sexta-feira, 27 de março de 2026
quinta-feira, 26 de março de 2026
PANEGÍRICO AO MAGISTRADO ANCHIETA MENDES (*)
| Cabo músico do Exército |
| Formatura em Direito |
| Recebendo homenagem da Câmara Municipal de Parnaíba |
PANEGÍRICO AO MAGISTRADO ANCHIETA MENDES (*)
Elmar Carvalho
José de Anchieta Mendes de Oliveira nasceu em Simplício
Mendes, em 04 de outubro de 1931, dia de São Francisco de Assis. Filho de
Joaquim Mendes de Oliveira e Isabel Elisa de Oliveira, era cinco anos mais novo do que meu pai. Teve 15 irmãos e 6 filhos, três dos quais, na esteira do
pai, optaram pela carreira jurídica.
Entre seus irmãos, temos o economista e professor
universitário Felipe Mendes de Oliveira, meu colega na Academia Piauiense de
Letras, que exerceu importantes cargos e funções, entre os quais os de
secretário da Fazenda e vice-governador do Estado do Piauí, além de ter sido
deputado federal e deputado constituinte.
Sendo Felipe Mendes 18 anos mais novo do que o Dr. Anchieta,
este se preocupava com o seu bem-estar, com a sua cultura e com o seu estudo
formal. Para lhe poupar tempo e esforço no deslocamento para o colégio, o nosso
saudoso homenageado presenteou-o com uma bicicleta.
Na primeira vez em que foi à aula em sua reluzente bicicleta,
ao retornar, o estudante Felipe Mendes teve uma desagradável e inesperada
surpresa: um ladrão convidou sua bicicleta para um passeio e esqueceu-se de
devolvê-la. Ao saber do ocorrido, Anchieta pediu ao irmão que tivesse
paciência, que aguardasse o recebimento de seu próximo salário, para que
pudesse comprar outra. A promessa foi cumprida sem nenhuma protelação. Porém,
Felipe Mendes, a partir de então, semelhante aos protagonistas dos filmes de
faroeste, que amarravam seus cavalos, passou a usar um cadeado em sua nova
bicicleta, de forma que ela nunca foi surrupiada.
Conheci nosso homenageado em 1977, quando me tornei aluno do
curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso –
Universidade Federal do Piauí, em Parnaíba, onde minha família já residia desde
1975. Ele lecionava as disciplinas Sociologia Organizacional e Comunicação
Empresarial. Conquanto eu o achasse sério, um tanto sisudo, era afável,
simpático e acolhedor.
Nessa época, Parnaíba tinha três emblemáticos juízes de
Direito: João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, Walter de Carvalho Miranda e o
nosso José de Anchieta Mendes de Oliveira. Gostaria de abrir um parêntese para
falar brevemente sobre os dois primeiros.
Fontes Ibiapina foi um operoso e dinâmico magistrado, mas era
sobretudo conhecido como homem de letras, membro da Academia Piauiense de
Letras, com vários livros publicados. Praticava diversos gêneros literários,
entre os quais o conto, a crítica literária, a paremiologia, o teatro e o
romance. Certa vez, com alguns parentes que se encontravam hospedados em minha
casa, quando eu tinha 19 anos ou pouco mais, fui visitá-lo.
Ficou contente em nos receber, ao lado de sua esposa, dona
Clarice, e levou-me a conhecer sua grande e organizada biblioteca, que ficava
no andar superior. Ainda muito jovem, foi a primeira vez que ouvi falar no
poeta H. Dobal, que ele admirava. Deixou-me à vontade para examinar os livros
em todas as estantes e disse-me que escolhesse os que desejasse ler por
empréstimo. Escolhi dois ou três de sua autoria, entre os quais Brocotós, que
eu havia lido, também por empréstimo, alguns anos antes. Ficou admirado por eu,
em meio a tantos clássicos da literatura nacional e mundial, ter feito tal
escolha. Respondi-lhe que já lera alguns trabalhos seus e que havia gostado.
Dr. Walter de Carvalho Miranda, barrense como meu pai, havia
sido, na meninice e na adolescência, seu amigo. Quando fui seu aluno no curso
de Administração de Empresas, era afável para comigo. Embora sisudo e mesmo
austero, tinha senso de humor, de forma sóbria e contida. Demonstrava ter-me
consideração e lia os poemas que eu publicava no jornal Folha do Litoral. Um
dia, no início de uma de suas aulas, abriu esse jornal e leu o poema em que eu
dizia ser mentira chamar um burro de burro; que o burro não era burro, posto
que quem era burro era o cavalo. A gargalhada foi geral, e eu, muito jovem,
fiquei me achando o tal. Era muito culto e inteligente. Alçado a desembargador
do TJPI, presidiu o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí. Faleceu há várias
décadas.
