segunda-feira, 10 de julho de 2017

DEPOIMENTO SOBRE GERVÁSIO PIRES DE CASTRO NETO

Alcenor visto por Gervásio
Gervásio em autorretrato, retratando o poeta Elmar Carvalho


DEPOIMENTO SOBRE GERVÁSIO PIRES DE CASTRO NETO

Alcenor Candeira Filho

     Natural de Parnaíba-PI (1950),  Gervásio Pires de Castro Neto  foi morar a  partir de 1965 no Rio de Janeiro, onde vive até hoje.
     Foi na “Cidade Maravilhosa”, onde estudei de 1966 a 1971, que me tornei seu amigo. Lá alguns parnaibanos costumavam encontrar-se em fins de semana para “beberipapos”. Nesse tempo Gervásio chegou a escrever alguns poemas, mas logo descobriu que a sua verdadeira vocação artística era para o desenho, revelando-se grande caricaturista.
     Acredito que se Gervásio Neto houvesse ao longo da vida tentado conciliar a profissão de bancário com uma atividade artística mais constante, divulgando trabalhos através de jornais, revistas, internet e exposições, - teria hoje um número bem maior de admiradores. Mas ele sempre foi avesso a holofotes. Só desenha quando quer, nunca por obrigação ou dever.
     Já retratou com mágicos traços humorísticos  vários parnaibanos, como o ex-prefeito José Hamilton Furtado Castelo Branco, o músico Weber Mualem de Moraes, o desenhista Fernando Antônio Melo de Castro, o escritor Carlos Henriques de Araújo, o desenhista  Francisco de Assis Lemos, conhecido como Guerreiro, e muitos outros.
     À sua arte devo as capas de dois livros de minha autoria: TEORIA DO TEXTO E OUTROS POEMAS e SELETA EM VERSO E PROSA.
     Quem vê o artista vestido sempre de calça e camisa pretas, com o inseparável boné também preto, poderá imaginar que ele vive de luto, ensimesmado,  macambúzio, sorumbático. Mas isso não passa de aparência. Quem conhece bem o Gervásio Neto sabe que ele adora conversar, especialmente em rodadas de cerveja em bares e botecos modestos. Discorre com  desenvoltura  sobre assuntos gerais, opinando, argumentando, concordando, discordando. Enfim, um cidadão bem in/formado, que não abre mão das próprias convicções.
     Na juventude, em períodos de férias escolares, eu e ele participamos em Parnaíba de um bloco carnavalesco denominado “Negro Gato”. A turma só entrava nos clubes (AABB e Igara) ao som da música  “O Negro Gato”, de Roberto Carlos, executada em ritmo de carnaval. Não lembro se à época, fins dos anos 60, Gervásio Neto já se trajava todo de preto, como não sei se a mania pela indumentária  da cor da noite de lua e de estrelas ocultas no blecaute de nuvens espessas nasceu a partir do “Negro Gato”.
     Gervásio Neto re/criou  na sua especialidade de desenhista as vinte e cinco personagens poeticamente retratadas por Elmar Carvalho no livro POEMITOS DA PARNAÍBA.
     O caricaturista não conheceu pessoalmente várias dessas personagens, mas as caracterizou fidedigna e artisticamente através de traços e cores a partir dos perfis poéticos criados por Elmar Carvalho. O trabalho do artista plástico revelou-se tão valioso quanto o do artista da palavra, na medida em que, fiel ao exemplo deste, expressa aspectos físicos e morais das personagens que desfilam no livro.
     Um dos fatos mais marcantes de meus tempos de Rio de Janeiro ocorreu no dia em que eu, Gervásio e outros parnaibanos fomos presos no sombrio ano de 1970, episódio que me levou a escrever um texto – “Prisão de Parnaibanos no Rio de Janeiro - , publicado  em blogues/portais piauienses e inserido no livro de minha autoria POLÍTICA E OUTROS TEMAS PARNAIBANOS.
     Em final de tarde de um sábado, os parnaibanos fomos levados em três viaturas policiais (fuscas) com sirenes ligadas e barulhentas à delegacia da rua Bambina, em Botafogo.
     Após enfadonhos depoimentos, todos fomos liberados sem necessidade de habeas corpus, com direito a imediata comemoração em bar  próximo da delegacia.
     Nunca nos envergonhamos nem nos vangloriamos da ocorrência: afinal de contas não éramos heróis e fomos detidos por pouco tempo - no máximo sete horas - , não pela prática de ato delituoso mas pelo simples fato de havermos “entrado de gaiatos no navio” ou de estarmos “no lugar certo em  hora errada”.
     O lugar era “certo” porque se tratava do apartamento do 11º andar em que moravam os parnaibanos Weber Mualem de Moraes, Antônio Dutra (Cambel) e os irmãos Benedito, Paulo e João Paulino Soares. O minúsculo  apartamento  era um dos lugares de reunião de nossa turma nos finais de semana e por isso eu, Gervásio Pires de Castro Neto, Raimundo Furtado de Mendonça Neto (Raimundinho Arraia) e Arnaldo Prado lá nos encontrávamos como visitantes.
     Nessas visitas costumávamos tomar os primeiros copos  de cerveja para, em seguida, com a chegada da noite, vagar de bar em bar até o amanhecer, porque gostávamos de ver o sol nascer no vazio da cidade maravilhosa.
     Se o lugar era “certo”, o momento foi “errado”, porque ninguém esperava a chegada repentina de Antônio Dutra, o Cambel, inteiramente fora de si, furioso, desafiador, provocador, insultando o tempo todo os irmãos Soares. Lembro-me de uma panela com ovos no fogão e de Cambel ameaçando jogar nos desafetos a água que nela fervia. Ele bradava: “Aqui só respeito o Noba, porque joguei botão na casa dele várias vezes e sempre perdia”. Nunca se soube se Cambel estava drogado. Mas sem dúvida estava transtornado. Chegou a agredir fisicamente os irmãos Soares, que reagiram moderadamente, na medida suficiente para dominar ou domar o agressor. Em verdade, todos tínhamos as mesmas parnaibanas raízes e éramos amigos.
     Mas Cambel estava possesso. Mesmo depois da surra que  levou, começou a jogar da janela do apartamento garrafas vazias de cerveja no pátio do edifício. Os vizinhos ligaram, e logo viaturas da polícia estacionaram em frente do prédio. Os policiais entraram no pequeno apartamento com armas na mão e gritando: “Todos com as mãos na parede”. E visitantes, moradores e apartamento foram minuciosamente revistados. Nenhuma droga foi encontrada. Em seguida, todos fomos algemados: eu junto com Gervásio, Raimundinho com Arnaldo, Benedito com Paulo, enquanto Cambel e João Paulino foram algemados sozinhos.
     Na delegacia da rua Bambina, prestamos depoimentos até de madrugada. Do momento de meu depoimento lembro a indumentária quase carnavalesca do delegado: camisa manga comprida amarela/corrupião, gravata verde/pavão  e calça preta/urubu. Não fitei os sapatos nem meias, mas os cabelos compridos  com rabo de cavalo jamais me sairão das retinas.
     Ao saber que eu fazia o quarto ano de direito, disse: - Você está começando muito bem a vida de advogado. Cuidado. Pare com essa cachaça e vá estudar.
     Em seguida, o delegado passou a inquirir Gervásio Neto.
     Naquele fim de semana Gervásio se despedia dos amigos. Iria na semana seguinte para Curitibanos para assumir emprego no Banco do Brasil. Naquele momento, portanto, ele não trabalhava nem estudava. E o delegado:
     - O que você faz na vida?
     - Já compro feito.
     - E seu dinheiro cai do céu?
     Tudo esclarecido, Gervásio foi liberado, o que aconteceria com os demais.
     Funcionário aposentado do Banco do Brasil S.A., Gervásio Neto é filho de Francisco José Pires de Castro e Maria Antônia Melo de Castro. Casado com Ana Maria com quem tem duas filhas: Vanda e Natacha.                                                                                                   

