domingo, 28 de junho de 2026

ALEGORIA DA FOME

Fonte: Google

 

ALEGORIA DA FOME


Elmar Carvalho 

 

A pobreza um dia

bateu à minha porta

sob a forma de um menino

magro, sujo e maltrapilho.

E catou com suas mãos esquálidas

o sujo conteúdo

de meus sacos de lixo.

Foi quando eu saía

para o trabalho.

O menino, ou antes, um

bicho assustado correu.

Fui no seu encalço

em minha moto uivante.

O menino correu ainda mais,

varou cercas de arame farpado,

penetrou no terreno baldio por entre

arbustos espinhentos e urtigas,

com olhos e gestos de terror,

como se eu fosse espancá-lo.

E eu somente queria dizer

que ele podia catar o lixo.

Apenas não espalhasse

o resto do lixo

sobre a calçada.

Mas o meu pequeno irmão

feito bicho espavorido

tem medo dos outros bichos

que se dizem seu irmão.

E o meu irmão tem razão.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

TRIBUTO A MONSENHOR SOLON

Fonte: Google. Imagem melhorada pela IA GPT


TRIBUTO A MONSENHOR SOLON


Wilton Porto

Da Academia Parnaibana de Letras

Do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba


“Por isso na impaciência

Desta sede de saber,

Como as aves do deserto

As almas buscam beber...

O! bendito o que semeia

Livros... livros à mão-cheia...

E manda o povo pensar!

O livro caindo n’alma

É gérmen – que faz a palma,

É chuva – que faz o mar”.

     (O livro e América – Castro Alves)


“Vendo-o, era forçoso estimá-lo. Estimando-o ninguém podia esquecê-lo.”


É impossível falar de educação em São João do Piauí, sem lembrar nomes como Dr. Joaquim Vaz da Costa, Antônio Cavalcante, Adail Coelho Maia, Genésia Arraz, Laura Arraz, Espedita Alves e tantos outros. Porém, a grande estrela foi Monsenhor Solon. É bem verdade que o poeta inspiradíssimo, Adail Coelho Maia, também imprimiu sua marca na cidade, contudo Monsenhor Solon até os dias de hoje contribui para uma educação de relevância maior na cidade de São João do Piauí.


Em 1953 Solon fundou a “Escola São João”. Em 1956 cria o “Instituto São João Batista”.


Ali, iniciava-se a grande arrancada para o desenvolvimento educacional e cultural, além da assistência social para a juventude sanjoanense.


Escola “São João” e ginásio “Frei Henrique” atingiram uma respeitabilidade tão grande, que ouvi muitas vezes ser essas escolas o “primor” de educação do Piauí.


Ingressar no ginásio “Frei Henrique” não era fácil. Tinha-se que ter preparo. Lembro-me que à minha época de primário, o grande medo do alunado era o exame de admissão – “verdadeiro vestibular!” O exame de admissão era obrigatório.


Quando eu fazia a quarta série do primário, uma das professoras chamou-me a mim e ao Nerinho e disse: “Vocês dois têm condições de fazer exame. Façam”. Eu e Nerinho (Moura Fé) nos olhamos.


Não sei bem se admirados, gratos, assustados... Arregalamos os olhos para a professora. Com as vozes embargadas engolimos cuspe em busca de salvação. A professora nos fez relaxar e afirmou: “Não se intimidam, vocês serão aprovados, tenho certeza”.


A professora Valdinê (assim a chamávamos) falava pela boca de um anjo, ou fora intermediária de um deles. Fomos aprovados. Eu, por exemplo, sem dificuldade.


Vocês podem imaginar a nossa alegria! Não tínhamos apenas sido aprovados no vestibular, digo exame de admissão, mas sem ingressar no quinto ano, sem contar que iríamos participar daqueles desfiles fenomenais, vestir a farda do “Frei Henrique”, estudar numa das escolas mais cobiçadas do Piauí!


Monsenhor Correia de Aragão não era filho de São João. Contudo é como se o fosse. Não só ele se considera como se filho o fosse, nós, filhos daquele maravilhoso torrão, também sabíamos que ele o era.