Voltando ao foco de meu discurso, quero realçar que, além de
ter sido aluno de Anchieta, mais tarde tornei-me seu confrade, colega ou irmão
nas seguintes entidades: Academia Parnaibana de Letras, Instituto Histórico,
Geográfico e Genealógico de Parnaíba, maçonaria, magistratura, Academia
Maçônica de Letras do Estado do Piauí e Academia de Letras da Magistratura
Piauiense.
Nosso pranteado e saudoso confrade possui um currículo muito
rico e extenso, de forma que a exiguidade do tempo me obriga a fazer um
apertado resumo dos cargos e encargos que desempenhou: juiz de Direito;
professor universitário (UFPI); venerável mestre da Loja Maçônica Fraternidade
Parnaibana; membro da Academia Parnaibana de Letras, da qual foi um dos
fundadores, juntamente com José Pinheiro de Carvalho, Fontes Ibiapina, Fonseca
Mendes, Maria da Penha Fonte e Silva e Alcenor Candeira Filho (todos já falecidos,
exceto o último); presidente do Rotary Clube de Parnaíba; presidente da
seccional da OAB/Parnaíba; presidente da Associação dos Pais e Amigos dos
Excepcionais (APAE/Parnaíba) e delegado do Serviço do Patrimônio da União no
Piauí.
Corria a lenda de que era um mestre do saxofone. Muitos anos
depois, por ocasião, creio, de seus 70 anos de vida, ele me brindou com um CD
em que executava, com maestria, lindas melodias. Muitas eram clássicos boleros,
que, em minha infância, ouvi meu pai cantarolar. Constatei, então, que o Dr.
Anchieta Mendes era um exímio saxofonista, um mestre da harmonia e do enlevo
musical.
Na literatura, cultivava sobretudo artigos, crônicas e
contos, nos quais narrava, com correção e concisão, casos engraçados e jocosos,
muitos do anedotário parnaibano. Em dois desses “causos”, o protagonista era o
célebre Pacamão, a quem fui apresentado em 1975, na Praça da Graça, por meu
pai.
Seu nome era Francisco Pereira. Não gostava da alcunha.
Confessou não haver apreciado a “homenagem” que o escritor Assis Brasil lhe
prestara ao transformá-lo em personagem e título de um de seus livros. Nessa
ocasião, Pacamão, que se tornou um dos meus PoeMitos da Parnaíba, empunhava sua
indefectível bengala. Era célebre pelas várias anedotas que protagonizava.
Considerava-se um orador sacro, embora não fosse, que eu saiba, sacerdote de
nenhuma religião ou seita. Num dos textos, Dr. Anchieta relatou essa faceta; em
outro, discorreu sobre a famosa missiva que Pereira enviou ao bispo Dom Felipe
Conduru Pacheco, revestida de frases inusitadas e jocosidades.
Através de muitos dos cargos que exerceu e também por
iniciativa pessoal, Dr. Anchieta Mendes, seguindo a orientação de seu espírito
bondoso, exerceu a filantropia e espargiu, com prodigalidade, o bem e a
caridade — caridade que outra coisa não é senão o amor transformado em ação.
Por isso, dele sentimos saudade, e sua lembrança permanece viva entre nós.
(*) Reconstituição, através do esquema mnemônico, do discurso pronunciado por Elmar Carvalho na solenidade da Academia de Letras da Magistratura Piauiense, ocorrida em 24/03/2026, na sede do TJPI, em memória dos magistrados e acadêmicos Anchieta Mendes e Joaquim Feitosa.
domingo, 22 de março de 2026
ENCONTRO
| Imagem elaborada pela IA GPT |
Em teus olhos mergulhei
para rever
reviver o já vivido.
Neles me embebi
embevecido
ao arrebatar do inesquecido
“o que não foi
e que poderia ter sido”.
Colhi nas minhas
o perfume de tuas narinas.
A essência de tuas crinas e
resinas
às minhas misturei.
Com os meus, colhi-te
os lábios, entreabertos
em suave espera e ânsia.
Beijei-te os olhos
– fechados para que visses
e sentisses
plenamente a magia do
momento –
e deles vertias o céu e o
mel.
