terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

NO REINO DO SURREAL



NO REINO DO SURREAL

Elmar Carvalho

I – FUTEBOL

último rei
               dec/apitado
fiz o gol
                da vitória
com minha própria
                       cabeça
nas traves da guilhotina
(e o goleiro era o carr’asco)

II – BASQUETEBOL

tomaram-me
            tudo inclusive
            o óbolo inútil
            o bolo indigesto
            a bola murcha
            a bala de festim
            a balada calada
                          alada
      mas sem vôo
mas ainda me sobrou
      cabeça para arrancá-la
      e enfiá-la
      na cesta

III – VOLEIBOL

     dei um saque
jornada nas estrelas
     em minha
                  cabeça
de antemão coroada
          com o louro/ouro
              da vitória
minha cabeça descreveu
                uma parábola
                              bola
                           sangrando
                              bola
                           singrando
o espaço como um
                            cometa
       de cauda sangrenta
(depois a fiz troféu da vitória)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Corso



Fonseca Neto


Dizem alguns vocabulários, seculares, latinos e portugueses (o do padre R. Bluteau, por exemplo)que corso é como “assi chamaõ os Italianos o lugar, em que pessoas de calidade andaõ passeando nos seus coches” (1712). Diz outro que “é onde se corre por divertimento em coches, ou se dá espectaculo de páreo ou de carreira de cavallos” (M. Silva, 1789).

Por essas indicações se nota que as chamadas festas de corso são conhecidas na Europa setecentista e daí se projetarem para este hemisfério tropical foi apenas um passo. Um passo que dão junto com as festas carnavalescas de milenares tradições por lá e que a força da cultura colonizadora igualmente transpôs e aqui germinou em grande viço.

O Brasil, e Teresina, em particular, conhecem os corsos carnavalescos há mais de século. O Rio de Janeiro cortesão, além de outras velhas cidades coloniais – Salvador, Olinda e São Luís – elaboram a síntese dos modos de brincar o Carnaval entre nós, entre eles o corso, assim brincado por setores da camada social dos privilegiados possuidores de coches, sucedidos depois nessas desfilanças pelos automóveis. Isto mesmo: o aparecimento do automóvel alavanca o corso carnavalesco brasileiro, conferindo-lhe uma possibilidade ainda maior de expandir-se. A elite, fantasiada e fantasiando, desfilando em carros suas alegorias diante do povaréu, pedestre e descalço.

Assim em Teresina. Fantasiar carro em corso vem de velhos carnavais. Nos anos 1960 eram os Jeep’s descapotados e os picapes, além de caminhões, o “das raparigas” um deles de maior sucesso, compreensivelmente pela mítica que se fazia real para todos de vê-las, ao vivo e nas cores reais, à luz do dia. A organização do carnaval local ancorado em escolas de samba (de novos e mirando no exemplo da capital federal e sendo outra forma de a massa popular continuar sendo mera espectadora) insignificou o desfile de corso, uma vez que o carnaval de rua, movido a blocos e cordões, e outras folganças sincretizadas, igualmente decairia, sem nunca desaparecer, de todo. A elite e muito mais gente foi brincar em bailes fechados.

Vale anotar, porque muito curioso, que a retomada do desfile de corso em Teresina se dá, justamente, pela recriação do “Carro das Raparigas”, uma figuração bem-humorada e colocada nas ruas por ação da querida professora Cecília Mendes, quando presidiu a Fundação Monsenhor Chaves, o núcleo articulador da política pública municipal na área da produção cultural.

Hoje uma festa que mobiliza dezenas de milhares de pessoas – e já entrou desde 2012 no G. Book como o maior corso do mundo – os seus sentidos de origem ganham enorme realce: este ano, somente os inscritos, foram 898, a maioria caminhões de carroceria, cada um deles carregando, em média, cerca de vinte foliões, alegorizados, carros e brincantes, com uma variedade quase indescritível de motivos e temas.

O corso 2013 levou à rua o mais expressivo ajuntamento/movimento de pessoas em Teresina, depois daquela concentração de cerca de 250 mil pessoas reunidas para ver o papa João Paulo II, quando por aqui andou no ano de 1980.Impressionante a força da população em plena rua, fantasiada, brincando o Carnaval a seu modo, de mamandos a caducandos, bebericando e – enquanto desfila o corso, propriamente dito – conservando um sentido de confraternização exemplar.

É de se distinguir nesse grande evento o papel mobilizador de redes de tevês locais, que foram para o olho do furacão corsesco com seus estúdios e maravilhas tecnológicas, para interagir no calor da brincadeira e aspergir sobre (e contagiar) os de casa e do mundo com imagens sensacionais de pessoas e personagens protagonizando em nosso mundo as saturnálias, ou que sejam as bacantes e dionisíacas festanças, que eletrizam a química do corpo e deixa a alma agradecida.


Taí o Carnaval, de volta, cheio de muita graça, sem burocracia, e, sobretudo, sem a Prefeitura ter de pagar para fazer o carro alegórico de ninguém e financiar a brincadeira de poucos. Todavia, lazarando, isto é, tentando fazer direito o que tem de fazer: a organização serena da livre expressão popularesca em seu palco,a rua, quando explode em fantasia e prazer.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Seleta Piauiense - Mário Faustino



SINTO QUE O MÊS PRESENTE ME ASSASSINA

Mário Faustino (1930 - 1962)

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos
O tempo na verdade tem domínio,
Amém, amém vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Carnaval do espírito, um raro prazer



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Uma galera está pronta para um carnaval meio maluco do que se assiste nas avenidas, clubes, bares e praias. Comunidades agendam o carnaval do espírito, num aprazível encontro com a natureza exuberante, em acampamentos ou quadras esportivas. Barato, prazeroso, saudável, sem violência, sem ressaca, sem prejuízo à saúde, sem inconsequências nem arrependimentos. Substituirá o rei momo pelo rei dos reis; as bebidas e alucinógenos pelo delírio celestial; músicas de duvidoso gosto por cânticos e louvores, apresentações artísticas e esportivas. O rebolado erótico e irreverente pelas palmas, abraços e confraternização. O porre pelo êxtase e presença do espírito de Deus.