Em 16 de dezembro de 1968, o então prefeito Claudionor Paes Landim de Oliveira confere ao vigário Pe. Solon, o título de cidadão sanjoanense, fazendo justiça àquele que foi enviado por Deus para servir a Deus servindo aos piauienses, principalmente a São João do Piauí.


Em cinco de janeiro de 1969, o povo sanjoanense mais uma vez reconhece o valor do Monsenhor Solon Aragão. Ele continuava firme, comprometido, competente como vigário de São João do Piauí. Desta feita, a festa que lhe dirigiam era por conta das suas bodas de prata de sacerdócio.


A igreja matriz lotada. Os sinos tocando. Os acordes vibrando distante. Na calçada da igreja, muitos se acotovelam. Alguns jovens aproveitam para namorar. Os anjos nos céus com suas clarinetas tocam “Ave-Maria”.


A missa concelebrada mexe com o coração de cada um. Dos olhos de Deus uma lágrima cristalina rola rosto abaixo. E, com certeza, Deus gritou bem alto: “Este é um dos meus filhos muito amados”!


Monsenhor Solon sempre teve ânsia de servir. Era um servo de Deus: ele encarnou a frase de cristo: “Eu não vim para ser servido, contudo para servir”. Como religioso, estava presente na igreja como Cristo na hóstia sagrada; e como educador, estava presente na escola como o barro entre tijolos.


Em 1970, funda o primeiro estabelecimento de ensino de 2º grau do município de São João do Piauí – a Escola Normal Genésio Arraes.


Uma cidade com tantos atributos, com uma escola-modelo, não podia deixar de ter uma escola para preparar professores – o espírito desbravador do vigário, a visão microscópica do educador tinha que se movimentar, criar, servir... E a escola surge, cheia de luz, para iluminar, com certeza, os cérebros famintos de conhecimentos desejáveis.


As décadas de 60 e 70, segundo quem viveu em São João do Piauí, foram áureas. A efervescência política, educacional, cultural e esportiva foi incomparável. O esporte era espetacular. O Ginásio “Frei Henrique” imbatível. Chegou a emprestar oito craques para a seleção da cidade.


Lembro-me bem, no que diz respeito ao esporte, de nomes como Bibiu, Zé Paulo, Zé do Dequinha, Chico Afonso. Eram capazes de destruir qualquer defesa. Bibiu, meu irmão de sangue, era a estrela maior. O Tubéu era o unha de gato. No gol não passava nada. O David, lá das bandas do Jacaré, era um beque inigualável. Bons craques São João tinha! Pandu, João de Vita e tantos outros moram em nossa memória.


O Ginásio, a educação como um todo, fora decisiva para essa alegria, para essas lembranças.


As festas juninas sempre foram marcas registradas da cidade, tendo como dedo propulsor de frente o Monsenhor Solon Aragão.


Arrastava multidões. Aquelas músicas amplificadas atingiam o interior da cidade e de lá, aos montes, vinham se juntar a nós, os interioranos.


Eu, especialmente, sensibilidade de poeta, não tinha como muitas vezes deixar de verter lágrimas ao ouvir aquelas músicas, que penetravam torrencialmente por todos os meus poros.


Monsenhor Solon sabia como nos emocionar. Ele era mensageiro de Deus. Sua inteligência fulgurava de forma incomparável. Tinha domínio do verbo, por isso, sua oratória contagiava. Sem dúvida, um sábio, o que o levou a ser Presidente da Fundação Cultural do Estado do Piauí.


Professor exímio, muitas vezes ele chegava na sala de aula e perguntava: “Em que matéria vocês estão sem aula?” Ali, ele entrava, e dava uma aula inesquecível. Com as aulas dele, eu tirava nota máxima sem estudar. Até ensinando inglês, ele cintilava.


O momento máximo da carreira desse sacerdote foi o centenário da Igreja Matriz de São João Batista, em São João do Piauí.