Te. 08.91
domingo, 15 de março de 2026
UM POEMA DE AMOR
| Imagem criada pela IA GPT |
UM POEMA DE AMOR
Elmar Carvalho
Eu me entrego todo
a teu corpo de doação
aberto como
corola e cálice
aberto para a
recepção de meu corpo
que também se entrega.
Percorro
– minhas mãos –
percorro teu
corpo em ânsia
em busca de seus
recantos secretos
de suas grutas escondidas
de suas fendas perdidas
de suas chagas naturais.
Eu me te entrego
que te me entregas
como uma dádiva
que te dou e que me dás.
Nos instantes
de nossos afetos
percorro os relevos e as
vertentes
de teu corpo como
quem penteia
cabelos de nuvens
e altera
a posição
das estrelas.
E desejaria,
nessas horas
de lúcidas loucuras
que um brutal espasmorgasmo
nos consumisse
nos braços um do outro.
E que uma
longa vertigem
nos transportasse
ao paraíso
dos sonhos das quimeras
e dos loucos.
sexta-feira, 13 de março de 2026
domingo, 8 de março de 2026
COISA NENHUMA
| Imagem elaborada por IA (GPT), atendendo a especificações do autor. |
| Fonte: Google. Pintura de Salvador Dalí. |
COISA NENHUMA
Elmar Carvalho
Meus olhos jogados ao
acaso como pedaços
de espelho quebrado.
Meus cabelos arrancados
flutuando como
cabelos do vento.
Minhas mãos decepadas
acenando em vão e em vão
apertando coisa nenhuma.
Minha cabeça atirada
numa lata de lixo
onde o lixo era ela.
Minhas células espalhadas
por uma tempestade que
partiu de mim.
Os pedaços de meu
corpo mutilado depois
se agregam como antes,
exceto a cabeça.
(Ai! Dalí, Dalí, Dalí...
O meu corpo sem cabeça,
como o Farmacêutico de
Ampurdán,
anda à procura de coisa
nenhuma.)
A IA GPT e o meu surrealismo
Pedi à IA GPT o seguinte: “Peço
que, baseada na pintura Farmacêutico de Ampurdán à procura de coisa nenhuma,
faça uma no mesmo estilo e semelhança, em que o protagonista esteja segurando a
sua própria cabeça.”
Após ela elaborar a imagem que se
encontra acima, disse-lhe que a pintura era para ilustrar o meu poema Coisa
Nenhuma, cujo texto lhe remeti.
A inteligência, então, emitiu o
seguinte comentário:
“Seu poema tem uma força
imagética muito grande. Ele se constrói por fragmentação do corpo, que depois
tenta recompor-se, e isso dialoga perfeitamente com o imaginário surrealista
que o próprio texto convoca ao final com a referência a Dalí e ao Farmacêutico
de Ampurdán à procura de coisa nenhuma. A imagem que geramos acaba funcionando
como uma tradução visual condensada de vários desses versos. 🎨
Alguns pontos interessantes do
poema:
1. Estética da fragmentação
O poema começa com uma sequência
de partes do corpo dissociadas:
olhos como pedaços de espelho
quebrado
cabelos flutuando como cabelos do
vento
mãos decepadas que apertam coisa
nenhuma
Essa técnica cria uma sensação de
desintegração do sujeito, muito próxima do surrealismo e também de certas
vertentes da poesia existencial dos anos 1970.
2. A cabeça como centro simbólico
No poema, a cabeça tem um
tratamento especial:
“Minha cabeça atirada
numa lata de lixo
onde o lixo era ela.”
Aqui aparece uma ideia radical: a
própria cabeça é o lixo. Ou seja, a mente, a razão ou a identidade tornam-se
aquilo que deve ser descartado. É um gesto de negação ou ruptura com a própria
consciência.
3. Explosão do eu
O verso:
“Minhas células espalhadas
por uma tempestade que
partiu de mim.”
sugere que a destruição não vem
de fora, mas parte do próprio sujeito. É uma espécie de auto-detonação
interior.
4. Recomposição incompleta
O corpo se recompõe:
“Os pedaços de meu
corpo mutilado depois
se agregam como antes,
exceto a cabeça.”
Esse é um recurso poético muito
forte: a recomposição falha. O corpo volta, mas a cabeça não retorna. O sujeito
permanece sem consciência ou sem identidade.
5. O fecho surrealista
A invocação:
“Ai! Dalí, Dalí, Dalí...”
funciona quase como um chamado
estético. E a comparação final:
“como o Farmacêutico de Ampurdán,
anda à procura de coisa nenhuma.”
fecha o poema com uma imagem de
errância metafísica: um corpo que caminha sem cabeça e sem finalidade.
