM DOR MAIOR
Elmar Carvalho
A mesa está posta,
mas os pratos estão vazios.
O meu povo não tem
talheres, nem colheres,
por isso come com
as mãos o que não
existe nos pratos.
O meu povo vota em
eleições para presidente
da república (de estudantes),
mas sonha votar
na eleição para
Presidente da
República
Federativa do
Brasil.
O meu povo deseja bater
palmas para as estátuas dos
heróis libertários.
Mas como se as mãos
e os pés estão
atados?
Em 1888 acabaram com a
escravidão no Brasil. Mas que escravidão?
Se antes os
escravos eram pretos,
hoje são de todas
as cores,
e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”.
Parnaíba,13.10.78
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A SUPER LUA CHEIA
Elmar Carvalho
O professor Nelson Rios,
regenerense de velha e boa cepa, através de comentário postado em meu blog,
sugeriu-me escrevesse sobre a super lua cheia, que ocorreria no sábado, dia 19.
Respondi-lhe que talvez o fizesse nesta terça-feira. Segundo os jornais e os
portais noticiosos, trata-se de um fenômeno natural, que só ocorre a cada 18
anos. Portanto, se Deus me mantiver vivo, só voltarei a revê-lo já setentão,
ou, mais precisamente, quando estiver com 73 anos de idade, posto que em poucos
dias completarei 5 ponto 5. Uma vez que a órbita de nosso satélite não é
circular, mas elíptica, há momentos em que a lua fica mais próxima da Terra,
atingindo o perigeu, ou mais distante, quando ocorre o apogeu. No primeiro caso
(perigeu), para um observador em nosso planeta, ela aparece 14 % maior e 30 %
mais brilhante; consequentemente, no apogeu ela aparentaria ser menor e ficaria
menos luminosa.
Portanto, no perigeu, o nosso
satélite alcança a sua maior luminosidade, o seu maior tamanho aparente, e fica
revestido de sua maior glória e beleza. Na verdade, metaforicamente, ou em
linguagem figurada, ou no sentido conotativo para o senso comum, ela teria
atingido o seu apogeu, pois teria alcançado o seu ponto máximo de brilho, de
beleza, de tamanho, de encantamento. Todavia, em se falando de órbita, ela
esteve mesmo no perigeu, e não no apogeu, embora, em termos de plasticidade,
devesse ser esta a palavra mais apropriada.
Aprendi a admirar o plenilúnio –
palavra que alguns poderão considerar pomposa, solene, ou de forte carga
poética, ou ainda motivada por algum pernosticismo – quando fui morar na zona
rural, por um curto período, em minha infância. Já então conhecia a música Luar
do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, compositor maranhense, à revelia de
seu sobrenome. Ficava extasiado, nas escuras noites da caatinga, a contemplar o
céu estrelado e a lua cheia, sobretudo ao nascer, ou quando ela se
entremostrava por entre os galhos das árvores ou através da cortina esgarçada
das nuvens, que por vezes mais se assemelhavam a um biombo de gaze.
Quando o astro se escondia detrás
das nuvens, minha mãe dizia que ela fora tomar banho. No período chuvoso, a lua
formava um círculo em torno de si, uma espécie de nimbo ou halo luminoso; minha
mãe, despertando-me em suas poucas letras para as metáforas e comparações e
para a poesia da natureza, falava que a lua, qual uma iara, tomava banho em sua
lagoa. Recordo que desde muito cedo mamãe me ensinou a admirar a beleza da
paisagem, o encantamento das flores, a delicadeza das pétalas das rosas, a
majestade de um urubu a planar no céu, a revoada giratória dessas aves,
verdadeiro balé aéreo, e as esculturas formadas pelas nuvens ao capricho do
cinzel etéreo do vento.
A lua cheia sempre foi associada
a mistérios e feitiços, fazendo despertar o imaginário das pessoas simples e a
criatividade dos artistas. Dizem que durante essa fase lunar os lobisomens se
manifestam, os cachorros hidrófobos se exacerbam; os loucos ficariam ainda mais
loucos, loucos furiosos, sob os influxos do plenilúnio. Os antigos almanaques
assinalavam a influência da lua sobre a germinação das sementes, sobre o
crescimento dos cabelos e das marés.
