quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O ÚLTIMO GALO

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O ÚLTIMO GALO


Elmar Carvalho

 

Quando, por uma curta temporada, fui morar na zona rural, passei a prestar atenção no canto dos galos. Ficava alegre ao ouvir esse cantar vibrante, metálico, que parecia uma trombeta anunciando o amanhecer. Ao ouvi-lo, sabia que o dia vinha chegando, e que logo a vida ativa começaria. Com a alvorada dos galos, eu tinha a certeza de que os fantasmas bateriam em retirada, e já não iriam assombrar ninguém. Esses animais, por alguns, são vistos como guerreiros, por causa da crista vistosa, a lembrar um elmo, do bico adunco, como de ave de rapina, e sobretudo por causa dos esporões agressivos, que ferem como punhais, que cortam como esporas, que dilaceram como cilícios.

 

São associados a vigias, por causa da corneta denunciadora de seu canto. Por causa do episódio bíblico, em que Cristo disse a Pedro que este o negaria três vezes, antes que o galo cantasse, naquele dia triste e de mau presságio, parecem denunciar a fragilidade e a pusilanimidade do homem. Por isso, galos metálicos são colocados nos campanários das igrejas, como advertência para que não reneguemos Cristo novamente, ou, talvez, por causa de outro simbolismo que desconheço. Mas sempre significando que devemos manter vigilância sobre nós mesmos. Vigiai e orai para que não entreis em tentação – disse Jesus. O galo, como um sentinela vivo no seu poleiro ou como simulacro de metal nos mirantes ou nas torres dos templos, há de nos lembrar a negação de Pedro e a admoestação de Cristo.

 

Adolescente, creio que ao cursar o antigo ginásio, li o poema de João Cabral de Melo Neto, afirmando que um galo sozinho não teceria uma manhã, mas que sempre haveria a necessidade de outros galos. Foi um dos meus primeiros grandes contatos com a poesia moderna, uma vez que eu já conhecia relativamente bem os poetas do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo. Julgo não ter tido nenhuma dificuldade em interpretar o poema de João Cabral. Entendi bem as suas rupturas sintáticas, as supressões de palavras, como se as frases e os versos estivessem truncados, mas na verdade apenas “enxugando” o texto, através de elipses sem nenhum enigma. Achei criativos e apropriados esses cortes, porém só “materializei” as metáforas há poucos dias.

 

Foi quando, em certa madrugada, ouvi uma alvorada festiva de galos, aqui em Regeneração. As aves, por razão que desconheço, estavam excepcionalmente inspiradas e ativas. Um canto era desferido aqui perto, outro respondia mais além. Um vinha do nascente, o outro parecia estourar no poente; um à esquerda, o seguinte à direita. De repente, a cantiga amiudou, e eu já não sabia ao certo de onde provinha o alvoroço musical.

 

Houve um momento em que os cocorocós pareceram formar uma mesma e única massa compacta, a se entrecruzarem, se “entretendendo” como no poema. Então, em minha mente, o poema se tornou uma imagem, e senti que os cantos formaram fios, que formaram teia; teia, que formou tecido; tecido, que formou tenda; tenda, que formou um circo, onde todos os galos se esgoelavam. Porém, os fios se foram desfiando, se esgarçando, se desfazendo, quando foi minguando o número dos galos que cantavam.

 

Até que o sol estrangulou o canto na garganta do último galo. 


29 de março de 2011                     

domingo, 2 de agosto de 2026

INFLAÇÃO

 

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INFLAÇÃO


Elmar Carvalho

 

A inflação está

tão alta que

papel-moeda

virou papel higiênico.

 

E papel higiênico

virou artigo de luxo.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO

 

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SUNAB – UM EPISÓDIO ENIGMÁTICO

 

Elmar Carvalho

 

Ingressei na Superintendência Nacional do Abastecimento – Delegacia Regional do Piauí – SUNAB/DEPI no dia 10 de agosto de 1982, quando tinha 26 anos de idade. Dos cerca de 25 funcionários em atividade no dia em que tomei posse, só restam vivos três, talvez quatro. Exerci o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços, posteriormente renomeado para Fiscal.

 

Sua sede ficava na Rua Eliseu Martins, no cruzamento com a Rua Quintino Bocaiuva, no começo da ladeira do antigo Alto da Moderação, ou Praça Demóstenes Avelino, mais conhecida como Praça do FRIPISA. Meu chefe imediato era Walter e Silva Mendes, que cursara Medicina até o quarto ano e fora amigo de meu pai na adolescência. A delegada era a Dra. Francisca Dalva Marques Assunção.