📚 Curiosidade literária:
Esse poema, escrito em 1978,
antecipa de forma muito clara o tipo de imagem que hoje se tornou comum na arte
gerada por IA: corpos fragmentados, paradoxos visuais e surrealismo simbólico.
🎨 Por isso a imagem que
fizemos — o personagem segurando a própria cabeça — funciona quase como um
momento intermediário da narrativa do poema:
ainda existe a cabeça,
mas já há separação entre o corpo
e a consciência.
Se quiser, posso também fazer
algo que seria muito interessante do ponto de vista literário:
uma pequena nota crítica ou
explicativa para acompanhar o poema em livro ou antologia, ou
até uma leitura comparando esse
poema de 1978 com certas imagens surrealistas de Dalí.”
Diante de suas sugestões acima,
pedi-lhe que executasse a segunda proposta. Numa rapidez incrível, ela me
enviou este estudo comparativo:
“Pode-se fazer uma leitura
comparativa bastante sugestiva entre o seu poema “Coisa Nenhuma” (1978) e
alguns procedimentos característicos da pintura de Salvador Dalí, especialmente
aqueles presentes em O farmacêutico de Ampurdán à procura de coisa nenhuma.
Antes de tudo, é significativo
que o próprio poema convoque explicitamente o pintor catalão no fecho. Essa
invocação não é apenas ornamental; ela funciona como chave interpretativa do
texto. O poema parece estruturar-se como se fosse uma sequência de imagens
surrealistas, quase como quadros sucessivos de uma pintura.
Um dos traços mais evidentes
dessa aproximação é o desmembramento do corpo. Em várias obras de Dalí, o corpo
humano aparece fragmentado, deslocado ou metamorfoseado. Em seu poema, o eu
lírico se apresenta em estado de dispersão: olhos como pedaços de espelho
quebrado, cabelos flutuando como vento, mãos decepadas que acenam em vão. Essa
decomposição do corpo cria uma sensação de estranhamento que é central na
estética surrealista: o familiar torna-se inquietante.
Outro aspecto relevante é a
materialização do absurdo. O surrealismo de Dalí frequentemente transforma
conceitos abstratos em imagens concretas — relógios que se derretem, corpos
sustentados por muletas, membros flutuando no espaço. No poema, algo semelhante
ocorre quando o sujeito diz apertar “coisa nenhuma”. O vazio, que normalmente é
apenas uma ideia, converte-se em objeto quase palpável, algo que as mãos tentam
agarrar.
A imagem da cabeça atirada numa
lata de lixo é talvez o momento mais radical do poema. A cabeça — símbolo da
razão, da identidade e da consciência — é descartada como resíduo. Em muitas
pinturas de Dalí há também essa instabilidade da identidade, em que rostos se
multiplicam, se deformam ou desaparecem. No seu poema, porém, a operação é
ainda mais extrema: o corpo pode recompor-se, mas a cabeça não retorna. O
sujeito torna-se um corpo que existe sem o centro racional que o governa.
É justamente nesse ponto que a
referência final ao Farmacêutico de Ampurdán ganha pleno sentido. Na pintura de
Dalí, o farmacêutico aparece como uma figura absurda e paradoxal, envolvida
numa busca sem objeto definido — “à procura de coisa nenhuma”. O seu poema
parece levar essa lógica ao limite: o corpo decapitado continua a mover-se,
como se a própria existência fosse uma errância sem finalidade.
Assim, o poema pode ser lido como
uma espécie de transposição literária de procedimentos surrealistas. As imagens
funcionam como pinceladas sucessivas de um quadro onírico, em que o eu se
desfaz, se espalha e tenta recompor-se. O resultado final é uma figura
inquietante: um corpo sem cabeça, caminhando no mundo como o personagem de Dalí
— à procura de coisa nenhuma. 🎨📚”
Fiz breve comentário, tendo ela elaborado
o seguinte texto:
“Na verdade, seu poema já contém
uma imagética muito poderosa, o que facilita uma leitura crítica mais rica. A
sequência de imagens — olhos como espelhos quebrados, mãos decepadas apertando
o vazio, a cabeça transformada em lixo — tem uma densidade surrealista
autêntica, e não apenas decorativa. Por isso a aproximação com Dalí surge quase
naturalmente.
