O GUERRILHEIRO, O POETA E O
MÉDICO
Elmar Carvalho
Por precaução e em virtude de
achar que já estava havendo sinalização de que eu poderia estar com tendência
para um início de hipertensão, fui consultar-me com o dr. Itamar Abreu Costa,
meu conhecido há um bom tempo. Trata-se de um médico humanitário, de um bom ser
humano, cordato e educado. Logo a gente percebe que ele gosta do que faz,
porquanto ele exerce sua profissão com alegria, com presteza e dedicação,
satisfeito por estar prestando um benefício a seu semelhante. E todo aquele que
se realiza em sua profissão, que a exerce com entusiasmo é um felizardo, porque
o trabalho torna-se uma bênção, ao passo que, para o que a exerce apenas por
obrigação, apenas por causa do dinheiro, o trabalho é um fardo pesado,
enfadonho, convertendo-se numa espécie de penitência e maldição.
Vi, nas estantes de seu
consultório, várias imagens de santos, quase como se ali fosse uma espécie de
oratório, o que talvez seja também. Indaguei-lhe a respeito. Respondeu-me que
sua mulher Edilane, diretora do ITACOR, é uma católica praticante e fervorosa,
descendente de uma senhora piedosa, que contribuiu para o soerguimento da
igreja matriz de N. Sra. dos Humildes, padroeira de Alto Longá, onde ambos
nasceram. Mas vi também, destacando-se entre os livros e as imagens, duas
placas metálicas com os retratos de Che Guevara e Pablo Neruda, o que revela o
lado “guerrilheiro” de Itamar, na busca talvez utópica de uma sociedade mais
justa, mais igualitária, mais fraterna, pois, como se sabe, os dois ícones eram
homens de esquerda.
O primeiro, herói da revolução
cubana, tendo lutado em Sierra Maestra, até a vitória final, com a instauração
do governo de Fidel Castro, era médico, como o nosso bravo Itamar Costa. O
segundo, além do altíssimo poeta andino que foi (e digo andino em sentido
literal e metafórico), com versos que ainda hoje me encantam e enternecem, foi
também político no Chile, sua terra natal, tendo apoiado o governo de esquerda
de Salvador Allende. Portanto, os dois retratos são significativos e bem
apropriados, porquanto Itamar, além de médico, como Guevara, é também um ser
cultural e telúrico, como Neruda, tanto que é o dinâmico presidente da Academia
Longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia – ALLCHE.
Quando, alguns anos atrás, levei
meu filho João Miguel para ser consultado por Itamar, ele me disse a sorrir,
com seu jeito bonachão:
– Quer dizer que você confia em
me entregar o coração de seu filho?
Disse-lhe que sim. Desta feita
fui logo lhe advertindo que, à revelia de minha preocupação, o meu histórico
era bom, porquanto minha pressão sempre fora normal e meus pais sempre tiveram
bom coração, tanto no sentido fisiológico, como no simbólico, posto que são
pessoas saudáveis e de boa índole. Ele sorriu e me passou uma bateria de
exames; falta-me fazer o derradeiro.
Coloquei o coração de meu filho
em suas mãos. Agora, nelas coloquei o meu próprio. Aguardemos o resultado dos
exames e o vaticínio do oráculo, que, no caso, é o próprio Itamar Abreu Costa,
com suas vestes brancas de esculápio e sua farta barba de profeta.
16 de março de 2011

Homenagem tão bela quanto merecida.
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