terça-feira, 12 de abril de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



12 de abril

REDES NA VARANDA

Elmar Carvalho

Juntando o fato de que concluí a construção de um quarto e uma varanda na casa nova e de que fiz aniversário neste sábado, resolvi fazer uma pequena comemoração familiar no domingo passado. De Campo Maior vieram meus pais e o José Francisco Marques, meu amigo e filho de um amigo de meu pai. De Teresina, compareceram meu irmão Antônio José, a sua mulher Jesus e mais outros familiares de minha mulher, entre eles a Simone e o seu marido Cesinha. Também compareceu o Didi, que foi o mestre responsável pela pintura dos dois anexos. Armamos umas redes na varanda, de cores variadas, o que dá sempre uma ideia de alegria, de velas ou de flâmulas ao vento. Para aumentar o colorido festivo, o bolo confeitado simbolizava um gramado com o escudo do glorioso Flamengo, com o vermelho e o verde a representarem a vitalidade do sangue e da clorofila.

Fiz questão de inaugurar uma rede que me foi presenteada pelo professor Neto Chuíba, um conterrâneo e amigo. Quando estava, certa ocasião em sua casa/chácara, participando de uma comemoração de sua família, o Neto, na empolgação do momento, prometeu-me a rede, manufaturada artesanalmente por uma tia sua. Pedi-lhe para que não levasse a sério a promessa, e, portanto, não a cumprisse. Mas quando foi dois meses atrás eis que ele me entrega o mimo. Constatei que ele é um homem de palavra, que gosta de cumprir o que promete, mesmo quando desobrigado pela pessoa que seria beneficiada. Disse-lhe, então, que ele jamais poderia ser certo tipo de político, sobretudo os falastrões e fanfarrões das falsas promessas, os que prometem como nunca e faltam como sempre. Do aconchego dessa rede, branca como algodão e com a mesma maciez, vi meu pai deitado numa outra, de cor e textura diferentes, porém igualmente confortável.

Resolvi fazer um discurso relâmpago, como chamo essas meteóricas verbalizações ao sabor do improviso. Disse que não costumava comemorar os dias de meus anos, porquanto não via muita vantagem e mérito nisso, já que tudo e todos fazemos aniversário todos os anos, exceto se for pela graça de completarmos mais um ano de vida, o que de qualquer sorte é uma consequência natural de permanecermos vivos. Todavia, observei que era uma grande graça eu completar meio século e mais um lustro com pais vivos, lúcidos e gozando de boa saúde. Agradeço sempre as dádivas recebidas de Deus, e, portanto, demonstrei a minha alegria pelo término da construção.

Mas o que me levou ao trabalho e despesas com essa pequena obra é o fato de que agora já posso trazer parte de minha biblioteca para dentro de minha casa, e consequentemente voltando a ter ao alcance das mãos e dos olhos algumas centenas de livros que amealhei ao longo de várias décadas de esforço e trabalho. A outra parte irei doar a uma biblioteca municipal. Ainda não quero desfazer-me dos volumes que trarei; esses amigos, no seu silêncio, simplicidade e modéstia, me deram prazer, satisfação, encantamento e sabedoria de vida e mesmo da ciência, sem nunca me ferirem e sem jamais me magoarem. Algum dia os doarei a uma biblioteca pública, para que eles, objetos abençoados, sirvam a outras pessoas. Bem-aventurados os que servem, pelo simples prazer de estarem servindo, sem nada pedirem, sem nada desejarem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


“NA VIDA INTEIRA QUE PODIA TER SIDO E QUE NÃO FOI”

Elmar Carvalho

Quando conheci dona Isabel Antunes Linhares já ela tinha mais de setenta anos. As rugas vincavam-lhe o rosto e a coluna dorsal vergava ao peso da idade. Conquanto sóbria em sua conversa, tinha seu senso de humor, e não me pareceu revoltada contra o mundo e a vida. Deu-me a impressão de não ter recalques por causa de sua condição de solteira. Vivia de sua aposentadoria de professora do estado. Na casa, situada no bairro Vermelha existia um jardim, com plantas bem cuidadas por ela, como uma espécie de ocupação e lazer. Uma empregada lhe ajudava a cuidar dos afazeres domésticos.

Não a conhecia. Fui visitá-la, por causa de uma história que um velho amigo me contara. Usei como pretexto o fato de ser jornalista, e que estaria cumprindo uma pauta determinada pelo jornal, o que de fato era verdade. O que não lhe revelei é que a pauta fora sugerida por mim, para que eu pudesse ter a desculpa de conversar com essa solteirona, como dizem, não sem alguma conotação pejorativa, como se esse fato fosse sempre negativo, e não pudesse ser uma decisão pessoal ou mesmo uma espécie de vocação ou inclinação da própria personalidade. Em razão da entrevista, colhi muitas informações sobre ela, que adicionei ao que o meu amigo Artur Moreira Veras me contara, para fazer o relato que segue adiante.

Não agi com pressa. Tomei vagarosamente o cafezinho que ela me ofereceu. Demonstrei interesse por seus móveis antigos e por suas flores, o que de resto é verdade, para lhe angariar a simpatia e confiança. Vi um velho retrato na sala de visitas, colocado numa moldura muito bem trabalhada, com dourados nos cantos, denotando haver sido muito cara. À revelia de ser a fotografia em preto e branco, dava para se notar que se tratava de uma mulher loura e de olhos azuis. Revelou-me ser ela, aos 18 anos de idade.
Desculpe-me a observação, não quero ser impertinente, mas nesse retrato está estampada uma das mais belas mulheres que já vi... – disse-lhe, sem muita ênfase, quase como se fosse uma observação corriqueira, de modo que ela não notasse alguma intensão oculta. Vi um breve sorriso estampar-se em seu rosto, que ainda guardava um pouco da beleza juvenil, e uma luminosidade avivar-lhe o olhar. Devo dizer que ela nada me falou sobre sua vida pessoal. Quanto a isso, era uma perfeita esfinge, como se obedecesse a uma rígida disciplina que impusera a si mesma.

Estamos em meados da década de 1950. Artur Moreira Veras foi substituir um colega que se aposentara, pelo período máximo de seis meses, no Banco do Brasil, agência de Jetirana. Por indicação dos colegas, foi hospedar-se na pensão de dona Carolina Antunes Linhares, que ficara viúva mal completara um ano de casada, a melhor da cidade. Era o único mensalista, já que provinha de muito longe, e só poderia visitar seus pais, com os quais morava na capital, uma vez por mês, na melhor das hipóteses, contando com a boa vontade do gerente, para lhe abonar um dia ou dois de ausência. Funcionário do Banco do Brasil, nessa época, mormente em cidade do interior, era muito prestigiado, e era o que se chamava de bom partido, entendendo-se por isso que era o “sonho de consumo” de toda moça casadoira. Foi-lhe reservado na pensão o melhor quarto, exclusivamente para ele.

Jetirana era uma típica cidade do interior nordestino, com seus preconceitos, dissimulados ou não, com seus moralismos, falsos ou verdadeiros, com suas hipocrisias e maledicências. Tinha dois clubes sociais. Um, da chamada alta sociedade, onde não entravam nem pobres, nem negros. O outro, misturado, como se dizia na cidade. Nessa época, e sobretudo nas cidades interioranas, as moças se conservam virgens até o casamento. Não ficavam a sós com um homem depois das nove horas da noite. Os namoros eram em praça pública, à vista de todos, e geralmente sob a vigilância de algum irmão menor da garota, que tudo enredaria aos pais. Artur logo fez os seus amigos. Todavia discreto, nada revelava sobre sua vida na capital, onde moravam seus pais.

