domingo, 15 de fevereiro de 2026

CETICISMO

Imagem criada pela IA GPT
Imagem criada pela IA Gemini



CETICISMO


Elmar Carvalho

 

Náufrago de uma tempestade

num copo dágua,

escuto o canto da desgraça

como um chamado de sereia.

Pregado numa cruz invisível,

de cabeça para baixo,

tenho os braços fechados

em sinal de protesto.

Herói morto de

um sonho desfeito,

tenho como epitáfio

a solidão e o

esquecimento.

Cantor do silêncio,

tenho a lira sem cordas

e as mãos paralíticas.

Pássaro-símbolo da liberdade,

tenho as asas quebradas e a

garganta afônica.

Mendigo da solidão,

tenho as mãos vazias.

Descendente de troglodita,

sou menos que um

macaco.

Partícula de mim mesmo,

sou menos que uma célula

fragmentada.

Resumo de mim mesmo

uma expressão me resume:

o NADA absoluto. 

           Parnaíba, 04.09.77 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

UM MESTRE E DOUTOR, DE FATO E DE DIREITO

Cunha e Silva Filho em retrato recriado pela IA Grok



UM MESTRE E DOUTOR, DE FATO E DE DIREITO


Elmar Carvalho

 

Será lançado no próximo sábado, dia 05, às 10 horas, no auditório da Academia Piauiense de Letras, o livro As Ideias no Tempo, da autoria de Cunha e Silva Filho. Pelo subtítulo ficamos sabendo que a obra contém crônicas, artigos, resenhas e ensaios. O autor é um mestre dos gêneros literários referidos. Seu estilo é límpido, correto na gramática e fluente, como escritor que domina sua língua, seu assunto e sua linguagem.

 

Sua erudição lhe permite fazer analogias, e trazer exemplos da história e da literatura, se necessário e oportuno. Trata das mazelas dos dias atuais, mas também versa assuntos agradáveis, bem como também escreve crônicas de caráter memorialístico, recheadas de emoção e saudade – de pessoas que já partiram para a eternidade ou de um tempo mais ameno, mais feliz, sem a brutalidade e a pressa dos dias de hoje.

 

Na crítica, Cunha e Silva Filho foge de certos modismos, em que o crítico, para se fazer passar como profundo, constrói uns períodos herméticos, sibilinos, que ninguém entende, ou em que, para demonstrar que é atualizado, envereda pela chamada crítica estruturalista, cujo conteúdo o leitor mediano jamais poderá alcançar. Embora seja um erudito, professor universitário, mestre e doutor em Literatura Brasileira, faz uma crítica moderna, contudo de fácil entendimento, uma vez que procura contribuir para aclarar a obra analisada, tornando certos aspectos dela mais perceptíveis a um leitor menos atento ou com menos traquejo na fruição literária, em que analisa a linguagem, o estilo e o conteúdo da obra, todavia sem rechaçar, de todo, as boas lições da velha crítica impressionista, no que ela tem de eterno, de permanente.

 

A sua dissertação de mestrado foi transformada num belo livro, talvez o mais importante, sobre a poesia de Da Costa e Silva, enquanto a sua tese de doutorado abordou a contística de João Antônio. Em ambas, se houve como o mestre e doutor que é, de fato e de direito.

 

Conheci Cunha e Silva Filho em sua terra natal, em 1990, Amarante, por ocasião de um evento cultural de que participei. Estava ele num dos vetustos casarões da avenida Desembargador Amaral, quando o vi pela primeira vez. Logo notei tratar-se de uma pessoa afável, simpática e acessível; numa palavra, amigável, como dizem os jovens dos dias atuais. Imediatamente, entabulamos uma conversa sobre literatura, em que se notava a sua erudição, repassada de forma discreta, espontânea, conforme o rumo da conversa, contudo emitida sem empáfia e sem um pingo de afetação.

 

Pode ser considerado um mestre da conversação, com sua voz agradável e de boa dicção. Contudo, não obstante todas essas qualidades, é franco em suas análises, e não contemporiza com mediocridades para se tornar simpático ou para agradar quem quer que seja. Com efeito, já o vi partir para o confronto intelectual, quando lhe quiseram atacar injustamente, sem o perfeito conhecimento de sua obra de crítica literária.