domingo, 9 de julho de 2017

Lançamento de livros em Campo Maior

Dra. Liege Cavalcante, vice-prefeita de Campo Maior, Dr. Raimundo Lima, Elmar Carvalho e Daniele, representante do SENAC

Sobre o lançamento de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro em Campo Maior, vejam os links abaixo:

https://luselenedecampomaior.blogspot.com.br/2017/07/lancamento-de-livros-em-campo-maior-por.html

http://www.campomaioremfoco.com.br/noticia/5233/LITERATURA:-Romance-com-a-historia-de-Campo-Maior-na-decada-de-1970

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Lançamento de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro em Campo Maior


O SENAC/Campo Maior convida para o lançamento dos livros Histórias de Évora (romance) e A Menina do Bico de Ouro (infanto-juvenil), respectivamente da autoria de Elmar Carvalho e Raimundo Lima, conforme convite acima.

O primeiro será apresentado pelo professor, poeta e romancista Dílson Lages Monteiro e o segundo, pela romancista e cronista Lara Larissa. O Dr. Domingos José de Carvalho discorrerá sobre a Campo Maior dos anos 1970/1980 vista em Histórias de Évora.

O convite é extensivo a todos os interessados em literatura.

A Évora do romance é uma cidade fictícia, porém inspirada na Campo Maior e Parnaíba dos anos 1970/1980.  

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Comentário sobre Histórias de Évora


Caro irmão amigo Elmar.

Com alegria e prazer recebi o livro HISTÓRIAS DE ÉVORA. Li vários de seus capítulos no seu Blog e, creia, muitas vezes me vi inserido no contexto de algumas passagens, relembrando a minha adolescência em Teresina. Em outras passagens parecia estar vendo paisagens de sua querida Campo Maior, algumas da Parnaíba e, além mais, Piracuruca que visitei algumas vezes nas férias escolares quando meu saudoso pai, Hermes Dias Pinheiro, era Chefe do Posto Fiscal da Secretaria de Estado da Fazenda, no povoado Alto Alegre, Naquela época, dizia-se que a finalidade da fiscalização era para inibir o contrabando de cera de carnaúba para o vizinho estado do Ceará, de cujo porto marítimo era exportado para a Europa e Estados Unidos como produto da terra alencarina. Bons tempos, belos dias banhando nas águas dos rios Parnaíba, Piracuruca e Jenipapo, aprendendo a nadar precocemente. Aprendi, também, a dançar, diga-se de passagem, não muito bem, como soe acontecer até hoje, apesar das boas mestras que tive, incluindo as primeiras namoradas.

Tenho certeza que, agora, irei devorar o seu livro comprazer e nostalgia da aurora da minha vida que os anos não trazem mais, com a permissa vênia do grande vate do romantismo brasileiro Casimiro de Abreu.

Os afazeres da inatividade levam a culpa do atraso da minha manifestação.
Com o abraço do seu leitor e admirador.

Orlando Martins Pinheiro

Teresina, 04.07.2017.