 

Após os sucessivos planos econômicos, destinados a debelar a estratosférica inflação, a sede da delegacia regional do órgão foi transferida para o prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, situado na Praça Barão do Rio Branco, cujo busto de bronze foi surrupiado de seu pedestal anos depois. Após esses planos, a delegacia da SUNAB teve vários delegados e delegados substitutos.

 

Creio que, em 1995, eu e vários outros funcionários da autarquia, por força de decisão judicial transitada em julgado, passamos a receber uma vantagem salarial destinada a repor dois percentuais da inflação que o governo federal havia expurgado do reajuste de nossos vencimentos. Meses depois, por meio de ação rescisória, esse acréscimo foi retirado de nossos salários, o que representou um duro golpe, uma vez que eles já se encontravam bastante defasados, no jargão da época.

 

No começo de 1997, fui convidado pelo deputado estadual Humberto Reis da Silveira, que iria comemorar 50 anos de atividade parlamentar ininterrupta, para lhe prestar assessoria particular, sem qualquer vínculo funcional com a Assembleia Legislativa. Tendo em vista possíveis entraves burocráticos, pediu-me que entrasse em gozo de férias e requeresse minha licença-prêmio, a que fazia jus em razão do tempo de serviço.

 

Assim fiz e pude prestar-lhe minha assessoria. Devo dizer que a gratificação que dele recebi serviu para minorar os efeitos da redução salarial acima referida. Dessa forma, auxiliei-o em diversos serviços, mormente na elaboração do discurso que foi proferido em Jaicós, na solenidade magna de comemoração de seus 50 anos como deputado estadual.

 

Agora vem o caso enigmático, motivo maior desta minha crônica memorialística. Afirmo que desejo ser imparcial e objetivo e que não pretendo fazer nenhum julgamento sobre o episódio. Deixarei que o leitor tire suas próprias conclusões.

 

Quando minha licença especial estava prestes a terminar, a SUNAB entrou em processo de extinção. Imediatamente, os fiscais foram afastados de suas funções. Determinou-se, inclusive, que devolvessem todo o material de trabalho, tais como blocos de formulários de autos de infração, comprovantes de fiscalizações e notificações, bem como suas credenciais de identificação.

 

Mesmo estando impedido de exercer as funções inerentes ao cargo de fiscal, fui falar com o delegado da época a respeito de minha situação, inclusive sobre minha assessoria ao deputado Humberto Reis.

 

Ele então chamou o chefe da Seção de Pessoal e determinou que eu fosse designado para compor uma das Comissões Especiais afetas ao processo de extinção da autarquia. O chefe da seção lhe respondeu que isso não seria possível, pois havia determinação do Superintendente no sentido de que nenhum fiscal fosse designado para qualquer serviço interno.

 

Diante desse empecilho, o delegado imediatamente mandou que o chefe da Seção de Pessoal minutasse um ofício colocando-me à disposição da Delegacia do Ministério da Fazenda.

 

Devo esclarecer que minha relação com esse delegado era amistosa, e eu até o considerava um quase amigo. Ele gostava de conversar comigo. Ainda assim, fiquei com a leve, levíssima impressão de que pretendia me prejudicar ou "quebrar" o meu "bico".

 

Farei uma breve pausa para criar um clima de suspense e contar, resumidamente, um caso semelhante ocorrido com um saudoso amigo.

 

Meu amigo e mestre José Ribamar Freitas, professor do Curso de Direito da Universidade Federal do Piauí, de quem fui aluno, requereu uma vantagem a que julgava ter direito na repartição previdenciária em que era lotado. Em virtude da morosidade burocrática e dos Correios da época, resolveu levar pessoalmente o processo, viajando de avião até a cidade do Rio de Janeiro.

 

Foi diretamente ao chefe responsável pelo caso. Após explicar-lhe a situação e justificar a urgência, entregou-lhe o processo. O chefe imediatamente começou a despachar. Como de praxe, carimbou e assinou o despacho. Surpreso com tamanha presteza, algo insólita na burocracia brasileira, o professor Ribamar Freitas perguntou-lhe se poderia ler o despacho.

 

Atônito e estarrecido, constatou que o burocrata determinava a devolução do processo à repartição de origem, para que fossem cumpridos os trâmites burocráticos de praxe.

 

Retomo agora o fio de meu relato principal.

 

De posse do referido ofício, que me colocava à disposição da Delegacia do Ministério da Fazenda, dirigi-me à Seção de Pessoal dessa repartição, que funcionava no primeiro ou no segundo andar acima do nosso. A chefe da seção, após ler o documento, sem delongas nem titubeios, disse que não havia vaga e que eu poderia ir embora, devendo aguardar comunicação quando surgisse alguma vacância.

