sexta-feira, 9 de outubro de 2026

TEMPOS ECETISTAS

Recife dos anos 1970. Imagem melhorada pela IA GPT

 

TEMPOS ECETISTAS


Elmar Carvalho

 

Na noite passada, sem ver e nem para que, sonhei com os tempos em que trabalhei na ECT, mas num contexto  bem diferente da realidade, como não é incomum acontecer nos sonhos; por mais realistas que aparentem ser, trazem sempre algo de surpreendente e estapafúrdio, com alguma pitada desconcertante de estranheza. Nesse sonho eu iria fazer um treinamento, já não me lembro ao certo onde, e nele aparecia o Milton Higino, ao qual me referirei mais adiante. De qualquer sorte, fez-me recordar do meu ingresso na Empresa de Correios e Telégrafos, que dependeu de aprovação em curso de três meses no Recife, ministrado no primeiro semestre de 1975, quando fui aluno do Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, situado no bairro Bonji.

 

Certa tarde, quando eu fazia estágio numa das agências do centro do Recife, fui chamado pela diretora do Centro, senhora Cecília, mulher do então diretor regional da ECT em Pernambuco, para recitar um longo poema sobre Recife, que eu havia escrito. Salvo engano, a declamação foi no auditório da escola, onde ocorria uma solenidade. Senti-me, aos 19 anos, com bastos cabelos encaracolados, a própria reedição encarnada de Castro Alves, que também estudara na Mauriceia. Desse poema sobre a nossa tropical Veneza só consegui resgatar os seguintes versos: “tuas luzes multicores / ilusórias como os primeiros amores / cheios de mágoas / parecem peixes fosfóreos / em tuas águas”. Os versos retratavam o fascínio de um menino/poeta interiorano diante da bela cidade do bardo Manuel Bandeira.

 

Foram meus colegas do curso de Monitor Postal os conterrâneos Alcides Ananias Ibiapina, Wilson Higino, irmão do Milton, a que me referi, e o Paulo, irmão do Luís Carneiro, empregado da empresa, mas que nas horas de folga fazia serviços de instalação hidráulica e elétrica. Dessa turma faziam parte o Chaguinhas, teresinense, e  o Bernardo Candeira do Val, ambos já falecidos; o segundo era natural de Buriti dos Lopes, torrão de minha mulher, Fátima, que só vim a conhecer em 1977, quando fui cursar Administração de Empresas no campus da UFPI em Parnaíba, já como empregado da estatal.

 

Nos finais de semana, aproveitávamos para conhecer os pontos turísticos, tais como Olinda, parque zoobotânico, praia de Boa Viagem, roda de ciranda no adro de uma das vetustas igrejas. Num feriado prolongado, conheci Maceió e a bela praia de Pajuçara. Tive a satisfação de ser o orador dessa turma do Paulo Bregaro. Um dos mestres, em gritante exagero, disse que o meu discurso merecia ser proferido em um templo da cultura, o que massageou meu ego de garoto, certamente ainda bisonho.

 

O Milton Higino, como disse, apareceu nesse sonho, que não chamarei de extemporâneo porque os sonhos não respeitam a dimensão tempo-espaço de que nos fala o gênio Einstein em sua teoria da relatividade, e extrapolam ou mesmo violam os limites do tempo, do espaço e da velocidade. Eu o conhecia desde o início de minha adolescência, a trabalhar na agência do antigo DCT, em Campo Maior, quando esse departamento da administração pública federal já se preparava para ser transformado em empresa. Tanto ele, como seus irmãos Nonato, Cláudio, já falecido, e o Wilson começaram a trabalhar bem jovens.

 

Logo o Milton Higino foi aprovado em concurso para o BNB. Servidor exemplar, exerceu a gerência desse banco em várias agências da hinterlândia piauiense, entre as quais as de Oeiras e a de Água Branca, que ainda está sob seu comando. Presidiu o Comercial, arquirrival do Caiçara, pelo qual torço. Às vezes, tratando de interesses do banco, ele aparece no fórum de Regeneração, oportunidade em que conversamos brevemente. Tem ele uma palestra agradável, temperada com pitadas de bom-humor, graças aos casos anedóticos de seu vasto repertório.

 

Numa dessas práticas, contou-me ele que um seu ex-colega ecetista, após chamar o chefe pelo nome, em momento em que este estava um tanto turbinado pelo álcool, foi por ele advertido para que o chamasse de senhor. O subordinado disse que iria obedecer, que passaria a chamar todos de senhor, inclusive o Milton Higino, que ainda estava na puberdade, mas que em contrapartida iria exigir que todos os funcionários o chamassem também de senhor.

 

E, com efeito, passou a chamar todo mundo de senhor, mas lamentavelmente a recíproca não foi verdadeira, e ele não foi correspondido em seu respeitoso protesto, que terminou caindo no vazio.

26 de abril de 2011

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Padre Deusdedit, um mecenas do futebol

 

Pe. Deusdedit, Elmar e Fátima

Imagem elaborada pela IA GPT


Padre Deusdedit, um mecenas do futebol

 

Elmar Carvalho

 

Quando, recentemente, precisei do meu diploma do curso de Direito, que era guardado numa gaveta, juntamente com o do curso de Administração de Empresas, ambos expedidos pela UFPI, descobri que eles haviam sido extraviados, em circunstâncias que desconheço. Por essa razão, requeri ao setor competente a expedição de segunda via.