Os sanjoanenses espalhados pelo Brasil acorreram para São João naquele julho de 1975.


Chorei muito. É que saindo de São Paulo, junto com meu cunhado e irmã, para essa festa, com dez dias de antecedência, cheguei depois dos principais acontecimentos. Alcancei somente o baile, no clube, após muito malabarismo.


O nosso carro quebrou, fundiu o motor em área deserta, porque fizemos trajeto via Brasília e a estrada, à época, estava uma lástima.


Eu fiquei só de ouvir os comentários emocionados dos parentes. Depois, eu fechava os olhos, e lembrava-me das festas juninas, das celebrações, das músicas, dos sermões de Solon, dos passeios pela praça, das namoradas, da escola, do futebol, dos poemas, do grêmio, da efervescência cultural, onde muitas me viam como destaque... E chorava.


Por muito tempo, o sanjoanense cantou uma música daquela comemoração centenária:


“São João, São João, São João.

Meu São João do Piauí...”


Eu me esqueci da letra. Porém essa música por muito me deixou extasiado. Quando eu a cantava, lembrava-me da festa que perdi. É lógico que todo o meu ser entristecia-se.


           Dia 20 de janeiro de 2001, quando eu estava em Teresina, no meu curso de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), meu irmão Afrânio, que já havia ligado para Parnaíba (eu não estava hospedado na casa dele), informou-me  do desencarne de Monsenhor Solon.


 Não dava para telegrafar. Resolvi que escreveria algo. Sou admirador de Solon e admirado por ele. Não poderia deixar de me reportar. Como diz Antonie de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Cativei Monsenhor Solon. Fitei um dia nos seus olhos vívidos e percebi um homem incomum, uma luz que, com certeza, em outras paragens, melhor estará arregaçando as mangas para que o seu ideal de servir  ao sanjoanenses seja mais vibrante, e agora com melhores condições, porque está do lado esquerdo (coração de Deus).


 Monsenhor Solon foi uma trombeta descida dos céus para alertar os homens da importância da fraternidade. Foi uma chama ardente colocada no alto da Igreja Matriz de São João do Piauí, para que todos pudessem seguir caminho sem se perder na escuridão do sofrimento. Foi o silêncio em oração para que Deus, por meio dele, ouvisse nossos apelos. Fora o advogado daqueles que, em momentos críticos, se perdiam na descrença de que o Pai existe. Revelou-se o político que fez pelo prazer de fazer. Sem dúvida alguma, um pedaço do céu que desceu à terra.


 Neste mundo e numa época de tantas atrocidades, tinha que surgir, na terra, homens completamente voltados para os interesses populares. Homens que em milênios de caminhadas conseguiram dominar os ímpetos dos desejos materialistas e penetraram fundo na essência do próprio ser.


 Esses homens não negaram a si mesmos em prol dos outros. Compreenderam o seu dever, aprenderam sobre o verdadeiro amor e se realizam no servir.


 Monsenhor Solon, o senhor é um desses homens! Aí está o motivo da minha admiração. Houve momentos em que o senhor agiu de maneira enérgica, mas não se pode ser líder, sendo só açucarado. Porém no âmago do seu âmago, nas entranhas da sua alma, vibra uma doçura ímpar.


 Ninguém nesta vida se faz respeitado, se dentro de si não desenvolve a pureza divina que nos é latente! Os grandes iluminados deixam transparecer essa pureza em tudo que fazem. E, nós, os menos dotados, nos deixamos guiar, porque sabemos (e muitas vezes sem saber) que o líder nos está levando para o caminho do bem.


 Sabemos que o homem não morre. Monsenhor Solon está vivo num plano de vida, numa outra dimensão.


