quinta-feira, 27 de agosto de 2026

FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA

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FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA


Elmar Carvalho

 

Após cerca de um ano, retornamos ao velho fórum da Comarca de Regeneração, encerrados os serviços de reforma. Na parte da instalação elétrica, um dos interruptores, quando acionado, não desliga a luz, o que parece encerrar algum mistério ou algum erro na execução da rede interna. Por outro lado, disse-me a Lúcia, secretária da Comarca, pessoa séria, discreta, zelosa e dedicada ao trabalho, que por duas vezes observou que o split, embora ela tenha certeza de que o desligou, após o término das audiências, voltou a funcionar, sem ser acionado por mão humana, ao menos deste mundo.

 

Contei o fato ao engenheiro, e um tanto por chiste, disse-lhe temer fosse obra de algum fantasma brincalhão. Ele me respondeu que a ocorrência deveria ser mais bem investigada. A comarca, em sua primeira fase, remonta a mais de século. Daí ser possível que o espectro de um velho magistrado ou de um zeloso serventuário possa ter se ressentido do calor e tenha religado o aparelho de ar-condicionado, para mais confortavelmente executar invisível trabalho, já que não se nota aumento na produtividade.

 

Sei que a Inglaterra é famosa também por causa de seus fantasmas, e que todo vetusto palácio ou castelo que se preze tem os seus habitantes imateriais, que abrem e fecham janelas e portas; que ligam e desligam luzes e torneiras, e existem até os que arrastam correntes por entre ais doloridos. Alguns escritores povoaram seus contos, poemas e romances com personagens vindos do outro mundo.

 

No momento em que eu tratava desse assunto, um servidor municipal, o professor Eudo, contou que em certa casa da cidade um dos moradores ouviu um casal de fantasmas a conversar. O masculino perguntou à mulher se ela não queria tomar banho, tendo ela respondido que não, pois estava com frio. O fantasma/marido, então, retrucou:

– Pois eu vou tomar, pois onde nós estamos faz muito calor!

Logo em seguida, ouviu-se o barulho de água no banheiro. Não se soube ao certo onde o casal estaria, no outro lado do enigma, se no inferno, ou se no purgatório.

 

O que mais me causou espécie foi o fato de que a suposta atividade espiritual teria acontecido durante o dia. Esses fenômenos, historicamente, sempre acontecem à noite, que é mais propícia ao mistério, ao que é escondido, ao que não deve ser revelado. Ao que parece, já não se fazem mais fantasmas como antigamente, assim como também os gatunos parecem ter mudado os seus hábitos. Outrora, os ladrões pareciam ter vergonha de sua “profissão”, e só atuavam à noite, às ocultas ou à socapa. Eram verdadeiros artistas, senão mesmo ilusionistas, a fazer desaparecer objetos dos bolsos dos outros, e trazê-los para suas próprias algibeiras. Eram hábeis em escalar muros, em esquivar-se de cães ferozes e em driblar as armadilhas dos vigias.

 

Hoje, perplexo, vejo que os fantasmas exercem suas atividades à luz do dia e que os bandidos nos assaltam em pleno meio-dia, à vista de todo mundo, como se sua ação fosse um espetáculo, que devesse ser filmado e observado por todos os circunstantes.

6 de abril de 2011            

domingo, 23 de agosto de 2026

MARÍTIMA

 

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MARÍTIMA


Elmar Carvalho

 

Do mar eu trouxe

o vento que dança

em torno de meus cabelos.

Trouxe este meu cheiro

de sal, mariscos e maresia.

Vaqueiro fui e fazendeiro

de estrelas-do-mar que

subiram ao céu para formar

constelações e galáxias.

Nas pontas agudas de meus dedos

cintilam fogos-de-santelmo.

Meus olhos têm o brilho

que roubei das ardentias.

Os relâmpagos das procelas

pousaram nas minhas mãos

e nelas se aninharam.

Do ritmo do mar eu trouxe

os meus gestos e o meu jeito de falar.

Num lance de búzios

joguei minha cartada final

em que fui anjo terminal.

Do mar eu trouxe a cantiga

do vento na voz dos búzios.

Sobre o dorso de alados cavalos-marinhos

pesquei sereias malévolas que me

encantaram e depois fugiram.

