segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Poema Amarante musicado

Imagem criada pela IA GPT


LETRA (poema): Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.

Música.

LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.

Música.

LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.


https://suno.com/s/yy9jQt2lV4HNur54 

domingo, 30 de agosto de 2026

PERDIÇÃO

Imagem criada pela IA GPT

 

PERDIÇÃO


Elmar Carvalho

 

Por mares de sargaços e enganos

perdi-me na rota

de estranhos portulanos

feitos por arcanos d’antanho.

Por causa de lábios

que falavam de amor

seguindo incertos astrolábios

soçobrei nas tormentas

de algum cabo Bojador.

Egresso de Sagres

dancei a Dança dos Sabres

no mapa de meu destino.

Nas garras da ventania

joguei um jogo de morte

em que tudo se perdia.

No derradeiro naufrágio

encontrei enigmas e presságios

nos búzios que no abismo havia.

E tudo se findou

num veleiro encalhado

em mar de absoluta calmaria.

            Te. Dom. 07.10.90 – 3h

sábado, 29 de agosto de 2026

Noturno de Oeiras (poema e melodia)

Charge criada por Gervásio Castro


Música.

LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta).

PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares.

https://suno.com/s/iJQjqhpqGE3B3m30

Música. LETRA: Elmar Carvalho (escritor e poeta). PRODUÇÃO: Luís Alberto - Bebeto Soares. https://suno.com/s/iJQjqhpqGE3B3m30 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA

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FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA


Elmar Carvalho

 

Após cerca de um ano, retornamos ao velho fórum da Comarca de Regeneração, encerrados os serviços de reforma. Na parte da instalação elétrica, um dos interruptores, quando acionado, não desliga a luz, o que parece encerrar algum mistério ou algum erro na execução da rede interna. Por outro lado, disse-me a Lúcia, secretária da Comarca, pessoa séria, discreta, zelosa e dedicada ao trabalho, que por duas vezes observou que o split, embora ela tenha certeza de que o desligou, após o término das audiências, voltou a funcionar, sem ser acionado por mão humana, ao menos deste mundo.

 

Contei o fato ao engenheiro, e um tanto por chiste, disse-lhe temer fosse obra de algum fantasma brincalhão. Ele me respondeu que a ocorrência deveria ser mais bem investigada. A comarca, em sua primeira fase, remonta a mais de século. Daí ser possível que o espectro de um velho magistrado ou de um zeloso serventuário possa ter se ressentido do calor e tenha religado o aparelho de ar-condicionado, para mais confortavelmente executar invisível trabalho, já que não se nota aumento na produtividade.

 

Sei que a Inglaterra é famosa também por causa de seus fantasmas, e que todo vetusto palácio ou castelo que se preze tem os seus habitantes imateriais, que abrem e fecham janelas e portas; que ligam e desligam luzes e torneiras, e existem até os que arrastam correntes por entre ais doloridos. Alguns escritores povoaram seus contos, poemas e romances com personagens vindos do outro mundo.

 

No momento em que eu tratava desse assunto, um servidor municipal, o professor Eudo, contou que em certa casa da cidade um dos moradores ouviu um casal de fantasmas a conversar. O masculino perguntou à mulher se ela não queria tomar banho, tendo ela respondido que não, pois estava com frio. O fantasma/marido, então, retrucou:

– Pois eu vou tomar, pois onde nós estamos faz muito calor!

Logo em seguida, ouviu-se o barulho de água no banheiro. Não se soube ao certo onde o casal estaria, no outro lado do enigma, se no inferno, ou se no purgatório.

 

O que mais me causou espécie foi o fato de que a suposta atividade espiritual teria acontecido durante o dia. Esses fenômenos, historicamente, sempre acontecem à noite, que é mais propícia ao mistério, ao que é escondido, ao que não deve ser revelado. Ao que parece, já não se fazem mais fantasmas como antigamente, assim como também os gatunos parecem ter mudado os seus hábitos. Outrora, os ladrões pareciam ter vergonha de sua “profissão”, e só atuavam à noite, às ocultas ou à socapa. Eram verdadeiros artistas, senão mesmo ilusionistas, a fazer desaparecer objetos dos bolsos dos outros, e trazê-los para suas próprias algibeiras. Eram hábeis em escalar muros, em esquivar-se de cães ferozes e em driblar as armadilhas dos vigias.

 

Hoje, perplexo, vejo que os fantasmas exercem suas atividades à luz do dia e que os bandidos nos assaltam em pleno meio-dia, à vista de todo mundo, como se sua ação fosse um espetáculo, que devesse ser filmado e observado por todos os circunstantes.