AOS QUE SE DESILUDIRAM COM A LITERATURA E A VIDA LITERÁRIA


AOS QUE SE DESILUDIRAM COM A LITERATURA E A VIDA LITERÁRIA

Cunha e Silva Filho

          É com  tristeza que, de quando em quando,  vejo   um amigo  me dizer que um colega deixou  a literatura de lado; foi  cuidar de outras coisas, de jardins,  de rosa e da vida, que é breve e, como a maré,  não espera por ninguém segundo  um adágio inglês. Um vez,  li, numa história sintética da literatura norte-americana,  que uma grande poeta de lá, ao final da vida,  lamentou-se mais ou menos nestes termos: “ Oh, como  perdi tanto  de minha vida  pessoal  por causa  da literatura! Por que não dei  mais valor à vida, à minha vida, que é muito mais  importante do que a literatura?”
       Quando um  escritor,  amante dos livros e da escrita, desiste pela afastamento,  em vida, da literatura,  o faz pelo suicídio, conforme ocorreu com Ernest  Hemingway( 1898-1961) e com outros autores do mundo  inteiro. É muito  lamentável que  possa acontecer isso, mas, ao mesmo tempo,  quem somos nós para   penetrarmos  nos  recônditos da alma do artista, a fim de reprovarmos o que faça com o que mais  - assim  o pensamos -   lhe deu  prazer  na vida? Adiante  vou  tentar  levantar algumas hipóteses.
       Uma delas seria  a constatação de que o autor   nada tinha mais a  escrever, ou que     o fazia porque  achava que teria dito  por escrito tudo  aquilo  que queria. Para outro  autor,  seria  por falta  de   força de   criatividade, ou seja,  porque o poço secou. Se tentasse mais,  qualquer  livro seria repetitivo  ou  teria  uma qualidade inferior  a obras anteriores.
      Cada escritor tem sua história de desistência e uma delas seria  a confirmação de que o sucesso nunca chegaria à sua porta. Por que insistir naquilo que  não lhe daria satisfação  e sentido de realização plena? Perderia, assim, a crença  na sua individualidade  artística,  i.e.,   deixaria de representar   qualquer uma  daquelas cinco  soluções para o conceito  de literatura formulado  por Raúl Castagnino, na obra Qué es literatura? : sinfronismo,  ludismo,  evasão, compromisso e  ânsia de imortalidade.
     É óbvio que ninguém escreve para o vazio,  quer dizer, para não ser lido nem apreciado. Quem escreve  precisa de feedback, de quem lhe dê atenção,  de quem o leia, e o que se nota, hoje mais do que no passado,  é a ausência  de leitores, eles mesmos   com dificuldades  de dar prioridade  a esse ou àquele autor. Quem chegar à ideia de  números de leitores de Machado de Assis, que se dê por satisfeito... Mas que seja  reconhecida  a certeza de que  nenhum  leitor é obrigado a ler  esse ou aquele autor, dentre  de um oceano de   opções, não só  no seu  próprio  país, como  em escala  global. Seja entendido que o que aqui  estou  meramente  especulando   é um terreno  movediço e cheio de susceptibilidades.
     Centremo-nos,  porém, nos dois aspectos  assinalados no título deste artigo. A desilusão do autor, por múltiplas  razões, é uma questão  abissal,  que fere  todo o mecanismo   psicossomático  do autor e, se ele não estiver  armado   de grande força  de  resistência,  sucumbirá   diante da  avassaladora  engrenagem  seja das mídias,  seja  do mundo editorial,  seja  do contexto  intelectual  de cada  país, desilusão com as editoras, todas  quase preocupadas com  os lucros   e fortemente   protegidas   contra  a perda de receitas. Poder-se-ia  perguntar: isso  já havia no passado, diria melhor,  nos anos  vinte,  trinta, quarenta, cinquenta, sessenta do século  passado? Seguramente  que sim.
    Grandes escritores  brasileiros  tiveram que custear  sua  obra de estreia. Manuel Bandeira (1886-1968) foi um deles e assim  por diante. E hoje, a situação se tornou   ainda mais espinhosa e  não mudou  muito.
    Vários escritores jovens ou menos jovens  estão  publicando  livros   por conta  própria, já que, se dependerem  de editoras, das chamadas  grandes editoras,  dos  melhores selos nacionais,  do elitismo  editorial brasileiro,   jamais terão seus livros  lançados. Primeiro,  porque têm que  passar  pelo crivo de  seus conselhos editorais, exigentes  para alguns   autores e flexíveis para outros que façam    sintonia com a sua linha ideológica  e editorial, segundo   porque, posto  ser compreensível,  não desejarão bancar livros que não lhes interessem nem um pouco. Dessa forma,  a despeito  dessas grandes editoras,  os autores  teimam e terminam  bancando com sacrifícios  seus  próprios  livros que, se caírem  no gosto  dos leitores,  poderão  ser  vendidos ou serem encalhados.
   Assim aconteceu comigo e com outros  autores. Por outro lado,  ainda estão vigentes    outras formas de  publicações: as custeadas  por  convênios entre entidades  privadas e públicas,   que nada  custarão aos bolsos  dos autores. Se, contudo,  as obras, agora as estrangeiras,  fazem sucesso lá fora,  aqui são logo  agasalhadas,   traduzidas  e vendidas, mormente se forem  best-sellers, obras de autoajuda e assemelhadas. Tudo isso vai  pesando na consciência  dos autores que se sentem  inferiorizados,  mal prestigiadas até chegar ao ponto de exaustão,  que leva ao desestímulo  e à consequente  desistência  da atividade de escritor.
     Nada há certo  quanto ao destino dos autores  e livros. A história do livro  só atesta algo  insólito: livros antigos, de repente,   são redescobertos  pelos  editores  de hoje e são publicados. A fama que deveriam ter  desfrutado  no tempo de seu  lançamento  só o futuro  caberá  resgatar. Outros  permanecerão  no limbo assim  como a memória  da glória efêmera que já tiveram. A sorte de um livro  é, pois, imprevisível. Só o tempo dirá de autores e obras. No presente, tudo são incertezas,   incompreensões,   injustiças  e silêncios.
    Conscientes de todos essas injunções em torno da literatura, alguns autores de hoje tendem a pensar  em desistir no meio do caminho onde haverá sempre uma pedra como no famoso poema  de Drummond. Não critico  autores e  estudiosos que  se afastam  de seu ofício nem tampouco penso que  sejam  covardes  ao desistirem de seus propósitos e  de seus projetos diante de uma realidade   que lhes é cada  vez mais  ingrata, traiçoeira  e  competitiva.
   De outra parte,  falando da vida literária,  outros tantos  óbices  enfrentarão os autores  menos visíveis, sobretudo aqueles que não formam igrejinhas,  nichos  e grupelhos de   que a vida literária, mais no passado que no presente, se nutriu mais para o lado  do compadrio do que para uma saudável convívio  na comunidade  literária. Ora, quem  estiver  fora  desses  grupos fadados está a ser  deles alijados, seja por entidades culturais, sejam  pelo  mercado  editorial que, além disso,  faz a mediação  entre  autores  por  sua  orientação  ideológica, tanto quanto  se vê também  nas diversas  mídias, não só  nas metrópoles  mais importantes  do  país como também  nas capitais  com  vestígios  ainda  fortes de provincianismos. Sorte têm alguns happy few escritores nacionais  que  ganharam notoriedade  pela alta qualidade de suas obra  e conseguiram  se manter isolados e  avessos  a badalações  criadas  pelo   marketing  de livros  e pelas luzes da ribalta dos novos.
   Ao discutir  a questão  da vida literária,  nos vêm  logo à baila  os vícios  reprováveis  do cabotinismo,  da capadocismo e das traições  literárias, ainda tão comuns entre intelectuais,  principalmente nas capitais menores, como, de resto, foi no passado. Basta ver o que, sobre esse tema, com coragem   e ácida crítica  discorre o historiador  e crítico literário  Afrânio Coutinho num  ensaio  pouco conhecido das gerações de hoje, No hospital das letras.(Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1963,188 p.). Sempre que um país  ainda está preso  a esses  bairrismo,  a essas parti-pris, a essa negação do  real  papel   do intelectual  na vida literária nacional ou  dos Estados, quem perde é a literatura  e a cultura brasileira. 
    Onde existem  estrelismos,  favoritismos,   grupos fechados e elitistas, quer de  academias literárias, quer de academias   de universidades,  sempre  sofrerão os que  estão de fora,  na condição de meros pacientes do aplauso  dos mandarins  da literatura. E a questão da vida literária  não  termina aí, porque,  mesmo  dentro do grupinhos,   das instituições   culturais,  haverá   os  costumeiros   estrelismos  e favoritos, os que se julgam  donos da verdade   no campo cultural  e,  o caso,  no  terreno  da literatura – espaço  onde  grassam a inveja, o despeito,  as picuinhas,  as fofocas,  as  rasteiras, as atitudes  subalternas  de oportunistas,  os falsos,   a competição desleal,  os arrivistas, os que   representam os papéis dos personagens  do conto de Machado de Assis (1839-1908), “Um apólogo,” que compõe os contos da obra Várias histórias, um diálogo cheio de ironias e presunções, entre a agulha e  um novelo de linha,  narrativa ainda tão atual na sua prospecção da natureza da alma humana quando levada à esfera literária, os que se consideram “poderosos” nas decisões de quem  entra ou de quem não entra  nas instituições  que antes  deveriam  servir   tão-só à inteligência,  à produção  e à divulgação democrática do saber, da experiência e do conhecimento.
       Para alguns  autores,  a combinação desses dois aspectos   aqui ventilados é o principal   fator  determinante de    decisões  de alguns intelectuais pela  desistência  de um projeto   de vida ou de sadia convivência na comunidade  intelectual.
     Entretanto,  seria algo utópico  que  nossa vida literária, no âmbito nacional, fosse uma mar de rosas. Os autores se multiplicaram  em proporções gigantescas. A população de leitores também  cresceu ainda que, no caso brasileiro,  sejam ainda baixos os índices de leitores comparados com países adiantados. Por outro lado,  contraditoriamente,   fecharam-se  nos últimos anos várias grandes livraras e os sebos foram liquidados  pela sebo virtual, como serve de exemplo a Estante Virtual.
     Da mesma forma,  cresceu visivelmente o mercado de livros didáticos,  sobretudo  de livros  estrangeiros. E ainda para manter  a contradição, várias pequenas editoras  surgiram  no país. Dessa maneira,  aponta-se um outro   elemento  na questão entre  autores  e vida literária: esta sofreu  o impacto fortíssimo  do espaço virtual,  dos sites, dos blogs,  dos e-books, dos meios  virtuais com  informações  que podem  armazenar   quantidades  enormes  de obras  da grande literatura  universal que caíram  no domínio público.
     Todo esse novo e trepidante  instrumento virtual ao nosso alcance desencadeou  novas formas de vida literária vindo a misturar  o mundo real e o virtual. Só que, desta vez,  como ilhas  independentes, dispersas,   impessoais,   modificando profundamente os velhos hábitos de antiga vida literária,  sobretudo daqueles  encontros tão comuns    de escritores, alguns vindos de outras partes do país,   na Livraria São José, anos  1940, 1950, para citar um só  exemplo, num  Rio de Janeiro mais calmo e menos volátil.       