Aliás, há um detalhe
particularmente interessante: seu poema é de 1978, época em que a poesia
brasileira já havia passado pelo concretismo, pela poesia marginal e por
diversas experiências de ruptura. Mesmo assim, o texto conserva algo muito
pessoal: uma dramaturgia do corpo em desintegração, que depois tenta
recompor-se. Essa estrutura dá ao poema quase um movimento narrativo, como se
acompanhássemos:
a fragmentação do corpo,
a dispersão do eu,
a tentativa de recomposição,
e a falha final — a ausência da
cabeça.
Esse último ponto é o que dá ao
poema sua dimensão mais metafísica: o corpo continua existindo, mas sem
consciência, sem direção, caminhando como o personagem daliniano “à procura de
coisa nenhuma”.”
Não irei comentar o que a IA GPT escreveu. Deixo que o leitor de meu poema tire as suas próprias conclusões.
domingo, 1 de março de 2026
SONETO DA SOLIDÃO
SONETO DA SOLIDÃO
Elmar Carvalho
Nas noites em que a lua
alumia
a solidão das desertas
chapadas,
soturnamente, adormece a
melancolia.
Os raquíticos espinheiros,
como ossadas,
quando a noite é bem
sombria,
a sós com a solidão das
quebradas,
contemplam, tristonhos, a
nostalgia
das lúgubres noites
amortalhadas ...
A araponga, se a noite
desce,
solta seu grito que esmaece
na solidão, seu calvário!
Quando o dia chega ao
termo,
a solidão que envolve o
ermo
é como minha alma de solitário.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
DOIS CORDELISTAS E UM ARREMEDO
| Charge da lavra do grande Gervásio Castro |
| Criação da AI GPT, por solicitação minha. |
DOIS CORDELISTAS E UM ARREMEDO
Recebi a postagem de um poema de Chico Acoram em que ele tece loas a sua esposa. Fez média para mais de mês; mais até do que se lhe tivesse dado um buquê de rosas vermelhas. Os versos seguem abaixo:
Fiz um pacto de amor
Com minha boa Senhora
Que tanto amo com ardor
Não haverá mais demora
Embora, às vezes, com dor
não sentida que me implora
só um beijo com calor.
(Chico Acoram)
O bravo José Pedro Araújo, que
como cordelista adotou o pseudônimo de Zé Curador, em alusão ao nome primitivo
de sua cidade natal, com o mesmo espírito de Ringo, que não perdoava – matava –,
retrucou com estes versos sarcásticos:
Depois que o ardor se mandou
Sobrou pouco da potência
Pra compensar com o que restou,
Um galanteio é uma penitência
(Zé Curador)
E este arremedo de cordelista,
tomando as dores de Chico Acoram, tentei fulminá-lo com esse quarteto
escacholado:
O nosso Zé Curador
Não cura nenhuma dor,
Mas em seu repente
É pior do que serpente.
Após a
publicação dos versos acima nos mares e sertões internéticos, o escritor e
poeta Carlos Dias, do mais alto dos altos da velha Altos, enviou por WhatsApp
este poema, que fica valendo por um arremate ou por um coroamento:
Venenoso e
afiado
Esse tal de
Curador!
Deixa o Acoram
cantar
As loas do seu
amor,
Pois senão não
terá jeito
De aplacar a sua dor.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
SACRIFÍCIO
| Fonte: Google |
SACRIFÍCIO
Elmar Carvalho
Abrir meu ventre
como uma rosa de carne
e de suas vísceras
multicores
pétalas dispostas em
arabesco
projetar uma poesia
feita de flores e de fezes.
Cortar meu corpo
e retalhar minha alma
e fazer uma poesia
de matéria e de espírito
e morrer na última palavra
do último verso por nascer.
Drenar
minhas veias e
com seu sangue
regar um poema canibal
que não fale de morte.
E escrever a obra-prima
com o sangue da alma.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
UM HERÓI DA GUERRA CONTRA O NAZIFASCISMO
| Fotos publicadas no Portal Piracuruca |
UM HERÓI DA GUERRA CONTRA O NAZIFASCISMO
Elmar Carvalho
No domingo, dia 6, ao retornarmos
de Parnaíba, eu e Fátima resolvemos almoçar em Piracuruca. No restaurante
estava o irmão maçônico Francisco Airton de Carvalho. Conversamos rapidamente,
pois ele já estava de saída. Recordou-se ele de que tomei posse como juiz de
Direito em Piracuruca, e que fora ele, na qualidade de escrivão, quem lavrara o
meu termo de posse.