Como o leitor atento já deve ter percebido, Isabel era filha única de Carolina Antunes Linhares, apenas remediada, mas pertencente a família ilustre da cidade. A mãe a mantinha sob severa vigilância, porquanto não desejava que ela caísse na boca do povo, como dizia o jargão. Ia a poucas festas, sempre em companhia das primas. Terminara o antigo científico e se preparava para fazer concurso para professora. Um tanto retraída, não tinha namorado, embora tenha dançado algumas vezes nas poucas festas a que fora, com a ajuda das primas, pois dona Carolina não gostava que a filha fosse a eventos sociais. Com a aceitação de Artur como mensalista, e, portanto, passando os sábados e domingos na pensão, quando não existiam outros hóspedes, em geral pessoas que vinham a negócios e caixeiros-viajantes, dona Carolina redobrou a vigilância sobre a filha, pois, como ela dizia para os seus botões, a situação era de gasolina perto de fogo, ou de fome misturada com a vontade de comer.

Para não cansar o leitor, não entrarei em minudências. O fato é que, inevitavelmente, Isabel e Artur conversaram algumas vezes, sobre os mais variados assuntos. Sabedor de que Isabel se preparava para o concurso de professora e de que tinha dificuldade em matemática, o meu amigo Artur, altamente preparado nessa disciplina, da qual havia sido professor até ser chamado para trabalhar no banco, prontificou-se a lhe ensinar essa matéria em suas horas de folga e nos finais de semana. Ele, que fora considerado um grande professor, esmerou-se nesse mister. Embevecido, contemplava-lhe a beleza do rosto, o azul celestial dos olhos, a delicadeza das mãos a empunhar o lápis e a escrever os algarismos. Excedeu-se em paciência a lhe ensinar as fórmulas e a lhe ministrar exercícios. Com que infinita paciência ele não os corrigia, a lhe mostrar docemente, com sua voz mais suave, onde ela errara... Às vezes, como se fosse por acaso, as mãos se tocavam. No início, ela recolhia as suas. Depois, Isabel fingia que não sentira o leve toque, até que um dias as mãos se entrelaçaram, até culminar, dias mais tarde, com o primeiro beijo.

O que Artur nunca dissera a alguém, muito menos a Isabel, é que tinha uma noiva na capital, da qual fora o primeiro namorado. O mais dramático é que essa noiva tinha apenas 17 anos. O namoro começara quando ela debutara, e era uma esplêndida menina-moça. Com a promessa de casamento e depois com a “oficialização” do noivado, quando Artur pedira Gardênia em casamento a seus pais, o homem conquistou-lhe toda sua confiança, e quebrou-lhe as resistências e os pudores, de forma que passaram a fazer sexo, quando as circunstâncias eram propícias. Porém, Gardênia contou ao noivo que a sua menstruação, que era bastante regular, não viera. Diante do inelutável, Artur, de forma firme e calma, disse-lhe para não se preocupar; que iria marcar com seus pais o casamento para dali a dois meses, quando já teria terminado o seu período de serventia em Jetirana. Cumpriu o prometido e marcou o casamento.

Artur estava quase louco, divido entre a paixão avassaladora por Isabel e o amor pela noiva. Quando o término de seu período de serventia em Jetirana se aproximava do fim, ficou angustiado, quase desesperado, praticamente sem saber o que fazer. Pensou em retornar à capital, sem revelar o seu noivado e casamento, já marcado, à moça. Mas achou que isso era uma tremenda covardia e indignidade. Julgou melhor ir protelando a confissão o máximo possível. Porém, quando foi na quarta-feira da última semana em que ficaria em Jetirana, à noite, quando ficou a sós com Isabel, no momento em que lhe estava a ensinar matemática, de chofre, pois, se parasse para pensar, nunca teria coragem para dizer o que achava ser sua obrigação, contou-lhe toda a verdade, com todas as circunstâncias, inclusive a do início da gravidez de sua noiva. Num impulso, Isabel levantou-se e abraçou Artur com toda força, como louca, quase desesperada, e lhe disse com as lágrimas a lhe escorrer pelo rosto angelical:
Vamos embora, eu largo tudo por você... Vamos para longe, para um lugar em que ninguém nos conheça.
Começou a soluçar e a beijar Artur com sofreguidão. Este, ouvindo o barulho de uma porta, pressentiu que dona Carolina já ia retornar à sala. Desvencilhou-se da moça, e voltou a sentar-se à mesa, e a escrever numa das folhas de papel, como se preparasse um exercício de matemática. Isabel dirigiu-se a seu quarto, para se recompor. Voltou alguns minutos depois, aparentemente refeita. O homem lhe deu uma folha com novos exercícios, e se despediu, recolhendo-se a seu quarto.

No dia seguinte, Artur falou com o gerente e conseguiu antecipar sua viagem para aquela quinta-feira, alegando motivo de saúde de pessoa de sua família. Ao almoço, despediu-se de dona Carolina. Pagou suas contas, acrescentando uma generosa gratificação, que a dona da pensão escrupulosamente relutou em receber. Perguntou-lhe por Isabel, tendo sua mãe respondido que ela fora passar o dia com suas primas, como às vezes fazia.

Nunca procurou ter notícias de Isabel, e nem nunca lhe mandou notícias. Contudo, quando ele me contou essa história, senti-lhe a voz embargar algumas vezes, e notei que seu semblante fora tomado por viva emoção. E lhe vi uma furtiva lágrima escorrer do olho esquerdo. Ele, discretamente, simulou reclinar a cabeça na mão correspondente, e recolheu a úmida denúncia com o anelar, onde estavam duas alianças, sinal de sua viuvez. Para mim, simbolizavam seus dois amores, ambos revividos na saudade, que lhe preenchiam os dias de velhice e solidão. Certamente, pensava no verso de Bandeira, que algumas vezes me repetira, e na sua “vida inteira que podia ter sido e que não foi”.

domingo, 10 de abril de 2011

O MENINO DE ANGICAL DO PIAUÍ


HORÁCIO LIMA

A angústia da pobreza aparece nos momentos de mendicância. É essa penúria e muito mais que circundam a vida de quem procura um meio de sobrevivência. Assim como a cana-de-açúcar é do usineiro e o boi é do fazendeiro, o cultivo do milho é um presente da natureza para o povo pobre, é um alimento básico da população de baixa renda, seja pela variedade de preparo ou por suas possibilidades alimentícias, digo eu, pelo que observei nas minhas andanças recentes no Piauí e Maranhão. A bordo de um ônibus da Viação Transbrasiliana com destino a Teresina pude observar ao do longo percurso até chegar à capital o plantio do milho. Ao chegar ao perímetro urbano de Angical do Piauí, e contando com a solidariedade e amizade dos motoristas, as crianças adentraram no coletivo, vendendo as suas espigas de milho assado, fincadas nos espetos. Nesse coletivo um menino aproxidamente de oito anos vendeu todas as espigas de milho para os primeiros passageiros da ala de frente, e ainda sobrou passageiro com vontade de saborear a iguaria. Quando o ônibus estacionou, o menino saiu em disparada pelo acostamento, feliz da vida. Como o motorista percebeu a vontade de outros passageiros, deixou, mais adiante, outro menino da mesma idade adentrar no ônibus. A disputa pelo milho assado foi grande. Inclusive eu,  levantando da poltrona, dei um sinal de que queria provar daquele milho. O menino, ao se aproximar de mim, só tinha uma espiga de resto. Falei ao amiguinho: tem troco pra dez reais? O menino respondeu: tenho sim, seu moço. Ao abrir a sua porchete, vi que ela estava recheada de notas de um real. Fiquei feliz por ter saciado a minha vontade de comer milho verde assado, enquanto o menino de Angical ficou feliz também por ter alcançado o seu êxito em um dia de glória. Assim, ele saiu correndo pelo acostamento, com um sorriso largo no seu rosto frágil, retornando para Angical, para executar mais uma tarefa do seu dia a dia.

sábado, 9 de abril de 2011

AS IDEIAS NO TEMPO


JOSÉ RIBAMAR GARCIA
“AS IDEIAS NO TEMPO” é o mais novo livro de Cunha e Silva Filho, que a Academia Piauiense de Letras, cumprindo um de seus relevantes projetos, teve a feliz inspiração de editar em convênio com o Senado Federal. Assim, mais uma vez, prestou inestimável serviço ao Piauí e à cultura nacional, porque consolidou no papel o que o vento do tempo poderia diluí-lo. Fez como bem reparou o escritor H. Pereira da Silva, em sua obra “ À luz da estante”: “Reunir artigos publicados, dar-lhes existência não efêmera tem sido, através dos tempos, uma constante manifestação literária válida, quando menos, pelo propósito de seus autores. Valerá, porém, a pena esse esforço de reanimar papéis amarelecidos, engavetados, esquecidos após curta repercussão em jornais, alguns extintos, outros alijados que chamamos grande imprensa?” A APL, com certeza, mostrou que vale a pena, ao contribuir para a realização desse esforço.

