segunda-feira, 19 de outubro de 2020

ORGULHO DE SER PIAUIENSE

Fonte: Google/Wikipédia


ORGULHO DE SER PIAUIENSE


Carlos Henriques de Araújo

Membro da UBE-PI

 

Não somos melhores nem piores do que ninguém. Somos nós, simplesmente. À nossa maneira, com nossas limitações, nossas riquezas, nosso potencial e, principalmente com nossa força de vontade. Os piauienses resistem a todas as dificuldades que lhes são peculiares, e a outras, que lhes foram impostas no decorrer de várias décadas por razões as mais diversas: históricas, políticas, geográficas, sociais e econômicas.

 

Hoje, o Piauí assiste ao crescimento de seu povo, da sua economia e de suas potencialidades turísticas, agrícolas, econômicas e culturais. O Piauí não é mais o estado mais pobre do Brasil, embora exista ainda muita pobreza, por falta de políticas econômica e social mais eficientes, de governos e empresários compromissados com o social e de uma sociedade civil mais organizada.

 

O Piauí é um estado rico em potencialidades e em oportunidades. É o estado que tem a menor faixa litorânea, mas, assim como nos pequenos frascos estão os melhores perfumes, no seu pequeno litoral estão as praias mais bonitas do Brasil, de águas claras e mornas, de areias brancas e sem poluição, recheadas de belezas naturais, com ventos adequados para prática de esportes náuticos e geração de energia eólica. Nele desemboca o rio Parnaíba, o maior delta em mar aberto das Américas e o segundo maior do mundo com 85 ilhas de praias paradisíacas.

 

No Piauí, o sol do equador brilha mais forte e seu calor proporciona um clima tropical saudável, propenso ao cultivo de frutas tropicais para exportação, e à produção de mel de abelha, com floradas o ano inteiro. Seu solo é ótimo para o plantio de mamona matéria prima utilizada na produção do biodiesel. Foi o primeiro estado do Brasil a desenvolver esta tecnologia. Seu subsolo foi aquinhoado com os maiores lençóis freático do país, quiçá do mundo.

 

O Piauí tem o maior rio genuinamente nordestino, inúmeras barragens, lagoas propícias para projetos agrícolas de irrigação, piscicultura, carcinocultura e lazer. É recordista na produção de grãos. É o maior produtor de cera de carnaúba do mundo. É o segundo maior produtor nacional de mel de abelha, e tem um dos maiores e melhores rebanhos de caprinos do Brasil.

 

Na medicina, é uma referência para o Norte e Nordeste. Na cultura, é o berço do homem americano, tem a melhor escola do ensino médio do país e um pólo de ensino superior com uma excelente estrutura. Recebe estudantes de todo o Meio Norte, que sobressaem nos concursos públicos pelo Brasil afora.

 

O Piauí é uma terra de artistas: músicos, intelectuais, artesãos, humoristas, escritores, poetas, jornalistas e pintores de renome nacional e internacional, como Carlos Castelo Branco, mestre Dezinho, Evandro de Lins e Silva, Da Costa e Silva, H. Dobal, Mario Faustino, Torquato Neto, Nonato, Gerson Castelo Branco, João Cláudio Moreno, Clodô, Climério, Luís Paiva, Lina do Carmo e muitos outros.

 

Se não bastasse este acervo cultural de outrora, o Piauí foi vencedor do concurso miss Brasil, teve um colégio eleito como um dos melhores do Brasil, e sua Cajuína como a melhor do Brasil.

 

Foi considerado o berço do homem americano e o maior produtor de Opala no mundo. Teve o maior Neurocirurgião do Brasil e foi destaque nas olimpíadas de matemática e sua escola em Cocal dos Alves, foi recordista em medalhas nesta mesma olimpíada.

 

O Piauí conta hoje com o maior parque eólico do Brasil, teve a primeira judoca a ganhar medalha de ouro numa olimpíada e o maior YouTube do Brasil. Tem o juiz federal mais jovem do Brasil e uma das modelos mais poderosas da atualidade que faz parte da Victoria Secrets. E uma de suas escolas conseguiu o maior ranking no ENEM  -  o Instituto Dom Barreto.

 

Teresina, sua capital é uma cidade abraçada por dois rios: o Parnaíba, que nasce na Serra das Mangabeiras, na fronteira com o Estado de Tocantins é o segundo maior rio do Nordeste, depois do São Francisco; e o Poti, saído da Serra da Joaninha, no Ceará, como um pequeno filete d’água que vai tomando corpo, atravessando chapadas e cânions, até se encontrar com o Parnaíba no bairro Poti Velho, no fenomenal Encontro das Águas.

 

Ela nasceu urbanisticamente moderna. Foi uma das primeiras cidades do Brasil em que o projeto chegou antes da ocupação do espaço urbano.  A Chapada do Corisco, como ficou conhecida, começou a ser traçada, a partir de 1852.

 

No extremo norte, repousa tranquila e mimada pelas águas do rio Igaraçú, a linda cidade de Parnaíba, um potencial turístico com 24 km de litoral e principal braço do delta, que aguarda de braços abertos os turistas.

 

A cidade já teve seus tempos áureos, foi a fortaleza da economia piauiense. Hoje, seus monumentos históricos são testemunhos desta época. Seu conjunto arquitetônico é um espaço cultural de inestimável valor, cuja restauração assegurou ao povo piauiense e aos seus visitantes a preservação de sua memória e do Estado.

 

O Piauí não é só Teresina e Parnaíba, tem outras cidades bonitas e com pessoas maravilhosas, trabalhadoras e determinadas em pleno desenvolvimento, apesar da “crise econômica” por causa da pandemia do Coronavirus que o país passa, e também como consequência desses governos desastrados nos últimos dez anos.

 

Próximo da capital, as cidades de Piripiri, Campo Maior, Picos e Floriano tem indústrias, comércio e prestação de serviço. Na parte sul, várias cidades em pleno desenvolvimento, atraindo grandes empresários do sul do país para a plantação de soja, instalação de usinas eólica e exploração de minérios. 

 

Parabéns Piauí por mais um ano participando do crescimento deste Brasil querido e amado por todos nós.

Leituras compartilhadas: Mário Faustino


 

BARRAS DAS SETE BARRAS


 Republicado em virtude de haver sido reeditado, com maior resolutividade das imagens.

domingo, 18 de outubro de 2020

Seleta Piauiense - Paulo de Athayde Couto

 

Fonte: Google

Estilhaços


Paulo de Athayde Couto (1956)


Sinto a tristeza

Em cada olhar.

Sinto a loucura 

Em cada gesto e

O medo de gritar.


Morre o grito

Na garganta

De cada um.


