| Foto antiga da Praça da Graça, vendo-se o prédio da ECT. A foto foi melhorada pela IA GPT. |
O FAMIGERADO SNI E EU
Elmar Carvalho
Uns trinta dias atrás, o escritor, jurista e historiador
Marcelino Leal Barroso de Carvalho, meu professor no curso de Direito e meu
confrade na APL, perguntou-me se eu havia sido fichado no SNI. Respondi-lhe que
não tinha conhecimento disso.
Coincidência ou não, há quatro dias recebi, por WhatsApp, um
arquivo do Serviço Nacional de Informações (SNI), enviado pelo historiador
parnaibano Jedson Martins, no qual, a meu respeito, constava o seguinte:
“b. Após o Comício [de Luís Inácio da Silva – Lula], foi
realizada uma reunião na residência do estudante JOSÉ ELMAR DE MELO CARVALHO
(líder estudantil e PT/PARNAÍBA), onde o mesmo recebeu orientações para a
organização do PT:
1. Buscar apoio de grupos já existentes na área, como, por
exemplo:
- Pessoal do Movimento Contra a Carestia;
- Pessoal das Pastorais da Terra;
- Pessoal das Pastorais da Juventude;
- Pessoal dos Encontros de Casais;
- Os movimentos eclesiais de base; inclusive foi ressaltada
pelo LULA a importância dos movimentos eclesiais de base, por trás dos quais
aconselhou que se articulasse todo o trabalho de conscientização popular, com o
respaldo da Igreja.”
Essa parte que me diz respeito até me faz lembrar um célebre
ironista que, dirigindo-se a um enciclopedista, teria dito:
— Cavalheiro, a sua definição seria perfeita, se não fosse
por três exceções: caranguejo não é um peixe, não é vermelho e não anda para
trás.
O trecho que transcrevi acima está eivado de inverdades ou de
meias verdades. Não desejando assumir um protagonismo que não tive, outra
alternativa não me resta senão esclarecer os fatos, dentro da verdade, como
passo a fazer.
A aludida reunião, que, segundo o CIE/SNI, teria acontecido
em 30/08/1980, após o comício, não ocorreu em minha casa. Na época, eu morava
com meus pais e mais seis irmãos no apartamento funcional da Empresa Brasileira
de Correios e Telégrafos (ECT), de, no máximo, 110 metros quadrados. Além da
limitação do espaço, meu pai jamais permitiria uma reunião de política
partidária nesse apartamento, uma vez que era o chefe da ECT em Parnaíba, e
isso poderia acarretar-lhe graves consequências.
Eu não era e não poderia ser filiado ao PT de Parnaíba, como
consta do documento acima referido, uma vez que meu título eleitoral pertencia
à Zona Eleitoral de Campo Maior. Em 10/08/1982, passei a residir em Teresina e,
após essa mudança, transferi meu título de eleitor para esta capital. Aliás, a
bem da verdade, devo dizer que nunca fui filiado a partido político algum.
Quanto às recomendações que teriam sido feitas diretamente a
mim, não tenho qualquer lembrança delas, nem poderia aceitá-las, muito menos
cumpri-las, pois era servidor da ECT, trabalhando em expediente duplo,
inclusive aos sábados (no turno da manhã), e, à noite, frequentava o curso de
Administração da UFPI – Campus Ministro Reis Velloso.
No segundo semestre do ano anterior (1979), na qualidade de
presidente do Diretório Acadêmico "3 de Março", do mesmo campus da
UFPI, discursei no grande comício que marcou o retorno do ex-governador Chagas
Rodrigues (Francisco das Chagas Caldas Rodrigues), após o término da suspensão
de seus direitos políticos.
Fui um dos primeiros a falar, no coreto da Praça da Graça,
onde se encontravam os demais oradores, entre os quais Ulysses Guimarães,
Franco Montoro, Almino Afonso e Miguel Arraes, próceres do MDB nacional. Entre
os piauienses, estavam presentes João Mendes Nepomuceno, Celso Barros Coelho,
Roberto Broder, José Alexandre Caldas Rodrigues e, claro, Chagas Rodrigues, a
grande estrela do comício, que, poucos anos depois, foi eleito senador.
Em meu discurso, falei das mazelas da época, entre elas o
cerceamento das liberdades, o Decreto-Lei nº 477, as eleições indiretas para
presidente da República e governador, bem como da escassez de recursos
destinados à educação. Vários oradores fizeram referência às minhas palavras.
Eu morava na Praça da Graça e tinha apenas vinte e poucos
anos de idade. Não sei se esse fato também foi parar em alguma ficha ou
relatório do SNI. Sei que, poucos anos depois, mais precisamente em 10/08/1982,
quando assumi o cargo de Inspetor de Abastecimento e Preços da SUNAB, exigiram
que eu apresentasse uma certidão de bons antecedentes expedida pelo DOPS. E eu
a apresentei.
Consta que o general Golbery do Couto e Silva, um dos
idealizadores e chefe do SNI, em conversa privada, teria dito, em referência a
esse órgão:
— Criamos um monstro.
Por fim, devo dizer que nunca fui ouvido em inquérito
policial, nem mesmo na condição de testemunha. E dou muitas graças a Deus por
isso.

Texto rico para entendermos mais sobre um período nefasto que alguns loucos ainda gostam de endeuzar.
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