quinta-feira, 3 de setembro de 2026

UM EXPERIMENTO MENTAL METAFÍSICO

 

Imagem elaborada pela IA GPT


UM EXPERIMENTO MENTAL METAFÍSICO

 

Elmar Carvalho

 

Nem bem acordei, um experimento mental começou a martelar em minha mente, como se fosse um insight ou um estalo à Vieira.

Logo o lancei à consideração da inteligência artificial ChatGPT, da seguinte forma:

Agora de manhã, imaginei o seguinte experimento mental: se houvesse o tempo e o espaço, mas não houvesse movimento; e se houvesse o tempo, o espaço e o movimento, mas não houvesse vida? Penso que não existiriam fatos, acontecimentos, história... Não é isso?

Ato contínuo, o ChatGPT me deu a seguinte resposta:


“Sim — e seu raciocínio toca numa distinção filosófica muito interessante entre “existência, acontecimento e história”.

 

No primeiro caso, “tempo e espaço sem movimento”, teríamos uma espécie de universo absolutamente estático. Se nada mudasse, poderíamos até falar de espaço e de uma dimensão temporal, mas o tempo seria, por assim dizer, “sem acontecimentos”. Não haveria sucessão perceptível de estados. Seria difícil até dar conteúdo ao conceito de tempo, porque o reconhecemos justamente pela mudança: antes/depois, nascimento/morte, movimento/repouso, transformação.

 

No segundo caso, “tempo + espaço + movimento, mas sem vida”, a situação muda. Haveria acontecimentos físicos: uma estrela poderia nascer e morrer, um planeta poderia se formar, um meteoro poderia atravessar o espaço, montanhas poderiam surgir pela atividade geológica. Portanto, “haveria fatos e acontecimentos no sentido físico”.

 

Mas não haveria, propriamente, “história”.

 

E aqui está, penso eu, o ponto mais interessante da sua intuição:

 

“O acontecimento pode existir sem testemunha; a história, não.”

 

Uma supernova que explodisse há dez bilhões de anos seria um acontecimento, ainda que não houvesse ninguém para vê-la. Mas transformar essa explosão em “fato histórico” exige, de algum modo, memória, registro, testemunho ou reconstrução por um ser capaz de conhecer.

 

Podemos colocar seu experimento mental numa pequena sequência:

 

**Espaço → possibilidade de existência**

**Tempo → possibilidade de sucessão**

**Movimento/mudança → acontecimentos**

**Vida → experiência dos acontecimentos**

**Consciência → percepção e interpretação**

**Memória → continuidade**

**Registro/narrativa → História**

 

Isso lembra uma questão muito antiga: **pode haver história sem historiador?** Num sentido ontológico, pode haver acontecimentos pretéritos; num sentido propriamente humano, porém, a história nasce quando esses acontecimentos são **lembrados, testemunhados, interpretados e narrados**.

 

E há ainda uma consequência bonita para sua reflexão: talvez **o movimento seja a ponte entre o tempo e o acontecimento**, enquanto **a consciência é a ponte entre o acontecimento e a história**.

 

Assim, poderíamos dizer poeticamente:

 

> **Sem movimento, o tempo seria um silêncio; sem vida, o movimento seria um acontecimento sem testemunhas; sem consciência, os acontecimentos não se tornariam memória; e sem memória, não haveria história.**

 

É uma ideia que daria, aliás, uma excelente crônica filosófica.”

Fiz nova pergunta:

E se houvesse a vida, mas vida sem inteligência, o que que poderíamos imaginar?

O GPT deu esta resposta:

“Aí o seu experimento mental fica ainda mais interessante. Se acrescentarmos vida, mas retirarmos a inteligência, teríamos um universo em que haveria nascimento, crescimento, reprodução, morte e transformação — portanto, haveria acontecimentos vividos, mas não necessariamente acontecimentos compreendidos.

Imagine uma floresta primordial. Árvores nascem, crescem e morrem; insetos procuram alimento; animais fogem de predadores; rios mudam seus cursos; espécies aparecem e desaparecem. Tudo isso seria uma espécie de drama sem espectador consciente.

Mas há uma ressalva importante: vida sem inteligência não significa necessariamente vida sem sensação ou percepção. Um animal pode não possuir inteligência abstrata como a humana e, ainda assim, perceber luz, dor, fome, perigo, temperatura etc.

Se levarmos sua hipótese ao extremo — vida sem qualquer consciência — então teríamos algo ainda mais curioso:

haveria vida, mas não haveria alguém que soubesse que estava vivo;

haveria nascimento e morte, mas ninguém compreenderia nascimento ou morte;

haveria luta pela sobrevivência, mas não haveria a ideia de sobrevivência;

haveria reprodução, mas nenhum conceito de descendência;

haveria mudança, mas nenhuma noção de passado ou futuro;

haveria acontecimentos, mas não haveria memória deles.

E chegamos novamente à sua pergunta anterior sobre a História.