domingo, 2 de julho de 2017

Seleta Piauiense - Rodrigo M Leite


nenhuma sereia serena

Rodrigo M Leite (1989)

à margem do rio terra vermelha noite açafrão
aceito o convite proposto pelo céu
um caminho de constelações acesas meu corpo
vaga o lume das estrelas
uma embarcação à deriva
à procura dos mistérios envoltos nas cercanias do capinzal
a noite adensa provocações e convites
embalo das águas vai-mas-vem das canoas
cricrilar dos grilos
baldio  entre brumas
namoro os aspectos fugidios
assombros vaporosos atrás de arbustos
assobios de seres estranhos imaginários
ninfas vulneráveis zanzando névoa eu selvagem
córrego de signo esfomeado pela quinta
onde galhas ferem meu curso
semiárido de quebradiça
pele agreste    

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Francisco Dias de Siqueira - O Apuçá


Francisco Dias de Siqueira - O Apuçá

Reginaldo Miranda
Historiador e membro da APL

Foi Francisco Dias de Siqueira, por muitos anos, o mais antigo colonizador do Piauí, aonde chegara no verão de 1662, como um dos líderes de uma bandeira paulista que devassou a bacia do Poti, fundando um arraial com o nome de Santa Catarina, que deu origem à cidade de Valença do Piauí, e onde permaneceu por largos anos.
Era ele natural da vila de São Paulo, onde nascera provavelmente no ano de 1641, filho primogênito de Francisco Pires de Siqueira, cidadão de São Paulo, onde ocupou importantes cargos públicos, falecido com testamento em 8 de abril de 1671 e de sua esposa Helena Dias (f. 1669), com que casara na matriz de São Paulo, em 6 de fevereiro de 1640; era neto paterno do português Francisco de Siqueira, natural da vila de Caminha e de sua esposa Ana Pires de Medeiros, falecida em São Paulo, com testamento, em 4 de maio de 1668; neto materno do casal paulista Custódia Gonçalves e Francisco Dias, este filho de Pedro Dias, que foi jesuíta leigo, e de sua segunda esposa, Antônia Gomes da Silva, natural de Braga, em Portugal. Francisco Dias de Siqueira possuía duas irmãs, Ana Maria de Siqueira e Ana Pires (LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarquia Paulistana. São Pauli: USP, 1980).
Desde cedo Francisco Dias de Siqueira, abraçou o mesmo sonho de seu conterrâneo Domingos Jorge Velho, ingressando ambos nas mesmas bandeiras e, mais tarde, seja por morte do capitão de uma delas, seja por vontade própria, se fizeram líderes de uma partida de paulistas, trilhando os íngremes sertões, até atingirem a bacia do Poti, ou do rio dos Camarões, nos Sertões de Dentro. Ali esses bandeirantes fundaram o poderoso arraial já mencionado e que, denunciando a origem de seus moradores, ficara mais conhecido como “Arraial dos Paulistas”. Também, o maior rio desse território, que antes possuía os nomes indígenas de Pará, Paraguaçu ou Punaré, sendo também chamado por europeus, que o desconheciam, de Rio Grande dos Tapuias, foi por esses bandeirantes denominado de Parnaíba, em homenagem à vila de onde partiram.
Francisco Dias de Siqueira e seu sócio Domingos Jorge Velho, viveram por largos anos caçando índios para venderem-nos como escravos na faixa litorânea de Pernambuco e Bahia. Porém, parece que, com o tempo, foram se distanciando, atuando Jorge Velho mais para os sertões do Poti, Longá, Ibiapaba e nas extensas áreas da Paraíba e Pernambuco, ao passo que Dias de Siqueira passou a atuar no sul do Piauí e Maranhão, inclusive nos sertões de Parnaguá, onde depois de alguma luta e despesa conseguiu fazer as pazes com as nações Guacupês e Ananás, abrindo, assim, a possibilidade de comunicação entre S. Luís do Maranhão e a Bahia. Em face desse e de outros serviços úteis à Coroa, por ele praticados nos últimos quatorze anos em que atuara no território piauiense, durante o verão de 1676 foi pedir favores na Bahia. Então, a Junta Trina de Governo Provisório do Estado do Brasil, com sede na Bahia, antevendo a possibilidade do descobrimento de minas auríferas, inclusive da lendária lagoa dourada, além da implantação de fazendas no novo território, louva seu feito pelas “grandes utilidades que se podiam seguir ao serviço de Deus, na redução daquelas almas, e no de Sua Alteza, na comunicação dos Estados do Maranhão e Brasil”. E, por essa razão, a 1º de fevereiro de 1677, concede-lhe a patente de capitão-mor e administrador dos índios, cuja amizade conquistara. Juntamente, conseguiu as patentes de capitão de infantaria da ordenança para seus imediatos João Costa e Francisco Dias Peres, além de três arrobas de pólvora e oito de balas.
Por esse tempo, Francisco Dias de Siqueira se destacava pelos inumeráveis serviços prestados à Coroa nos Sertões de Dentro, tendo, inclusive, feito incursões pelo vale do rio Tocantins, em perseguição a indígenas. Esses feitos de repercussão surpreenderam o governo do Maranhão, que, em represália, promoveu as entradas de Afonso Rui(1676) e Vital Maciel Parente(1679), ambas de quase nenhum resultado prático.
Prosseguindo nessa atividade incessante, Francisco Dias de Siqueira, conhecido entre os seus por “Apuçá”, que significa “surdo”, na língua tupi, foi nomeado pelas autoridades baianas, em 1692, como imediato de João Raposo Bocardo para, no Ceará, Rio Grande e adjacências, buscar pérolas, prata e outros minerais. Contudo, porque Bocardo desaparecera, será esse “legítimo piratiningano da era seiscentista”, sempre incansável quem vai executar a incumbência, sem muito proveito. Porém, mais tarde, já desiludido dessa missão, retorna por S. Luís do Maranhão, onde obtém munições e mantimentos do governador Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho, para reprimir índios de corso e abrir caminho para a Bahia. Todavia, não demora a ser denunciado por extorsão a fazendeiros e índios catequizados. De outra feita, já havia prestado serviços ao governo do Maranhão, no frustrado combate aos Caiscaís.
Em 1697, há registro do padre Miguel de Carvalho, de que o capitão-mor Francisco Dias de Siqueira residia num arraial de tapuias, com os quais fazia entrada ao gentio bravo, possuindo algumas plantas de mandioca, arroz, milho, feijão, batatas e bananeiras voltados para o próprio sustento. Era o mencionado “Arraial dos Paulistas”, a única povoação existente no Piauí, naquele tempo. Em 11 de fevereiro desse ano esteve presente na fazenda Tranqueira, residência de Antônio Soares Touquia, na reunião que elegeu o lugar para a construção da nova matriz do Piauí, hoje cidade de Oeiras. Odilon Nunes se refere à sua presença nessa reunião como sendo “provavelmente o mais antigo morador do Piauí e o homem mais poderoso daquelas redondezas” (Pesquisas... p. 60).
Algum tempo depois, durante o governo de D. João de Lencastre, são remetidos alguns paulistas do S. Francisco para subjugarem os índios rebeldes do Maranhão, a pedido de seu governo e sob autorização do Conselho Ultramarino. Entre eles, mais uma vez parte Francisco Dias de Siqueira, ajudado por João Pires de Brito e Amaro Velho, no combate ao ameríndio.
Depois dessa entrada, já sexagenário, retira-se para a Bahia, onde falece, deixando rico cabedal, viúva e uma única filha: Joana Corrêa de Siqueira(3ª do nome), natural de São Paulo, que fora casada com Garcia Rodrigues Paes Betim, falecido em 1719, em Pitangui, deixando quatro filhos. A esposa de Francisco Dias de Siqueira, também era chamada Joana Corrêa (2ª), falecida 20 de abril de 1714, natural da vila de Santos, filha de Simão Rodrigues Henriques (f. 1656) e de Joana Corrêa (1ª), natural da Bahia.
É provável que o óbito do capitão-mor Francisco Dias de Siqueira, na Bahia, tenha se dado antes de 1704, porque em dezembro desse ano, quando Jerônima Cardim Fróis, viúva de Domingos Jorge Velho, e mais treze signatários, requerem, em forma de extensa sesmaria, as terras da bacia do Poti, não firma ele o requerimento. Também, na exposição de motivos que justificam o direito dos signatários não há referência ao seu trabalho no lugar – testemunhado pelo padre Miguel de Carvalho –, forte indício de que se indispusera com o antigo companheiro Domingos Jorge Velho, dividindo a liderança e a tropa dos paulistas. Assim pensamos porque, mesmo falecido, seus atos de posse poderiam reforçar o pleito dos requerentes, embora gerassem direitos à viúva e a herdeira única, que retornaram para São Paulo, depois do óbito do patriarca da família.
Enfim, foi esse paulista o principal devassador do sul do Piauí, com larga folha de serviços prestados à Coroa Lusitana, tendo chegado ainda no alvorecer da juventude e permanecido até às vizinhanças da morte. Seus feitos não foram devidamente reconhecidos, embora maiores do que o de outros que figuram com maior grandeza nas páginas de nossa história.   