Olhar acrílico,

Olho no olho,

Dente por dente.

Estilhaços de ideias,

Esfacela e mata.


Um ser vagamente

E se perde.

Infinitamente.

No íntimo, 

O vazio total.

sábado, 17 de outubro de 2020

Gogó de Sola

 


Gogó de Sola


Pádua Marques

Romancista, cronista e contista

 

Pouco mais uns minutos das oito da manhã e Raimundo Isidoro Castro, o Gogó de Sola, vindo dos Tucuns, já estava na porta do Hotel Carneiro esperando que um hóspede que ele sabia ter vindo do Rio de Janeiro, saísse do quarto pra que naquela conversa demorada e com a voz grossa que lhe deu o apelido de fama, fosse pedir um obséquio. Que o ilustre levasse umas cartas suas pra Rádio Nacional e a Mayrink Veiga pedindo atenção nas letras de suas composições aos cantores de maior sucesso.

Aquilo era coisa que fazia toda semana, bastando saber que alguém dos lados de lá estava em Parnaíba. Naquele ano de 1941 existia uma guerra na Europa, Parnaíba ainda fazia grandes negócios e fortunas com a cera de carnaúba, babaçu e o couro de boi, mas seus comerciantes e industriais estavam ficando com medo. Os invernos davam trabalho ao prefeito Mirócles Veras e a Rádio Educadora continuava sendo o desejo daqueles que procuravam fama.  Gogó de Sola continuava tentando a sua.

Era um sujeito de boa estatura, cara de gavião, escuro, cabelos lisos à custa de brilhantina. Andava sempre elegante, embora pobre, vestido de camisa de cambraia e calça de linho branca, cinto passado, sapatos lustrados e um paletó, mas sem a gravata. Vivia pelo centro, desde o Hotel Carneiro, Hotel Parnaíba, a pensão de Nagib, o Cine Éden, a Casa Inglesa e o estabelecimento de seu Ranulfo Raposo, na rua Grande.

Toda aquela elegância de Mundico Gogó de Sola tinha um destino. Ele era seresteiro e junto com outros colegas desocupados, o Bené Euclides, os irmãos Tião Sidó e Genésio, vindos da Guarita, eram de varar as noites e as madrugadas de sábado pra domingo tocando violão de porta em porta. Coisa paga.

Juntava gente e as moças mandando bilhetes com os nomes daqueles rapazes que elas queriam dedicar as músicas de Sílvio Caldas, Luís Barbosa, Pixinguinha, Carlos Galhardo, cantores da Rádio Nacional e da Mayrink Veiga. E a fama de Gogó de Sola e seus pariceiros alcançou Buriti dos Lopes, Cocal, Bom Princípio, Barra do Longá, Araioses, João Peres e a Tutóia no Maranhão.

Gogó de Sola e seus colegas eram chamados pra se apresentar até nas casas de gente rica da Nova Parnaíba, da rua Grande e nas chácaras mais distantes, em aniversários, casamentos. Certa vez foram na casa de um industrial e foi tanta comida, tanta bebida, presentes, uma moeda maior aqui e acolá que até deu pra levar pra casa. Os outros mais acanhados, que nunca haviam visto fartura na vida, bebidas e comidas finas, acabaram deixando de mão. Ele não. Pediu um saco na cozinha e levou o que deu, até peru assado! Passou três dias comendo e dando de comer pra mulher e o menino pequeno, aquele que comia barro atrás de casa!

Os comerciantes do centro de Parnaíba não gostavam porque ele, Gogó de Sola, com aquela voz alta e grave e a mania de ser artista, acabava tirando a atenção dos fregueses e dos caixeiros. Um dia até que veio propor a seu Miguel Carcamano uma apresentação no Cine Éden, mas o sírio exigiu um monte de coisas, firmas que fizessem reclames pra garantir a bilheteria. Mas a história era outra. Sendo artista de subúrbio, pouco ia levar gente pra comprar ingressos e ele não estava dando murro em ponta de faca naquele exato momento.

Gogó de Sola bateu perna em tudo quanto foi firma grande de Parnaíba, mas todas elas bateram a porta na cara dele. Como vingança ficou dois dias no coreto da praça da Graça cantando suas composições e com pilhérias, desaforos, xingando todos eles, aqueles agiotas, unhas de fome,  cornos, filhos dessa e filhos daquela! Um comerciante da rua Grande foi até o chefe de polícia e pediu providências duras. A ordem foi que o artista maneirasse ou podia se considerar homem preso por perturbação da ordem pública!

Fazia tempo que o chefe de polícia vivia se incomodando com aqueles sujeitos sem ofício. Sem ofício? Sim, porque aquilo era ocupação de gente? Cantar pelo meio da rua e incomodando as famílias de madrugada, não deixando ninguém dormir, desde a Guarita, Macacal, até a Nova Parnaíba e além do mais o mundo estava dentro de uma guerra na Europa e todo mundo já deveria estar se pelando de medo. Tinha ouvido dizer que quando fosse na hora do pega pra capar, muita gente iria chorar feito menino! Ouviu na Rádio Educadora!

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A primeira professora a gente nunca esquece




A primeira professora a gente nunca esquece 

Carlos Rubem 

No dia em que cheguei à casa do vovô Joel retornando do meu primeiro dia de aula do curso primário, em 1965, a minha tia Rita Campos, educadora que era, fez-me uma festa. Falei das minhas impressões da escola. Ela indagou-me qual era a mais bonita professora do “Costa Alvarenga”. Com toda sinceridade infantil, disse-lhe que não sabia dizer, mas a mais feia era Carolina Raposo!  Este fato é sempre lembrado no seio familiar.

A minha primeira professora foi a tia Cocota, Maria Reis Freitas, irmã do meu pai, Ditinho. 

Sentava, em dupla, bem na frente numa carteira pesada, larga. Ao meu lado, ficava o Aécio Nordman Lopes Cavalcante, meu compadre, poeta. Nunca me esqueci  o significado de “Pindorama” por ela ensinado: “É palavra indígena que quer dizer terra, lugar das palmeiras, nome como era inicialmente conhecido o Brasil”. 

Gostava de bater com uma régua de madeira sobre a mesa pedindo silêncio e na minha cabeça, vez por outra, por causa das minhas travessuras. Ai, como ainda dói... 

Nas datas cívicas, com o dinheirinho da "caixa escolar", distribuía para os alunos, em fila indiana, um pãozinho com recheio de goiabada. Uma vez, porque sobrou uma única guloseima, quis comê-la. Tia Cocota ralhou-me: “Não, este aqui é de um aluno que está doente, vou mandar levar na casa dele!”. 