 Digo: Mons. Solon. Que bom, você ter descido à terra! Que maravilha que o senhor fora para São João do Piauí! Que ótimo, eu ter vivido em São João, na mesma época em que viveu o enviado de Deus! Que privilégio, eu ter sido seu amigo! Mons. Solon, luz cristalina, fonte indispensável ao sedento, anjo de muitas asas a abrigar o viajor cansado do sol, da dor. Lá dos céus, onde agora habita, ore por nós. De vez em quando, deixe-nos abrigar-nos em suas asas. Porque sabemos que em todo o sem ser, encontramos a paz buscada. Que os nossos laços sejam cada vez mais firmes e salutares. Bom regresso à verdadeira Pátria. Meus aplausos pelos louros da vitória! Do dever cumprido com sabedoria! 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

O GUERRILHEIRO, O POETA E O MÉDICO

 


                     

O GUERRILHEIRO, O POETA E O MÉDICO


Elmar Carvalho

 

Por precaução e em virtude de achar que já estava havendo sinalização de que eu poderia estar com tendência para um início de hipertensão, fui consultar-me com o dr. Itamar Abreu Costa, meu conhecido há um bom tempo. Trata-se de um médico humanitário, de um bom ser humano, cordato e educado. Logo a gente percebe que ele gosta do que faz, porquanto ele exerce sua profissão com alegria, com presteza e dedicação, satisfeito por estar prestando um benefício a seu semelhante. E todo aquele que se realiza em sua profissão, que a exerce com entusiasmo é um felizardo, porque o trabalho torna-se uma bênção, ao passo que, para o que a exerce apenas por obrigação, apenas por causa do dinheiro, o trabalho é um fardo pesado, enfadonho, convertendo-se numa espécie de penitência e maldição.

 

Vi, nas estantes de seu consultório, várias imagens de santos, quase como se ali fosse uma espécie de oratório, o que talvez seja também. Indaguei-lhe a respeito. Respondeu-me que sua mulher Edilane, diretora do ITACOR, é uma católica praticante e fervorosa, descendente de uma senhora piedosa, que contribuiu para o soerguimento da igreja matriz de N. Sra. dos Humildes, padroeira de Alto Longá, onde ambos nasceram. Mas vi também, destacando-se entre os livros e as imagens, duas placas metálicas com os retratos de Che Guevara e Pablo Neruda, o que revela o lado “guerrilheiro” de Itamar, na busca talvez utópica de uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais fraterna, pois, como se sabe, os dois ícones eram homens de esquerda.

 

O primeiro, herói da revolução cubana, tendo lutado em Sierra Maestra, até a vitória final, com a instauração do governo de Fidel Castro, era médico, como o nosso bravo Itamar Costa. O segundo, além do altíssimo poeta andino que foi (e digo andino em sentido literal e metafórico), com versos que ainda hoje me encantam e enternecem, foi também político no Chile, sua terra natal, tendo apoiado o governo de esquerda de Salvador Allende. Portanto, os dois retratos são significativos e bem apropriados, porquanto Itamar, além de médico, como Guevara, é também um ser cultural e telúrico, como Neruda, tanto que é o dinâmico presidente da Academia Longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia – ALLCHE.

 

Quando, alguns anos atrás, levei meu filho João Miguel para ser consultado por Itamar, ele me disse a sorrir, com seu jeito bonachão:

– Quer dizer que você confia em me entregar o coração de seu filho?

Disse-lhe que sim. Desta feita fui logo lhe advertindo que, à revelia de minha preocupação, o meu histórico era bom, porquanto minha pressão sempre fora normal e meus pais sempre tiveram bom coração, tanto no sentido fisiológico, como no simbólico, posto que são pessoas saudáveis e de boa índole. Ele sorriu e me passou uma bateria de exames; falta-me fazer o derradeiro.

 

Coloquei o coração de meu filho em suas mãos. Agora, nelas coloquei o meu próprio. Aguardemos o resultado dos exames e o vaticínio do oráculo, que, no caso, é o próprio Itamar Abreu Costa, com suas vestes brancas de esculápio e sua farta barba de profeta.

16 de março de 2011

domingo, 21 de junho de 2026

CIDADE GRANDE

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CIDADE GRANDE


Elmar Carvalho

 

Dando (m)urros

no vazio

por causa da dor

                       da doidice

da vida

da vivida mediocridade

entre as ruas

                    nuas sujas tristes

as ladras

     ladram como cães

e os cães

gemem como homens.

