quinta-feira, 26 de março de 2026

PANEGÍRICO AO MAGISTRADO ANCHIETA MENDES (*)


Cabo músico do Exército
Formatura em Direito
Recebendo homenagem da Câmara Municipal de Parnaíba
Panegírico em homenagem aos magistrados Anchieta Mendes e Joaquim Feitosa, vendo-se: Des. Lirton Nogueira, juízes Sebastião Firmino, Edson Alves, Elmar Carvalho, Des. Joaquim Santana, Des. Brandão de Carvalho, procurador da República Tranvanvan da Silva Feitosa, professor Felipe Mendes de Oliveira e juiz Carlos Hamilton.

PANEGÍRICO AO MAGISTRADO ANCHIETA MENDES (*)

 

Elmar Carvalho

 

José de Anchieta Mendes de Oliveira nasceu em Simplício Mendes, em 04 de outubro de 1931, dia de São Francisco de Assis. Filho de Joaquim Mendes de Oliveira e Isabel Elisa de Oliveira, era cinco anos mais novo do que meu pai. Teve 15 irmãos e 6 filhos, três dos quais, na esteira do pai, optaram pela carreira jurídica.

Entre seus irmãos, temos o economista e professor universitário Felipe Mendes de Oliveira, meu colega na Academia Piauiense de Letras, que exerceu importantes cargos e funções, entre os quais os de secretário da Fazenda e vice-governador do Estado do Piauí, além de ter sido deputado federal e deputado constituinte.

Sendo Felipe Mendes 18 anos mais novo do que o Dr. Anchieta, este se preocupava com o seu bem-estar, com a sua cultura e com o seu estudo formal. Para lhe poupar tempo e esforço no deslocamento para o colégio, o nosso saudoso homenageado presenteou-o com uma bicicleta.

Na primeira vez em que foi à aula em sua reluzente bicicleta, ao retornar, o estudante Felipe Mendes teve uma desagradável e inesperada surpresa: um ladrão convidou sua bicicleta para um passeio e esqueceu-se de devolvê-la. Ao saber do ocorrido, Anchieta pediu ao irmão que tivesse paciência, que aguardasse o recebimento de seu próximo salário, para que pudesse comprar outra. A promessa foi cumprida sem nenhuma protelação. Porém, Felipe Mendes, a partir de então, semelhante aos protagonistas dos filmes de faroeste, que amarravam seus cavalos, passou a usar um cadeado em sua nova bicicleta, de forma que ela nunca foi surrupiada.

Conheci nosso homenageado em 1977, quando me tornei aluno do curso de Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso – Universidade Federal do Piauí, em Parnaíba, onde minha família já residia desde 1975. Ele lecionava as disciplinas Sociologia Organizacional e Comunicação Empresarial. Conquanto eu o achasse sério, um tanto sisudo, era afável, simpático e acolhedor.

Nessa época, Parnaíba tinha três emblemáticos juízes de Direito: João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, Walter Miranda de Carvalho e o nosso José de Anchieta Mendes de Oliveira. Gostaria de abrir um parêntese para falar brevemente sobre os dois primeiros.

Fontes Ibiapina foi um operoso e dinâmico magistrado, mas era sobretudo conhecido como homem de letras, membro da Academia Piauiense de Letras, com vários livros publicados. Praticava diversos gêneros literários, entre os quais o conto, a crítica literária, a paremiologia, o teatro e o romance. Certa vez, com alguns parentes que se encontravam hospedados em minha casa, quando eu tinha 19 anos ou pouco mais, fui visitá-lo.

Ficou contente em nos receber, ao lado de sua esposa, dona Clarice, e levou-me a conhecer sua grande e organizada biblioteca, que ficava no andar superior. Ainda muito jovem, foi a primeira vez que ouvi falar no poeta H. Dobal, que ele admirava. Deixou-me à vontade para examinar os livros em todas as estantes e disse-me que escolhesse os que desejasse ler por empréstimo. Escolhi dois ou três de sua autoria, entre os quais Brocotós, que eu havia lido, também por empréstimo, alguns anos antes. Ficou admirado por eu, em meio a tantos clássicos da literatura nacional e mundial, ter feito tal escolha. Respondi-lhe que já lera alguns trabalhos seus e que havia gostado.