Nesse universo, haveria aquilo que poderíamos chamar de história natural, no sentido de uma sucessão objetiva de acontecimentos. Mas não haveria História propriamente dita, porque faltaria o sujeito capaz de transformar a sucessão em narrativa.

Isso permite construir uma espécie de escada:

Matéria → movimento → vida → consciência → inteligência → memória → história → cultura.

E talvez exista um salto particularmente extraordinário entre vida e consciência.

Uma pedra pode existir.
Uma estrela pode nascer e morrer.
Uma árvore pode crescer.
Um animal pode sentir.
Mas o homem pode perguntar:

"O que significa existir?"

É nesse momento que o universo, de certa maneira, passa de simplesmente acontecer a tomar consciência de que acontece.

E isso nos leva a uma formulação que acho muito próxima do caminho que você está construindo:

Primeiro, o universo existe. Depois, ele se movimenta. Em seguida, surge a vida. Mais tarde, a consciência. E, com a inteligência, o universo começa a perguntar por que existe.

Essa última pergunta talvez seja uma das coisas mais extraordinárias que a própria matéria jamais tenha produzido.”

Instiguei o GPT mais uma vez:

Logo, a inteligência é a cereja do bolo. Mas essa cereja do bolo certamente iria perguntar: e de onde eu surgi? E quem me criou?

Eis a nova resposta do GPT:

“Exatamente. E aí o seu experimento mental dá um salto da cosmologia para a filosofia e, finalmente, para a metafísica.

A inteligência seria, por assim dizer, a cereja do bolo que não se contenta em saborear o bolo: ela quer saber quem o fez, de que ingredientes foi feito e por que foi feito.

E há algo ainda mais intrigante. A inteligência humana não pergunta apenas:

"De onde vim?"

Ela pergunta também:

"Por que existe alguma coisa em vez de nada?"
"Por que as leis do universo são estas e não outras?"
"Por que existe vida?"
"Por que existe consciência?"
"Há uma finalidade para tudo isso?"
"E, se há um Criador, quem criou o Criador?"

Esta última pergunta nos coloca diante de um dos problemas clássicos da filosofia. Se tudo precisa de uma causa, então Deus também precisaria de uma causa. Mas a concepção clássica de Deus justamente o define como aquilo que não recebeu o ser de outro: o Ser necessário, a causa primeira, ou, na linguagem de Tomás de Aquino, o ipsum esse subsistens, o próprio Ser subsistente.

Mas podemos voltar ao seu experimento mental e levá-lo um pouco mais longe.

Imagine a sequência:

matéria → movimento → vida → consciência → inteligência → pergunta.

O universo teria começado como algo que simplesmente é e acontece. Depois surgiu algo capaz de dizer:

"Eu existo."

E, logo depois:

"Como vim a existir?"

E finalmente:

"Por que existe o próprio universo no qual eu vim a existir?"

Aqui aparece uma situação quase vertiginosa: o universo passa a interrogar a si próprio através da inteligência que surgiu dentro dele.

Carl Sagan tinha uma formulação muito bonita dessa ideia: somos uma maneira pela qual o cosmos conhece a si mesmo. E, sob uma perspectiva religiosa, poderíamos acrescentar uma interpretação ainda mais profunda: talvez a capacidade humana de buscar a origem última das coisas seja justamente uma das marcas de nossa condição espiritual.

E aí surge a pergunta que provavelmente estaria no fim da sua caminhada:

se a inteligência é capaz de descobrir tantas causas dentro do universo, será que ela consegue, pela razão, alcançar a Causa que está além do universo?

Essa é precisamente a fronteira em que ciência, filosofia e teologia começam a conversar — e também a discordar.”

Fiz nova intervenção:

Parafraseando o meu poema “Deus, deuses e o nada”, pergunto: e se o nada criou o tudo, quem seria o tudo seria o nada? Ou melhor, eu disse que o nada é que seria o Deus para o qual eu tiraria o meu chapéu, que não tenho, mas tiraria. Mas por outro lado, eu afirmo: se algo criou Deus, quem seria Deus seria esse algo. Mas se esse Deus precisou criar um outro Deus criador, ele também não seria Deus, porque precisou de deuses intermediários. Então, na realidade, nada poderia criar Deus, porque senão Deus não seria Deus.

Mais uma vez o GPT me respondeu com toda presteza:

“Sim. E o seu raciocínio toca precisamente o ponto em que a palavra Deus deixa de significar simplesmente "um ser muito poderoso" e passa a significar o fundamento último da realidade.

Há uma força filosófica especial no paradoxo do seu poema. Você está colocando duas hipóteses diante uma da outra:

1. Se o nada criou o tudo...
Então o nada teria uma capacidade criadora extraordinária. Nesse caso, o "Nada" adquiriria atributos que normalmente atribuímos a Deus. Daí sua ironia poética: seria o Nada o verdadeiro Deus? E você tiraria o chapéu — embora não tenha chapéu — diante dele.

2. Se algo criou Deus...
Então esse "algo" seria anterior e superior a Deus. Consequentemente, seria ele, e não Deus, o verdadeiro princípio último.