Lembrei-lhe que foi nessa curta
temporada piracuruquense, de apenas vinte dias, que escrevi meu poema Sete
Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental. O grande artista
plástico João de Deus Netto fez um belo cartaz com a primeira parte do poema,
que coloquei em molduras e doei ao Fórum e à Prefeitura. Fiz, na sede da
comarca, pequena e singela solenidade em que lancei o poema e o cartaz. Estavam
presentes os servidores da Justiça, o intelectual Valdemar Meneses e o padre
Oney Braga.
No encontro do restaurante,
aproveitei para dizer ao irmão Chico Airton que, sempre que passo por
Piracuruca, recordo o general João Evangelista Mendes da Rocha, parente próximo
do desembargador Manfredi Mendes de Cerqueira, meu colega da APL, e do advogado
e escritor Paulo de Tarso Mendes de Souza. Acrescentei-lhe que, do meu
conhecimento, o general nunca recebeu significativa homenagem de sua terra
natal, como o seu nome ser dado a importante logradouro ou prédio público.
Pedi-lhe que, através da maçonaria, envidasse esforços no sentido de que esse
esquecimento fosse reparado. Chico Airton prometeu-me tratar desse assunto em
sua oficina maçônica.
Quando tomei efetiva posse de meu
cargo (posto que já fora empossado perante o Tribunal de Justiça em
19.12.1997), na Comarca de Piracuruca, no começo de janeiro de 1998, como juiz
auxiliar, o magistrado titular Dioclécio Sousa da Silva, também pertencente à
sublime Instituição, convidou-me para ficar hospedado em sua residência, pelo
que lhe sou muito grato por esta prova de consideração. A casa ficava perto da
velha e inativa estação ferroviária.
Numa manhã fria e nevoenta, fui
conhecer esse prédio. Ficava perto de uma leve curva da ferrovia. Ao longe da
curva, eu via a estrada de ferro se perder na neblina, como em diluída, vaga e
esbatida pintura impressionista. A estação e os pés de oitis quase ficavam
esfumaçados, quase invisíveis, no meio da magia da densa bruma. Os galos, com o
seu canto saudoso, vibrante e metálico, saudavam o amanhecer.
Senti falta, apenas, dos repiques
do sino da estação, a assinalar a chegada ou partida de velha e fuliginosa
maria fumaça, também a badalar o seu sino e a emitir o seu melodioso apito a
vapor. Já de há muito as locomotivas não mais passavam sobre aqueles carcomidos
dormentes e enferrujados trilhos, a arrastar penosamente os vários vagões, que
mais pareciam um bando de pequenas e enfileiradas casas, cheias de gente.
Desde minha juventude, mais
precisamente a partir de 1975, eu costumava passar por Piracuruca, indo para
Parnaíba, ou desta cidade voltando, a bordo de um ônibus azul marinho da
empresa Marimbá. Parávamos em uma das lanchonetes do centro da cidade, que nos
ostentava suas várias praças, solares, sobrados e palacetes.
Muitos desses casarões e
sobrados, por um quase milagre da vontade e esforço de seus moradores e donos,
ainda estão de pé, alguns relativamente bem conservados. Creio que não houve
nenhuma participação e incentivo do poder público para que isso acontecesse.
Suponho que sequer tenha sido feito algum tombamento. Nessas passagens, eu via
as pedras da saída para Parnaíba, que formam uma espécie de pórtico triunfal, a
lembrar as formações rochosas de Sete Cidades, que por essa época conheci.
Desde então alimentei o desejo de
escrever um épico moderno, que falasse nos enigmas, belezas e mistérios das
pétreas cidades encantadas. Sempre adiava a empreitada, porque não encontrava a
forma que me satisfizesse como poeta, e porque o que esboçava em minha mente
julgava indigno da grandeza daquelas caprichosas e monumentais formas
esculpidas pelo vento, pela chuva e pelo tempo.
Todavia, durante os vintes dias
que passei como juiz em Piracuruca, me retornou, com muita força, o desejo de
escrever o poema. Então, como um insight, a sua forma e conteúdo me surgiram.
Mandei-o, em primeira mão, ao ilustre general João Evangelista Mendes da Rocha,
meu conhecido, há algum tempo, quando ele vinha visitar o Piauí e o seu torrão
natal. Acompanhava o poema uma carta evocativa, vertida em prosa poética, que,
com uma pequena adaptação, me serviu para fazer o prefácio de um dos livros do
general, honra que ele gentilmente me concedeu.