 

Numa das vezes em que lá estive, ouvi um velho servidor dizer que tinha vindo requerer sua aposentadoria. No decorrer da conversa, ele disse que era de José de Freitas e que havia sido vereador daquele município. Não pude deixar de me intrometer na conversa. Falei que morei naquela bela e bucólica cidade durante um ano, quando completei 14 anos de idade. Exatamente no ano de 1970, quando a Seleção Brasileira ganhou o tricampeonato mundial de futebol.

 

Perguntei qual era o nome de meu interlocutor, tendo ele me respondido que era José Ribamar Santana. Disse-lhe que morei numa casa caiada, que ficava exatamente no lugar onde terminava a rua que passava pelo teatro, pelo clube social, pela casa do senhor Levi Carvalho e pela lateral da casa dos Santana. Ribamar disse que aquela era a casa de seus pais. Contei-lhe, então, os seguintes episódios.

 

Relatei que jogava bola num campinho arenoso, rodeado de mangueiras, que ficava num terreno em frente à marcenaria de Zezé Barros, então o melhor marceneiro da cidade. Zezé jogava com a gente, a partir das cinco horas da tarde. Entre outros, participavam das “peladas” os garotos Itamar, Louro, Carlos, filho de dona Irá, e Pedro ou João Rocha. Eu atuava como goleiro e gostava de enfeitar minhas defesas com voadas acrobáticas. Acrescentei que, quando os Rocha compraram esse imóvel, proibiram a prática de futebol nesse campo.

 

Por essa razão, certo dia estávamos jogando futebol na rua, na frente da casa dos Santana, quando chegou o padre Deusdedit, dirigindo o seu Fusca. Ele era meu diretor e professor de Português no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, quando eu cursava o segundo ano. Acenou-me para que fosse até onde ele se encontrava. O padre perguntou-me por que estávamos jogando no meio da rua. Narrei-lhe a história acima, não esquecendo de falar sobre o fechamento de nosso campinho.

 

Ele disse que havia um terreno baldio em frente ao cemitério velho, por trás da casa de Levi Carvalho. Prometeu que, se limpássemos esse terreno, ele daria as traves, uma bola de couro, os tornos de marcação e um apito para o árbitro. Liderei os colegas de futebol e limpamos o terreno dos mata-pastos que infestavam o local.

 

O padre imediatamente cumpriu sua promessa. Diante disso, fiz uma carta ao Armazém Paraíba, relatando esses fatos e pedindo um equipamento completo para um time de futebol. Um ou dois meses depois, recebi em minha casa o uniforme do Santos. Assim, posso dizer que, com a ajuda do padre Deusdedit Craveiro de Melo, contribuí para a fundação de um campo de futebol e do Santos de José de Freitas. O padre já havia fundado outro campo de futebol, o Guriatã.

 

Relatei ao Ribamar Santana que certa vez vi o irmão dele, em companhia de outros rapazes, ouvindo músicas da Jovem Guarda numa radiola portátil, na calçada de sua casa. Entre outros cantores, pude ouvir, nessa ocasião, José Roberto e Paulo Sérgio. Contei que, poucos anos depois, soube da morte de seu irmão, afogado nas águas do Parnaíba. Ele confirmou a morte do irmão e acrescentou que esse fato trágico aconteceu no dia da inauguração do Estádio Alberto Silva.

 

Ele, após me dizer que se casara com uma irmã de Pedro e João Rocha, afirmou estar admirado de minha memória e mostrou o braço arrepiado, em sinal da emoção que sentiu com os fatos que narrei.

 

Encerro esta crônica memorialística prestando minha comovida homenagem ao monsenhor Deusdedit Craveiro de Melo, que me casou 15 anos depois, meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas, mecenas do futebol freitense.

 

(*) Alguns dos fatos narrados encontram-se no documentário “José de Freitas – a cidade da memória e da saudade”, disponível no YouTube.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

LABIRINTO TINTO DE SANGUE

Imagem elaborada pela AI GPT

LABIRINTO TINTO DE SANGUE


Elmar Carvalho

 

Faço um poema

com o sangue ardente

das nascentes de meus dedos:

vertentes de medos e degredos.

Os versos são fios de esperança

que saem de palpos de estranhas aranhas

construindo labirintos em arabescos

tintos de sangue nos afrescos.

Ariadne recolhe o fio

e Teseu surge intacto

com a espada embebida

do sangue do Minotauro que traz

no peito a rosa sangrenta da ferida.

Com esse fio

Penélope tece e destece

um longo manto ensopado

de pranto e quebranto

e se amortalha das dores

de amor de que padece

– amor que lhe pasta e apetece.

O que conclui desfaz peça por peça

e interminavelmente recomeça.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CADERNOS DE SARAMAGO

 



CADERNOS DE SARAMAGO


Elmar Carvalho

 

Na sessão da APL do dia 9 do corrente, sábado, a Teresinha Queiroz, apesar de minha amiga, terminou “inconfidenciando” que eu estava a fazer aniversário. Recebi os aplausos e os cumprimentos dos confrades, pelos quais agradeci, na hora apropriada, quando pedi a palavra. Por coincidência, o professor Paulo Nunes me dera, antes do início da reunião, o volume II de Cadernos de Lanzarote, contendo os diários de José Saramago referentes aos anos de 1996 e 1997.