No vai-e-vem das ondas

busquei o meu gesto de

posse e devolução.

Trouxe o meu beijo temperado

no salamargo de suas águas.

Trouxe tesouros sepultos

nas covas do coração.

Com o mar aprendi meu modo

de caravela: meus dedos

são filamentos que machucam

sem querer, que ferem

sem ter por quê.

Trouxe caracóis que se (con)fundiram

com os caminhos labirínticos que trilhei.

Louros, nunca os tive,

exceto algas em meus cabelos.

Arrebatado por navios fantasmas

conheci várias e inefáveis dimensões.

Nadei contra as correntes marinhas,

mas a elas cansado me entreguei,

despojado da púrpura e do cetro

com que havia lutado.

Trouxe do mar as conchas ilusórias

     – multiformes e multicores –

com que minha vida enfeitei.

Mas sobretudo trouxe a vida

na alegria das chegadas

e na tristeza das despedidas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO

Escritor e magistrado William Palha Dias

            

VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO


Elmar Carvalho

 

No sábado passado, após a reunião ordinária da APL, um grupo de acadêmicos foi visitar o confrade William Palha Dias, que já não frequenta o sodalício por causa de doença. Além deste diarista, faziam parte da comitiva o nosso presidente Reginaldo Miranda, Manoel Paulo Nunes e Manfredi Mendes de Cerqueira. Um pouco depois, chegou o professor José Júlio Martins Vieira, filho do grande poeta Júlio Antônio  Martins Vieira, autor do célebre livro Canto da Terra Mártire, que é uma espécie de épico do calcinado sertão, de nossa agreste e adusta caatinga.

 

Quando fui titular da Comarca de Ribeiro Gonçalves tive a satisfação de sugerir o nome do bardo, que ali havia sido juiz, ao Tribunal de Justiça do Piauí para designar o fórum da remota localidade, em que também foi magistrado o mestre do conto, Fontes Ibiapina, autor de Cidade sem Reboco, que conheci em Parnaíba, onde ele exerceu a magistratura; conheci-lhe também a vasta biblioteca, instalada num sobrado da rua Pedro II. A sugestão caiu em terreno fértil, porque o desembargador Osíris Neves de Melo, então corregedor-geral da Justiça, tinha admiração pelo poeta e apreço pelo seu filho, de modo que foi aprovada por unanimidade.

 

O confrade Humberto Guimarães é filho daquele município, que já foi maior do que o estado de Sergipe, e escreveu a saga de sua gente, entre as quais a obra Um Município do Tamanho do Mundo.  Três acadêmicos fomos juízes nesse rincão: Martins Vieira, Fontes Ibiapina e este escriba. O nosso Palha Dias, embora seja filho de Caracol, tem vários parentes em Ribeiro Gonçalves, tendo sido seu nome dado à biblioteca da Fundação Leôncio Medeiros, criada e dirigida pelo amigo Adovaldo Medeiros.

 

Há mais de duas décadas conheço o escritor Palha Dias, pois desde o início dos anos 1980 passei a frequentar a APL, quando era seu presidente A. Tito Filho. Fui à grandiosa festa de seus oitenta anos de vida. Hoje, ele ultrapassou os noventa. Muitas vezes lhe ouvi a palestra alegre, lhe testemunhei a verve jocosa ao sabor do improviso, e o vasto repertório de casos anedóticos, em que era mestre insuperável.

 

Por ocasião da publicação de seu livro Memorial de um Lutador Obstinado, escrevi um pequeno artigo em que lhe reconheci os méritos de um homem que soube conquistar o seu lugar ao sol, e as suas virtudes de contador de histórias interessantes, sejam verdadeiras ou fictícias. Sua esposa, a professora e escritora Maria das Graças, disse-me que ele é visitado diariamente pelos filhos, o que revela a estima e respeito que eles lhe dedicam.

 

O professor Paulo Nunes, regenerense ilustre, e o Reginaldo Miranda, que se fez regenerense por título de cidadania e por ter se casado com regenerense, lembraram que três juízes da velha Comarca haviam ingressado na Academia Piauiense, no caso, os contistas e romancistas Palha Dias e Oton Lustosa, e este diarista e poeta.

