quinta-feira, 30 de abril de 2026

ADOLESCENTES & ABORRECENTES

 

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ADOLESCENTES & ABORRECENTES


Elmar Carvalho

 

Lembrei-me hoje de um conversa que tive com o Ataíde Coelho, fiscal da Fazenda Estadual, durante caminhada no calçadão direito da beira do Poti. Contou-me ele que uma médica da sua amizade havia dito que os filhos, quando bebês, são tão fofos que a pessoa sente vontade de comê-los, creio que pela beleza e pelo cheiro dos pimpolhos, mas que, quando se tornam adolescentes e aborrecentes, a pessoa se arrepende de efetiva e literalmente não os haver comido. Isso me fez lembrar a mitologia greco-romana, em que Saturno devorava os próprios filhos. Também dizem que a venenosíssima cascavel se arrasta a parir, e depois faz o caminho inverso a comer os filhotes.

 

Esse fato, se verdadeiro, seria bom para os outros animais, porquanto o número de animais peçonhentos seria bem menor. O Vinicius de Moraes, que se dizia um homem desprovido de arestas, proclamou, a versejar, que “... Filhos? / Melhor não tê-los! / Mas se não os temos / Como sabê-lo?” Na dúvida, o poetinha, no maior e melhor sentido do diminutivo, preferiu ter a sua cota, pagando o seu tributo à reprodução da espécie.

 

De qualquer sorte, a problemática da adolescência sempre existiu, só que hoje, com o uso de drogas e com os jovens ingerindo álcool cada vez mais precocemente, parece que os conflitos entre adolescentes e pais se agravaram de forma acentuada. Li, tempos atrás, que o filósofo Sócrates, nascido alguns séculos antes de Cristo, já se inquietava com a rebeldia dos adolescentes. O fato é que a explosão hormonal contribui para que esses jovens se tornem mais desabridos e contestadores, desrespeitando normas, convenções, tabus e os mais velhos, inclusive pais e avós. É como se a geração mais nova, para se firmar, precisasse fustigar a mais velha.

 

Contudo, é comum vermos os jovens permanecendo por mais tempo a morar no lar paterno, onde têm pão, teto, vestuário, conforto, sem nenhuma despesa e preocupação. Alguns ainda querem constituir família a morar na casa dos pais, com estes sendo os responsáveis pelo sustento dos netos e da nora ou genro, o que afronta o aforismo antigo que dizia que “quem casa quer casa”.

 

Como se tudo isso fosse pouco, vemos garotas, sem nenhum preparo psicológico e financeiro, tendo filhos cada vez mais precocemente, e forçando os pais a criarem os netos, quando eles mais precisam de sossego, tempo e dinheiro para o enfrentamento das mazelas que a velhice impõe. Se Cícero ainda fosse vivo, certamente continuaria a bradar, censurando: Ó tempos! Ó costumes!  

16 de fevereiro de 2011

domingo, 26 de abril de 2026

FLAGRANTES

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FLAGRANTES


Elmar Carvalho

 

no céu azul

um urubu

 

sob o negror

do guarda-sol

o pelotão azul

de teus olhos

da sombra

me fuzilou

 

           Te. Dom. 06.08.95

quinta-feira, 23 de abril de 2026

EU E SÃO MIGUEL DO TAPUIO

 

Recriação de uma foto pela IA GPT, com um toque de surrealismo

Pedi que IA GPT transformasse em pintura impressionista uma foto
Foto de Reginaldo Soares


EU E SÃO MIGUEL DO TAPUIO

 

Elmar Carvalho

 

Somente uma vez estive em São Miguel do Tapuio. Creio que tenha sido em meados dos anos 1980, numa viagem de fiscalização da extinta SUNAB. Portanto, a lembrança dessa então pequenina e bucólica urbe já se esgarça e se esfumaça em minha memória. Sei que havia um poço jorrante no centro da cidade, uma paisagem de várzea, a mata pontilhada de carnaubeiras, além de discreta serrania e suaves colinas e morros a emoldurá-la. Em certa época do ano, a paisagem ficava salpicada pelo magnífico jorro das floradas dos paus-d’arcos, de cores variadas: amarelas, roxas, brancas...

Depois, por meio das obras do grande historiador Pe. Cláudio Melo, de quem tive a honra de ser amigo e de ter publicado artigos historiográficos na revista Cadernos de Teresina, fui conhecendo um pouco de sua história antiga, desde o episódio dos Tacarijus e dos padres Francisco Pereira Pinto e Luís Filgueira, no qual houve o martírio do primeiro.