Experimentei um carnaval chato e meloso, ainda na minha adolescência de seminário. Padres obrigavam-nos a rigoroso silêncio, para rezar terço, repetir orações para conversão do mundo, lá fora, aos porres e bacanais. Eu não via graça cultuar a Deus sem conhecê-lo, bitolado a pieguices e palestras chatas. Fora do seminário, professor do Diocesano, padres jesuítas promoveram um Encontro de Jovens com Cristo no sítio da congregação, na Socopo, durante o carnaval, com estudantes e professores. Levei minha futura esposa.

Encantadora experiência com a presença de Deus, nunca vivenciada no seminário. Ambiente festivo e descontraído, testemunhos de gente comum, como eu. Porém foi a oração espontânea de um jovem, na voz gravada de padre Zezinho, frente a frente com Jesus, que me encantou. Jamais eu experimentara a oração pessoal. Só recitava decorebas e repetecos. Pela vez primeira, senti o batismo no Espírito, quando o mundo interior se transforma, ao ponto de substituir certas futilidades profanas que sociedade estabelece como paradigma de felicidade.

Carnaval com Cristo, experiência fantástica, que nem um sambódromo pode proporcionar. Na despedida da Socopo, a vontade de repetir mais carnavais, agachado a uma galera que não tem vergonha de exibir seus ideais cristãos.

Encontros de jovens de qualquer igreja ou espiritualidade cristã têm virado a cabeça de muitos jovens, transformando-os em cidadãos do bem, empreendedores responsáveis, líderes carismáticos e pais de família decente.

Não há globeleza que preencha o espírito de encantos como a experiência de uma folia com Deus.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

BERNARDO DE CARVALHO, O FUNDADOR DE BITOROCARA


O professor João Borges Caminha


BERNARDO DE CARVALHO, O FUNDADOR DE BITOROCARA (*)

João Borges Caminha (**)

Li o livro histórico-romântico-poético sobre o mestre-de-campo BERNARDO DE CARVALHO E AGUIAR, povoador e pacificador de civilizações e acerca de aspectos de nossa inesquecível Campo Maior, de autoria do já renomado escritor, José Elmar de Mélo Carvalho.

É de estilo atraente, fluente, escorreito, preciso e objetivo. Por isso, não foram numerosas as páginas dedicadas ao inexcedível biografado, oportunamente, nomeado para o lugar-tenente de Antônio da Cunha Souto Maior, por morte deste em 1708. Mas foi o bastante para coligir fontes bibliográficas suficientes à demonstração cabal dos fatos e feitos gloriosos atribuídos ao citado marechal-de-campo nestas longínquas e ermas plagas piauienses com relação à Coroa Portuguesa, na época de seu povoamento e independência.

Completo ao concluir que o famoso biografado foi um inexcedível libertador e protagonista das liberdades indígenas ou miscigenadas de todas as raças das terras de “Mafrense” e dos “Timbiras”. Por isso não lhe faria nenhum favor, a concessão em lápide, da comenda de libertador dos povos indígenas dessas paragens.

No trabalho, como em outros, de sua lavra, não olvidou em enaltecer, com sua verve, as belezas naturais e artificiais de nossa antiga BITOROCARA. Seja sobre o “Açude Grande”, porém “pequeno na paisagem...”. A Serra Grande de Campo Maior, da cor da terra, mas o autor pensava que de “longe era azul”, que, como o açude, também, não é tão grande assim. “A Catedral de Santo Antônio do Surubim”, como “uma escada em demanda do céu”. “O Rio Surubim, o Monumento aos Heróis da Batalha do Jenipapo, símbolo da coragem dos filhos da Terra dos Carnaubais. Elegia a Campo Maior” e outros escritos induzem o leitor a uma útil e agradável leitura.

Afinal, alegrei-me em saber que, profissionalmente, o insigne campomaiorense não é somente escritor, ex-servidor, magistrado prudente e competente, mas também, um grande jogador de futebol, na categoria de goleiro, conforme narrou o Professor José Francisco Marques em seu artigo cognominado “QUEM TE ENSINOU A VOAR?”, de ps. 47/48. Cujas proezas em defesa do time de casa deram-lhe fama e respeitabilidade.

Em I.B.G.E, ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS, XV VOLUME, edição de 31.01.1959, contendo 660 páginas, dedicadas a municípios maranhenses e piauienses, planejada e organizada por JURANDYR PIRES FERREIRA, presidente à época do I.B.G.E, sendo supervisor da edição DYRNO PIRES FERREIRA, superintendente do Serviço Gráfico, em minha rápida pesquisa, encontrei o registro de pouquíssimos feitos do mestre-de-campo, Bernardo de Carvalho e Aguiar.

Em Barras (PI), por exemplo, além de muitos outros dados históricos e geográficos, a Enciclopédia registra que seu principal fundador é o Coronel Miguel de Carvalho de Aguiar, filho de Bernardo, “natural do Estado da Bahia, quando deu início à construção da primeira capela, dedicada a N. S. da Conceição”, sendo o seu maior benfeitor o cidadão “José Carvalho de Almeida”.

No espaço de doze páginas consignado à cidade de Campo Maior, se não me equivoquei, infelizmente, nenhuma delas foi destinada ao fundador de Bitorocara. Contudo informa de sua ereção em fazendas do fidalgo português, D. Francisco da Cunha Castelo Branco (página 447).