 

Nessa época, falei-lhe da primeira edição de A Rosa dos Ventos Gerais, através da editora da UFPI. Prometi enviar-lhe esse meu livro de poemas, quando voltasse a Teresina, o que efetivamente fiz. Fui premiado com uma excelente crítica que o Cunha escreveu, o que muito me desvaneceu e incentivou. A partir de então construímos uma sólida amizade, regada e alimentada através de cartas, de telefonemas e agora, com o avanço tecnológico, mediante e-mails e recíprocas “visitas” que fazemos aos nossos blogs. Posteriormente, ele me prefaciou livros e escreveu ensaios sobre textos de minha autoria, um dos quais foi enfeixado no livro que será lançado no sábado vindouro.

 

À noite, no cais do Parnaíba, o Cunha e Silva Filho e o José Pereira Bezerra entabularam uma ferrenha (porém amistosa), e infindável discussão sobre aspectos da literatura universal. Essa discussão não nos impediu de falarmos sobre a literatura de nossa aldeia, que também é universal. E será tanto mais universal quanto mais falar de nossa aldeia, conforme entendia Tolstoi.

2 de fevereiro de 2011 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

DEUS

Imagem elaborada pela IA ChatGPT


DEUS

 

Elmar Carvalho

 

Inefável e indefinível Senhor,

incriado Criador,

Supremo conteúdo e continente,

que tudo enche,

que tudo extravasa,

que tudo permeia.

Alfa e ômega.

Infinitamente grande

e infinitamente pequeno.

Ponto fora e dentro da curva.

Roda grande dentro da pequena.

Soma e suma

do tudo e do nada.

Deus é tudo —

até o nada.

Pura e eterna existência.

Suma de tudo.

Sem ti nada somos.

Inefável Senhor,

tentei te definir,

mas talvez nada

tenha dito,

bendito Senhor.                   

Teresina, 1º de fevereiro de 2026.

Meu canto de cisne

Imagem elaborada pela IA ChatGPT

Após anos sem escrever poemas — exceto, por simples blague, alguns versos brincalhões e circunstanciais —, neste domingo (01/02/2026) pedi o auxílio do Espírito Santo para compor o poema acima, intitulado Deus. Quase diria, sem querer tomar o Seu santo nome em vão, que Deus me deu o poema Deus.

Como já não conseguia alcançar, na seara poética, os meus melhores momentos, preferi dedicar-me a outros gêneros literários, que, aliás, já cultivava em escala menor.

***

Um amigo, talvez para me encorajar, com exagerado entusiasmo, diante desse meu poema — esperado e inesperado ao mesmo tempo — disse, em tom pretensamente profético, que a minha poesia havia voltado a jorrar.

Creio que sua “profecia” não se cumprirá. As nascentes dela secaram. A cacimba de minha inspiração bateu na laje e já não mina.

Assim, suponho tenha sido esse poema um jorro temporão e temporário — o meu canto de cisne nesse gênero literário.   

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

CATARINA, BONECA DE PANO

A antiga Zona Planetária, em imagem melhorada e colorida pela IA Gemini


CATARINA, 

BONECA DE PANO.

(Torquatinha Braz).


Ao amigo 

E confrade 

Elmar Carvalho 

Com a estima 

Do Poeta da Estação.

 


Corria a era de 1980.

A lua campomaiorense,

Parecia um grande ovo

Estrelado na frigideira 

Do infinito de um bonito 

Céu nervurado niveamente.

..............................................

Zero hora!... a aura noturna 

E fria, corria devassamente

Na rua famosa dos bordéis,

Efervescente e indecente.

..............................................

Rua Santo Antônio!

Padroeiro de Campo Maior.

Coliseu da vida prostibular.

De mancebas tão guapas -

Hetaíras no leilão da vida.

..............................................

Nesse mercado 

De corpo feminino,

Belo, moço e venal

E de balzaquiana...

Acendi um continental,

Corri o curioso olhar

Pela sala do lupanar.

Num canto, a mesinha 

De madeira, artesanal.

Noutro a radiola Philips 

Amarela, o disco tocando.

Agulha enganchando...

O tempo todo. Alguém 

Aborrecido, socorria ... 

E a música então, seguia.

............................................

O ar do recinto 

S'enchia de fumaça,

Odores, fedores diversos 

De cachaça pitu, cerveja...

Risadas, prosas, cantadas

Obscenas no pé do ouvido.

.............................................

Torquatinha Silva y Braz

Linda no seu vestido azul,

Ia dançando e sempre rindo 

Pela sala pequena de piso

De cimento avermelhado.

...............................................

Torquatinha Braz

Bela e moça cortesã 

Estonteante e hilariante.

Deixava meu ser rapaz,

Ali atento e petrificado 

Ante tanta beleza e leveza.