Os poetas simbolistas se quedavam
em êxtase, na contemplação da lua cheia e do luar, comparando-os a belas
monjas, pálidas e maceradas, enclausuradas em suas celas, em que os cilícios
laceravam suas carnes tenras e suas esplêndidas peles brancas. Viam a lua plena
como uma hóstia ou como um lírio, e imaginavam o luar como níveas e frígidas
neblinas, em que virgens esmaecidas se perdiam em êxtases pecaminosos ou em
tormentos inimagináveis, por causa de paixões malogradas ou interditas.
Certa vez, quando eu tinha três
anos de idade, mamãe me encontrou na árdua tarefa de emendar umas varas, no
terreiro de nossa casa. Intrigada com essa inusitada atividade, perguntou-me o
que eu fazia. Respondi-lhe que desejava futucar ou atrair a lua cheia, como se
ela fosse algum balão ou apetitosa fruta. Claro, não me recordo desse episódio,
mas apenas narro o que minha madre me contou.
Contudo, às vezes, ainda me sinto
esse mesmo menino, a porfiar em atingir a beleza e a bondade de meus mais
profundos sonhos e ideais, e alcançar assim o meu perigeu em relação a Deus,
que na verdade seria o meu apogeu de homem que não deseja perder a sua mais
intrínseca humanidade, apesar dos percalços e das ciladas; de homem que, mesmo
quando momentaneamente parece perder a sua Fé, não deixa de rezar
fervorosamente.
22 de março de 2011
| Fonte: Google |
ALEGORIA DA FOME
Elmar Carvalho
A pobreza um dia
bateu à minha porta
sob a forma de um menino
magro, sujo e maltrapilho.
E catou com suas mãos esquálidas
o sujo conteúdo
de meus sacos de lixo.
Foi quando eu saía
para o trabalho.
O menino, ou antes, um
bicho assustado correu.
Fui no seu encalço
em minha moto uivante.
O menino correu ainda mais,
varou cercas de arame farpado,
penetrou no terreno baldio por entre
arbustos espinhentos e urtigas,
com olhos e gestos de terror,
como se eu fosse espancá-lo.
E eu somente queria dizer
que ele podia catar o lixo.
Apenas não espalhasse
o resto do lixo
sobre a calçada.
Mas o meu pequeno irmão
feito bicho espavorido
tem medo dos outros bichos
que se dizem seu irmão.
E o meu irmão tem razão.
| Fonte: Google. Imagem melhorada pela IA GPT |
TRIBUTO A MONSENHOR SOLON
Wilton Porto
Da Academia Parnaibana de Letras
Do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba
“Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
O! bendito o que semeia
Livros... livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É gérmen – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar”.
(O livro e América – Castro Alves)
“Vendo-o, era forçoso estimá-lo. Estimando-o ninguém podia esquecê-lo.”
É impossível falar de educação em São João do Piauí, sem lembrar nomes como Dr. Joaquim Vaz da Costa, Antônio Cavalcante, Adail Coelho Maia, Genésia Arraz, Laura Arraz, Espedita Alves e tantos outros. Porém, a grande estrela foi Monsenhor Solon. É bem verdade que o poeta inspiradíssimo, Adail Coelho Maia, também imprimiu sua marca na cidade, contudo Monsenhor Solon até os dias de hoje contribui para uma educação de relevância maior na cidade de São João do Piauí.
Em 1953 Solon fundou a “Escola São João”. Em 1956 cria o “Instituto São João Batista”.
Ali, iniciava-se a grande arrancada para o desenvolvimento educacional e cultural, além da assistência social para a juventude sanjoanense.
Escola “São João” e ginásio “Frei Henrique” atingiram uma respeitabilidade tão grande, que ouvi muitas vezes ser essas escolas o “primor” de educação do Piauí.
Ingressar no ginásio “Frei Henrique” não era fácil. Tinha-se que ter preparo. Lembro-me que à minha época de primário, o grande medo do alunado era o exame de admissão – “verdadeiro vestibular!” O exame de admissão era obrigatório.
Quando eu fazia a quarta série do primário, uma das professoras chamou-me a mim e ao Nerinho e disse: “Vocês dois têm condições de fazer exame. Façam”. Eu e Nerinho (Moura Fé) nos olhamos.
Não sei bem se admirados, gratos, assustados... Arregalamos os olhos para a professora. Com as vozes embargadas engolimos cuspe em busca de salvação. A professora nos fez relaxar e afirmou: “Não se intimidam, vocês serão aprovados, tenho certeza”.
A professora Valdinê (assim a chamávamos) falava pela boca de um anjo, ou fora intermediária de um deles. Fomos aprovados. Eu, por exemplo, sem dificuldade.