 

Não me fiz de rogado. Fui embora e só retornei alguns meses depois, no dia 19 de dezembro de 1997, para pedir minha exoneração e assumir, no mesmo dia ou no seguinte, o cargo de juiz de Direito, do qual me aposentei exatamente 17 anos depois.

 

Desde então, guardo a convicção de que, mais uma vez, Deus me livrara do mal e da injustiça.

domingo, 26 de julho de 2026

O PROTESTO DO JUDAS

 

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O PROTESTO DO JUDAS


Elmar Carvalho

 

No Sábado de Aleluia

batizaram e enforcaram

um Judas de pano e molambo,

o qual não estrebuchou

e nem se lamentou da sorte,

mas apenas protestou em testamento

por via do nome execrável (do político)

com que lhe batizaram.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O FAMIGERADO SNI E EU

 

Foto antiga da Praça da Graça, vendo-se o prédio da ECT. A foto foi melhorada pela IA GPT.


O FAMIGERADO SNI E EU

 

Elmar Carvalho

 

Uns trinta dias atrás, o escritor, jurista e historiador Marcelino Leal Barroso de Carvalho, meu professor no curso de Direito e meu confrade na APL, perguntou-me se eu havia sido fichado no SNI. Respondi-lhe que não tinha conhecimento disso.

 

Coincidência ou não, há quatro dias recebi, por WhatsApp, um arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI), enviado pelo historiador parnaibano Jedson Martins, no qual, a meu respeito, constava o seguinte:

 

“b. Após o Comício [de Luís Inácio da Silva – Lula], foi realizada uma reunião na residência do estudante JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO (líder estudantil e PT/PARNAÍBA), onde o mesmo recebeu orientações para a organização do PT:

 

1. Buscar apoio de grupos já existentes na área, como, por exemplo:

 

- Pessoal do Movimento Contra a Carestia;

- Pessoal das Pastorais da Terra;

- Pessoal das Pastorais da Juventude;

- Pessoal dos Encontros de Casais;

- Os movimentos eclesiais de base; inclusive foi ressaltada pelo LULA a importância dos movimentos eclesiais de base, por trás dos quais aconselhou que se articulasse todo o trabalho de conscientização popular, com o respaldo da Igreja.”

 

Essa parte que me diz respeito até me faz lembrar um célebre ironista que, dirigindo-se a um enciclopedista, teria dito:

 

— Cavalheiro, a sua definição seria perfeita, se não fosse por três exceções: caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda para trás.

 

O trecho que transcrevi acima está eivado de inverdades ou de meias verdades. Não desejando assumir um protagonismo que não tive, outra alternativa não me resta senão esclarecer os fatos, dentro da verdade, como passo a fazer.

 

A aludida reunião, que, segundo o CIE/SNI, teria acontecido em 30/08/1980, após o comício, não ocorreu em minha casa. Na época, eu morava com meus pais e mais seis irmãos no apartamento funcional da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), de, no máximo, 110 metros quadrados. Além da limitação do espaço, meu pai jamais permitiria uma reunião de política partidária nesse apartamento, uma vez que era o chefe da ECT em Parnaíba, e isso poderia acarretar-lhe graves consequências.

 

Eu não era e não poderia ser filiado ao PT de Parnaíba, como consta do documento acima referido, uma vez que meu título eleitoral pertencia à Zona Eleitoral de Campo Maior. Em 10/08/1982, passei a residir em Teresina e, após essa mudança, transferi meu título de eleitor para esta capital. Aliás, a bem da verdade, devo dizer que nunca fui filiado a partido político algum.

 

Quanto às recomendações que teriam sido feitas diretamente a mim, não tenho qualquer lembrança delas, nem poderia aceitá-las, muito menos cumpri-las, pois era servidor da ECT, trabalhando em expediente duplo, inclusive aos sábados (no turno da manhã), e, à noite, frequentava o curso de Administração da UFPI – Campus Ministro Reis Velloso.

 

No segundo semestre do ano anterior (1979), na qualidade de presidente do Diretório Acadêmico "3 de Março", do mesmo campus da UFPI, discursei no grande comício que marcou o retorno do ex-governador Chagas Rodrigues (Francisco das Chagas Caldas Rodrigues), após o término da suspensão de seus direitos políticos.

 

Fui um dos primeiros a falar, no coreto da Praça da Graça, onde se encontravam os demais oradores, entre os quais Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Almino Afonso e Miguel Arraes, próceres do MDB nacional. Entre os piauienses, estavam presentes João Mendes Nepomuceno, Celso Barros Coelho, Roberto Broder, José Alexandre Caldas Rodrigues e, claro, Chagas Rodrigues, a grande estrela do comício, que, poucos anos depois, foi eleito senador.