6 de abril de 2011            

domingo, 23 de agosto de 2026

MARÍTIMA

 

Imagem criada pela IA GPT

MARÍTIMA


Elmar Carvalho

 

Do mar eu trouxe

o vento que dança

em torno de meus cabelos.

Trouxe este meu cheiro

de sal, mariscos e maresia.

Vaqueiro fui e fazendeiro

de estrelas-do-mar que

subiram ao céu para formar

constelações e galáxias.

Nas pontas agudas de meus dedos

cintilam fogos-de-santelmo.

Meus olhos têm o brilho

que roubei das ardentias.

Os relâmpagos das procelas

pousaram nas minhas mãos

e nelas se aninharam.

Do ritmo do mar eu trouxe

os meus gestos e o meu jeito de falar.

Num lance de búzios

joguei minha cartada final

em que fui anjo terminal.

Do mar eu trouxe a cantiga

do vento na voz dos búzios.

Sobre o dorso de alados cavalos-marinhos

pesquei sereias malévolas que me

encantaram e depois fugiram.

No vai-e-vem das ondas

busquei o meu gesto de

posse e devolução.

Trouxe o meu beijo temperado

no salamargo de suas águas.

Trouxe tesouros sepultos

nas covas do coração.

Com o mar aprendi meu modo

de caravela: meus dedos

são filamentos que machucam

sem querer, que ferem

sem ter por quê.

Trouxe caracóis que se (con)fundiram

com os caminhos labirínticos que trilhei.

Louros, nunca os tive,

exceto algas em meus cabelos.

Arrebatado por navios fantasmas

conheci várias e inefáveis dimensões.

Nadei contra as correntes marinhas,

mas a elas cansado me entreguei,

despojado da púrpura e do cetro

com que havia lutado.

Trouxe do mar as conchas ilusórias

     – multiformes e multicores –

com que minha vida enfeitei.

Mas sobretudo trouxe a vida

na alegria das chegadas

e na tristeza das despedidas.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO

Escritor e magistrado William Palha Dias

            

VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO


Elmar Carvalho

 

No sábado passado, após a reunião ordinária da APL, um grupo de acadêmicos foi visitar o confrade William Palha Dias, que já não frequenta o sodalício por causa de doença. Além deste diarista, faziam parte da comitiva o nosso presidente Reginaldo Miranda, Manoel Paulo Nunes e Manfredi Mendes de Cerqueira. Um pouco depois, chegou o professor José Júlio Martins Vieira, filho do grande poeta Júlio Antônio  Martins Vieira, autor do célebre livro Canto da Terra Mártire, que é uma espécie de épico do calcinado sertão, de nossa agreste e adusta caatinga.

 

Quando fui titular da Comarca de Ribeiro Gonçalves tive a satisfação de sugerir o nome do bardo, que ali havia sido juiz, ao Tribunal de Justiça do Piauí para designar o fórum da remota localidade, em que também foi magistrado o mestre do conto, Fontes Ibiapina, autor de Cidade sem Reboco, que conheci em Parnaíba, onde ele exerceu a magistratura; conheci-lhe também a vasta biblioteca, instalada num sobrado da rua Pedro II. A sugestão caiu em terreno fértil, porque o desembargador Osíris Neves de Melo, então corregedor-geral da Justiça, tinha admiração pelo poeta e apreço pelo seu filho, de modo que foi aprovada por unanimidade.

 

O confrade Humberto Guimarães é filho daquele município, que já foi maior do que o estado de Sergipe, e escreveu a saga de sua gente, entre as quais a obra Um Município do Tamanho do Mundo.  Três acadêmicos fomos juízes nesse rincão: Martins Vieira, Fontes Ibiapina e este escriba. O nosso Palha Dias, embora seja filho de Caracol, tem vários parentes em Ribeiro Gonçalves, tendo sido seu nome dado à biblioteca da Fundação Leôncio Medeiros, criada e dirigida pelo amigo Adovaldo Medeiros.

 

Há mais de duas décadas conheço o escritor Palha Dias, pois desde o início dos anos 1980 passei a frequentar a APL, quando era seu presidente A. Tito Filho. Fui à grandiosa festa de seus oitenta anos de vida. Hoje, ele ultrapassou os noventa. Muitas vezes lhe ouvi a palestra alegre, lhe testemunhei a verve jocosa ao sabor do improviso, e o vasto repertório de casos anedóticos, em que era mestre insuperável.

 

Por ocasião da publicação de seu livro Memorial de um Lutador Obstinado, escrevi um pequeno artigo em que lhe reconheci os méritos de um homem que soube conquistar o seu lugar ao sol, e as suas virtudes de contador de histórias interessantes, sejam verdadeiras ou fictícias. Sua esposa, a professora e escritora Maria das Graças, disse-me que ele é visitado diariamente pelos filhos, o que revela a estima e respeito que eles lhe dedicam.