São Miguel do Tapuio, com uma população de 18.867 habitantes e área de 5.220,513 km2, é hoje o mais extenso município dentre todos os que integram as Mesorregiões Norte, Centro-Norte, Sudeste e Sudoeste do Piauí. Com superfícies superiores à sua somente os municípios de Uruçuí, Baixa Grande do Ribeiro, Bom Jesus e Santa Filomena, todos situados no sul do Estado. Consta que primitivamente era a mesma fazenda DELICIOSA pertencente a Dona Rosaura Muniz Barreto, proprietária da sesmaria denominada Cabeço do Tapuia, da qual fazia parte, também, aquela fazenda, que por insistência de um genro seu, doou-a ao Arcanjo São Miguel, para constituição não só do patrimônio do seu orago, como para o de um núcleo comercial, cujo topônimo por força dos nomes do Santo devoto e da antiga tribo indígena foi mudado para São Miguel do Tapuio (p. 608).

Quanto ao município de São Bernardo (MA), a Enciclopédia deixa inteiramente in albis a contribuição prestada pelo Biografado à fundação daquele aglomerado humano. A contrario sensu, consigna que sua fundação se deveu aos jesuítas, auxiliados pelos índios Canelas da tribo Tupinambá, sendo São Bernardo o seu padroeiro e o padre Manoel de Almeida Brandão, seu primeiro vigário paroquial (p.328).

Finalmente, agradeço o notável escritor pela não expressa, mas subentendida menção do meu nome no rol dos intelectuais, Membros da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, ainda que, apenas, cidadão bitorocarense. No mais siga em frente, para trás, nenhum milímetro.

(*) O vertente trabalho, da lavra do eminente historiador João Borges Caminha, demonstra o quanto Bernardo de Carvalho (“uma das mais gloriosas figuras de nossa História e o verdadeiro criador da unidade piauiense”, no dizer do Pe. Cláudio Melo) foi importante na História do Piauí e o quanto tem sido um grande injustiçado da historiografia piauiense (com honrosas exceções), inclusive pelas omissões da obra I.B.G.E, ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS, XV VOLUME, edição de 31.01.1959. Com a obra biográfica do padre Cláudio Melo (publicada em 1988), os seus feitos e o seu estofo moral começaram a emergir do esquecimento. (Nota de Elmar Carvalho)

(**) João Borges Caminha é historiador, escritor, advogado e professor aposentado da UFPI. Foi chefe da Assessoria Jurídica do Banco do Brasil no Piauí por muitos anos. (Nota de EC)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

GONZAGÃO “BICO DE AÇO” E OUTRAS HISTÓRIAS




7 de fevereiro   Diário Incontínuo

GONZAGÃO “BICO DE AÇO” E OUTRAS HISTÓRIAS

Elmar Carvalho

Na sexta-feira fui ao Itacor, para me consultar com o Dr. José Itamar Abreu Costa, seu presidente e emérito cardiologista. Quando retornei, para lhe entregar o resultado de dois exames, que ele havia inicialmente solicitado, fiquei a contemplar dois grandes quadros afixados na antessala. Um, continha a fotografia de uma bela paisagem, creio que europeia, na qual se via um lago, uma montanha e a floresta em seu derredor. O outro era a pintura de um Cristo, talvez no horto, a rezar fervorosamente, de mãos postas.

Suponho retratasse a sua agonia, às vésperas de sua paixão e morte, pois suas feições estavam contraídas, a expressar angústia e sofrimento, como se antecipassem o que ele padeceria nos episódios que se estenderiam do julgamento por Pilatos à crucificação no alto do Gólgota ou Calvário. Não era um retrato padrão, porquanto era um Jesus de barba e cabelos negros, e certamente as suas feições não eram as de um ariano (branco, louro e de olhos azuis).

Quando eu estava imerso nesses pensamentos, aguardando a minha vez de ser atendido, o médico e intelectual Itamar Abreu Costa adentrou a sala de espera, vindo do consultório. A sorrir, disse que o grande quadro da paisagem, que no momento eu olhava, era a fotografia de um lugar de sua terra natal, Alto Longá. Sem dúvida, seu torrão terá outras paisagens bonitas, como as nascentes do Longá, a vertente Campeira; mas aquele não era um panorama longaense, como depois ele confessou.

No momento em que fui por ele atendido, ao lhe entregar o meu exame de eletrocardiograma, disse-lhe que, se aqueles gráficos fossem uma pintura geométrica ou mesmo abstrata, dependendo da perspectiva do analista, poderiam ser vistos como figurando os vastos campos de Campo Maior. Alguns quadros pareciam um descampado, com esbeltas carnaubeiras ao longo da linha do horizonte; outros eram semelhantes aos tabuleiros, em que se erguem as corcovas arredondadas dos cupins; alguns outros me fizeram lembrar uma tábua, em que se viam pequenos buracos, feitos por pebas e tatus, pois os registros das batidas de meu coração apontavam para baixo da linha do horizonte, que se mantinha quase reta, quase sem inclinações, fossem para cima, fossem para baixo.

Acrescentei-lhe que, ao meu olhar de leigo, aquela sequência de quadros, doze ao todo, pareciam indicar que eu estava bem, que não havia acidentes e nem irregularidades no funcionamento de minha bomba cardíaca. Tudo parecia equilibrado, com as “carnaubeiras” e as “corcovas de cupins” do mesmo tamanho, guardando quase perfeita simetria. Itamar, após me explicar como era feito o exame, disse-me que eu estava certo, que no momento do exame o meu velho coração estava funcionando muito bem. Eu sabia que ele estava bem espiritualmente, mas não sabia que estivesse tão bem em seu mecanismo fisiológico.