 

Em meu discurso, falei das mazelas da época, entre elas o cerceamento das liberdades, o Decreto-Lei nº 477, as eleições indiretas para presidente da República e governador, bem como da escassez de recursos destinados à educação. Vários oradores fizeram referência às minhas palavras.

 

Eu morava na Praça da Graça e tinha apenas vinte e poucos anos de idade. Não sei se esse fato também foi parar em alguma ficha ou relatório do SNI. Sei que, poucos anos depois, mais precisamente em 10/08/1982, quando assumi o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços da SUNAB, exigiram que eu apresentasse uma certidão de bons antecedentes expedida pelo DOPS. E eu a apresentei.

 

Consta que o general Golbery do Couto e Silva, um dos idealizadores e chefe do SNI, em conversa privada, teria dito, em referência a esse órgão:

 

— Criamos um monstro.

 

Por fim, devo dizer que nunca fui ouvido em inquérito policial, nem mesmo na condição de testemunha. E dou muitas graças a Deus por isso.

domingo, 19 de julho de 2026

A FOME

Criação da IA Copilot

 

A FOME


Elmar Carvalho

    

           I

               

           a fome

que come

e consome

o “home”

                mora

em sua víscera sonora

                                e o devora

                  como uma flora

                                cancerosa

                                                    rosa carnívora

                      que aflora e o deflora

                de dentro para fora.

 

           II

 

a fome é tanta

e tanto espanta

que o ex-grevista de fome

hoje é grevista com fome

– ou melhor – desempregado

  pregado na miséria

                                 de ser      gado       sub/ju/gado

fis/gado                              vis/gado                  k/gado

* Poema do final dos anos 1970 ou início dos anos 1980.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

FIM DE CASAMENTO

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FIM DE CASAMENTO


Elmar Carvalho

 

Perguntando eu, hoje, a um homem de mais de sessenta anos de idade se ele era solteiro, contou-me que fora casado, em sua juventude, mas durante menos de vinte e quatro horas.  Revelou-me que ao constatar que fora enganado pela mulher, a devolveu a seu pai. Fazendo-me de um tanto ingênuo, disse-lhe estranhar como essa traição poderia ter ocorrido nesse curto espaço de tempo, “em plena lua de mel”, como na bela letra da música de Reginaldo Rossi. Esclareceu-me que a traição fora o fato de ela não lhe ter revelado, anteriormente, não ser mais virgem. O homem a interrogou, e ela acabou por lhe confessar já ter tido outras experiências sexuais.

 

Acrescentou-me ele que sua mãe, ao saber do fato, ponderou-lhe que tudo poderia ser apenas um erro proveniente da juventude dela, que poderia não mais se repetir. Ele disse à mãe que nessa oportunidade conseguiu se controlar, e por isso não cometera nenhuma violência contra a mulher, mas, em outra ocasião, não saberia dizer se conseguiria conter-se. A mãe, então, falou que ele fizesse o que achasse melhor para si. Embora pedindo desculpas, indaguei-lhe se ele, ao constatar que a jovem não era mais virgem, havia interrompido o coito. Sorriu, e me disse que era homem, e que, portanto, tivera de concluí-lo, talvez, suponho, para acalmar-se e tomar uma atitude de maneira mais ponderada. Tinha ele 25 anos e a mulher, 16.

 

O certo é que ele não aceitou a mulher, devolvendo-a a seus pais, mal (ou bem) comparando, como se ela fosse uma mercadoria com defeito oculto ou vício redibitório. Na verdade, nessa época, as mulheres se conservavam virgens até o casamento, e poucos homens aceitariam casar-se com uma mulher que não fosse donzela, exceto se fosse o próprio nubente o autor do defloramento. O próprio Código Civil de 1916 permitia a anulação do casamento, conforme o seu art. 218 em combinação com o 219, IV, ao estampar que era anulável o casamento quando “o defloramento da mulher” fosse “ignorado pelo marido”.

 

Mas houve casos em que o marido repudiou a mulher, embora fosse ele o responsável pela defloração, sob a  alegativa de que ela não deveria ter cedido às suas súplicas e insistências; que se cedera com relação a ele, poderia entregar-se aos caprichos e seduções de outrem, no futuro, ainda mais porque já não existiria a película denunciadora.