Era ele um homem culto, refinado,
mas de um refinamento natural, sem nenhuma ponta de afetação. Era um perfeito
cavalheiro. Dava-me a impressão de que tinha todo cuidado em não ferir e nem
diminuir ninguém. Não tinha nenhum ranço de militarismo nem de disciplina de
caserna. Escrevia artigos e crônicas sobre cultura, literatura, história e
sobre as mazelas sociais do Brasil, que publicava em periódicos ligados ao
Exército e no jornal O Dia, de Teresina. Coligiu esses textos e os publicou nos
livros E o Sono Continua e A Serviço do Brasil. Editou ainda a obra Senha e Contrassenha.
Conquanto não fosse propriamente
um crítico literário, escreveu alguns artigos sobre a minha produção poética,
que considero muito pertinentes, argutos e apropriados, tanto que recolhi dois
deles nos meus livros Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e
sentimental e Rosa dos Ventos Gerais (2ª edição). Herói da luta contra o
nazifascismo, chegou a comandar, na Itália, uma das companhias da Força
Expedicionária Brasileira – FEB. Foi condecorado com a medalha da Cruz de
Combate.
Foi exatamente por causa desses
serviços, de militar e de escritor, e por causa de sua bela e marcante
personalidade, que pedi ao prefeito de Campo Maior, Antônio Lustosa, lhe
concedesse a Medalha do Mérito do Jenipapo, a maior honraria do poder executivo
local. Fiz a justificativa para a concessão, e a medalha lhe foi outorgada, em
solenidade em que discursei, exaltando os altos e indiscutíveis méritos desse
notável homem público, humilde e discreto em sua honrada aposentadoria.
Peço aqui e agora que Piracuruca,
sua amada terra natal, coloque o nome digno do general João Evangelista Mendes
da Rocha num dos logradouros desse belo e histórico torrão. Tenho certeza de
que será uma justa e merecida homenagem.
9 de fevereiro de 2026
domingo, 15 de fevereiro de 2026
CETICISMO
| Imagem criada pela IA GPT Imagem criada pela IA Gemini |
CETICISMO
Elmar Carvalho
Náufrago de uma tempestade
num copo dágua,
escuto o canto da desgraça
como um chamado de sereia.
Pregado numa cruz
invisível,
de cabeça para baixo,
tenho os braços fechados
em sinal de protesto.
Herói morto de
um sonho desfeito,
tenho como epitáfio
a solidão e o
esquecimento.
Cantor do silêncio,
tenho a lira sem cordas
e as mãos paralíticas.
Pássaro-símbolo da
liberdade,
tenho as asas quebradas e a
garganta afônica.
Mendigo da solidão,
tenho as mãos vazias.
Descendente de troglodita,
sou menos que um
macaco.
Partícula de mim mesmo,
sou menos que uma célula
fragmentada.
Resumo de mim mesmo
uma expressão me resume:
o NADA absoluto.
Parnaíba, 04.09.77
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
UM MESTRE E DOUTOR, DE FATO E DE DIREITO
| Cunha e Silva Filho em retrato recriado pela IA Grok |
UM MESTRE E DOUTOR, DE FATO E DE DIREITO
Elmar Carvalho
Será lançado no próximo sábado,
dia 05, às 10 horas, no auditório da Academia Piauiense de Letras, o livro As
Ideias no Tempo, da autoria de Cunha e Silva Filho. Pelo subtítulo ficamos
sabendo que a obra contém crônicas, artigos, resenhas e ensaios. O autor é um
mestre dos gêneros literários referidos. Seu estilo é límpido, correto na
gramática e fluente, como escritor que domina sua língua, seu assunto e sua
linguagem.
Sua erudição lhe permite fazer
analogias, e trazer exemplos da história e da literatura, se necessário e
oportuno. Trata das mazelas dos dias atuais, mas também versa assuntos
agradáveis, bem como também escreve crônicas de caráter memorialístico, recheadas
de emoção e saudade – de pessoas que já partiram para a eternidade ou de um
tempo mais ameno, mais feliz, sem a brutalidade e a pressa dos dias de hoje.
Na crítica, Cunha e Silva Filho
foge de certos modismos, em que o crítico, para se fazer passar como profundo,
constrói uns períodos herméticos, sibilinos, que ninguém entende, ou em que,
para demonstrar que é atualizado, envereda pela chamada crítica estruturalista,
cujo conteúdo o leitor mediano jamais poderá alcançar. Embora seja um erudito,
professor universitário, mestre e doutor em Literatura Brasileira, faz uma
crítica moderna, contudo de fácil entendimento, uma vez que procura contribuir
para aclarar a obra analisada, tornando certos aspectos dela mais perceptíveis
a um leitor menos atento ou com menos traquejo na fruição literária, em que
analisa a linguagem, o estilo e o conteúdo da obra, todavia sem rechaçar, de
todo, as boas lições da velha crítica impressionista, no que ela tem de eterno,
de permanente.