Contudo, como eu já “desfruto” de hipertensão, achou recomendável eu fizesse um exame em esteira ergométrica e um ecocardiograma. Anteontem, lhe fui levar os laudos dessas perscrutações. Parabenizou-me por ambos os resultados. Admirou-se do laudo ergométrico, que estava muito bom para pessoa de minha idade. Pelo entusiasmo como o cardiologista Itamar Costa falou, senti-me o próprio Indiana Jones tupiniquim, e quase me senti o queniano Poltergeist, o fenomenal maratonista de São Silvestre.


O doutor Itamar já me havia contado, em consulta anterior, que o grande Luiz Gonzaga, o genial Rei do Baião, havia se hospedado na fazenda Pequizeiro, localizada à margem da estrada real, que ligava Sobral a Teresina, passando por Crateús, quando viera do Ceará para a capital piauiense, a serviço do Exército Brasileiro. A tropa viera de trem de Fortaleza até Sobral, e fizera o restante da viagem em lombos de animais. Nessa ocasião, Gonzaga, ainda garoto, executou algumas músicas num fole pé de bode, de apenas oito baixos, já um tanto escacholado. Essa fazenda pertencia a Laurindo de Castro, pai do Dr. Franklin de Castro Lima, dono da empresa Água Mineral Regina.


O avô de Itamar, Agustinho Marques da Costa, era o vaqueiro da fazenda Pequizeiro, e também tocou algumas músicas na acanhada sanfona de sua propriedade. Luiz Gonzaga, além de exímio sanfoneiro, era o cabo corneteiro da tropa, e ganhara o apelido de Bico de Aço, pelo modo forte como fazia vibrar sua corneta. Em lembrança desse fato e em homenagem ao velho Lua, Itamar mandou fazer um banner, em que aparece a empunhar uma grande sanfona prateada, em companhia do Gonzagão. A montagem fotográfica, que ele me mostrou, ficou muito bonita, contudo, não posso deixar de dizer que o esforçado Itamar, na qualidade de sanfoneiro, é um grande cardiologista.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Pedra Negra da Terra dos Carnaubais



Orisvaldo Mineiro (*)

Pedra Negra (Teresina, Editora Nova Aliança, 2012) é a mais recente obra do jovem escritor campomaiorense (PI) Halan Silva; romance curto, de linguagem original e leitura agradável, é daqueles que levam o leitor a consumi-lo “de uma só tacada”.
A obra apresenta como característica literária uma mistura do realismo histórico do século 19 - principalmente pelo regionalismo e pela ficção urbana - com o fantástico/fabuloso - pela presença da cobra preta: personagem do folclore nordestino que, na calada da noite, suga o leite de animais e também de mulheres recém-paridas.
A sequência narrativa é não linear, marcada pelo flashback, técnica que consiste numa interrupção da ação do presente a fim de apresentar eventos do passado. Com isso, o autor cria uma situação narrativa com dois planos temporais: um no presente e outro no passado. Em Pedra Negra, o romance termina onde começou: o enterro do major, caracterizando o que se chama de romance fechado em círculo.
O enredo é ambientado na cidade de Campo Maior da primeira metade do século XX, com destaque para os cabarés da Rua Santo Antônio (Zona Planetária e Zona das Virtudes), “a pouco mais de uma quadra e meia da Igreja do Rosário e da Matriz de Santo Antônio”.
A trama se desenvolve em torno das escaramuças entre dois personagens bastante influentes na cidade: Padre Hermínio, pároco da Igreja de Santo Antônio, e major, homem rude, fazendeiro e produtor de cera de carnaúba.
Outros eventos dão volume à trama e enchem de nostalgia a almas dos leitores que se identificam diretamente com os fatos e lugares relatados: a concupiscência do religioso e sua descrença nos ritos litúrgicos e nos sacramentos da Igreja Católica, relatos e referências a fatos históricos: Batalha do Jenipapo, Coluna Prestes e Ciclo da cera de carnaúba; fatos pitorescos e cotidianos dos habitantes, valores e costumes da época.
A temática abordada resgata a memória de uma sociedade conservadora, fortemente influenciada pela religiosidade do catolicismo, mas também aberta às mudanças provocadas pelo avanço da economia e pelas inovações tecnológicas.
A característica do romance fechado em círculo e o drama do padre com a gestação da rapariga identificam a boa influência sofrida pelo o autor de dois grandes representantes da literatura luso-portuguesa: Eça de Queiroz (O crime do Padre Amaro) e Machado de Assis (Memórias Póstumas de Braz Cubas).
Todos esses ingredientes formam um interessante convite aos amantes da boa literatura, ao tempo em que proporcionam aos campomaiorenses o resgate de elementos formadores de sua identidade.  BOA LEITURA!
Halan Kardeck Ferreira Silva é natural de Campo Maior, Piauí, 17/02/1970, e formado em Filosofia e Direito. É autor de outras obras: 16 poemas (Edições Des Livres, 1995); As formas incompletas: apontamentos para uma biografia (Oficina da Palavra/Instituto Dom Barreto, 2005); Representação e identidade cultural do vaqueiro no cinema novo (Editora Nova Aliança, 2010); e Cambacica (Editora Nova Aliança, 2011).

(*) Orisvaldo T. Mineiro: Auditor Fiscal da SEFAZ-PI, Mestre em Letras.