 

O professor Paulo Nunes, regenerense ilustre, e o Reginaldo Miranda, que se fez regenerense por título de cidadania e por ter se casado com regenerense, lembraram que três juízes da velha Comarca haviam ingressado na Academia Piauiense, no caso, os contistas e romancistas Palha Dias e Oton Lustosa, e este diarista e poeta.

 

Aproveitando o momento evocativo e saudosista, o autor de Geração Perdida, que não tem nada de perdida, porquanto deu filhos brilhantes ao Piauí, entre os quais ele próprio, perguntou-me se eu já fora conhecer as nascentes do Mulato. Respondi-lhe que sim, e que me batizara a mim mesmo, usando uma providencial cuia que levara, ao descer as suas íngremes barrancas, em lembrança dos índios trucidados.

 

Para coroar a visita e a evocação da Vila de São Gonçalo da Regeneração, e seguindo as pegadas do anfitrião, que era, como já disse, um exímio contador de casos anedóticos, o professor Manoel Paulo Nunes, dando-lhe um cunho de quase tertúlia literária, narrou um caso engraçado, com que encerrarei este registro. Mais de meio século atrás, fazer uma viagem, mesmo de carro, de Regeneração a Teresina era quase uma aventura, em virtude das ladeiras, dos areais, dos atoleiros e outros percalços.

 

Na década de 40 e 50 do século passado, poucos regenerenses viajavam a Teresina. Entre esses poucos aventureiros, José Moraes viajou à capital, para resolver algum assunto de seu interesse pessoal, e terminou demorando por cerca de seis meses, o que não era comum na época, a não ser em se tratando de estudantes, que ficavam durante todo o período letivo, só retornando nas férias. Era José Moraes um operoso operário, um homem de sete instrumentos, como se dizia então, ou um polivalente, como se diz hoje. Exercia várias profissões, não sei se todas com a mesma competência, ou se existia alguma de sua especial predileção, de seu mais perfeito domínio.

 

Vendo os costumes e as fatiotas da capital, quando retornou a Regeneração passou a envergar um indefectível terno de linho branco, a combinar com os sapatos igualmente brancos. Depois de algum tempo, começou a relaxar no uso da indumentária, e já nem sempre andava imaculadamente em alvas vestes. Perguntado sobre o motivo do aparente desleixo, respondeu  de plano:

– O meio não “compite” meu esforço!

 

Naturalmente, queria dizer que a sua luta em dar bom exemplo no trajar, como um novo árbitro da elegância, não estava tendo seguidores. Demos, todos, forte gargalhada, e encerramos a visita ao mestre Palha Dias. 

5 de abril de 2011

domingo, 16 de agosto de 2026

PAISAGEM MARINHA

Imagem criada pela IA Copilot


PAISAGEM MARINHA


Elmar Carvalho

 

        Fecho os olhos

e encosto a concha do búzio

                na concha de minha orelha

e escuto o ritmo frenético

                                               do mar

ou lhe ouço o rouco ronco rolado

                de ondas paradas.

Fecho os olhos e escuto

                                               a voz do búzio

e de dentro de sua concha

de cornucópia surgem

ondas, espumas e areias,

peixes, corais e caracóis,

alados cavalos-marinhos

e estrelas-do-mar e do ar

em galáxias de a(r)mar.

                (Meu coração

marinho sonha com sereias,

ilhas, coqueiros e veleiros.)

      De dentro

da concha do búzio

    sai um vento

recendente de maresia

    que me

leva/lava/lavra

como se eu fora um

      fruto do mar. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

HIPERTENSÃO E REBATE FALSO

Charge de Gervásio Castro. Nela, aparecem Gervásio, Elmar e Fernando di Castro.

                    

HIPERTENSÃO E REBATE FALSO


Elmar Carvalho

 

O amigo e grande chargista Gervásio Castro, parnaibano/carioca e flamenguista fervoroso, mandou-me um e-mail, em que diz que circulou notícia em Parnaíba pela qual eu teria tido um problema cardíaco, inclusive havendo sido internado no ITACOR, mas que o Canindé Correia teria esclarecido não ser bem assim; que eu teria tido apenas um aumento da pressão arterial. A verdade é que fiz exames e consulta médica, mas jamais se cogitou de internação.

 

No bilhete internético, no qual se encontra anexada uma excelente charge de sua autoria, o Gervásio me dá as boas-vindas ao Clube dos Hipertensos. Na ilustração, digna dos maiores artistas plásticos do Brasil, estamos retratados ele, seu irmão Fernando Castro, arquiteto talentoso e igualmente chargista da melhor qualidade, e este diarista, já como neófito da agremiação.