Foi minha mestra do 1º ano “A” até o 2º, em 1967, época em que se aposentou. No final do ano, a Diretora do educandário público, Dona Sinhá Torres, e demais professoras, chegaram de surpresa no último dia de aula e, numa simples e tocante solenidade, prestaram-lhe uma homenagem. Houve cânticos. Tomei a iniciativa e pronunciei o meu primeiro discurso. E acho que me desincumbi bem desta tarefa, apresentei, em nome dos meus coleguinhas, meus agradecimentos, etc e tal. Fui ovacionado!

A partir do ano seguinte, 1968, quem assumiu a turma foi a professora Rosário Nunes Brandão.  

Na conclusão do curso primário, fiz questão de ter como madrinha de formatura a tia Cocota. Ela ficou radiante com meu gesto...

Hoje (15/10), dia consagrado aos Mestres, gostaria de expressar meu regozijo pelo transcurso desta data a todos os professores  avocando, como ora avoco, a memória da tia Cocota. 

Parabéns, minha primeira professora!  

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A BANDA MUNICIPAL DE CAMPO MAIOR NO CONTEXTO DA ERA VARGAS


Banda Municipal de Campo Maior criada na gestão do prefeito Francisco Alves Cavalcante– década de 1930. Chico Alves chegou a requisitar do governo estadual instrumentos usados da Banda da Polícia Militar do Piauí para a da prefeitura. Conforme determinava as normas do governo federal, todos os músicos devidamente uniformizados semelhantes aos fardões militares.


A BANDA MUNICIPAL DE CAMPO MAIOR NO CONTEXTO DA ERA VARGAS

 

Celson Chaves

Professor e historiador

  

Durante a Era Vargas (1930-1945), principalmente na fase do chamado Estado Novo, o presidente Getúlio Vargas fez uso da propagada para manter-se no poder. Ele não mediu esforço político e nem recurso público. Criou o Departamento de Imprensa e Propagada (DIP) para cuidar da imagem e ideologia do seu governo. A educação e a cultura sofreram forte intervenção política. Rádio, cinema, teatro, jornal, literatura e música estavam sob forte suspeição e fiscalização do governo federal. O regime usou a máquina de comunicação, a educação e a cultura para aproximar Vargas das massas.

 

Nesse contexto político nacional de tensão e censura, surge à banda de música da prefeitura de Campo Maior, criada na gestão do coronel Francisco Alves Cavalcante, com o objetivo de servir a população e de instrumento ideológico do nacionalismo varguista. A relação entre música e política é antiga. Em Campo Maior existe desde sempre.

 

A banda municipal de Campo Maior foi composta de músicos profissionais e amadores. Ela tocava nos grandes eventos e desfiles cívicos da cidade, como o 7 de Setembro, o 1º de Maio, Dia do Índio e de Tiradentes, nos aniversários do município e do presidente Getúlio Vargas. Os desfiles cívicos passavam por uma rigorosa supervisão do governo municipal. O evento solene era executado obedecendo à cartilha elaborada pelo Ministério da Educação e pelo DIP. O coronel Chico Alves, como era conhecido Francisco Alves Cavalcante, seguiu fielmente a política do DIP, fazendo da educação e da cultura campo-maiorense instrumentos de propagada política do governo federal.

 

A marcha cívica tinha como objetivo massificar o sentimento nacionalista na população e a banda de música servia a este propósito. A música encanta, educa e também aliena. Uma arma poderosa. O governo Vargas tornou o ensino de música obrigatório no Brasil. O compositor e maestro Heitor Villas Lobos foi o grande responsável pela instalação do programa nacionalista do governo federal por meio da música. Villas Lobos implantou o Canto Orfeônico no Brasil e compôs músicas patrióticas para escolas e eventos civis.

 

O desfile cívico de 1934 foi organizado obedecendo aos ditames do governo federal, a ponto da prefeitura produzir um “relatório” descrevendo os resultados do evento em Campo Maior para o interventor Federal Dr. Leônidas de Castro Melo: “Acusando a recepção do telegrama de V. Exª. sob o nº 400, de 6 do corrente mês, em que foi transcrita a recomendação do Sr. Ministro da Justiça, relativamente às festas comemorativas do dia 07 de Setembro, venho informar a V.Exª que nesta cidade foi esta grande data histórica da nossa nacionalidade, solenizada entusiasticamente, com a participação de todas as autoridades, classes sociais e do povo em geral” (Memorando de Francisco Alves Cavalcante para o interventor Federal Dr. Leônidas de Castro Melo, 8-9-1934).

 

Nessa parada cívico-militar, a banda municipal utilizava-se de repertório, uniforme e formação instrumental característicos de corporações militares para reproduzir as cerimônias nacionais que evocavam uma consciência nacionalista idealizada pelo regime Vargas. O hasteamento da Bandeira, discursos de exaltação ao nacionalismo e aos heróis da pátria, a execução do Hino Nacional, tudo era organizado conforme as orientações ideológicas do governo federal. A banda municipal era um incremento importante nessa cenografia ideológica.

 

“Uma conferência alusiva à comemoração às 7 horas da manhã, à praça Rui Barbosa, presente o prefeito municipal, o juiz de direito, o delegado de polícia, outras autoridades e inúmeras pessoas gradas; sob a direção das distintas educadoras do Grupo Escolar “Valdivino Tito” e da Escola particular “Maria Auxiliadora”, formava em alas, que estendiam por toda face oriental daquele logradouro público, os alunos daqueles estabelecimentos de ensino, devidamente fardados. Ao som do Hino Nacional, tocado pela banda municipal e cantado pelos estudantes, era içada a Bandeira Brasileira” […](Memorando de Francisco Alves Cavalcante para o interventor Federal Dr. Leônidas de Castro Melo, 8-9-1934).

 

Alunos do antigo Instituto, hoje Colégio “Leopoldo Pacheco”, usando fardamentos escolares semelhantes aos uniformes militares. Década de 1940.

Foto: http://bitorocara.blogspot.c/search?updated-max=2012-01-28T14:50:00-08:00&max-results=50

 

Alunos do antigo Instituto, hoje Colégio “Leopoldo Pacheco”, usando fardamentos escolares semelhantes aos uniformes militares. Década de 1940.

Foto: http://bitorocara.blogspot.co/search?updated-max=2012-01-28T14:50:00-08:00&max-results=50



A sonoridade e a expressividade ritmada da banda, o repertório sincronizado conduzia à multidão as homenagens aos heróis da pátria. Músicos perfilados e uniformizados remetiam as disciplinas e aos fardões militares. O patriotismo estava em alta em Campo Maior. O percurso utilizado pelo cortejo cívico era curto. Saia da praça Rui Barbosa em direção a prefeitura (praça Bona Primo). A história nacional era a principal fonte de inspiração nacionalista. Era um ato memorável as grandezas do passado.