Cláudio Melo fora vigário de São Miguel e contribuiu para que a memória dessa boa terra fosse salva das brumas do esquecimento, desde os tempos de Bernardo de Carvalho e de sua quase mítica fazenda Cabeça do Tapuio, que depois se fragmentou em várias outras fazendas e glebas.

A partir de 2008, quando ingressei na Academia Piauiense de Letras, propugnei para que os principais livros do grande historiador, sobretudo sobre o colonialismo piauiense, fossem reunidos em um único volume. Meu esforço foi acolhido pelo presidente Nelson Nery Costa, quando ele editou mais de 150 obras como parte das comemorações alusivas aos 100 anos de nossa Academia, fundada em 1917.

Assim, em 2019, a APL, por meio da Coleção Centenário, iniciada por Reginaldo Miranda e à qual Nelson Nery deu extraordinário impulso, editou o livro Obra Reunida, que enfeixa mais de uma dezena de livros do Pe. Cláudio Melo, com mais de 850 páginas. Como “punição” pelas várias cobranças que lhe fiz, Nelson disse que o publicaria, desde que eu lhe fizesse a revisão e o prefácio. Embora detestando o serviço de revisão, fiz esse “sacrifício”. Serviu-me para aprender muitas informações sobre a história do Piauí. Essa obra contém muito sobre a história de Marvão e de São Miguel do Tapuio.

Por essa época, travei amizade virtual e virtuosa com o professor de História, compositor, escritor e radialista Reginaldo Soares, deficiente visual de ampla e profunda visão, uma das mais ativas lideranças das pessoas com deficiência visual de nossa São Miguel. Enviei um exemplar da Obra Reunida de Cláudio Melo aos seus cuidados, para que se tornasse útil aos pesquisadores são-miguelenses. Em uma live, disponível no YouTube, tive a oportunidade de falar sobre a vida e a obra de Cláudio Melo, velho e saudoso sacerdote da Paróquia de São Miguel Arcanjo.

Recentemente, em conversa telefônica com Reginaldo Soares, ele me disse que uma velha máquina a vapor se encontrava ao relento, em terreno baldio. Respondi-lhe que ele poderia procurar os descendentes dos proprietários dessa máquina, para que a restaurassem e a colocassem no principal logradouro da velha urbe.

Ele levou essa sugestão aos herdeiros de seu primeiro proprietário, e hoje essa bela máquina a vapor orna a principal praça da cidade. Seu proprietário era o ex-prefeito Manoel Evaristo de Paiva, que, por meio de seu busto, parece olhar para ela — outrora laboriosa e polivalente —, a auxiliar nos serviços de fabricação da cachaça Tiririca e no beneficiamento da palha de carnaúba. O atual prefeito de São Miguel, Pompílio Evaristo Filho, é bisneto de Manoel Evaristo.

Vários primos e tios de meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, tinham o sobrenome Furtado ou Furtado de Carvalho. Meu bisavô paterno chamava-se Miguel Furtado do Rego. Eu supunha que esse sobrenome Furtado pudesse provir de Miguel Alves, União ou Brejo dos Anapurus. Porém, ao examinar a árvore genealógica de Elpídio Lucas Furtado de Carvalho, irmão de minha avó paterna, Joana Lina, descobri nossa ligação ancestral com São Miguel, conforme consignei em meu trabalho Breve Notícia Familiar, que recentemente reformulei:

“Meu bisavô paterno, Miguel Furtado do Rego, era filho de Antônio José do Rego e Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante; Antônio José era filho de Antônio José do Rego Castelo Branco e Ana Maria de Jesus; Antônio José era filho de Francisco José do Rego Castelo Branco e Auta Inês de Castro. Minha trisavó Francisca Furtado de Albuquerque Cavalcante era filha de Inácio Furtado de Albuquerque Cavalcante e Maria Vicência de Albuquerque Cavalcante, que era filha de Luís Furtado de Albuquerque Cavalcante e Rosaura Muniz Barreto, filha de Aleixo Muniz Barreto. Luís e Rosaura foram figuras ilustres no território que veio a constituir o município de São Miguel do Tapuio, e que pertencera à vila de Marvão (Castelo do Piauí).”