Fonte: Portal Entre-textos

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Beijo de Judas: o Inferno de Santa Maria




Cunha e Silva Filho

Foi uma traição à vida o que aconteceu na Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul.. Que nome menos adequado para se dar a uma boate. Beijo é sinal, antes de tudo, de amor, de afeto, de amizade. Não é palavra que se tome para um lugar onde tudo estava fora do lugar, principalmente a documentação da casa de diversões, com alvará já expirado, e onde nada em termos de segurança funcionava: extintores de fogo, pelo menos duas portas de saída, e outros requisitos obrigatórios de ordem técnica, respeito legal à capacidade de pessoas que ali podiam se reunir

Por cúmulo da irresponsabilidade, mesmo com todas as irregularidades verificadas pelos peritos e pelas declarações consistentes do delegado encarregado das investigações, a boate tinha (sic!) autorização do Corpo de Bombeiro para funcionamento normal. Nada foi observado, na última fiscalização do órgão competente, do ponto de vista legal, nem da Prefeitura local nem do Corpo de Bombeiros. Era uma boate como tantas outras espalhadas pelo país que funcionam ao arrepio da Lei, das autoridades, dos governo federal, estadual e municipal. Até já se falou que os maiores responsáveis não são os donos da boate mas a autoridade pública, que é leniente e, muitas vezes, se torna cúmplice pela ausência da aplicação das penalidades contra lugares de diversão como esses.

Faz parte da cultura do poder público brasileiro só tomar medidas contra erros imperdoáveis e fatais e semelhantes ao ocorrido em Santa Maria quando a tragédia acontece. Por isso, o lamento de governantes, suas lágrimas vertidas, seja do prefeito, do governador, seja da presença da Presidente, esta com discurso lacrimejante e sentindo a perda coletiva de inúmeros jovens que poderiam ser, no futuro, pessoas de diferentes profissões úteis à sociedade e ao desenvolvimento do país, não vai reverter a dor das famílias enlutadas e destroçadas nos seus sentimentos mais profundos, que é a dor de perder um ente querido, um amigo, até mesmo um conhecido habitante da mesma cidade.

Portanto, a tragédia de Santa Maria não é novidade para o país das tragédias e das impunidades, da desídia pública e da ausência gritante de medidas preventivas, de seriedade no trato da coisa pública e privada .São mais de duzentos mortos, são mais de duzentos jovens cheios de viço de alegrias, de sua condição de universitário, que é uma das fases da vida do estudante mais decisivas e emocionantes de suas vidas. Vale encarecer que dos sobreviventes feridos, muitos estão ainda nas UTIs dos hospitais, ainda com risco de morte, outros mais com corpos queimados, que lhes deixarão com marcas indesejáveis sobretudo na fase da juventude e mocidade.

Morrer jovem, por doença é sempre uma perda irreparável, mas morrerem tantos jovens a um só tempo e de maneira brutal, sofrida, desesperadora, é mais do que uma tragédia. Eis por que a tragédia de Santa Maria teve tanta repercussão(negativa para a imagem do país) internacional, dadas as proporções do número elevado de vítimas fatais.

Lugares de diversões, prédios, velhos ou novos, construções tombadas pelo patrimônio público têm que ser rigorosamente fiscalizados, e, quando forem detectados sinais de risco de vida, devem ser seus responsáveis enquadrados na Lei, com pesadas multas, sendo que as autoridade competentes devem imediatamente determinar prazos improrrogáveis a fim de que sejam corrigidos os erros e os riscos. É uma obrigação não somente dos prefeitos, mas dos governadores e da União. A sociedade deve também assumir a sua parte através de denúncias aos órgãos correspondentes caso veja algum perigo iminente que possa prejudicar a população da cidade, dos bairros.

O Brasil é campeão de remendos, de improvisações, de tapa-buracos, de obras faraônicas vultosas paralisadas de repente, com altíssimos custos para o Erário. Por que não imitamos o que é bom do EUA, do Japão e dos países que preservam, fiscalizam e penalizam os infratores em áreas que podem provocar mortes de centenas ou milhares de pessoas? Deixemos de chorar as nossas calamidades e previnamo-nos contra os desastres evitáveis e mesmo inevitáveis, diminuindo-lhes as consequências desastrosas, como no caso de enchentes nas cidades e outros acts of God.

Governos que se preocupam com estas questões são governos democráticos, inimigos da populismo, da demagogia, do paternalismo, da impunidades, das injustiças sociais. O país tem uma máquina burocrática de alto nível, usando os mais recentes avanços tecnológicos da informática e, por outro lado, está na Idade Média ou até em época mais remota no que diz respeito ao ataque frontal aos males diversos que nos afligem assustadoramente, como a violência – e a tragédia de Santa Maria foi um ato de violência sem dúvida alguma. Pratica-se a violência sempre que se fere a incolumidade das pessoas, sempre que deixamos de tomar providências que assegurarão o direito à vida, sempre que nos omitimos quanto às nossas atribuições em cargos de comando nos diverso setores públicos.

Sabemos que nem tudo pode ser evitado no campo dos acidentes ou desastres. No entanto, se um governo se pauta pela seriedade de sua administração, se escolhe bem seus secretários e todo a sua equipe, seguramente, nos três níveis, federal, estadual e municipal, há de realizar um trabalho com transparência, atendendo tão-somente ao bem-estar da sociedade. Não é isso que vemos nos Brasil em muitos setores do funcionamento da máquina do Estado.

Não é só decretando luto oficial que se há de resgatar os direitos dos cidadãos, os direitos humanos, os direitos individuais e coletivos. O que está se fazendo agora, no que tange à segurança dos lugares
de diversão, ou assemelhados, em muitas partes do país é válido, porém deixará de sê-lo se isto se transformar em fogo de palha, em ações paliativas para inglês ver.

O que desejamos da parte do setores públicos são ações efetivas, duradouras e permanentes do item “prevenção” contra acidentes de todos os níveis e proporções, quer da natureza, quer provocados pela má conduta dos homens, empresários, proprietários, construtores, síndicos, enfim, por todos aqueles sob cuja responsabilidade vão recair as penalidades da Lei caso não cumpram com os seus deveres e obrigações, principalmente se envolvem crimes de natureza vária contra a vida.

Isso vale também para os inúmeros segmentos da vida cotidiana: motoristas, pessoal de setores de manutenção, de fiscalização, de vigilância, da defesa civil etc. . Ninguém que ocupe uma função da qual depende a integridade física das pessoas pode se eximir do rigoroso cumprimento de suas obrigações, dos regulamentos legais.

