domingo, 17 de maio de 2026

AUTOBIOGRAFIA

 

Imagem criada pela IA GPT

AUTOBIOGRAFIA


Elmar Carvalho

 

Após seguir os mais ásperos caminhos,

Napoleão avesso, eu próprio me coroei

com uma coroa de cravos e espinhos.

Subi montes, rompi charcos,

atravessei grutas sem luz,

com os ombros esmagados

ao peso de férrea cruz.

Em noites de névoas e luares

sofri e cantei perdido nos lupanares.

Em dias de sol escaldante e incandescente,

fui casto Dante

e Baudelaire delirante e indecente,

pelas tardes mornas de ressacas e orgias.

No Olimpo a que subi em busca

dos mitos, à procura de Zeus,

pregaram-me numa cruz onde

puseram irônica tabuleta: “Rei dos Judeus”.

Por frígida e pálida manhã,

envolto em solidão e neblina,

rasguei e perdi minha toga purpurina.

Cheio de ódio e de amor,

sorvendo taças e mais taças

de bebida balsâmica e malsã,

nos bordéis de Eros, nos templos de Pã,

e nos palácios dourados de Mefisto,

onde sucumbo e resisto,

no meio de mentira e desengano,

fui Satã,

fui Cristo,

fui Humano.

 

Te. 17.11.95 – 04:25h

2 comentários:

  1. O verso final (“fui Satã, fui Cristo, fui Humano”) é o verdadeiro clímax: depois de invocar demônio e divindade, o poeta conclui que sua identidade mais profunda é justamente a humanidade - contraditória, pecadora, sublime, miserável, desejante e sofrida. Poema profundamente literário, carregado de referências culturais e movido por uma visão trágica, contraditória e intensamente humana da existência.
    Aécio Nordman

    ResponderExcluir