 

No final da conversa, fazendo uma analogia entre as ponderações de sua mãe, para que desse nova oportunidade a sua mulher e a perdoasse, lembrei-me de uns versos do grande poeta Hermes Vieira, que tem poemas magistrais na vertente popular e na temática sertaneja, que lhe citei de forma livre, parafraseada, já que faz muitos anos que os li pela derradeira vez. O poema conta o caso de um jovem que constatou haver se casado com uma mulher já deflorada.

 

Na manhã do dia seguinte às núpcias, foi aconselhar-se com o pai, sobre o seu desejo de restituir a mulher a seu pai. Após elogiar muito a própria mãe, acrescentou que feliz era ele, seu pai, que se casara com uma mulher direita, séria, honesta, que sempre o respeitara. O pai, nos versos do poeta, que cito livremente, apenas de memória, disse ao filho angustiado: “Meu filho, vê se você se acoita, / Na mulher se bota um frei, / é melhor você ficar na moita, / Do jeitim que eu fiquei”.

 

O homem sorriu, conquanto fosse este o mesmo conselho que lhe dera sua mãe, em sua distante juventude.      

23 de março de 2011

terça-feira, 14 de julho de 2026

domingo, 12 de julho de 2026

MOISÉS

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MOISÉS


Elmar Carvalho

 

Escravo,

não sou escravo da submissão

e meu último adeus será uma corrida

com os pés fora da corda-bamba.

Escreverei

um manifesto assinado

com o sangue de cada um,

com o suor de todos,

todos mocinhos

de um filme sem mocinhos.

Escarnecerei

os muros e os tetos das prisões

porque são exceções de um regime de

exceção.

Escangalharei

as portas do céu

e os portões do inferno

e soltarei a liberdade.

            Parnaíba, 02.04.78

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Professor Amstein

O genial Gervásio Castro fez a magnífica charge do professor Amstein, sem ter conhecido o mestre, já que ele faleceu em 1948, e sem ter acesso a retrato seu. De modo que se baseou apenas nas informações de que ele era um suíço de alta estatura, avermelhado, de bigode e barbas ruivas, e de que era um professor de matemática e desenho, “colega maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão”, como dele disse o ex-aluno Renato Castelo Branco, no seu livro de memórias Peguei um ita no Norte.

Foto extraída da dissertação de mestrado da professora Maria do Socorro Meireles Rodrigues, cujo arquivo em PDF me foi enviado pela professora Juliana Lacet, que desenvolve uma pesquisa sobre a advogada Catarina Moura, que foi esposa de Amstein. Na foto aparece o corpo docente do antigo Ginásio Parnaibano. Acreditamos que Amstein não esteja nessa foto, uma vez que não aparece nenhum professor com bigode e barba.


Foto do professor Amstein, que me foi enviada pelo advogado e escritor Filadelfo Barreto, que a encontrou no periódico Panorama Estudantil, ano 1, nº II, junho de 1939, órgão do Centro Estudantal Parnaibano. 


Professor Amstein


Elmar Carvalho

 

Ainda no início de nossa mudança para Parnaíba, em 1975, meus pais, meus irmãos e eu fomos morar no apartamento dos Correios (ECT), na Praça da Graça. Foi na placa da rua, que lhe passa pela lateral externa, que vi estampado pela primeira vez o seu nome: Rua Professor Amstein. Sempre lhe associei o nome ao do grande físico e gênio Einstein. Por isso mesmo a minha imaginação, às vezes fantasiosa, me levou a acreditar que ele poderia ser um judeu alemão fugitivo dos nazistas. Da janela de um dos banheiros do apartamento, nas madrugadas silentes, eu vi, muitas vezes, uma nesga dessa rua deserta e a placa luminosa da revenda Poncion Rodrigues com o W estilizado da Volkswagen.

Na época em que frequentei a casa do professor Lima Couto, por ser amigo do Paulo de Athayde Couto, seu filho, meu colega de turma no curso de Administração de Empresas (UFPI – Campus Ministro Reis Velloso), ouvi novamente falar em Amstein. Lima Couto, ao me relatar fatos de sua vida, sobretudo de sua experiência magisterial, me contou que o túmulo do velho mestre e engenheiro suíço fora por ele idealizado, tomando como inspiração, creio, o túmulo do Soldado Desconhecido.

Posteriormente, num comentário (em meu blog), sobre esta crônica, soube pelo professor universitário e economista Vitor de Athayde Couto que o mausoléu na verdade é uma réplica do túmulo de Napoleão Bonaparte, nos Invalides, em Paris. Vitor revela a grande admiração que seu pai, o professor Lima Couto, nutria por Amstein. Aduz, ainda, que o velho mestre teria trabalhado na Companhia de Portos e Vias Navegáveis – CPVN, na função de topógrafo ou agrimensor. Acrescentou que o seu irmão Régis lhe mencionara que o arquiteto Assis Couto dos Reis dizia que foi com Amstein que aprendera Desenho e Topografia, “não só no Ginásio Parnaibano, mas também na CPVN, onde trabalharam juntos”.

