quinta-feira, 4 de junho de 2026

MATÉRIA VERSUS ESPÍRITO

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MATÉRIA VERSUS ESPÍRITO


Elmar Carvalho

 

Fui ao Tribunal de Justiça, na sexta-feira, tratar de vários assuntos, um dos quais de meu interesse funcional. Ao entrar no gabinete da presidência, além do presidente Edvaldo Moura, encontrei o des. João Menezes da Silva, que também presidiu a corte de Justiça do Piauí. Trata-se de cidadão afável, educado, e que sempre me foi muito simpático, desde o meu início na magistratura.

 

Disse-lhe que estava requerendo meu abono previdenciário, em virtude de minha permanência na atividade. Há vários meses completei tempo de serviço e idade para aposentar-me, uma vez que comecei a trabalhar aos dezenove anos, quando ingressei na ECT e posteriormente na extinta SUNAB, sem sofrer a interrupção de um dia sequer, em minha prestação laboral.

 

O des. João Menezes, a sorrir com gosto, ao saber de minha pretensão, e sabendo que também me dedico às letras e à cultura, indagou-me por que eu desejava a gratificação, uma vez que eu, por ser poeta, deveria viver de brisa e de coisas etéreas e espirituais, e não de bens financeiros e econômicos. Respondi-lhe que o poeta poderia dispensar as coisas materiais, mas que a sua família precisava de alimentos e outros bens concretos, inclusive dinheiro. Por fim, expliquei ao bom magistrado João Menezes, que era o juiz que sustentava o poeta, encarnado na mesma pessoa física, que sou eu mesmo.

 

Dizem que o intelectual Eduardo Prado, ao contemplar verdejante campo, teria perguntado a sua mulher Alice, em criativo jogo de palavras: “De que ali se vive?” Conta a lenda, que ela, imediatamente, teria respondido com outro trocadilho em torno do nome do marido: “É do ar do prado”. Não podendo eu, ao contrário de Alice, mesmo cultivando as coisas espirituais, viver apenas de brisa, espero seja o meu abono deferido.

8 de março de 2011

4 comentários:

  1. É, doutor Elmar. Não é fácil poetar com os dependentes de barriga vazia.

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  2. Inolvidável que de ar se vive, porém, não só de ar se vive!
    O pão e o vinho, usado como política romana para acalentar o plebe, também é necessário para sustentar o sábio.
    A sua resposta à inquietante pergunta do saudoso Magistrado foi de uma perspicácia igualável tão somente à observada na resposta da esposa do vate Eduardo Prado.
    Embora não use palavras homófonas, escafedeu-se da "armadilha" com a sutileza e sagacidade própria de quem usa o verbo como esgrima, escudo e instrumento de labor!
    Os anos passados de lá para cá não tiveram o condão de marear o brilho da sua lúcida resposta.
    Fernando Rocha

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