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| Formatura em Direito |
| Recebendo homenagem da Câmara Municipal de Parnaíba |
PANEGÍRICO AO MAGISTRADO ANCHIETA MENDES (*)
Elmar Carvalho
José de Anchieta Mendes de Oliveira nasceu em Simplício
Mendes, em 04 de outubro de 1931, dia de São Francisco de Assis. Filho de
Joaquim Mendes de Oliveira e Isabel Elisa de Oliveira, era cinco anos mais novo do que meu pai. Teve 15 irmãos e 6 filhos, três dos quais, na esteira do
pai, optaram pela carreira jurídica.
Entre seus irmãos, temos o economista e professor
universitário Felipe Mendes de Oliveira, meu colega na Academia Piauiense de
Letras, que exerceu importantes cargos e funções, entre os quais os de
secretário da Fazenda e vice-governador do Estado do Piauí, além de ter sido
deputado federal e deputado constituinte.
Sendo Felipe Mendes 18 anos mais novo do que o Dr. Anchieta,
este se preocupava com o seu bem-estar, com a sua cultura e com o seu estudo
formal. Para lhe poupar tempo e esforço no deslocamento para o colégio, o nosso
saudoso homenageado presenteou-o com uma bicicleta.
Na primeira vez em que foi à aula em sua reluzente bicicleta,
ao retornar, o estudante Felipe Mendes teve uma desagradável e inesperada
surpresa: um ladrão convidou sua bicicleta para um passeio e esqueceu-se de
devolvê-la. Ao saber do ocorrido, Anchieta pediu ao irmão que tivesse
paciência, que aguardasse o recebimento de seu próximo salário, para que
pudesse comprar outra. A promessa foi cumprida sem nenhuma protelação. Porém,
Felipe Mendes, a partir de então, semelhante aos protagonistas dos filmes de
faroeste, que amarravam seus cavalos, passou a usar um cadeado em sua nova
bicicleta, de forma que ela nunca foi surrupiada.
Conheci nosso homenageado em 1977, quando me tornei aluno do
curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso –
Universidade Federal do Piauí, em Parnaíba, onde minha família já residia desde
1975. Ele lecionava as disciplinas Sociologia Organizacional e Comunicação
Empresarial. Conquanto eu o achasse sério, um tanto sisudo, era afável,
simpático e acolhedor.
Nessa época, Parnaíba tinha três emblemáticos juízes de
Direito: João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, Walter Miranda de Carvalho e o
nosso José de Anchieta Mendes de Oliveira. Gostaria de abrir um parêntese para
falar brevemente sobre os dois primeiros.
Fontes Ibiapina foi um operoso e dinâmico magistrado, mas era
sobretudo conhecido como homem de letras, membro da Academia Piauiense de
Letras, com vários livros publicados. Praticava diversos gêneros literários,
entre os quais o conto, a crítica literária, a paremiologia, o teatro e o
romance. Certa vez, com alguns parentes que se encontravam hospedados em minha
casa, quando eu tinha 19 anos ou pouco mais, fui visitá-lo.
Ficou contente em nos receber, ao lado de sua esposa, dona
Clarice, e levou-me a conhecer sua grande e organizada biblioteca, que ficava
no andar superior. Ainda muito jovem, foi a primeira vez que ouvi falar no
poeta H. Dobal, que ele admirava. Deixou-me à vontade para examinar os livros
em todas as estantes e disse-me que escolhesse os que desejasse ler por
empréstimo. Escolhi dois ou três de sua autoria, entre os quais Brocotós, que
eu havia lido, também por empréstimo, alguns anos antes. Ficou admirado por eu,
em meio a tantos clássicos da literatura nacional e mundial, ter feito tal
escolha. Respondi-lhe que já lera alguns trabalhos seus e que havia gostado.
Dr. Walter Miranda de Carvalho, barrense como meu pai, havia
sido, na meninice e na adolescência, seu amigo. Quando fui seu aluno no curso
de Administração de Empresas, era afável para comigo. Embora sisudo e mesmo
austero, tinha senso de humor, de forma sóbria e contida. Demonstrava ter-me
consideração e lia os poemas que eu publicava no jornal Folha do Litoral. Um
dia, no início de uma de suas aulas, abriu esse jornal e leu o poema em que eu
dizia ser mentira chamar um burro de burro; que o burro não era burro, posto
que quem era burro era o cavalo. A gargalhada foi geral, e eu, muito jovem,
fiquei me achando o tal. Era muito culto e inteligente. Alçado a desembargador
do TJPI, presidiu o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí. Faleceu há várias
décadas.