 

 […] “Logo após, ao pé do Pavilhão Nacional, pronunciava o advogado Antonio da Costa Leitão, emocionante conferência acerca da magna data, descrevendo-a em todos seus empolgantes detalhes e rememorando os nomes dos grandes estadistas, promotores da nossa independência. Profunda foi à sensação deixada no espírito do povo pela linda e patriótica oração proferida pelo conferencista. […] (Memorando de Francisco Alves Cavalcante para o interventor Federal Dr. Leônidas de Castro Melo, 8-9-1934).

 

[…] “Em seguida, debaixo de respeitoso silêncio, comigo, prestou o povo, ‘juramento à Bandeira’ conforme as instruções do seu telegrama”[…].

   

[…] “Ainda a meu convite, acompanhou o povo a transposição da Bandeira Nacional, conduzida por quatro alunas do Grupo Escolar e seguida dos demais alunos em forma, para o prédio da prefeitura municipal, em cujo mastro, ao som do Hino Nacional e de cantos patrióticos, foi erguido o “auriverde”, sob os vivas aplausos da multidão”. […] (Memorando de Francisco Alves Cavalcante para o interventor Federal Dr. Leônidas de Castro Melo, 8-9-1934).

 

A banda municipal teve papel crucial em todo o percurso. Levantava a moral e o ânimo da multidão “ao som do Hino Nacional e de cantos patrióticos”. O Centro Operário Campo-Maiorense, sindicato ligado à política varguista, realizava o Dia do Trabalho com ajuda da banda da prefeitura.

 

O patriotismo era exaltado no Hino Nacional, no hasteamento da Bandeira, no repertório da banda municipal, nos uniformes dos músicos e dos estudantes. Uniformes de inspiração militar. O Ginásio Santo Antônio montou um coral só para cantar o Hino Nacional, criação da professora Valmira Napoleão.

 

O prefeito Francisco Alves Cavalcante, construiu em 1933, a praça Rui Barbosa com coreto, em que a banda municipal apresentava-se duas vezes por semana. Às quintas e no domingo. A banda embalava o som da mocidade e dos enamorados da praça. A Rui Barbosa era o principal point dos jovens.

 

A banda municipal teve progressos e retrocessos. Enquanto esteve no poder, Francisco Alves Cavalcante a manteve no auge. Chico Alves entregou a banda ao comando do maestro-regente José Cardoso da Silva. Buscou recursos e solicitou instrumentos usados da banda da Política Militar do Piauí para a da prefeitura.  Na administração seguinte, o prefeito Raimundo Ney Baumann, devido à pouca habilidade política e a incapacidade de dialogar com os músicos, a banda foi quase extinta.

 

Esta foto é da Banda de música da prefeitura de Campo Maior e não a corporação musical Lyra de Santo Antônio como afirmam alguns saudosistas frequentadores do antigo Bar Santo Antônio, onde a mesma encontrava-se exposta numa galeria. As bandas municipais eram as únicas bandas civis permitidas a usarem uniformes semelhantes ao militares.


O prefeito Ascendino Pinto de Aragão, durante sua gestão (1943-1945) reestrutura a banda municipal com o nome de “Jazz-Band”. Na década de 1940, o Jazz norte-americano tornou-se um fenômeno no Brasil, apresentando-se como gênero musical moderno no mercado nacional. A música estrangeira não era bem vista dentro do projeto nacionalista dos anos de 1930 e 1940. Para alguns estudiosos, o Estado Novo incentivou a música erudita brasileira formatada por Heitor Villas Lobo e não impediu a inserção da MPB nas rádios e a troca cultural com as musicalidades estrangeiras.

 

No Brasil, o Jazz ganhou características próprias. As bandas brasileiras regionais influenciadas pelo Jazz norte-americano, tanto na canção como na maneira de tocar formaram suas Jazz Band. A “Jazz Band de Campo Maior” teve um sucesso meteórico. Tocou em várias cidades piauienses. Foi chamada para participar do 6º aniversário do Estado Novo em Teresina. O grupo era composto pelos seguintes músicos: Francisco Andrade Carneiro (cearense, maestro-regente da banda), José Correia Jardim (diretor da banda), Luís Correia Jardim e Alfredo Pereira da Silva (pistonista). O Jazz teve uma boa aceitação entre o público campo-maiorense.

 

Além da “Jazz Band de Campo Maior”, músicos independentes realizavam shows de jazz  na cidade. O boêmio Raimundo Curripião Proquet, baterista e músico, sempre que chamado realizava festas dançantes no cabaré da Izabelona ao som de jazz. O cabaré da Izabelona, localizado no baixo meretrício da cidade, era um dos locais mais movimentados da noite campo-maiorense por conta das badaladas festanças sob os mais diversos gêneros musicais.  Muitos sanfoneiros apresentavam-se também no “palco” do cabaré. Forró, jazz… O bordel da Izabelona era um espaço democrático e de muita animação. Havia festas praticamente todos os finais de semana no lupanar da dona Isabel. Durante a semana, as noites ficavam animadas ao som da radiola.

 

Na gestão do prefeito Raimundo Nonato Monteiro de Santana a despesa com a banda municipal não passava de Cr$ 6.000,000. O recurso público destinado à banda ficou estagnado durante a década de 1950. Com recurso reduzido, o conjunto musical foi definhando. Percebendo a necessidade de criar mais uma banda de música na cidade, Antônio Bona Neto, popular Antônio Músico, decidi formar de modo espontâneo a corporação musical Lyra de Santo Antônio. Segundo o cronista Irmão Turuka, a Lyra era composta inicialmente pelos seguintes membros: Oscar “o nico” (Saxofone), Miguel Rosa e Luís Lima (Clarinete), Luís Neves da Silva (Trompete), Antônio Moreira (Bombardino), Gentil “o perneta” (Contrabaixo) Antônio Zumba (Trombone) e Marcos Oliveira, “ boi laranja” (Compasso).

 

As informações que temos sobre a corporação musical Lyra de Santo Antônio são de que a mesma fora criada por Antônio Bona Neto, apelidado de Antônio Músico, filho do músico e compositor Honório Bona Neto. Seu pai criou o primeiro coral da Catedral de Santo Antônio. As informações sobre a Lyra são relatos orais. Formada por músicos amadores, o conjunto teve uma experimentação musical de curta duração. Ela acabou sendo incorporada ao patrimônio público da banda municipal. Os custos para mantê-la eram altos. Foi louvável a iniciativa de Antônio Músico em querer manter um grupo musical, mesmo que de modo improvido.