quarta-feira, 28 de junho de 2017

DEPOIMENTO SOBRE JOSÉ GUIMARÃES CASTELLO BRANCO

Fonte: Google

DEPOIMENTO SOBRE JOSÉ GUIMARÃES CASTELLO BRANCO
                                     
Alcenor Candeira Filho

     Conheci o primo José Castello em 1954, quando ele, contando dois anos de idade, visitou Parnaíba em companhia dos pais e irmã, todos hóspedes de meus avós paternos e de minha mãe.
     Conservo até hoje fotografias batidas nessa viagem. Mostrei-lhas quando ele visitou novamente Parnaíba em 2008, já na condição de jornalista e escritor consagrado nacionalmente,  com o propósito de colher informações e vivenciar emoções a partir do passado de  seu pai José Ribamar Castello Branco, que aqui morou na mocidade e que é personagem central do livro que estava escrevendo – RIBAMAR, com que viria a ganhar o prêmio Jabuti de 2011 na categoria de romance.
     RIBAMAR é uma fusão de ficção e de memórias biográficas que focaliza o conturbado relacionamento entre pai e  filho.
     Uma das fotos mostradas a José Castelo e na qual aparecem o futuro escritor, seu pai, sua mãe e sua irmã é tão reveladora que foi evidenciada no livro. Examinando atentamente o velho retrato, o escritor descobre que já existia ali o conflito entre pai e filho:

            “A fotografia está fosca, as cores fraquejam, as imagens
            se dissolvem. Ainda assim,  ela lateja em minhas mãos. Emite
            outro tipo de luz: aquela em que o passado resiste, como  um destino.
            Aos dois anos de idade, magro e desconfiado, já sou o
            estranho que você conheceu e de quem se afastou. Está tudo
            ali,  para que  mais? Para que escrever um livro?”(p. 163/164).

     Essa penosa busca de reconciliação por meio de um mergulho no passado do falecido pai é que levou José Castello a voltar a Parnaíba, trazendo o “projeto insano” de recuperar o passado do pai, “uma loucura, uma estupidez, um livro” (p. 47), não um livro “sobre” o pai, mas um livro “através” do pai (p. 136).
     A falta de sintonia entre pai e filho, principal fio condutor da narrativa, já existia entre pai e avô do autor, Lívio Ferreira Castelo Branco, apontado no romance como intelectual  medíocre não só pelo neto escritor mas também pelo próprio filho Ribamar, que declara ao entregar a José Castello um velho caderno com poemas publicados na imprensa de Parnaíba nos anos 20: “São bobagens de meu pai. Por mim, vão para o lixo”(p.119).
     Quer dizer, o autor se vê de repente diante de uma herança maldita, “diante de uma duplicação. Mais uma.  Um segundo abismo, agora entre você e seu pai, repete o desfiladeiro que nos separa. Um destino grafado no sangue, uma herança genética – algo de que não conseguimos escapar” (p. 119).
     Desconhecendo o fato acima, aqui em Parnaíba mostrei a José Castello uns poemas de seu avô, e ele de forma direta, curta e grossa como se diz no Piauí: “Péssimo poeta, já sabia disso desde criança, quando meu pai me entregou velhos papéis com poemas do vovô Lívio, com a recomendação de que os jogasse no lixo”.
     O duro e azedo julgamento do neto sobre os escritos do avô paterno se manifesta ostensivamente em várias páginas do livro:

            “Não me interesso pelos sonetos de meu avô, pomposos,
            com rimas odiosas, estúpidas exaltações de civismo. Um deles se
            chama ‘Progressos’, mas a linguagem do passado destrói tudo”
                                    (p.120).