 

Aproveitando o momento evocativo e saudosista, o autor de Geração Perdida, que não tem nada de perdida, porquanto deu filhos brilhantes ao Piauí, entre os quais ele próprio, perguntou-me se eu já fora conhecer as nascentes do Mulato. Respondi-lhe que sim, e que me batizara a mim mesmo, usando uma providencial cuia que levara, ao descer as suas íngremes barrancas, em lembrança dos índios trucidados.

 

Para coroar a visita e a evocação da Vila de São Gonçalo da Regeneração, e seguindo as pegadas do anfitrião, que era, como já disse, um exímio contador de casos anedóticos, o professor Manoel Paulo Nunes, dando-lhe um cunho de quase tertúlia literária, narrou um caso engraçado, com que encerrarei este registro. Mais de meio século atrás, fazer uma viagem, mesmo de carro, de Regeneração a Teresina era quase uma aventura, em virtude das ladeiras, dos areais, dos atoleiros e outros percalços.

 

Na década de 40 e 50 do século passado, poucos regenerenses viajavam a Teresina. Entre esses poucos aventureiros, José Moraes viajou à capital, para resolver algum assunto de seu interesse pessoal, e terminou demorando por cerca de seis meses, o que não era comum na época, a não ser em se tratando de estudantes, que ficavam durante todo o período letivo, só retornando nas férias. Era José Moraes um operoso operário, um homem de sete instrumentos, como se dizia então, ou um polivalente, como se diz hoje. Exercia várias profissões, não sei se todas com a mesma competência, ou se existia alguma de sua especial predileção, de seu mais perfeito domínio.

 

Vendo os costumes e as fatiotas da capital, quando retornou a Regeneração passou a envergar um indefectível terno de linho branco, a combinar com os sapatos igualmente brancos. Depois de algum tempo, começou a relaxar no uso da indumentária, e já nem sempre andava imaculadamente em alvas vestes. Perguntado sobre o motivo do aparente desleixo, respondeu  de plano:

– O meio não “compite” meu esforço!

 

Naturalmente, queria dizer que a sua luta em dar bom exemplo no trajar, como um novo árbitro da elegância, não estava tendo seguidores. Demos, todos, forte gargalhada, e encerramos a visita ao mestre Palha Dias. 

5 de abril de 2011

domingo, 16 de agosto de 2026

PAISAGEM MARINHA

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PAISAGEM MARINHA


Elmar Carvalho

 

        Fecho os olhos

e encosto a concha do búzio

                na concha de minha orelha

e escuto o ritmo frenético

                                               do mar

ou lhe ouço o rouco ronco rolado

                de ondas paradas.

Fecho os olhos e escuto

                                               a voz do búzio

e de dentro de sua concha

de cornucópia surgem

ondas, espumas e areias,

peixes, corais e caracóis,

alados cavalos-marinhos

e estrelas-do-mar e do ar

em galáxias de a(r)mar.

                (Meu coração

marinho sonha com sereias,

ilhas, coqueiros e veleiros.)

      De dentro

da concha do búzio

    sai um vento

recendente de maresia

    que me

leva/lava/lavra

como se eu fora um

      fruto do mar. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

HIPERTENSÃO E REBATE FALSO

Charge de Gervásio Castro. Nela, aparecem Gervásio, Elmar e Fernando di Castro.

                    

HIPERTENSÃO E REBATE FALSO


Elmar Carvalho

 

O amigo e grande chargista Gervásio Castro, parnaibano/carioca e flamenguista fervoroso, mandou-me um e-mail, em que diz que circulou notícia em Parnaíba pela qual eu teria tido um problema cardíaco, inclusive havendo sido internado no ITACOR, mas que o Canindé Correia teria esclarecido não ser bem assim; que eu teria tido apenas um aumento da pressão arterial. A verdade é que fiz exames e consulta médica, mas jamais se cogitou de internação.

 

No bilhete internético, no qual se encontra anexada uma excelente charge de sua autoria, o Gervásio me dá as boas-vindas ao Clube dos Hipertensos. Na ilustração, digna dos maiores artistas plásticos do Brasil, estamos retratados ele, seu irmão Fernando Castro, arquiteto talentoso e igualmente chargista da melhor qualidade, e este diarista, já como neófito da agremiação.