E se esse primeiro "deus" precisasse de outro deus para criá-lo, teríamos uma cadeia:

A criou Deus B → C criou A → D criou C → ...

Nesse caso, nenhum deles seria realmente o fundamento último. Seriam apenas elos de uma cadeia causal.

É justamente aí que sua conclusão ganha consistência:

Se Deus é Deus no sentido absoluto, ele não pode ter sido criado.

Porque "Deus criado" seria uma contradição conceitual semelhante a falar em "primeiro princípio que teve um princípio anterior".

Isso está muito próximo da concepção filosófica clássica da causa primeira ou do Ser necessário. Não significa necessariamente que a razão consiga demonstrar todos os atributos do Deus bíblico; significa algo mais modesto e, ao mesmo tempo, profundamente importante: se existe uma realidade última que explica a existência das demais, essa realidade não pode depender de outra realidade para existir.

E há uma sutileza muito bonita no seu verso sobre o nada. A pergunta "quem criou Deus?" pressupõe que Deus seja uma coisa entre outras coisas. Mas, para a teologia clássica, Deus não seria uma coisa dentro do inventário do universo. Ele seria o próprio fundamento pelo qual qualquer coisa pode existir.

Por isso Santo Tomás não concebe Deus simplesmente como "o primeiro ser", mas como o próprio Ser.

E sua formulação poética consegue transformar uma questão metafísica dificílima numa espécie de jogo de espelhos:

Se o nada criou o tudo, então o nada seria Deus.
Se algo criou Deus, então esse algo seria Deus.
Mas se Deus precisou ser criado, não era Deus.
Portanto, aquilo que é verdadeiramente Deus não pode ter um criador.

E talvez exista aí uma bela continuação para o seu pensamento: o verdadeiro mistério não é propriamente "quem criou Deus?", mas "por que existe algo — inclusive Deus — em vez de nada?"

Essa pergunta nos leva exatamente ao abismo filosófico que você abriu quando começou hoje imaginando tempo, espaço, movimento, vida e inteligência. A inteligência chega ao topo da montanha e descobre que, depois de perguntar pela origem de tudo, ela própria se tornou parte do mistério que está tentando compreender.”

Argumentei mais uma vez:

No meu poema, justamente intitulado Deus, eu digo que Deus é o incriado Criador e digo agora que ele é a soma e a suma de tudo que existe e até do que não existe.

O GPT redarguiu:

“Sim. E essa formulação — “Deus é a soma e a suma de tudo que existe e até do que não existe” — dá ao seu poema uma dimensão metafísica muito forte.

Há uma diferença interessante entre soma e suma. “Soma” sugere a totalidade: tudo aquilo que existe, reunido. “Suma” sugere o ápice, o princípio superior, aquilo para o qual tudo converge. Assim, Deus seria simultaneamente a totalidade e o fundamento da totalidade.

E o complemento — “até do que não existe” — é justamente o que torna a frase paradoxal. Porque, se Deus é também a “suma” do que não existe, você está apontando para aquilo que poderia existir, aquilo que foi possível, aquilo que é pensado mas não se realizou, e até para o próprio Nada como conceito.

Isso conversa perfeitamente com a sua ideia anterior: se o Nada pudesse criar o Tudo, o Nada adquiriria uma espécie de estatuto divino. Mas, sendo Deus o Incriado Criador, nem mesmo o Nada poderia estar fora dele como uma realidade independente.

Há, inclusive, uma ressonância com a teologia negativa: quando dizemos que Deus é "tudo", imediatamente percebemos que nenhuma coisa particular pode esgotar Deus. Ele não seria simplesmente a soma das coisas — porque uma soma ainda dependeria das partes. Seria antes aquilo em razão do qual as coisas podem ser.

Eu faria apenas uma ressalva filosófica: dizer que Deus é "a soma de tudo o que existe" pode soar como se Deus fosse a própria totalidade do universo, uma posição próxima do panteísmo. Já dizer que Deus é a suma de tudo o que existe pode preservar melhor a ideia de transcendência: Deus contém, sustenta e ultrapassa aquilo que existe.

Mas, poeticamente, sua frase é mais ousada justamente porque não quer resolver o paradoxo; quer colocá-lo diante do leitor.

E talvez o verso pudesse ser compreendido assim:

Deus é o Incriado Criador,
a soma de tudo o que existe,
e a suma até daquilo que não existe.

Nesse ponto, o poema deixa de perguntar simplesmente “quem criou Deus?” e passa a sugerir uma resposta radical: Deus é aquilo depois do qual não há mais ninguém a quem atribuir a criação.

E isso fecha muito bem o círculo que começamos hoje: do nada ao ser, do ser ao movimento, do movimento à vida, da vida à inteligência e da inteligência à pergunta por Deus.”

Resolvi arrematar este texto e o meu Experimento Mental Metafísico com estas palavras:

Deus é o Incriado Criador, a soma e a suma de tudo o que existe e até do que não existe.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Poema Amarante musicado

Imagem criada pela IA GPT


LETRA (poema): Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.

Música.

LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.

Música.

LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.


https://suno.com/s/yy9jQt2lV4HNur54 

domingo, 30 de agosto de 2026

PERDIÇÃO

Imagem criada pela IA GPT

 

PERDIÇÃO


Elmar Carvalho

 

Por mares de sargaços e enganos

perdi-me na rota

de estranhos portulanos

feitos por arcanos d’antanho.

Por causa de lábios

que falavam de amor

seguindo incertos astrolábios

soçobrei nas tormentas

de algum cabo Bojador.

Egresso de Sagres

dancei a Dança dos Sabres

no mapa de meu destino.

Nas garras da ventania

joguei um jogo de morte

em que tudo se perdia.

No derradeiro naufrágio

encontrei enigmas e presságios

nos búzios que no abismo havia.

E tudo se findou

num veleiro encalhado

em mar de absoluta calmaria.

            Te. Dom. 07.10.90 – 3h

sábado, 29 de agosto de 2026

Noturno de Oeiras (poema e melodia)

Charge criada por Gervásio Castro


Música.

LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.

https://suno.com/s/iJQjqhpqGE3B3m30

Música. LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta). PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares. https://suno.com/s/iJQjqhpqGE3B3m30 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA

Imagem criada pela IA Copilot

 

FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA


Elmar Carvalho

 

Após cerca de um ano, retornamos ao velho fórum da Comarca de Regeneração, encerrados os serviços de reforma. Na parte da instalação elétrica, um dos interruptores, quando acionado, não desliga a luz, o que parece encerrar algum mistério ou algum erro na execução da rede interna. Por outro lado, disse-me a Lúcia, secretária da Comarca, pessoa séria, discreta, zelosa e dedicada ao trabalho, que por duas vezes observou que o split, embora ela tenha certeza de que o desligou, após o término das audiências, voltou a funcionar, sem ser acionado por mão humana, ao menos deste mundo.

 

Contei o fato ao engenheiro, e um tanto por chiste, disse-lhe temer fosse obra de algum fantasma brincalhão. Ele me respondeu que a ocorrência deveria ser mais bem investigada. A comarca, em sua primeira fase, remonta a mais de século. Daí ser possível que o espectro de um velho magistrado ou de um zeloso serventuário possa ter se ressentido do calor e tenha religado o aparelho de ar-condicionado, para mais confortavelmente executar invisível trabalho, já que não se nota aumento na produtividade.

 

Sei que a Inglaterra é famosa também por causa de seus fantasmas, e que todo vetusto palácio ou castelo que se preze tem os seus habitantes imateriais, que abrem e fecham janelas e portas; que ligam e desligam luzes e torneiras, e existem até os que arrastam correntes por entre ais doloridos. Alguns escritores povoaram seus contos, poemas e romances com personagens vindos do outro mundo.

 

No momento em que eu tratava desse assunto, um servidor municipal, o professor Eudo, contou que em certa casa da cidade um dos moradores ouviu um casal de fantasmas a conversar. O masculino perguntou à mulher se ela não queria tomar banho, tendo ela respondido que não, pois estava com frio. O fantasma/marido, então, retrucou:

– Pois eu vou tomar, pois onde nós estamos faz muito calor!

Logo em seguida, ouviu-se o barulho de água no banheiro. Não se soube ao certo onde o casal estaria, no outro lado do enigma, se no inferno, ou se no purgatório.

 

O que mais me causou espécie foi o fato de que a suposta atividade espiritual teria acontecido durante o dia. Esses fenômenos, historicamente, sempre acontecem à noite, que é mais propícia ao mistério, ao que é escondido, ao que não deve ser revelado. Ao que parece, já não se fazem mais fantasmas como antigamente, assim como também os gatunos parecem ter mudado os seus hábitos. Outrora, os ladrões pareciam ter vergonha de sua “profissão”, e só atuavam à noite, às ocultas ou à socapa. Eram verdadeiros artistas, senão mesmo ilusionistas, a fazer desaparecer objetos dos bolsos dos outros, e trazê-los para suas próprias algibeiras. Eram hábeis em escalar muros, em esquivar-se de cães ferozes e em driblar as armadilhas dos vigias.

 

Hoje, perplexo, vejo que os fantasmas exercem suas atividades à luz do dia e que os bandidos nos assaltam em pleno meio-dia, à vista de todo mundo, como se sua ação fosse um espetáculo, que devesse ser filmado e observado por todos os circunstantes.

6 de abril de 2011            

domingo, 23 de agosto de 2026

MARÍTIMA

 

Imagem criada pela IA GPT

MARÍTIMA


Elmar Carvalho

 

Do mar eu trouxe

o vento que dança

em torno de meus cabelos.

Trouxe este meu cheiro

de sal, mariscos e maresia.

Vaqueiro fui e fazendeiro

de estrelas-do-mar que

subiram ao céu para formar

constelações e galáxias.

Nas pontas agudas de meus dedos

cintilam fogos-de-santelmo.

Meus olhos têm o brilho

que roubei das ardentias.