A Lyra de Santo Antônio se apresentava no coreto da Praça Rui Barbosa, logo após a missa da matriz. O local era o encontro da juventude campo-maiorense. Irmão Turuka descreve essa cena cultural com vivacidade em suas famosas crônicas publicadas no jornal A Luta. Turuka foi o primeiro cronista musical de Campo Maior. Ele escreveu três textos ontológicos (“Lyra de Santo Antônio”, “Serestas e Seresteiros” e “Eu Vi a Banda Passar”) sobre as bandas e os músicos que marcaram a memória e a história cultural de Campo Maior, na segunda metade do século XX.

 

Os dias de apresentações da corporação musical eram as tradicionais quintas e domingos. A Lyra era composta por músicos profissionais e amadores. Passado a fase de improvisação, ingressa no quadro da corporação experientes músicos como o maestro José Cardoso da Silva, os irmãos José e Luiz Correia Jardim, Antônio Catita e Benedito João de Maria.     

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Bar do Augusto

 


LAMBUZOU-SE NA LAMA PARA NÃO SER PRESO

 

Dourado e Augusto, em charge de Gervásio Castro

LAMBUZOU-SE NA LAMA PARA NÃO SER PRESO


Antonio Gallas

Contista e cronista

  

Quando alguém recebe uma ordem de prisão, quer seja por mandado ou em flagrante, procura sempre dar um jeito de escapar das garras da patrulha. É o famoso jeitinho brasileiro. Na verdade, ninguém quer ser preso, ninguém quer ficar atrás das grades para ver o sol nascer quadrado.

 Nos noticiários da televisão, temos acompanhado as artimanhas criadas por políticos, empresários, médicos, "laranjas", religiosos, traficantes e outros que para não serem levados ao xilindró inventam de tudo.

Alguns apresentam atestados médicos dizendo serem portadores de doenças crônicas, ou fogem para outros países, e em muitos casos até se fingem de mortos como foi o daquele prefeito de uma cidade no Peru, que se fingiu de morto para evitar ser preso após sair para beber em meio à pandemia, fato narrado em episódio já publicado neste blog.

 A história que vou contar aconteceu aqui mesmo na querida Parnaibinha de Nossa Senhora da Graça e teve como cenário o "cheira mijo" -  Bairro São José.

O personagem principal foi o nosso amigo boêmio, carnavalesco e humorista José Dourado Filho, Zé Dourado, ou simplesmente Douradim, como o chamávamos na intimidade.                                                                                                                                                                                                                                         

 Frequentador assíduo do Bar do Augusto (in memoriam) ou “ Bar Recanto da Saudade” e de outros pontos da boêmia parnaibana, foi o próprio Douradim (in memoriam)  quem narrou o fato para o escritor José Luiz de Carvalho numa das costumeiras reuniões da Forja no bairro São José bem aos fundos da Fundição Perseverança, uma das pioneiras metalúrgicas do Estado do Piauí .

 O Bar Recanto da Saudade ou Bar do Augusto ficava no Bairro São José na região conhecida por Munguba, outrora frequentada por embarcadiços ou porcos d’água por se tratar de uma Zona de Baixo Meretrício próxima ao cais onde atracavam as embarcações vindas do Porto de Tutóia e de outras reo Piauí.

 O nome  Forja dado a esses encontros, faz alusão ao conjunto de equipamentos utilizados pelos ferreiros na fundição de metais. Na Forja reuniam-se intelectuais, boêmios, empresários, aposentados e outros contadores de histórias... E dentre eles estava o nosso Douradim a contar suas bravatas.

Num desses encontros, sempre realizados no final das tardes e regados a churrasco, cerveja gelada compradas no Bar do Augusto, o Douradim contou ao escritor José Luiz de Carvalho que certa vez,  após tomar umas  e outras, excedeu-se  e começou a  abusar no bar onde estava inclusive provocando outros fregueses que só  não o bateram em consideração à dono do estabelecimento.

Segundo ele mesmo contou, abusou tanto, que a dona do bar não teve outra alternativa a não ser chamar a polícia.

 Era início da década de 1970, inverno vigoroso e como sempre àquela época o bairro São José sofria com alagamentos. Em frente ao bar onde estava havia criado uma lagoa cheia de lamas. Mais lamas do que água. Local predileto para os porcos se refrescarem do calor ao meio dia.

 O governador do estado, o parnaibano Alberto Silva havia destinado duas viaturas de Rádio Patrulha para sua cidade natal. Dois fusquinhas zerinho da silva e como se diz popularmente, ainda  cheirando a leite para o serviço da segurança em Parnaíba.

 Ao ouvir o barulho da sirene dos carros, Douradim pensou... pensou...

 E foi então que teve a brilhante ideia:  Entrou na lama e começou a rolar pelo chão, lambuzando-se todo.

 Quando a viatura chegou e os policiais desceram para efetuar a prisão perguntaram: ­"cadê o meliante"? Dona Graça responde: tá aí  se lambuzando com os porcos.

 Cabo Élcio então olhou, sorriu e ordenou:   vambora negrada. Deixa esse porco aí. Ele vai é sujar  completamente os bancos da viatura.                   

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Livro "O Piauí no Século XX" - 5ª edição


 

SAL SOL SOLIDÃO

 

Fonte: Google

SAL SOL SOLIDÃO


Elmar Carvalho 


está tão frio

e eu estou tão triste

um homem segue

pela rua gelada

e a sua alma está

mais gelada engelhada

que a rua deserta

as sombras tristes

espiam frias pelas

frestas das venezianas

nesgas de luz geladas

conspiram das caladas

dos calabouços

o homem triste

acende um cigarro

que não fuma

e segue só

e o homem

triste sou eu

e o homem

triste sofre

o sol e

o sal

de suas

dez desgraças

é triste como

o canto/pranto

do galo gago gogo

alçado dos alçapões

pelas madrugadas geladas

cheias de neves e geadas

é triste como

o ladrar de

um cão cãozinho de

um cão sozinho

nas noites negras

nas noites nada

e a neve cai

e a neve caia

os túmulos e os ciprestes

e a neve é nave

por onde trafega

a res/ins/piração

do homem só

do homem pó

mas a neve

não é nada

o que é tudo

é a tristeza

que perscruta

dos esgotos

que espia

dos desgostos

(a solidão é uma aranha

tecendo teias de saudade

onde ela própria se enleia)

e o homem

triste sou eu

e o homem

triste acende um cigarro

que sequer fuma

e segue em sua

grande solidão

de gênio e de cabotino

e de louco três vezes tresloucado

e nada não

e nada não denuncia

ou anuncia sua presença

apenas ele

contempla a solidão

do nada absoluto

do nada só luto

do nada soluço

e segue só

sobre as cinzas

do nada e do não

do apocalipse

do após calipso

e este homem

é um deus

que se construiu e se destruiu

à sua imagem e (des)semelhança

e o seu grande ne’gado

e o seu grande le’gado

será a certeza de sua morte

e este homem sou eu: poeta/profeta

e jeremias chorão

e hão de chorar

sobre o meu choro/coro

e hão de cantar

sobre o meu canto/pranto

mas apenas eu estarei

de pé sobre as cinzas

do caos/cão e do nada

e seguirei sempre só

sobre e sob o signo da solidão

que será o meu sinal

e eu serei

o suor e

o sal e

o sol de

minha própria

girasolidão  

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Tributos à Cidade Natal

 