            “Dois pseudônimos: João do Mato e Sabino Ferreira.
            Dois mantos que meu avô (...) usou para se esconder. Suas
            crônicas na imprensa, assinadas com os nomes falsos eram
            medíocres” (p. 267).

     Essa história de pseudônimos usados pelo avô do romancista não é ficção, como prova o ALMANAQUE DA PARNAÍBA de 1929, que registra o falecimento de Lívio em 05.02.1929 durante um baile de carnaval no Cassino 24 de Janeiro e traça-lhe o perfil moral, político e intelectual, ressaltando ter sido ele “como literato, um poeta espontâneo  e gracioso, que com os apelativos de João do Mato e Sabino Ferreira deixou crônicas que marcaram época no nosso meio intelectual”.
     Confesso que as opiniões críticas apresentadas no romance RIBAMAR, embora sinceras e verdadeiras, me fizeram ter pena de meu bisavô, que sempre considerei um poeta tolerável para leitores de boa vontade e que indiquei para patrono da cadeira nº 28 da Academia Parnaibana de Letras.
     Algumas pessoas da família Castelo Branco não gostaram do premiado romance, achando-o amargo e ofensivo ao pai do autor e à família. Atribuo esse julgamento, com o qual não concordo por entender que das 278 páginas do livro o personagem central sai é engrandecido,  a uma impressão apressada e superficial de leitura.
     Também foi vítima desse mal entendido familiar o publicitário e escritor Renato Pires Castelo Branco por causa de seu romance TEODORO BICANCA, em que se confundiu um tipo sociológico genérico, o Coronel, fruto de um quadro histórico, com a pessoa de seu tio – coronel Belarmino Pires.
     No Salão do Livro do Piauí – SALIPI, em 2011 ou 2012, fui a Teresina para ouvir a palestra de José Castello sobre o romance RIBAMAR. Após a palestra e com a palavra dirigi-me ao palestrante não com uma pergunta como seria natural, mas com um depoimento que talvez naquele momento só eu pudesse dar entre os presentes. Reportei-me ao fato de que alguns membros da família Castelo Branco detestaram o romance. E como parente e sobretudo por ter conhecido pai e filho, concluí: “Acho que RIBAMAR é o tipo de romance de que eu como pai e personagem muito me orgulharia”.
     No livro INVENTÁRIO DAS SOMBRAS, José Castello conta que no Rio de Janeiro, novembro de 1974, vinte e três anos de idade, enviou um conto para Clarice Lispector, com endereço e telefone juntos na esperança de que ela viesse a retornar. Passado um bom tempo de silêncio, eis que “o telefone toca e uma voz arranhada, grave, se identifica: ‘Clarrrice Lispectorrr’, diz. Ela entra logo no assunto: ‘Estou ligando para falar de  teu conto’, continua )...) ‘Só tenho uma coisa para dizer: você é um homem muito medrrroso (...). E com medo ninguém consegue escrever’” (p. 19). Que grande conselho!
     É provável que RIBAMAR seja o tipo de livro de ficção que Clarice Lispector gostaria que José Castello escrevesse. Nele ou através dele percebe-se que  o autor realizou uma grande obra porque a escreveu após libertar-se das amarras do medo a que se refere a autora de LAÇOS DE FAMÍLIA.
     A exemplo de Mário de Andrade, que, à falta de melhor classificação para a extraordinária obra MACUNAÍMA, chamou-a de rapsódia. José Castello classifica seu livro como romance, “porque não sei o que ele é”, conforme declarou na dedicatória do exemplar a mim destinado. Transcrevo toda a dedicatória por ser bastante esclarecedora do que pensa o escritor sobre a própria obra em que trabalhou exaustivamente durante quatro anos:

           Querido Alcenor,
           Curitiba, 15-set.-10
           Vai aqui o livro que consegui escrever. Não procure  a
           verdade nele, porque ela só aparece de forma esmaecida.
           Não é uma biografia, não é um ensaio, não é uma
           confissão, não é um livro de viagens.
           Eu o chamo de ‘romance’ porque não sei o que ele é.
           Você aparece escondido na figura do tio Antônio.
           Minha gratidão.
                José Castello”

     RIBAMAR é uma obra fortemente influenciada pelo escritor tcheco Franz Kafka, como se vê nas páginas iniciais: “Meu mal tem uma origem precisa: sou obcecado por Franz Kafka. Não que eu o inveje ou deseje ser como ele. Também não o odeio e, com algum esforço, reconheço sua grandeza. Meu problema é que não consigo parar de pensar em Kafka” )p.11).
     O livro de Kafka tão presente no romance não é o mais  famoso dos que escreveu – METAMORFOSE – mas talvez o mais profundo de todos – CARTA AO PAI – que Ribamar no Dia dos Pais do ano de 1973 recebeu com esta dedicatória: “Para o  papai com um beijo e o amor do filho José” (p.21).
     Assim como o pai do genial escritor tcheco jamais leu a  CARTA AO PAI, “livro que,  refém do medo, Franz preferiu entregar à mãe, Julie, e não ao pai” (p. 22/23), também o exemplar dessa carta adquirida por acaso numa papelaria de Copacabana e dado pelo filho ao pai no Dia dos Pais nunca foi lida, tendo sido encontrada muito tempo depois num sebo do Rio de Janeiro.
     E como as cartas que não chegam a seu destino são as “que se perpetuam” (p. 276), na hora de deixar Parnaíba e de fechar as malas, pagar a conta do hotel e voltar para casa, o escritor fecha o grande romance:

         “Antes de pegar a estrada, preciso passar no correio.
         Tenho uma carta a despachar. Esta carta, a você, meu pai.
         A atendente me olha perplexa: ‘Falta o endereço’.
         Eu respondo: ‘Ponha aí um destino qualquer’” (p. 278).

     José Castello, carioca, radicado em Curitiba, é crítico literário, biógrafo, jornalista e romancista. Como cronista já trabalhou em diversos jornais e revistas: O Globo, O Estado de São Paulo, Isto É, Veja , etc..
     Autor de vários livros, destacando-se RIBAMAR, VINÍCIUS DE MORAES: O POETA DA PAIXÃO: UMA BIOGRAFIA, INVENTÁRIO DAS SOMBRAS, DENTRO DE MIM NUNGUÉM ENTRA, NA COBERTURA DE RUBEM BRAGA, A LITERATURA NA POLTRONA.   