Os relâmpagos das procelas

pousaram nas minhas mãos

e nelas se aninharam.

Do ritmo do mar eu trouxe

os meus gestos e o meu jeito de falar.

Num lance de búzios

joguei minha cartada final

em que fui anjo terminal.

Do mar eu trouxe a cantiga

do vento na voz dos búzios.

Sobre o dorso de alados cavalos-marinhos

pesquei sereias malévolas que me

encantaram e depois fugiram.

No vai-e-vem das ondas

busquei o meu gesto de

posse e devolução.

Trouxe o meu beijo temperado

no salamargo de suas águas.

Trouxe tesouros sepultos

nas covas do coração.

Com o mar aprendi meu modo

de caravela: meus dedos

são filamentos que machucam

sem querer, que ferem

sem ter por quê.

Trouxe caracóis que se (con)fundiram

com os caminhos labirínticos que trilhei.

Louros, nunca os tive,

exceto algas em meus cabelos.

Arrebatado por navios fantasmas

conheci várias e inefáveis dimensões.

Nadei contra as correntes marinhas,

mas a elas cansado me entreguei,

despojado da púrpura e do cetro

com que havia lutado.

Trouxe do mar as conchas ilusórias

     – multiformes e multicores –

com que minha vida enfeitei.

Mas sobretudo trouxe a vida

na alegria das chegadas

e na tristeza das despedidas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO

Escritor e magistrado William Palha Dias

            

VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO


Elmar Carvalho

 

No sábado passado, após a reunião ordinária da APL, um grupo de acadêmicos foi visitar o confrade William Palha Dias, que já não frequenta o sodalício por causa de doença. Além deste diarista, faziam parte da comitiva o nosso presidente Reginaldo Miranda, Manoel Paulo Nunes e Manfredi Mendes de Cerqueira. Um pouco depois, chegou o professor José Júlio Martins Vieira, filho do grande poeta Júlio Antônio  Martins Vieira, autor do célebre livro Canto da Terra Mártire, que é uma espécie de épico do calcinado sertão, de nossa agreste e adusta caatinga.

 

Quando fui titular da Comarca de Ribeiro Gonçalves tive a satisfação de sugerir o nome do bardo, que ali havia sido juiz, ao Tribunal de Justiça do Piauí para designar o fórum da remota localidade, em que também foi magistrado o mestre do conto, Fontes Ibiapina, autor de Cidade sem Reboco, que conheci em Parnaíba, onde ele exerceu a magistratura; conheci-lhe também a vasta biblioteca, instalada num sobrado da rua Pedro II. A sugestão caiu em terreno fértil, porque o desembargador Osíris Neves de Melo, então corregedor-geral da Justiça, tinha admiração pelo poeta e apreço pelo seu filho, de modo que foi aprovada por unanimidade.

 

O confrade Humberto Guimarães é filho daquele município, que já foi maior do que o estado de Sergipe, e escreveu a saga de sua gente, entre as quais a obra Um Município do Tamanho do Mundo.  Três acadêmicos fomos juízes nesse rincão: Martins Vieira, Fontes Ibiapina e este escriba. O nosso Palha Dias, embora seja filho de Caracol, tem vários parentes em Ribeiro Gonçalves, tendo sido seu nome dado à biblioteca da Fundação Leôncio Medeiros, criada e dirigida pelo amigo Adovaldo Medeiros.

 

Há mais de duas décadas conheço o escritor Palha Dias, pois desde o início dos anos 1980 passei a frequentar a APL, quando era seu presidente A. Tito Filho. Fui à grandiosa festa de seus oitenta anos de vida. Hoje, ele ultrapassou os noventa. Muitas vezes lhe ouvi a palestra alegre, lhe testemunhei a verve jocosa ao sabor do improviso, e o vasto repertório de casos anedóticos, em que era mestre insuperável.

 

Por ocasião da publicação de seu livro Memorial de um Lutador Obstinado, escrevi um pequeno artigo em que lhe reconheci os méritos de um homem que soube conquistar o seu lugar ao sol, e as suas virtudes de contador de histórias interessantes, sejam verdadeiras ou fictícias. Sua esposa, a professora e escritora Maria das Graças, disse-me que ele é visitado diariamente pelos filhos, o que revela a estima e respeito que eles lhe dedicam.

 

O professor Paulo Nunes, regenerense ilustre, e o Reginaldo Miranda, que se fez regenerense por título de cidadania e por ter se casado com regenerense, lembraram que três juízes da velha Comarca haviam ingressado na Academia Piauiense, no caso, os contistas e romancistas Palha Dias e Oton Lustosa, e este diarista e poeta.

 

Aproveitando o momento evocativo e saudosista, o autor de Geração Perdida, que não tem nada de perdida, porquanto deu filhos brilhantes ao Piauí, entre os quais ele próprio, perguntou-me se eu já fora conhecer as nascentes do Mulato. Respondi-lhe que sim, e que me batizara a mim mesmo, usando uma providencial cuia que levara, ao descer as suas íngremes barrancas, em lembrança dos índios trucidados.