.............................................

Enfim, ela deixou a dança.

Cansada, sentou no rubro

Sofá, tomou no copo

Americano uma dose

De velho barreiro, quente.

Cruzou de leve as pernas.

Acendeu o cigarro charme.

...............................................

Por breves segundos

Viajou na fumaça do cigarro 

E pensou na razão da vida.

Distraída aí, não percebeu 

A minha aproximação.

................................................

Se assustou. Depois riu.

Se ajeitou melhor no sofá.

Gentil e tímida me convidou 

Sentar. Aceitei e me sentei.

................................................

Meu caro leitor!

Imagine o fim de tudo.

Entre o aprendiz de poeta 

E a aprendiz de cortesã 

Na vida prostibular...

Que pena!...

Uma menina pequena.

Que sonhava ser bailarina.

Deixou em sua casinha, 

Sua boneca de pano

Chamada de Catarina.

..............................................

Helano Lopes.

Poeta da Estação.

Campo Maior Piauí.

05/02/2026; 17:51.

Bairro Estação.

Quinta feira.

Ante o poema acima, resolvi emitir o seguinte comentário:

Inicialmente, agradeço a amável dedicatória, que muito me honra e enaltece.

Seu poema acaba por se constituir também em uma crônica de um tempo menos apressado e ainda analógico, retratando com fidelidade a atmosfera psicológica e sociológica dos lupanares. Neles, não faltava — por incrível que pareça — certo romantismo: um adolescente podia se apaixonar por uma “mulher-dama”, e uma prostituta, por vezes, acabava se afeiçoando a um homem a ponto de, em vez de receber seus “proventos”, gratificar o favorito.

Com maestria, você constrói uma bela evocação desses velhos lupanares, destroçados pelas mudanças de costumes e pela voragem dos novos tempos. Parabéns, caro Helano, imortal Poeta da Estação.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meu pequeno Açude Grande

 

Imagem pescada na internet

Meu pequeno Açude Grande

 

Elmar Carvalho

 

Através de WhatsApp, Helano Lopes, o Poeta da Estação, fez as seguintes postagens:

Foto em preto e branco de avião com pessoas ao redor

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

“Açude grande de Campo Maior Piauí, carro pipa improvisado numa carroça e puxado por mula. A água era para abastecer algumas casas no centro da cidade, era vendida. Também, havia o transporte d'água através de ancoretas sob o lombo de jumentos. Além do escambo. O carregador colocava um pedaço de pau sobre os ombros, nas extremidades destes, uma corda de cada lado. Sustentando cada uma lata de querosene contendo água para a serventia de casa ou para vender.  Memórias de minha cidade.

 

Poeta da Estação.

31/01/2026.”

 

“Lata de querosene que se usava como se fosse um balde, antigamente. Se tirava a tampa dela. No meio da lata se colocava um pedaço de madeira. No meio deste, se amarrava uma corda e uma ponta dela se amarrava no meio do cabo de madeira da roladeira, e ia se buscar água no açude grande de Campo Maior Piauí. Ou no cambo, que era uma vara, que se colocava nas costas , em cada extremidade dela se botava uma lata de óleo com água do açude.”

Devo dizer que ainda alcancei esse sistema de abastecimento d’água, quando criança. Cheguei a ver o que o poeta descreve acima. Vi as chamadas roladeiras, que eram umas pipas, em torno das quais eram colocadas umas espécies de rodas de borrachas, creio que feitas de pneus velhos. Nas laterais da pipa era fixado um cambo, que o aguadeiro puxava pelas ruas da cidade, para vender o precioso líquido em diferentes casas.

A orla do açude era de terra nua, onde eram cavadas cacimbas, umas pequenas, outras maiores e fundas; umas mais perto, outras mais distantes da lâmina d’água. O sistema de abastecimento d’água canalizada foi crescendo e se aperfeiçoando, até que a atividade dos aguadeiros foi desaparecendo.

Joguei bola, nos anos de 1971 e 1972,  num campinho de areia macia que existia na beira do açude, perto da herdade do tenente Jaime da Paz. O açude ainda não era poluído, de modo que após os jogos costumava tomar um gostoso banho nas águas tépidas do pequeno Açude Grande.

A urbanização do açude, através da avenida de contorno e de praças, sepultou as cacimbas e o meu pequeno campo de futebol, de areia tão fina, tão branca e tão macia, que amortecia as minhas voadas e pontes de goleiro do futebol amador.