Voltando ao foco de meu discurso, quero realçar que, além de
ter sido aluno de Anchieta, mais tarde tornei-me seu confrade, colega ou irmão
nas seguintes entidades: Academia Parnaibana de Letras, Instituto Histórico,
Geográfico e Genealógico de Parnaíba, maçonaria, magistratura, Academia
Maçônica de Letras do Estado do Piauí e Academia de Letras da Magistratura
Piauiense.
Nosso pranteado e saudoso confrade possui um currículo muito
rico e extenso, de forma que a exiguidade do tempo me obriga a fazer um
apertado resumo dos cargos e encargos que desempenhou: juiz de Direito;
professor universitário (UFPI); venerável mestre da Loja Maçônica Fraternidade
Parnaibana; membro da Academia Parnaibana de Letras, da qual foi um dos
fundadores, juntamente com José Pinheiro de Carvalho, Fontes Ibiapina, Fonseca
Mendes, Maria da Penha Fonte e Silva e Alcenor Candeira Filho (todos já falecidos,
exceto o último); presidente do Rotary Clube de Parnaíba; presidente da
seccional da OAB/Parnaíba; presidente da Associação dos Pais e Amigos dos
Excepcionais (APAE/Parnaíba) e delegado do Serviço do Patrimônio da União no
Piauí.
Corria a lenda de que era um mestre do saxofone. Muitos anos
depois, por ocasião, creio, de seus 70 anos de vida, ele me brindou com um CD
em que executava, com maestria, lindas melodias. Muitas eram clássicos boleros,
que, em minha infância, ouvi meu pai cantarolar. Constatei, então, que o Dr.
Anchieta Mendes era um exímio saxofonista, um mestre da harmonia e do enlevo
musical.
Na literatura, cultivava sobretudo artigos, crônicas e
contos, nos quais narrava, com correção e concisão, casos engraçados e jocosos,
muitos do anedotário parnaibano. Em dois desses “causos”, o protagonista era o
célebre Pacamão, a quem fui apresentado em 1975, na Praça da Graça, por meu
pai.
Seu nome era Francisco Pereira. Não gostava da alcunha.
Confessou não haver apreciado a “homenagem” que o escritor Assis Brasil lhe
prestara ao transformá-lo em personagem e título de um de seus livros. Nessa
ocasião, Pacamão, que se tornou um dos meus PoeMitos da Parnaíba, empunhava sua
indefectível bengala. Era célebre pelas várias anedotas que protagonizava.
Considerava-se um orador sacro, embora não fosse, que eu saiba, sacerdote de
nenhuma religião ou seita. Num dos textos, Dr. Anchieta relatou essa faceta; em
outro, discorreu sobre a famosa missiva que Pereira enviou ao bispo Dom Felipe
Conduru Pacheco, revestida de frases inusitadas e jocosidades.
Através de muitos dos cargos que exerceu e também por
iniciativa pessoal, Dr. Anchieta Mendes, seguindo a orientação de seu espírito
bondoso, exerceu a filantropia e espargiu, com prodigalidade, o bem e a
caridade — caridade que outra coisa não é senão o amor transformado em ação.
Por isso, dele sentimos saudade, e sua lembrança permanece viva entre nós.
(*) Reconstituição, através do esquema mnemônico, do discurso pronunciado por Elmar Carvalho na solenidade da Academia de Letras da Magistratura Piauiense, ocorrida em 24/03/2026, na sede do TJPI, em memória dos magistrados e acadêmicos Anchieta Mendes e Joaquim Feitosa.

Em nome de toda a família, agradeço ao confrade Elmar Carvalho as palavras em homenagem ao meu irmão Anchieta Mendes, proferidas na Academia de Letras da Maçonaria e neste espaço republicadas.
ResponderExcluirFelipe Mendes
ResponderExcluirMuito bom, como sempre, ilustre Elmar.
ResponderExcluirEste comentário foi removido por um administrador do blog.
ResponderExcluirNada existe a agradecer.
ResponderExcluirFoi uma grata honra prestar essa singela homenagem ao meu mestre, confrade e irmão Anchieta Mendes.