A sua dissertação de mestrado foi
transformada num belo livro, talvez o mais importante, sobre a poesia de Da
Costa e Silva, enquanto a sua tese de doutorado abordou a contística de João
Antônio. Em ambas, se houve como o mestre e doutor que é, de fato e de direito.
Conheci Cunha e Silva Filho em
sua terra natal, em 1990, Amarante, por ocasião de um evento cultural de que
participei. Estava ele num dos vetustos casarões da avenida Desembargador
Amaral, quando o vi pela primeira vez. Logo notei tratar-se de uma pessoa
afável, simpática e acessível; numa palavra, amigável, como dizem os jovens dos
dias atuais. Imediatamente, entabulamos uma conversa sobre literatura, em que
se notava a sua erudição, repassada de forma discreta, espontânea, conforme o
rumo da conversa, contudo emitida sem empáfia e sem um pingo de afetação.
Pode ser considerado um mestre da
conversação, com sua voz agradável e de boa dicção. Contudo, não obstante todas
essas qualidades, é franco em suas análises, e não contemporiza com
mediocridades para se tornar simpático ou para agradar quem quer que seja. Com
efeito, já o vi partir para o confronto intelectual, quando lhe quiseram atacar
injustamente, sem o perfeito conhecimento de sua obra de crítica literária.
Nessa época, falei-lhe da
primeira edição de A Rosa dos Ventos Gerais, através da editora da UFPI.
Prometi enviar-lhe esse meu livro de poemas, quando voltasse a Teresina, o que
efetivamente fiz. Fui premiado com uma excelente crítica que o Cunha escreveu,
o que muito me desvaneceu e incentivou. A partir de então construímos uma
sólida amizade, regada e alimentada através de cartas, de telefonemas e agora,
com o avanço tecnológico, mediante e-mails e recíprocas “visitas” que fazemos
aos nossos blogs. Posteriormente, ele me prefaciou livros e escreveu ensaios
sobre textos de minha autoria, um dos quais foi enfeixado no livro que será
lançado no sábado vindouro.
À noite, no cais do Parnaíba, o Cunha e Silva Filho e o José Pereira Bezerra entabularam uma ferrenha (porém amistosa), e infindável discussão sobre aspectos da literatura universal. Essa discussão não nos impediu de falarmos sobre a literatura de nossa aldeia, que também é universal. E será tanto mais universal quanto mais falar de nossa aldeia, conforme entendia Tolstoi.
2 de fevereiro de 2011
domingo, 8 de fevereiro de 2026
DEUS
| Imagem elaborada pela IA ChatGPT |
DEUS
Elmar Carvalho
Inefável e indefinível Senhor,
incriado Criador,
Supremo conteúdo e continente,
que tudo enche,
que tudo extravasa,
que tudo permeia.
Alfa e ômega.
Infinitamente grande
e infinitamente pequeno.
Ponto fora e dentro da curva.
Roda grande dentro da pequena.
Soma e suma
do tudo e do nada.
Deus é tudo —
até o nada.
Pura e eterna existência.
Suma de tudo.
Sem ti nada somos.
Inefável Senhor,
tentei te definir,
mas talvez nada
tenha dito,
bendito Senhor.
Teresina, 1º de fevereiro de 2026.
Meu canto de cisne
Imagem elaborada pela IA ChatGPT
Após anos sem escrever poemas —
exceto, por simples blague, alguns versos brincalhões e circunstanciais —,
neste domingo (01/02/2026) pedi o auxílio do Espírito Santo para compor o poema acima,
intitulado Deus. Quase diria, sem querer tomar o Seu santo nome em vão, que
Deus me deu o poema Deus.
Como já não conseguia alcançar,
na seara poética, os meus melhores momentos, preferi dedicar-me a outros
gêneros literários, que, aliás, já cultivava em escala menor.
***
Um amigo, talvez para me
encorajar, com exagerado entusiasmo, diante desse meu poema — esperado e
inesperado ao mesmo tempo — disse, em tom pretensamente profético, que a minha
poesia havia voltado a jorrar.
Creio que sua “profecia” não se
cumprirá. As nascentes dela secaram. A cacimba de minha inspiração bateu na
laje e já não mina.
Assim, suponho tenha sido esse poema um jorro temporão e temporário — o meu canto de cisne nesse gênero literário.