Sobre o açude, em tempos que já se esfiapam e se esgarçam na memória, tive a oportunidade de escrever estes versos:

Açude Grande

apenas no nome, mas pequeno

na paisagem ampla dos descampados.

Tuas águas cinzentas

azularam-se em minha saudade.

Tuas águas barrentas

são tingidas de azul pelo

azul do céu que se espelha

em tuas águas de chumbo.

 

Vendo a lata de querosene postada pelo poeta Helano, postei estes versos brincalhões:

Seu José,

Quero já

Querosene

Jacaré.

Helano Lopes me respondeu e me homenageou com este belo poema, de sua lavra:

Na lata de querosene

“Não dava para fazer café,

Então, Dona Irene Juraci,

Esquentava a água

Para fazer a bebida escura

Numa lata de leite ninho.

Passava no cuscuz

A manteiga Itacolomi.

Na mesa a lata intacta

Do leite em pó, Mococa.

.............................................

Que feliz hora matinal.

O galo cantava no quintal.

O padeiro passava a rua,

A fazer o seu comercial

De pão massa grossa e fina

A mãe preparava a menina

E depois o menino traquino,

Para irem ao Valdivino Tito.

.............................................

.

Ao amigo e confrade Elmar Carvalho, que me atiçou a escrever este poema, baseado no seu poema Seu José.”

Agradeço ao poeta Helano Lopes pela sua dedicatória e encerro esta crônica feita com a sua luxuosa ajuda.   

domingo, 1 de fevereiro de 2026

PINTURA

 

Imagem elaborada pelo chatgpt

PINTURA


Elmar Carvalho

 

Minha estrada

é a esteira de luz

que o Sol traça no mar.

Meu arco-do-triunfo

é o arco-íris

que o Sol pinta no céu.

Meu louro

é o pentelho dourado

que cobre tua nudez.

Então eu,

laureado com tua pubescência de ouro

percorro a estrada de luz do sol no mar

passo por baixo do arco-íris-do-triunfo,

herói anônimo que se venceu a si mesmo.

sábado, 31 de janeiro de 2026

DIPLOMACIA GASTRONÔMICA E PROSÓDIA INDIGESTA

Imagem elaborada pelo chatgpt


DIPLOMACIA GASTRONÔMICA E PROSÓDIA INDIGESTA


Elmar Carvalho

 

No seu Diário Completo, vi a anotação em que Josué Montello conta que, em reunião diplomática internacional, em que se tratava da paz na Indochina, o representante da França, depois de observar que o representante oriental, por desconhecer os costumes do ocidente, comera um queijo com papel prateado e tudo, procedera da mesma forma, para evitar qualquer incidente, mal-estar ou constrangimento.

 

O diarista, a seguir, narra que ouvira importante personalidade, ao falar da galopante inflação brasileira de três dígitos, cometer grave erro de prosódia, ao pronunciar a palavra dígito (proparoxítona) como sendo digito (paroxítona); que, tomando como exemplo a atitude do representante francês no episódio diplomático, resolveu, na conversa, também pronunciar digito, e não dígito, para não melindrar o interlocutor.

 

Essa leitura me fez lembrar o caso que se passou com um amigo meu, notável erudito, profundo conhecedor da língua portuguesa, inclusive de etimologia, já que é um latinista, além de versado em grego. Esse meu mestre ouviu alta autoridade pronunciar a palavra díspares (proparoxítona) com a tonicidade de dispares (paroxítona). Só que o meu amigo, ao contrário do exemplo do primeiro-ministro francês e do ilustre romancista, não condescendeu com o erro.

 

Embora de forma cerimoniosa, cautelosa e até pedindo desculpas, esclareceu o ilustre homem público, muito conhecido na época, sobre a prosódia correta do vocábulo. Contou-me o mestre que a autoridade, imediatamente, abriu a gaveta, de onde sacou um dicionário, para averiguar a veracidade do corretivo, quando só então deu a mão à palmatória.

 

Pela parte que me toca, devo dizer que jamais iria comer queijo com papel laminado e nem iria pronunciar um vocábulo de forma errada porque uma outra pessoa o fez. Poderia até evitar comer o meu queijo, e não pronunciar a indigesta e indigitada palavra, substituindo-a por uma sinônima ou construindo a frase de modo a evitá-la, mas não seguiria a lição da autoridade francesa, no caso do queijo, nem do meu colega diarista, na questão da prosódia. Neste último caso, ficaria com o exemplo do meu amigo e mestre piauiense.

