FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA
Elmar Carvalho
Após cerca de um ano, retornamos
ao velho fórum da Comarca de Regeneração, encerrados os serviços de reforma. Na
parte da instalação elétrica, um dos interruptores, quando acionado, não
desliga a luz, o que parece encerrar algum mistério ou algum erro na execução
da rede interna. Por outro lado, disse-me a Lúcia, secretária da Comarca,
pessoa séria, discreta, zelosa e dedicada ao trabalho, que por duas vezes
observou que o split, embora ela tenha certeza de que o desligou, após o
término das audiências, voltou a funcionar, sem ser acionado por mão humana, ao
menos deste mundo.
Contei o fato ao engenheiro, e um
tanto por chiste, disse-lhe temer fosse obra de algum fantasma brincalhão. Ele
me respondeu que a ocorrência deveria ser mais bem investigada. A comarca, em
sua primeira fase, remonta a mais de século. Daí ser possível que o espectro de
um velho magistrado ou de um zeloso serventuário possa ter se ressentido do
calor e tenha religado o aparelho de ar-condicionado, para mais confortavelmente
executar invisível trabalho, já que não se nota aumento na produtividade.
Sei que a Inglaterra é famosa
também por causa de seus fantasmas, e que todo vetusto palácio ou castelo que
se preze tem os seus habitantes imateriais, que abrem e fecham janelas e
portas; que ligam e desligam luzes e torneiras, e existem até os que arrastam
correntes por entre ais doloridos. Alguns escritores povoaram seus contos,
poemas e romances com personagens vindos do outro mundo.
No momento em que eu tratava
desse assunto, um servidor municipal, o professor Eudo, contou que em certa
casa da cidade um dos moradores ouviu um casal de fantasmas a conversar. O
masculino perguntou à mulher se ela não queria tomar banho, tendo ela respondido
que não, pois estava com frio. O fantasma/marido, então, retrucou:
– Pois eu vou tomar, pois onde
nós estamos faz muito calor!
Logo em seguida, ouviu-se o
barulho de água no banheiro. Não se soube ao certo onde o casal estaria, no
outro lado do enigma, se no inferno, ou se no purgatório.
O que mais me causou espécie foi
o fato de que a suposta atividade espiritual teria acontecido durante o dia.
Esses fenômenos, historicamente, sempre acontecem à noite, que é mais propícia
ao mistério, ao que é escondido, ao que não deve ser revelado. Ao que parece,
já não se fazem mais fantasmas como antigamente, assim como também os gatunos
parecem ter mudado os seus hábitos. Outrora, os ladrões pareciam ter vergonha
de sua “profissão”, e só atuavam à noite, às ocultas ou à socapa. Eram
verdadeiros artistas, senão mesmo ilusionistas, a fazer desaparecer objetos dos
bolsos dos outros, e trazê-los para suas próprias algibeiras. Eram hábeis em
escalar muros, em esquivar-se de cães ferozes e em driblar as armadilhas dos
vigias.
Hoje, perplexo, vejo que os
fantasmas exercem suas atividades à luz do dia e que os bandidos nos assaltam
em pleno meio-dia, à vista de todo mundo, como se sua ação fosse um espetáculo,
que devesse ser filmado e observado por todos os circunstantes.
6 de abril de 2011