Sobre a grande matriarca Rosaura Muniz Barreto, pela qual nutria grande admiração o notável historiador Pe. Cláudio Melo, transcrevo este trecho da Wikipédia:

“Rosaura Muniz Barreto nasceu na Serra Vermelha (hoje, Castelo do Piauí), provavelmente no ano de 1823, e faleceu em 1908. Filha do tenente Aleixo Muniz Barreto. Casou-se em primeiras núpcias com Luís Furtado de Albuquerque Cavalcante. Em 1905, rica proprietária de terras no município, por dote e herança, atendendo ao pedido das lideranças locais, resolveu doar para São Miguel Arcanjo uma gleba medindo 880 metros de comprimento, de nascente a poente, e 480 metros de largura, de sul a norte, formando um quadro no lugar denominado Deliciosa, para que fosse erguida uma capela para São Miguel Arcanjo. Doou também a imagem do santo, que mandou buscar na França. Pediu, porém, que o povoado se chamasse São Miguel do Tapuio, em homenagem ao santo, a seu filho Miguel e aos guerreiros indígenas tapuios. Seu pedido foi atendido. A imagem original do santo ainda se encontra no altar principal da igreja matriz de São Miguel.”

Finalizando, devo dizer que, com a colocação da linda máquina a vapor na praça, mudou-se a posição do busto de seu antigo proprietário, que agora parece olhar para ela, como nos áureos tempos em que, em seu árduo labor, ela soltava suas baforadas de fumaça e vapor.

Apenas, com tristeza o digo: o poço jorrante já não jorra como dantes.  

domingo, 19 de abril de 2026

AMOR

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AMOR


Elmar Carvalho

 

Áspero e macio

este amor feito

só de cio.

Amor que de tão puro

não tinha pudor

que de tão forte

sem motivo se partiu.

Amor que de tanta vida

era também morte

que de tanto sangrar

era faca que se fez ferida.

Amor que renascido

se consumia em sua via

de agonia.

            Te. 04.12.89 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A PREGUIÇA E O POSTE ELÉTRICO

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A PREGUIÇA E O POSTE ELÉTRICO


Elmar Carvalho

 

Da janela do apartamento em que moro, no condomínio Pingo d' Água, em Regeneração, acabo de ver a chuva caindo sobre as grandes árvores do quintal em frente. Agora, enquanto dedilho este teclado de computador, escuto a música da água a cair sobre o telhado e sobre as poças que se formaram. Sempre gostei de contemplar a natureza.

 

Nas várias viagens que fiz, em minha juventude, no percurso Teresina – Parnaíba – Teresina, ficava a observar a paisagem da janela do ônibus da antiga empresa Marimbá. Devo dizer que essas contemplações me inspiraram vários textos literários, sobretudo poemas e crônicas. Em minhas funções de fiscal e magistrado,  conheci várias paragens da hinterlândia piauiense. Quando estou dirigindo meu carro, procuro não atropelar os animais silvestres, seja freando ou desviando o veículo.

 

Já ouvi falar de pessoas de bom coração, que chegam a estacionar o automóvel para retirar da pista de rolamento alguma preguiça, que anda sempre no compasso de sua lentidão metabólica, talvez a nos ensinar a sermos mais pacientes e menos açodados. O simpático bicho parece transmitir bonomia, em sua morosidade de quem não deseja competir com ninguém, muito menos contra alguém; até o piscar de seus olhos puxados parece visto em câmera lenta. De dentro de seus olhos a bondade parece nos espreitar.

 

Tenho visto nas revistas e nos noticiários da televisão, que, com o desmatamento desenfreado que o homem vem promovendo, grandes e pequenos animais estão a entrar nas cidades, ou pelo menos rondam as regiões periféricas das metrópoles, na luta pela sobrevivência, ante as florestas devastadas. Comoveu-me bastante a história de uma preguiça. Esse lentíssimo animal, por causa dessas mazelas contra o seu habitat, chegou a uma cidade. Não encontrando as ervas, os capins, os arbustos e as grandes árvores, que lhe servem de alimento, proteção e moradia, foi escalar um poste da rede elétrica.

 

Sem dúvida, foi a coisa mais semelhante a uma árvore que encontrou, perto do local onde chegara. Estranha e desnuda árvore, feita somente de um rígido caule, sem casca e sem seiva, sem galhos, sem folhas, sem flores e sem frutos. A paciente e pachorrenta preguiça, em sua inocência animal, talvez procurasse pousada e proteção, ou mesmo algum fruto perdido nas alturas dos fios elétricos, que podem ter sido confundidos com esquisitos e esqueléticos ramos e galhos.