A vida é o bem maior e em defesa dela devemos unir os sentimentos de coletividade, humanidade e respeito. Que a tragédia de Santa Maria seja o símbolo mais alto do grito nacional contra todos os que transgridem o espírito da Lei e de sua aplicação. A verdadeira modernização do Estado brasileiro só virá quando os males aqui levantados, em meio à dor dos jovens mortos em Santa Maria, forem erradicados de nossos costumes erroneamente por décadas enraizados sob a proteção infame da impunidade.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Texto enxuto e apetitoso



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com


Comida abundantemente condimentada e associada a misturas provoca azia e má digestão. A comidinha caseira, frugal, porém, é inesquecível, atravessa gerações, dá saudade da vovó. Os dois extremos também acontecem na produção de um texto. Em época de disputas nos concursos e mercado de trabalho, exige-se árduo esforço na técnica da redação, que não se improvisa nem se aprende de repente. Tem de ralar, dedicar-se à leitura, observar e imitar bons produtores de texto. Em Machado de Assis e Arimateia Tito Filho absorvi lições da frase curta, enxuta, fotográfica e frugal como a comidinha da vovó.

Frases longas, tortuosas e abuso de conectivos atormentam um leitor, às vezes, obrigado a digerir um texto. Por prazer, nenhum outro arriscaria ler um período que começa no centro de Teresina e termina na entrada de Altos. Intelectuais, em geral, empanzinados de academicismos, arrotam gorduras barrocas, citações filosóficas intestinais, cujo efeito bota para correr quem está por perto.

No magistério, costumava ler as redações dos estudantes, diante deles, com amargo humor. Escolhia os textos mais indigestos, sem pontuação, longos como trilhos do metrô. Lia direto, sem respirar, por falta de pontuação, até esfolar o pulmão. Eu teatralizava, mostrava-me exausto, desfalecia. Gargalhada geral. Ninguém sabia a identidade da vítima. Hoje, eles me encontram e agradecem as sagradas porradas. Ainda bem que não se falava em bullyng e constrangimento, nem professor apanhava.

Uma clássica lição para escrever corretamente: montar frases curtas, diretas, como esta:"Roberto ofereceu ajuda a um velhinho." Repare que a ordem está perfeita: Roberto(sujeito) ofereceu(verbo) ajuda a um velhinho(dois completos do verbo). Aparecem somente termos essenciais, não exigem vírgula. Virgulação só quando elementos essenciais da oração(sujeito, verbo e complementos do verbo) são entrecortados, regra geral, por um ADJUNTO ADVERBIAL, VOCATIVO ou APOSTO. Observe o mesmo exemplo, agora modificado por esses elementos: "Roberto, filho do professor José Maria, ofereceu, com espírito cristão, ajuda a um velhinho, na travessia da faixa do trânsito." Roberto(sujeito), filho do professor José Maria,(aposto) ofereceu,(verbo) com espírito cristão,(adjunto adverbial) ajuda a um velhinho,(complementos verbais) na travessia da faixa do trânsito(adj. adverbial). Esticando o período, enfeia a compreensão: "Roberto, filho do professor José Maria, ofereceu, com espírito cristão, ajuda a um velhinho, na travessia da faixa de trânsito, quando foi abordado por um assaltante, e, de repente, apareceu a polícia." A panela ferveu demais, pode queimar, usando período longo, conectado por conjunções e pronomes relativos.

Uma simples distração agride a correção gramatical. Na crônica passada, "Não me toques, Madalena!", fui alvo da palmatória: "Maria Madalena e outras mulheres assistiu o Mestre até o Calvário." Pecado mortal servir o Mestre dessa maneira. Eu queria destacar a personagem Madalena, fechando com parênteses os termos "e outras mulheres": "Maria Madalena(e outras mulheres) assistiu..." Agora, sim, dá para assistir, sem escorregar na concordância. Aí me vem saudade da sala de aula, apesar das repugnantes e insossas redações.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Lançado Vultos e Fatos da História de Campo Maior



Foi lançado na sexta-feira, dia 1º, em Campo Maior, com grande presença de intelectuais, historiadores, acadêmicos e demais pessoas interessadas, Vultos e Fatos da História de Campo Maior, da autoria do escritor e pesquisador João Alves Filho. A obra narra os principais acontecimentos do município e traça a biografia de campomaiorenses que se destacaram nas principais atividades humanas. O livro pode ser adquirido com o autor e na sede da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, por ele presidida.

Seleta Piauiense - H. Dobal



HOMO

H. Dobal (1927 - 2008)

Sua ração de vida o homem vê minguando
a cada dia. Mas duro recomeça
como se o tempo lhe sobrasse. E vagaroso
não conta as eras que se extinguem.
Nem conta a solidão dos dias claros
se desdobrando iguais como esquecidos
de mudar. Nem a distância
que o grito não transpõe, a passagem da vida
cumprida só em mínimos desejos.
Sua lástima no piar das nambus, sóbrio
se esquiva às armadilhas da tarde.
A incerteza nos paióis, o chão batido
em que levanta a casa, o amor
como a água das cabaças.
Lavrador do milho e do feijão, sua frugal colheita
em gleba alheia. Passa-lhe a vida,
e queima o céu com a cinza de suas roças. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