AS IDEIAS NO TEMPO, constituído de crônicas, artigos, resenhas e ensaios, foi dividido em quatro partes e prefaciado por esse incansável e imbatível M. Paulo Nunes - outro Mestre da Literatura brasileira. Na primeira parte, estão as recordações e reminiscências do autor, que vão da sua paixão à Teresina ao amor paterno, cujo pai, Cunha e Silva, foi um dos mais profícuos jornalistas políticos do País. Professor de História que fez História no Piauí, não só pela combatividade quanto pelo senso de justiça. São crônicas telúricas, líricas e outras comoventes, como as “A Ausência Presente“, “Um ano sem Cunha e Silva”, “Três Encontros com Meu Pai” e “Sem Lágrimas”. Esta, sobre o irmão caçula, precocemente falecido. Das mais belas páginas já escritas em língua portuguesa, tal a intensidade de sentimento – de sinceridade e dramaticidade:

“Nunca nos conhecemos no rigor do termo. Os anos e a separação tramaram o desencontro de dois irmãos de gerações diferentes. Onze anos nos separavam na idade: Não foi talvez a timidez de quem assina estas linhas o culpado do silêncio entre nós? Ninguém nunca vai saber ao certo. Não seria porque teríamos uma vida toda para o dia do encontro de irmãos? Fomos estranhos, no entanto. Como dói constatar isso. Onde ficou, porém, o amor fraterno? No tempo? No espaço? Ou no silêncio involuntário que nos uniu no desencontro?.” E mais adiante:

“Na idade adulta, nos vimos pouca vezes. Até poderia contar nos dedos. Mal distingo a sua voz, mas era um tom de voz delicado e leve. Você sabe, meu irmão, meu Totó, que nunca, quando adultos ambos, nos abraçamos como deveríamos tê-lo feito nem nunca trocamos ósculos mútuos? Quantos palavras, abraços e beijos perdidos!”

Textos que, pela força da narrativa, deixam o leitor de coração palpitante e com os olhos marejados de lágrimas.

Na segunda parte, há os estudos sobre alguns autores piauienses, nos quais, gentilmente, fui inserido. Na terceira, constam três minuciosos ensaios sobre Machado de Assis, Graça Aranha e Carlos Drumond de Andrade. Aqui, o autor descreve, com detalhes e coragem, o rompimento do escritor maranhense com o academicismo e, em especial, com a Academia Brasileira de Letras. E na quarta, a que deu o título de “Miscelânea”, vem um conjunto de crônicas, de conotação filosófica, social e política, inclusive a “Três Encontros com Meu Pai”, que, ao meu ver, poderia ter sido incluída na Primeira Parte. São trabalhos que refletem a visão do autor sobre alguns fatos e situações da atualidade.

No entanto, deve-se ressaltar que o livro, no seu todo, mantém uma unidade, de conformidade com o próprio título – “As Idéias nos Tempo”-, apesar da variedade temática, que, ao contrário, só o enriquece e lhe dá densidade.

Conheço Cunha e Silva Filho e sua família. Dona Elza, a esposa dedicada e mãe extremosa, de simplicidade invulgar que simboliza a pureza, e os filhos maravilhosos Alexandre e Francisco. Este também advogado brilhante e jurista de primeira linha.
Tivemos uma caminhada parecida. O que me basta e me honra por pertencer ao seu círculo de amizade. Ele, o professor universitário, Mestre e Doutor em Letras, dos mais preparados e competentes críticos literário do País, com várias obras publicadas.

Em suma, AS IDEIAS NO TEMPO é um belo livro. Parabéns Cunha e Silva Filho.

José Ribamar Garcia
- advogado e escritor -

sexta-feira, 8 de abril de 2011

ONDE FICA A CASA GRANDE DA PARNAÍBA?

Charge: Gervásio Castro


ALCENOR CANDEIRA FILHO

a memória é fraca e tênue como o corpo;
o que reluz d'outrora agora, muito pouco...
A voz d'antanho tange numa voz de morto...
O poema é faca de ponta que escava em vão.
A lua, no entretanto, que no céu circula,
é a mesma d'outrora e na lâmina tremula.
(MEMORIAL DA CIDADE AMIGA – A. C. F.)

I. INTRODUÇÃO
Onde fica a Casa Grande da Parnaíba? Que edifício corresponde a ela?
Não, não se trata de brincadeira ou pegadinha. A indagação é pertinente porque as
respostas ou esclarecimentos sobre o assunto são tão conflitantes que saí das minhas pesquisas
de fim de semana cheio de dúvidas.
O leitor, portanto, deve cessar agora a leitura se imaginar que darei a resposta.
Em verdade, pretendo apenas mostrar e demonstrar como os livros, revistas, jornais
e documentos por mim (re)lidos recentemente tratam do tema de forma contraditória.
A confusão começa com a variedade de denominações usadas para designar o
sobrado construído em duas etapas, entre 1758/1770, para servir de residência de Domingos
Dias da Silva: Casa Grande da Parnaíba, Solar dos Dias da Silva, Casarão de Simplício Dias,
Casarão dos Dias da Silva, Solar Casa Grande.
A pergunta – qual o sobrado que representa a Casa Grande da Parnaíba? - vem
sendo respondida pelos pesquisadores e historiadores de três maneiras:
1ª) é o edifício voltado para a Rua Grande, atual Avenida Presidente Vargas, com as
linhas arquitetônicas razoavelmente preservadas;
2ª) é o edifício descaracterizado nas linhas arquitetônicas e situado na Rua
Monsenhor Joaquim Lopes (antiga Rua da Glória), próximo da Igreja de Nossa Senhora da
Graça;
3ª) é o conjunto dos dois edifícios, funcionando o da Avenida Presidente Vargas
como dependência ou anexo da Casa Grande.

II. OPINIÕES VAGAS E/OU CONTRADITÓRIAS
Existem autores que não primam pela clareza ao opinarem sobre o assunto e até os
que caem em contradição, como se observa nos seguintes exemplos:
Em 1884, de passagem na cidade da Parnaíba, visitamos a
casa solarenga de Simplício Dias da Silva, um vasto prédio de sobrado,
situado na Rua Grande, com comunicação interna para a Igreja Matriz
(F. A. Pereira da Costa – CRONOLOGIA HISTÓRICA DOS
ESTADO DO PIAUÍ, p 225/226)
Data desta época o esplêndido nicho, trabalho português,
em pedra de Dioz, colocado na quina da Casa Grande (…)
Próxima à Casa Grande erguia-se a Igreja Matriz,
construída pelos Dias da Silva e a ela ligada por uma galeria.
(BRANCO, Renato Castelo. TOMEI UM ITA NO NORTE.
São Paulo, L. R. Editores Ltda., 1981, pág. 24)
Os dois renomados escritores reportam-se à Casa Grande como sendo o prédio
localizado na Rua Grande (Avenida Presidente Vargas), ao tempo em que ressaltam a
comunicação interna entre ele e a Igreja de Nossa Senhora da Graça, situação difícil de ser
concebida, se se considerar o fato de que entre o prédio da Rua Grande e a Igreja existe o
sobrado da Rua Monsenhor Joaquim Lopes.
Sem referir-se ao nome da rua em que está situado, Carlos Eugênio Porto fornece
uma só pista a respeito do prédio famoso – a ligação interna entre ele e a Igreja:
Simplício Dias (…) era dado a extravagâncias asiáticas
como a construção daquela galeria ligando a Igreja ao palácio, a
respeito do qual se teciam lendas maravilhosas. (PORTO, Carlos
Eugênio. ROTEIRO DO PIAUÍ. Rio de Janeiro, Editora Artenova S. A.,
1974, p.76).