 

A preguiça, em sua inglória escalada, colheu apenas uma forte descarga elétrica, que lhe mutilou a pata e a garra, tão essenciais para a sua sobrevivência na floresta, para subir nas árvores, em busca de proteção, repouso ou alimentos. O pobre animal deve ter ficado perplexo, com árvore tão traiçoeira, mais intratável que o cacto do poema de Manuel Bandeira. O caso dessa preguiça deve ficar como uma emblemática e contundente denúncia do que o homem vem perpetrando contra a fauna e a flora de nosso espoliado planeta.

 

Extintos os animais e extirpadas as florestas, de que o homem irá sobreviver? 

15 de fevereiro de 2011

domingo, 12 de abril de 2026

GALO

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GALO


Elmar Carvalho

 

O galo

navalha as trevas

                e o

silêncio da noite com seu canto

e desperta o sol e o corneteiro

para o incêndio e

o toque da alvorada.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

EPIGRAMAS DE UM NOVEL SETENTÃO

 

Elmar, aos 70 anos, visto por Gervásio Castro

Recebi, na segunda-feira, dia 06/04/2026, via WhatsApp, a bela e criativa ilustração acima, de autoria de Gervásio Castro, um dos maiores chargistas brasileiros. O mimo, além de seu inestimável valor intrínseco, serviu-me, ainda, de estímulo para escrever o poema abaixo. Não farei comemoração festiva; não haverá regabofe. Para marcar meus “setentanos”, reeditarei Confissões de um juiz, com alguns acréscimos, e publicarei Paragens & Miragens – encantos e quebrantos do Piauí.

E hoje, vale dizer agora, acabo de receber do grande Gervásio Castro esta outra magnífica charge:

Os astronautas voltam de uma viagem em torno da Lua, e eu completo mais uma volta em torno do Sol, através da magia da arte de Gervásio Castro

EPIGRAMAS DE UM NOVEL SETENTÃO

 

Elmar Carvalho

 

Meus amigos e inimigos,

eu lhes anuncio que entra em cena

este novo alquebrado setentão,

talvez bobo da corte de um bufão,

ou este velho Quixote,

de escudo no braço e espada na mão.

 

Entro agora na casa dos setenta,

sem saber ao certo se entro

numa casa ou apenas na tapera

de quem já não alimenta ilusões,

de quem já nada espera.

 

Barco embriagado,

barco egresso de Sagres,

a tropeçar nas ondas,

a dançar furioso a Dança dos Sabres.


Sem armas e sem elmo,

em minha nau já não fulguram

os esplêndidos fogos de Santelmo.

 

Vislumbrei, nos umbrais do inferno,

a dantesca tabuleta:

“Aqui cessa toda esperança.”

Já não tenho primavera, só inverno.

Mesmo assim, em minha alma dançam

as alegrias e alvíssaras

de um parque de criança

que nos trapézios se balança.

 

Aos setenta, reencontrei a criança

que fui e que vive em minha lembrança,

a inverter a marcha da ampulheta,

a sonhar com o céu e outra tabuleta:

“Aqui principia toda esperança.”

 

Teresina, 9 de abril de 2026

 

Quando foi ontem (08/04/2026), fui presenteado com este excelente acróstico, da lavra do poeta Walter Lima:

 

0904.01

 

Já não o vemos como homem-original

Ostenta uma pose mais imponente

Sendo bem visto como aquele Cacto

Evoca também um símbolo de sua terra:

 

Em relação às Letras Justiça Ordem

Lembra outros aspectos da enorme estátua-viva:

Maravilhoso tratável belo Cacto do Bandeira

Atravessa anos, eras de histórias contadas

Recebe do Divino dádivas: soma de anos.

 

Mais que nome marcado representativo

Excepcional exemplo de figura humana

Logra o merecido troféu-vaticínio –

Os filhos gerou, livros escreveu, árvores CARVALHO plantou 

 

Evoé POEta!

W.Lima.

 

RP,  SP, 09.04.2026.  