 

Em minha breve alocução, agradeci-lhe o mimo, e acrescentei que ele me havia emprestado um outro volume dos ditos Cadernos, relativos aos anos 1993, 1994 e 1995, e que só não me agraciara com esse tomo porquanto fora presente do confrade Celso Barros Coelho, no qual se encontra consignada amável dedicatória desse notável intelectual, datada de 8/5/97, que faço questão de transcrever: “Ao caro Paulo Nunes, a quem muito agradarão estes 'Cadernos de Lanzarote', na mensagem que nos envia o grande Saramago, de sua ilha, no dia a dia de sua meditação ao sabor das circunstâncias agradáveis (para o leitor).”

 

Expliquei a meus pares que vinha me dedicando a ler diários, autobiografias e memórias em virtude de que estou me preparando para fazer da melhor maneira possível o meu Diário Incontínuo, que venho escrevendo e publicando no meu blog e no Blog Literário do portal 180 Graus.

 

O professor Paulo Nunes, complementando minhas palavras, falou que o volume ofertado pelo acadêmico Celso Barros, além do valor agregado da dedicatória, tinha também um outro valor afetivo a mais: é que por causa da compra desse livro, e também por causa do embevecimento de Celso a olhar e folhear outras publicações da livraria do aeroporto, terminara perdendo o avião que o traria de volta a Teresina, só retornando em outra aeronave, posteriormente. Portanto, deixei de ganhar esse volume em virtude da bela dedicatória e em razão de o nosso acadêmico haver perdido o seu voo em decorrência de sua aquisição.

 

Para coroar o dia de meus anos, que eu pretendia deixar transcorrer no mais absoluto esquecimento, o confrade Manfredi Mendes de Cerqueira, mestre da oratória, sobretudo da concebida ao sabor do improviso, disse que este diarista tem no prenome “a combinação de cinco letras, e que as três últimas desaguam no mar; que o mar simboliza a sua grandeza literária, a sua largueza de espírito e de outras qualidades”. Não me restou alternativa, a não ser agradecer, embora não as merecendo, as belas palavras do desembargador Manfredi, sempre lhano e espirituoso em sua verve bem-humorada.

23 de abril de 2011

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sobre livros, poemas e leituras

Acadêmicos Oton, Elmar, Cecília e Felipe, no auditório do Liceu Piauiense

CETI João Henrique de Almeida Sousa


Sobre livros, poemas e leituras

 

Elmar Carvalho

 

Dias atrás, estive no velho Liceu Piauiense (CETI Zacarias de Góis) para participar de um evento promovido pela Secretaria Estadual de Educação e pela Academia Piauiense de Letras. Como representantes da APL, participamos eu e os acadêmicos Felipe Mendes, Oton Lustosa e Cecília Mendes. Cada um, a seu modo, falou sobre livros, experiências com a literatura e a importância dos Clubes de Leitura, mormente para a difusão da literatura piauiense. Os alunos recitaram poemas e apresentaram performances.

 

Em minha conversa, disse que meu interesse pela literatura nasceu quando eu tinha dez anos, na época em que, por um curto período, fomos morar na zona rural de Campo Maior. À falta de outras diversões, a leitura se tornou o meu entretenimento predileto, que mantenho até hoje. Acrescentei que, a partir dos meus 16 anos, comecei a publicar contos e crônicas no jornal A Luta, de Campo Maior.

 

Revelei que, no primeiro semestre de 1973, aos 17 anos, quando fui aluno do Liceu, o seu auditório, onde estávamos, me encantava, e eu o achava grande, deslumbrante, quase mesmo suntuoso (*).

 

Olhando as suas cadeiras, o seu palco, as suas ornamentações e balaústres, sobretudo as suas cariátides, que pareciam sustentar o teto, interiorano, jovem e algo bisonho, um tanto cabeludo e esbelto, eu me julgava o próprio Antônio Frederico de Castro Alves e sonhava recitar um de meus poemas para um grande público de alunos e professores.

 

De certa forma, realizei esse sonho dois anos depois, no Recife, quando a diretora do Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro me convidou para recitar um poema de minha autoria sobre a linda Veneza Brasileira. O poema se perdeu nos desvãos e esconderijos de esconsa gaveta. Dele, guardei apenas estes versos:

 

tuas luzes multicores

ilusórias como os primeiros amores

cheios de mágoas

parecem peixes fosfóreos

em tuas águas.

 

Aproveitei o momento para realizar o sonho do bisonho garoto que eu fui e, do alto do palco do belo auditório do Liceu Piauiense, aos 70 anos, recitei um poema de minha lavra para o auditório lotado de atentos alunos e professores.

 

Parafraseando o poeta Luís Guimarães Júnior, diria que a emoção “jorrou-me em ondas”, e quase não pude resistir às lágrimas que queriam marejar meus olhos e minhas retinas já fatigadas.

 

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Na terça-feira da semana passada (22/09/2026), cumprindo outro evento da parceria entre a SEDUC e a APL, os confrades Fonseca Neto, Cecília Mendes, Marcelino Leal Barroso de Carvalho e eu estivemos no CETI João Henrique de Almeida Sousa. Fomos recebidos pela diretora Lívia Simão, pelo professor de Literatura Gilson e por outros mestres e funcionários. Todos falamos sobre literatura, livros e a importância dos Clubes de Leitura.

 

Funcionou como apresentadora, ou mestra de cerimônia, a jovem aluna Bianca Soares, que teve muita desenvoltura, criatividade e capacidade de improviso. Alguns alunos fizeram performances e recitaram poemas de sua autoria. Foi recitado um poema do estudante Heitor, rapaz um tanto tímido, cujo nome — e o fato de ser poeta — me fez lembrar Troia e Homero, que celebrou em seus versos o herói lendário.