Ao visitar o Cemitério da Igualdade, em diferentes ocasiões, descobri, por conta própria ou por informações de coveiros, os túmulos da poetisa Luíza Amélia de Queiroz, à sombra de sua frondosa e bela gameleira, o de minha prima Verônica Melo, morta em plena juventude, no apogeu de sua beleza, e o do professor Alfredo Eduardo Amstein.

Nesse campo santo também foi sepultada minha irmã Josélia, falecida aos 15 anos de idade, em cujo túmulo meu pai afixou uma placa de metal com os imortais versos de Da Costa e Silva: “Saudade! Asa de dor do pensamento!” No túmulo de Amstein, consta: “Nasceu em 27 de março de 1887 – Faleceu em 30 de julho de 1948. Homenagem de seus colegas do Ginásio Parnaibano e Escola Normal de Parnaíba.”

Através do Dr. Lauro Correia, diretor do Campus e meu professor no curso de Administração de Empresas, e que foi seu aluno na segunda metade da década de 1930, tomei conhecimento de outros fatos de sua vida, inclusive de que ele morou na Ilha Grande de Santa Isabel, na mesma casa, por sinal, em que nascera Evandro Lins e Silva, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Portanto, eu sabia que Amstein, engenheiro suíço, de porte avantajado, de vastos e bastos bigode e barba ruivos, era um tipo bonachão, um grande contador de estórias e fatos anedóticos, em que a fantasia parecia se misturar com a verdade, em que a ficção se mesclava a fatos reais. Tive certeza disso quando li o capítulo O professor Amstein, do livro Tomei um ita no Norte, de Renato Castelo Branco, com quem, em minha juventude, cheguei a me corresponder por cartas. Dessa obra memorialística extraio os seguintes trechos:

“... Mas ele era bom e todos gostávamos dele. Não como um professor, a quem se respeita, mas como um colega maior e mais velho, barulhento, inconsequente e brincalhão. // ... Suas histórias, geralmente episódios de sua vida, eram ricas, férteis, cheias de pitoresco e de surpresas. Sentia-se que refletiam a verdade. Mas não apenas a verdade. A parte verdadeira as tornava plausíveis. Mas sentíamos que estávamos sendo mistificados, que Amstein enriquecia suas aventuras, que inventava, que acrescentava fatos, acontecimentos, detalhes imaginários. // Onde terminava a verdade e começava a fantasia? Sabíamos que ele mentia. Mas, como o Taubelman de Michel Deon, não sabíamos quando. Pois ele vivia em um mundo a um tempo real e imaginário, do qual era uma espécie de mágico, a nos deslumbrar. // Até mesmo a maneira como viera esbarrar em Parnaíba tinha esta marca de mistério e meia-verdade. Um dia o Diretor do Ginásio Parnaibano recebera um telegrama de Amstein, declarando-se engenheiro suíço, professor de matemática, e disposto a aceitar o convite para lecionar no Ginásio. O Diretor jamais lhe fizera qualquer convite. Nem tampouco o conhecia. Mas precisava de professor e contratou-o. // Assim chegou Amstein em Parnaíba, a cuja vida se incorporou, enriquecendo sua cultura e seu folclore. Deixou muitos amigos. Mas já chegou montado em uma meia-verdade.”   

No livro Cada Rua – Sua História, de Caio Passos, sobre as ruas, avenidas, praças e outros logradouros de Parnaíba, no local apropriado, encontro muitas informações sobre o velho professor Amstein, que corroboram o que sobre ele eu já sabia, além de outras que desconhecia. Entre estas, tomo conhecimento de que ele gostava de cavalgar e de cultivar suas hortas. E de que falava amiúde das belezas de sua pátria, louvando-lhe as belezas naturais, sobretudo “as edelweiss, uma linda flor branca dos Alpes”, que certamente lhe enchiam o peito de saudade e lhe faziam relembrar as níveas neves alpinas.

Dois ou três dias atrás, mediante comentário em meu blogue e de notificação em minha página no facebook, pude fazer contato com a professora e historiadora Juliana Lacet, que me pediu informações sobre Amstein, uma vez que ela está fazendo uma pesquisa sobre a vida de Catarina Moura, que foi sua esposa, de cujo casamento nasceram duas filhas e um filho, falecido aos vinte e poucos anos. Catarina foi uma mulher avançada para sua época. Advogada, escreveu vários artigos em defesa da mulher e de seus direitos. Ela era natural de Paraíba do Norte, hoje cidade de João Pessoa. Amstein era filho do cônsul suíço em Recife. Portanto, não era fugitivo dos nazistas, como a minha imaginação me fizera suspeitar.