 

Anteriormente, já havia sido homenageado pela revista Piauí Poético, edição nº 40, editada pelo poeta Claucio Ciarlini, cuja capa segue abaixo:


Por volta das 9:30 horas, recebi este poema do professor e escritor altoense Marcondes Araújo, que muito me honra com a sua amizade e apreço:

Parabéns ao setentão


Em novel fase alvissareira
Ante a aurora do recomeço
Imune a instigação de asneiras
Mais apto a eventual tropeço
Rumo aberto, nova esteira
Cônscio da luta em novo terço.


Sua vida, uma bela história
Anamneses abertas e secretas
Entre tropeços e glórias
Da trajetória de um poeta
Que guarda claro na memória
Idos tempos de guarda-metas.


Ante ao que pregavas outrora
Desafios inéditos à espera
Mais tranquilo, sem demora
Tranquilidade pra quimera
Sensação de que agora
Melhores dias te espera.  

Finalmente, como coroamento dos textos acima, acabo de receber uma carta eletrônica do irmão maçônico Sales Palha Dias, na qual ele se revela um exímio missivista, de linguagem fluente e escorreita, e que segue abaixo:

Amigo Elmar,

Celebrar o seu aniversário é reconhecer uma vida que não apenas passa - mas permanece, pela marca que imprime no tempo e nas pessoas.

Poeta de sensibilidade rara, juiz de conduta íntegra e escritor de pensamento lúcido, você reúne, com naturalidade, qualidades que poucos conseguem harmonizar: _rigor e humanidade, cultura e simplicidade, firmeza e delicadeza._

Sua trajetória honra a palavra que escreve e a Justiça que sempre exerceu  - e, mais que isso, dignifica a amizade daqueles que têm o privilégio de conviver com você.

Receba, neste dia, meu abraço sincero e respeitoso, com votos de saúde, serenidade e contínua inspiração - para que siga sendo, como é, presença que eleva, exemplo que orienta e voz que permanece.

Feliz aniversário!  

Palha Dias.  


Para pingar o ponto final de diamante ou para fechar esta postagem com chave de ouro, segue abaixo um belo poema do amigo Carlos Dias, altoense da melhor cepa, ainda por conta de meu natalício: 

EL - MAR


Ao poeta Elmar Carvalho 

Quero hoje abraçar 

E lhe dar meus cumprimentos 

Pela data salutar 

Que o amigo nesse tempo

Está alegre a festejar.


Sessent’anos de poesia

Brotada do coração,

Rimando com maestria

E muita elocução.

Só quem sabe “faz ao vivo”,

Já dizia o Faustão!


Nas suas águas vertentes,

Trilhadas de ano a ano,

Registrando com a pena

E singrando sem engano,

Lembra  o nobre magistrado

Plena imagem do oceano.


Continue, vate inspirado,

Poetando com fervor,

Premiando nosso mundo

E escrevendo com ardor,

Pois você, da pátria-letra,

É um Desembargador. 📝


Carlos Dias, seu criado.

Altos-PI, domingo, 12.04.2026; 07:53 h.

Eis que, senão quando eu já tinha dado como efetivamente encerrada esta postagem, tão cheia de retalhos e recortes, recebo um belo texto de meu amigo e colega Antônio Oliveira, digno juiz de Direito, ao qual não resisti em transcrever abaixo:

“Ilustre amigo,

ainda que com um pequeno delay — fruto não apenas de uma semana intensa de afazeres, mas, quiçá, também da falta de traquejo em lidar com o tempo —, venho parabenizá-lo por mais uma volta em torno do sol.

Sei que, além de fazer o que tanto ama — e o faz com maestria —, o amigo recebeu poemas, cartas, charges e outras mais do que merecidas homenagens.

Como já dizia Cazuza, “o tempo não para”; ele “escorre pelas mãos”, como complementou Lulu Santos em Tempos Modernos. Talvez seja em vão tentar segurar ou congelar o presente, que, num instante — inquieto diante do futuro —, torna-se passado. Nascemos e, em pouco tempo, já estamos ansiosos pelo amanhã: pela juventude, pela maturidade — que, quando enfim chega, após tanta pressa, convida-nos a desacelerar, como nos lembra Almir Sater ao imortalizar: ‘ando devagar porque já tive pressa’.

Mas pressa para quê, se podemos viver o hoje — sabiamente chamado de presente — e fruir as coisas boas da vida, como a naturalidade e a destreza que o amigo Elmar tão bem revela em seus textos?