Veja o link do site onde se encontram esses vídeos: https://www.youtube.com/channel/UChVPY4I9bHHAsIDjcNw-0AA

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

VÁ TENTAR ENTENDER OS MEANDROS DA POLÍTICA ELEITORAL

 

Fonte: Google/Blog Rabiscos do Antenor


VÁ TENTAR ENTENDER OS MEANDROS DA POLÍTICA ELEITORAL

Antônio Francisco Sousa – Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

                 

          Começarei citando frase, filosoficamente feliz, que estampou primeira folha de um matutino local, dia desses: “o maior castigo para quem deixa de votar não está na lei”. Fato é que, infelizmente, muitas vezes, entre o que a filosofia afirma e o que a realidade confirma, há considerável distância. Ousaria asseverar que, não raro, um dos grandes castigos para quem vota reside ou está no próprio voto dado.

                Quem nunca, pensando que estivesse certo e convicto de tomar a providência ideal, depois de votar segundo sua consciência, pesarosamente ou não, constataria haver votado na pessoa errada? Aquele que prometia a solução para o que você tanto buscava e queria, acabaria ampliando a lista de problemas, criando alguns para situações resolvidas.

                Somos corresponsáveis pelas consequências resultantes dos atos exercidos por aqueles que ajudamos a colocar nos palácios governamentais e parlamentares, se, sabidamente, a partir de sua história, dos princípios defendidos, pública ou, reservadamente, não deixavam margem de que viriam a ser incompatíveis com os cargos pleiteados. Por outro lado, se as ações tomadas pelos cidadãos que elegemos não são compatíveis com o que deles esperávamos, tomando, também por base, sua vida pregressa, suas atitudes cotidianas, enfim, sua história de vida, isso exime de nós alguma culpa; afinal, teriam sido eles que mudaram seu modo de ser e de agir, coisa que, ao longo do tempo de conhecimento ou convívio, não nos haviam dado qualquer indicação ou pista de que poderia acontecer; todavia, infelizmente, isso não nos livra nem isenta de haver, sim, cometido um involuntário erro político, por cujas consequências seríamos, de algum modo, responsáveis.

                Agora, o arrazoado com o qual pretendo encerrar esta fase da arenga: se há que se falar em castigo para o eleitor, ideal que não o apenemos por fatos cujas consequências legais extrapolem o alcance do ato de votar ou não; tampouco, tal castigo pode redundar em descabidas insinuações morais. Votar não é fácil, pois, ao mesmo tempo, significa exercer um direito e cumprir um dever, coercitiva e compulsoriamente exigido por lei; o acerto ou erro cometido no exercício de esse direito-dever é plenamente escusável, porque praticado por seres humanos. Ou seja, tanto erramos de boa-fé, em confiança, quando damos nossos votos a quem nos parece o melhor para cuidar do governo e do parlamento; quanto de má-fé, corrompidos, iludidos ou enganados, ao alçarmos bandidos ou criminosos à condição de governante ou parlamentar. Enfim, diante de realidade política que mais nos aflige do que tranquiliza, como a que vivenciamos, não me parece digressão afirmar que, eleitoralmente, tanto erra quem desobedece a lei e não vota, quanto acerta o que a obedece e vota. Benefícios e malefícios político-eleitorais há, nos dois casos.

                Ainda sobre eleição, processo eleitoral e quizumbas semelhantes. Alguém que nunca teria sido obstado de participar das eleições que quis, mesmo jamais fazendo campanha eleitoral proativa, pois sempre aproveitou o pouco tempo que lhe foi reservado na mídia para espezinhar parlamentar, governante ou candidato tal ou qual; atacar as instituições e as normas eleitorais de tolherem direitos, cortarem oportunidades, dificultarem a disputa, soa, demagogicamente, falacioso. Por que insistir, então, teimosamente, em uma quimera, uma utopia irrealizável? Ora, porque as normas eleitorais permitem-no.

                Fui, até onde julguei conveniente e não localizei, nas normas eleitorais e partidárias visitadas, nenhum óbice legal à mulher, de qualquer cor, credo ou condição financeira, de se filiar a um partido político, disputar as convenções para escolha dos candidatos da legenda e, uma vez selecionada, partir para a batalha de conquista dos votos que a levariam às casas governamentais ou parlamentares. Assim, ainda que se tratando de anteprojeto de lei, parece, mais que demagógico e hipócrita, descabido, um que pleiteia reserva de cinquenta por cento nas cadeiras nos parlamentos às mulheres – e, já segregativamente, separa metade desse percentual para as de cor negra –, além de destinar-lhes o dobro dos recursos financeiros eleitorais atribuídos aos homens. Também não vi, li nem tomei conhecimento de que algo as impedisse de, no caso de serem, legitimamente eleitas, ocuparem todas as vagas disponibilizadas por seus partidos.

                Por fim, quem o tribunal regional eleitoral espera que vá votar nas próximas eleições municipais se, a fim de garantir a lisura do pleito e a segurança total nos locais de votação, convoca representações do exército, polícia federal, rodoviária federal, militar e civil estaduais, guardas municipais e corpo de bombeiro? Eleitores cidadãos ou uma reca de bandidos e arruaceiros? Vá tentar entender os meandros da política eleitoral, e boa sorte.   

A Bala e mitra

 



A Bala e mitra


Carlos Rubem

Articulista e cronista

  

A trágica morte de Dom Expedito Lopes, Bispo de Garanhuns-Pe, perpetrada pelo seu subordinado hierárquico, Padre Hosana de Siqueira e Silva, Vigário de Quipapá, causou repercussão internacional. Em Oeiras, a fatídica notícia envolvendo o primeiro Prelado de sua Diocese motivou estupefação, claro! Caracterizada como martírio. Imitou o Divino Mestre. Pediu perdão para o seu algoz.

 

Daí muitos rebentos receberam o seu nome. O então povoado Cabeço, ao ser elevado à condição de cidade, foi batizado com o seu nome em homenagem ao desditoso Príncipe da Igreja. O mano João Henrique foi instado a celebrar a sua primeira comunhão na catedral onde se encontra sepultado os restos mortais do venerando Antístite, naquela serrana urbe. Pagamento de promessa para a satisfação da tia Mirista & Cia, por graça alcançada. Morri de inveja porque não fui a este passeio, num caminhão da ANDA.