III. TRÊS INDICAÇÕES SOBRE A LOCALIZAÇÃO DA CASA GRANDE
Voltemos às três propostas de esclarecimento sobre qual é exatamente o sobrado
que representa a Casa Grande da Parnaíba.
De modo objetivo vejamos transcrições e comentários que abonam cada hipótese:
1ª HIPÓTESE: Casa Grande = sobrado da Avenida Presidente Vargas.
Este é o entendimento que prevalece no Instituto Histórico, Geográfico e
Genealógico de Parnaíba – IHGGP e no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
– IPHAN.
No âmbito do IHGGP posso citar como defensores da ideia de que a Casa Grande é
representada pelo sobrado da Avenida Presidente Vargas: Mário Pires Santana, Reginaldo
Pereira do N. Júnior, Régis de Athayde Couto, Sólima Genuína, Vicente de Paula Araújo
Silva, Dederot Mavignier, Renato Neves Marques e outros.
Coincidentemente esse grupo de intelectuais do IHGGP é o mesmo que vem
liderando o movimento que defende a ideia de se comemorar 300 ANOS DE HISTÓRIA DA
PARNAÍBA, correspondente ao período de 11-06-1711 a 11-06-2011, com base na criação,
fundação ou instalação da denominada e imaginária Vila Nova de Parnaíba, que nunca
existiu, pois é uma ficção do baiano dono de sesmarias – Pedro Leal Barbosa – , inexistindo
qualquer documento, ato ou lavratura oficial a respeito, e simplesmente trecho corroído pelo
tempo, com palavras ilegíveis, de mero traslado de carta, dirigida ao Bispo do Maranhão,
autoridade eclesiástica não competente, pois o território do Piauí estava ainda subordinado à
Diocese de Pernambuco, o que torna o “documento nulo de pleno direito. No mencionado
traslado de carta, de junho de 1711, é feito pedido de autorização para construção de Igreja ou
Capela não construída.
É importante salientar que há uma evidente confusão entre história administrativa
(vila) e história eclesiástica (freguesia ou paróquia), pois a data da carta, se realmente histórica
e verdadeira, pertence à Diocese de Parnaíba, que já possui e consagra 8 de setembro como
sua data magna , e não teria como abrigar outra data, no caso 11 de junho, a qual já pertence à
Marinha do Brasil.
Na mesma linha de pensamento do IHGGP, no que diz respeito à Casa Grande,
posiciona-se o IPHAN, como se verifica no livro CONJUNTO HISTÓRICO E
PAISAGÍSTICO DE PARNAÍBA (Teresina: Superintendência do IPHAN no Piauí, 2010, p.
50):
Outra edificação de destaque, talvez a mais importante
delas, é a antiga Casa Grande, ou Casa de Simplício Dias, como é
atualmente conhecida (…).
Apesar de bastante modificada no pavimento térreo, o
casarão ainda conserva praticamente intactos elementos
característicos nos dois pavimentos superiores (…). Outro elemento
interessante é o pequeno nicho aplicado ao cunhal.
O texto acima é seguido de duas fotografias da Casa Grande, com esta legenda:
Vista da Casa de Simplício Dias, antiga Casa Grande, a
partir da Av. Presidente Vargas e do terraço do Hotel Delta.”
2ª HIPÓTESE: Casa Grande = sobrado da Rua Monsenhor Joaquim Lopes.
Aqui a opinião predominante na Academia Parnaibana de Letras – APAL, que vem
lutando desde a sua fundação em 1983 pela conservação e restauração da Casa Grande e do
Palacete Vista Alegre.
A partir de 1985, a Academia recebeu e expediu diversos documentos (ofícios,
memoriais, cartas, relatórios) que tratam do assunto em tese.
Em fevereiro de 1985, o então Secretário Geral do Ministério da Educação,
Coronel Sérgio Pasquali, enviou uma carta (01-02-1985) ao Secretário de Cultura, Desportos e
Turismo do Piauí, deputado Jesualdo Cavalcanti Barros, e outra destinada ao escritor
parnaibano e membro da APAL Renato Castelo Branco (15-02-1985), das quais transcrevo os
seguintes trechos:
Brasília, 01 de fevereiro de 1985.
Dep. Jesualdo:
(…)
Informo que o MEC, através do FNDE, está liberando 350
milhões de cruzeiros para reequipamento da Fundação Cultural do
Piauí e compra e restauração da Casa Grande de Simplício Dias, em
Parnaíba.
Brasília, 15 de fevereiro de 1985
Meu caro Renato:
(…)
É também grande minha satisfação informar-lhe que
estamos liberando para a Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo
do Piauí a importância de 200 milhões de cruzeiros para a aquisição e
restauração da Casa Grande de Simplício Dias (Parnaíba), atendendo
a uma antiga aspiração sua, e mais 150 milhões para reequipamento
da Fundação Cultural do Estado.
Em razão das correspondências assinadas pelo Coronel Sérgio Pasquali, a APAL
elaborou em 1985 um memorial dirigido ao Secretário de Cultura, Desportos e Turismo,
deputado Jesualdo Cavalcanti Barros, nos seguintes termos:
Senhor Secretário:
A Academia Parnaibana de Letras, por sua Diretoria infraassinada,
toma a liberdade de expor a V. Exª o seguinte:
(…)
4. Que a Casa Grande dos Dias da Silva, localizada ao lado
da também histórica Catedral de Nossa Senhora da Graça, na Rua
Monsenhor Joaquim Lopes, às proximidades da Avenida Presidente
Vargas, é, assim, o local ideal e oportuno para transformar-se no
Centro de Cultura de Parnaíba, em cujas dependências poderão ser
abrigados o museu da cidade, um auditório, a sede da APAL e
biblioteca pública.
(…)
7. Por oportuno, segue em anexo a atual proposta de venda
do mencionado imóvel. O novo preço, traduzido em moeda corrente,
está expresso também em ORTN's.
8. O nosso confrade Renato Castelo Branco assegurou aos
companheiros Alcenor Rodrigues Candeira Filho e Cândido de
Almeida Athayde que tem todas as condições para conseguir da
Fundação Roberto Marinho os valores necessários para fazer face às
despesas com restauração, adaptação e pintura da Casa Grande.
Em 11-03-1985, uma Comissão da APAL, integrada por Cândido de Almeida
Athayde, Salmon Noronha Lustosa Nogueira e Lauro Andrade Correia, apresentou ao
Presidente João Nonon de Moura Fontes Ibiapina relatório com dados e informações sobre a
Casa Grande. Eis parte do teor desse documento:
(…)
A visita ao local nos levou a confirmar a existência e
separação nítida de dois edifícios, a saber:
a) Sobrado da atual Rua Monsenhor Joaquim Lopes, nº
629, com 3 pavimentos, próximo à Catedral, identificado como CASA
GRANDE dos Dias da Silva, construído por Domingos Dias da Silva
em 1770, e que serviu também de residência de seu filho – Simplício
Dias da Silva. O sobrado foi reformado e conservado, certo que a
reforma principal foi empreendida pelo então proprietário Sr. Rodrigo
Ricardo Coimbra.
b) Sobrado de esquina da Avenida Presidente Vargas com a
Rua Monsenhor Joaquim Lopes, próximo ao anterior, mas mais distante
da Catedral, identificado como Sobrado Vista Alegre, construído pela
família Silva Henriques, representada por Manoel Antônio Silva
Henriques, sobrinho de Domingos Dias da Silva, e seu filho Domingo
Dias da Silva Henriques. O sobrado, além de residência da família
Silva Henriques, foi residência de José Francisco Miranda Osório,
casado, primeiras núpcias, com Angélica da Silva Henriques, filha de
Manoel Antônio da Silva Henriques.
Ambos os edifícios possuem 3 pavimentos, mas facilmente se
verifica que a Casa Grande tem altura superior a 1,50m mais que o
sobrado Vista Alegre.
(…)
Não temos dúvida, em poder reafirmar que a CASA
GRANDE é o sobrado colonial, contíguo à Catedral, com 3
pavimentos, construído em 1770, se constituindo no mais importante
patrimônio histórico-cultural da cidade.
Em 14-06-1986, novamente a Academia se dirige à Secretaria Estadual de Cultura,
Desportos e Turismo, agora com novo titular, o Secretário Monsenhor Solon Correia de
Aragão.
O documento entregue ao Secretário Solon praticamente reproduz o teor do ofício
anteriormente encaminhado à mesma Secretaria e é assinado por toda a Diretoria da APAL, a
saber: José de Anchieta M. de Oliveira (Presidente), Caio Passos (Secretário-Geral) Bernardo
Batista Leão (1º Secretário) Raimundo Fonseca Mendes (2º Secretário), Maria da Penha F. e
Silva (1º Tesoureira), José de Lima Couto (2º Tesoureiro), Raul Furtado Bacelar
(Bibliotecário).
Em ofício datado de 06-08-1987 e destinado ao Governador Alberto Tavares Silva,
a APAL insiste na questão do tombamento da Casa Grande dos Dias da Silva.
Desse ofício constituído de cinco folhas e assinado por Lauro Andrade Correia
como presidente da Academia e pelo secretário-geral Alcenor Rodrigues Candeira Filho,
destaco este trecho:
Que assim, esta Academia tem opinião firmada no sentido
de que a Casa Grande dos Dias da Silva, localizada ao lado da também
histórica Catedral de Nossa Senhora da Graça, na atual Rua
Monsenhor Joaquim Lopes, nº 629, nas proximidades da Avenida
Presidente Vargas, é o prédio de maior valor histórico de Parnaíba,
com três pavimentos e construído na segunda metade do século XVIII
por Domingos Dias da Silva, para sua residência.
Em 1997, a APAL encaminhou ao prefeito Antônio José de Moraes Souza Filho
dois memoriais. O primeiro focaliza três assuntos: Biblioteca Municipal, Museu da Cidade e
Arquivo Público Municipal; o outro trata do Sobrado Vista Alegre.
Em ambos os documentos a APAL insiste em distinguir a Casa Grande do Sobrado
Vista Alegre. Esses memoriais foram assinados praticamente por todos os acadêmicos
residentes em Parnaíba: Lauro Andrade Correia, Alcenor Rodrigues Candeira Filho, Carlos
Araken Correia Rodrigues, Edmée Rêgo Pires de Castro, Francisco Iweltman Vasconcelos
Mendes, Francisco Pereira da Silva Filho, Israel José Nunes Correia, José de Anchieta Mendes
de Oliveira, Renato Neves Marques, Rubem da Páscoa Freitas, Salmon Noronha Lustosa
Nogueira e Cândido de Almeida Athayde.
As acadêmicas e historiadoras Maria Luíza Mota e Maria da Penha Fonte e Silva
externam com muita clareza as suas convicções sobre o tema.
Do livro PARNAÍBA, MINHA TERRA, da Maria da Penha (Parnaíba, 1987),
transcrevo trechos das págs. 41 e 50:
Na Rua Monsenhor Joaquim Lopes, antiga Rua da Glória,
esquina com a Avenida Presidente Vargas fica situada a Casa Grande
da Parnaíba (…) com três pavimentos (…). É preciso não confundir. A
casa solarenga com frente para a Avenida Presidente Vargas é o
sobrado Vista Alegre e não faz parte do histórico sobrado dos Dias da
Silva, que é um só bloco com 06 janelas de sacada e uma porta larga e
é a mais alta. (p. 41)
O sobrado colonial Vista Alegre está situado na Avenida
Presidente Vargas, ao lado da suntuosa Casa Grande da Parnaíba.
O Vista Alegre ainda conserva autêntica a sua arquitetura; é
mais baixo e pertencia a Manoel Antônio da Silva Henriques, parente
bem próximo de Domingos Dias da Silva (…). A fachada do sobrado
Vista Alegre não foi reformada como a Casa Grande e conserva suas
características coloniais (p.50).
Por sua vez, Maria Luísa Mota declara nos livros de sua autoria JOSÉ
FRANCISCO DE MIRANDA OSÓRIO E SEUS DESCENDENTES (Editora Henriqueta
Galeno, Fortaleza, 1980, p. 60) e PARNAÍBA NO SÉCULO XX (Gráfica Aley, Fortaleza,
1994, p. 62):
Sobrado Colonial Vista Alegre, ao lado da suntuosa e
secular Casa Grande de Simplício Dias.
Aí morou Miranda Osório …
Na Avenida Presidente Vargas o bicentenário sobrado Vista
Alegre, que pertenceu à família Miranda Osório …
Cito finalmente como defensor dessa segunda corrente de pensamento Cláudio
Bastos, em cuja gigantesca obra DICIONÁRIO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO
ESTADO DO PIAUÍ, produto de 32 anos de pesquisas, está escrito sobre os dois sobrados em
questão:
PARNAÍBA: Os prédios mais antigos são: Casa Grande da
Parnaíba – sobrado de 3 pavimentos, construído entre 1768/70, por
Domingos Dias da Silva para sua resistência. Fica na rua Monsenhor
Joaquim Lopes, 129, junto ao sobrado Vista Alegre, que tem frente a
antiga rua grande atual avenida Presidente Vargas (…). Sobrado Vista
Alegre – 1740. Era propriedade de Manuel Antônio da Silva Henriques.
Ao lado da Casa Grande. Esquina da Rua Grande (Av. Presidente
Vargas) com rua Monsenhor Joaquim Lopes. 3 andares. Nicho no 2º
andar, com a imagem de Nossa Senhora da Conceição (…)
(BASTOS, Cláudio. DICIONÁRIO HISTÓRICO E
GEOGRÁFICO DO ESTADO DO PIAUÍ. Teresina, Fundação Cultural
Monsenhor Chaves, 1994, p. 47).
3ª HIPÓTESE: Casa grande = o conjunto dos dois edifícios, sendo o da Av. Pres.
Vargas dependência ou anexo do outro.
Destaco como defensores do ponto de vista acima os intelectuais parnaíbanos
Orfila Lima dos Santos, Elita Araújo e José de Nicodemos Alves Ramos, como se constata nas
seguintes transcrições:
Outro marco foi o Solar Casa Grande, residência dos Dias
da Silva, localizado ao lado da igreja (…)
Raimundo foi assassinado aos trinta e nove anos, sendo que
no anexo do Solar Casa Grande, o edifício voltado para a atual
Avenida Presidente Vargas, na esquina, ainda temos o símbolo
instalado relacionado ao assassinato.
(PARNAÍBA E A NOSSA HISTÓRIA – trabalho de Orfila
Lima dos Santos encaminhado a APAL através da carta datada de 05-
11-1997).
Existe ainda um sobrado de aspecto bem antigo que está
carcomido pelo tempo, anexo à Casa Grande de Simplício Dias – Vista
Alegre, que pertenceu a Manoel Antônio da Silva Henriques, situado na
Presidente Vargas.
Alguns o consideram casarão; outros, não. Sua entrada
principal é para a referida avenida. É quase certo que esse sobrado
pertencia à Casa Grande.
(ARAÚJO, Maria Elita Santos de. PARNAÍBA: O ESPAÇO E
O TEMPO. Parnaíba. Gráfica Sient, 2002, págs. 52/53).
Aqui começou a construir o complexo arquitetônico da Casa
Grande, formado por dois edifícios contíguos, ambos com três andares:
o térreo, destinado ao comércio; e os outros dois, à família. Um virado
para a Rua Monsenhor Joaquim Lopes, atualmente bastante
descaracterizado. O outro voltado para a Rua Grande, que se encontra
destroçado, mas permanece com muitas de suas características, entre
elas um pequeno nicho para colocação de santo protetor.
(RAMOS, José de Nicodemos Alves. PARNAÍBA DE A a Z –
GUIA AFETIVO. Brasília. Multicultural Arte e Comunicação Ltda.,
pág. 78)