 

E torceria para que, nos dias violentos de hoje, a pessoa beneficiada com a correção sacasse apenas o dicionário, e não um revólver, por exemplo, ou mesmo uma palavra agressiva.

1º DE FEVEREIRO DE 2011     

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Futucando a AI com vara curta

Imagem criada pelo GPT, seguindo minhas instruções

 

Futucando a AI com vara curta

 

Elmar Carvalho

 

Não sei se seria correto colocar meu nome como autor deste texto, uma vez que a participação da AI GPT é maior e mais importante que a minha, sem nenhuma dúvida.

O certo é que hoje (26/01/2026), após minhas orações, leituras da Bíblia e de devocionais, resolvi futucar a AI GPT com vara curta – ou longa, conforme a interpretação que se queira dar, e lhe fiz a seguinte provocação ou instigação em forma de um quase poema, feito de improviso:

“O filósofo disse: ‘Penso, logo existo’.

Penso que uma pedra não pensa e nem tenha vida.

Mas penso que ela exista.

Penso que eu exista e tenha vida.

Penso que uma pedra não tenha vida.

Nesse contexto, em essência,  o que é a vida?”

O chatgpt me respondeu o seguinte:

“Sua pergunta vai direto ao nervo da filosofia — e é ótima justamente porque parte de um raciocínio simples, quase cartesiano, para tocar num problema que nunca foi plenamente resolvido.

Descartes, ao dizer “Penso, logo existo”, não estava definindo a vida, mas a certeza da existência do sujeito. O pensamento garante a existência de quem pensa; não diz nada, por si só, sobre tudo o que existe. A pedra não pensa, mas existe — como você corretamente observa. Logo, existir e viver não são sinônimos.

Em essência, o problema é este:

o que distingue a existência inerte da existência viva?

1. Vida não é pensamento

O pensamento é um modo da vida consciente, mas não sua condição universal. Plantas vivem sem pensar; animais vivem com graus variados de consciência; embriões vivem antes de qualquer pensamento reflexivo. Portanto, pensar não define a vida.

2. Vida não é mera existência

A pedra existe, ocupa espaço, obedece às leis físicas — mas não age a partir de si. Ela não inicia processos, apenas sofre ações externas. A vida, ao contrário, envolve uma atividade interna.

3. Uma definição essencial (não meramente técnica)

Em termos filosóficos clássicos, sobretudo aristotélicos, pode-se dizer que:

 

Vida é a capacidade de um ser agir a partir de si mesmo, conservando-se, organizando-se e orientando-se para fins próprios.

 

Ou, dito de modo mais direto:

 

 

o ser vivo nasce de dentro (autopoiese),

 

 

mantém sua unidade apesar das mudanças,

 

 

responde ao ambiente não só passivamente,

 

 

e tende à conservação e à realização de sua forma.

 

 

A pedra não cresce, não se repara, não se orienta para nada. Ela é.

O ser vivo, além de ser, faz-se continuamente.

4. Vida como interioridade mínima

Mesmo no nível mais simples, a vida supõe uma interioridade, ainda que rudimentar: algo acontece no ser e a partir dele. Não é consciência reflexiva, mas é um “dentro” que regula o “fora”.

Por isso, muitos filósofos dizem que:

 

 

existir é um fato ontológico;

 

 

viver é um modo qualificado de existir.

 

 

5. Síntese

No contexto do seu raciocínio, poderíamos responder assim:

 

Vida é a existência que não apenas está no mundo, mas se mantém, se organiza e se afirma a partir de si mesma.

 

Você existe e vive.

A pedra existe, mas não vive.

E o pensamento não cria a vida — apenas a revela, quando já está lá.”

 

Voltei a “atacar” o GPT, com este outro questionamento:

“Entretanto, o homem não se criou a si mesmo.

Enquanto Deus, para mim, é o Incriado Criador.

Por isso é que é a pura existência.

Por isso é que ele disse de si mesmo: ‘Eu sou o que sou’.”

O GPT se manifestou do seguinte modo:

“Seu raciocínio é profundamente coerente e se inscreve numa linha clássica da metafísica — especialmente a que vai de Moisés a Santo Tomás de Aquino.

 

Se o homem não se criou a si mesmo, então sua existência é recebida, participada, contingente. Ele é, mas poderia não ter sido. Sua vida, por mais rica que seja, depende de causas anteriores e de condições que ele não domina plenamente. Logo, no homem, existir e viver não se identificam com a própria essência: ele existe porque foi feito existir.