Na (c)idade

do lobo

o lobo-homem

é o lobisomem

      do homem.

Tudo é

ferro feio (en)ferrujado

ferindo feridas

já abertas.

Na cidade

na cilada

das suas ruas

surgem (g)ritos

lavados em sangue

lavrados a ferro e fogo.

Soltam berros

soltam (b)urros

prendem os b’rros

que incomodam.

Na cidade grande

onde não existe

pôr-de-sol

o homem gira e pira

       sem (gira)sol

       sem (guarda)sol.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

MEUS TEMPOS EM CURIMATÁ

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MEUS TEMPOS EM CURIMATÁ


Elmar Carvalho

 

Vez ou outra, ao entardecer ou no silêncio da madrugada, escuto o relincho ritmado, vibrante, metálico, quase musical, de um jumento, certamente com pendores artísticos. Disse relincho, mas quase dizia canto, porque a voz desse asno é algo semelhante ao som de um instrumento de sopro. Por vezes o jegue se dá ao requinte e virtuosidade de emitir um sustenido ou mesmo um melodioso falsete.

 

Isso me fez recordar, por motivo que adiante será esclarecido, da madrugada solitária e fria, no início de minha carreira, quando, na qualidade de juiz substituto, assumi a Comarca de Curimatá, por quatro meses e alguns dias. Depois da longa viagem de mais de setecentos quilômetros, em desconfortável ônibus, com grande parte da estrada devastada por imensas crateras, cheguei a meu destino. Se bem me recordo, desceram duas ou três pessoas, que logo se dirigiram para suas casas. O ônibus seguiu para Avelino Lopes, de modo que fiquei sozinho no banco da praça central, à espera da pessoa que iria me abrigar até eu conseguir pousada.

 

Como disse, a solidão era absoluta, de modo que me senti desamparado, na terra estranha e distante. Para me distrair, fiquei a olhar as casas e os logradouros. No centro da praça havia o fórum e o prédio da prefeitura. Mais adiante, numa esquina, erguia-se o edifício do Banco do Brasil. Bem perto do local em que me sentei, um jumento pastava o tenro e verde capim que ornava a praça, sem ser incomodado por ninguém, nem mesmo por eventual e zeloso vigia do jardim público.

 

Se bem que o jegue mais se assemelhava a um servidor público, a executar gratuitamente o serviço de capina. Logo chegou dona Miraísa, que era a chefe do cartório eleitoral e escrivã da Justiça comum. Era ela viúva de um ex-prefeito do município. Posteriormente, seu filho, então estudante do curso de Direito, veio a se tornar alcaide de Curimatá. Já não me senti mais abandonado, e fui esperar o dia amanhecer em sua residência, onde tomei banho e café.

 

Felizmente, o doutor Carlos Washington Machado, promotor de Justiça,  com a sua lhaneza e elegância habitual, convidou-me para ocupar um quarto do apartamento funcional do Banco do Brasil de que ele era locatário, depois de ter providenciado uma singela solenidade de posse. Nessa curta temporada curimataense, convidado pela prefeita Estelita Guerra de Macedo, participei de evento cultural no campus da UESPI, em que discursei e recitei poema de minha autoria.

 

Nessa cidade, da qual guardo boas recordações, fiz amizade com o sr. Mundinho Mascarenhas e com o rábula Vogado, que eu chamava, brincando, de Ad-Vogado. Ambos tinham interesses culturais, e entretivemos boas conversas. Na companhia dos dois, fui conhecer a pequenina e vetusta Parnaguá, ornada por um grande lago, referto de encantos, lendas e mistérios, terra do romancista e contista Oton Lustosa, magistrado e meu confrade da Academia Piauiense.

 

Às vezes, ao contemplar as carnaubeiras e a serra de Parnaguá, azulando na direção de Avelino Lopes, uma melancolia se infiltrava na minha alma ao me recordar de minha longínqua terra natal.