Em meados dos anos 1980, creio, comecei a escrever uma série de poemas sobre figuras populares, anedóticas e folclóricas de Parnaíba, que faziam parte do cenário cultural, pitoresco e histórico dessa cidade. Mensalmente esses textos eram publicados, com esmeradas ilustrações de Flamarion Mesquita, no jornal Inovação. Flamarion é, como já disse, uma flama flamejante de talento. Em 2009 reuni esses poemas, que tinham o título geral de PoeMitos da Parnaíba, e os publiquei em livro, com geniais charges policromáticas de Gervásio Castro e um esmerado prefácio de Cunha e Silva Filho. Mas desde o início achei que entre eles deveria constar um sobre o professor Amstein. Não sei ao certo porque não o fiz. Acho que me faltou engenho e arte para retratar o velho engenheiro suíço.

Agora, muitas décadas depois, motivado pelos fatos acima relatados, escrevi esse desejado poema sobre o inesquecível professor Amstein, que segue abaixo (e que integrará doravante os meus PoeMitos da Parnaíba), como uma homenagem a essa instigante e fulgurante figura humana, humana no melhor e mais completo sentido da palavra:


AMSTEIN


Elmar Carvalho


O professor Amstein,

com seu vasto bigode

e densa barba ruiva,

alto, forte, avermelhado,

chegou a Parnaíba montado

no árdego Pégaso da mistificação.

Assumiu emprego no

Ginásio Parnaibano e na Escola Normal.

Professor de desenho geométrico e matemática,

fazia suas métricas e matemágicas

em suas fantásticas e fantasiosas histórias.

Engenheiro e da Suíça, era um verdadeiro

canivete suíço: polivalente, pau para toda obra,

homem de sete ou mais instrumentos, substituía

qualquer dos professores faltosos.

Novo Barão de Munchausen

recheava suas aulas e recreios

com seus anedóticos e mirabolantes “causos”,

menino grande entre os demais meninos,

“barulhento, inconsequente e brincalhão”,

no dizer do ex-aluno Renato Castelo Branco.

Para sempre restou em sua mente a saudade

de Edelweiss, a divina e linda nívea flor dos Alpes.  

domingo, 5 de julho de 2026

SONATA EM DOR MAIOR

Imagem elaborada pela IA GPT

 

SONATA EM DOR MAIOR


Elmar Carvalho

 

A mesa está posta,

mas os pratos estão vazios.

O meu povo não tem

talheres, nem colheres,

por isso come com

as mãos o que não

existe nos pratos.

O meu povo vota em

eleições para presidente

da república (de estudantes),

                mas sonha votar

                na eleição para

                Presidente da República

                Federativa do Brasil.

O meu povo deseja bater

palmas para as estátuas dos

                heróis libertários.

                Mas como se as mãos

                e os pés estão atados?

Em 1888 acabaram com a

escravidão no Brasil. Mas que escravidão?

                Se antes os escravos eram pretos,

                hoje são de todas as cores,

e cantam com raiva a “Esparrela do Brasil”.

 

           Parnaíba,13.10.78

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A SUPER LUA CHEIA

Imagem elaborada pela IA GPT


A SUPER LUA CHEIA


Elmar Carvalho

 

O professor Nelson Rios, regenerense de velha e boa cepa, através de comentário postado em meu blog, sugeriu-me escrevesse sobre a super lua cheia, que ocorreria no sábado, dia 19. Respondi-lhe que talvez o fizesse nesta terça-feira. Segundo os jornais e os portais noticiosos, trata-se de um fenômeno natural, que só ocorre a cada 18 anos. Portanto, se Deus me mantiver vivo, só voltarei a revê-lo já setentão, ou, mais precisamente, quando estiver com 73 anos de idade, posto que em poucos dias completarei 5 ponto 5. Uma vez que a órbita de nosso satélite não é circular, mas elíptica, há momentos em que a lua fica mais próxima da Terra, atingindo o perigeu, ou mais distante, quando ocorre o apogeu. No primeiro caso (perigeu), para um observador em nosso planeta, ela aparece 14 % maior e 30 % mais brilhante; consequentemente, no apogeu ela aparentaria ser menor e ficaria menos luminosa.