 

Em razão disso, liguei para o dr. Itamar Abreu Costa, para saber se, diante do resultado dos exames e do meu histórico, eu já poderia ser considerado um hipertenso, e como tal ser admitido na referida confraria, com direito ao batismo de pelo menos três cálices de vinho tinto. O cardiologista foi peremptório em me desenganar;  não será desta feita que poderei ser iniciado na agremiação, pois eu tive um aumento de pressão, provavelmente por causa de circunstâncias alimentícias, porém não poderia ainda ser considerado um hipertenso.

 

Avisarei o amigo Gervásio Castro de que ele terá de me aguardar um pouco mais, porquanto, segundo Itamar Costa, ainda não alcancei a “pontuação” necessária. Contudo, pensando bem, estou com a leve impressão de que o semáforo da malvada e discreta doença já começa a me acenar com sua luz amarela.

30 de março de 2011

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

O FAVELADO

 

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O FAVELADO


Elmar Carvalho

 

O favelado, qual filósofo meditava:

sua miséria era tamanha

que tudo enchia e ainda sobrava.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O ÚLTIMO GALO

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O ÚLTIMO GALO


Elmar Carvalho

 

Quando, por uma curta temporada, fui morar na zona rural, passei a prestar atenção no canto dos galos. Ficava alegre ao ouvir esse cantar vibrante, metálico, que parecia uma trombeta anunciando o amanhecer. Ao ouvi-lo, sabia que o dia vinha chegando, e que logo a vida ativa começaria. Com a alvorada dos galos, eu tinha a certeza de que os fantasmas bateriam em retirada, e já não iriam assombrar ninguém. Esses animais, por alguns, são vistos como guerreiros, por causa da crista vistosa, a lembrar um elmo, do bico adunco, como de ave de rapina, e sobretudo por causa dos esporões agressivos, que ferem como punhais, que cortam como esporas, que dilaceram como cilícios.

 

São associados a vigias, por causa da corneta denunciadora de seu canto. Por causa do episódio bíblico, em que Cristo disse a Pedro que este o negaria três vezes, antes que o galo cantasse, naquele dia triste e de mau presságio, parecem denunciar a fragilidade e a pusilanimidade do homem. Por isso, galos metálicos são colocados nos campanários das igrejas, como advertência para que não reneguemos Cristo novamente, ou, talvez, por causa de outro simbolismo que desconheço. Mas sempre significando que devemos manter vigilância sobre nós mesmos. Vigiai e orai para que não entreis em tentação – disse Jesus. O galo, como um sentinela vivo no seu poleiro ou como simulacro de metal nos mirantes ou nas torres dos templos, há de nos lembrar a negação de Pedro e a admoestação de Cristo.

 

Adolescente, creio que ao cursar o antigo ginásio, li o poema de João Cabral de Melo Neto, afirmando que um galo sozinho não teceria uma manhã, mas que sempre haveria a necessidade de outros galos. Foi um dos meus primeiros grandes contatos com a poesia moderna, uma vez que eu já conhecia relativamente bem os poetas do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo. Julgo não ter tido nenhuma dificuldade em interpretar o poema de João Cabral. Entendi bem as suas rupturas sintáticas, as supressões de palavras, como se as frases e os versos estivessem truncados, mas na verdade apenas “enxugando” o texto, através de elipses sem nenhum enigma. Achei criativos e apropriados esses cortes, porém só “materializei” as metáforas há poucos dias.

 

Foi quando, em certa madrugada, ouvi uma alvorada festiva de galos, aqui em Regeneração. As aves, por razão que desconheço, estavam excepcionalmente inspiradas e ativas. Um canto era desferido aqui perto, outro respondia mais além. Um vinha do nascente, o outro parecia estourar no poente; um à esquerda, o seguinte à direita. De repente, a cantiga amiudou, e eu já não sabia ao certo de onde provinha o alvoroço musical.

 

Houve um momento em que os cocorocós pareceram formar uma mesma e única massa compacta, a se entrecruzarem, se “entretendendo” como no poema. Então, em minha mente, o poema se tornou uma imagem, e senti que os cantos formaram fios, que formaram teia; teia, que formou tecido; tecido, que formou tenda; tenda, que formou um circo, onde todos os galos se esgoelavam. Porém, os fios se foram desfiando, se esgarçando, se desfazendo, quando foi minguando o número dos galos que cantavam.

