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MEUS TEMPOS EM CURIMATÁ
Elmar Carvalho
Vez ou outra, ao entardecer ou no
silêncio da madrugada, escuto o relincho ritmado, vibrante, metálico, quase
musical, de um jumento, certamente com pendores artísticos. Disse relincho, mas
quase dizia canto, porque a voz desse asno é algo semelhante ao som de um
instrumento de sopro. Por vezes o jegue se dá ao requinte e virtuosidade de
emitir um sustenido ou mesmo um melodioso falsete.
Isso me fez recordar, por motivo
que adiante será esclarecido, da madrugada solitária e fria, no início de minha
carreira, quando, na qualidade de juiz substituto, assumi a Comarca de
Curimatá, por quatro meses e alguns dias. Depois da longa viagem de mais de
setecentos quilômetros, em desconfortável ônibus, com grande parte da estrada
devastada por imensas crateras, cheguei a meu destino. Se bem me recordo,
desceram duas ou três pessoas, que logo se dirigiram para suas casas. O ônibus
seguiu para Avelino Lopes, de modo que fiquei sozinho no banco da praça
central, à espera da pessoa que iria me abrigar até eu conseguir pousada.
Como disse, a solidão era
absoluta, de modo que me senti desamparado, na terra estranha e distante. Para
me distrair, fiquei a olhar as casas e os logradouros. No centro da praça havia
o fórum e o prédio da prefeitura. Mais adiante, numa esquina, erguia-se o
edifício do Banco do Brasil. Bem perto do local em que me sentei, um jumento
pastava o tenro e verde capim que ornava a praça, sem ser incomodado por
ninguém, nem mesmo por eventual e zeloso vigia do jardim público.
Se bem que o jegue mais se
assemelhava a um servidor público, a executar gratuitamente o serviço de
capina. Logo chegou dona Miraísa, que era a chefe do cartório eleitoral e
escrivã da Justiça comum. Era ela viúva de um ex-prefeito do município.
Posteriormente, seu filho, então estudante do curso de Direito, veio a se
tornar alcaide de Curimatá. Já não me senti mais abandonado, e fui esperar o
dia amanhecer em sua residência, onde tomei banho e café.
Felizmente, o doutor Carlos
Washington Machado, promotor de Justiça,
com a sua lhaneza e elegância habitual, convidou-me para ocupar um
quarto do apartamento funcional do Banco do Brasil de que ele era locatário, depois
de ter providenciado uma singela solenidade de posse. Nessa curta temporada
curimataense, convidado pela prefeita Estelita Guerra de Macedo, participei de
evento cultural no campus da UESPI, em que discursei e recitei poema de minha
autoria.
Nessa cidade, da qual guardo boas
recordações, fiz amizade com o sr. Mundinho Mascarenhas e com o rábula Vogado,
que eu chamava, brincando, de Ad-Vogado. Ambos tinham interesses culturais, e
entretivemos boas conversas. Na companhia dos dois, fui conhecer a pequenina e
vetusta Parnaguá, ornada por um grande lago, referto de encantos, lendas e
mistérios, terra do romancista e contista Oton Lustosa, magistrado e meu
confrade da Academia Piauiense.
Às vezes, ao contemplar as
carnaubeiras e a serra de Parnaguá, azulando na direção de Avelino Lopes, uma
melancolia se infiltrava na minha alma ao me recordar de minha longínqua terra
natal.
15 de março de 2011