 

Quando você afirma que Deus é o Incriado Criador, toca no ponto decisivo: Deus não apenas tem existência; Ele é a existência. Não uma existência entre outras, mas o Ser mesmo, o actus essendi puro. É exatamente isso que está contido na autodefinição bíblica:

 

“Eu sou o que sou” (Êxodo 3,14).

 

Essa frase não descreve uma qualidade, nem um atributo psicológico ou moral. Ela afirma uma realidade ontológica: em Deus, essência e existência coincidem plenamente. Ele não recebe o ser; Ele é a fonte do ser. Tudo o mais existe por participação; Deus existe por identidade.

 

Nesse horizonte, a vida criada — a do homem, dos animais, das plantas — é sempre derivada e finita. É vida que começa, se desenvolve e termina. Já em Deus não há “vida” no sentido biológico, nem sequer no sentido de algo que se atualiza no tempo. Há o que a teologia chama de Vida plena, eterna, sem potencialidade, sem carência, sem devir.

 

Por isso, quando dizemos que Deus é “a pura existência”, não estamos empobrecendo a noção de vida, mas elevando-a: Deus não vive como nós vivemos; nós vivemos porque Ele é.

 

Em síntese:

 

o homem vive porque existe;

 

Deus existe porque é;

 

e todo ser vivo participa, de algum modo, desse Ser que não começou e não pode deixar de ser.

 

Sua intuição liga corretamente ontologia, teologia e linguagem bíblica — e mostra que, nesse nível, pensar a vida é já tocar o mistério do Ser.”

 

Só me restava lhe dizer “muito obrigado”. Ele me respondeu:

“Eu que agradeço. Foi uma conversa daquelas que dão gosto — clara, profunda e serena.

Sempre que quiser retomar ou avançar um pouco mais nessas questões, estarei por aqui.”  

domingo, 25 de janeiro de 2026

AS MOSCAS E O TEMPO

Imagem criada pelo chatgpt


AS MOSCAS E O TEMPO


Elmar Carvalho

 

Moscas douradas

copulam no ar

e tecem teias

com fios longos de pensamentos,

que se perdem

em passado sem história

e em futuro sem

perspectivas.

Moscas vermelhas

copulam no chão

e as mulheres

surgem no matagal

e as camas estremecem

nas alcovas.

Moscas azuis

copulam no céu:

só existem

anjos e arcanjos

onde a matéria

não existe.

            Pba, 02.04.78 

O amigo Evonaldo Cerqueira deu a seguinte interpretação a esse poema:

"Uma vez, ouvi o Professor Luiz Romero Lima dizer que os poemas, ao serem publicados, não são mais do poeta. A interpretação é  livre e cabe a qualquer um. Pois bem, desculpe-me a audácia. 

 Num panorama "sociomundial" (nem sei se essa palavra existe), as moscas douradas seriam os reinos nas colônias, sem uma história e com um futuro sem perspectivas (por exemplo, os astecas...).

As moscas vermelhas (sem conotação política e mero uso de cores) teriam os pés no chão, com produtividade (a figura materna das mulheres)numa proliferação mais popular: camas estremecem nas alcovas. 

E as moscas azuis (plano superior) na eterna geração da humanidade encarnando num plano físico, no eterno ciclo: nascer, morrer, retornar..."

*         *         *

E o professor e escritor Marcondes Araújo o parafraseou, de forma algo jocosa, da seguinte forma:

Maniqueísmo das moscas

As moscas sugerem poemas

Mas também certa arrelia

Ora solução, ora problema

Cada momento uma valia

As que reciclam o nutriente

Mas tem “mosca de padaria”.


Ajudam a eliminar detritos

Polinizam reprodução das plantas

É um gesto bondoso e bonito

Atitude que encanta

Conforme está escrito

Parece bendita e santa.


Mas o outro lado da vida

Pautado na ciência e crença

Conduz a uma sequela desvalida

Pois contamina e traz doença

Então mosca está dividida

Entre o ódio e a querença.


Altos, 26/01/26

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

TRIBUTO A UM POETA MORTO

 

O poeta e dona Emídia, na Praça do Liceu, na época do namoro. Segundo uma mensagem do amigo e escritor Anfrísio Lobão Castelo Branco, a Praça seria a João Luís, pelo formato do banco. Abaixo, a mesma foto melhorada pelo chatgpt:

Creio que essa fotografia seja de data próxima à da época em que o conheci



TRIBUTO A UM POETA MORTO

 

Elmar Carvalho

 

Outro dia, não sei a propósito de quê, lembrei-me de um texto que escrevi há alguns anos, em homenagem a um velho poeta, meu amigo. Poucos meses após eu conhecê-lo, ele faleceu. Sua viúva presenteou-me com o livro que ele estava lendo quando o conheci. Tratava-se de Castro Alves – Poesias Escolhidas, edição publicada pela Imprensa Nacional, em 1947, em comemoração ao centenário do grande poeta condoreiro.

