sábado, 30 de maio de 2020

O CÃOZINHO DE WUHAN




O CÃOZINHO DE WUHAN

Antônio Francisco Sousa (afcsousa01@hotmail.com)

Quer dizer que somos seres racionais
porque temos razão, o que não têm outros animais?
Parece algo pífio, digamos assim, insuficiente,
para nos tornar a única espécie de ser inteligente.
Temos tido dos ditos bichos irracionais,
de um deles, a propósito, nestes dias anormais,
impressões das melhores possíveis, especiais;
sentimentos, emoções, coisas não banais,
que nos deixaram, um bicho-homem, pobrezinho,
talvez, bem mais que isso, um coitadinho,
se comparado a Xiao Bao, o cãozinho de Wuhan;
para o qual, e a essa vida tão malsã,
esperava ver devolvido seu bem-amado,
que entrara no hospital para ser curado;
isso, depois de longa e triste espera,
que, só para ele, não fora uma quimera.
Não lhe contaram porque não entenderia,
mas seu querido dono, fazia dias, havia partido,
deste mundo louco, animal, talvez desistido.
Como não lhe convenceram de que morrera,
ficaria ali, por certo, para sempre: a vida inteira.
Dor, frio, tudo bobagem de pouca valia;
fome ou sede? Que eram elas diante do que sentia
cada minuto, daqueles longos meses de monótona agonia,
em que lhe negaram notícias dele, dia após dia?
Andando de um lado para outro, ora chorava, ora corria;
se fosse um da tal espécie racional, aconselhá-lo-iam:
volte para casa, meu caro, vá descansar: diriam.
Por outro lado, é bem possível que se o doce animal,
se metamorfoseado de homem, este ser excepcional,
há muito teria abandonado aquele lugar
em que vira seu querido dono nele, somente entrar.
Se pudessem entender o triste cãozinho,
dele ouviriam, certamente: como deixar sozinho
alguém que comigo veio, ali entrou, e não o vi sair?
Porque dependemos um do outro, ficarei aqui.
Não posso largá-lo, entregá-lo à própria sorte;
vocês que inventaram que tudo acaba com a morte.
Como vejo a vida sob prisma irracional,
dir-lhes-ia: o homem que trouxe a este hospital,
é meu companheiro de estimação, um amigo leal.
Não é justo abandonar a quem se quer tanto bem.
O amor não acaba em nós mesmos: vai mais além.
Que história é essa, pois, de que são irracionais
seres puros como Xiao Bao, amigos tão especiais,
que se raciocinassem, como só homem diz que faz,
arguiriam: então, são esses os pobres e tolos animais
que se arvoram e se intitulam únicos seres racionais?  

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