 

Portanto, no perigeu, o nosso satélite alcança a sua maior luminosidade, o seu maior tamanho aparente, e fica revestido de sua maior glória e beleza. Na verdade, metaforicamente, ou em linguagem figurada, ou no sentido conotativo para o senso comum, ela teria atingido o seu apogeu, pois teria alcançado o seu ponto máximo de brilho, de beleza, de tamanho, de encantamento. Todavia, em se falando de órbita, ela esteve mesmo no perigeu, e não no apogeu, embora, em termos de plasticidade, devesse ser esta a palavra mais apropriada.

 

Aprendi a admirar o plenilúnio – palavra que alguns poderão considerar pomposa, solene, ou de forte carga poética, ou ainda motivada por algum pernosticismo – quando fui morar na zona rural, por um curto período, em minha infância. Já então conhecia a música Luar do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense, compositor maranhense, à revelia de seu sobrenome. Ficava extasiado, nas escuras noites da caatinga, a contemplar o céu estrelado e a lua cheia, sobretudo ao nascer, ou quando ela se entremostrava por entre os galhos das árvores ou através da cortina esgarçada das nuvens, que por vezes mais se assemelhavam a um biombo de gaze.

 

Quando o astro se escondia detrás das nuvens, minha mãe dizia que ela fora tomar banho. No período chuvoso, a lua formava um círculo em torno de si, uma espécie de nimbo ou halo luminoso; minha mãe, despertando-me em suas poucas letras para as metáforas e comparações e para a poesia da natureza, falava que a lua, qual uma iara, tomava banho em sua lagoa. Recordo que desde muito cedo mamãe me ensinou a admirar a beleza da paisagem, o encantamento das flores, a delicadeza das pétalas das rosas, a majestade de um urubu a planar no céu, a revoada giratória dessas aves, verdadeiro balé aéreo, e as esculturas formadas pelas nuvens ao capricho do cinzel etéreo do vento. 

 

A lua cheia sempre foi associada a mistérios e feitiços, fazendo despertar o imaginário das pessoas simples e a criatividade dos artistas. Dizem que durante essa fase lunar os lobisomens se manifestam, os cachorros hidrófobos se exacerbam; os loucos ficariam ainda mais loucos, loucos furiosos, sob os influxos do plenilúnio. Os antigos almanaques assinalavam a influência da lua sobre a germinação das sementes, sobre o crescimento dos cabelos e das marés.

 

Os poetas simbolistas se quedavam em êxtase, na contemplação da lua cheia e do luar, comparando-os a belas monjas, pálidas e maceradas, enclausuradas em suas celas, em que os cilícios laceravam suas carnes tenras e suas esplêndidas peles brancas. Viam a lua plena como uma hóstia ou como um lírio, e imaginavam o luar como níveas e frígidas neblinas, em que virgens esmaecidas se perdiam em êxtases pecaminosos ou em tormentos inimagináveis, por causa de paixões malogradas ou interditas.

 

Certa vez, quando eu tinha três anos de idade, mamãe me encontrou na árdua tarefa de emendar umas varas, no terreiro de nossa casa. Intrigada com essa inusitada atividade, perguntou-me o que eu fazia. Respondi-lhe que desejava futucar ou atrair a lua cheia, como se ela fosse algum balão ou apetitosa fruta. Claro, não me recordo desse episódio, mas apenas narro o que minha madre me contou.

 

Contudo, às vezes, ainda me sinto esse mesmo menino, a porfiar em atingir a beleza e a bondade de meus mais profundos sonhos e ideais, e alcançar assim o meu perigeu em relação a Deus, que na verdade seria o meu apogeu de homem que não deseja perder a sua mais intrínseca humanidade, apesar dos percalços e das ciladas; de homem que, mesmo quando momentaneamente parece perder a sua Fé, não deixa de rezar fervorosamente.

22 de março de 2011

domingo, 28 de junho de 2026

ALEGORIA DA FOME

Fonte: Google

 

ALEGORIA DA FOME


Elmar Carvalho 

 

A pobreza um dia

bateu à minha porta

sob a forma de um menino

magro, sujo e maltrapilho.

E catou com suas mãos esquálidas

o sujo conteúdo

de meus sacos de lixo.

Foi quando eu saía

para o trabalho.

O menino, ou antes, um

bicho assustado correu.

Fui no seu encalço

em minha moto uivante.

O menino correu ainda mais,

varou cercas de arame farpado,

penetrou no terreno baldio por entre

arbustos espinhentos e urtigas,

com olhos e gestos de terror,

como se eu fosse espancá-lo.

E eu somente queria dizer

que ele podia catar o lixo.

Apenas não espalhasse

o resto do lixo

sobre a calçada.

Mas o meu pequeno irmão

feito bicho espavorido

tem medo dos outros bichos

que se dizem seu irmão.

E o meu irmão tem razão.