IV. CONCLUSÃO
Mais importante do que discutir sobre qual prédio representa verdadeiramente a
Casa Grande – são as conquistas que estão sendo alcançadas no presente, com o tombamento
do centro histórico e paisagístico de Parnaíba e com o início e andamento das obras de
recuperação do sobrado voltado para a Avenida Presidente Vargas.
Com a conclusão da obra, resta saber o que será instalado no prédio reformado:
Museu da Parnaíba? Biblioteca Municipal? Centro Cultural? Arquivo Público Municipal?
Eis aí um assunto pelo qual os parnaibanos devemos nos interessar.
Para facilitar a decisão sobre o uso do edifício em restauração pelo IPHAN na
Avenida Presidente Vargas, lembro que a Esplanada da Ferrovia tem ao seu derredor a
Secretaria Municipal de Educação, A Secretaria Municipal de Cultura, A Secretaria Municipal
de Turismo, O Centro de Eventos Mandu Ladino, o Museu do Trem e a Faculdade de Direito
da UESPI, e para a Esplanada da antiga Estrada de Ferro Central do Piauí estão projetadas
duas obras básicas para a nossa cidade: Biblioteca Pública Municipal, moderna, com
capacidade para 50.000 livros; Arquivo Público Municipal, moderno, com ar condicionado
para a conservação dos documentos e papéis antigos, desgastados pelo tempo.
Lembro finalmente que Parnaíba – Cidade Polo, Rainha do Delta e Cidade
Universitária, com mais de 145.000 habitantes, dos quais 10.000 universitários, não conta
ainda com seu Museu Municipal.
Parnaíba, abril de 2011.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