 

Até que o sol estrangulou o canto na garganta do último galo. 


29 de março de 2011                     

domingo, 2 de agosto de 2026

INFLAÇÃO

 

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INFLAÇÃO


Elmar Carvalho

 

A inflação está

tão alta que

papel-moeda

virou papel higiênico.

 

E papel higiênico

virou artigo de luxo.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO

 

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SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO

 

Elmar Carvalho

 

Ingressei na Superintendência Nacional do Abastecimento – Delegacia Regional do Piauí – SUNAB/DEPI no dia 10 de agosto de 1982, quando tinha 26 anos de idade. Dos cerca de 25 funcionários em atividade no dia em que tomei posse, só restam vivos três, talvez quatro. Exerci o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços, posteriormente renomeado para Fiscal.

 

Sua sede ficava na Rua Eliseu Martins, no cruzamento com a Rua Quintino Bocaiuva, no começo da ladeira do antigo Alto da Moderação, ou Praça Demóstenes Avelino, mais conhecida como Praça do FRIPISA. Meu chefe imediato era Walter e Silva Mendes, que cursara Medicina até o quarto ano e fora amigo de meu pai na adolescência. A delegada era a Dra. Francisca Dalva Marques Assunção.

 

Após os sucessivos planos econômicos, destinados a debelar a estratosférica inflação, a sede da delegacia regional do órgão foi transferida para o prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, situado na Praça Barão do Rio Branco, cujo busto de bronze foi surrupiado de seu pedestal anos depois. Após esses planos, a delegacia da SUNAB teve vários delegados e delegados substitutos.

 

Creio que, em 1995, eu e vários outros funcionários da autarquia, por força de decisão judicial transitada em julgado, passamos a receber uma vantagem salarial destinada a repor dois percentuais da inflação que o governo federal havia expurgado do reajuste de nossos vencimentos. Meses depois, por meio de ação rescisória, esse acréscimo foi retirado de nossos salários, o que representou um duro golpe, uma vez que eles já se encontravam bastante defasados, no jargão da época.

 

No começo de 1997, fui convidado pelo deputado estadual Humberto Reis da Silveira, que iria comemorar 50 anos de atividade parlamentar ininterrupta, para lhe prestar assessoria particular, sem qualquer vínculo funcional com a Assembleia Legislativa. Tendo em vista possíveis entraves burocráticos, pediu-me que entrasse em gozo de férias e requeresse minha licença-prêmio, a que fazia jus em razão do tempo de serviço.

 

Assim fiz e pude prestar-lhe minha assessoria. Devo dizer que a gratificação que dele recebi serviu para minorar os efeitos da redução salarial acima referida. Dessa forma, auxiliei-o em diversos serviços, mormente na elaboração do discurso que foi proferido em Jaicós, na solenidade magna de comemoração de seus 50 anos como deputado estadual.

 

Agora vem o caso enigmático, motivo maior desta minha crônica memorialística. Afirmo que desejo ser imparcial e objetivo e que não pretendo fazer nenhum julgamento sobre o episódio. Deixarei que o leitor tire suas próprias conclusões.

 

Quando minha licença especial estava prestes a terminar, a SUNAB entrou em processo de extinção. Imediatamente, os fiscais foram afastados de suas funções. Determinou-se, inclusive, que devolvessem todo o material de trabalho, tais como blocos de formulários de autos de infração, comprovantes de fiscalizações e notificações, bem como suas credenciais de identificação.

 

Mesmo estando impedido de exercer as funções inerentes ao cargo de fiscal, fui falar com o delegado da época a respeito de minha situação, inclusive sobre minha assessoria ao deputado Humberto Reis.

 

Ele então chamou o chefe da Seção de Pessoal e determinou que eu fosse designado para compor uma das Comissões Especiais afetas ao processo de extinção da autarquia. O chefe da seção lhe respondeu que isso não seria possível, pois havia determinação do Superintendente no sentido de que nenhum fiscal fosse designado para qualquer serviço interno.

 

Diante desse empecilho, o delegado imediatamente mandou que o chefe da Seção de Pessoal minutasse um ofício colocando-me à disposição da Delegacia do Ministério da Fazenda.

