sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

CATARINA, BONECA DE PANO

A antiga Zona Planetária, em imagem melhorada e colorida pela IA Gemini


CATARINA, 

BONECA DE PANO.

(Torquatinha Braz).


Ao amigo 

E confrade 

Elmar Carvalho 

Com a estima 

Do Poeta da Estação.

 


Corria a era de 1980.

A lua campomaiorense,

Parecia um grande ovo

Estrelado na frigideira 

Do infinito de um bonito 

Céu nervurado niveamente.

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Zero hora!... a aura noturna 

E fria, corria devassamente

Na rua famosa dos bordéis,

Efervescente e indecente.

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Rua Santo Antônio!

Padroeiro de Campo Maior.

Coliseu da vida prostibular.

De mancebas tão guapas -

Hetaíras no leilão da vida.

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Nesse mercado 

De corpo feminino,

Belo, moço e venal

E de balzaquiana...

Acendi um continental,

Corri o curioso olhar

Pela sala do lupanar.

Num canto, a mesinha 

De madeira, artesanal.

Noutro a radiola Philips 

Amarela, o disco tocando.

Agulha enganchando...

O tempo todo. Alguém 

Aborrecido, socorria ... 

E a música então, seguia.

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O ar do recinto 

S'enchia de fumaça,

Odores, fedores diversos 

De cachaça pitu, cerveja...

Risadas, prosas, cantadas

Obscenas no pé do ouvido.

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Torquatinha Silva y Braz

Linda no seu vestido azul,

Ia dançando e sempre rindo 

Pela sala pequena de piso

De cimento avermelhado.

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Torquatinha Braz

Bela e moça cortesã 

Estonteante e hilariante.

Deixava meu ser rapaz,

Ali atento e petrificado 

Ante tanta beleza e leveza.

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Enfim, ela deixou a dança.

Cansada, sentou no rubro

Sofá, tomou no copo

Americano uma dose

De velho barreiro, quente.

Cruzou de leve as pernas.

Acendeu o cigarro charme.

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Por breves segundos

Viajou na fumaça do cigarro 

E pensou na razão da vida.

Distraída aí, não percebeu 

A minha aproximação.

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Se assustou. Depois riu.

Se ajeitou melhor no sofá.

Gentil e tímida me convidou 

Sentar. Aceitei e me sentei.

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Meu caro leitor!

Imagine o fim de tudo.

Entre o aprendiz de poeta 

E a aprendiz de cortesã 

Na vida prostibular...

Que pena!...

Uma menina pequena.

Que sonhava ser bailarina.

Deixou em sua casinha, 

Sua boneca de pano

Chamada de Catarina.

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Helano Lopes.

Poeta da Estação.

Campo Maior Piauí.

05/02/2026; 17:51.

Bairro Estação.

Quinta feira.

Ante o poema acima, resolvi emitir o seguinte comentário:

Inicialmente, agradeço a amável dedicatória, que muito me honra e enaltece.

Seu poema acaba por se constituir também em uma crônica de um tempo menos apressado e ainda analógico, retratando com fidelidade a atmosfera psicológica e sociológica dos lupanares. Neles, não faltava — por incrível que pareça — certo romantismo: um adolescente podia se apaixonar por uma “mulher-dama”, e uma prostituta, por vezes, acabava se afeiçoando a um homem a ponto de, em vez de receber seus “proventos”, gratificar o favorito.

Com maestria, você constrói uma bela evocação desses velhos lupanares, destroçados pelas mudanças de costumes e pela voragem dos novos tempos. Parabéns, caro Helano, imortal Poeta da Estação.

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