| A antiga Zona Planetária, em imagem melhorada e colorida pela IA Gemini |
CATARINA,
BONECA DE PANO.
(Torquatinha Braz).
Ao amigo
E confrade
Elmar Carvalho
Com a estima
Do Poeta da Estação.
Corria a era de 1980.
A lua campomaiorense,
Parecia um grande ovo
Estrelado na frigideira
Do infinito de um bonito
Céu nervurado niveamente.
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Zero hora!... a aura noturna
E fria, corria devassamente
Na rua famosa dos bordéis,
Efervescente e indecente.
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Rua Santo Antônio!
Padroeiro de Campo Maior.
Coliseu da vida prostibular.
De mancebas tão guapas -
Hetaíras no leilão da vida.
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Nesse mercado
De corpo feminino,
Belo, moço e venal
E de balzaquiana...
Acendi um continental,
Corri o curioso olhar
Pela sala do lupanar.
Num canto, a mesinha
De madeira, artesanal.
Noutro a radiola Philips
Amarela, o disco tocando.
Agulha enganchando...
O tempo todo. Alguém
Aborrecido, socorria ...
E a música então, seguia.
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O ar do recinto
S'enchia de fumaça,
Odores, fedores diversos
De cachaça pitu, cerveja...
Risadas, prosas, cantadas
Obscenas no pé do ouvido.
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Torquatinha Silva y Braz
Linda no seu vestido azul,
Ia dançando e sempre rindo
Pela sala pequena de piso
De cimento avermelhado.
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Torquatinha Braz
Bela e moça cortesã
Estonteante e hilariante.
Deixava meu ser rapaz,
Ali atento e petrificado
Ante tanta beleza e leveza.
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Enfim, ela deixou a dança.
Cansada, sentou no rubro
Sofá, tomou no copo
Americano uma dose
De velho barreiro, quente.
Cruzou de leve as pernas.
Acendeu o cigarro charme.
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Por breves segundos
Viajou na fumaça do cigarro
E pensou na razão da vida.
Distraída aí, não percebeu
A minha aproximação.
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Se assustou. Depois riu.
Se ajeitou melhor no sofá.
Gentil e tímida me convidou
Sentar. Aceitei e me sentei.
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Meu caro leitor!
Imagine o fim de tudo.
Entre o aprendiz de poeta
E a aprendiz de cortesã
Na vida prostibular...
Que pena!...
Uma menina pequena.
Que sonhava ser bailarina.
Deixou em sua casinha,
Sua boneca de pano
Chamada de Catarina.
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Helano Lopes.
Poeta da Estação.
Campo Maior Piauí.
05/02/2026; 17:51.
Bairro Estação.
Quinta feira.
Ante o poema acima, resolvi emitir o seguinte comentário:
Inicialmente, agradeço a amável dedicatória, que muito me honra e enaltece.
Seu poema acaba por se constituir também em uma crônica de um tempo menos apressado e ainda analógico, retratando com fidelidade a atmosfera psicológica e sociológica dos lupanares. Neles, não faltava — por incrível que pareça — certo romantismo: um adolescente podia se apaixonar por uma “mulher-dama”, e uma prostituta, por vezes, acabava se afeiçoando a um homem a ponto de, em vez de receber seus “proventos”, gratificar o favorito.
Com maestria, você constrói uma bela evocação desses velhos lupanares, destroçados pelas mudanças de costumes e pela voragem dos novos tempos. Parabéns, caro Helano, imortal Poeta da Estação.

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