Enfim, após 70 translações, desejo que as bênçãos de Deus permitam que o experiente e culto vate continue a nos brindar com sua leve e instigante arte literária — não apenas sete, mas setenta vezes sete.”   

domingo, 5 de abril de 2026

METAPOEMA

Imagem criada pela IA GPT

 

METAPOEMA


Elmar Carvalho

 

As meadas e as palavras

são labirintos e teias.

Nelas os poetas se elevam;

nelas as moscas se enleiam

e se debatem em vão.

Os poetas são.

As moscas, não.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

CHUVA E APAGÃO

 

Imagem elaborada pela IA GPT, a meu pedido.

CHUVA E APAGÃO


Elmar Carvalho

 

Após o recesso natalino e minhas férias, retornei na segunda-feira, pela manhã, a Regeneração, para reassumir minhas funções. Quando abri a geladeira, logo notei que não havia energia elétrica. Tomei conhecimento de que desde domingo o fornecimento desse serviço fora interrompido. Ou seja, estava havendo um apagão em grande área do médio Parnaíba.

 

Todos lembram que importante autoridade federal garantira que o Brasil não corria risco de sofrer novo apagão, como ocorrera anos atrás, quando grande e importante parte do território nacional ficara sem o serviço de fornecimento de energia elétrica. Acontece que eu vi na internet que, desde o famoso apagão que assombrou os brasileiros, o nosso país já sofreu dezenas de vários apagões de menor escala.

 

Não preciso lembrar que no Piauí, sobretudo nas pequenas cidades, o serviço de energia elétrica é muito ruim, tanto em termos de voltagem, como de oscilações e interrupções, que por vezes se prolongam por várias horas. No caso do problema em Regeneração, o fornecimento retornou por poucas horas na segunda-feira, voltando a faltar de novo, para somente ser restabelecido depois do meio-dia de terça-feira.

 

Deixo que o leitor se encarregue de calcular e imaginar os prejuízos que a população sofreu, no tocante a conservação de alimentos, impossibilidade de uso de aparelhos eletrodomésticos, interrupção de serviços públicos, inclusive de fornecimento de água e telefonia, fora os danos causados ao comércio, sobretudo os que vendem produtos perecíveis ou os que precisam de energia para prestação de serviços.

 

Na tarde de segunda-feira, caiu forte chuva, que se prolongou noite adentro. Houve um pequeno temporal, com o vento uivando nas folhagens, perto de minha casa. Fui ao terraço para contemplar o espetáculo da natureza. As árvores se retorciam, bracejavam em louco requebrado e bramiam, sob os açoites da ventania. Na terça-feira também choveu muito.

 

Lembrei-me de Ribeiro Gonçalves, onde trabalhei durante quase quatro anos. Certa feita, depois de uma viagem de mais de doze horas de ônibus, cheguei à agência no momento em que caía uma chuva de média intensidade. Como não havia serviço de táxi e não havia nenhum carro nas proximidades, tratei logo de enfrentá-la de peito aberto. Segui para o fórum, onde residia em pequeno apartamento destinado ao juiz. Foi uma semana de chuva, em que fiquei o tempo todo na repartição, apenas fazendo o percurso do gabinete para o apartamento, e vice-versa.

 

Essa chuvarada de Ribeiro Gonçalves terminou me sendo benéfica, porque me inspirou um poema de difícil e longa gestação. Fazia tempos que regurgitavam em meu cérebro algumas ideias, algumas metáforas, comparações e onomatopeias, mas os versos teimavam em não querer passar para o papel, ou para a memória e virtualidade do computador. Contudo, vendo essa demorada chuva ribeirense, ouvindo o seu batuque no telhado, a semente do poema terminou por rebentar, e os versos floriram do jeito como eu os desejava, refertos de córregos, pululantes de pulutricantes  cachoeiras, cantantes como rãs, espumantes como corredeiras nos dorsos das pedras.

 

Encerrando este registro, digo que a chuva de Regeneração me fez lembar o jornal A Luta, de Campo Maior, em que publiquei texto de minha autoria pela primeira vez;  esse semanário estampou que a energia da CEPISA era como bode, se arreliava com água. E note-se que esse reparo foi escrito ainda na primeira metade da década de 1970. Invocando o rifão popular, pergunto: será se tudo continua como dantes no quartel de Abrantes? Ou, pior, será se tudo continua – para usar outro anexim – como a cantiga da perua: pior, pior, pior...?

9 de fevereiro de 2011