 

Desta feita, optei por falar sobre a gênese de meu poema “Rio Infinito”, elaborado recentemente, e fazer a minha interpretação de autor. Contudo, deixei claro que ele poderia ter outras interpretações diferentes da minha.

 

Foi projetada uma imagem que pedira a uma IA que elaborasse, seguindo minhas instruções, na qual aparecia um rio que formava o símbolo do infinito e do qual surgia a “escada” retorcida de um DNA humano.

 

Expliquei que, ao ler um livro de poesias, o poema, como um “insight”, ficara gravado em meu cérebro, já pronto e acabado. Eis o poema, que também foi projetado pelo datashow:

Sou

um rio infinito,

um rio

sem começo nem fim.

 

Um rio que deságua

em si ou em mim.

 

Um rio eternamente a fluir

no espaço e no tempo,

sem início e sem fim...

Dei algumas explicações sobre a imagem e seu significado, mas principalmente tentei interpretar o meu poema. Assim, lhes disse que o rio infinito de meu poema não poderia ser nunca um rio literal, um rio de verdade, uma vez que um rio natural não pode desaguar em si mesmo, já que sempre segue a declividade por onde corre.

 

Um rio de verdade pode se transformar num rio seco, num rio de pedras ou num rio de areia, quando é temporário. É o rio de Heráclito de Éfeso, que não pode ser atravessado duas vezes, já que as águas serão outras. É o rio de um filme a que assisti recentemente, em que um personagem, ao contemplá-lo e se lembrar do passado, exclamou, talvez apenas para si mesmo: “As águas passam, o rio fica; que nem nós”. Era um filme baseado no magnífico conto de Aníbal Machado, “Viagem aos seios de Duília”, cujo título vale por um excelente poema lírico.

 

Esclareci que o meu rio formava uma espécie de Ouroboros, a serpente ou dragão que morde a própria cauda, como símbolo da eternidade — do nascimento, morte e ressurreição para a eternidade. É um rio sobrenatural porque deságua em si mesmo, como a significar a retroalimentação e a perenidade.

 

Para não me alongar, diria que o meu rio representa a vida eterna, de que nos falou Jesus, e que ele está nos seguintes trechos do Novo Testamento, para os quais remeto o leitor: João 4:14, João 15:5 e Apocalipse 22:1.

 

Portanto, o rio de meu poema é o mesmo que está no Novo Testamento, o rio metafórico de que nos falaram Jesus e João. Um rio de águas límpidas, puras, cristalinas. Quem dele beber não voltará a ter sede. Quem dele beber não morrerá, a não ser para a vida eterna.

 

Nasce no trono de Deus e a ele infinitamente retornará, pelos séculos dos séculos, “ad infinitum”.

 

(*) Esse relato se encontra no documentário “Teresina – Tempo e Memória”, que se encontra disponível no YouTube.  

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Uma Leitura Íntima de "A Maldição do Poeta"

Imagem elaborada pela IA GPT

 

Uma Leitura Íntima de "A Maldição do Poeta"

 

Frederico Rebelo (*)

 

Ensaio elaborado pelo escritor e poeta Frederico Rebelo sobre o poema “A Maldição do Poeta, da autoria de Elmar Carvalho, que poderá ser lido na íntegra através deste link: https://poetaelmar.blogspot.com/2026/09/a-maldicao-do-poeta.html.  

 

Conheço Elmar Carvalho há tempo suficiente para reconhecer, por trás de seus versos, algumas das inquietações que os alimentam. A amizade e a convivência me ensinaram que, nele, poesia e vida não caminham por estradas inteiramente separadas. Há sempre, sob a palavra rigorosamente trabalhada, alguma inquietação mais funda, algum acerto de contas do homem consigo mesmo e com o mundo.

 

É dessa perspectiva, ao mesmo tempo afetiva e crítica, que leio "A Maldição do Poeta". O poema me parece uma espécie de autorretrato interior: não do homem biográfico, mas do poeta diante da própria condição de escrever.

 

Desde o primeiro verso, o poema nos coloca diante de uma figura solitária: o “lobo solitário”, perdido em estepes onde jamais esteve. A paisagem é imaginária, mas o sentimento que a produz é concreto. Vento, frio, Lua e estepes compõem menos um cenário do que uma geografia interior.

 

Então vem um dos versos que mais me chamam a atenção:

 

"para não a ver

meus próprios olhos ceguei.”

 

Há aqui uma contradição de grande força poética. O poeta cega os próprios olhos para não contemplar a Lua. Mas essa cegueira voluntária pode ser entendida de outra maneira: ao recusar o olhar imediato, ele procura uma visão que não depende dos olhos. A imagem sugere o preço de uma percepção que ultrapassa a aparência das coisas.

 

Em seguida, aparece o “cão danado”, “condenado / por si mesmo”. A condenação já não vem somente de fora; nasce no próprio sujeito. E sua pena é uma “eternidade / de trabalho forçado”. A expressão me parece particularmente feliz porque despoja o ato de escrever de qualquer romantismo fácil. Para esse poeta, a criação tem algo de necessidade e de suplício.

 

É nesse ponto que o título começa a adquirir sua verdadeira dimensão. A maldição não está apenas no sofrimento. Está na impossibilidade de escapar daquilo que o impele a escrever.