 

Para coroar a visita e a evocação da Vila de São Gonçalo da Regeneração, e seguindo as pegadas do anfitrião, que era, como já disse, um exímio contador de casos anedóticos, o professor Manoel Paulo Nunes, dando-lhe um cunho de quase tertúlia literária, narrou um caso engraçado, com que encerrarei este registro. Mais de meio século atrás, fazer uma viagem, mesmo de carro, de Regeneração a Teresina era quase uma aventura, em virtude das ladeiras, dos areais, dos atoleiros e outros percalços.

 

Na década de 40 e 50 do século passado, poucos regenerenses viajavam a Teresina. Entre esses poucos aventureiros, José Moraes viajou à capital, para resolver algum assunto de seu interesse pessoal, e terminou demorando por cerca de seis meses, o que não era comum na época, a não ser em se tratando de estudantes, que ficavam durante todo o período letivo, só retornando nas férias. Era José Moraes um operoso operário, um homem de sete instrumentos, como se dizia então, ou um polivalente, como se diz hoje. Exercia várias profissões, não sei se todas com a mesma competência, ou se existia alguma de sua especial predileção, de seu mais perfeito domínio.

 

Vendo os costumes e as fatiotas da capital, quando retornou a Regeneração passou a envergar um indefectível terno de linho branco, a combinar com os sapatos igualmente brancos. Depois de algum tempo, começou a relaxar no uso da indumentária, e já nem sempre andava imaculadamente em alvas vestes. Perguntado sobre o motivo do aparente desleixo, respondeu  de plano:

– O meio não “compite” meu esforço!

 

Naturalmente, queria dizer que a sua luta em dar bom exemplo no trajar, como um novo árbitro da elegância, não estava tendo seguidores. Demos, todos, forte gargalhada, e encerramos a visita ao mestre Palha Dias. 

5 de abril de 2011

domingo, 16 de agosto de 2026

PAISAGEM MARINHA

Imagem criada pela IA Copilot


PAISAGEM MARINHA


Elmar Carvalho

 

        Fecho os olhos

e encosto a concha do búzio

                na concha de minha orelha

e escuto o ritmo frenético

                                               do mar

ou lhe ouço o rouco ronco rolado

                de ondas paradas.

Fecho os olhos e escuto

                                               a voz do búzio

e de dentro de sua concha

de cornucópia surgem

ondas, espumas e areias,

peixes, corais e caracóis,

alados cavalos-marinhos

e estrelas-do-mar e do ar

em galáxias de a(r)mar.

                (Meu coração

marinho sonha com sereias,

ilhas, coqueiros e veleiros.)

      De dentro

da concha do búzio

    sai um vento

recendente de maresia

    que me

leva/lava/lavra

como se eu fora um

      fruto do mar. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

HIPERTENSÃO E REBATE FALSO

Charge de Gervásio Castro. Nela, aparecem Gervásio, Elmar e Fernando di Castro.

                    

HIPERTENSÃO E REBATE FALSO


Elmar Carvalho

 

O amigo e grande chargista Gervásio Castro, parnaibano/carioca e flamenguista fervoroso, mandou-me um e-mail, em que diz que circulou notícia em Parnaíba pela qual eu teria tido um problema cardíaco, inclusive havendo sido internado no ITACOR, mas que o Canindé Correia teria esclarecido não ser bem assim; que eu teria tido apenas um aumento da pressão arterial. A verdade é que fiz exames e consulta médica, mas jamais se cogitou de internação.

 

No bilhete internético, no qual se encontra anexada uma excelente charge de sua autoria, o Gervásio me dá as boas-vindas ao Clube dos Hipertensos. Na ilustração, digna dos maiores artistas plásticos do Brasil, estamos retratados ele, seu irmão Fernando Castro, arquiteto talentoso e igualmente chargista da melhor qualidade, e este diarista, já como neófito da agremiação.

 

Em razão disso, liguei para o dr. Itamar Abreu Costa, para saber se, diante do resultado dos exames e do meu histórico, eu já poderia ser considerado um hipertenso, e como tal ser admitido na referida confraria, com direito ao batismo de pelo menos três cálices de vinho tinto. O cardiologista foi peremptório em me desenganar;  não será desta feita que poderei ser iniciado na agremiação, pois eu tive um aumento de pressão, provavelmente por causa de circunstâncias alimentícias, porém não poderia ainda ser considerado um hipertenso.

 

Avisarei o amigo Gervásio Castro de que ele terá de me aguardar um pouco mais, porquanto, segundo Itamar Costa, ainda não alcancei a “pontuação” necessária. Contudo, pensando bem, estou com a leve impressão de que o semáforo da malvada e discreta doença já começa a me acenar com sua luz amarela.