Café Literário


Data: 28 de junho
Horário: 18:30 horas
Local: Livraria Anchieta (Av. N. S. de Fátima, 1557)

terça-feira, 27 de junho de 2017

MOMENTO DE AMOR, NATUREZA E CRIANÇA


        
MOMENTO DE AMOR, NATUREZA E CRIANÇA

Valério Chaves – Des. inativo do TJPI


         A história da literatura piauiense viveu um de seus grandes momentos no dia 16 de junho deste ano quando do lançamento de dois livros de autores piauienses versando sobre temas ligados à saudade, à ficção, ao meio ambiente, a beleza da arte, da natureza e da infância.

         Trata-se de “Histórias de Évora” de autoria do juiz e poeta Elmar Carvalho“; e “A Menina do Bico de Ouro”, de autoria do também juiz de direito Raimundo Lima, cuja solenidade de apresentação ocorrida na Livraria Entrelivros, contou com a presença de expressivas figuras identificadas com a arte e a literatura do nosso Estado.

         “Histórias de Évora”, que recebi com muito agrado, é um livro bem escrito em cada frase - desses que agarram o leitor da primeira à última página porque tem começo, meio e fim mesclando ficção do erotismo, amor e saudade no sentimento  do autor e nas paisagens humanas do interior.

         Elmar Carvalho, pelas suas virtudes literárias, pelo acerto e ritmo no desenrolar das “Histórias de Évora”, utiliza aguçada sensibilidade de poeta para retratar sua amada dentro de uma paisagem cidadina de muitas 'histórias, fumaça e tradição”, e de tantos outros cenários com nomes rimados em “a”, sem contudo deixar escapar o cultivo da arte. Afinal, fazer literatura é também uma forma de refazer o mundo da realidade e da ficção sem desgarrar do indescritível espaço da criação artística, do senso crítico e da beleza.

         Da visita que fiz da primeira à última página de Histórias de Évora, tive como recompensa: a magia de histórias narradas de mãos dadas com lugares nos quais se inseriu o autor em passeio pelo território da delicadeza sob um céu aberto pela manhã do coração.

         Por sua vez,“A menina do Bico de Ouro” propiciou-me outra saborosa emoção.
     
       O autor, apesar de ser um estreante confesso no gênero da literatura infantojuvenil, soube manipular com leveza dialética dos clássicos, personagens como a criança, árvore, abelha, morcego, macaco, raposa e rato nos diálogos e nas experiências diretas com a natureza, e propicia através delas uma visão ecológica das relações que concebe o mundo como um todo integrado na teia da vida entre o real e o imaginário.

          Raimundo Lima, em seu livro, nos convida a uma reflexão sobre um dos aspectos mais importantes do processo transformador da infância e, ao mesmo tempo, nos adverte que ainda é tempo para que sacudamos a onda da ignorância diante da tendência equivocada a achar que a preservação ambiental não é uma responsabilidade nossa.

         Enfim, é um livro que eu gostei de  ler porque me transmitiu lições profundas e diretas com a natureza e com o mundo, como expresso nos versos do poeta Pedro Bandeira:


         Eu sei que aprendo nos livros
         Eu sei que aprendo no estudo
         Mas o mundo é variado
         E eu preciso saber tudo.

         Se eu me fecho lá em casa
         Numa tarde de calor
         Como eu vou ver  uma abelha
         A catar pólen na flor ?

         Mas se tudo o que fizeram
         Já fugiu de sua lembrança,
         fiquem sabendo o que eu quero:
         Mais respeito eu sou criança !
        

         Nada mais gratificando para o artista do que o aplauso da plateia.

         Por isso, Elmar Carvalho e Raimundo Lima, pela emoção que souberam transmitir aos seus leitores, merecem ser aplaudidos de pé.

         Fecho a cortina mandando parabéns para os dois encenadores da literatura piauiense.   

segunda-feira, 26 de junho de 2017

HISTÓRIAS DE ÉVORA LANÇADO EM PARNAIBA

Elmar Carvalho e Manuel Domingos Neto

Gallas, Elmar, Fátima e Freitas



Com a presença de autoridades, intelectuais, membros da Academia Parnaibana de Letras de religioso e da sociedade parnaibana foram lançados na última sexta-feira 27, no auditório do SESC Avenida o livros Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro.  O primeiro de autoria do poeta Elmar Carvalho e o segundo de autoria do escritor  Raimundo Lima.


               
Histórias de Évora é um romance com personagens vividos em Évora uma cidade fictícia mas que muito se assemelha com Parnaíba, Campo Maior, Barras etc., enquanto que A Menina do Bico de Ouro  (infanto-juvenil) é um resgate à literatura infantil com fábulas, histórias originalmente brasileiras, (nordestinas)  hoje tão escassas na literatura nacional.

 Após composta a mesa de honra o presidente  do sistema FECOMÉRCIO, o advogado Valdeci Cavalcante fez a abertura da solenidade. Em seguida a apresentação das obras.  O sociólogo e historiador Manuel Domingos Neto fez a apresentação de Histórias de Évora e o escritor José Pedro de Araújo Filho representando na oportunidade o professor Jônathas Nunes, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras apresentou A Menina do Bico de m Ouro.

                 Enquanto os autores autografavam os livros, um farto coquetel era servido aos convidados.


                 Revestiu-se de grande sucesso o lançamento em Parnaíba dos livros História de Évora e A Menina do Bico de Ouro.

Fonte: Blog do Professor Gallas

O Porto das Barcas, esse filho enjeitado da Parnaíba (*)

Fonte: Google

O Porto das Barcas, esse filho enjeitado da Parnaíba (*)

Pádua Marques

Estou pra ver história mais comprida e sem fim essa do complexo do Porto das Barcas, aquele amontoado de casas velhas, esfarinhando de podres ali na região do centro dito histórico, entre o bairro do Carmo e a avenida Presidente Getúlio Vargas, tido e havido como o lugar onde estava armada a rede que balançou a menina chamada Parnaíba e que não tem quem não saiba que mais dia menos dia está com os dias contados.

Agora o Governo do Estado do Piauí quer retomar pra si a administração do dito complexo depois de anos e mais anos sob a responsabilidade da Associação Comercial e Industrial de Parnaíba. Pelo que se sabe a associação já vinha há vários anos mantendo de forma precária, como diria, capengando mesmo, a administração daquele amontoado de prédios, mas segundo argumenta a diretoria da entidade, sem recursos pra promover uma restauração à altura. Tirando o exagero, sem dinheiro pra comprar uma vassoura.