 

O "Judeu Errante" prolonga essa condição. O poeta atravessa “desertos de areia e de gelo”, sempre fugindo de si mesmo. A errância deixa de ser geográfica e passa a ser existencial. Por mais que caminhe, o poeta carrega consigo aquilo de que tenta fugir.

 

Quando se proclama “Poeta maldito / até a infinita geração”, Elmar aproxima sua voz de uma antiga linhagem literária: a do poeta que não se acomoda, que permanece em conflito com o mundo e consigo próprio. Não é necessário recorrer a nomes ou genealogias para perceber essa filiação; ela está contida na própria imagem.

 

Mais adiante, a expressão “cosmopolita proscrito / das fronteiras do / tudo e do nada” amplia o horizonte do poema. O poeta pertence a todos os lugares e, simultaneamente, sente-se estrangeiro neles. As fronteiras de que fala Elmar já não são políticas: são existenciais. O poeta habita esse território instável entre o que pode ser nomeado e aquilo que permanece obscuro.

 

E então surge Prometeu.

 

A escolha é precisa. Prometeu traz consigo o fogo, a transgressão e o castigo. Mas o que mais me interessa na apropriação de Elmar é um detalhe: as aves que dilaceram o titã “saíram de seu cérebro”.

 

Aqui o poema alcança uma de suas imagens mais perturbadoras.

 

O algoz nasce do próprio pensamento. Os monstros e fantasmas que atormentam o poeta são também criaturas de sua imaginação. Ele dá existência àquilo que depois o persegue. A criação, portanto, deixa de ser apenas expressão: torna-se também uma forma de confronto com aquilo que o próprio espírito produz.

 

Por isso, o "caldeirão vulcânico / em contínua erupção” me parece a imagem que melhor concentra o poema. A mente do poeta ferve. Dela brotam “monstros e fantasmas / de milhares de membros e cabeças”, numa proliferação quase descontrolada de formas. O vulcão não é apenas destruição; é também fonte de matéria.

 

E talvez esteja aí o paradoxo central de "A Maldição do Poeta": aquilo que atormenta o poeta é também aquilo que alimenta sua poesia.

 

É por essa razão que não vejo o poema apenas como uma confissão de angústia. Vejo nele uma reflexão sobre a própria condição de escrever. O lobo, o cão, o Judeu Errante e Prometeu são faces diferentes de uma mesma figura: o homem que carrega dentro de si uma matéria que não lhe permite o repouso.

 

Como amigo e confrade, essa leitura me toca de maneira particular. Há em Elmar uma inquietação intelectual que conheço e que reconheço nesses versos. Não me parece que ele esteja simplesmente construindo a personagem convencional do “poeta maldito”. Há, antes, uma espécie de reconhecimento: o poeta sabe que sua condenação está ligada àquilo que constitui sua própria força.

 

Talvez seja essa a verdadeira maldição de quem escreve: não conseguir expulsar os fantasmas que o habitam porque são justamente eles que, transformados em palavra, podem sobreviver ao próprio poeta.

 

É nesse ponto que o poema deixa de ser apenas autorretrato e se torna poética. A dor, a solidão, a errância e o tumulto da imaginação encontram na linguagem uma forma de permanência.

 

E é talvez aí que eu encontre o Elmar que conheço: o homem inquieto que não se satisfaz com a superfície, o escritor que transforma a inquietação em matéria verbal e o poeta que, mesmo quando fala de sua própria maldição, continua exercendo aquilo que essa mesma maldição lhe impõe.

 

Prometeu permanece acorrentado. As aves continuam retornando. O vulcão não se extingue.

 

E o poeta, fiel ao seu destino, continua escrevendo.

 

(*) Frederico A. Rebelo Torres, poeta, escritor, Brasil.

domingo, 27 de setembro de 2026

VENTO NA ALMA E NOS CABELOS

 

Imagem elaborada pela IA Copilot

VENTO NA ALMA E NOS CABELOS


Elmar Carvalho

 

De Parnaíba jamais esquecerei

o vento dedilhando a harpa eólia

da palma dos coqueiros

e uma música divina destilando.

Jamais esquecerei a ventagonia fiando

e desfiando os novelos de meus cabelos

encrespados em espumas e salsugens

e arrastando minha alma

–  veleiro de aventureiros e corsários

        bandoleiros e libertários –

pelo largo mar onde

                                  onda após onda

o sonho vai quebrar.

 

           Pba. 29.07.89

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

DES. JOSÉ LUÍS – UMA JUSTA LOUVAÇÃO

 

Imagem recriada pela IA Copilot

DES. JOSÉ LUÍS – UMA JUSTA LOUVAÇÃO


Elmar Carvalho

 

Nesta sexta-feira, fui ao cemitério da Ressurreição, em virtude do sepultamento do desembargador José Luís Martins de Carvalho, que havia falecido por volta das quatro horas da tarde do dia anterior. Tive a oportunidade de conhecê-lo em 1997, em cujo mês de dezembro, dia 19, ingressei na magistratura, tomando posse perante ele, em seu gabinete de presidente do Tribunal de Justiça do Piauí. Fiz um breve discurso de saudação e de regozijo, em meu nome e no nome de mais doze colegas, que tomaram posse juntamente comigo.

 

Sabia de suas virtudes de homem de bem e de magistrado íntegro, honrado, imparcial, contra o qual nunca se ouvia o mais leve murmúrio, por mais leve e por mais murmúrio que fosse. Não quero neste texto arrolar atos e fatos de sua vida pública, nem inventariar datas e dados de seu curriculum vitae, pois a sua mais refulgente biografia é o seu caráter e as suas ações, revestidas sempre de honradez e probidade.