ELMAR CARVALHO


XVIII

Os amantes comiam objetos
e se comiam entre gestos
obscenos em que se perdiam.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


6 de abril

FANTASMAS E LADRÕES À LUZ DO DIA

Elmar Carvalho

Após cerca de um ano, retornamos ao velho fórum da Comarca de Regeneração, encerrados os serviços de reforma. Na parte da instalação elétrica, um dos interruptores, quando acionado, não desliga a luz, o que parece encerrar algum mistério ou algum erro na execução da rede interna. Por outro lado, disse-me a Lúcia, secretária da Comarca, pessoa séria, discreta, zelosa e dedicada ao trabalho, que por duas vezes observou que o split, embora ela tenha certeza de que o desligou, após o término das audiências, voltou a funcionar, sem ser acionado por mão humana, ao menos deste mundo. Contei o fato ao engenheiro, e um tanto por chiste, disse-lhe temer fosse obra de algum fantasma brincalhão. Ele me respondeu que a ocorrência deveria ser melhor investigada. A comarca, em sua primeira fase, remonta a mais de século. Daí ser possível que o espectro de um velho magistrado ou de um zeloso serventuário possa ter se ressentido do calor e tenha religado o aparelho de ar condicionado, para mais confortavelmente executar invisível trabalho, já que não se nota aumento na produtividade.

Sei que a Inglaterra é famosa também por causa de seus fantasmas, e que todo vetusto palácio ou castelo que se preze tem os seus habitantes imateriais, que abrem e fecham janelas e portas; que ligam e desligam luzes e torneiras, e existem até os que arrastam correntes por entre ais doloridos. Alguns escritores povoaram seus contos, poemas e romances com personagens vindos do outro mundo. No momento em que eu tratava desse assunto, um servidor municipal, o professor Eudo, contou que em certa casa da cidade um dos moradores ouviu um casal de fantasmas a conversar. O masculino perguntou à mulher se ela não queria tomar banho, tendo ela respondido que não, pois estava com frio. O fantasma/marido, então, retrucou:
Pois eu vou tomar, pois onde nós estamos faz muito calor!
Logo em seguida, ouviu-se o barulho de água no banheiro. Não se soube ao certo onde o casal estaria, no outro lado do enigma, se no inferno, ou se no purgatório.

O que mais me causou espécie foi o fato de que a suposta atividade espiritual teria acontecido durante o dia. Esses fenômenos, historicamente, sempre acontecem à noite, que é mais propícia ao mistério, ao que é escondido, ao que não deve ser revelado. Ao que parece, já não se fazem mais fantasmas como antigamente, assim como também os gatunos parecem ter mudado os seus hábitos. Outrora, os ladrões pareciam ter vergonha de sua “profissão”, e só atuavam à noite, às ocultas ou à socapa. Eram verdadeiros artistas, senão mesmo ilusionistas, a fazer desaparecer objetos dos bolsos dos outros, e trazê-los para suas próprias algibeiras. Eram hábeis em escalar muros, em esquivar-se de cães ferozes e em driblar as armadilhas dos vigias. Hoje, perplexo, vejo que os fantasmas exercem suas atividades à luz do dia e que os bandidos nos assaltam em pleno meio-dia, à vista de todo mundo, como se sua ação fosse um espetáculo, que devesse ser filmado e observado por todos os circunstantes.

terça-feira, 5 de abril de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

William Palha Dias, aos 90 anos, ladeado por Oton Lustosa, Herculano Moraes e Celso Barros Coelho


5 de abril

VISITA A UM LUTADOR OBSTINADO

Elmar Carvalho

No sábado passado, após a reunião ordinária da APL, um grupo de acadêmicos foi visitar o confrade William Palha Dias, que já não frequenta o sodalício por causa de doença. Além deste diarista, faziam parte da comitiva o nosso presidente Reginaldo Miranda, Manoel Paulo Nunes e Manfredi Mendes de Cerqueira. Um pouco depois, chegou o professor José Júlio Martins Vieira, filho do grande poeta Júlio Antônio Martins Vieira, autor do célebre livro Canto da Terra Mártire, que é uma espécie de épico do calcinado sertão, de nossa agreste e adusta caatinga. Quando fui titular da Comarca de Ribeiro Gonçalves tive a satisfação de sugerir o nome do bardo, que ali havia sido juiz, ao Tribunal de Justiça do Piauí para designar o fórum da remota localidade, em que também foi magistrado o mestre do conto, Fontes Ibiapina, autor de Cidade sem Reboco, que conheci em Parnaíba, onde ele exerceu a magistratura; conheci-lhe também a vasta biblioteca, instalada num sobrado da rua Pedro II. A sugestão caiu em terreno fértil, porque o desembargador Osíris Neves de Melo, então corregedor-geral da Justiça, tinha admiração pelo poeta e apreço pelo seu filho, de modo que foi aprovada por unanimidade. O confrade Humberto Guimarães é filho daquele município, que já foi maior do que o estado de Sergipe, e escreveu a saga de sua gente, entre as quais a obra Um Município do Tamanho do Mundo. Dessa forma, três acadêmicos fomos juízes nesse rincão: Martins Vieira, Fontes Ibiapina e este escriba. O nosso Palha Dias, embora seja filho de Caracol, tem vários parentes em Ribeiro Gonçalves, tendo sido seu nome dado à biblioteca da Fundação Leôncio Medeiros, criada e dirigida pelo amigo Adovaldo Medeiros.