 

Devo esclarecer que minha relação com esse delegado era amistosa, e eu até o considerava um quase amigo. Ele gostava de conversar comigo. Ainda assim, fiquei com a leve, levíssima impressão de que pretendia me prejudicar ou "quebrar" o meu "bico".

 

Farei uma breve pausa para criar um clima de suspense e contar, resumidamente, um caso semelhante ocorrido com um saudoso amigo.

 

Meu amigo e mestre José Ribamar Freitas, professor do Curso de Direito da Universidade Federal do Piauí, de quem fui aluno, requereu uma vantagem a que julgava ter direito na repartição previdenciária em que era lotado. Em virtude da morosidade burocrática e dos Correios da época, resolveu levar pessoalmente o processo, viajando de avião até a cidade do Rio de Janeiro.

 

Foi diretamente ao chefe responsável pelo caso. Após explicar-lhe a situação e justificar a urgência, entregou-lhe o processo. O chefe imediatamente começou a despachar. Como de praxe, carimbou e assinou o despacho. Surpreso com tamanha presteza, algo insólita na burocracia brasileira, o professor Ribamar Freitas perguntou-lhe se poderia ler o despacho.

 

Atônito e estarrecido, constatou que o burocrata determinava a devolução do processo à repartição de origem, para que fossem cumpridos os trâmites burocráticos de praxe.

 

Retomo agora o fio de meu relato principal.

 

De posse do referido ofício, que me colocava à disposição da Delegacia do Ministério da Fazenda, dirigi-me à Seção de Pessoal dessa repartição, que funcionava no primeiro ou no segundo andar acima do nosso. A chefe da seção, após ler o documento, sem delongas nem titubeios, disse que não havia vaga e que eu poderia ir embora, devendo aguardar comunicação quando surgisse alguma vacância.

 

Não me fiz de rogado. Fui embora e só retornei alguns meses depois, no dia 19 de dezembro de 1997, para pedir minha exoneração e assumir, no mesmo dia ou no seguinte, o cargo de juiz de Direito, do qual me aposentei exatamente 17 anos depois.

 

Desde então, guardo a convicção de que, mais uma vez, Deus me livrara do mal e da injustiça.

domingo, 26 de julho de 2026

O PROTESTO DO JUDAS

 

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O PROTESTO DO JUDAS


Elmar Carvalho

 

No Sábado de Aleluia

batizaram e enforcaram

um Judas de pano e molambo,

o qual não estrebuchou

e nem se lamentou da sorte,

mas apenas protestou em testamento

por via do nome execrável (do político)

com que lhe batizaram.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O FAMIGERADO SNI E EU

 

Foto antiga da Praça da Graça, vendo-se o prédio da ECT. A foto foi melhorada pela IA GPT.


O FAMIGERADO SNI E EU

 

Elmar Carvalho

 

Uns trinta dias atrás, o escritor, jurista e historiador Marcelino Leal Barroso de Carvalho, meu professor no curso de Direito e meu confrade na APL, perguntou-me se eu havia sido fichado no SNI. Respondi-lhe que não tinha conhecimento disso.

 

Coincidência ou não, há quatro dias recebi, por WhatsApp, um arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI), enviado pelo historiador parnaibano Jedson Martins, no qual, a meu respeito, constava o seguinte:

 

“b. Após o Comício [de Luís Inácio da Silva – Lula], foi realizada uma reunião na residência do estudante JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO (líder estudantil e PT/PARNAÍBA), onde o mesmo recebeu orientações para a organização do PT:

 

1. Buscar apoio de grupos já existentes na área, como, por exemplo:

 

- Pessoal do Movimento Contra a Carestia;

- Pessoal das Pastorais da Terra;

- Pessoal das Pastorais da Juventude;

- Pessoal dos Encontros de Casais;

- Os movimentos eclesiais de base; inclusive foi ressaltada pelo LULA a importância dos movimentos eclesiais de base, por trás dos quais aconselhou que se articulasse todo o trabalho de conscientização popular, com o respaldo da Igreja.”

 

Essa parte que me diz respeito até me faz lembrar um célebre ironista que, dirigindo-se a um enciclopedista, teria dito:

 

— Cavalheiro, a sua definição seria perfeita, se não fosse por três exceções: caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda para trás.