Pouco ou quase nada foi feito que desse uma feição de coisa importante, segura, digna e que imprimisse aos olhos de turistas, autoridades e aos pouquíssimos comerciantes ali estabelecidos noção de coisa que preste pra ser chamado um, respeitadas as proporções, um centro cultural e de eventos. Realmente a cada dia que passa a situação no Porto das Barcas fica pior. Nesses anos todos o que houve e muito foi remendo novo em fundo de calça velha. E remendo novo em fundo de calça velha sempre corre o risco de se deixar um dia a bunda de fora.

Aquele, como diriam de boca cheia de farinha ou de cuscuz alguns parnaibanos mais metidos a importantes, complexo cultural do Porto das Barcas, nunca atendeu, no meu entendimento, às exigências de conforto, segurança e até mesmo estética a eventos de médio ou grande porte. E agora me vem a informação de que depois de ser em 2013 entregue à responsabilidade da ACIP por documento do então governador Wilson Martins, o governo de Wellington Dias quer retomar pra si a administração de toda a área. Que mal comparando é a nossa Pompeia e em alguns lugares parece mais o Coliseu.

Essa história de vai pra lá e vem pra cá me lembra aquela história de filho enjeitado. Aquele menino maluvido, duro de rédeas, rebelde até pra tomar um banho e que um dia vai pra casa da avó e semanas depois volta pra casa da mãe. Aquele menino que é criado na ponta do pé e do relho entre os outros irmãos. O chamado filho de criação. Passa um dia cá e dez lá. E quando volta de lá pra cá, volta pior do que estava cá. Lembra o personagem Banana, de meu livro A Rua das Flores, o primeiro a ser publicado graças à benevolência de alguns amigos.

Banana, o apelido de José Domingos, irmão de Antonio Francisco, este criado pelo quitandeiro Quintanilha, depois de todas as tentativas pra ser colocado nos trilhos da vida pelo irmão Tonico, que até o colocou numa escola, acabou se perdendo com as más companhias ali pelas bandas do bairro São José e entre os motoristas e engraxates da praça da Graça. Estava livre pra se perder no mundo.  Assim é o Porto das Barcas. Já aconteceu de um tudo naquela margem de rio e entre aqueles escombros. Nem é bom de recordar, pois é coisa de dar até arrepios. Deve ser praga de Mundoca, a personagem resmungona de Beira Rio Beira Vida.

Sinceramente a gente espera, mais uma vez, que tomando pra si uma responsabilidade que é sua, o Governo do Estado agora coloque gente responsável, aplique recursos e dê destinação através de um amplo e viável projeto de restauração praquele monte de prédios que estão a cada dia se deteriorando. Faz vergonha aquilo ali. Mete medo passar numa calçada daquelas.

E se o governador Wellington Dias deseja mesmo dar sentido a seu projeto de governo em relação à Parnaíba, que entregue este projeto e a administração pra alguém compromissado com coisa bem feita. Porque se é somente pra fazer fita e se aproveitando de um momento lembre ele que Parnaíba e mais precisamente aquele complexo do Porto das Barcas faz tempo que anda coçando as costas e o pé da barriga.

Porque se é pra retomar da Associação Comercial e Industrial de Parnaíba e depois colocar uma pedra em cima, melhor deixar do jeito que está caindo aos pedaços. Porque esse negócio de mandar menino passar dez dias na casa da vovó e um dia depois ele vem pra casa da mãe pior do que foi, melhor entregar pra, como se dizia antigamente, no tempo em que não havia esse negócio de Estatuto da Criança e do Adolescente, entregar pra o juiz. 

(*)( Pádua Marques é jornalista e escritor. Este artigo foi escrito e publicado em 30 de outubro de 2015.   

sábado, 24 de junho de 2017

Histórias de Évora em dois bilhetes internéticos


Após seu concorrido lançamento no Teatro do SESC Avenida, o romance Histórias de Évora já se encontra à venda em Parnaíba, na Livraria Harmonia e na Banca do Louro, ambas situadas na Praça da Graça, ao preço de apenas R$ 20,00.

Caríssimo poeta, acabei de devorar o seu ótimo "Histórias de Évora".

Com um senso de humor invejável e apurado erotismo, jamais imaginável em um homem presumivelmente pudico e recolhido à vivência exclusivamente matrimonial, vc me  fez reviver um passado bem parecido, cheio de brincadeiras, namoricos, cachaçadas, festas, incursões aos saudosos lupanares  e demais entretenimentos de nossos tempos de antanho.

Na verdade, vejo que o poeta guardou grande gama de conhecimentos práticos acumulados em uma vida muito bem vivida numa Évora bem real, kkkkkkk.  

Seu passeio por Carlos Gonzaga, Nelson Gonçalves, Márcio Greik, Vespasiano Ramos, Humberto de Campos, Castro Alves e o clássico Beethoven, nos deliciou com a mistura do clássico com o popular. Ao transcrever uma estrofe de Castro Alves sobre olhos negros, senti falta apenas e tão somente da menção a "Seus olhos", do meu conterrâneo e superior poeta romântico, Gonçalves Dias, que aliás, poderia também ter sido citado quando da descrição dos "Olhos verdes" da loira esbelta, retilínea que tanto encantou o nosso Marcos Azevedo, vista anos depois com uma filhinha de cinco anos de idade.

Lógico que este não é um comentário de um crítico literário, mas apenas de um leitor de pouca cultura, que se viu nas linhas dessa divertida novela, digna de encômios!  

Edison Rogério Leitão
Juiz de Direito

Resposta de Elmar Carvalho:  

Caro amigo Edison Rogério,

Fiquei deveras satisfeito com seu comentário acima, por que não dizer embevecido.
Foi no âmago e na essência do romancinho.

Você observou tudo muito bem, o que demonstra que de fato você vivenciou essa bela época, e fez "prosopopeias" parecidas com as do nosso bravo Marcos.

Você lembrou com muita propriedade o nosso imenso Gonçalves Dias. Tive que podar um pouco as citações e as intertextualidades para não ser acusado de excessos nesses aspectos.

Também reduzi o número de casos picantes que poderia ter contado, para que os "críticos" moralistas não dissessem que encharquei meu livro de erotismo, embora seja a sexualidade parte da vida, ou melhor, o estopim da própria vida.

Você deve ter notado que eu "castiguei" a lourinha linda e presunçosa do início do livro, que quis esnobar o nosso bravo Marcão.

Aliás, tive um amigo escritor que leu as páginas iniciais de Histórias, o qual me perguntou se eu não iria castigar a bela cachopa ou ninfa eborense. Ele falou isso quase me instigando a fazê-lo, cobrando mesmo.

Respondi-lhe que já estava pensando nisso. Na época eu pensava em fazê-la uma decadente prostituta de nossos exemplares congressistas.

Mas fiquei com pena dela, e mitiguei o castigo, da forma que o amigo deve ter visto.

Muito obrigado pelas suas belas palavras e por sua leitura atenta.

Abraço,


Elmar Carvalho