Há mais de duas décadas conheço o escritor Palha Dias, pois desde o início dos anos 1980 passei a frequentar a APL, quando era seu presidente A. Tito Filho. Fui à grandiosa festa de seus oitenta anos de vida. Hoje, ele ultrapassou os noventa. Muitas vezes lhe ouvi a palestra alegre, lhe testemunhei a verve jocosa ao sabor do improviso, e o vasto repertório de casos anedóticos, em que era mestre insuperável. Por ocasião da publicação de seu livro Memorial de um Lutador Obstinado, escrevi um pequeno artigo em que lhe reconheci os méritos de um homem que soube conquistar o seu lugar ao sol, e as suas virtudes de contador de histórias interessantes, sejam verdadeiras ou fictícias. Sua esposa, a professora e escritora Maria das Graças, disse-me que ele é visitado diariamente pelos filhos, o que revela a estima e respeito que eles lhe dedicam. O professor Paulo Nunes, regenerense ilustre, e o Reginaldo Miranda, que se fez regenerense por título de cidadania e por ter se casado com regenerense, lembraram que três juízes da velha Comarca haviam ingressado na Academia Piauiense, no caso, os contistas e romancistas Palha Dias e Oton Lustosa, e este diarista e poeta. Aproveitando o momento evocativo e saudosista, o autor de Geração Perdida, que não tem nada de perdida, porquanto deu filhos brilhantes ao Piauí, entre os quais ele próprio, perguntou-me se eu já fora conhecer as nascentes do Mulato. Respondi-lhe que sim, e que me batizara a mim mesmo, usando uma providencial cuia que levara, ao descer as suas íngremes barrancas, em lembrança dos índios trucidados.

Para coroar a visita e a evocação da Vila de São Gonçalo da Regeneração, e seguindo as pegadas do anfitrião, que era, como já disse, um exímio contador de casos anedóticos, o professor Manoel Paulo Nunes, dando-lhe um cunho de quase tertúlia literária, narrou um caso engraçado, com que encerrarei este registro. Mais de meio século atrás, fazer uma viagem, mesmo de carro, de Regeneração a Teresina era quase uma aventura, em virtude das ladeiras, dos areais, dos atoleiros e outros percalços. Na década de 40 e 50 do século passado, poucos regenerenses viajavam a Teresina. Entre esses poucos aventureiros, José Moraes viajou à capital, para resolver algum assunto de seu interesse pessoal, e terminou demorando por cerca de seis meses, o que não era comum na época, a não ser em se tratando de estudantes, que ficavam durante todo o período letivo, só retornando nas férias. Era José Moraes um operoso operário, um homem de sete instrumentos, como se dizia então, ou um polivalente, como se diz hoje. Exercia várias profissões, não sei se todas com a mesma competência, ou se existia alguma de sua especial predileção, de seu mais perfeito domínio. Vendo os costumes e as fatiotas da capital, quando retornou a Regeneração passou a envergar um indefectível terno de linho branco, a combinar com os sapatos igualmente brancos. Depois de algum tempo, começou a relaxar no uso da indumentária, e já nem sempre andava imaculadamente em alvas vestes. Perguntado sobre o motivo do aparente desleixo, respondeu de plano:
O meio não “compite” meu esforço!
Naturalmente, queria dizer que a sua luta em dar bom exemplo no trajar, como um novo árbitro da elegância, não estava tendo seguidores. Demos, todos, forte gargalhada, e encerramos a visita ao mestre Palha Dias.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

CONTRASTES DA ALMA


ALCIONE PESSOA LIMA

A elevação da alma traz-me à inquietude dos meus desejos.
E vêm paixões que gelam o coração,
Que me obrigam a escondê-las.

A liberdade mostra-me o meu orgulho dissimulado.
O individualismo é quase que natural, e não me deixa escancarar...

Há preferências por encastelar-me na minha solidão.
Sinto, assim, a vida tão estreita.
Parece que me esqueci do mundo.

Há um deslumbramento pelo ouro que reluz...
E crescem ódios particulares a tantos inimigos...
Daí não conseguir ver seus encantos irresistíveis.

Há, assim, um contraste com o meu coração benevolente.
É preciso perceber que sou gente, apenas um ponto nessa imensidão.

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


A VELA DE ESTEARINA

Elmar Carvalho

Lúcia saiu de sua pequena casa de palha. Deu uma volta ao seu redor, como se procurasse alguma coisa ou alguém na noite fechada, em que quase nada se via. As estrelas brilhavam intensamente no céu sem nuvens. Era quase meia-noite. A mulher entrou na casa novamente e logo saiu com uma vela de estearina acesa. Sem vacilar, jogou-a em cima do teto de palha. Rapidamente o fogo se alastrou por toda casa. Lúcia não ouviu os gritos das duas crianças, uma de cinco meses, outra de ano e meio, aproximadamente, porque saiu em desabalada carreira, pelo caminho estreito.

Só foi parar na casa mais próxima, que ficava a trezentos metros. Gritou com quanta força tinha:
– Raimundo, Josefa, acudam, acudam, pelo amor de Deus! Minha casa pegou fogo...
Com o alarido, o casal e seus filhos logo acordaram e foram ver o que acontecera, no intuito de prestarem ajuda. Nada mais havia a fazer. O casebre fora consumido pelo fogo, exceto alguns esteios e mourões; as duas criança estavam mortas, com o corpo carbonizado. Lúcia estendeu-se no chão, no terreiro do que fora sua casa, com as duas mãos a cobrir o rosto, a se perguntar sobre o que iria fazer. Depois de muita insistência, seguia com os vizinhos para pernoitar na casa deles.

Ao amanhecer, Raimundo, de bicicleta, foi à cidadezinha de Ingazeira, onde comunicou o fato ao Delegado de Polícia. Este disse que ia investigar o caso, para saber se o incêndio fora de origem criminosa, ou se fora apenas uma triste fatalidade. Dinâmico e cumpridor de seus deveres, tratou logo de tomar o depoimento de Raimundo. Ficou sabendo da situação sócio-econômica de Lúcia, que era de miséria quase absoluta. Tomou conhecimento de que o marido lhe deixara há um ano, ficando ela com um filho pequeno e outro na barriga. Deixou pouca coisa no paiol, produto de sua roça de subsistência; alguns sacos de arroz (ainda na casca, que a mulher tinha que descascar no pilão de madeira), feijão, milho, jerimum, mandioca. De modo que, após alguns meses, ela teve que ser ajudada pelos vizinhos, parentes e irmãos, que moravam no entorno, num raio de até dois quilômetros de distância, sobretudo durante a época do parto e do resguardo.

No início, Zé Doca, o marido de Lúcia, ainda lhe mandava alguma pequena quantia, de São Paulo, onde fora a pretexto de trabalhar, através de vale postal. Depois, as remessas foram escasseando, até cessarem de todo. Tiveram a notícia, por intermédio de um amigo de Zé Doca, que viera de férias, de que ele se amigara com uma mulher divorciada, e que sustentava os três filhos dela. Tudo isso Raimundo contou ao delegado, acrescentando que Lúcia tivera notícia da amigação do marido, e ficara muito triste com esse fato. A autoridade policial ouviu as pessoas referidas pelo depoente e outras do relacionamento de Lúcia. Visitou a tapera queimada. Tirou fotografias; recolheu objetos; fez medições e providenciou os autos e as perícias de praxe. Viu uma candeia, estragada pelo fogo, a meio metro de onde fora a parede da camarinha, onde dormiam as crianças e a mãe. Estranhou a pequena vela caída no meio de uma dependência, que servia de sala, onde eram guardados os poucos e pobres móveis e utensílios da casa.