 

De muitos falsos grandes homens, se diz que a estátua é maior que o modelo. De muitos falsos Catões, se nota logo que a capa dourada de verniz é muito frágil, muito tênue, muito precária, e que basta um leve passar de unha para que a pátina e a ferrugem apareçam, para mostrar a nua e feia realidade. Mas o desembargador José Luís, não; ele, em sua humildade altiva, era maior que a estátua, até porque não a tinha e nem precisava dessas fátuas ostentações. Também não tinha o áureo verniz da hipocrisia, pois era verdadeiro em suas posturas de homem e de magistrado digno e correto, conquanto devesse ter os seus defeitos, inerentes à condição humana, como todos nós.

 

Devia-lhe um favor pessoal. Favor republicano, legítimo, legal, que mais o engrandeceria se eu o revelasse, mas prefiro guardá-lo no recôndito de meu coração. Quando o saudoso magistrado foi inaugurar a reforma do fórum de Oeiras, terra a que sou ligado por laços afetivos, sentimentais e de amizades, eu ainda estava no início de minha carreira, como juiz substituto.

 

Ao visitá-lo em seu gabinete, disse-lhe que havia escrito, tempos atrás, o poema Noturno de Oeiras, que caíra no agrado dos oeirenses, e que esse texto se prestaria a uma encenação por parte de um ator que o interpretasse, dando-lhe alma e emoção. Conversei com os seus assessores, e o certo é que o poema foi interpretado pelo ator Bonifácio, na solenidade de inauguração da reforma do fórum Des. Cândido Martins, ocorrida no Cine-Teatro Oeiras. A encenação foi calorosamente aplaudida por todos os meus colegas e por todos os presentes, em momento para mim inesquecível.

 

Amigo de vários parentes seus, filhos do des. Antônio Santana Ferreira de Carvalho, de antigas estirpes oeirenses, tive o ensejo de degustar três cálices de vinho tinto, em sua companhia e na do historiador e cronista Antônio Reinaldo Soares Filho, casado com sua prima Maria Eulália. Pude, então, mais uma vez, apreciar a sua conversa agradável, inteligente, em que ele desfiava episódios interessantes, pitorescos ou mesmos jocosos, de que fora observador privilegiado e arguto. Às vezes, em meio aos casos engraçados que contava, emitia sua gargalhada, de timbre e modulação bem característicos, que realmente lhe denotavam uma alegria sincera.

 

Um ou dois meses antes de seu falecimento, conquanto já o soubesse doente, fui entregar o meu livro Noturno de Oeiras e Outras Evocações, lançado recentemente na velha capital, com o apoio do Instituto Barros de Ensino, com desvanecedora apresentação do advogado e escritor Moisés Reis, em magnífica noite literomusical, ao seu filho Godofredo, para que este lhe fizesse chegar às mãos. A obra contém meus principais textos velhacapianos, em verso e em prosa, entre os quais dois poemas, crônicas, ensaios e discursos. Não sei se o des. José Luís ainda o conseguiu ler, se ainda susteve o meu livro em suas mãos. Nunca perguntarei sobre isso. Prefiro imaginar, que ele lhe repassou as folhas, lhe fitou as gravuras, lhe leu um ou outro verso, e tenha se comovido com uma ou duas frases mais felizes...

 

No cemitério, conversei brevemente com sua filha Madalena. Ouvi-a contar ao  des. José James e sua esposa que seu pai a consolou sobre sua morte, pedindo-lhe que aceitasse essa provação, que se resignasse com o término de seus dias. Ante esse depoimento filial, me é lícito imaginar que ele, não obstante os sofrimentos por que passou em sua doença, morreu em paz, sem medo, sem terrores diante do inelutável, graças a sua consciência tranquila de homem bom, honrado e digno. E sei que ele subiu a outros páramos, onde a Justiça brilha com mais intensidade.

19 de abril de 2011

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

domingo, 20 de setembro de 2026

RIO INFINITO

Imagem elaborada pela IA Copilot


RIO INFINITO


Elmar Carvalho


Sou

um rio infinito,

um rio

sem começo nem fim.


Um rio que deságua

em si ou em mim.


Um rio eternamente a fluir

no espaço e no tempo,

sem início e sem fim...

Teresina, 18/09/2026

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

MANHÃ CHUVOSA

 

Imagem elaborada pela IA GPT

MANHÃ CHUVOSA


Elmar Carvalho

 

Como disse Fernando Pessoa, em versos, hoje o dia deu em chuvoso, ao menos no início desta manhã um tanto friorenta. Do alpendre, eu via a chuva cair sobre as grandes árvores do quintal vizinho. Fiquei a imaginar uma chuva torrencial, batida por forte ventania, numa grande floresta, e sobre como seria a reação dos animais. Qual a sensação das aves pousadas nos galhos? Frio, medo, arrepio, calafrio, desconforto, alegria, ou um misto de tudo isso?

 

E como reagiriam os outros animais, em seus buracos na terra ou nos troncos das árvores, nas tocas, nas locas, nas furnas, nos socavões das serras e nas cavernas? Teriam medo, quando do ribombar dos fortes trovões? Teriam pavor da luz ofuscante dos relâmpagos, a ferir a densa treva das florestas fechadas? Ou simplesmente enfrentariam, com a maior naturalidade, esses fenômenos e circunstâncias, já que acostumados com eles desde o nascimento, sem o uso de agasalhos e sem telhados?