 

O trecho que transcrevi acima está eivado de inverdades ou de meias verdades. Não desejando assumir um protagonismo que não tive, outra alternativa não me resta senão esclarecer os fatos, dentro da verdade, como passo a fazer.

 

A aludida reunião, que, segundo o CIE/SNI, teria acontecido em 30/08/1980, após o comício, não ocorreu em minha casa. Na época, eu morava com meus pais e mais seis irmãos no apartamento funcional da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), de, no máximo, 110 metros quadrados. Além da limitação do espaço, meu pai jamais permitiria uma reunião de política partidária nesse apartamento, uma vez que era o chefe da ECT em Parnaíba, e isso poderia acarretar-lhe graves consequências.

 

Eu não era e não poderia ser filiado ao PT de Parnaíba, como consta do documento acima referido, uma vez que meu título eleitoral pertencia à Zona Eleitoral de Campo Maior. Em 10/08/1982, passei a residir em Teresina e, após essa mudança, transferi meu título de eleitor para esta capital. Aliás, a bem da verdade, devo dizer que nunca fui filiado a partido político algum.

 

Quanto às recomendações que teriam sido feitas diretamente a mim, não tenho qualquer lembrança delas, nem poderia aceitá-las, muito menos cumpri-las, pois era servidor da ECT, trabalhando em expediente duplo, inclusive aos sábados (no turno da manhã), e, à noite, frequentava o curso de Administração da UFPI – Campus Ministro Reis Velloso.

 

No segundo semestre do ano anterior (1979), na qualidade de presidente do Diretório Acadêmico "3 de Março", do mesmo campus da UFPI, discursei no grande comício que marcou o retorno do ex-governador Chagas Rodrigues (Francisco das Chagas Caldas Rodrigues), após o término da suspensão de seus direitos políticos.

 

Fui um dos primeiros a falar, no coreto da Praça da Graça, onde se encontravam os demais oradores, entre os quais Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Almino Afonso e Miguel Arraes, próceres do MDB nacional. Entre os piauienses, estavam presentes João Mendes Nepomuceno, Celso Barros Coelho, Roberto Broder, José Alexandre Caldas Rodrigues e, claro, Chagas Rodrigues, a grande estrela do comício, que, poucos anos depois, foi eleito senador.

 

Em meu discurso, falei das mazelas da época, entre elas o cerceamento das liberdades, o Decreto-Lei nº 477, as eleições indiretas para presidente da República e governador, bem como da escassez de recursos destinados à educação. Vários oradores fizeram referência às minhas palavras.

 

Eu morava na Praça da Graça e tinha apenas vinte e poucos anos de idade. Não sei se esse fato também foi parar em alguma ficha ou relatório do SNI. Sei que, poucos anos depois, mais precisamente em 10/08/1982, quando assumi o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços da SUNAB, exigiram que eu apresentasse uma certidão de bons antecedentes expedida pelo DOPS. E eu a apresentei.

 

Consta que o general Golbery do Couto e Silva, um dos idealizadores e chefe do SNI, em conversa privada, teria dito, em referência a esse órgão:

 

— Criamos um monstro.

 

Por fim, devo dizer que nunca fui ouvido em inquérito policial, nem mesmo na condição de testemunha. E dou muitas graças a Deus por isso.

domingo, 19 de julho de 2026

A FOME

Criação da IA Copilot

 

A FOME


Elmar Carvalho

    

           I

               

           a fome

que come

e consome

o “home”

                mora

em sua víscera sonora

                                e o devora

                  como uma flora

                                cancerosa

                                                    rosa carnívora

                      que aflora e o deflora

                de dentro para fora.