 

O Padre Hosana era resoluto, egolatrista. Psicopata de personalidade fanática e litigante, segundo laudo médico-legal. Embora admoestado por Dom Expedito, não se rendia às prescrições canônicas. Como natural, decretou-se-lhe a sua suspensão “a divinis”.

 

O móvel do crime, em síntese, reportava-se “as malévolas e graves suspeitas que pairavam sobre a conduta moral da mulher, de nome Quitéria, que o homicida conserva em sua companhia há dois anos”. Em verdade, provas concretas inexistiam.

 

Sacerdote disciplinado, Dom Expedito asseverava: “Eu cumpro ou faço cumprir a lei. Não posso transigir na observação de minhas atribuições. Executo aquilo a que me autoriza a igreja”. A sua sorte estava lançada. Homem simples, afável, criativo.

 

Naquele dia aziago, o Padre Hosana dirigiu-se ao Paço Episcopal. Acionou a campainha. O Senhor Bispo veio abrir a porta. Surpreendido – e não à traição como indica o libelo acusatório, no nosso franco entender – foi alvejado com três disparos de revólver, certeiros. Faleceu horas depois em decorrência dos ferimentos recebidos.

 

A pesquisadora pernambucana Ana Maria César lançou o livro A Bala e a Mitra, ensaio acerca do crime em apreço. Obra que suscita curiosidade insopitável. Trabalho exaustivo, elaborado por profissional que bem sabe garimpar informações. Em nota introdutória, a autora questiona: “E ainda hoje se pergunta o que teria levado um sacerdote a infringir um dos mais graves mandamentos da lei de Deus. Quem era o padre Hosana? E Dom Expedito? Que fizera para impulsionar o seu pároco a imolá-lo?” Para logo apresenta profundadas e incontestes explicações sobre o badalado delito. O leitor sente-se gratificado. Vale a pena embrenhar-se nessa leitura instigante, objetiva, veraz.

 

Sobre a obra, o jornalista Waldemar Lopes assim expressou-se: “é um bom de modelo de como se fazer História. Com o gosto obstinado da pesquisa, empenho sem cansaço na busca da verdade, a total isenção em face a realidade dos fatos, o senso crítico sempre acima da deturpação das paixões”.

 

A Bala e a Mitra o tenho por empréstimo. Não pretendo devolvê-lo ao seu legítimo dono. Agregou-se à minha pobre biblioteca. Assiste razão ao Marquês de Maricá: “Livro emprestado no Brasil é filho pródigo que não volta jamais à casa paterna”.

 

O processo criminal, corretamente, foi desaforado de Garanhuns para o Recife. Padre Hosana submeteu-se por três vezes a julgamento perante o Tribunal do Júri Condenado, foi-lhe aplicado a pena de 19 anos de reclusão. Em 1968, concedeu-se-lhe livramento condicional. Os dois anteriores julgamentos foram anulados.

Após o primeiro veredicto, sob o argumento da legítima defesa do honra, o Padre Hosana “lembrou cavilosamente, que o Papa Pio XII, quando Núncio Apostólico em Munique, manteve a seu lado durante 19 anos, a irmã Pasqualine, que tinha inclusive acesso aos seus aposentos. Assumindo a Santa Sé, a irmã Pasqualine continuou a viver com o Papa, sem que este fosse acusado de manter concubinato com a freira”.

 

Dias imediatos ao assassínio de Dom Expedito, o Desembargador Pedro Sá, aposentado, encontrou-se por acaso com o Prof. Possidônio Queiroz em frente à Igreja de N. S. da Vitória, em Oeiras. Dito magistrado, formado pela Faculdade de Direito do Recife, em 1913, era agnóstico, sarcástico, referiu-se a um outro fato histórico que assemelhava com o crime em tela. Disse que no final do Século XIX, o abade de Galeoti Cotelha, utilizando-se de um revólver, ceifou a vida do bispo de Madri, Dom Isquierdo.

 

E acrescentou: – Pois é, seu Possidônio, padre só mata bispo com três tiros: é pai, é filho, é espírito santo!   

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

ARCA DE NOÉ IV

 

ARCA DE NOÉ IV

  

Vitor de Athayde Couto

Professor, cronista e ensaísta

 

Passados 40 dias, os bichos aguardam dezembro. O incêndio será debelado pela chuva, sobre cinzas – onde jaz o bioma extinto. As antigas riquezas soberanas do Brasil foram totalmente cremadas. Algumas formigas e cupins, animais resistentes e adaptados a todo tipo de monocultura, desastres e crimes ambientais, ainda resistem no sub-solo. Mas o seu esforço já parece ser inútil, para tristeza do tamanduá-bandeira.

  

Em todo entardecer, o papagaio-verdadeiro repete, até o recolhimento de Tupã ao seu leito, para todos ouvirem: acabaram com a saúva, com a saúde, e com o Brasil!

  

Apesar do estresse do confinamento sobre as águas, a disciplina dos bichos embarcados é impressionante, salvo algumas escaramuças envolvendo veganos, outrora predadores, e, agora, recém-convertidos. Tudo é novidade no novo tempo pós-anormal. Ninguém nunca tinha visto onça pintada vegana, almoçando chibé com pimenta na cuia de meia cujuba. Nem tamanduá sugando farelos de rapadura, sonhando com formigas.

  

Mesmo ao largo, ainda se pode vislumbrar o último reduto de oficiais da Marinha. Maltrapilhos e sujos, eles fogem dos porões do Arsenal. Ali, durante décadas, estiveram prisioneiros, acorrentados. Na caserna, eles só viam sombras projetadas nas paredes. Do lado de fora, a luz dos incêndios cega os seus olhos. Tentam voltar, mas, no interior da caserna, o calor é infernal. As correntes queimam e ferem a sua pele, nos pulsos e tornozelos. Não resistindo à luz (o conhecimento), todos começam a morrer lentamente. Essa tragédia nacional, conhecida como “o mito da caserna”, será muito debatida no futuro, em lives de filósofos brasileiros pós-anormais. Mas, segundo Mãe Divina, não haverá solução para a sociedade, se depender das atuais gerações. Não resta dúvida, é mesmo briga de santo. E briga de santo tem resultados sempre imprevisíveis.