 

Já cantei a chuva num longo poema. E tomei banho de chuva na minha infância, mas não tantas vezes como acho que deveria. Alguns anos atrás, já adulto, quando eu estava num dos cimos da Serra Azul, caiu uma forte chuva, inesperadamente. Logo se formou um córrego, que se precipitava pela encosta abrupta. Numa depressão que havia, formou-se uma espécie de piscina, que nos proporcionou um banho inigualável. Antes, quando havia um sol forte, nos abrigamos numa pequena choça de caçador; ela que nos deu sombra, jamais conseguiria nos proteger da chuva, com seu teto esburacado. Mas essa proteção era tudo que não queríamos. O que desejávamos mesmo era o afago da chuva, enquanto nos deliciávamos na piscina a que me referi.

 

Estávamos no cume do monte o Hulk, que não era verde como o incrível personagem de que lhe adveio a alcunha, o Zé Francisco Marques, o Ximenes, que foi nosso guia e era caçador em suas folgas de servidor público, meu irmão Antônio José e eu. Faltava na composição desse grupo de intrépidos aventureiros o meu cunhado Zé Henrique, por motivo que já não recordo. Já lá se vão mais de dez anos em que fomos abençoados e benzidos por essa chuva que nos surpreendeu no alto de um dos morros azuis de Santo Antônio do Surubim.

 

Mas hoje foi muito diferente. A chuva era mansa e eu estava abrigado. Primeiro, no  aconchego do apartamento, depois, pelo guarda-chuva, negro como manda a praxe mais tradicionalista. Ao seguir pelo largo corredor do Pingo d' Água, ouvia o som dos pingos da chuva a tamborilar na seda distendida pela armação metálica. O ramo de uma trepadeira, que descia de uma enorme mangueira, com seus brotos espiralados como delicado pingente de minuciosa ourivesaria, com seus caprichosos volteios e arremates, com suas folhas recortadas em arabescado desenho, enfeitava esta manhã chuvosa. Continuei meu percurso até a repartição a ouvir a percussão dos pingos sobre o tecido sonoro do guarda-chuva.

 

Conforme o ponto onde as gotas caíam, o som podia ser mais suave ou mais seco, mais grave ou mais agudo, cada qual com a sua própria peculiaridade. Esses sons respingados me fizeram lembrar as páginas iniciais e antológicas de Confesso que vivi, de Pablo Neruda, quando o mestre, ao discorrer sobre sua infância, recordava que sua mãe, durante as grandes chuvas andinas, em que as goteiras rebentavam na casa, colocava diferentes vasilhas para recolher a água que escorria dos furos do teto.

 

De acordo com a intensidade do gotejamento e do tipo de recipiente, os sons variavam, tanto em volume como em timbre, indo da surdina aos mais altissonantes e dos mais argentinos aos mais graves e profundos. Talvez tenha sido essa melodia pluvial, a lhe embalar os sonhos juvenis, que o tenha despertado para a música encantada e silenciosa da poesia. 

13 de abril de 2011

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O DESTINO DE UM LIVRO

Professor Reginaldo Soares
Capa da autoria de Gervásio Castro

 

O DESTINO DE UM LIVRO

 

Elmar Carvalho

 

Na sexta-feira passada, dia 11/09/2026, recebi, por WhatsApp, um vídeo do meu amigo Reginaldo Soares, no qual dizia haver “salvo” da reciclagem dois livros de minha autoria, ambos de poemas: Rosa dos Ventos Gerais (1ª edição, 1995) e PoeMitos da Parnaíba.

 

Eles estavam no meio de um enorme volume de material impresso, cuja quase totalidade seria picotada e transformada em matéria-prima para a fabricação de papel.

 

Seria uma destinação menos ruim do que pura e simplesmente serem queimados ou jogados em um monturo ou lixão. Lembro que, durante a Santa Inquisição, muitos livros foram queimados em praça pública, quando não os seus próprios autores. Não nos esqueçamos de que, não faz muito tempo, ainda havia censura no Brasil.

 

Com o avanço tecnológico, temos uma imensa proliferação de livros e autores, de forma que a literatura, que já teve certo prestígio e charme, vem perdendo o glamour, uma vez que hoje — quase diria — temos mais escritores que leitores.

 

Conhecido escritor, acho que Eduardo Galeano, disse, muitos anos atrás, que a possibilidade de um livro alcançar determinado leitor seria a mesma que a de uma garrafa lançada ao mar, com uma mensagem, chegar ao seu destinatário. Nesse particular, tive algumas poucas, porém agradáveis, surpresas, quando alguns de meus livros alcançaram as mãos de improváveis leitores.

 

Reginaldo Soares, no caso narrado acima, foi um deles. Apesar de deficiente visual em grau elevado, é leitor voraz. Foi professor e presta serviço voluntário, em São Miguel do Tapuio, a uma associação para deficientes visuais, da qual foi um dos fundadores e é um dos líderes mais destacados. Meus livros não poderiam ter alcançado melhor leitor e destinatário, ainda mais porque ele é compositor e radialista, e bem pode divulgar o conteúdo deles.

 

Esse episódio me fez lembrar um caso relatado pelo meu amigo e confrade Homero Castelo Branco, acontecido há várias décadas.

