Imagem elaborada pela AI GPT, a meu pedido.
CHUVA E APAGÃO
Elmar Carvalho
Após o recesso natalino e minhas
férias, retornei na segunda-feira, pela manhã, a Regeneração, para reassumir
minhas funções. Quando abri a geladeira, logo notei que não havia energia
elétrica. Tomei conhecimento de que desde domingo o fornecimento desse serviço
fora interrompido. Ou seja, estava havendo um apagão em grande área do médio
Parnaíba.
Todos lembram que importante
autoridade federal garantira que o Brasil não corria risco de sofrer novo
apagão, como ocorrera anos atrás, quando grande e importante parte do
território nacional ficara sem o serviço de fornecimento de energia elétrica.
Acontece que eu vi na internet que, desde o famoso apagão que assombrou os
brasileiros, o nosso país já sofreu dezenas de vários apagões de menor escala.
Não preciso lembrar que no Piauí,
sobretudo nas pequenas cidades, o serviço de energia elétrica é muito ruim,
tanto em termos de voltagem, como de oscilações e interrupções, que por vezes
se prolongam por várias horas. No caso do problema em Regeneração, o
fornecimento retornou por poucas horas na segunda-feira, voltando a faltar de
novo, para somente ser restabelecido depois do meio-dia de terça-feira.
Deixo que o leitor se encarregue
de calcular e imaginar os prejuízos que a população sofreu, no tocante a
conservação de alimentos, impossibilidade de uso de aparelhos eletrodomésticos,
interrupção de serviços públicos, inclusive de fornecimento de água e
telefonia, fora os danos causados ao comércio, sobretudo os que vendem produtos
perecíveis ou os que precisam de energia para prestação de serviços.
Na tarde de segunda-feira, caiu
forte chuva, que se prolongou noite adentro. Houve um pequeno temporal, com o
vento uivando nas folhagens, perto de minha casa. Fui ao terraço para
contemplar o espetáculo da natureza. As árvores se retorciam, bracejavam em
louco requebrado e bramiam, sob os açoites da ventania. Na terça-feira também
choveu muito.
Lembrei-me de Ribeiro Gonçalves,
onde trabalhei durante quase quatro anos. Certa feita, depois de uma viagem de
mais de doze horas de ônibus, cheguei à agência no momento em que caía uma
chuva de média intensidade. Como não havia serviço de táxi e não havia nenhum
carro nas proximidades, tratei logo de enfrentá-la de peito aberto. Segui para
o fórum, onde residia em pequeno apartamento destinado ao juiz. Foi uma semana
de chuva, em que fiquei o tempo todo na repartição, apenas fazendo o percurso
do gabinete para o apartamento, e vice-versa.
Essa chuvarada de Ribeiro
Gonçalves terminou me sendo benéfica, porque me inspirou um poema de difícil e
longa gestação. Fazia tempos que regurgitavam em meu cérebro algumas ideias,
algumas metáforas, comparações e onomatopeias, mas os versos teimavam em não
querer passar para o papel, ou para a memória e virtualidade do computador.
Contudo, vendo essa demorada chuva ribeirense, ouvindo o seu batuque no
telhado, a semente do poema terminou por rebentar, e os versos floriram do
jeito como eu os desejava, refertos de córregos, pululantes de
pulutricantes cachoeiras, cantantes como
rãs, espumantes como corredeiras nos dorsos das pedras.
Encerrando este registro, digo
que a chuva de Regeneração me fez lembar o jornal A Luta, de Campo Maior, em
que publiquei texto de minha autoria pela primeira vez; esse semanário estampou que a energia da
CEPISA era como bode, se arreliava com água. E note-se que esse reparo foi
escrito ainda na primeira metade da década de 1970. Invocando o rifão popular,
pergunto: será se tudo continua como dantes no quartel de Abrantes? Ou, pior,
será se tudo continua – para usar outro anexim – como a cantiga da perua: pior,
pior, pior...?
9 de fevereiro de 2010

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