  

Perto do fogo que destrói a mata ciliar, a água do rio ferve. Glória a Manitu, os peixes são inteligentes. Eles buscam água fresca longe das margens, e se afastam do óleo que suja as praias. Assim, nunca falta comida para os bichos confinados, munidos de redes e anzóis, conforme Ching havia recomendado durante a armação da expedição “Anime”. Só não tem arroz, nem feijão, nem milho… É que o governo mandou fechar a divisão de subsistência e desativou os estoques reguladores do hospício usado como arsenal. Em vez de grãos, o governo estocou arminhas e glifosato. Infelizmente, isso não alimenta ninguém, nem apaga incêndios nos biomas ameaçados de extinção.

  

Na cabine de comando do rebocador, Ching mira o envelope que ainda permanece lacrado sobre o moquém, desde que o mico-leão voltou para a Bahia. Ele não faz ideia do seu conteúdo. Sabe apenas que é endereçado “aos bichos”. No lugar do remetente lê-se “Mãe Divina”. O mico-leão recomendou a sua leitura somente após 40 dias mais 40, quando as florestas estiverem totalmente cremadas e só restarem cinzas.

  

Foi numa quarta-feira de dezembro, mais precisamente no dia 4, que os bichos, reunidos em assembleia, assistiram à abertura do envelope enviado por Mãe Divina.

  

Na estação das chuvas, todos sentem frio. Não há mais solo, só chão sem vida, parece tabatinga, mas é só uma lama de cinzas. Na falta de lenha para aquecer o ambiente, os bichos agora dormem em grupos, bem juntinhos. Na terra não há mais predadores nem predados, para o agrado de Tupã. Todos se alimentam de peixes.

  

O envelope contém um papel escrito com pouquíssimas palavras. Edwiges, único bicho alfabetizado em inglês, por ter freqüentado a escola de uma ONG ambientalista, lê a carta globalista de mãe Divina, e traduz para a assembleia silente.

  

(Continua)   

Escurinho, o craque sem chuteiras


Caiçara Esporte Clube - Vice-Campeão Piauiense de 1963    Fonte: Portal Líder



Escurinho, o craque sem chuteiras


José Ataide Tôrres Costa Filho

Memorialista e cronista

 

Ainda criança, morando em Campo Maior, conheci Francisco das Chagas Santos Pereira, nascido em 20.10.1941, na cidade de Buriti – MA, antiga Buriti de Inácia Vaz, tendo se imortalizado pelo belo e ágil futebol que jogava, com o apelido de Escurinho.

Escurinho chega a Campo Maior no início dos anos sessenta, levado pelo Sr. Francisco Barros (Chico Barros), campomaiorense, membro da diretoria do Caiçara.

O Sr. Chico Barros trabalhava com caminhão, fazendo transporte de cargas e em uma de suas viagens para o Maranhão parou para descansar na cidade de Buriti de Inácia Vaz, onde estava ocorrendo uma “pelada” no final da tarde, e observou um determinado jogador, um jovem garoto de pele escura (daí o apelido Escurinho), jogando com uma habilidade inacreditável para alguém daquela isolada localidade.

Após o final da “pelada”, Chico Barros, fazendo as vezes de olheiro, procura o jovem craque e o convence a ser levado para jogar em Campo Maior, no Caiçara Esporte Clube, time da primeira divisão do Campeonato Piauiense.

A chegada de Escurinho, ainda um jovem de 18 anos, em Campo Maior foi envolta de muita euforia por parte da torcida caiçarina, todos empolgados com o jovem craque e com a esperança de bons frutos para o “Leão da Terra dos Carnaubais”.

Marcado o primeiro treino, o estádio foi lotado pelos curiosos torcedores, todos ávidos para ver as jogadas do novel craque. Começa o treino e já se passam 30 minutos, público decepcionado, querendo ensaiar uma vaia, pois Escurinho não havia jogado nada, a ponto de nem suar a camisa, frustrando a expectativa de todos. Terminada a primeira parte do treino, o Técnico e o Sr. Chico Barros chamam Escurinho para conversar e indagam o que estava acontecendo; procuraram por aquelas jogadas que fazia em terras maranhense. Escurinho informa que nunca havia jogado com chuteiras e que não tinha o hábito de jogar com aqueles coisas nos pés; então pede para tirar as chuteiras, e jogar sem elas. O Técnico permite que jogue sem chuteira na segunda metade do treino e foi um show de bola, chegando inclusive a marcar dois gols.

A contratação foi aprovada, mas a comissão técnica perdeu uns sessenta dias para poder utilizá-lo na equipe principal, até que Escurinho se adaptasse ao uso de chuteiras.

Escurinho ficou também conhecido em Campo Maior como “O menino do Senhor Zacarias”. Naquela época a maioria dos jogadores eram patrocinados por alguns empresários torcedores do Caiçara, e o empresário Zacarias Gondim, proprietário do Cine Nazaré, se propõe a patrocinar o jovem craque, além de lhe servir em sua residência alimentação diária, pagava-lhe um bom salário.

Assume a ponta esquerda do Caiçara, no qual jogou até 1965, e ajudou a equipe em memoráveis campanhas, inclusive no vice-campeonato estadual em 1963.

Em 1966 foi transferido para o River Atlético Clube, em Teresina, a quem igualmente ajudou com seu belo futebol a obter várias conquistas. Retorna ao Caiçara em 1970, e termina seus dias como jogador de futebol no Auto Esporte Clube, jogando no período de 1971 a 1973. Logo depois que deixou de jogar futebol, conseguiu ser enquadrado no quadro de servidor da Secretaria de Educação do Estado do Piauí.

Como falei anteriormente, minha amizade com o Escurinho remonta ao início da década de sessenta, quando ele chegou a Campo Maior. Naquela época a sede do Caiçara (uma casa que servia de alojamento para os jogadores, visto que uma boa parte do jogadores eram oriundos de outras cidades ou estados) ficava bem próximo à minha casa, mais ou menos duas quadras, e toda tarde, quando os jogadores voltavam do treino, paravam na minha casa para beber um boa água gelada.

Foi aí que eu, ainda uma criança, fiz amizade com o Escurinho. Os anos passaram, Escurinho veio para Teresina, eu fui para Fortaleza, e de volta ao Piauí, morando em Teresina no bairro Primavera, no final dos anos oitenta, encontro o Escurinho, depois de umas duas décadas, de modo que pude continuar privando de sua amizade, como vizinho até os dias atuais.

Como jogador, além de ágil e habilidoso, sempre foi um atleta honrado, de atitudes corretas e jogadas leais; como homem simples, que sempre foi, fazia as coisas conforme suas possibilidades e, segundo depoimento de seus filhos, foi um bom pai.

Hoje fui surpreendido com a notícia de que meu amigo de longas datas deu o chute final na longa e brilhante “partida” de sua vida terrena. Com certeza agora Escurinho faz belos gols na grande arena celeste.