Vocês podem imaginar a nossa alegria! Não tínhamos apenas sido aprovados no vestibular, digo exame de admissão, mas sem ingressar no quinto ano, sem contar que iríamos participar daqueles desfiles fenomenais, vestir a farda do “Frei Henrique”, estudar numa das escolas mais cobiçadas do Piauí!
Monsenhor Correia de Aragão não era filho de São João. Contudo é como se o fosse. Não só ele se considera como se filho o fosse, nós, filhos daquele maravilhoso torrão, também sabíamos que ele o era.
Em 16 de dezembro de 1968, o então prefeito Claudionor Paes Landim de Oliveira confere ao vigário Pe. Solon, o título de cidadão sanjoanense, fazendo justiça àquele que foi enviado por Deus para servir a Deus servindo aos piauienses, principalmente a São João do Piauí.
Em cinco de janeiro de 1969, o povo sanjoanense mais uma vez reconhece o valor do Monsenhor Solon Aragão. Ele continuava firme, comprometido, competente como vigário de São João do Piauí. Desta feita, a festa que lhe dirigiam era por conta das suas bodas de prata de sacerdócio.
A igreja matriz lotada. Os sinos tocando. Os acordes vibrando distante. Na calçada da igreja, muitos se acotovelam. Alguns jovens aproveitam para namorar. Os anjos nos céus com suas clarinetas tocam “Ave-Maria”.
A missa concelebrada mexe com o coração de cada um. Dos olhos de Deus uma lágrima cristalina rola rosto abaixo. E, com certeza, Deus gritou bem alto: “Este é um dos meus filhos muito amados”!
Monsenhor Solon sempre teve ânsia de servir. Era um servo de Deus: ele encarnou a frase de cristo: “Eu não vim para ser servido, contudo para servir”. Como religioso, estava presente na igreja como Cristo na hóstia sagrada; e como educador, estava presente na escola como o barro entre tijolos.
Em 1970, funda o primeiro estabelecimento de ensino de 2º grau do município de São João do Piauí – a Escola Normal Genésio Arraes.
Uma cidade com tantos atributos, com uma escola-modelo, não podia deixar de ter uma escola para preparar professores – o espírito desbravador do vigário, a visão microscópica do educador tinha que se movimentar, criar, servir... E a escola surge, cheia de luz, para iluminar, com certeza, os cérebros famintos de conhecimentos desejáveis.
As décadas de 60 e 70, segundo quem viveu em São João do Piauí, foram áureas. A efervescência política, educacional, cultural e esportiva foi incomparável. O esporte era espetacular. O Ginásio “Frei Henrique” imbatível. Chegou a emprestar oito craques para a seleção da cidade.
Lembro-me bem, no que diz respeito ao esporte, de nomes como Bibiu, Zé Paulo, Zé do Dequinha, Chico Afonso. Eram capazes de destruir qualquer defesa. Bibiu, meu irmão de sangue, era a estrela maior. O Tubéu era o unha de gato. No gol não passava nada. O David, lá das bandas do Jacaré, era um beque inigualável. Bons craques São João tinha! Pandu, João de Vita e tantos outros moram em nossa memória.
O Ginásio, a educação como um todo, fora decisiva para essa alegria, para essas lembranças.
As festas juninas sempre foram marcas registradas da cidade, tendo como dedo propulsor de frente o Monsenhor Solon Aragão.
Arrastava multidões. Aquelas músicas amplificadas atingiam o interior da cidade e de lá, aos montes, vinham se juntar a nós, os interioranos.
Eu, especialmente, sensibilidade de poeta, não tinha como muitas vezes deixar de verter lágrimas ao ouvir aquelas músicas, que penetravam torrencialmente por todos os meus poros.
Monsenhor Solon sabia como nos emocionar. Ele era mensageiro de Deus. Sua inteligência fulgurava de forma incomparável. Tinha domínio do verbo, por isso, sua oratória contagiava. Sem dúvida, um sábio, o que o levou a ser Presidente da Fundação Cultural do Estado do Piauí.
Professor exímio, muitas vezes ele chegava na sala de aula e perguntava: “Em que matéria vocês estão sem aula?” Ali, ele entrava, e dava uma aula inesquecível. Com as aulas dele, eu tirava nota máxima sem estudar. Até ensinando inglês, ele cintilava.
O momento máximo da carreira desse sacerdote foi o centenário da Igreja Matriz de São João Batista, em São João do Piauí.