Numa de suas páginas iniciais, fiz a seguinte anotação: “Este livro me foi ofertado pela viúva do poeta (...), Sra. Emídia Mendes. Teresina, 05.06.06”. Portanto, devo ter conhecido o poeta poucos meses antes. Alguns anos antes, por ocasião do sesquicentenário de nascimento de Castro Alves, eu havia adquirido um box, em material de alta qualidade, em sua homenagem, publicado pela Fundação Banco do Brasil, com o patrocínio da Construtora Norberto Odebrecht S.A.

Segue a crônica que escrevi em homenagem ao poeta:

 

Numa manhã, enquanto eu esperava, um tanto impaciente, o retorno de minha mulher, resolvi caminhar pela calçada, nas proximidades de onde se encontrava meu carro.

 

Então, para minha surpresa e contentamento, vi, num terraço, sentado numa cadeira, de costas para a rua, aproveitando a luz difusa que entrava pelo largo portão, um homem idoso, magro, de cabelos brancos, lendo um antigo e grosso volume de poesia, em verdadeiro estado de êxtase, ou até mesmo de beatitude.

 

Via perfeitamente que se tratava de poesia, pelo aspecto formal da mancha gráfica, que me permitia enxergar o formato dos versos e o contorno das estrofes. Contudo, minhas retinas, já um tanto fatigadas, não me permitiam decifrar o conteúdo nem o nome daquele felizardo poeta, que requeria tamanha atenção e respeito de uma pessoa já avançada na idade. Como desejei dispor de uma luneta ou, ao menos, de um binóculo, desses com que os jovens aproximam a beleza das mulheres, na ilusão, talvez, de tocá-las.

 

Fiz movimentos e caminhei para despertar a atenção daquele leitor contrito, mas em vão. Como a minha curiosidade aumentasse a cada segundo que passava, e podendo minha mulher retornar a qualquer momento, não resisti e o interpelei, perguntando quem era o autor daquele alfarrábio.

 

Fiquei contente ao saber que se tratava de Castro Alves, poeta sublime, morto no verdor dos anos, mas no auge de sua glória, um dos autores de minha predileção, que é bastante eclética, embora severa.

 

O leitor não ficou aborrecido com a minha impertinência. Aliás, pareceu-me mesmo ficar contente com a minha abordagem e curiosidade. Revelou-me seu nome e disse ser também poeta. Convidou-me a entrar. Conversamos um pouco.

 

Era um poeta da velha guarda, porém da melhor estirpe. Ao falar de poesia, parecia transfigurar-se e rejuvenescer. De gestos largos e teatrais, enchia-se de entusiasmo e vida. Deu-me a impressão de ser um crítico rigoroso, avesso a fazer concessões graciosas.

 

Recitou-me maravilhosos versos de sua autoria, de forma vibrante e emocionada. Revelou-me episódios de sua vida. Era gaúcho. Fora herói do nazifascismo. Conhecera o meu saudoso amigo, o general João Evangelista Mendes da Rocha, escritor, fidalgo de fino trato e igualmente herói da 2ª Guerra Mundial.

 

Voltei a revê-lo, oportunidade em que lhe dei alguns livros de versos de minha autoria. De imediato, leu alguns e os elogiou, para meu contentamento e estímulo.

 

Outro dia, bateu-me uma saudade e desejei rever o poeta. Não sei por quê, temia não mais encontrá-lo. Queria também lhe ofertar a segunda edição de meu livro Rosa dos Ventos Gerais.

 

Bati à sua porta. Recebeu-me uma senhora da casa. Perguntei-lhe pelo poeta. O poeta havia morrido, disse-me ela. Confirmara-se o meu presságio de que talvez o velho aedo já tivesse empreendido sua derradeira viagem. A pessoa que me atendeu informou-me a data de seu falecimento e comentou que a viúva vira recentemente um dos meus livros, observando que o poeta gostara de minha poesia.

 

Resta-me a lembrança de um homem educado que, sem ainda me conhecer, fora bom e atencioso comigo, convidando-me a adentrar sua casa. Resta-me a saudade de um poeta que, embora talentoso, nunca buscou as luzes da ribalta nem os refletores da publicidade.