Na sua linha investigativa, imaginou que a mulher, em desespero, pela miséria e pelo abandono do marido, deprimida certamente, jogara a vela, supondo que ela seria consumida totalmente pelo fogo, e não deixaria vestígio. Contudo, logo que a palha do teto começou a pegar fogo, a vela caiu no meio da saleta, tendo a chama sido extinta pela queda, e não sendo alcançada nem pelas labaredas das paredes e nem pelas do teto, ficando no meio da sala como um forte indício do ato de desespero de uma mulher enlouquecida pelo sofrimento. Quando interrogada, Lúcia negou com veemência haver feito isso, e disse não usar velas, que eram caras; que preferia usar a candeia a azeite de babaçu, que ela mesma produzia. Acrescentou que o incêndio poderia ter sido ateado por algum inimigo desconhecido seu ou de seu marido. Falou com firmeza, com convicção, como se realmente acreditasse no que dizia. O delegado, embora não tenha encontrado nenhuma outra vela no local do incêndio, não se convenceu da justificativa, mas não teve elementos para pedir sua prisão preventiva.

Poucos dias depois, foi procurado novamente por Raimundo. O caboclo lhe viera trazer a notícia de que Lúcia se enforcara num dos galhos do pau-d'arco, que existia no terreiro da tapera queimada. A autoridade foi constatar o fato. Lá, viu o cadáver pendente de uma corda de tucum. O ipê amarelo, no glorioso apogeu de sua floração, despira-se de todas as suas folhas, para ostentar apenas as suas belas flores, que pendiam como soberbos lustres. O delegado, ao ver a árvore, embalada ao açoite do vento, derramar as suas flores de ouro sobre o corpo da enforcada, teve a plena certeza de que fora ela que ateara o incêndio.

domingo, 3 de abril de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS


CIÚME E INVEJA

Elmar Carvalho

O ciumento sente medo de perder a pessoa da qual se sente proprietário, e sobre a qual gostaria de exercer domínio exclusivo. Já o invejoso sofre por não ter as qualidades e os dons que tanto admira em outra pessoa, sem nunca lhe aplaudir e sem lhe revelar, jamais, essa admiração exacerbada e doentia. É uma paixão triste, como disse alguém. O velho amigo, sempre involuindo, atingiu o apogeu de sua miséria quando passou a ressentir-se mais do sucesso alheio do que de seus próprios fracassos e derrotas.

sábado, 2 de abril de 2011

OS ÁRABES: A CAMINHO DA LIBERDADE

CUNHA E SILVA FILHO


Um mundo conturbado em vários flancos: violência urbana e, por vezes, no campo, corrupção em vários níveis da sociedade e das instituições públicas, tsunamis e terremotos e ameaça da radiação nuclear de grandes proporções a partir do Japão, crimes motivados por razões torpes ou banais, crises econômicas pipocando aqui e ali em nações européias, enfim, o quadro que se nos apresenta nada é animador. Muito ao contrário. 
Entretanto, se não é uma notícia de causar inveja, é pelo menos um sintoma animador embora concretizando-se em meio a lutas sangrentas entre filhos da mesma nação.
O fato é que os povos árabes, depois de um longo período de agressões à cidadania, ao direito de expressão individual, à liberdade plena de pensamento e a toda sorte de repressão a reivindicações contra as vilanias do poder autoritário, usurpador, fascista em vários países árabes, parece ter seus dias contados.
Os primeiros sinais partiram do Egito dominado por Mubarack, primeira mudanças para um novo fase de cidadania de um povo. Observe-se que aquelas velhas palavras tantas vezes ouvidas de ouvidas em manifestações ocidentais “um povo unido jamais será vencido” não deixam de ter sua atualidade neste contexto do mundo árabe.As manifestações em ruas de milhares de opositores aos regimes discricionários ou teocráticos mostram que têm peso e voz e são realizadas com coragem, porque enfrentam o fogo policialesco a serviço dos ditadores. Sempre eles com a mesma mise-en-scène, as mesmas características de “baixar o pau” nos costados de indefesos manifestantes. A única diferença entre eles e outros assemelhados em todo o Planeta é a língua, já que matar, esfolar, machucar não necessitam de entendimento, quando o que vale mesmo é o poder do gás lacrimogêneo, do gás de pimenta, dos tiros pra matar inocentes. São meros atos de barbárie, sem razão, nem raciocínio,nem diálogo, no quais os meios justificam os fins. São farinha do mesmo saco impondo determinações do poder que se alimenta da força das armas - único combustível do Estado assassino e covarde.
Vivemos a primeira década do século atual e por isso, com tanta avanço científico feito pro bem e pro mal, tendo o mundo passado, num mesmo século, por duas guerras mundiais – dois grandes inimigos da humanidade, portanto - , e com um avanço nos estudos do Direito, das Ciências Políticas e do aperfeiçoamento das instituições democráticos em muitas países, ou seja, com inúmeros paradigmas que bem poderiam servir de espelho a nações autoritárias, ainda infelizmente estamos atravessando uma onda de uso indiscriminado da força contra a liberdade dos povos.
Não é mais possível que o autoritarismo, os regimes de força ainda persistam em submeter nações aos seus desígnios e prepotências, como se fossem donas da vontade e da liberdade por algum direito divino ou dádivas dos deuses com pé de barro.
No quadro geral do mundo árabe, povos, cansados da opressão e da “servidão humana”, têm manifestado, ainda que com perdas de vidas, a convicção de que vão se cercar de todas as formas possíveis contra opressores na Síria, no Iêmen, no Bahrein, na Jordânia, entre outros povos árabes A Líbia agora, está enfrentando os bombardeios em suas defesas bélicas, o seu espaço aéreo está isolado, sob a mira de caças franceses e ingleses, em obediência a determinações de órgãos de segurança internacional , tendo à frente a ONU e a OTAN e o apoio dos Estados Unidos, os quais se mostram algo tímidos diante deste conflito naquele país de Kadafi que, até agora, não deu sinal de rendição ou de mesmo renunciar ao seu “reinado” de quatro décadas de mandonismo e truculência contra o povo líbio.
Suponho, com o andar da carruagem, que Kadafi dispõe de poucos trunfos nesse combate contra forças internacionais poderosas. Sua recusa de de deixar as delícias do poder o impedem de ver que o cerco está cada vez mais estreito para ele e nação há como capitular ou partir para uma negociação mais segura pra a sua integridade física. Nenhum homem da Terra pode se arrogar o direito de se perpetuar no poder. O fim dos tiranos não é fácil de se prever. A despeito das diferenças de costumes, de religiões, de tradições e visões que os árabes têm, eles, como nós ocidentais, somos seres humanos e, por conseguinte, indivíduos que anseiam pelo bem-estar de sua família e da sua sociedade. A democracia, extraordinária criação dos gregos (em Atenas precisamente) não é assim tão difícil de ser absorvida pelas nações. Conquanto naquela forma de governo possa haver de defeitos, ainda assim seria um caminho universal de entendimento melhor entre os povos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Elmar Carvalho no bate-papo de Entretextos

Caricatura: Netto

O escritor Elmar Carvalho é o convidado para o bate-papo de Entre-textos nesta sexta-feira, 1, a partir das 21 horas. Elmar conversará sobre a literatura que produz.
Para participar, acesse, no horário programado,  na página principal do site o link conversa de escritor.
Para quem não conhece ainda a obra de Elmar Carvalho:


AMAD’AMOR

ELMAR CARVALHO


Eu te amo.
Eu te (ch)amo.
Eu sou tua (ch)ama.
Eu te des’gosto.
Eu te ado(u)ro.
Eu te douro.
Eu sou teu (m)ouro/mourão.
Eu sou teu tes’ouro.

És minha ama’da.
És minha d’ama.
E neste jogo de (d)ama
o xeque-mate é um Pirro/pirrônico
em que o vencido é vencedor
e o escravo é senhor.

Somos um laço:
tu me (en)laças,
eu te (en)laço.
Somos um cadafalso
onde somos vítima,
carrasco e baraço.