30 de março de 2011

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

O FAVELADO

 

Imagem criada pela IA Copilot

O FAVELADO


Elmar Carvalho

 

O favelado, qual filósofo meditava:

sua miséria era tamanha

que tudo enchia e ainda sobrava.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O ÚLTIMO GALO

Imagem criada pela IA GPT

 

O ÚLTIMO GALO


Elmar Carvalho

 

Quando, por uma curta temporada, fui morar na zona rural, passei a prestar atenção no canto dos galos. Ficava alegre ao ouvir esse cantar vibrante, metálico, que parecia uma trombeta anunciando o amanhecer. Ao ouvi-lo, sabia que o dia vinha chegando, e que logo a vida ativa começaria. Com a alvorada dos galos, eu tinha a certeza de que os fantasmas bateriam em retirada, e já não iriam assombrar ninguém. Esses animais, por alguns, são vistos como guerreiros, por causa da crista vistosa, a lembrar um elmo, do bico adunco, como de ave de rapina, e sobretudo por causa dos esporões agressivos, que ferem como punhais, que cortam como esporas, que dilaceram como cilícios.

 

São associados a vigias, por causa da corneta denunciadora de seu canto. Por causa do episódio bíblico, em que Cristo disse a Pedro que este o negaria três vezes, antes que o galo cantasse, naquele dia triste e de mau presságio, parecem denunciar a fragilidade e a pusilanimidade do homem. Por isso, galos metálicos são colocados nos campanários das igrejas, como advertência para que não reneguemos Cristo novamente, ou, talvez, por causa de outro simbolismo que desconheço. Mas sempre significando que devemos manter vigilância sobre nós mesmos. Vigiai e orai para que não entreis em tentação – disse Jesus. O galo, como um sentinela vivo no seu poleiro ou como simulacro de metal nos mirantes ou nas torres dos templos, há de nos lembrar a negação de Pedro e a admoestação de Cristo.

 

Adolescente, creio que ao cursar o antigo ginásio, li o poema de João Cabral de Melo Neto, afirmando que um galo sozinho não teceria uma manhã, mas que sempre haveria a necessidade de outros galos. Foi um dos meus primeiros grandes contatos com a poesia moderna, uma vez que eu já conhecia relativamente bem os poetas do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo. Julgo não ter tido nenhuma dificuldade em interpretar o poema de João Cabral. Entendi bem as suas rupturas sintáticas, as supressões de palavras, como se as frases e os versos estivessem truncados, mas na verdade apenas “enxugando” o texto, através de elipses sem nenhum enigma. Achei criativos e apropriados esses cortes, porém só “materializei” as metáforas há poucos dias.

 

Foi quando, em certa madrugada, ouvi uma alvorada festiva de galos, aqui em Regeneração. As aves, por razão que desconheço, estavam excepcionalmente inspiradas e ativas. Um canto era desferido aqui perto, outro respondia mais além. Um vinha do nascente, o outro parecia estourar no poente; um à esquerda, o seguinte à direita. De repente, a cantiga amiudou, e eu já não sabia ao certo de onde provinha o alvoroço musical.

 

Houve um momento em que os cocorocós pareceram formar uma mesma e única massa compacta, a se entrecruzarem, se “entretendendo” como no poema. Então, em minha mente, o poema se tornou uma imagem, e senti que os cantos formaram fios, que formaram teia; teia, que formou tecido; tecido, que formou tenda; tenda, que formou um circo, onde todos os galos se esgoelavam. Porém, os fios se foram desfiando, se esgarçando, se desfazendo, quando foi minguando o número dos galos que cantavam.

 

Até que o sol estrangulou o canto na garganta do último galo. 


29 de março de 2011                     

domingo, 2 de agosto de 2026

INFLAÇÃO

 

Imagem criada pela AI Copilot

INFLAÇÃO


Elmar Carvalho

 

A inflação está

tão alta que

papel-moeda

virou papel higiênico.

 

E papel higiênico

virou artigo de luxo.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO

 

Imagem criada pela IA GPT

SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO

 

Elmar Carvalho

 

Ingressei na Superintendência Nacional do Abastecimento – Delegacia Regional do Piauí – SUNAB/DEPI no dia 10 de agosto de 1982, quando tinha 26 anos de idade. Dos cerca de 25 funcionários em atividade no dia em que tomei posse, só restam vivos três, talvez quatro. Exerci o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços, posteriormente renomeado para Fiscal.

 

Sua sede ficava na Rua Eliseu Martins, no cruzamento com a Rua Quintino Bocaiuva, no começo da ladeira do antigo Alto da Moderação, ou Praça Demóstenes Avelino, mais conhecida como Praça do FRIPISA. Meu chefe imediato era Walter e Silva Mendes, que cursara Medicina até o quarto ano e fora amigo de meu pai na adolescência. A delegada era a Dra. Francisca Dalva Marques Assunção.

 

Após os sucessivos planos econômicos, destinados a debelar a estratosférica inflação, a sede da delegacia regional do órgão foi transferida para o prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, situado na Praça Barão do Rio Branco, cujo busto de bronze foi surrupiado de seu pedestal anos depois. Após esses planos, a delegacia da SUNAB teve vários delegados e delegados substitutos.