 

Apenas cantava porque era seu destino cantar. Cantava como cantam as aves, sem necessidade de aplausos e elogios, não raras vezes insinceros e dissimulados, quando não irônicos e escarnecedores.

 

Resta-me, por último, como derradeiro tributo e laurel, a quem nunca precisou dessas exterioridades, declinar o nome de um poeta e herói que se chamava Dario Mendes, amante da poesia e da vida.  

domingo, 18 de janeiro de 2026

EGOCENTRISMO

Imagem criada pelo chatgpt

 

EGOCENTRISMO


Elmar Carvalho

 

Além do mar, além do infinito, além (...)

meu corpo fica espalhado

como poeira cósmica perdida

e dispersa nos cantos

(encantados e sem cantos)

do mundo.

É uma miragem de

visionário maluco o

infinito: é a extrapolação

do nada dentro do tudo.

Além do infinito, além do mar, aquém (...)

minha alma percorreu o infinito,

num tempo de tão pequeno

arrancado do próprio tempo,

até perder-se no infinito.

(Minha alma se tornou

o hálito

do éter perdido.)

E meu corpo se tornou

uma estátua

de granito,

plantada como

um astro no

centro do cosmo,

desmanchando-se

em lavas lacrimais

de fogo ardente.

         Pba, 07.12.77

sábado, 10 de janeiro de 2026

NA BANCA DO LOURO

Charge de Fernando di Castro

Pedi à AI Gemini para fazer uma nova charge baseada na do grande Fernando di Castro, mas colocando a banca, aberta, na Praça da Graça. Só que na digitação, em lugar de banca, eu escrevi banda, e aí surgiu a charge acima. Ficou uma comédia. 😀😀😀


NA BANCA DO LOURO


Elmar Carvalho

 

Sempre que vou a Parnaíba, visito a banca de jornais e revistas do Louro, que é meu conhecido desde os áureos tempos do jornal Inovação. Fica na praça da Graça, quase em frente à agência da Caixa Econômica Federal. Ali, tomo conhecimento dos periódicos e livros que foram publicados na cidade. Nas suas imediações, geralmente encontro algum velho amigo, ou, pelo menos, através do Louro, recebo notícia de algum conhecido que esteja visitando Parnaíba.

 

Assim, soube que o Flamarion Mesquita, que hoje mora em Palmas, no Tocantins, esteve na urbe, visitando seus parentes. É ele um competente professor de inglês e notável desenhista. Foi um dos principais ilustradores do Inovação. Fez capas e contracapas de nossos livros mimeografados, geralmente obras coletivas de que tive a honra de participar. Não tive, entretanto, a oportunidade de abraçá-lo, como gostaria. Também tive notícia do dr. Nicodemos Ramos, que recentemente tomou posse de sua cadeira na Academia Parnaibana de Letras, em inesquecível noite de literatura e arte.

 

Pude reencontrar o Francisco Carvalho, que há muitos anos não revia. É parnaibano. Vim a conhecê-lo em Teresina, em 1983 ou um pouco depois, quando ele exerceu cargo na Delegacia do Ministério da Educação no Piauí. Foi colaborador do jornal Inovação. Depois, foi removido para Fortaleza; hoje, se encontra em São Luís, porém lotado na FUNAI, mantendo, portanto, contato com os índios maranhenses, que, ao contrário do que ocorreu em nosso estado, não foram extintos.

 

Falou-me de seus vários projetos intelectuais. Disse que pretendia escrever uma monografia sobre o antigo Ginásio São Luiz Gonzaga, mas que não o fez porque não encontrou subsídios informativos para a empreitada. Por coincidência, estava conosco o Vicente de Paula (Potência), que ostentava na gola da camisa o broche comemorativo dos 50 anos da primeira turma do Colégio Estadual Lima Rebelo, originário da estadualização do antigo Ginásio Parnaibano pelo governador Chagas Rodrigues, que desse modo beneficiou os estudantes pobres do município.

 

Francisco Carvalho acrescentou que gostaria de escrever um livro, de caráter sociológico, com interpretação, análise e crítica (e não meramente enumerativo de fatos e datas), sobre a intelligentsia piauiense. Respondi-lhe que essa obra viria em boa hora e seria única no gênero. Resta-nos torcer para que esse importante projeto se concretize, para que possamos aplaudi-lo com ênfase e em pé.

19 de janeiro de 2011