15 de março de 2011

domingo, 14 de junho de 2026

GALO MAGRO

 

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GALO MAGRO


Elmar Carvalho

 

Galo Magro

         não tinha

         penas multicores

         não tinha canto

         nem encanto

         não tinha crista

                      nem cristais de prata.

Sim, senhores, porque Galo Magro

        era apenas o apelido

        de um menino pobre,

        de um menino feio,

        de um menino com fome,

        de um menino sem nome,

como milhares de

outros meninos do Brasil.

        Galo Magro

        jogava bola

mas um dia

para driblar a fome

encravada no seu bucho

ainda menino foi ser

motorista de táxi.

        Um dia,

        um dia como

        outro qualquer,

        um dia simples

sem exuberância de sol

e sem adorno de nuvens

um homem mandou

que o Galo Magro

fizesse uma corrida

        à passagem do

        “Vai-não-Volta”.

        E o Galo Magro

        foi e não mais voltou.

Foi encontrado morto

        com o olhar de

        vidro absorto

        fitando o vazio

        do sem futuro.

Foi encontrado morto

        com os olhos tristes abertos

        fitando talvez a quimera

da vida perdida de quem nada espera

da vida perdida

de pobre diabo

completamente morto

morto ainda em vida

de morto morto e acabado.

 

                (Uma rosa rubra de sangue coagulado

                brilhava muito viva e linda em seu

                peito frágil de Galo Magro magro.)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

AS CINZAS DO CARNAVAL

Foto pescada no Google

                       

AS CINZAS DO CARNAVAL


Elmar Carvalho

 

Este ano, por motivo de ordem pessoal, resolvi não viajar. Passei o período carnavalesco em casa, lendo, refletindo e descansando. Conquanto nunca tenha sido propriamente um folião, acho que foi (o deste ano) o melhor carnaval de minha vida. De modo que estou, nesta Quarta-Feira de Cinzas, repousado, saudável e sem arrependimento financeiro. Sei que muitos, vendo as cinzas frias do carnaval que passou, estarão arrependidos pelos excessos de álcool e de gastos, imersos em letárgica e doentia ressaca, em que o arrependimento tardio lhes devasta o ânimo.

 

Como disse, nunca fui propriamente um amante das folias momescas. Não tinha jogo de pernas nem molejo de cintura, e não gostava de sair pulando e saracoteando pelo salão. Por sinal, nunca gostei das alegrias forçadas e artificiais, motivadas por aglomerações festivas, com essa música gritada, gutural e ensurdecedora de hoje, em que o cantor parece estar a se espremer, com letras degradantes, de duplos sentidos, de trocadilhos grosseiros ou mesmo de escancarado mau-gosto, de forte apelo pornô, quase sempre.

 

Não me enternecem, não me agradam o senso estético e não me fazem uma pessoa melhor. E não lhes vislumbro, ainda que longinquamente, qualquer toque de sublimidade, que deve ter a boa arte. Quase sempre são um apelo ao hedonismo, ao sexo pelo sexo, em que a maior criatividade parece ser chamar a mulher de “cachorra”, quando o cantor lhe pede a “patinha”.

 

Contudo, em minha juventude, fui a alguns bailes de carnaval, mais para estar com os amigos, degustar umas cervejas e aventurar a conquista de alguma namorada. Gostava das marchinhas carnavalescas, que tinham verdadeira música e conteúdo. Por vezes eram letras românticas, que falavam de pierrôs apaixonados, colombinas chorosas, corações dilacerados, jardineira a prantear flores mortas e as tristes cinzas da quarta-feira pós carnaval, em que o arrependimento tomava de conta do ressacado folião; ou quando, cessada a euforia artificial do álcool, da dança, da música e do ócio irresponsável, a depressão batia, ante o retorno à realidade do cotidiano mais trivial.