 

Creio que, em 1995, eu e vários outros funcionários da autarquia, por força de decisão judicial transitada em julgado, passamos a receber uma vantagem salarial destinada a repor dois percentuais da inflação que o governo federal havia expurgado do reajuste de nossos vencimentos. Meses depois, por meio de ação rescisória, esse acréscimo foi retirado de nossos salários, o que representou um duro golpe, uma vez que eles já se encontravam bastante defasados, no jargão da época.

 

No começo de 1997, fui convidado pelo deputado estadual Humberto Reis da Silveira, que iria comemorar 50 anos de atividade parlamentar ininterrupta, para lhe prestar assessoria particular, sem qualquer vínculo funcional com a Assembleia Legislativa. Tendo em vista possíveis entraves burocráticos, pediu-me que entrasse em gozo de férias e requeresse minha licença-prêmio, a que fazia jus em razão do tempo de serviço.

 

Assim fiz e pude prestar-lhe minha assessoria. Devo dizer que a gratificação que dele recebi serviu para minorar os efeitos da redução salarial acima referida. Dessa forma, auxiliei-o em diversos serviços, mormente na elaboração do discurso que foi proferido em Jaicós, na solenidade magna de comemoração de seus 50 anos como deputado estadual.

 

Agora vem o caso enigmático, motivo maior desta minha crônica memorialística. Afirmo que desejo ser imparcial e objetivo e que não pretendo fazer nenhum julgamento sobre o episódio. Deixarei que o leitor tire suas próprias conclusões.

 

Quando minha licença especial estava prestes a terminar, a SUNAB entrou em processo de extinção. Imediatamente, os fiscais foram afastados de suas funções. Determinou-se, inclusive, que devolvessem todo o material de trabalho, tais como blocos de formulários de autos de infração, comprovantes de fiscalizações e notificações, bem como suas credenciais de identificação.

 

Mesmo estando impedido de exercer as funções inerentes ao cargo de fiscal, fui falar com o delegado da época a respeito de minha situação, inclusive sobre minha assessoria ao deputado Humberto Reis.

 

Ele então chamou o chefe da Seção de Pessoal e determinou que eu fosse designado para compor uma das Comissões Especiais afetas ao processo de extinção da autarquia. O chefe da seção lhe respondeu que isso não seria possível, pois havia determinação do Superintendente no sentido de que nenhum fiscal fosse designado para qualquer serviço interno.

 

Diante desse empecilho, o delegado imediatamente mandou que o chefe da Seção de Pessoal minutasse um ofício colocando-me à disposição da Delegacia do Ministério da Fazenda.

 

Devo esclarecer que minha relação com esse delegado era amistosa, e eu até o considerava um quase amigo. Ele gostava de conversar comigo. Ainda assim, fiquei com a leve, levíssima impressão de que pretendia me prejudicar ou "quebrar" o meu "bico".

 

Farei uma breve pausa para criar um clima de suspense e contar, resumidamente, um caso semelhante ocorrido com um saudoso amigo.

 

Meu amigo e mestre José Ribamar Freitas, professor do Curso de Direito da Universidade Federal do Piauí, de quem fui aluno, requereu uma vantagem a que julgava ter direito na repartição previdenciária em que era lotado. Em virtude da morosidade burocrática e dos Correios da época, resolveu levar pessoalmente o processo, viajando de avião até a cidade do Rio de Janeiro.

 

Foi diretamente ao chefe responsável pelo caso. Após explicar-lhe a situação e justificar a urgência, entregou-lhe o processo. O chefe imediatamente começou a despachar. Como de praxe, carimbou e assinou o despacho. Surpreso com tamanha presteza, algo insólita na burocracia brasileira, o professor Ribamar Freitas perguntou-lhe se poderia ler o despacho.

 

Atônito e estarrecido, constatou que o burocrata determinava a devolução do processo à repartição de origem, para que fossem cumpridos os trâmites burocráticos de praxe.

 

Retomo agora o fio de meu relato principal.

 

De posse do referido ofício, que me colocava à disposição da Delegacia do Ministério da Fazenda, dirigi-me à Seção de Pessoal dessa repartição, que funcionava no primeiro ou no segundo andar acima do nosso. A chefe da seção, após ler o documento, sem delongas nem titubeios, disse que não havia vaga e que eu poderia ir embora, devendo aguardar comunicação quando surgisse alguma vacância.

 

Não me fiz de rogado. Fui embora e só retornei alguns meses depois, no dia 19 de dezembro de 1997, para pedir minha exoneração e assumir, no mesmo dia ou no seguinte, o cargo de juiz de Direito, do qual me aposentei exatamente 17 anos depois.

 

Desde então, guardo a convicção de que, mais uma vez, Deus me livrara do mal e da injustiça.

domingo, 26 de julho de 2026

O PROTESTO DO JUDAS

 

Imagem criada pela IA Copilot

O PROTESTO DO JUDAS


Elmar Carvalho

 

No Sábado de Aleluia

batizaram e enforcaram

um Judas de pano e molambo,

o qual não estrebuchou

e nem se lamentou da sorte,

mas apenas protestou em testamento

por via do nome execrável (do político)

com que lhe batizaram.