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MATÉRIA VERSUS ESPÍRITO
Elmar Carvalho
Fui ao Tribunal de Justiça, na
sexta-feira, tratar de vários assuntos, um dos quais de meu interesse
funcional. Ao entrar no gabinete da presidência, além do presidente Edvaldo
Moura, encontrei o des. João Menezes da Silva, que também presidiu a corte de
Justiça do Piauí. Trata-se de cidadão afável, educado, e que sempre me foi
muito simpático, desde o meu início na magistratura.
Disse-lhe que estava requerendo
meu abono previdenciário, em virtude de minha permanência na atividade. Há
vários meses completei tempo de serviço e idade para aposentar-me, uma vez que
comecei a trabalhar aos dezenove anos, quando ingressei na ECT e posteriormente
na extinta SUNAB, sem sofrer a interrupção de um dia sequer, em minha prestação
laboral.
O des. João Menezes, a sorrir com
gosto, ao saber de minha pretensão, e sabendo que também me dedico às letras e
à cultura, indagou-me por que eu desejava a gratificação, uma vez que eu, por
ser poeta, deveria viver de brisa e de coisas etéreas e espirituais, e não de
bens financeiros e econômicos. Respondi-lhe que o poeta poderia dispensar as
coisas materiais, mas que a sua família precisava de alimentos e outros bens
concretos, inclusive dinheiro. Por fim, expliquei ao bom magistrado João
Menezes, que era o juiz que sustentava o poeta, encarnado na mesma pessoa
física, que sou eu mesmo.
Dizem que o intelectual Eduardo
Prado, ao contemplar verdejante campo, teria perguntado a sua mulher Alice, em
criativo jogo de palavras: “De que ali se vive?” Conta a lenda, que ela,
imediatamente, teria respondido com outro trocadilho em torno do nome do
marido: “É do ar do prado”. Não podendo eu, ao contrário de Alice, mesmo
cultivando as coisas espirituais, viver apenas de brisa, espero seja o meu
abono deferido.
8 de março de 2011
