sexta-feira, 24 de julho de 2026

O FAMIGERADO SNI E EU

 

Foto antiga da Praça da Graça, vendo-se o prédio da ECT. A foto foi melhorada pela IA GPT.


O FAMIGERADO SNI E EU

 

Elmar Carvalho

 

Uns trinta dias atrás, o escritor, jurista e historiador Marcelino Leal Barroso de Carvalho, meu professor no curso de Direito e meu confrade na APL, perguntou-me se eu havia sido fichado no SNI. Respondi-lhe que não tinha conhecimento disso.

 

Coincidência ou não, há quatro dias recebi, por WhatsApp, um arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI), enviado pelo historiador parnaibano Jedson Martins, no qual, a meu respeito, constava o seguinte:

 

“b. Após o Comício [de Luís Inácio da Silva – Lula], foi realizada uma reunião na residência do estudante JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO (líder estudantil e PT/PARNAÍBA), onde o mesmo recebeu orientações para a organização do PT:

 

1. Buscar apoio de grupos já existentes na área, como, por exemplo:

 

- Pessoal do Movimento Contra a Carestia;

- Pessoal das Pastorais da Terra;

- Pessoal das Pastorais da Juventude;

- Pessoal dos Encontros de Casais;

- Os movimentos eclesiais de base; inclusive foi ressaltada pelo LULA a importância dos movimentos eclesiais de base, por trás dos quais aconselhou que se articulasse todo o trabalho de conscientização popular, com o respaldo da Igreja.”

 

Essa parte que me diz respeito até me faz lembrar um célebre ironista que, dirigindo-se a um enciclopedista, teria dito:

 

— Cavalheiro, a sua definição seria perfeita, se não fosse por três exceções: caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda para trás.

 

O trecho que transcrevi acima está eivado de inverdades ou de meias verdades. Não desejando assumir um protagonismo que não tive, outra alternativa não me resta senão esclarecer os fatos, dentro da verdade, como passo a fazer.

 

A aludida reunião, que, segundo o CIE/SNI, teria acontecido em 30/08/1980, após o comício, não ocorreu em minha casa. Na época, eu morava com meus pais e mais seis irmãos no apartamento funcional da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), de, no máximo, 110 metros quadrados. Além da limitação do espaço, meu pai jamais permitiria uma reunião de política partidária nesse apartamento, uma vez que era o chefe da ECT em Parnaíba, e isso poderia acarretar-lhe graves consequências.

 

Eu não era e não poderia ser filiado ao PT de Parnaíba, como consta do documento acima referido, uma vez que meu título eleitoral pertencia à Zona Eleitoral de Campo Maior. Em 10/08/1982, passei a residir em Teresina e, após essa mudança, transferi meu título de eleitor para esta capital. Aliás, a bem da verdade, devo dizer que nunca fui filiado a partido político algum.

 

Quanto às recomendações que teriam sido feitas diretamente a mim, não tenho qualquer lembrança delas, nem poderia aceitá-las, muito menos cumpri-las, pois era servidor da ECT, trabalhando em expediente duplo, inclusive aos sábados (no turno da manhã), e, à noite, frequentava o curso de Administração da UFPI – Campus Ministro Reis Velloso.

 

No segundo semestre do ano anterior (1979), na qualidade de presidente do Diretório Acadêmico "3 de Março", do mesmo campus da UFPI, discursei no grande comício que marcou o retorno do ex-governador Chagas Rodrigues (Francisco das Chagas Caldas Rodrigues), após o término da suspensão de seus direitos políticos.

 

Fui um dos primeiros a falar, no coreto da Praça da Graça, onde se encontravam os demais oradores, entre os quais Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Almino Afonso e Miguel Arraes, próceres do MDB nacional. Entre os piauienses, estavam presentes João Mendes Nepomuceno, Celso Barros Coelho, Roberto Broder, José Alexandre Caldas Rodrigues e, claro, Chagas Rodrigues, a grande estrela do comício, que, poucos anos depois, foi eleito senador.

 

Em meu discurso, falei das mazelas da época, entre elas o cerceamento das liberdades, o Decreto-Lei nº 477, as eleições indiretas para presidente da República e governador, bem como da escassez de recursos destinados à educação. Vários oradores fizeram referência às minhas palavras.

 

Eu morava na Praça da Graça e tinha apenas vinte e poucos anos de idade. Não sei se esse fato também foi parar em alguma ficha ou relatório do SNI. Sei que, poucos anos depois, mais precisamente em 10/08/1982, quando assumi o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços da SUNAB, exigiram que eu apresentasse uma certidão de bons antecedentes expedida pelo DOPS. E eu a apresentei.

 

Consta que o general Golbery do Couto e Silva, um dos idealizadores e chefe do SNI, em conversa privada, teria dito, em referência a esse órgão:

 

— Criamos um monstro.

 

Por fim, devo dizer que nunca fui ouvido em inquérito policial, nem mesmo na condição de testemunha. E dou muitas graças a Deus por isso.

Um comentário:

  1. Texto rico para entendermos mais sobre um período nefasto que alguns loucos ainda gostam de endeuzar.

    ResponderExcluir