PERDI A RAINHA DO CÉU

Virgílio Queiroz

Estou mais pobre. Estou mais triste. Estou mais solitário. Estou incompleto, perdi uma parte de mim. Neste 29\01, faleceu a minha irmã Regina Celi (a Rainha do Céu). Ontem não vi o dia passar e o relógio não me parecia lento e nem apressado e eu nem sei se havia o tempo. Em um salão de uma funerária eu olhava minha irmã que parecia dormir numa tranquilidade que lhe era habitual. Ela, às vezes, roncava quando dormia, mas geralmente o seu sono era de criança. Eu respeitava sempre o seu sono e, ao acordar cedo, andava lentamente para não acordá-la. E tinha o prazer de lhe preparar o primeiro café. E ontem, 29\01, eu desejava que ela roncasse em seu sono, e ela não emitia nem um som, nem um suspiro. E, eu ali, esperando um milagre de Lázaro, e não dormi à noite esperando esse milagre. Vi que não se tratava de um pesadelo e tudo era real. Eu estava ali, com ela, na nossa última noite. O dia nascendo, barulho de carros, pessoas chegando. Abraços, lágrimas, palavras inúteis... e a minha irmã dormindo no seu sono de anjo. Nunca ela recebeu tantas visitas, em nenhum momento de nossa vida fomos tão violados em nossa solidão. Nem mesmo no seu aniversário que foi organizado pela nossa amiga Patrícia, apareceu tanta gente. Consolação, minha sobrinha, disse: “tio a morte também tem uma serventia: no velório a gente se encontra, conversa e contamos os vivos. É nesse momento que sabemos dos parentes que estão tão distantes que nem mais sabemos que são parentes e nem amigos”. Sábias palavras de quem que, por algum tempo, viveu diretamente comigo (e me faz falta). Não aconteceu o milagre de Lázaro, mas aconteceu o milagre da multiplicação dos amigos. Um consolo: hoje eu posso morrer mais tranquilo, pois eu não desejava que minha irmã ficasse sem mim. E ela ficou tão perto do meu egoísmo que, em uma caminhada, posso visitá-la e contar todas as novidades de minha vida. Um beijo, Rainha do Céu!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

REVENDO PEDRO II






31 de janeiro   Diário Incontínuo


REVENDO PEDRO II

Elmar Carvalho

Sete anos atrás, quando eu era o titular da Comarca de Capitão de Campos, o irmão Francisco José Sousa, eminente grão mestre do Grande Oriente do Brasil – Piauí,  sob o argumento de que eu estava trabalhando relativamente perto de sua terra natal, Pedro II, colocou sua casa nessa cidade à minha disposição, para ali passar alguns dias. Quando o reencontrava, em algumas ocasiões, perguntava se a oferta ainda estava valendo, respondendo-me ele sempre afirmativamente.

Não querendo abusar de sua generosidade, somente agora resolvi lhe solicitar a casa, como um apoio logístico a um passeio que faria com alguns familiares, entre os quais minha mulher, meus pais, minha filha, duas irmãs e alguns sobrinhos. Ao todo, éramos doze pessoas. Prontamente, o nobre irmão Francisco José cedeu a casa, fornecendo-me um mapa com endereço e telefone de pessoas amigas. Recomendou-me não deixasse de visitar o Museu da Roça, cujo proprietário é o irmão maçom Mundote Galvão, pai do magistrado Olímpio José Passos Galvão, também membro da sublime Ordem.

Quando eu já chegava ao Posto da Polícia Rodoviária Federal em Piripiri, meu celular tocou, tendo sido atendido pela Fátima. Era o meu irmão Antônio José, nos avisando que ele e os demais membros de nossa comitiva familiar já se encontravam no Museu da Roça, onde nos aguardariam. Ele, meus pais, meus irmãos e meus sobrinhos chegaram a Pedro II na parte da manhã, e à tarde foram conhecer esse importante ponto cultural, que fica a poucos quilômetros da cidade.

Sem necessidade de ultrapassar a velocidade máxima permitida, cheguei ao local em aproximadamente meia hora. Logo notei que o museu era bem cuidado, com pequenas trilhas sinalizadas, arcos de ramos e flores e caramanchões. Existiam muitas pequenas placas, com frases educativas, de temáticas ecológicas, e outras, reflexivas, contendo sabedoria de vida. Quando cheguei até onde se encontrava o patriarca Mundote Galvão, já ele havia entretido uma longa conversa com meu pai, que tem a sua idade, ou seja, 87 anos.

Na prática que teve comigo e com meus familiares, disse que o segredo de sua boa saúde e longevidade é não pensar em doença, e em comer rapadura diariamente, seja escoteira, seja com comida, seja para adoçar suco ou café. Também disse não gostar de usar medicamentos, exceto, de forma muito moderada, os naturais, feitos com ervas e plantas. Após algum tempo, perguntou-me se eu desejava tomar uma cerveja. Respondi-lhe que sim. Ele mesmo colocou a bebida nos copos de meu irmão, de meu sobrinho e no meu.


Somente quando pedi para pagar a garrafa de cerveja (que, aliás, ele não me permitiu fazê-lo), é que soube que ele nada tomara. Indagado a respeito, respondeu que bebera apenas algumas poucas vezes em sua juventude, mas descobrira que bebida não lhe servia para nada, porquanto bebera para esquecer as suas paixões juvenis, mas o efeito foi que ficara mais apaixonado ainda. Como ele tem senso de humor, e falava com disfarçado sorriso, não sei ao certo se brincava ou se falava para valer.

Mundote Galvão, pelo que percebi de nossa conversa, e pelas informações que tenho sobre ele, é um bom cidadão, um homem de boa-vontade e um maçom dedicado e cheio de entusiasmo, e que soube desbastar, lavrando-a com afinco, a pedra bruta que existe em todos nós. Ao lhe indagar se fora ele o idealizador e criador do museu, disse que fora uma de suas filhas, Inês Passos Galvão, que muito se empenhava em mantê-lo e conservá-lo. Não sei se em sua resposta houve um excesso de modéstia, mas o certo é que se notava, pela arrumação e limpeza do lugar, que havia o zelo de uma mulher dedicada e detalhista.