 

Em razão disso, liguei para o dr. Itamar Abreu Costa, para saber se, diante do resultado dos exames e do meu histórico, eu já poderia ser considerado um hipertenso, e como tal ser admitido na referida confraria, com direito ao batismo de pelo menos três cálices de vinho tinto. O cardiologista foi peremptório em me desenganar;  não será desta feita que poderei ser iniciado na agremiação, pois eu tive um aumento de pressão, provavelmente por causa de circunstâncias alimentícias, porém não poderia ainda ser considerado um hipertenso.

 

Avisarei o amigo Gervásio Castro de que ele terá de me aguardar um pouco mais, porquanto, segundo Itamar Costa, ainda não alcancei a “pontuação” necessária. Contudo, pensando bem, estou com a leve impressão de que o semáforo da malvada e discreta doença já começa a me acenar com sua luz amarela.

30 de março de 2011

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

domingo, 9 de agosto de 2026

O FAVELADO

 

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O FAVELADO


Elmar Carvalho

 

O favelado, qual filósofo meditava:

sua miséria era tamanha

que tudo enchia e ainda sobrava.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O ÚLTIMO GALO

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O ÚLTIMO GALO


Elmar Carvalho

 

Quando, por uma curta temporada, fui morar na zona rural, passei a prestar atenção no canto dos galos. Ficava alegre ao ouvir esse cantar vibrante, metálico, que parecia uma trombeta anunciando o amanhecer. Ao ouvi-lo, sabia que o dia vinha chegando, e que logo a vida ativa começaria. Com a alvorada dos galos, eu tinha a certeza de que os fantasmas bateriam em retirada, e já não iriam assombrar ninguém. Esses animais, por alguns, são vistos como guerreiros, por causa da crista vistosa, a lembrar um elmo, do bico adunco, como de ave de rapina, e sobretudo por causa dos esporões agressivos, que ferem como punhais, que cortam como esporas, que dilaceram como cilícios.

 

São associados a vigias, por causa da corneta denunciadora de seu canto. Por causa do episódio bíblico, em que Cristo disse a Pedro que este o negaria três vezes, antes que o galo cantasse, naquele dia triste e de mau presságio, parecem denunciar a fragilidade e a pusilanimidade do homem. Por isso, galos metálicos são colocados nos campanários das igrejas, como advertência para que não reneguemos Cristo novamente, ou, talvez, por causa de outro simbolismo que desconheço. Mas sempre significando que devemos manter vigilância sobre nós mesmos. Vigiai e orai para que não entreis em tentação – disse Jesus. O galo, como um sentinela vivo no seu poleiro ou como simulacro de metal nos mirantes ou nas torres dos templos, há de nos lembrar a negação de Pedro e a admoestação de Cristo.

 

Adolescente, creio que ao cursar o antigo ginásio, li o poema de João Cabral de Melo Neto, afirmando que um galo sozinho não teceria uma manhã, mas que sempre haveria a necessidade de outros galos. Foi um dos meus primeiros grandes contatos com a poesia moderna, uma vez que eu já conhecia relativamente bem os poetas do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo. Julgo não ter tido nenhuma dificuldade em interpretar o poema de João Cabral. Entendi bem as suas rupturas sintáticas, as supressões de palavras, como se as frases e os versos estivessem truncados, mas na verdade apenas “enxugando” o texto, através de elipses sem nenhum enigma. Achei criativos e apropriados esses cortes, porém só “materializei” as metáforas há poucos dias.

 

Foi quando, em certa madrugada, ouvi uma alvorada festiva de galos, aqui em Regeneração. As aves, por razão que desconheço, estavam excepcionalmente inspiradas e ativas. Um canto era desferido aqui perto, outro respondia mais além. Um vinha do nascente, o outro parecia estourar no poente; um à esquerda, o seguinte à direita. De repente, a cantiga amiudou, e eu já não sabia ao certo de onde provinha o alvoroço musical.

 

Houve um momento em que os cocorocós pareceram formar uma mesma e única massa compacta, a se entrecruzarem, se “entretendendo” como no poema. Então, em minha mente, o poema se tornou uma imagem, e senti que os cantos formaram fios, que formaram teia; teia, que formou tecido; tecido, que formou tenda; tenda, que formou um circo, onde todos os galos se esgoelavam. Porém, os fios se foram desfiando, se esgarçando, se desfazendo, quando foi minguando o número dos galos que cantavam.

 

Até que o sol estrangulou o canto na garganta do último galo. 


29 de março de 2011                     

domingo, 2 de agosto de 2026

INFLAÇÃO

 

Imagem criada pela AI Copilot

INFLAÇÃO


Elmar Carvalho

 

A inflação está

tão alta que

papel-moeda

virou papel higiênico.

 

E papel higiênico

virou artigo de luxo.