 

O meu homérico amigo foi a um sebo que havia na Avenida Antonino Freire, a menor avenida do mundo, perto do prédio dos Correios e Telégrafos. Lá, para sua perplexidade e tristeza, encontrou alguns volumes que ele havia autografado, em amável dedicatória, a pessoas de sua amizade. Como eu soltasse vibrante gargalhada, o bom Homero sorriu e disse:

 

— Não ria, não. Lá também havia obras suas...

 

Ri mais ainda. Com o desprestígio da literatura, com os apartamentos cada vez menores, além das traças e dos cupins, os viúvos e herdeiros se tornaram os maiores inimigos de bibliotecas, que se tornaram um verdadeiro estorvo para essas pessoas, que logo tentam vender esses volumes para algum sebo ou bibliófilo, ou os doam para alguma associação, que promove a referida reciclagem.

 

As bibliotecas públicas, sob a alegativa de falta de espaço e de que esses livros já estão desatualizados ou não têm valor artístico ou literário, não os recebem.

 

Assim, ao contrário de um navio, esses livros jamais encontrarão um bom porto, um porto seguro como destino, e serão queimados ou destruídos em reciclagem. Dessa forma, pelo menos em parte, estes versos de Castro Alves talvez já tenham perdido a validade:

 

“Oh! Bendito o que semeia

Livros... livros à mão cheia...

E manda o povo pensar!” 

domingo, 13 de setembro de 2026

MAR(ULHO) NO TABOCAL

 

Imagem elaborada pela IA GPT

MAR(ULHO) NO TABOCAL


Elmar Carvalho

 

Manhosa

manhã de domingo.

Sorvendo

solvendo uma cerveja

estupidamente gelada

sob a sombra redonda

redoma levemente

verde-transparente

o sol ruiva

o vento uiva

                ondula e marulha

nas afiadas espadas e agulhas

                do tabocal

e me emerge um mar

                imerso no temporal

quebrado nos arrecifes

                esvaído no tempo

e nas distâncias esquecidas.

 

           Te. 23.06.91

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

REDES NA VARANDA

 

Tempo, tempo, tempo... E assim se passaram 15 anos.




REDES NA VARANDA


Elmar Carvalho

 

Juntando o fato de que concluí a construção de um quarto e uma varanda na casa nova e de que fiz aniversário neste sábado, resolvi fazer uma pequena comemoração familiar no domingo passado. De Campo Maior vieram meus pais e o José Francisco Marques, meu amigo e filho de um amigo de meu pai. De Teresina, compareceram meu irmão Antônio José, a sua mulher Jesus e mais outros familiares de minha mulher, entre eles a Simone e o seu marido Cesinha.

 

Também compareceu o Didi, que foi o mestre responsável pela pintura dos dois anexos. Armamos umas redes na varanda, de cores variadas, o que dá sempre uma ideia de alegria, de velas ou de flâmulas ao vento. Para aumentar o colorido festivo, o bolo confeitado simbolizava um gramado com o escudo do glorioso Flamengo, com o vermelho e o verde a representarem a vitalidade do sangue e da clorofila.

 

Fiz questão de inaugurar uma rede que me foi presenteada pelo professor Neto Chuíba, um conterrâneo e amigo. Quando estava, certa ocasião em sua casa/chácara, participando de uma comemoração de sua família, o Neto, na empolgação do momento, prometeu-me a rede, manufaturada artesanalmente por uma tia sua. Pedi-lhe para que não levasse a sério a promessa, e, portanto, não a cumprisse. Mas quando foi dois meses atrás eis que ele me entrega o mimo. Constatei que ele é um homem de palavra, que gosta de cumprir o que promete, mesmo quando desobrigado pela pessoa que seria beneficiada. Disse-lhe, então, que ele jamais poderia ser certo tipo de político, sobretudo os falastrões e fanfarrões das falsas promessas, os que prometem como nunca e faltam como sempre. Do aconchego dessa rede, branca como algodão e com a mesma maciez, vi meu pai deitado numa outra, de cor e textura diferentes, porém igualmente confortável.

 

Resolvi fazer um discurso relâmpago, como chamo essas meteóricas verbalizações ao sabor do improviso. Disse que não costumava comemorar os dias de meus anos, porquanto não via muita vantagem e mérito nisso, já que tudo e todos fazemos aniversário todos os anos, exceto se for pela graça de completarmos mais um ano de vida, o que de qualquer sorte é uma consequência natural de permanecermos vivos. Todavia, observei que era uma grande graça eu completar meio século e mais um lustro com pais vivos, lúcidos e gozando de boa saúde. Agradeço sempre as dádivas recebidas de Deus, e, portanto, demonstrei a minha alegria pelo término da construção.

 

Mas o que me levou ao trabalho e despesas com essa pequena obra é o fato de que agora já posso trazer parte de minha biblioteca para dentro de minha casa, e consequentemente voltando a ter ao alcance das mãos e dos olhos algumas centenas de livros que amealhei ao longo de várias décadas de esforço e trabalho. A outra parte irei doar a uma biblioteca municipal. Ainda não quero desfazer-me dos volumes que trarei; esses amigos, no seu silêncio, simplicidade e modéstia, me deram prazer, satisfação, encantamento e sabedoria de vida e mesmo da ciência, sem nunca me ferirem e sem jamais me magoarem.

 

Algum dia os doarei a uma biblioteca pública, para que eles, objetos abençoados, sirvam a outras pessoas. Bem-aventurados os que servem, pelo simples prazer de estarem servindo, sem nada pedirem, sem nada desejarem.

12 de abril de 2011