Os sanjoanenses espalhados pelo Brasil acorreram para São João naquele julho de 1975.
Chorei muito. É que saindo de São Paulo, junto com meu cunhado e irmã, para essa festa, com dez dias de antecedência, cheguei depois dos principais acontecimentos. Alcancei somente o baile, no clube, após muito malabarismo.
O nosso carro quebrou, fundiu o motor em área deserta, porque fizemos trajeto via Brasília e a estrada, à época, estava uma lástima.
Eu fiquei só de ouvir os comentários emocionados dos parentes. Depois, eu fechava os olhos, e lembrava-me das festas juninas, das celebrações, das músicas, dos sermões de Solon, dos passeios pela praça, das namoradas, da escola, do futebol, dos poemas, do grêmio, da efervescência cultural, onde muitas me viam como destaque... E chorava.
Por muito tempo, o sanjoanense cantou uma música daquela comemoração centenária:
“São João, São João, São João.
Meu São João do Piauí...”
Eu me esqueci da letra. Porém essa música por muito me deixou extasiado. Quando eu a cantava, lembrava-me da festa que perdi. É lógico que todo o meu ser entristecia-se.
Dia 20 de janeiro de 2001, quando eu estava em Teresina, no meu curso de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), meu irmão Afrânio, que já havia ligado para Parnaíba (eu não estava hospedado na casa dele), informou-me do desencarne de Monsenhor Solon.
Não dava para telegrafar. Resolvi que escreveria algo. Sou admirador de Solon e admirado por ele. Não poderia deixar de me reportar. Como diz Antonie de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Cativei Monsenhor Solon. Fitei um dia nos seus olhos vívidos e percebi um homem incomum, uma luz que, com certeza, em outras paragens, melhor estará arregaçando as mangas para que o seu ideal de servir ao sanjoanenses seja mais vibrante, e agora com melhores condições, porque está do lado esquerdo (coração de Deus).
Monsenhor Solon foi uma trombeta descida dos céus para alertar os homens da importância da fraternidade. Foi uma chama ardente colocada no alto da Igreja Matriz de São João do Piauí, para que todos pudessem seguir caminho sem se perder na escuridão do sofrimento. Foi o silêncio em oração para que Deus, por meio dele, ouvisse nossos apelos. Fora o advogado daqueles que, em momentos críticos, se perdiam na descrença de que o Pai existe. Revelou-se o político que fez pelo prazer de fazer. Sem dúvida alguma, um pedaço do céu que desceu à terra.
Neste mundo e numa época de tantas atrocidades, tinha que surgir, na terra, homens completamente voltados para os interesses populares. Homens que em milênios de caminhadas conseguiram dominar os ímpetos dos desejos materialistas e penetraram fundo na essência do próprio ser.
Esses homens não negaram a si mesmos em prol dos outros. Compreenderam o seu dever, aprenderam sobre o verdadeiro amor e se realizam no servir.
Monsenhor Solon, o senhor é um desses homens! Aí está o motivo da minha admiração. Houve momentos em que o senhor agiu de maneira enérgica, mas não se pode ser líder, sendo só açucarado. Porém no âmago do seu âmago, nas entranhas da sua alma, vibra uma doçura ímpar.
Ninguém nesta vida se faz respeitado, se dentro de si não desenvolve a pureza divina que nos é latente! Os grandes iluminados deixam transparecer essa pureza em tudo que fazem. E, nós, os menos dotados, nos deixamos guiar, porque sabemos (e muitas vezes sem saber) que o líder nos está levando para o caminho do bem.
Sabemos que o homem não morre. Monsenhor Solon está vivo num plano de vida, numa outra dimensão.
Digo: Mons. Solon. Que bom, você ter descido à terra! Que maravilha que o senhor fora para São João do Piauí! Que ótimo, eu ter vivido em São João, na mesma época em que viveu o enviado de Deus! Que privilégio, eu ter sido seu amigo! Mons. Solon, luz cristalina, fonte indispensável ao sedento, anjo de muitas asas a abrigar o viajor cansado do sol, da dor. Lá dos céus, onde agora habita, ore por nós. De vez em quando, deixe-nos abrigar-nos em suas asas. Porque sabemos que em todo o sem ser, encontramos a paz buscada. Que os nossos laços sejam cada vez mais firmes e salutares. Bom regresso à verdadeira Pátria. Meus aplausos pelos louros da vitória! Do dever cumprido com sabedoria!