Dr. Walter Miranda de Carvalho, barrense como meu pai, havia sido, na meninice e na adolescência, seu amigo. Quando fui seu aluno no curso de Administração de Empresas, era afável para comigo. Embora sisudo e mesmo austero, tinha senso de humor, de forma sóbria e contida. Demonstrava ter-me consideração e lia os poemas que eu publicava no jornal Folha do Litoral. Um dia, no início de uma de suas aulas, abriu esse jornal e leu o poema em que eu dizia ser mentira chamar um burro de burro; que o burro não era burro, posto que quem era burro era o cavalo. A gargalhada foi geral, e eu, muito jovem, fiquei me achando o tal. Era muito culto e inteligente. Alçado a desembargador do TJPI, presidiu o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí. Faleceu há várias décadas.

Voltando ao foco de meu discurso, quero realçar que, além de ter sido aluno de Anchieta, mais tarde tornei-me seu confrade, colega ou irmão nas seguintes entidades: Academia Parnaibana de Letras, Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, maçonaria, magistratura, Academia Maçônica de Letras do Estado do Piauí e Academia de Letras da Magistratura Piauiense.

Nosso pranteado e saudoso confrade possui um currículo muito rico e extenso, de forma que a exiguidade do tempo me obriga a fazer um apertado resumo dos cargos e encargos que desempenhou: juiz de Direito; professor universitário (UFPI); venerável mestre da Loja Maçônica Fraternidade Parnaibana; membro da Academia Parnaibana de Letras, da qual foi um dos fundadores, juntamente com José Pinheiro de Carvalho, Fontes Ibiapina, Fonseca Mendes, Maria da Penha Fonte e Silva e Alcenor Candeira Filho (todos já falecidos, exceto o último); presidente do Rotary Clube de Parnaíba; presidente da seccional da OAB/Parnaíba; presidente da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE/Parnaíba) e delegado do Serviço do Patrimônio da União no Piauí.

Corria a lenda de que era um mestre do saxofone. Muitos anos depois, por ocasião, creio, de seus 70 anos de vida, ele me brindou com um CD em que executava, com maestria, lindas melodias. Muitas eram clássicos boleros, que, em minha infância, ouvi meu pai cantarolar. Constatei, então, que o Dr. Anchieta Mendes era um exímio saxofonista, um mestre da harmonia e do enlevo musical.

Na literatura, cultivava sobretudo artigos, crônicas e contos, nos quais narrava, com correção e concisão, casos engraçados e jocosos, muitos do anedotário parnaibano. Em dois desses “causos”, o protagonista era o célebre Pacamão, a quem fui apresentado em 1975, na Praça da Graça, por meu pai.

Seu nome era Francisco Pereira. Não gostava da alcunha. Confessou não haver apreciado a “homenagem” que o escritor Assis Brasil lhe prestara ao transformá-lo em personagem e título de um de seus livros. Nessa ocasião, Pacamão, que se tornou um dos meus PoeMitos da Parnaíba, empunhava sua indefectível bengala. Era célebre pelas várias anedotas que protagonizava. Considerava-se um orador sacro, embora não fosse, que eu saiba, sacerdote de nenhuma religião ou seita. Num dos textos, Dr. Anchieta relatou essa faceta; em outro, discorreu sobre a famosa missiva que Pereira enviou ao bispo Dom Felipe Conduru Pacheco, revestida de frases inusitadas e jocosidades.

Através de muitos dos cargos que exerceu e também por iniciativa pessoal, Dr. Anchieta Mendes, seguindo a orientação de seu espírito bondoso, exerceu a filantropia e espargiu, com prodigalidade, o bem e a caridade — caridade que outra coisa não é senão o amor transformado em ação. Por isso, dele sentimos saudade, e sua lembrança permanece viva entre nós.

(*) Reconstituição, através do esquema mnemônico, do discurso pronunciado por Elmar Carvalho na solenidade da Academia de Letras da Magistratura Piauiense, ocorrida em 24/03/2026, na sede do TJPI, em memória dos magistrados e acadêmicos Anchieta Mendes e Joaquim Feitosa.

5 comentários:

  1. Em nome de toda a família, agradeço ao confrade Elmar Carvalho as palavras em homenagem ao meu irmão Anchieta Mendes, proferidas na Academia de Letras da Maçonaria e neste espaço republicadas.

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  2. Muito bom, como sempre, ilustre Elmar.

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  4. Nada existe a agradecer.
    Foi uma grata honra prestar essa singela homenagem ao meu mestre, confrade e irmão Anchieta Mendes.

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