 

Talvez por causa dessas reflexões, o imenso poeta Manuel Bandeira, em seu retraimento de tímido e tísico, dizia, em seus versos, que uns tomavam cocaína, e ele, que já tomara tristeza, agora tomava alegria. Em outro poema, esse grande bardo alegava que eram tristes essas músicas de carnaval. De fato, como já disse, algumas letras eram repassadas de tristeza e solidão. A solidão de alguém em plena multidão, a tristeza pungente de algum folião a “tomar alegria” em meio ao frenesi da turbulenta folia momesca.

 

Acho que a alegria deve ser construída dentro de nós, no dia a dia, com a ajuda das lições espirituais e da arte, do trabalho e das boas ações, da verdadeira música e da boa literatura, que nos eleva espiritualmente e nos fortalece e aprimora o senso estético. Todavia, para não dizer que não falei de “flores”, mas que somente destilei “fel” no “mel” dos outros, devo dizer que ainda gosto de uma boa marchinha carnavalesca, que admiro, pela televisão, o carnaval de Pernambuco, com a dança alegre e moleca do frevo, com as suas sombrinhas multicoloridas; a arte e magia dos grandes bonecos; a indumentária, as cores, as fitas, a música e a dança popular dos maracatus.

 

E, por fim, a música vibrante dos metais em fervorosos frevos e marchinhas e a alegria descontraída e espontânea dos blocos de rua, em que todos se congraçam sem a necessidade da aquisição de caríssimos abadás e luxuosas fantasias. A alegria e a fantasia devem estar em nós mesmos, em nosso imaginário e em nosso espírito. Evoé, Baco! E boas cinzas, nesta Quarta-Feira de Cinzas.

9 de março de 2011

domingo, 7 de junho de 2026

O SEXO DOS ANJOS

 

Imagem elaborada pela IA GPT

O SEXO DOS ANJOS


Elmar Carvalho

 

Que temos a ver

com o sexo antisséptico

dos inatingíveis e intangíveis

anjos das hostes celestiais?

Que temos a ver

com os anjos machos e fêmeas

de falos decepados e de

vaginas obturadas?

(A ânsia por asas e

a sede de infinito.)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MATÉRIA VERSUS ESPÍRITO

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MATÉRIA VERSUS ESPÍRITO


Elmar Carvalho

 

Fui ao Tribunal de Justiça, na sexta-feira, tratar de vários assuntos, um dos quais de meu interesse funcional. Ao entrar no gabinete da presidência, além do presidente Edvaldo Moura, encontrei o des. João Menezes da Silva, que também presidiu a corte de Justiça do Piauí. Trata-se de cidadão afável, educado, e que sempre me foi muito simpático, desde o meu início na magistratura.

 

Disse-lhe que estava requerendo meu abono previdenciário, em virtude de minha permanência na atividade. Há vários meses completei tempo de serviço e idade para aposentar-me, uma vez que comecei a trabalhar aos dezenove anos, quando ingressei na ECT e posteriormente na extinta SUNAB, sem sofrer a interrupção de um dia sequer, em minha prestação laboral.

 

O des. João Menezes, a sorrir com gosto, ao saber de minha pretensão, e sabendo que também me dedico às letras e à cultura, indagou-me por que eu desejava a gratificação, uma vez que eu, por ser poeta, deveria viver de brisa e de coisas etéreas e espirituais, e não de bens financeiros e econômicos. Respondi-lhe que o poeta poderia dispensar as coisas materiais, mas que a sua família precisava de alimentos e outros bens concretos, inclusive dinheiro. Por fim, expliquei ao bom magistrado João Menezes, que era o juiz que sustentava o poeta, encarnado na mesma pessoa física, que sou eu mesmo.

 

Dizem que o intelectual Eduardo Prado, ao contemplar verdejante campo, teria perguntado a sua mulher Alice, em criativo jogo de palavras: “De que ali se vive?” Conta a lenda, que ela, imediatamente, teria respondido com outro trocadilho em torno do nome do marido: “É do ar do prado”. Não podendo eu, ao contrário de Alice, mesmo cultivando as coisas espirituais, viver apenas de brisa, espero seja o meu abono deferido.

8 de março de 2011