 

           II

 

a fome é tanta

e tanto espanta

que o ex-grevista de fome

hoje é grevista com fome

– ou melhor – desempregado

  pregado na miséria

                                 de ser      gado       sub/ju/gado

fis/gado                              vis/gado                  k/gado

* Poema do final dos anos 1970 ou início dos anos 1980.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

FIM DE CASAMENTO

Imagem criada pela IA GPT

                    
 

FIM DE CASAMENTO


Elmar Carvalho

 

Perguntando eu, hoje, a um homem de mais de sessenta anos de idade se ele era solteiro, contou-me que fora casado, em sua juventude, mas durante menos de vinte e quatro horas.  Revelou-me que ao constatar que fora enganado pela mulher, a devolveu a seu pai. Fazendo-me de um tanto ingênuo, disse-lhe estranhar como essa traição poderia ter ocorrido nesse curto espaço de tempo, “em plena lua de mel”, como na bela letra da música de Reginaldo Rossi. Esclareceu-me que a traição fora o fato de ela não lhe ter revelado, anteriormente, não ser mais virgem. O homem a interrogou, e ela acabou por lhe confessar já ter tido outras experiências sexuais.

 

Acrescentou-me ele que sua mãe, ao saber do fato, ponderou-lhe que tudo poderia ser apenas um erro proveniente da juventude dela, que poderia não mais se repetir. Ele disse à mãe que nessa oportunidade conseguiu se controlar, e por isso não cometera nenhuma violência contra a mulher, mas, em outra ocasião, não saberia dizer se conseguiria conter-se. A mãe, então, falou que ele fizesse o que achasse melhor para si. Embora pedindo desculpas, indaguei-lhe se ele, ao constatar que a jovem não era mais virgem, havia interrompido o coito. Sorriu, e me disse que era homem, e que, portanto, tivera de concluí-lo, talvez, suponho, para acalmar-se e tomar uma atitude de maneira mais ponderada. Tinha ele 25 anos e a mulher, 16.

 

O certo é que ele não aceitou a mulher, devolvendo-a a seus pais, mal (ou bem) comparando, como se ela fosse uma mercadoria com defeito oculto ou vício redibitório. Na verdade, nessa época, as mulheres se conservavam virgens até o casamento, e poucos homens aceitariam casar-se com uma mulher que não fosse donzela, exceto se fosse o próprio nubente o autor do defloramento. O próprio Código Civil de 1916 permitia a anulação do casamento, conforme o seu art. 218 em combinação com o 219, IV, ao estampar que era anulável o casamento quando “o defloramento da mulher” fosse “ignorado pelo marido”.

 

Mas houve casos em que o marido repudiou a mulher, embora fosse ele o responsável pela defloração, sob a  alegativa de que ela não deveria ter cedido às suas súplicas e insistências; que se cedera com relação a ele, poderia entregar-se aos caprichos e seduções de outrem, no futuro, ainda mais porque já não existiria a película denunciadora.

 

No final da conversa, fazendo uma analogia entre as ponderações de sua mãe, para que desse nova oportunidade a sua mulher e a perdoasse, lembrei-me de uns versos do grande poeta Hermes Vieira, que tem poemas magistrais na vertente popular e na temática sertaneja, que lhe citei de forma livre, parafraseada, já que faz muitos anos que os li pela derradeira vez. O poema conta o caso de um jovem que constatou haver se casado com uma mulher já deflorada.

 

Na manhã do dia seguinte às núpcias, foi aconselhar-se com o pai, sobre o seu desejo de restituir a mulher a seu pai. Após elogiar muito a própria mãe, acrescentou que feliz era ele, seu pai, que se casara com uma mulher direita, séria, honesta, que sempre o respeitara. O pai, nos versos do poeta, que cito livremente, apenas de memória, disse ao filho angustiado: “Meu filho, vê se você se acoita, / Na mulher se bota um frei, / é melhor você ficar na moita, / Do jeitim que eu fiquei”.

 

O homem sorriu, conquanto fosse este o mesmo conselho que lhe dera sua mãe, em sua distante juventude.      

23 de março de 2011

terça-feira, 14 de julho de 2026

domingo, 12 de julho de 2026

MOISÉS

Imagem criada pela IA GPT

 

MOISÉS


Elmar Carvalho

 

Escravo,

não sou escravo da submissão

e meu último adeus será uma corrida

com os pés fora da corda-bamba.

Escreverei

um manifesto assinado

com o sangue de cada um,

com o suor de todos,

todos mocinhos

de um filme sem mocinhos.

Escarnecerei

os muros e os tetos das prisões

porque são exceções de um regime de

exceção.

Escangalharei

as portas do céu

e os portões do inferno

e soltarei a liberdade.

            Parnaíba, 02.04.78