Conheci a imperial cidade de Pedro II mais de 32 anos atrás, quando eu, além de jovem, ainda morava em Parnaíba. Nesse tempo, a Fátima, então minha namorada, fora tirar as férias de uma colega dos Correios. Após tomar alguns copos de cerveja com o amigo Reginaldo Costa, no povoado Morros da Mariana, hoje cidade de Ilha Grande, num impulso, já à boca da noite, convidei-o a irmos a Pedro II. A juventude é, muitas vezes, afoita e atrevida, e o Reginaldo imediatamente aceitou o convite temerário.

Seguimos para Parnaíba, com o objetivo de nos prepararmos para a viagem. Fomos em nossas motocicletas, naquela mesma noite. Dispenso-me de contar detalhes dessa longa e estafante viagem, que não aconselho ninguém a fazer à noite, em veículo de apenas duas rodas. Paramos em alguns pontos, para nos aliviarmos do cansaço. Chegamos numa fria madrugada. Nessa época, Pedro II era uma típica e ainda acanhada cidade interiorana, de poucos milhares de habitantes. Não havia um único estabelecimento comercial aberto.

Apenas o hospital da cidade mantinha a porta de entrada aberta, com o hall iluminado. Entramos. Não havia ninguém a quem pudéssemos pedir alguma informação ou auxílio. Ali ficamos até de manhã cedo, para fugirmos do frio, que nos fazia tiritar, recostados contra a parede, na tentativa de tirarmos um breve cochilo. Umas pessoas, acho que funcionários e enfermeiras, nos abordaram ao amanhecer, com certo receio, pois certamente nos classificaram como sendo “forasteiros”. Respondemos às perguntas que nos fizeram, apresentando as nossas explicações e justificativas, e nos identificando, de modo que tudo terminou a contento. A seguir, localizamos a pousada onde a Fátima se encontrava hospedada.

Retornando aos dias de hoje, devo dizer que as circunstâncias e o panorama foram muito diferentes. De imediato, notei que a urbe havia crescido bastante, com o surgimento de grandes casas comerciais, inclusive supermercados, lojas, restaurantes, postos de combustíveis, hotéis e outros estabelecimentos empresariais. Foram erguidos vários prédios de andares, além da construção de outras praças. A avenida formada pela BR é toda asfaltada, da entrada até a saída da cidade.

Ao conversarmos com a senhora, que tinha a guarda da chave da residência, em que ficamos bem acomodados, ela nos disse que a visão noturna do Mirante do Gritador era bonita, com a vista das luzes dos povoados ao longe. Como era época de lua cheia, resolvi seguir para o mirante nessa mesma noite, após fazermos a refeição e nos instalarmos. Contudo, o tempo se manteve nublado, e o nosso satélite não deu o ar de sua graça, de forma que não pude ver a paisagem noturna da serrania, dos vales e morros, exceto as luzes elétricas das casas, ao pé do despenhadeiro.

Dizem que o socavão produz eco, donde o nome Gritador. Entretanto, por mais que eu e meus acompanhantes gritássemos, não obtivemos retorno. Cheguei a pedir para que o “Mister Eco” nos respondesse, porém ele fez ouvido de mercador ao meu pedido. Acho que, por falta do plenilúnio, ele fora dormir mais cedo. Mas essa justificativa também não condiz com a realidade, pois no dia seguinte ele também não ecoou. Talvez não tenhamos direcionado a voz para o local adequado. Fiquei levemente frustado pela falta da lua cheia e do eco, que não se fizeram presentes ao belo Mirante do Gritador.

Na manhã seguinte, a ala feminina da comitiva foi fazer compra de produtos do rico artesanato local, sobretudo peças de tecelagem. Eu, meu pai, meu irmão, dois sobrinhos (Almeida Neto e Josélia) e minha filha Elmara fomos conhecer o centro histórico de Pedro II, e tirar algumas fotografias. Admiramos seus belos casarões e as suas duas bonitas praças. Pude constatar que os moradores, descendentes de velhas estirpes pedrossegundenses, cuidam bem dos velhos solares avoengos, conscientes de que devem preservá-los independentemente de leis de tombamento.

A imperial cidade, por ocasião do centenário do status de vila, ergueu um monumento em homenagem ao imperador Dom Pedro II, que além de ser considerado sábio, foi poeta e mecenas, além de cultor da ciência. Dizia ele que, se não fosse monarca, gostaria de ser professor, o que revela a sua personalidade de amante das artes e da cultura. No pedestal do imponente busto, encontra-se breve cronologia dos principais fatos da história do município.

Alguns dos casarões ostentam placas, nas quais são nomeados os patriarcas das famílias que neles residem ou residiram. Assim, uma delas indicava o nome do coronel Domingos Mourão Filho, que residiu no Solar da Estrela Marrom, cuja biografia foi narrada pelo jornalista e escritor José Eduardo Pereira em memorial álbum; outra, referia o casarão haver pertencido à família Gomes Campelo, da qual faz parte o desembargador Tomaz Gomes Campelo, que sempre comparece aos importantes eventos culturais da cidade.

Encerramos o nosso périplo turístico no Mirante do Gritador, de onde se tem uma deslumbrante visão do abismo e dos morros adjacentes, além das casas e quintais, que se erguem no vale. Embora, como dito, o eco estivesse de folga ou de greve, o mesmo não aconteceu com o vento, que nos devolveu os objetos leves, que lançamos ao precipício.

Acredito que o despenhadeiro do Gritador seja um boqueirão dos ventos, que, ao baterem na fralda do morro, erguem-se em busca de saída para sua desenfreada e incansável correria, devolvendo esses objetos, como se eles fossem um bumerangue. Saquei um potente binóculo e trouxe para mais perto de mim a beleza da paisagem serrana, que se erguia ao longe, e a trouxe comigo, no embornal de minha memória, e no cartão de memória da máquina fotográfica.